28 de abril de 2017

Ruas antigas: o Atalho da Caldeiroa

Troço do Atalho da Caldeiroa

Hoje, o bairro de Couros está separado da rua Caldeiroa pela muralha de pedra que sustenta o aterro que suavizou a diferença de cotas entre o actual largo Bernardo Valentim Moreira de Sá e o Monte Cavalinho, onde está a estação do caminho-de-ferro, para rasgar a avenida do Comércio, a Avenida Nova, que hoje conhecemos por avenida D. Afonso Henriques. Nos dias que correm essa separação é ainda mais severa, por força do encerramento dos portões de ferro que dão acesso ao arco que se rasgou para dar passagem de Couros para a Caldeiroa. Até ao final do século XIX, essa separação não existia, persistindo, pelo contrário uma continuidade espacial que nos permite dizer que o bairro de Couros se prolongava até à Madroa. E lá estão, ainda, em vários locais, os pelames (tanques de curtimenta) a demonstrá-lo.

A ligação de Couros à Caldeiroa era assegurada por um caminho estreito, que seguia pela margem Norte do ribeiro, que ainda hoje existe. Começa nas Molianas (actual rua da Liberdade), atravessa a rua Caldeiroa, segue pela travessa da Caldeiroa e vai acabar quase ao chegar ao actual largo do Cidade, no ponto onde a rua de Couros converge com o rio. Na planta de 1863, o engenheio Almeida Ribeiro deu-lhe o nome de atalho da Caldeiroa.

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25 de abril de 2017

Ruas antigas, nomes novos

As Hortas (imagem do Google Maps)

Campo s.m., Lugar, terreiro ou praça, sem casas ou edifícios dentro ou junto de uma povoação.
Largo s.m, Espaço desimpedido numa povoação, mais amplo que nas ruas que nele desembocam, e menor, geralmente, que uma praça.
Parque, s.m., Terreno de certa extensão, murado ou vedado e onde se passeia ou caça.
Praça s. f. (do gr. plateia, pelo latim platea), Lugar público, grande largo, geralmente rodeado de edifícios, para embelezamento de uma cidade, vila, etc., e como meio higiénico para melhor circulação do ar e plantação de árvores.
Praceta s.f., Praça pequena; pequeno largo.
Rossio s.m., Lugar espaçoso; terreiro; praça larga.
Terreiro s.m., Praça ou largo dentro de uma povoação.
(Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado)

Neste 25 de Abril, o lugar que tem sido conhecido por Parque das Hortas será rebaptizado. Passará a ser o Largo da República Portuguesa. Esta alteração toponímica merece-me algumas reflexões.

Na monografia Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, que o padre Torcato Peixoto de Azevedo escreveu, em finais do século XVII, a presença da palavra 'largo' na toponímia vimaranense apenas se evidencia uma vez, no topónimo Monte Largo. Em Guimarães, para além de ruas e travessas, havia espaços que eram designados como praças (como a Praça Maior, a Praça do Peixe ou o Toural), terreiros (o da Misericórdia, por exemplo), campos (Campo da Feira) ou rossios (rossios da Tulha, da Alfândega, de S. Lázaro, etc). Nos tempos que correm, está instalada a pobreza terminológica. Tudo são largos: largo da Oliveira, largo do Toural. Até ao Campo da Feira, que é um campo, puseram o nome de largo da República do Brasil. Agora chegou a vez das Hortas, que ficam naquele lugar onde já foram as Hortas do Prior, depois, simplesmente, Hortas, e que recentemente passou a responder pelo nome de Parque das Hortas, sem se perceber bem se por ser sítio de passeio ou parque de estacionamento. A partir de agora, ali haverá largo. Mais um.

Uma outra reflexão vem a propósito do uso recorrente de mudar os nomes históricos das ruas e praças de Guimarães, substituindo-os por outros que vão ao sabor de modas mais ou menos repentinas e efémeras, inegavelmente respeitáveis, mas dificilmente compreensíveis em ruas e sítios que sempre tiveram nomes próprios. É assim que Guimarães tem um largo Condessa do Juncal. Podemos discutir se é um largo ou uma praça. Mas ninguém lhe discute o título. Quem seja a Condessa do Juncal, quase ninguém saberá. Mas não há ninguém que não conheça aquele sítio pelo nome: é a Feira do Pão. Ali ao pé, há um arruamento que tem o nome de um vimaranense ilustríssimo: Dr. Avelino Germano. Se alguém perguntar onde fica, é provável que não tenha resposta. Mas, se perguntar pela Tulha… O mesmo irá, certamente, acontecer com o novíssimo largo da República Portuguesa, que continuará a ser o lugar das Hortas, assim como o largo da República do Brasil, mais de um século após o seu rebaptismo, continua a ser o Campo da Feira. Já era tempo de começarmos a ponderar se fará sentido mudar os nomes históricos aos sítios, sabendo-se que os novos topónimos dificilmente entrarão em uso corrente.

Uma última cogitação. Li algures que a justificação para o novo nome das Hortas decorria de não haver na cidade Guimarães nenhuma rua, praça ou avenida que assinalasse o nome da República. Já houve uma rua da República, assim baptizada logo a seguir à queda da monarquia. Era a rua que até aí celebrava a rainha que elevou Guimarães a cidade. Em 1943, voltou a ser, oficialmente, rua da Rainha D. Maria II. Terá, então, ficado um vazio toponímico, que hoje se procura preencher. No entanto, não me parece que tal vazio existisse. Guimarães tem, há muito, uma Avenida da República. Fica nas Taipas. Alguém dirá que as Taipas não ficam na cidade de Guimarães. Pode ser verdade, mas isso depende do que se tem em mente quando se fala em 'cidade de Guimarães'. Cidade ou concelho? Faz falta que se faça doutrina sobre o assunto.

A Avenida da República, por ser uma artéria das Taipas, não cabe na cidade de Guimarães, mas parece que o património das Taipas cabe no roteiro Guimarães Cidade de Património, que ainda não vi, mas que anuncia incluir “51 pontos de interesse no concelho de Guimarães”. Em que ficámos?
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24 de abril de 2017

A quadratura do círculo


Imagem virtual do Toural, que acompanha a recente proposta de construção de um parque de estacionamento subterrâneo e de um túnel . 
Conta-se que o filósofo grego Anaxágoras de Clazómenas, mestre de Péricles, quando esteve preso, no início do segundo quartel do século V a. C., terá dedicado o tempo que passou na prisão a tentar resolver o problema da quadratura do círculo. Não consta que tenha encontrado a solução, até porque, quase no final do século XIX, Ferdinand Lindemann demonstrou a impossibilidade de solucionar este problema. Hoje, a expressão ‘quadratura do círculo’ é utilizada para designar algo que é impossível de fazer ou de construir.

Durante a discussão que se abriu em 2007 a propósito do anterior projecto de esventramento do Toural para a construção de um túnel e de um parque de estacionamento subterrâneo, um dos temas mais escalpelizados foi o das feridas que essas construções abririam à superfície da praça: as bocas do túnel e rampas de acesso ao parque para automóveis, os sistemas de ventilação, natural e mecânica, os acessos de peões, por escada e por ascensor. Na altura, houve uma discussão acessória, que andou bastante animada, acerca da impossibilidade de compatibilizar o parque subterrâneo projectado com árvores no Toural.

Para o problema da boca do túnel e das entradas e saídas de automóveis no parque, chegou a ser avançada neste blogue uma proposta de solução, que sabemos ter estado em cima da mesa dos decisores, que ia no sentido de se deslocarem esses acessos para bem antes da rua Paio Galvão. Para o mais, não havia solução que não fosse considerada excessivamente intrusiva, ficando claro que a instalação de túneis e parques subterrâneos sem implicar alterações relevantes à superfície era, como a solução da quadratura do círculo, uma impossibilidade. E o tal projecto morreu, de morte natural.

Era uma impossibilidade, escrevi. Parece que já não é.

A recente proposta da coligação Juntos por Guimarães para a construção de um túnel e de parques de estacionamento no Toural e no Campo da Feira projecta escavar túnel e parque subterrâneo “sem qualquer intervenção de natureza estética”, retirando o trânsito da praça, sem “mexer naquele que é o Toural que as pessoas hoje conhecem”.

Olha-se para a imagem com a representação virtual do que se projecta fazer e o que vemos corresponde ao que foi dito. A praça fica como está, apenas, com uma alteração no empedrado das vias de circulação de automóveis, que desaparecem, cumprindo-se a intenção de pedonalização radical. Lá estão as árvores, todas elas. E nada se acrescenta: nem escadas de entrada e saída de peões no parque, nem caixas de elevadores, nem vestígios de sistemas de ventilação, nem sequer umas simples grelhas de arejamento natural.

Está resolvido o problema da quadratura do círculo.

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23 de abril de 2017

Ruas antigas: Couros, Guardal, largo do Trovador

Troço da rua de Couros.
A rua de Couros tem início junto ao antigo terreiro de S. Francisco, que também se chamou praça de D. Afonso Henriques, por ter sido o primeiro lugar de implantação do monumento ao rei fundador, e que hoje conhecemos, simplesmente, como a Alameda. Termina quando chega à margem do rio que tem o mesmo nome. Percorrida de sul para norte, desdobra-se, a certo passo, na estreita rua do Guardal, a poente, em cujo cotovelo se recolhe a Ilha do Sabão, e no íngreme largo da rua de Couros, que se expande do lado do nascente.

Troço da rua do Guardal.
A origem do nome da rua de Couros não suscita quaisquer dúvidas: remete para a actividade artesanal e industrial em que se especializou, a curtimenta de peles e de couros. Aparece em documentos que datam, pelo menos, desde meados do século XIII, onde é referenciada como a rua que vai para o rio de Couros. Desde a idade Média que está mencionada a existência de pelames (palavra que tanto designa as oficinas dos curtidores, como os tanques em que se pelam as peles) na rua de Couros e em todo o espaço que margina o rio que, neste tracto do seu curso, tem o mesmo nome. Por ali não faltavam nem os tanques de paredes de granito, que se enchiam com água do rio de Couros, utilizados para curtir as peles, nem as atafonas, pequenos moinhos movidos pela correnteza da mesma água, usados para moer as cascas de carvalho ou de sobreiro, fontes de tanino, essencial para a curtimenta das peles.

E havia também os secadouros, onde as peles, depois de passarem por um processo de tratamento que implicava diversas imersões, eram postas a secar. Geralmente situavam-se em recintos fechados ou em construções de madeira que, de algum modo, faziam lembrar os espigueiros, embora de maiores dimensões. Mas também não faltavam peles a secar ao ar livre, penduradas em tendais, nomeadamente no largo da rua de Couros, que também se chamou do Pelourinho e que hoje responde pelo nome de largo do Trovador.

Vista parcial da Alameda, no início da década de 1920. Em primeiro plano, peles a secar no muro do largo do Trovador.
O pelourinho era um dos símbolos do poder municipal tendo, geralmente, a forma de uma coluna de pedra onde eram executadas as penas desonrosas e exemplares, impostas a condenados que nele eram amarrados e sujeitos a açoites ou à vergonha pública. Regra geral, era implantado na mesma praça pública onde se situava a casa da Câmara. Assim sucedia em Guimarães, onde o pelourinho se erguia na Praça Maior, a Oliveira, tal como aparece representado na planta do século XVI. Em data incerta, foi transferido para o largo da rua de Couros, que lhe tomou o nome, mantendo-o até ao dia 10 de Junho de 1880, data em que se assinalou, com grandes festas públicas, o terceiro centenário da morte de Luís de Camões. Nesse dia, foi proposto dar o nome do autor dos Lusíadas à rua Nova das Oliveiras. Na sessão solene da Câmara em que aquela proposta foi apresentada, o vereador António Joaquim de Melo propôs, por sugestão do padre António Caldas, seu cunhado, que o largo do Pelourinho se passasse a designar por largo do Trovador, em memória de Manuel Gonçalves, o primeiro português que terá composto trovas, ainda no tempo da fundação, mas de quem não se conhece qualquer verso, que, segundo a tradição, teria nascido ali mesmo, na rua de Couros.

Quanto à origem do nome da rua do Guardal, nada sabemos. Possivelmente, em tempos que já caíram no esquecimento, existiria por ali um horto, que é o que significa a palavra guardal.

À rua de Couros e aos espaços adjacentes, historicamente ligados à indústria da curtimenta das peles, já houve quem chamasse ilha, bairro, arrabalde ou burgo. É hoje moda chamar-lhe “zona” de Couros. Sobre designação tão inapropriada e infeliz, já aqui falámos.
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21 de abril de 2017

Ruas antigas: rua do Relho ou de Vila Flor

Rua do Relho (actual rua de Vila Flor).

A rua do Relho é a que desce, pelo lado do nascente, do actual largo Bernardo Valentim Moreira de Sá para Couros. Antigamente, era por ela que se chegava ao Palácio de Vila Flor. Depois da chegada do comboio, em 1884, até à abertura da Avenida do Comércio, actual D. Afonso Henriques, ficaria, durante vários anos, no principal caminho de acesso à estação do caminho-de-ferro, que atravessava o campo do Minhoto. Era tida como rua de pouca importância, ao ponto do Eng.º Almeida Ribeiro, ao delinear as suas propostas de melhoramentos urbanos encomendadas pela Câmara de Guimarães em 1863, ter sugerido que esta artéria fosse desprezada, rasgando-se uma nova com a mesma direcção, mais ampla e de traçado mais regular. Como facilmente percebe quem a atravessa hoje, o projecto de Almeida Ribeiro nunca foi concretizado.
Está longe de ser clara a origem do nome desta rua. Relho é o nome que se dava a diversos tipos de fivelas; também aparece na expressão popular “velho e relho”, com o significado de muito velho. Algures, encontrei a expressão “chegar ao relho”, como sinónima de “chegar ao rego” e com um sentido algo libidinoso, que facilmente se percebe. Seguindo por esta via, relho seria rego, e no lugar do relho, que é onde a rua termina, na sua cota mais baixa, corre um “rego” de água, o rio de Couros. Mas, à falta de melhores fundamentos, esta é uma hipótese meramente especulativa. De qualquer modo, no último quartel do século XIX, a rua do Relho já tinha novo nome: rua de Vila Flor, que é o que hoje está inscrito na sua placa toponímica.
Senhor da Boa Esperança e da Boa Sentença, do oratório da rua do Relho.
Mais ao menos a meio desta rua, à direita para quem a desce, está implantado um oratório dedicado ao Senhor da Boa Esperança e da Boa Sentença. Não se sabe ao certo quanto foi erguido. O padre António Caldas, nos seus Apontamentos, informa que foi restaurado em 1754, a expensas dos moradores da rua, e em 1875, numa iniciativa de Luciano Joaquim da Costa “coadjuvado pelos vizinhos e outros devotos”. Na sequência deste restauro, no dia 16 de Maio de 1875, entre o estralejar de fogo de artifício e o som da banda de música dum tal Jacinto Maneta, foi benzido a imagem de Cristo crucificado que se pode ver no interior do oratório. Por uma notícia dada por João Lopes de Faria nas suas Efemérides Vimaranenses, o Senhor da Boa Esperança da rua do Relho chegou a ter direito a arraial próprio, como o que aconteceu no dia 28 de Maio de 1865, em que a festa, com iluminação, fogo preso e duas bandas de música, durou até à meia-noite.

No local onde a rua encontra o rio de Couros, o atravessamento fazia-se por uma ponte estreita em pedra, que ainda lá se encontra. Junto dela, havia um moinho. Não há mais.
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20 de abril de 2017

Ruas antigas: Caldeiroa

Rua Caldeiroa, em primeiro plano, na mais antiga vista geral fotográfica de Guimarães que se conhece (tirada entre 1849 e 1873). As torres de igreja que aparecem retratadas são, da esquerda para a direita, da Misericórdia, de S. Paio (demolida), de S. Sebastião (demolida) e da Oliveira. A torre da igreja de S. Sebastião é a que hoje se vê na igreja de Creixomil. A pedra desta igreja foi usada para altear a Caldeiroa.

Saindo do Toural na direcção do monte Cavalinho, no largo que, desde 1953, ostenta o nome do musicólogo vimaranense Bernardo Valentim Moreira de Sá, abrem-se duas ruas descendentes em direcção ao rio de Couros. A que corre pelo lado do poente é a rua Caldeiroa ou, mais simplesmente, a Caldeiroa. Trata-se de uma das ruas mais antigas dos arrabaldes do velho burgo vimaranense, aparecendo, já com essa designação, na documentação medieval. Tem-se pretendido explicar o seu nome com o facto de ter sido uma rua onde, no passado, se concentraria a actividade de caldeireiros e latoeiros. Todavia, não há nada que autorize tal conclusão, excepto o que o nome sugere. A. L. de Carvalho, nos seus Mesteres de Guimarães (vol. V, pág. 81), escreve:

Temos nos topónimos de ruas uma artéria designada, desde o século XIII, — Rua da Caldeiroa. Não falta quem lhe queira, por esse facto, dar as honras de artéria onde poisaram caldeireiros. Tanto não avanço.

A investigação sistemática de Maria da Conceição Falcão Ferreira deu razão às cautelas de A. L. de Carvalho. Testemunha, no seu Guimarães — duas vilas, um só povo (pág. 574), que foi em vão que procurou na documentação medieval a presença nesta rua de artesãos que se dedicassem ao fabrico de caldeiras e de artefactos afins: “nem um só, pela Caldeiroa e Molianas”.

Em boa verdade, a única actividade artesanal que aqui conseguimos identificar pelos vestígios arqueológicos que sobreviveram, é a da curtimenta das peles. Os pelâmes identificados na Caldeiroa permitem-nos perceber que o território dos couros se estendia para além do bairro da indústria dos couros, cujos limites, em bom rigor, se estendem até à Madroa. É verdade que agora existe uma muralha de pedra a separar a Caldeiroa do Relho e da rua de Couros, que se levantou para sustentar a actual avenida D. Afonso Henriques, traçada para ligar a estação do comboio ao Toural. Porém, até ao final do século XIX, não havia qualquer descontinuidade física entre estes espaços. Ambos marginavam o curso de água que alimentava o tratamento das peles: na cota mais baixa do seu traçado, a Caldeiroa encontra-se com o rio de Couros, que agora vai correndo encanado. Em tempos chuvosos, também aí são (eram?) frequentes as inundações.

Na década de 1890, a Caldeiroa foi alteada com pedra proveniente da demolição da antiga igreja de S. Sebastião, cuja torre sineira foi transplantada para a igreja paroquial de Creixomil.

No início da década de 1940 foram removidos da Caldeiroa um fontanário e um oratório, onde estava exposta uma imagem de Cristo que, na altura da remoção, foi entregue ao pároco de S. Sebastião.

A Caldeiroa é uma das ruas mais antigas de Guimarães. No final do ano de 1910, a República recém-instalada mudou-lhe o nome, passando a designar-se oficialmente por rua Dr. Trindade Coelho. Mas o povo, como de costume, não foi de modas e continuou a chamar-lhe pelo nome que sempre lhe conheceu. Até que, em 1943, em tempo de refluxo da ordem republicana, a Câmara voltou a tornar oficial o topónimo histórico desta velha rua.

Caldeiroa continua a ser. Apesar de ninguém saber explicar de onde lhe veio tal nome.

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19 de abril de 2017

Ruas antigas: rua Nova das Oliveiras, Molianas, Madroa

Traçado das ruas de Camões e da Liberdade na planta de Guimarães do século XVI. O nome da rua de Camões e da rua travessa  estão incorrectos (onde se lê rua da Oliveira deve ler-se rua Nova das Oliveiras). É visível a indicação da localização do cruzeiro desaparecido (clicar na imagem para ampliar).

A rua de Camões é a artéria descendente que sai do Toural pelo lado do vendaval (Sul). Tem essa designação desde o 10 de Junho de 1880, data em que se assinalou o terceiro centenário da morte do poeta. Antes, chamava-se rua Nova das Oliveiras. Nas suas fachadas, destacam-se as belas varandas e portadas em madeira trabalhada e pintada. Terminava junto à rua Travessadas Oliveiras, hoje Dr. Bento Cardoso, que também se chamou rua de S. Sebastião ou rua de Santa Rosa do Lima, mas a que a gente teima em continuar a chamar de rua das domínicas (pronunciando dominícas). No ponto onde essas ruas se encontravam havia um cruzeiro, que está representado na planta de Guimarães do século XVI e descrito pelo padre Torcato Peixoto de Azevedo em finais do século seguinte, nas suas Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães (“um cruzeiro de pedra, de vinte e cinco palmos, com a cruz floreteada, e sobre degraus de pedra”). Do destino que terá levado tal cruzeiro, nada sabemos.

A seguir ao local onde antes estava cruzeiro, a rua inclina para Sul e passa a chamar-se rua da Liberdade, nome com que foi baptizada pela Primeira República a antiga rua da Alegria (que se estendia, atravessando a rua da Madroa, até à Cruz de Pedra). Antes disso, desde a Idade Média, chamava-se de rua das Molianas (topónimo de origem obscura, apenas se sabendo que moliana significa descompostura ou repreensão). Terminava na ponte de pedra da Madroa, que atravessava o rio de Couros e marcava um dos pontos de saída da cidade.

Na Madroa havia um tanque e uma poça, que, ainda em meados do século XX, tirava o sossego aos pais das crianças que por lá brincavam. Também desconhecemos a origem do nome daquele lugar que, em língua galega, significa algo como mulher estéril ou matriarca.

Sobre estas ruas, escreveu o Padre Torcato Peixoto de Azevedo:

É esta Praça do Toural um tronco de que procedem muitas ruas do arrabalde desta vila. Junto do chafariz para a parte do vendaval corre a rua das Lajes, que junta com a rua de Trás-os-Oleiros, ambas embocam na rua Nova das Oliveiras, a qual vai parar em um cruzeiro de pedra, de vinte e cinco palmos, com a cruz floreteada, e sobre degraus de pedra, e dali para norte parte a rua Travessa, a qual divide a rua de S. Domingos da dos Gatos, que ambas vão para poente.
Do cruzeiro, em que para a rua Nova das Oliveiras, dá princípio a rua das Molianas para a parte do vendaval, e vai parar no rocio da Madroa, que é o mesmo regato que desce do Campo da Feira, que mudou o nome em rua dos Couros, o qual conserva até este lugar em que se chama rio da Madroa, em que tem uma ponte de pedra, continuando esta rua para o vendaval, se encontra com a rua da Cruz de Pedra, e por aqui sai o caminho para a cidade do Porto.
Padre Torcato Peixoto de Azevedo, Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, manuscrito de 1692, edição de 1845, Cap. 89, pág. 322-323.
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18 de abril de 2017

O Rio da Vila

Trecho do Rio de Couros (fotografia tirada em 1980, durante as filmagens do documentário “Rio de Couros”).

É um rio com vários nomes, porque, à medida que vai percorrendo o seu curso, vai adoptando os nomes dos lugares por onde passa. Também lhe chamaram rio merdeiro, não por esse ser o seu nome, mas a referência à função de escoadouro dos dejectos (humanos, animais ou "industriais") que outrora desempenhava. É o rio De Couros, que, nascendo na encosta da Serra de Santa Catarina, bordejava a antiga vila de Guimarães pelo lado do Sul. Aqui fica a sua descrição, delineada pelo padre Torcato Peixoto de Azevedo em finais do século XVII.

Do rio da Vila.
Dos rios que correm junto a Guimarães pela parte do norte dei notícia, agora a darei dos que correm pela parte do sul, dando princípio no rio da Vila, tem este quase tantos nomes quantos os lugares por onde passa: tem o seu nascimento no oriente, na fonte dos Passais da igreja de S. Romão de Mesão Frio, distante desta vila dois tiros de mosquete. Tinham estas águas algum dia muito diferente corrente, porque iam encanadas ao palácio dos duques de Bragança, e servindo ali a suas oficinas, e regando seu dilatado jardim, continuavam seu curso. Mas, assim que acabou ali a assistência dos ditos senhores, elas tomaram outra guarida, e caminhando pelo fresco vale de Cidras, vão fertilizando seus prados, e depois juntando-se com outras no fundo da rua do Fato, ali toma o nome de rio, e avizinhando-se para a vila se junta junto da capela de S. Lázaro com as águas do rio Herdeiro, e tem a ponte de padieiras de pedra em o Campo da Feira, e vai pelas alpendras da rua da Ramada, e tem a ponte também de pedra de padieiras na rua de Couros, onde passa pelo arco de pedra da Vila Nova, deixando lavados os alicerces das casas da rua Caldeira, e dali vai a Padieiras onde tem a ponte da Madroa, e dali a poucos passos se junta com o rio Herdeiro tendo tomado os nomes destes lugares por onde tem passado. Estes dois rios juntos tomam o nome de Celinho, continuam em regar as lameiras da quinta da Porcarice, e deixando-as fertilizadas se vão juntar ao rio Selho no lugar de Reboto.
Padre Torcato Peixoto de Azevedo, Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, manuscrito de 1692, edição de 1845, Cap. 140, pág. 499.
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17 de abril de 2017

Dia de Páscoa

Já o disse antes, repito-o agora: a minha participação na discussão acerca das propostas para a construção de parques de estacionamento no Centro Histórico de Guimarães não é movida por inquietações provocadas pela proposta avançada pela coligação Juntos Por Guimarães, para a construção de túneis e parques subterrâneos no Toural e no Campo da Feira. Entendo a sua natureza pré-eleitoral, da qual decorre que ainda haverá que correr muita água pelo rio de Couros até que a sua concretização se possa colocar em cima da mesa. A minha preocupação actual decorre, exclusivamente, do projecto da Câmara para a construção de um grande parque de estacionamento no espaço interior do quarteirão Camões-Caldeiroa-Travessa da Madroa. Porque, neste momento, ao contrário da Coligação, a Câmara tem poder para fazer avançar o seu projecto, tornando-o num facto consumado, porventura irreversível. E temo que a apresentação da proposta da Coligação possa, involuntariamente, eu sei, ir de encontro à vontade da Câmara de construir o parque da Caldeiroa. Porque, por um lado, ajuda a dar razão e consolidar a ideia feita, mas ainda não demonstrada, de que a falta de estacionamento em Guimarães é um problema sério que justifica prioridade no investimento; por outro, porque pode contribuir para fazer criar uma cortina de fumo que tenda a perturbar o debate que agora se impõe e para o qual a Câmara não tem demonstrado grande vontade, fazendo avançar as máquinas na Caldeiroa-Camões.

E o debate a fazer, antes de se avançar para a discussão de soluções concretas, é o de estabelecer a necessidade de mais estacionamento junto ao Centro Histórico de Guimarães.

Os únicos dados sobre esta matéria que conhecemos (publicados pelo jornal Mais Guimarães) referem-se às taxas de ocupação dos espaços regulados por parcómetros, que eram de 41%, para a zona vermelha, e 29% para a zona verde. Claramente abaixo de 50%. Com tais números, com que base é que se pode afirmar que há falta de lugares para estacionar em Guimarães? A Câmara não terá investimentos mais prioritários, inclusive relacionados com a mobilidade, correspondentes a necessidades efectivamente sentidas pela população do concelho, onde gastar os 7 milhões de euros que se propõe utilizar para encher de betão o miolo da Caldeiroa?

Vem esta conversa a propósito de uma série de comentários ilustrados com fotografias que o meu amigo Sérgio Bastos colocou num texto meu, no Facebook, que a seguir reproduzo, com a devida vénia, onde se mostra Guimarães, num domingo de Páscoa carregado de turistas espanhóis.

Segue-se a "reportagem" de Sérgio Bastos, pelas ruas de Guimarães, no dia 16 de Abril de 2017:

* * *

Hoje à tarde a cidade CH estava com muita gente! O estacionamento na Av. Alfredo Pimenta estava com ocupação de cerca de 80 a 90% e a Av. São Gonçalo, nos parquímetros (hoje gratuitos), estava também com muitos automóveis. Significa que as pessoas foram a pé... não precisaram do parque de Camões ou do Toural para lá chegarem!!! O parque da Plataforma das Artes tinha 5 automóveis, o parque da Av. São Gonçalo não tinha um... Os comerciantes vimaranenses devem convencer-se de que sem trânsito (como hoje no CH) melhorariam os seus negócios. Antigamente quem comprava eram os cavaleiros, as charretes e os coches... quem tinha dinheiro... hoje esses vão a Braga, ao Porto, Londres, Berlim, Munique...

Hoje. Plataforma das Artes.

Gente. 

 Santiago. Hoje.

 Av. Alfredo Pimenta. Hoje.

 Povo que anda a pé.

Houvesse mais gente e não faltaria estacionamento para ninguém! Na porta daquela loja e daquela e daquela outra não há estacionamento. Pois não!!! Tem que andar 3, 4, ou 5 minutos a pé... que chatice! Mas teimam em querer cercar a cidade intramuros com mais parques!?! Defendamos a cidade de novo atentado criminoso que seria a construção do parque de Camões! Ecológico, de saúde pública, (ruído, dos gases e da trepidação 24 horas todos os dias) e do património industrial com tanques de couros que se encontram no seu miolo e se reabilite e recupere esses equipamentos já construídos e rodeados de áreas verdes para um verdadeiro quarteirão das Artes. Além disso como é possível projetar este parque de Camões/Caldeiroa e rua da Liberdade criando uma circulação à volta deste quarteirão com milhares de carros diários???

Palmeira (um ícone do Toural) com 200 anos que já viu muitos presidentes de Câmara passar e que este, sempre pronto para um discurso verde, quer matar. Nem a Encíclica Laudato Si, que trata da ecologia e a defesa da "casa comum", o planeta terra, que está na página do facebook de Domingos Bragança e, portanto, é suposto que a tenha lido... ou então não leu e se leu não compreendeu nadinha do que está escrito.

Duas árvores icónicas de Guimarães, o eucalipto que, por ser o único, se tornou uma referência e a palmeira que agora seria destruída se o crime ecológico acontecesse!

Entrada para o parque pela Travessa de Camões, depois de ter percorrido a rua da Liberdade ou a rua D. João I, Dominicas e a rua de Camões!!! Sempre a poluir, a trepidar os edifícios... o ruído, que não se pode abrir janelas... quem quer morar ou comprar casa nestas ruas?

Entrada para o parque pela Trav. de Camões e a destruição destas duas casas!!! Também se sabe que o restauro e recuperação dos edifícios no CH obedece a normas que são inconciliáveis (isolamentos e caixilharias) com os ruídos dos milhares de automóveis diários (que um parque para 500 lugares) percorrerão esta "circular urbana" à volta do quarteirão, Rua D. João I, Dominicas, Paio Galvão, Toural e, claro, pela Alameda para quem vem de nascente... porque há uma segunda entrada pela Caldeiroa!

Única saída do parque pela viela da Madroa. (Informações, todas as aqui deixadas, obtidas depois de requerer na CM a consulta do projeto). Cuidado... não vá apanhar com um carro da esquerda, que descem às vezes com velocidade que não daria para travar e evitar o acidente!

Qual é o conceito desta Câmara de Património? Já percebemos que destrói duas casas... que amputa o casario, que rompe e rasga o tecido urbano histórico por causa dos automóveis dos peões!! Mas, se defende os tanques em Couros, porque não defende também estes que se encontram no interior do quarteirão da Caldeiroa?! Sim. Vai mantê-los... (visíveis num fosso de 9 metros) mas destruindo as fábricas que os enquadram e dão sentido... mais valia mantê-los tapados para que não aconteça como aqueles que compram um espigueiro numa quinta e o implantam no quintal da casa... tornando ridículo esse desenquadramento! Mas afinal quais tanques valem mais? Só os de Couros ou todo esse conjunto (roteiro) assinalado com círculos e que perfazem a totalidade desse extraordinário património que complementa o nosso Património Cultural da Humanidade e lhe deu vida e sustento económico ? A amarelo as fábricas (a serem destruídas) e os tanques da Caldeiroa. A seta vermelha e branca assinala os tanques existentes ali junto onde estão a construir o Pingo Amargo e vai ser bem amargo para a cidade e a qualidade de vida da avenida e miolo de Couros! Terão sido destruídos????

O conjunto de tanques e fábrica de couros do quarteirão da Caldeiroa, a que posteriormente juntaram outras fábricas que foram convertidas e reutilizadas agora por artistas que aí se encontram a produzir arte e o seu salário, a que a CMG se deveria solidarizar e acarinhar para que mais artistas pudessem usufruir desses edifícios recuperados e o seu património possa ser incluído no roteiro da industria de couros. Não temos um museu de interpretação desta industria?! Façamo-lo neste quarteirão onde se pode usufruir no exterior dos edifícios de um espaço verde de condições excelentes!
[Fotografias e comentários de Sérgio Bastos]
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16 de abril de 2017

Da estatística e dos seus usos

Os caminhos para Guimarães, segundo "os estatísticos".

Há em Guimarães uma nova paixão: as estatísticas.

À entrada da cidade, deparo-me com um cartaz que me informa que Guimarães já ocupa o quinto lugar no ranking dos concelhos mais exportadores do país. Magnífico. Mas o que é que isso me diz sobre o nível de vida dos vimaranenses? Nada. Consulto as estatísticas e verifico que, segundo os últimos dados disponíveis (referentes a 2013), a remuneração média mensal dos trabalhadores por conta de outrém de Guimarães se ficava por uns tristes 77% da média nacional. Céu ou Inferno?

O portal da PORDATA, na informação desagregada por municípios, disponibiliza quase uma centena de indicadores, havendo-os para todos os gostos. Escolhas cirúrgicas desses indicadores permitirão pintar o quadro de Guimarães com os tons do mais luminoso cor-de-rosa, ou com as diferentes variações de cor-de-laranja, que é a cor que, na pintura antiga, predomina nas representações do Inferno.

As estatísticas são ferramentas muito úteis para a análise dos diferentes processos sociais, económicos, financeiros, históricos, etc, mas têm que ser usadas com cautela e espírito crítico. São construções e, enquanto tais, quem as usa deve ter o cuidado de procurar perceber como é que foram construídas, ou seja, quais as opções que foram tomadas pelos estatísticos que permitiram chegar ao resultado que se observa. Porque, em estatística, caminhos diferentes não conduzem necessariamente a resultados iguais.

Ontem, mostrei aqui um exemplo que encontrei na PORDATA que demonstrava que, na construção das amostras estatísticas, opções erradas produziam respostas incorrectas. Era um exemplo de uma realidade que conheço bem, em que os resultados apresentados eram manifestamente incorrectos. À pergunta “onde há mais e menos homens ou mulheres a frequentar o ensino universitário e politécnico?”, a resposta era a de que em Guimarães havia, no ano de 2016, 70 estudantes a frequentarem o ensino superior. Notei o erro, que era mais do que evidente, e logo me caíram em cima alguns dos especialistas instantâneos em estatísticas que passaram a povoar as redes sociais e que, aparentemente, nem sequer se deram ao trabalho de ler o que eu escrevi, a acusarem-me de ter dito aquilo que nunca disse, em defesa de uma dama, a PORDATA, que eu não sabia pertencer-lhes.

O que eu pretendia, no que escrevi, com a ironia de que fui capaz, é que não é recomendável usar a informação estatística, venha ela de onde vier, de forma acrítica. Porque, sem informação que complete os quadros estatísticos e que nos informe de onde provêem e quais são os dados que foram utilizados para a sua elaboração, há sempre informação relevante que nos falha.

Dou outro exemplo, colhido na mesma PORDATA (que, note-se, é uma ferramenta inquestionavelmente útil, a que recorro com frequência na minha actividade profissional), referente a outra realidade que conheço bem, os museus. Segundo a PORDATA, no ano 2000 havia um único museu em Guimarães. Em 2009, já eram 5 e, em 2013, 6, número que não se alterou até ao último ano disponível, 2015. Ora, não é preciso um esforço muito grande para perceber que estes números não batem certo com a realidade instalada. Nem no ano 2000, nem agora. Uma visita à página do Guimarães Turismo, permite contar 10 museus, sendo certo que um deles, a Casa da Memória, só abriu em 2016, e que um outro, a Sala Museu José de Guimarães, no Paço dos Duques, não é propriamente um museu, o mesmo se podendo dizer, porventura, do Núcleo Arqueológico da ACIG. Porém, sem muito esforço, sou capaz de acrescentar dois museus que não constam da lista do Guimarães Turismo, o Museu da Agricultura de Fermentões e o Museu da Vila de S. Torcato. Em suma, também aqui, a informação estatística é visivelmente deficiente.

Servirá isto para que se afirme que toda a informação da PORDATA está errada? Claro que não. O que serve é para reafirmar a necessidade de cautelas básicas na utilização da informação estatística disponível.

Apenas isso.
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15 de abril de 2017

O Apocalipse, segundo a PORDATA

Alunos matriculados no ensino superior: total e por sexo - Municípios. Fonte: PORDATA, consultada em 15.04.2017

Eis um diálogo que, nos últimos tempos, se tem repetido, de diversos modos e a propósito de tudo e mais alguma coisa, nas redes sociais:

“— Guimarães está à beira da catástrofe!

— Como disse?

— Não acredita? Vá consultar a PORDATA.”

Fui.

Percorro os quadros estatísticos, uns a apontarem para cima, outros para baixo, outros para o lado, sem que nada encontre que justifique afirmação tão categórica, até que esbarro no indicador “alunos matriculados no ensino superior: total e por sexo – Municípios”, que mostra “onde há mais e menos homens ou mulheres a frequentar o ensino universitário e politécnico”.

O que vejo, deixa-me num estado de profundo desalento. São dados arrasadores, que confirmam e superam as teses mais catastrofistas.

Então não é que, segundo a PORDATA, a nova fonte de fé, Guimarães tem menos estudantes a frequentarem o ensino superior do que a Póvoa de Lanhoso? Que em Fafe se multiplica por cinco o número de estudantes universitários de Guimarães? E que em Famalicão são 16 vezes mais? E que em Barcelos, em Barcelos, senhores!, há 54 vezes mais estudantes a frequentarem o ensino superior do que em Guimarães? E que em Braga, S. Torcatinho nos valha!, por cada estudante universitário de Guimarães, se contam 264 alunos do ensino superior?

Rendo-me. Têm razão os profetas da desgraça. Isto é mais do que a desgraça, é o fundo do abismo.

Grande é a PORDATA!

****


PS: Como é evidente, estes dados da PORDATA estão errados. Nem Guimarães tem tão poucos alunos a frequentarem o ensino superior, nem são assim tantos os de Braga. O erro é fácil de explicar e traz de arrasto um outro erro. A PORDATA apenas considera um estabelecimento de ensino superior a funcionar em Guimarães. Na realidade, são dois (e, a concretizar-se a instalação da Escola Superior de Hotelaria e Turismo, recentemente anunciada, serão três): a Universidade do Minho (UM) e a Escola Superior Artística de Guimarães (ESAG). Olhando para o quadro da PORDATA, percebe-se que apenas considera os estudantes da ESAG, alocando a Braga todos os matriculados na UM, incluindo os que estudam em Guimarães, nos campi de Azurém e de Couros. Portanto, a informação a PORDATA está errada, mas não tem grande mistério. E recorda-nos uma prevenção básica que devemos ter sempre presente quando trabalhamos com dados estatísticos que não sabemos como foram construídos: se estes dados estão errados, quem nos garante que todos os outros estejam certos?
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14 de abril de 2017

Severino, o pastorinho esquecido

O lugar da aparição do Barral (fotografia do Notícias Magazine)

Hoje, ao ler no Expresso uma entrevista em que o padre Anselmo Borges, depois de notar que “posso ser um bom católico e não acreditar em Fátima porque não é um dogma”, afirma que “é evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima”, recordo um facto que demonstra que a relevância de Fátima enquanto fenómeno de fé não foi uma irrupção instantânea, mas sim uma construção de elaboração lenta.
A certa altura, quando estudava na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, andava pela Biblioteca Municipal do Porto a consultar jornais vimaranenses, recolhendo materiais para um trabalho, a desenvolver no âmbito duma cadeira de História Contemporânea, acerca do impacto que as revoluções russas de 1917 teriam tido numa terra que fica à distância mais de quatro mil quilómetros de Moscovo. Como não encontrei material suficientemente interessante para o que pretendia, mudei de tema. No entanto, dessa pesquisa, ficou-me uma estranheza: tendo feito uma consulta sistemática aos jornais que se publicaram em Guimarães entre 1917 e 1920, não encontrei qualquer referência a acontecimentos que, supunha eu, na época em que ocorreram, teriam tido um grande impacto mediático, em especial em jornais que eram muito católicos e muito dados a noticiarem factos incomuns sucedidos nos lugares mais estranhos do mundo: as aparições de Fátima de 1917. Silêncio absoluto. E, até hoje, depois de tantos anos a folhear e a ler a rica imprensa local vimaranense, um dos tesouros mais preciosos da magnífica biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, a referência a Fátima e às suas aparições mais antiga que já encontrei tem a data de 15 de Maio de 1928, noticiando a peregrinação desse ano à “Lourdes portuguesa”, em que participaram “algumas dezenas de peregrinos” vimaranenses.
Se não encontrei notícias das aparições aos três pastorinhos nas páginas dos jornais de Guimarães, encontrei uma referência surpreendente a uma outra aparição que se diria ser uma cópia quase exacta dos relatos dos fenómenos de Fátima, não fosse ter antecedido em três dias a primeira visão da Cova da Iria.
Aconteceu a 10 de Maio de 1917, no lugar do Barral, da freguesia de S. João de Vila Chã, no concelho de Ponte da Barca, quando Severino Alves, um pastor de 10 anos, se assustou com a visão de uma misteriosa senhora sentada numa ramada, aparição que se repetiu no dia seguinte, com a senhora a dizer-lhe não te assustes, sou eu, menino”. Era Nossa Senhora, que incumbiu o rapazinho de uma missão: dizer a todos que rezassem o terço e cantassem uma oração então em voga, a Estrela do Céu, apegando-se com a Senhora, para que acudisse ao mundo e aplacasse a guerra (recorde-se que se estava em plena Grande Guerra).
Nas primeiras décadas do século XX, notícias de aparições desta natureza ocorriam com relativa frequência. No entanto, é impressionante o paralelismo do relato das visões do pastorinho do Barral com o que se conta que sucedeu depois em Fátima. No entanto, a Igreja Católica nunca reconheceu a aparição do Barral, o que não impediu que no local fosse erguido o Santuário de Nossa Senhora da Paz, que se transformou em local de culto mariano. Severino Alves faleceu em 1985.
A notícia da aparição Barral circulou pela imprensa do Norte do país, até que, a 7 de Julho de 1917, o jornal Vimaranense a dá à estampa, com um comentário carregado de cepticismo, da lavra de Joaquim José de Azevedo Machado. Aqui fica.


Milagre? Sugestão? Embuste?!...
Contam vários jornais que, no dia 10 do Maio último, pelas 8 horas da manhã, no lugar do Barral, freguesia de S. João de Vila Chã, concelho de Ponte da Barca, arcebispado de Braga, quando em direcção ao monte passava um rapazinho de nome Severino Alves, de 10 anos de idade, avistara numa ramada próxima da ermida, após um rápido relâmpago, uma senhora, sentada, e com as mãos postas.
Que, surpreendido com tal acontecimento, caíra, cobrara ânimo, e exclamou: Jesus Cristo, desaparecendo então a visão.
Que o rapazinho, contando ao seu pároco o foi por este aconselhado a que voltasse ao lugar da aparição, e pedisse a essa senhora que o informasse quem era.
Que, no dia seguinte, ao defrontar com o mesmo local da véspera, lá tornou a encontrar-se com a mesma senhora, e que ajoelhando-se, lhe disse: Quem não falou ontem, fale hoje.
Que, em seguido, a aparição tranquilizou-o, dizendo-lhe:
“— Não te assustes, sou eu, menino. Diz aos pastores do monte que rezem sempre o terço. Que os homens e mulheres cantem a Estrela do Céu. E as mães que têm filhos lá fora, que rezem o terço, cantem a Estrela do Céu e se apeguem comigo, que hei-de acudir ao mundo e aplacar a guerra.”
Que, antes que o rapazito tivesse tempo de dizer mais que —sim, senhora—, a visão, olhando para uma ramada, acrescentou: Que gomos tão lindos, que cachos tão bonitos, desaparecendo em seguida, como por encanto.
Eis, em resumo, o que contam vários jornais.
*
A civilização transportou-nos a uma época, onde não basta afirmar; é preciso provar, ou, pelo menos, ser viável, à luz da ciência, o facto trazido à publicidade.
O mundo está cheio de embusteiros, e fácil seria a estes locupletarem-se à custa da credulidade pública.
À luz da ciência, o milagre é um impossível, visto que todos os factos verdadeiros têm natural explicação. Está provado, pela mesma ciência, — a espiritualista — que o dom de vidência é uma verdade incontestável. Certas pessoas têm o poder de dupla vista, como acontece com as pessoas em transe, ou com os sonâmbulos. Todavia, a ciência, nesse particular, é muito severa, pois afirma que muitas causas podem dar lugar a visões. O estado mórbido do organismo, antecedentes nervosos, histerismo e auto-sugestão.
Assim como poderia, de facto, aparecer, materializada, a Mãe de Cristo, escolhendo um vidente, embora criança, também é possível e admissível que esse rapaz, se facilmente sugestionável, se prestasse inconscientemente a vontades que imperassem sobre a sua.
Tudo e possível...
Por outro lado, isentos de toda a parcialidade, não nos podemos furtar às seguintes interrogativas: Qual o motivo porque, admitindo-se como verdadeiro o fenómeno em discussão, não apareceu nossa Senhora a um adulto casto e verdadeiro, e sim a uma crença de 10 anos, rústica, que mal sabe exprimir as suas sensações?
Não haveria, neste planeta, um outro vidente, adulto, moral e austero, que melhor pudesse sintetizar o desejo de Maria?!...
O rapaz, segundo ainda os jornais, sempre ia para o monte rezando o terço. Não seria um misto de fanatismo e lendas religiosas que a família lhe tenha incrustado no seu espírito ainda fraco, e, portanto, facilmente sugestionável?
Tudo é possível…
No entanto, estamos certos, à luz da critica, da razão e do bom senso, o anunciado fenómeno será apreciado sobre todos os matizes.
A autoridade eclesiástica também o investiga em todas as suas minúcias, e então, poder-se-á formar um juízo mais seguro, visto que o facto é relatado com alguns acréscimos nos periódicos que o vão reproduzindo.
Como acima demonstrei, está provado à luz da ciência que o milagre não se pode realizar, por que as aparições dadas como verdadeiras ate agora, justificam-se, na sua maioria, pela existência dos videntes. Quantas descobertas realizadas neste século, que, se no décimo nono aparecessem, seriam levadas à conta de milagre... A electricidade, o rádio, a radiografia, etc., etc., são disso exemplos, para não nos alongarmos muito.
Em todo o caso, como o fenómeno de aparição está nos limites do possível — não digo provável! — para aqui transcrevemos a Estrela do Céu, preconizada pela Virgem-Mãe (?) para aplacar a guerra e acudir ao mundo, que, diga-se de passagem, caminha para o abismo da degenerescência e da degradação:

A Estrela do Céu, Santíssima que a Seus peitos criou Nosso Senhor livrou-nos do contágio da morte, que o primeiro pai dos homens trouxe ao mundo. Digne-se a mesma Estrela apaziguar o Céu, para que a Sua ira não aflija agora o povo, com guerras de morte cruel. —Piedosíssima Estrela do mar livrai-nos desta peste. Ouvi-nos, Senhora, porque Vosso Filho Vos honra, não Vos recusando coisa alguma. — Salvai-nos, ó Jesus, atendei aqueles por quem a Virgem Mãe Vos pede.
Rogai por nós Santa Mãe de Deus; para que sejamos dignos das promessas de Cristo. 
OREMOS

Deus de misericórdia, Deus de piedade, Deus de indulgência, que Vos compadecestes da aflição do Vosso povo, dizendo ao anjo que o feria “Sustém a tua mão”, por amor daquela Estrela gloriosa, de cujos peitos benignamente recebestes o precioso remédio, contra o veneno dos nossos pecados; socorrei-nos com a Vossa graça, para que sejamos livres, com segurança, de toda a peste e morte repentina, e por misericórdia sejamos salvos de todo o perigo de perdição. Por Vós, Jesus Cristo Rei da glória, que viveis e reineis por todos os séculos dos séculos. Ámen.

Têm, pois, a palavra, os católicos e os acatólicos...
Quanto a mim, com toda a franqueza o digo: ponho o fenómeno (?) de quarentena, de observação, de reserva, até que a lógica dos factos me obrigue a aceitá-los como intangíveis.
Já que os meus “francesismos baratos” tanto irritam a “alguém”, vá lá este latinório:
Res non verba...
Joaquim José de Azevedo Machado.
Vimaranense, 7 de Julho de 1917
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