30 de outubro de 2016

Da monomania da corrida e da higiene na prática desportiva

Lars Plougmann licensed under Creative Commons attribution (CC by) 2.0 license

Na tradição popular portuguesa, muito enraizada no Minho, o corredor é alguém que carrega consigo o peso de uma maldição que o atingiu no momento em que nasceu e sem que nada tenha feito para a merecer, a não ser nascer como sétimo (ou quinto) filho seguido do mesmo sexo e da mesma prol e a quem não fosse aplicado o “antídoto” prescrito pela sabedoria popular (no baptismo, dar ao recém-nascido o nome de Adão ou Eva, consoante os casos, e picá-lo com um alfinete num dedo, de modo a fazer correr uma gota de sangue). O corredor tinha que percorrer, todas as noites, um longo percurso, que passava por sete pontes, sete fontes, sete montes, sete encruzilhadas, sete portelos de cão e eu lembro-me dele sempre que passa por mim alguém a correr desalmadamente, como se também estivesse a correr um fado. É certo que há muitas diferenças entre o corredor de fado e o corredor da nova moda que por aí anda: o primeiro corria em solitário debaixo da pele de um bicho qualquer (lobo, cão, cavalo…) o outro vai de licras de cores garridas e fluorescentes e, muitas vezes, vai aos magotes. É uma nova moda, daquelas que, como costuma acontecer com as modas, incham, desincham e passam. Aos que a praticam não lhes chamam corredores, mas sim runners, que é nome mais adequado aos novos tempos.

Na minha juventude, tive muitos amigos que experimentaram as drogas da moda, que eram o “ácido” e certas substâncias que terminavam no sufixo -ina. Alguns ficaram agarrados a elas. Hoje diríamos que ficaram adictos. Por estes dias, quando vejo amigos, familiares, conhecidos e outros, em idades em que já deviam ter juízo, a experimentarem os desafios das corridas, para a seguir mergulharem na monomania da auto-superação das meias-maratonas, das maratonas e das ultramaratonas, desconfio que também eles caíram numa nova forma de adição. Começaram a dar nas endorfinas e no ácido láctico e viciaram-se. Qualquer dia começam a florescer por aí novas comunidades de entreajuda, os Runners Anónimos, e clínicas de desintoxicação que lhes irão prometer a sobriedade e a abstinência da pulsão corredora que, quando descontrolada, só pode acarretar malefícios para a saúde do corpo e do espírito.

Enquanto esse dia não chegar, o melhor é tomarem alguns cuidados básicos, nomeadamente com a nutrição, começando por desconfiar do poder mágico dos suplementos que se vendem aos baldes nas casas da especialidade.

Nas primeiras décadas do século XX, quando a actividade desportiva se começou a massificar, não faltavam vozes avisadas que alertavam para os perigos que poderiam advir da prática de certos desportos. E os especialistas começaram a ditar as regras de vida para o sucesso do desportista, que passavam pelo treino e, especialmente, pela alimentação, que deveria ser adequada ao esforço desenvolvido. Nos jornais, as então novíssimas secções dedicadas ao desporto iam dando conta do estado da arte, de que a coluna Off-side que um tal Virivalho assinou no jornal republicano A Razão foi pioneira na imprensa local de Guimarães. Foi lá que encontrei o texto que se segue, dedicado aos cuidados de higiene e alimentação dos futebolistas, com a prescrição de cardápios adequados aos diferentes jogadores, consoantes as posições que ocupavam no campo. Vale a pena ler, acreditem-me.


OFF-SIDE

A higiene no Foot-Ball

Vamos expor as regras já usadas com grande êxito em todos os países da Europa e da América. Para se praticar bem este desporto não bastam só os treinos e a ginástica. Cuide-se do corpo e da alimentação.

Avançados

Os avançados de um team devem alimentar-se muito bem. Terão 4 refeições diárias. O primeiro almoço às 7 horas da manhã, que constará de um alguidar de arroz de polvo (olhinhos polvoreiros) e uma travessa de salada de alface, sem molho. Ao meio-dia, almoço, que poderá constar, de preferência, de um ou dois leitões assados no forno, um coxão de cabrito estufado e 2 quilos de lombo de porco au gratin. Sobremesa: 2 ananases ou 2 dúzias de laranjas e 2 litros de vinho verde, bom. Às 4 horas, merenda, que constará de 2 ou 3 lagostas de mayonaise e meio peru recheado com farinha de pau e 4 garrafas de cerveja preta, alemã, para auxiliar a digestão. Finda esta pequena refeição deve-se repousar durante 3 horas seguidas para que a alimentação produza bons resultados.

Às 9 horas e meia da noite, jantar, que deverá constar de pratos de resistência como por exemplo uma bacalhoada com todos os matadores e mais 4 pratos diversos. Sobremesa: 1 queijo flamengo e castanhas assadas. Por cima disto tudo, 3 canecas grandes de vinho do Douro. Finda a refeição, passear durante 3 horas para fazer a digestão.

Pontas e meias pontas (direitas e esquerdas)

O regime alimentar destes jogadores é diverso do antecedente. Deverão comer só uma vez por dia, e pouco, para conservarem a indispensável agilidade e fortalecerem os músculos das pernas. Assim, logo que sejam 2 horas da tarde comerão um caldinho verde com alguns feijões fradinhos e... nada mais. Não é permitido o uso de pão de milho, de centeio ou de trigo. De resto, poderão comer qualquer outro. Por cima do caldo tomarão uma xícara de chá para desgastar.

Defesas e meias defesas

Estes jogadores deverão alimentar-se apenas com farinha de pau e chá de parreira, a fim de conservarem a robustez física devendo andar sempre com o ventre bem desimpedido para que a sua acção em campo seja mais eficaz. Deverão ter uma cabeça sólida a fim de executarem bem as cabeçadas. Terão 3 refeições diárias: a 1.ª às 6 horas da manhã, constando de 1 prato de farinha de pau; a 2.ª às 3 horas da tarde, com a mesma receita, e a 3.ª à meia noite, idem, idem.

Por cima de cada refeição poderão beber o vinho que lhes apeteça, cuja dose não poderá nunca ser inferior a 2 litros e meio por cada uma delas.

Guarda-redes

Para se ser um bom guarda-redes é indispensável ser dotado do maior sangue frio e da maior serenidade. Estas qualidades deverão andar aliadas a um bom físico, a um golpe de vista rápido, a saltar e mergulhar bem. Por isso, esta classe de desportistas deverá alimentar-se apenas com lacticínios e a purgar-se com óleo de rícino de 3 em 3 dias, a fim de trazer o ventre livre. E como a sua missão e executar defesas, sempre que tenha de entrar em desafios, e para que o esférico se lhe não escape das mãos, deverão estes jogadores ter as luvas sempre bem untadas com visco (200 gramas para cada luva) a fim de encaixarem com a maior segurança.

Todos os jogadores de foot-ball deverão tomar todas noites, ao deitar da cama, um banho de chuva, não só para lhes refrescar a cútis como também para os desencardir de sujidades que porventura tenham adquirido com o uso constante dos treinos.

Virivalho.

A Razão, Guimarães, 31 de Maio de 1925
Partilhar:

29 de outubro de 2016

Araduca ou Araduça?



 Serões Inquietos: escutar programa














Na noite de 25 deste Outubro, a TSF instalou o seu estúdio na sede do Convívio, de onde emitiu a primeira edição do programa Serões Inquietos, dos jornalistas Pedro Pinheiro e Fernando Alves, dedicado aos 150 anos do nascimento de Raul Brandão. Uma conversa em busca do "Húmus" do Ser, em que tive o privilégio de participar e em que, logo no princípio, a propósito do nome deste blogue, ficou no ar uma dúvida sobre a possível ausência de um c cedilhado na palavra Araduca, passando a Araduça.  

A dúvida surgia a propósito de um dos raros e breves textos em que Raul Brandão fala expressamente de Guimarães, em que escreveu Araduça. Será Araduca ou Araduça? Ambas podem ser, e também Araduza. Nos textos dos historiadores e geógrafos antigos, o nome da cidade misteriosa a que se refere Ptolomeu na sua Geografia, e que muitos têm insistido em colocar no sítio onde hoje está Guimarães, surge indiferentemente como Araduca, Araduça ou, mais raramente, Araduza. A nossa opção por Araduca pode ser explicada com vários argumentos e um deles é bem singelo: tem a ver com o não poder usar a cedilha no endereço do blogue. Raul Brandão seguiu a grafia usada pelo padre António Carvalho da Costa, na sua Corografia Portuguesa (1706), Araduça, mas poderia ter seguido a lição do padre Torcato Peixoto de Azevedo, nas suas Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães (que o padre Costa plagiou descaradamente em quase tudo, menos aí), que escreveu Araduza, uma vez, e Araduca, dezenas de vezes.

A existência de uma cidade Araduca, 500 anos antes de Cristo, segundo uns autores, 1500 segundo outros, no sítio onde depois cresceu Guimarães, foi muito discutida pelos escritores antigos, não estando demonstrada, nem à luz dos documentos, nem à luz das descobertas arqueológicas. Foi negada por Gaspar Estaço, no primeiro quartel do século XVII, e afirmada por Torcato Peixoto de Azevedo que, escrevendo em finais do mesmo século, narra a história de Guimarães, soterrando as raízes desta terra até ao tempo de um tal Gomar, bisneto de Noé (o da Arca):

Gomar, filho de Lamet, neto de Noé, que veio ter à Galiza, dele tomaram os da terra o nome de Gemaristas e Gomaranes, de que resultou chamarem-se muitas mulheres Guimares, como diz Mauro na história de S. Tiago L. 2. C. 6. E assim a nossa leal vila de Guimarães tão antiga, como ilustre, teve tantos nomes, como foram as nações que a ocuparam: foi a sua fundação dos galo-celtas, porque ficaram estes tão desbaratados, que compadecidos os gregos de suas desventuras os receberam entre si, e com afabilidade lhe deram lugares e terras, onde vivessem, e de tal maneira os trataram como seus filhos, que desta sorte ficaram naturais e moradores de Entre-Douro-e-Minho, cultivando a terra que fica entre Lima e Minho. Aos tudertanos que entre os galo-celtas eram gente mais nobre, e que haviam escapado da derrota que entre si tiveram na passagem do rio Lima e que, ficando atrás, se foram aposentar na antiga morada dos príncipes da Lusitânia, ali fizeram uma povoação a que chamaram Araduca, da qual Ptolomeu faz menção L. 2. C. 5 no ano de 339 antes de Cristo, onde agora está situada a vila de Guimarães. Mariana na história geral da Espanha T. 1. C. 19, e C. 13. Araduca: Gandarra C. 17 diz, que quer dizer Araduca, no nosso idioma, lugar de letras. Outros lhe chamam Leobriga, que quer dizer cidade forte. Outros Latica, cidade escondida, ou Lactis pela relíquia que teve do leite de Nossa Senhora. Alguns a nomeiam Columbina, ou Catheleucus, como Jerónimo Rozel, Italiano. Muitos lhe chamam cidade de Santa Maria, não porque fosse conquistada dos Gascões, mas por respeito da sagrada imagem de Nossa Senhora da Oliveira. Também lhe deram o nome de Vimarães, não porque fosse seu fundador Vuimaro, se não por um letreiro que está na torre antiga do seu castelo, que diz Via Maris.

Torcato Peixoto de Azevedo (1624-1705), Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães (em 1692), Porto, Oficina da revista, 1845, pp.152-153

Sobre a discussão acerca da localização da Araduca de Ptolomeu escreveram diversos autores, mas por ora basta o que está dito pelo Padre João Baptista de Castro, no seu Mapa de Portugal:

Araduca. Convêm alguns dos Geógrafos que estivesse esta Cidade colocada onde hoje vemos a nobre Vila de Guimarães. E seguindo esta opinião Manuel de Faria, falando da sobredita Vila de Guimarães, diz:

Na aldeia de Araduca celebrada
Pela rara beleza das pastoras.

O mesmo diz Filipe de la Gandara nas Armas e Triunfos de Galiza cap. 17. num. 3. Porém Gaspar Estaço segue o contrário, e o intenta provar com a arrumação que lhe dá Ptolomeu na altura de 41 graus e 57 minutos, e com 17 léguas e meia da boca do Douro, distância mui diferente da que tem Guimarães, pois dista da boca do Douro 8 léguas somente. Fr. Bernardo de Brito diz que, o que antigamente foi Araduca, é hoje Amarante. E já houve quem disse que era Aljubarrota. Eu pudera dizer muito mais, sobre ser Guimarães a antiga Araduca, mas por ora basta o que está dito. […]

João Baptista de Castro (1700-1755), Mappa de Portugal, antigo e moderno, Tomo I, Lisboa, Na officina patriarchal de Francisco Luiz Ameno, 1762, p.p. 7-8.



Partilhar:

15 de outubro de 2016

Cerilhoto, ladripo, recintar, samagaio



O que têm em comum as palavras cerilhoto, ladripo, recintar e samagaio?

São vocábulos recolhidos em Guimarães, que Cândido de Figueiredo incluiu no seu Novo Diccionário da Língua Portuguesa, editado pela primeira vez em 1899. 

Mas há outras palavras, que nem sequer poderão ser classificadas como neologismos, por já terem muitos anos de curso corrente, que não constam nos dicionários portugueses e que, quando as temos que escrever em suporte informático, logo aparecem sublinhadas a vermelho, como quem nos recrimina por incorrermos em erros de ortografia. Não existem para os dicionários, sempre céleres a dicionarizar neologismos como empoderamento, metrossexual, mixologista, blogue e tantos outros, muitos  deles de duvidosa necessidade, por serem sinónimos de palavras já existentes na língua padrão.

Vem esta conversa a propósito das Nicolinas, que é o nome que se dá, há mais de um século, aos festejos que os estudantes de Guimarães dedicam ao seu padroeiro, S. Nicolau. Não consta dos dicionários. Nem nicolino, que é, como todos sabemos, o nome que se dá aos estudantes de Guimarães, estejam eles no activo ou já aposentados. Todos sabemos, mas os dicionários não sabem. Nicolino(a) e nicolinas são termos que deveriam constar no léxico oficial protuguês, por cumprirem as condições necessárias para integrarem o léxico da língua e serem dicionarizados.

O mesmo acontece com as também vimaranenses Festas Gualterianas. Gualterianas e gualteriano(a) são termos que (ainda) não se encontram nos dicionários. Mas as festas antoninas e são-joaninas (ou sanjoaninas), que também são festividades populares, há muito que têm foros de dicionário. Será que essa condição resulta dessas tais festividades terem especial expressão nas cidades de Lisboa e do Porto?

Interrogação semelhante resultará da pesquisa no dicionário de vocábulos relativos a filiações clubísticas. Lá encontrámos portistas, benfiquistas, sportinguistas, belenenses, boavisteiros e, ainda, salgueiristas. E até não faltam, com idêntico significado, os termos lampião, lagarto e tripeiro. Mas, se procurarmos vitorianos, com referência ao Vitória Sport Clube ou aos seus adeptos ou atletas, nada acharemos.

Aparentemente, o malfadado centralismo também dita lei na lexicografia portuguesa.

É preciso fazer alguma coisa para melhorar os nossos dicionários.
Partilhar:

8 de outubro de 2016

O meu primeiro milhão



Ontem, ao reler o que por aqui tinha escrito sobre o processo de Guimarães, Capital Europeia da Cultura 2012, pus-me a pensar em como eram diferentes as nossas conversas num tempo em que o Facebook ainda não existia ou em que era pouco mais do que um sítio na internet onde estudantes se dedicavam a exercitar a antiquíssima arte do engate. Talvez então nós julgássemos que não, mas havia muito mais tempo para o debate de ideias. Era o tempo em que cada um de nós lia aquilo que procurava e não o que um algoritmo qualquer decidia que poderíamos ter interesse em ler. É certo que ninguém nos lembrava dos aniversários dos nossos amigos, nem assistíamos a um desfilar de gente feliz e sem lágrimas, quase sempre de férias num paraíso qualquer, a comer lagosta e a beber gins tónicos em copos amaneirados, nem recebíamos convites para jogarmos candy crush saga, seja lá o que for isso, nem estávamos permanentemente a ser enxofrados com publicidade, nem tínhamos a sensação e estarmos a ser manipulados por máquinas que sabem mais sobre nós do que nós próprios. Não tínhamos nada disso, mas sabíamos que não estávamos perdidos num espaço que funciona em regime de marés, onda atrás de onda a desfazer-se na areia e a esvair-se no esquecimento. Não íamos na onda. As nossas esperanças, as nossas desilusões, as nossas euforias e as nossas indignações eram só nossas e não o resultado de nos deixarmos ir para onde inclina o barco. Eram os dias da blogosfera, outrora fecunda e viçosa, hoje murcha e quase deserta, com largo lastro de desistentes.

Mas suspeito que muitos de nós já começam a demonstrar cansaço da voraz inconstância e das redes sociais. Noto isso neste blogue, que vai persistindo, na constância inconstante dos meus dias. Hoje tem mais leitores do que tinha antes.

Há algum tempo, tinha programado assinalar um número redondo: a milionésima visita a estas memórias. Porém, distraí-me e perdi a oportunidade de registar o momento para a posteridade. Quando comecei a escrever esta nota, o contador das Memórias de Araduca já marcava 1 006 214 visitas. Eu sei que este número não é nada por aí além mas, sendo este um espaço muito pessoal e, regra geral, composto com materiais com interesse quase exclusivamente local, deu-me para o registar aqui.
Partilhar:

7 de outubro de 2016

Levantou-se e andou



Passam hoje dez anos sobre um anúncio que iria mudar a história de Guimarães e a sua relação com o Mundo. O dia 7 de Outubro de 2006 é uma data que deveria estar inscrita a tinta indelével na página principal das efemérides vimaranenses. Se houvesse memória para além do tempo presente, não nos tínhamos esquecido de assinalar a passagem da primeira década sobre a data em que a Ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, anunciou em Guimarães que esta cidade iria ser Capital Europeia da Cultura no ano de 2012.

Naquele sábado, realizava-se em Guimarães uma reunião informal do Conselho de Ministros, tendo na agenda a preparação da presidência portuguesa do Conselho Europeu, que iria acontecer no segundo semestre de 2007. Estava previsto que a conferência de imprensa que se seguiria a essa reunião seria aproveitada para fazer a apresentação pública de um projecto relevante para a Sociedade Martins Sarmento, que estava a ser preparado havia alguns meses. Do Ministério, disseram-me para não assumir compromissos para aquele dia, para poder estar presente na conferência de imprensa. Um par de dias antes da reunião, foi-me dito que o anúncio poderia não acontecer, porque o Governo estava a ponderar fazer um outro anúncio. Na véspera, chegou a confirmação de que a apresentação do projecto referente SMS já não iria acontecer, devendo ser agendado para melhor momento.

Longe de imaginar o que se preparava, fiquei curioso para saber o que estaria para vir.

A nova chegou-me logo ao princípio da tarde daquele sábado: a ministra acabava de anunciar que Guimarães iria ser indicada pelo Governo para ser Capital Europeia da Cultura em 2012. A vereadora da Cultura, Francisca Abreu, tinha tido uma reacção de genuína surpresa, com emoção até às lágrimas. O segredo estivera muito bem guardado e, se não erro, em Guimarães, apenas seria do conhecimento do presidente da Câmara, António Magalhães, e do deputado Miguel Laranjeiro.

Recebi a notícia maravilhado (estava muito longe de imaginar que a novidade esperada seria aquela) e divertido (porque havia uma curiosa ironia em tal anúncio, fazendo lembrar os desfechos judiciosos das velhas histórias de proveito e exemplo). É que a discussão acerca de uma candidatura a Capital Europeia da Cultura em 2012 já tinha a sua história.

Alguns meses antes, o reitor da Universidade do Minho, António Guimarães Rodrigues, tinha apresentado em reunião do Conselho Cultural a sugestão de se mobilizar uma candidatura minhota à Capital Europeia da Cultura, em 2012, ano em que a distinção caberia a uma cidade portuguesa. A ideia seria candidatar, não uma cidade, mas a região do Minho que se distribuía pelo quadrilátero Braga-Guimarães-Famalicão-Barcelos. Dos contactos exploratórios já estabelecidos, percebia-se que havia a possibilidade de a resposta de Braga ser uma negativa, o que inviabilizaria a iniciativa. O Presidente daquele órgão da Universidade, o Professor Lúcio Craveiro da Silva, incumbiu-se da missão de levar a ideia ao Presidente da Câmara de Braga, Mesquita Machado. Que disse que sim. Com a adesão das outras câmaras assegurada, estava aberto o caminho para uma candidatura do Minho a região Europeia da Cultura. Porém, dias depois, a Câmara de Braga daria o dito por não dito, afastando-se da candidatura regional, em favor da apresentação de uma candidatura própria da cidade de Braga. Morria, de morte prematura, uma ideia generosa que poderia ajudar a cimentar uma identidade regional que quase não existe.

Seria uma cidade do Minho, e não a região, a ser designada CEC em 2012. Mas não seria Braga, mas sim Guimarães, que nem sequer tinha assumido a ambição de ser, tão cedo, Capital Europeia da Cultura. E era aí que estava a ironia.



(Mas, mesmo depois do anúncio da Ministra da Cultura, os responsáveis políticos de Braga não desistiram da sua ambição de alcandorar a sua cidade a capital cultural da Europa, mas já não apenas por um ano, que isso para eles era escasso contentamento: o seu limite era a eternidade. Poucos dias após a indicação de Guimarães, apresentavam um plano municipal em que se introduzia o conceito inovador de “capital permanente da cultura”, com que Braga se dispunha a participar na “construção da nova identidade europeia, sem perder a condição de cidade eterna e legenda da civilização ocidental”.)



Apesar de, até aí, Guimarães não ter equacionado a possibilidade de uma candidatura a CEC, o presidente António Magalhães logo notou que a cidade estava preparada para tamanho empreendimento. Quando lhe apontaram as câmaras e os microfones para perguntar que projectos é que Guimarães tinha para 2012, logo demonstrou que projectos culturais era o que não faltava a Guimarães, exemplificando com o projecto CampUrbis, que iria requalificar o bairro de Couros, com um Centro de Arte Contemporânea associado ao nome de José de Guimarães, e com a Casa da Memória, projectos que tinham sido concebidos no Campus de Azurém, no âmbito da cooperação informal entre a Câmara Municipal de Guimarães e a Universidade do Minho.

Foi então posto em marcha o processo da candidatura de Guimarães a Capital Europeia da Cultura em 2012, cujo desfecho já se conhecia: a decisão que contava era a do Governo português, a quem competia indicar a cidade portuguesa que iria assumir essa condição, e essa decisão já estava tomada e anunciada. Passado um mês, a Ministra da Cultura de Portugal apresentava o nome de Guimarães à União Europeia.

Por aqueles dias, as chamadas redes sociais ainda estavam muito verdes, mas a blogosfera vimaranense vivia tempos fervilhantes e muito interventivos. Mesmo quando seguia pela via satírica, levava-se a sério e, mais importante ainda, era levada a sério. Muitos de nós ainda recordarão que a maior discussão daqueles dias andou à volta da escolha do nome de um “comissário” para a CEC. Traçou-se um perfil: teria que ser alguém com projecção nacional e internacional e inquestionável ligação a Guimarães. Aventaram-se muitos nomes, mas os mais referidos foram os de Jorge Sampaio, José de Guimarães e… Paulinho Cascavel.

Foi criada um grupo de missão, com representação paritária da Câmara Municipal de Guimarães e do Ministério da Cultura, que avançou para o terreno, colhendo contributos de centenas de pessoas, ouvidas em dezenas de reuniões. No início de 2008, já estava nas mãos da União Europeia o dossier final da candidatura de Guimarães a Capital Europeia da Cultura em 2012.

Mas, aos dias iniciais quase frenéticos seguiu-se um tempo de quase paralisia, em que as nuvens ameaçadoras da crise financeira global começaram a pairar sobre o projecto, refreando algumas das expectativas mais entusiásticas. E os meses iam correndo, sem que se encontrasse o tão procurado “comissário” para a CEC e sem que se definisse o estatuto jurídico e o modelo de gestão da entidade que seria encarregada da concepção e da execução do programa da CEC. Só no final de Agosto de 2009 é que foi publicado o decreto que criava a Fundação Cidade de Guimarães. Um mês antes, tinha sido apresentada publicamente a presidente indigitada do seu Conselho de Administração, Cristina Azevedo, nome que suscitou alguma perplexidade, estampada numa pergunta: — Quem é?

Quase ninguém sabia de onde tinha saído a personalidade que iria encabeçar o projecto da Capital Europeia da Cultura. Mas algo já se sabia: era que estava longe de corresponder ao perfil de que tanto se tinha falado. Não tinha projecção nacional nem internacional e não tinha qualquer ligação conhecida a Guimarães. E era quem a conhecia que dava mostras de maior espanto com tal escolha. Era uma técnica da CCDRN, com fama de competente. Dizia-se que tinha a mais-valia de dominar a complexidade dos dossiers das candidaturas a fundos europeus, mas não se vislumbrava a dimensão do seu currículo cultural que a recomendasse para tais funções. Muitos desconfiavam que a escolha não tivesse sido ditada pela prudência, mas sim pelos insondáveis desígnios das decisões que se tomam à luz difusa de corredores e dos gabinetes palacianos da antiga capital do Império. Este é um mistério que alguém, um dia, esclarecerá.

O benefício da dúvida que lhe foi concedido durou pouco tempo. Os que em Guimarães trabalhavam na área da cultura não tardaram mais do uns dias a perceberam que tinha havido um incompreensível erro de casting. Manifestamente, a direcção geral da CEC não era empreendimento para quem tinha como únicas competências conhecidas as de se saber orientar pela estrutura labiríntica dos processos da candidatura a fundos europeus, aptidões que não eram essenciais para programar e organizar uma CEC, uma vez que não faltavam no mercado técnicos suficientemente competentes para desempenhar tais tarefas. O que era preciso era alguém com mundividência, densidade cultural, inteligência, golpe de asa e boa dose de senso comum.

O equívoco podia parecer de fácil resolução. Mas não era. Os estatutos da FCG eram um fato justo, feito à medida, concedendo ao Presidente do CA poderes manifestamente excessivos e dificilmente escrutináveis, tornando-o praticamente inamovível depois de provido no lugar. Incompreensivelmente, se não acautelavam minimamente os direitos das partes interessadas no processo, a Câmara de Guimarães e o Ministério da Cultura, blindavam criteriosamente a posição do Presidente do Conselho de Administração. Na altura, dizia-se que aquela obra teria sido desencantada pela pessoa que estava designada para o lugar, num escritório de advogados lisboeta especializado em cobranças difíceis, com a autarquia vimaranense a assumir uma única responsabilidade: a de liquidar a correspondente nota de honorários. Até hoje, ainda custa a perceber como é que tamanha aberração obteve a aprovação do Ministério da Cultura, da Câmara e da Assembleia Municipal de Guimarães. Outro mistério que algum dia se desvendará.

O que se seguiu foi o que todos sabemos, mais o que ainda não sabemos, mas que um dia se contará. Uma sucessão de tiros no pé, uma absoluta incompreensão da realidade local, uma estratégia de comunicação desastrosa. Uma auto-suficiência teimosa, que persistia em ignorar os sinais de desencanto da cidade, dos cidadãos, da Câmara Municipal e do Ministério da Cultura. A Capital Europeia da Cultura de Guimarães parecia destinada ao naufrágio.

Mas não foi isso que aconteceu. Postos perante a eminência do malogro, os vimaranenses assumiram a causa da Capital Europeia da Cultura e forçaram a nau a entrar na rota certa, vencendo a tormenta e alcançando bom porto e terra firme.

E foi o que se viu: Guimarães levantou-se e andou.


***************

Disponíveis para download, juntos e em pdf, os textos das Memórias de Araduca sobre o processo da CEC2012:



Partilhar: