8 de junho de 2016

Ser da rua Nova



Eu nasci há cinquenta anos na Rua Nova, hoje chamada Egas Moniz. Eu nasci no meio de prostitutas, nasci no meio de bandidos e gente com pistolas na cinta, nasci no meio de tascos, nasci numa rua que não tinha saneamento, que não tinha água, que era em terra.
Amadeu Portilha, vice-presidente da Câmara Municipal de Guimarães. In Revista Rua, n.º 4, Junho de 2016

Não começasse a citação que vai acima pela contextualização no tempo e no espaço do que se dirá a seguir, e éramos capazes de ficar a pensar se a cidade de que se fala não se situaria algures no remoto faroeste do tempo dos cowboys. Uma rua em terra, sem água nem saneamento e povoada de prostitutas, bandidos e gente de pistola à cinta, em meados da década de 1960 é muito difícil de conceber numa cidade de um país civilizado e, muito menos ainda, num pequeno país situado no extremo ocidental da Europa, onde imperava uma ditadura nada branda, mas muito extremosa nos seus cuidados que aplicava na conservação dos brandos costumes da sua sociedade. Uma rua assim não existia na Guimarães de que tenho memórias muito vivas, que remetem para o início da década de 1970, muito menos a poucas dezenas de metros da casa onde então vivia, na rua Dr. Avelino Germano, a que o nosso povo persiste em continuar a chamar de Tulha.
Já várias vezes o disse e escrevi. As memórias vividas e contadas não são retratos objectivos da realidade. São construções mentais que convocam muito mais do que o que realmente aconteceu e se viu. Regra geral, são acrescentadas daquilo que, por qualquer razão, se passou a acreditar que aconteceu e que não passam de agregados de efabulações sobre um fundo com visos de realidade. É por isso que os historiadores nunca utilizam as narrativas de memórias como fontes únicas daquilo que escrevem.
Da rua Nova, também conhecida, consoante os tempos, como rua Nova do Muro, rua Nova do Comércio ou rua Egas Moniz, já falam os documentos desde a Idade Média. Era uma rua com um estatuto social acima da média, onde predominavam clérigos e mercadores. Segundo apurou a medievalista Conceição Falcão Ferreira, as rendas que ali se pagavam eram das mais elevadas de toda a vila. Todavia, os documentos são omissos quanto ao seu calcetamento, sendo muito provável que a rua fosse, naquele tempo, de terra batida, situação que se terá mantido até ao início do ano de 1664, quando a Câmara adjudicou a dois pedreiros da vila, os trabalhos da calçada da rua Nova, feita com “pedra dura e grande”. Está a rua nova empedrada há mais de 350 anos, portanto.
Quanto ao abastecimento público de água à cidade de Guimarães, alimentado com água conduzida desde a serra da Penha, foi inaugurado em 1904, sendo, o sistema regulado pelo Regulamento municipal de fornecimento e consumo de águas em Guimarães, em que se afirmava que a Câmara estava em condições de fornecer aos proprietários e inquilinos água potável e para usos domésticos para quaisquer prédios situados nas ruas onde houver canalização geral, que começou por abranger às artérias do casco urbano onde a rua Nova se incluía. Portanto, a água canalizada na rua Nova terá mais de um século.
Já quanto à rede de saneamento as informações disponíveis são mais lacónicas. São recorrentes os projectos de instalação de um sistema de esgotos, desde a década de 1930 e, em particular, a partir da criação dos Serviços Municipalizados de Água e Saneamento de Guimarães, em 18 de Dezembro de 1944. No entanto, boa parte cobertura da mancha urbana central com rede de saneamento terá acontecido a partir de 1971. Em Janeiro desse ano foi lançada a empreitada de saneamento da rua de Santa Maria, praça da Oliveira, praça de S. Tiago e rua Dr. Alfredo Guimarães”. É, portanto, possível que a rua Nova há 50 anos ainda não estivesse servida pela rede de saneamento público, o que não significa que ali ainda se praticasse o ritual medieval dos despejos para a rua ao anúncio de água-vai.
Mas o que menos se percebe das declarações do actual vice-presidente da Câmara Municipal de Guimarães não é o que diz sobre o chão ou a água ou os esgotos da rua Nova. O que mais choca é o retrato insensato que faz das pessoas que lá viviam há meio século, revelador de inusitada leviandade e de uma insensibilidade social absolutamente incompreensível num político com tais responsabilidades. Tenho bons amigos, de diferentes gerações, que ali nasceram e cresceram e que têm orgulho por terem origens numa rua habitada por gente humilde que lutava por dar uma vida digna aos seus filhos e que agora têm todos os motivos para se sentirem magoados e ofendidos com os rótulos de prostitutas, bandidos e pistoleiros tão levianamente colados a si próprios e às pessoas com quem cresceram. Familiares, amigos, vizinhos.
A entrevista está carregada de afirmações grandiloquentes, categóricas e auto-satisfeitas, muitas delas mal ancoradas na realidade e injustas para muitos dos protagonistas da governação municipal desde o 25 de Abril (e mesmo alguns dos anteriores a essa data), puxando de galões que, com um pouco de humildade de democrática, facilmente perceberia que não lhe pertencem, em grande parte assentes na construção de uma narrativa que não encaixa na cronologia dos factos (como quando diz: “há 25 anos pegamos no centro histórico que era um gueto onde as pessoas não gostavam de ir”), com os quais, obviamente, não concordo. Mas há uma afirmação com que concordo em absoluto, embora sinceramente o lamente. É a que foi puxada para título da entrevista:
“A política precisa de gente credível.”
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5 de junho de 2016

A Nossa Penha


O primeiro foi sobre os vimaranenses, o segundo sobre o trabalho, o terceiro, que ainda cheira a tinta fresca, é sobre a nossa Penha. São os Cadernos de Imagem da Secção de Fotografia do Cineclube de Guimarães, mas não são bem cadernos. Como nas edições anteriores, o Caderno de Imagens 3 é um livro, desta vez com muito verde, desenhado pelo Cláudio Rodrigues, e uma exposição, que está aberta no Museu da Sociedade Martins Sarmento. A não perder (depois, não digam que foi por falta de aviso…).

Do texto que escrevi para o "caderno", deixo aqui as primeiras linhas:

Cidade que se preze da sua condição tem que ter um lugar que, pela sua altura, se impõe no horizonte próximo. A montanha sagrada, aquele lugar da paisagem onde a terra se introduz pelo céu adentro. A de Guimarães chama-se Santa Catarina, mas o povo deu-lhe nome de pedra bruta, de rochedo, imóvel, inamovível e imutável: é a Penha, o triângulo rochoso que o homem pintou de verde e que se recorta no horizonte, servindo-nos de farol sempre que nos aproximámos de casa. Pelo seu corpo, de compleição rude e bravia, emaranham-se as veias por onde escorre, essencial e límpida, a água que sustenta de vida a terra e as gentes que se espalham pelo território que se alarga a seus pés. A Penha é a varanda onde, nos dias calmosos e de céu límpido que se seguem às tempestades, o nosso olhar se espraia pelas lonjuras do horizonte e alcança o mar.
A Penha é a muralha que protege Guimarães do vento leste e lhe faz chegar a luz do Sol nascente. Muitas vezes, aparece envolvida num manto branco de nuvens, de onde aflora o templo que Marques da Silva desenhou e que aponta o firmamento. Outras vezes, muito mais raras, cobre-se de uma outra brancura, que não é feita de nevoeiro, mas de cristal. Como aconteceu naquele memorável Fevereiro de 1853, em que nas terras de Basto a neve atingiu a altura de um homem, em que Fafe as árvores e casas não resistiam ao peso da neve, e em que do Marão nada se sabia, a não ser que os lobos vinham fugindo de lá. Por esses dias a serra de Santa Catarina cobriu-se com um manto tão espesso que os que por lá moravam tinham que abrir buracos nas casas para poderem passar comida uns aos outros. Mas essa terá sido a excepção: por regra, as gentes de Guimarães da neve na Penha só guardam imagens de encantamento e folguedo.
Da Catarina que lhe deu o nome, diz a lenda que atravessou os séculos que era uma jovem pastora, que conduzia pelas penedias da serra um rebanho de ovelhas tão imenso que chegava a cobrir de branco o cume do monte. […]

O resto (e muito mais e muito melhor) está na exposição e no livro, que está à venda no local da exposição, juntamente com os das duas primeiras edições.

As fotografias de Ana Catarina Pinho, Benjamim Ribeiro, Carlos Mesquita, Maria Oliveira, Sílvia Martins, Rogério Martins e Miguel Oliveira, e os textos de Paulo Vieira de Castro, Roriz Mendes, Francisco Brito, António Amaro das Neves, António Emílio Ribeiro e Carlos Poças Falcão.

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