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Mensagens

A mostrar mensagens de Maio, 2016

E falar português, vai desejar?

A utilização saloia do inglês também é típica destes tempos: porque é que escrevemos "on-line" quando não dava trabalho nenhum escrever "em linha"? Olhem em volta para os anúncios: ele é o "retail park", o "express shopping", as férias "low cost" (esta é particularmente significativa: nenhum português faz férias de "baixo custo" ou "baratas"; mesmo que as passem na Cova do Vapor, passam-nas em inglês). A melhor explicação para esta substituição do português pelo imbecilês é o novo-riquismo. Paulo Varela Gomes, “E falar português, vai desejar”, in Público,  24 de Julho de 2010 O que vai aí acima é um pedaço de uma crónica de Paulo Varela Gomes, com o título E falar português, vai desejar?, que saiu no Público em Julho de 2010. Quando a li pela primeira vez, lembrei-me de uma história que alguém me havia contado algum tempo antes e que, contada por quem a contou, só podia ser verdadeira. Conto-a como ma contaram: aí por…

Onde pára o pedestal?

Em Maio de 1940, a estátua de D. Afonso Henriques, que se encontrava no Toural desde 1911, foi apeada e conduzida para o parque do Castelo, onde seria erigida no local onde ainda hoje se encontra. Foi então colocado no actual pedestal lavrado em granito fino. Até hoje, não consegui saber que destino levou o pedestal original, lavrado em mármore branco, criado por Soares dos Reis como parte integrante do monumento a Afonso Henriques. Mas não é o pedestal o único elemento em falta junto do monumento. Nas Gualterianas de 1911, quando a Guimarães da Primeira República assinalou o sétimo centenário do nascimento do primeiro rei, foi colocada na base do monumento uma placa comemorativa com os seguintes dizeres: Guimarães a D. Afonso Henriques no VIII centenário do seu nascimento VI – VIII – MCMXI
Ao descerrar aquela lápide, pretendia-se “perpetuar esta homenagem prestada ao fundador da nacionalidade portuguesa”. No entanto, a memória da homenagem dos homens e das mulheres de Guimarães de 1911 não…

Mortos vivos

É um dos medos mais recorrentes entre o comum dos mortais: acordar um dia de um sono profundo e perceber que se está debaixo de terra, encerrado dentro de quatro tábuas. Contavam-se histórias de sepulturas exumadas onde se encontravam cadáveres que se tinham movido, com os dedos encrespados e o caixão com sinais evidentes de tentativas desesperadas para o abrir a partir de dentro por quem, julgando-se morto, tinha sido enterrado vivo. Este receio, sustentado em factos verídicos, não afectava apenas mentes supersticiosas, sendo partilhado por pessoas reconhecidamente racionais que, com alguma razão, não tinham suficiente confiança nas determinações da ciência médica. Esse era o caso, por exemplo, do arqueólogo Francisco Martins Sarmento, que no seu testamento deixou instruções para prevenir a possibilidade de ter que passar por tal provação: o seu funeral apenas deveria acontecer quando transcorridos dois dias após a sua morte e o seu óbito deveria ser confirmado por dois médicos que, …

Na cidade: a exposição

Até ao próximo dia 10 de Julho, estará patente na extensão do Museu de Alberto Sampaio, na praça de S. Tiago, em Guimarães, uma exposição de fotografia em que a associação Muralha mostra mais uma notável colheita de fotografias antigas de Guimarães, das muitas que se guardam na sua colecção. Uma exposição que, se vale muito pela imagem de conjunto que nos dá de uma cidade que, em parte, ainda aí está e que, em parte, já desapareceu, vale acima de tudo pelo fascínio dos detalhes, muitos deles surpreendentes. Uma exposição não perder, por todas as razões e mais as que descobrirão os olhos dos que as visitarem.
Entretanto, aqui fica um dos pequenos textos que consumaram a minha pequena contribuição para esta iniciativa, correspondendo a um desafio do meu amigo Rui Vítor Costa.

A Cidade, no início do século XX Nas primeiras linhas de Húmus, Raul Brandão descreve a Vila que servirá de pano de fundo à sua obra-prima:
Uma vila encardida – ruas desertas – pátios de lajes soerguidas pelo único esf…

Guimarães em 1864

A fechar a série de textos que o historiador e arqueólogo Inácio de Vilhena Barbosa dedicou aos monumentos e às praças de Guimarães, que vieram inicialmente a lume nas páginas da revista Arquivo Pitoresco, publicámos aquele em que traça uma panorâmica geral da cidade, da sua história, da sua economia e do seu património, ilustrado por uma gravura que reproduz uma vista geral de Guimarães tomada a partir de um dos seus miradouros mais privilegiados, os jardins do palacete de Vila Flor. Com este texto, que complementa os restantes onze que aqui divulgámos ao longo das últimas semanas, se conclui uma revisitação de Guimarães em meados do século XIX, marcada por uma escrita de primeira água e por um rigor histórico até aí desconhecido nos estudos sobre Guimarães e que muitos dos que o viriam a repetir, sem o citar, não almejaram alcançar. Um texto cuja leitura se recomenda a todos os que se interessam pela história e pelo património de Guimarães.
Cidade de Guimarães A história da fundação de…

S. Francisco em 1866

O último dos textos sobre os espaços e os monumentos de Guimarães que Inácio Vilhena Barbosa publicou na revista Arquivo Pitoresco saiu em 1866 e trata do convento e das igrejas de S. Francisco, ou seja, da igreja do convento e da capela da Ordem Terceira, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Fala da fundação do convento, no início do século XIII e dos locais onde esteve implantado (primeiro no sítio de Vila Verde, depois dentro da muralha, nas imediações da Torre Velha, no lugar onde depois seria implantado o Hospital do Anjo, e, por último, em lugar mais apartado da muralha que cercava a vila, que é aquele onde o encontrámos hoje).

S. Francisco Diz o cronista da ordem seráfica da província de Portugal que, vindo a este reino S. Francisco de Assis, em companhia do seu discípulo S. Gualter, e partindo ambos daqui em romaria a S. Tiago de Compostela, na sua passagem por Vila Verde, junto de Guimarães, fundou aí o primeiro daqueles santos uma casa de oração e nela deixou para servir a D…

O Carmo em 1862

No seu itinerário pelos monumentos de Guimarães, Inácio de Vilhena Barbosa também se deteve no convento de Santa Teresa ou de S. José ou do Carmo, que foi recolhimento das carmelitas calçadas e depois recolhimento de crianças desvalidas sob invocação de Santa Estefânia, em homenagem à rainha D. Estefânia, consorte de D. Pedro V. Nos dias em que o historiador o conheceu, o terreiro Carmo estava longe de ser o jardim bem ordenado que agora preenche o largo Martins Sarmento. Era delimitado pela rua da Infesta que, prolongando a rua de Santa Maria, passava em frente ao Convento, e pela rua do Poço, que dava continuidade à rua do Gado (actual ruas das Trinas). Ambas juntavam na rua da Porta de Santo António, que dava passagem para a antiga Vila Velha de Guimarães, onde estão o Castelo e o Paço dos Duques. Quase pela mesma altura em que Vilhena Barbosa escrevia, o Eng. Almeida Ribeiro, no seu plano para a cidade de Guimarães, descreveu o espaço do terreiro do Carmo como um dos que oferecem m…