22 de maio de 2016

E falar português, vai desejar?

A utilização saloia do inglês também é típica destes tempos: porque é que escrevemos "on-line" quando não dava trabalho nenhum escrever "em linha"? Olhem em volta para os anúncios: ele é o "retail park", o "express shopping", as férias "low cost" (esta é particularmente significativa: nenhum português faz férias de "baixo custo" ou "baratas"; mesmo que as passem na Cova do Vapor, passam-nas em inglês).
A melhor explicação para esta substituição do português pelo imbecilês é o novo-riquismo. 
Paulo Varela Gomes, “E falar português, vai desejar”, in Público,  24 de Julho de 2010
O que vai aí acima é um pedaço de uma crónica de Paulo Varela Gomes, com o título E falar português, vai desejar?, que saiu no Público em Julho de 2010. Quando a li pela primeira vez, lembrei-me de uma história que alguém me havia contado algum tempo antes e que, contada por quem a contou, só podia ser verdadeira. Conto-a como ma contaram: aí por 2009, aquando dos trabalhos preparatórios da Capital Europeia da Cultural de 2012, numa reunião em que participavam operadores turísticos, alguém bem-intencionado terá afirmado que um dos entraves à afirmação de Guimarães no mercado turístico internacional resultava do nome da terra, de articulação reconhecidamente arrevesada para os falantes de línguas estrangeiras, avançando com a ideia de que se deveria ponderar a mudança do nome da cidade para um formato mais acessível a estrangeiros.

Por estes dias, retomei as crónicas de Paulo Varela Gomes, agora em livro (Ouro e Cinza, da editora Tinta da China, cuja leitura recomendo). Quando reli esta de que aqui falo, percebi que todos os anos que já passaram desde que foi escrita não lhe retiraram actualidade, muito pelo contrário. Nos últimos tempos, a moda de substituir a língua Camões por barbarismos vem-se tornando numa monomania nacional. Paulo Varela Gomes classificou-a como manifestação de novo-riquismo, eu acrescentaria que se trata de uma demonstração de falta de auto-estima e de subserviência, perfeitamente dispensável, mas de que não faltam exemplos.

Para não ir mais longe, basta olhar para o que se vai passando em Guimarães, com uma frequência crescente. Quando a polémica da Torre da Alfândega estava na ordem do dia, um partido da oposição local avançou com uma proposta para instalação de um “welcome center” naquele monumento. Passado um mês, foi inaugurado numa das lojas do antigo mercado um “welcome centre”… Eu bem sei que há um oceano (o Atlântico) a separar um center de um centre e que já muito se escreveu sobre o assunto. Mas, seja center, ou centre seja, será que havia mesmo necessidade de baptizar o novo serviço de informação a turistas com nome alienígena? Eu sei que centro de acolhimento é capaz de não soar muito bem, por trazer à lembrança cenários de refugiados e de outras catástrofes. Mas, sendo com um léxico tão rico como o nosso, seria assim tão difícil encontrar-lhe um nome em português, e chamar-lhe centro, casa ou espaço de boas-vindas? Ou, simplesmente, sala de visitas?

(e depois, vá lá, em letras mais miudinhas, colocar welcome centre, welcome center, centro de bienvenida, centre d'accueil, karşılama merkezi, markaz alttarhib, dobro pozhalovat' tsentr e o mais que lá coubesse, das muitas possibilidades que o tradutor do Google oferece)

Agora anuncia-se que Guimarães vai acontecer um (ou uma?) “Green Weekend”. Segundo a informação divulgada, será acompanhada por workshops e ateliers. Não se diz se haverá coffee breaks, mas é certo que não faltará street food. Anuncia-se que a iniciativa tem o objectivo de “promover a sensibilização e a consciencialização da comunidade para as questões ambientais”, e eu não tenho motivos para duvidar que assim seja. Mas, perante tal título, gente que ainda pense em português é capaz de supor que o “Green Weekend” vai ser uma iniciativa para inglês ver.
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21 de maio de 2016

Onde pára o pedestal?

Monumento a D. Afonso Henriques, no Toural, na década de 1920. Na base do pedestal de mármore (original), a placa comemorativa de 1911.

Em Maio de 1940, a estátua de D. Afonso Henriques, que se encontrava no Toural desde 1911, foi apeada e conduzida para o parque do Castelo, onde seria erigida no local onde ainda hoje se encontra. Foi então colocado no actual pedestal lavrado em granito fino. Até hoje, não consegui saber que destino levou o pedestal original, lavrado em mármore branco, criado por Soares dos Reis como parte integrante do monumento a Afonso Henriques.
Mas não é o pedestal o único elemento em falta junto do monumento. Nas Gualterianas de 1911, quando a Guimarães da Primeira República assinalou o sétimo centenário do nascimento do primeiro rei, foi colocada na base do monumento uma placa comemorativa com os seguintes dizeres:
Guimarães a D. Afonso Henriques
no VIII centenário do seu
nascimento
VI – VIII – MCMXI

Ao descerrar aquela lápide, pretendia-se “perpetuar esta homenagem prestada ao fundador da nacionalidade portuguesa”. No entanto, a memória da homenagem dos homens e das mulheres de Guimarães de 1911 não se perpetuaria. Estas, como outras placas comemorativas que, em tempos, estiveram junto do monumento a Afonso Henriques, foram arrumadas, talvez para evitar algum ruído na estética do local, talvez para abrir espaço para a memória de outras homenagens, mais contemporâneas.
Aqui fica, novamente, uma pergunta que já colocquei várias vezes: onde pára o pedestal? Será que está feito em soleiras de portas?
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18 de maio de 2016

Mortos vivos

Antoine Wiertz, O Enterro prematuro, 1854. Bruxelas, Royal Museums

É um dos medos mais recorrentes entre o comum dos mortais: acordar um dia de um sono profundo e perceber que se está debaixo de terra, encerrado dentro de quatro tábuas. Contavam-se histórias de sepulturas exumadas onde se encontravam cadáveres que se tinham movido, com os dedos encrespados e o caixão com sinais evidentes de tentativas desesperadas para o abrir a partir de dentro por quem, julgando-se morto, tinha sido enterrado vivo. Este receio, sustentado em factos verídicos, não afectava apenas mentes supersticiosas, sendo partilhado por pessoas reconhecidamente racionais que, com alguma razão, não tinham suficiente confiança nas determinações da ciência médica. Esse era o caso, por exemplo, do arqueólogo Francisco Martins Sarmento, que no seu testamento deixou instruções para prevenir a possibilidade de ter que passar por tal provação: o seu funeral apenas deveria acontecer quando transcorridos dois dias após a sua morte e o seu óbito deveria ser confirmado por dois médicos que, após a confirmação, lhe deveriam cortar as artérias carótidas. Se a fatalidade da morte o não atormentava, não suportava a ideia de ser sepultado vivo.
No século XIX, com a crescente popularidade da imprensa, as notícias de mortos que, afinal, estariam vivos quando foram dados à terra, eram relativamente frequentes. Assim como eram frequentes as que relatavam casos de pessoas dadas como falecidas e que se erguiam, durante os seus velórios, com desmedido susto para os que as velavam. Este medo era também alimentado por obras literárias que se tornaram muito populares, como O Enterro Prematuro, de Edgar Allan Poe. Por aqueles tempos, na Inglaterra, havia mesmo quem fosse sepultado em “caixões de segurança”, dotados de um mecanismo de alerta que seria accionado caso a sua morte fosse apenas aparente, que funcionava de um modo muito simples: na sua sepultura era instalada uma sineta onde estava preso um cordel que seria amarrado aos dedos da mão ou do pé do defunto. Se este se mexesse, o sino tocava, alertando quem lhe providenciaria o socorro.
Esquema de funcionamento de um "caixão de segurança".
Nas páginas dos jornais de Guimarães encontram-se diversos relatos de ocorrências com mortos que, afinal, estavam vivos, como aconteceu com Antónia Amélia, cuja ressurreição foi contada pelo jornal Religião e Pátria de 12 de Novembro de 1862, na notícia que a seguir se transcreve.

Morta sem o estar!
Vamos narrar um facto digno de sérios comentários. Por ele se verá-quanto é necessária a maior circunspecção e prudência a respeito enterramento de qualquer pessoa, e quanto é útil e aproveitável a lei que determina que aos mortos se não dê sepultura antes de passarem 24 horas depois do seu falecimento.
A exma. sra. D. Antónia Amélia Pinheiro da Silva Rocha, irmã do nosso amigo o ilmo. sr. Manuel Pinheiro da Silva Rocha, de Sta. Cristina de Arões, já há muito gravemente enferma duma inflamação intestinal, depois duma demorada febre gástrica, teve, num dos dias da semana passada, um violento espasmo nervoso, que lhe durou 2 noites e 1 dia. Passava-se isto na Póvoa de Varzim, para onde ela tinha ido acompanhada de algumas pessoas da família. Durante este estado, conservou sempre todos os sinais de morte — olhos fechados, corpo e pulso frio, o braço e a mão esquerda muito inchados e roxos etc. A família, aterrada com a sinistra ideia de morte, participou para esta cidade aquele suposto falecimento e ordenou que marchassem para lá umas andas, que conduzissem para aqui o cadáver, e que se lhe preparasse o funeral na capela das freiras de N. Sra. de Madre de Deus, vulgo— Capuchinhas. Estava pois tudo disposto para o enterramento — e já as andas iam às Necessidades, pequena distância da Póvoa —, quando a morta ressuscita e chama por sua extremosa mãe. Mais tarde um pouco, e aquela infeliz senhora seria, ainda em vida, dada em pasto aos vermes do sepulcro.
Tire-se pois daqui a ilação conveniente e haja mais cuidado e circunspecção em não adiantar o enterramento de qualquer pessoa.
Quantos infelizes terão ido morrer debaixo da lousa sepulcral!

Religião e Pátria, 12 de Novembro de 1862
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17 de maio de 2016

Na cidade: a exposição

Fotografia tirada a partir da actual avenida D. Afonso Henriques, algures entre 1926 e 1931. Ao fundo, a torre da Alfândega tapada por um painel publicitário da Vacuum Oil, colocado no Verão de 1926. Os plátanos  da Avenida, aqui visíveis, foram cortados no final de 1931.

Até ao próximo dia 10 de Julho, estará patente na extensão do Museu de Alberto Sampaio, na praça de S. Tiago, em Guimarães, uma exposição de fotografia em que a associação Muralha mostra mais uma notável colheita de fotografias antigas de Guimarães, das muitas que se guardam na sua colecção. Uma exposição que, se vale muito pela imagem de conjunto que nos dá de uma cidade que, em parte, ainda aí está e que, em parte, já desapareceu, vale acima de tudo pelo fascínio dos detalhes, muitos deles surpreendentes. Uma exposição não perder, por todas as razões e mais as que descobrirão os olhos dos que as visitarem.

Entretanto, aqui fica um dos pequenos textos que consumaram a minha pequena contribuição para esta iniciativa, correspondendo a um desafio do meu amigo Rui Vítor Costa.


A Cidade, no início do século XX
Nas primeiras linhas de Húmus, Raul Brandão descreve a Vila que servirá de pano de fundo à sua obra-prima:

Uma vila encardida – ruas desertas – pátios de lajes soerguidas pelo único esforço da erva – o castelo – restos intactos de muralha que não têm serventia: uma escada encravada nos alvéolos das paredes não conduz a nenhures. Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos interstícios das pedras e delas extrai suco e vida. A torre – a porta da Sé com os santos nos seus nichos – a praça com árvores raquíticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na humidade.

Sem esforço de imaginação se percebe que este é um retrato da Guimarães na viragem de oitocentos que o escritor bem conhecera e muito diferente da imagem romântica que guardámos.

No início do século XX, Guimarães era, para os que a habitavam, uma cidade decrépita, atravessada por um emaranhado de ruas, vielas e recantos escuros e insalubres, onde já muito tardava a modernidade, que lhe recortaria avenidas largas e praças amplas e luminosas. Se havia uns quantos monumentos, como o Castelo ou Colegiada, venerados como reminiscências de um passado glorioso, o mais que persistiam eram antigualhas sem serventia, velhas cicatrizes que não deviam ser expostas. Como aquele pedaço de muro da torre da Alfândega, feito de granito toscamente aparelhado.

Feia coisa, muitos pensaram. Cubra-se, alguém disse.

Assim se emparedou o que sobrava da única torre da velha cerca de muralhas de Guimarães que resistiu ao desmonte para empedramento das ruas. Com uma camada de reboco e outra de tinta branca, a antiga adquiriu nova feição e uma utilidade acomodada aos tempos modernos. Guimarães ganhou um painel publicitário.

Por aqueles tempos, as velhas cidades portuguesas engalanavam-se para saudarem o progresso que ia chegando ao som de fanfarras e foguetes. Assim sucedeu quando o povo de Braga, ignorando os protestos de alguns dos seus concidadãos mais esclarecidos, aclamou festivamente o derrube da muralha romana, então percebida como um espartilho que atrasava o advento do progresso na antiquíssima cidade dos arcebispos.

É certo que em Guimarães existia uma consciência patrimonial colectiva que velava pela salvaguarda dos padrões da sua identidade. Mas no património a salvaguardar não se incluíam as casas nem as ruas estreitas, sinuosas e insalubres do espaço a que hoje chamámos centro histórico. Se a Guimarães faltavam praças espaçosas, ruas arejadas e avenidas largas preparadas para acolherem a circulação dos novos meios de transporte motorizados que se anunciavam, não lhe faltaram projectos para beneficiar de tais melhoramentos. E não foi a consciência patrimonial vimaranense que impediu a concretização de tais melhoramentos.

A poucos, provavelmente a ninguém, Guimarães deve tanto no que toca ao estudo de da divulgação da sua história e do seu património como ao Abade de Tagilde, João Gomes de Oliveira Guimarães. Em 1906, no exercício das funções de Presidente da Câmara, gizou um programa de renovação urbanística que envolvia demolições extensas, com o muito saudado propósito de alargar ruas e praças. Se tais projectos nunca saíram do papel, foi pelas razões do costume: falta de dinheiro, inércia e agendas políticas (raramente o senhor que se segue assume os projectos de quem o antecedeu). Em boa hora: se estes empreendimentos, e outros que se seguiram, tivessem sido concretizados, Guimarães até poderia ser hoje uma cidade mais moderna, mas dificilmente seria Património Mundial.

Aspecto da exposição. Fotografia de Paulo Pacheco.

NA CIDADE
A Colecção de Fotografia da Muralha no Museu de Alberto Sampaio (MAS)
De 12 de maio a 10 de Julho
Extensão do MAS, Praça de S. Tiago, Guimarães.

Exposição organizada por Alexandra Xavier, Miguel Oliveira, Nuno Vieira e Rui Vítor Costa, com imagens da colecção de Fotografia da Muralha e textos de António Amaro das Neves, António José Oliveira, Célia Pontes, Isabel Fernandes, Maria José Meireles, Miguel Bastos, Miguel Frazão e Rosa Maria Saavedra.
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Guimarães em 1864

A cidade de Guimarães, vista a partir dos jardins de Vila Flor. Gravura de autor desconhecido tirada a partir de fotografia de Antero Frederico de Seabra. Arquivo Pitoresco, 1864, p. 377
[clicar na imagem, para ampliar]

A fechar a série de textos que o historiador e arqueólogo Inácio de Vilhena Barbosa dedicou aos monumentos e às praças de Guimarães, que vieram inicialmente a lume nas páginas da revista Arquivo Pitoresco, publicámos aquele em que traça uma panorâmica geral da cidade, da sua história, da sua economia e do seu património, ilustrado por uma gravura que reproduz uma vista geral de Guimarães tomada a partir de um dos seus miradouros mais privilegiados, os jardins do palacete de Vila Flor. Com este texto, que complementa os restantes onze que aqui divulgámos ao longo das últimas semanas, se conclui uma revisitação de Guimarães em meados do século XIX, marcada por uma escrita de primeira água e por um rigor histórico até aí desconhecido nos estudos sobre Guimarães e que muitos dos que o viriam a repetir, sem o citar, não almejaram alcançar.
Um texto cuja leitura se recomenda a todos os que se interessam pela história e pelo património de Guimarães.

Cidade de Guimarães
A história da fundação de Guimarães e seus primeiros progressos está incluída na da colegiada de Nossa Senhora da Oliveira e na do castelo da condessa D. Mumadona. Seria pois superfluidade repetir aqui o que dissemos largamente acerca destes dois monumentos a pág. 353 do vol. IV e 204 do vol. VI.
Já sabem, portanto, os nossos leitores como a vila de Guimarães nasceu e prosperou à sombra dos muros protectores da casa de Deus, e da praça de guerra; como o conde D. Henrique de Borgonha, e sua mulher, a rainha D. Teresa, entrados na posse do condado de Portugal, vieram estabelecer a sua corte em Guimarães, e a sua habitação no castelo da condessa D. Mumadona. Sabem também que neste castelo, em um palácio que hoje apenas alcançaria o título de humilde casa burguesa, teve o berço o nosso primeiro rei e um dos mais esforçados campeões que houve naquela idade.
Sabem, finalmente, que D. Afonso Henriques, muito antes de receber dos seus soldados o título de rei de envolta com os louros de uma grande vitória, fora cercado naquela fortaleza por seu primo, D. Afonso VII, rei de Leão e de Castela, que o queria obrigar a render-lhe vassalagem. Também já referimos a lenda do velho e fiel aio D. Egas Moniz, quando empenhou a sua palavra para afastar os inimigos da presença do seu príncipe, e que depois ofereceu a própria vida e a de sua mulher e filhos em holocausto da palavra não cumprida.
Não desfrutou Guimarães por muitos anos as regalias e vantagens de corte. D. Afonso Henriques, impelido pelo braço da Providência, que o destinara para resgatar Portugal do jugo mauritano, transferiu a sua corte para Coimbra logo que principiou a estender as suas empresas pela Estremadura e Alentejo, ainda em poder dos sarracenos.
A religião indemnizou, porém, a vila do que a política lhe fez perder. À maneira que a espada gloriosa de D. Afonso Henriques dilatava os limites da nascente monarquia, arremessando para longe as hostes agarenas, afluíam a Guimarães cada vez mais os romeiros e peregrinos, vindos de muitas léguas em derredor, e até da Galiza, para venerarem a sagrada e milagrosa imagem de Nossa Senhora da Oliveira.
Foi crescendo a devoção com a fama dos milagres, e assim também se engrandeceu a vila sob a protecção da Virgem, estabelecendo-se nela muitas famílias nobres, e algumas ordens religiosas.
No meio destas prosperidades veio açoitá-la o flagelo da guerra; a primeira vez, nas discórdias que rebentaram entre el-rei D. Dinis e o infante D. Afonso, seu filho e sucessor1; a segunda, na luta da independência de Portugal travada entre o mestre de Avis e D. João I de Castela.
Foi durante este período de cem anos que el-rei D. Dinis e seu filho D. Afonso IV cercaram de muros a nova vila de Guimarães, aos quais el-rei D. João i acrescentou várias torres.
No século seguinte (XV) enobreceu a vila com um grandioso palácio o conde de Barcelos, D. Afonso, ao diante 1.° duque de Bragança, filho bastardo de el-rei D. João I. Referir que este príncipe ia de vez em quando passar temporadas a este palácio; que nele habitou depois de viúva, e aí faleceu, a duquesa D. Constança de Noronha, sua segunda mulher, neta pela parte paterna de D. Henrique II, rei de Castela, e pela materna de el-rei D. Fernando de Portugal; e que outros príncipes desta família ali viveram, ainda que em residência temporária, equivale a dizer que a vila de Guimarães assumia nessas ocasiões o aspecto animado e esplêndido de uma corte, tal era o fausto com que se tratavam os duques de Bragança, e tais o número e qualidades da criadagem que os servia2. Além disto, recebeu por várias vezes as visitas dos nossos soberanos.
Foi seu primeiro donatário D. Fr. Álvaro Gonçalves Camelo, por mercê de el-rei D. João I, no ano de 1403. Vagando depois para a coroa, foi dado este senhorio por el-rei D. Afonso V a D. Fernando, 1.° do nome e 2.° duque de Bragança; e ao filho primogénito deste, também D. Fernando, foi concedido por essa ocasião o título de conde de Guimarães, que mais tarde foi elevado a duque.
O século XVI foi para esta vila um misto de festas e tristezas, de ventura e de infortúnio. Tendo casado o infante D. Duarte, filho de el-rei D. Manuel, com D. Isabel, filha de D. Jaime, 4.° duque de Bragança, que lhe trouxe em dote o senhorio e palácio de Guimarães, intitulou-se aquele príncipe duque de Guimarães, título e senhorio em que lhe sucedeu seu filho D. Duarte, por cuja morte foram incorporados na coroa.
Passado algum tempo depois do seu consórcio, foram os reais noivos recebidos nesta vila e obsequiados durante a sua permanência nela com toda a sorte de galas e festejos usados nesses tempos. E, enquanto o povo assim folgava, desenvolviam-se a indústria manufactora e o comércio, incitados e alimentados pela navegação do alto mar, fruto dos descobrimentos e conquistas verificados no decurso de cem anos.
Porém, as pestes que assolaram Portugal neste mesmo século XVI converteram por vezes em dor e luto todas aquelas alegrias e felicidades, dizimando cruelmente a população da vila, sobretudo na chamada grande peste do ano de 1569, que fez mais de duas mil vítimas dentro dos muros de Guimarães, isto é, roubou-lhe metade dos habitantes que então encerrava.
O jugo de Castela, as invasões dos holandeses e franceses no Brasil e as guerras da restauração da nossa independência, apesar de que o inimigo não ousasse afrontar-lhe os muros, estagnaram o seu comércio e tornaram decadente a sua indústria fabril.
Com a entrada do século XVIII, volveram-lhe de novo os dias felizes, porque a descoberta das minas de oiro e diamantes do Brasil, fazendo reviver o amortecido comércio do reino, ressuscitaram aqueles dois ramos da indústria de Guimarães.
Esta quadra de prosperidade estendeu-se por quase todo o século, durante o qual teve a vila mui notáveis aumentos, tanto em população como em edifícios nobres.
Não lhe foi assim propícia a primeira metade do século XIX. Os males que sobrevieram ao país com as invasões dos espanhóis e franceses; depois. a separação do Brasil e, logo em seguida, as nossas discórdias civis, lançaram no mais profundo abatimento as suas manufacturas de linho, cutelarias, serralharias e curtumes de coiros, que davam emprego à maior parte dos seus filhos.
Estas desgraças foram ainda acrescentadas pelo abandono em que jazeu a viação pública por largos anos, de modo que a vila de Guimarães chegou a ter as suas comunicações, não diremos já com Lisboa, mas com as terras importantes da província, incluindo Braga, a três léguas de distância, se não interrompidas, pelo menos dificílimas.
Estamparam-se todas estas calamidades públicas nos edifícios da vila como a doença no rosto do enfermo. As ruas, onde moravam os industriais e outros indivíduos da classe desfavorecida da fortuna, pareciam uma povoação próxima a cair em ruínas.
A instituição de um mercado semanal veio travar da roda a esta progressiva decadência. Graças à fertilidade do solo dos terrenos circunvizinhos, e graças também aos hábitos laboriosos daquele bom povo, o mercado de todos os sábados tomou tais proporções, que em breve apresentou a aparência de uma grande feira anual. O seu movimento, principalmente em fazendas de lã, seda, linho e algodão; em loiças, cutelarias, ferragens e utensílios de lavoira; em legumes e cereais; em grão, farinha e pão cozido; e em gados vacum e suíno, representa valores de bastantes contos de réis. 3
Em 1845, organizou-se a companhia das obras públicas e, começando os seus trabalhos nesse mesmo ano, foi a estrada do Porto a Guimarães por Santo Tirso uma das primeiras obras que empreendeu. Porém, a revolução que rebentou na província do Minho, no ano seguinte, paralisou todo este esforço, deixando aquela estrada em meio da construção.
Felizmente, passados alguns anos, o país entrou em via de progresso, vagaroso, mas regular, e sem interrupção. A província do Minho foi dotada com belas estradas, que já ligam entre si as suas principais povoações, e que se vêem continuamente concorridas de diligências. Guimarães goza também deste benefício. Por meio da nova estrada que conduz a Vila Nova de Famalicão, tronco ou centro de quase todas que cortam a província, comunica-se fácil e comodamente com as grandes terras do Minho e, por conseguinte, pelo auxílio dos caminhos-de-ferro, com as províncias do Douro, da Beira, da Estremadura e Alentejo. A estrada para o Porto por Santo Tirso está quase concluída, e não tardará muito que tenha outra para Trás-os-Montes, actualmente em construção.
Estes melhoramentos, além de outros introduzidos modernamente na legislação e no sistema económico do país, deverão trazer um futuro próspero a uma terra tão industriosa e tão generosamente dotada pela natureza, como esta é.
Recebeu Guimarães o seu foral das mãos do conde D. Henrique de Borgonha. No antigo regime gozava da prerrogativa de enviar procuradores às cortes, os quais se sentavam no banco terceiro. Tem por brasão de armas, desde muita antiguidade, um escudo com a imagem da Virgem, em campo de prata, tendo nos braços o Menino Jesus, que empunha, na mão esquerda, um ramo de oliveira. Guimarães foi elevada à categoria de cidade pela sra. D. Maria II.
Está sentada esta nobre povoação em terreno um tanto alto e levemente acidentado, próximo das faldas da serra de Santa Catarina. Dista do Porto uns 40 quilómetros para o norte e 15 de Braga para leste.
É capital de um concelho muito extenso e populoso e cabeça de comarca. Pertence à província do Minho, distrito administrativo de Braga. É quartel de um batalhão de caçadores.
Encerra uns sete mil habitantes, que se dividem pelas seguintes paróquias: Nossa Senhora da Oliveira, S. Miguel do Castelo, S. Sebastião, S. Paio e S. Tiago. Acerca da primeira, que desfruta o título de insigne e real colegiada e as honras de capela real; e sobre a segunda, onde foi baptizado o fundador da monarquia, podem os nossos leitores ver o que escrevemos a pág. 5, 41, 166 e 353 do vol. IV e 172 deste vol.
Dizem que a igreja de S. Tiago fora, sob o domínio dos romanos, um templo gentílico dedicado a Ceres. Deu fundamento a esta opinião uma lápida com uma inscrição que aí se achou, quando se fez a reedificação desta igreja paroquial.
É Guimarães uma das terras do reino que possui maior número de igrejas e ermidas, conventos e estabelecimentos de caridade. Faremos, portanto, menção das principais:
A igreja da Misericórdia, situada no largo do mesmo nome, foi fundada em 1585. Nada tem que mereça notar-se.
Nossa Senhora da Consolação é um templo moderno, de arquitectura ornamentada, que se ergue graciosamente em um dos extremos da cidade e no meio de risonha paisagem. 4
A igreja de S. Dâmaso foi fundada em 1641 em honra deste santo pontífice, que era natural desta cidade.
O convento de Nossa Senhora das Neves, chamado vulgarmente de S. Domingos, da ordem dos pregadores, teve a sua primeira fundação em 1271. Foi reconstruído e ampliado em 1395, e novamente reedificado no século XVII. Tem um grande templo, rico interiormente em obra de talha doirada, e que está bem conservado para o culto.
O convento de S. Francisco, que foi de religiosos franciscanos. Também se pode dizer que teve três fundações, em 1216, 1274 e 1322. Na igreja, que conserva a sua antiga estrutura, está sepultada a duquesa de Bragança, D. Constança de Noronha, de que acima falámos. Junto desta igreja acha-se o templo do hospital dos terceiros de S. Francisco.
Convento de Santo António, que pertenceu aos frades capuchos da província da Soledade, foi erecto em 1644. Depois da extinção das ordens religiosas estabeleceu-se nele o hospital militar.
Convento de Santa Clara, de religiosas claristas, teve princípio no ano de 1540. É grande o edifício do convento e ainda encerra crescido número de moradoras, mas quase todas recolhidas ou educandas. As religiosas são poucas.
Convento de Santa Rosa, de freiras domínicas, foi construído em 1680.
Convento da Madre de Deus, de religiosas capuchas, foi fundado em 1673. Suprimiu-se há pouco tempo, se não nos falha a memória, por não ter o número canónico.
Convento de Santa Teresa, de freiras carmelitas calçadas, erecto em 1685. Foi extinto pelos anos de 1850, em consequência de ter falecido a última religiosa. Serviu depois de hospital do batalhão de caçadores n.º 7 e, há pouco tempo, foi concedido pelo governo à sociedade instituidora do asilo de infância desvalida de Santa Estefânia. 5
Os estabelecimentos de caridade são, além deste, os hospitais da Misericórdia, de Santo António dos Capuchos e dos terceiros de S. Francisco e de S. Domingos. Os dois últimos são muito importantes e bem administrados, e ocupam grandes edifícios. O de S. Domingos tem contíguo um jardim espaçoso e desafrontado, que se plantou haverá 18 ou 20 anos e que costuma ser franqueado ao público. Para se fazer ideia dos recursos de que dispõem estes dois estabelecimentos e da grandeza que ostentam, bastará dizer que cada uma das duas confrarias conta de mil a dois mil irmãos e que andam em competências de qual delas terá o seu templo mais bem ornado, e nele mais esplêndidas funções, e o seu hospital com mais asseio e melhor serviço. Exceptuando a gente pobre, poucas pessoas deixam ali de pertencer a uma destas confrarias, qualquer que seja a sua idade ou sexo.
As ruas de Guimarães são em geral estreitas, tortuosas e pouco limpas; mas, em compensação, possui grandes praças, e algumas delas guarnecidas de chafarizes e boas casas. As principais são: praça do Toural6; terreiro de S. Francisco, onde estão as duas igrejas desta invocação; a praça Maior, em que se erguem a colegiada de Nossa Senhora da Oliveira e a casa da câmara; a praça do Peixe, que se abre em frente da igreja paroquial de S. Tiago; terreiro da Misericórdia7; terreiro de S. Sebastião; e campo da Feira. 8
Da casa da câmara já tratámos em outro lugar. 9
Tem esta cidade um teatro intitulado de D. Afonso Henriques. Também no convento de S. Francisco se construiu outro, mas não sabemos se ainda existe.
Apesar de se terem cometido em Guimarães muitos actos de vandalismo contra os monumentos da antiguidade, ainda conserva de pé alguns muito apreciáveis. Além dos que temos citado, encerra os que se seguem: Paço dos duques de Bragança, obra do 1.° duque, próximo do castelo; é um vasto edifício, pela maior parte em ruínas, servindo, contudo, de quartel10; a alfândega, antigo e curioso edifício; várias torres e alguns lanços da cerca dos muros de D. Dinis.
Abastecem a cidade de excelente água muitas fontes, dentre as quais sobressai, por mais esbelta e de melhor fábrica, a da praça do Toural. (Vid. a gravura e artigo a pág. 92 e 93 deste vol.
Não tem passeio público propriamente dito, porém suprem-lhe essa falta o jardim dos terceiros de S. Domingos e o campo da Feira, modernamente plantado de árvores e realçado pela ribeira que o corta e por sua magnífica ponte coroada de estátuas e guarnecida de assentos e árvores.
Os arrabaldes são encantadores. Acidentados, cobertos de uma vegetação pomposa e regados por uma infinidade de fontes e ribeiros, apresentam muita variedade de sítios amenos, formosos e pitorescos. Dão-lhe bastante realce os palácios e quintas dos srs. condes de Arrochela e de Vila Pouca, com os seus jardins dispostos em tabuleiros, como degraus de um trono, guarnecidos de bonitos lagos, estátuas, vasos, pirâmides e balaustradas de pedra.
A serra de Santa Catarina e o mosteiro da Costa são também singulares ornamentos destes arrabaldes. A serra é muito parecida com a de Sintra na espessura dos bosques, na corpulência das árvores, nas águas que se despenham pelas quebradas, nos rochedos descomunais de que está eriçada e nas grutas que se abrem debaixo dos enormes penedos que lhe fazem coroa. São duas grandes lapas uma sobre a outra. A de cima transformou-a a devoção em uma capela de Santa Catarina, que dá o nome à serra e que é muito concorrida de romagens.
O mosteiro de Santa Marinha da Costa acha-se edificado no dorso desta serra. Era um dos célebres mosteiros do país; rico no edifício, nas rendas, e em memórias da rainha D. Mafalda, que o fundou, e de D. António, prior do Crato, que foi ali educado. Pertenceu aos monges de S. Jerónimo. Na sua cerca havia dois carvalhos colossais, que foram plantados pela rainha fundadora. Um deles secou haverá trinta anos. O outro conserva-se frondoso e cheio de viço, contando sete séculos, como se apenas tivera um. Medindo-o a primeira vez que fomos a Guimarães, em 1845, achámos que tinha de circunferência o tronco principal 47 palmos. É uma das maiores árvores que existem no país. É um verdadeiro monumento do reino vegetal. O edifício do mosteiro é hoje propriedade particular. A igreja conserva o culto e, em dia de Santa Marinha, que é o seu orago, faz-se nela uma grande festa, que atrai a este lindíssimo sítio extraordinária concorrência de romarias.
O concelho de Guimarães é um dos mais férteis e produtivos da província do Minho, tanto pela feracidade do torrão, como pela abundância de águas que brotam de toda a parte e se cruzam em todas as direcções. Produz muitos cereais, especialmente milho, boa quantidade de legumes, vinho verde, linho, algum azeite e bastantes frutas, sobretudo castanhas. Tem excelentes pastagens, em que se cria muito gado.
Guimarães tem sido berço de muitos santos e de muitos varões ilustres nas armas, nas ciências e nas letras.
A nossa gravura é cópia de uma fotografia do sr. Seabra. O primeiro plano representa um dos jardins do sr. conde de Arrochela.
I. DE VILHENA BARBOSA.
[in Arquivo Pitoresco, vol. VII, Lisboa, 1864, pp. 3375-340]
NOTAS:
1 Vid. Pág. 348 do vol. V.
2 Vid. Pág. 47 do vol. IV.
3 Vid. o que dizemos acerca deste mercado a pág. 218 deste vol.
4 Vid. a gravura e artigo a pág. 92 e 93 deste vol.
5 Vid. a gravura e artigo a pág. 57 do vol. V.
6 Vid. a gravura e artigo a pág. 217 deste vol.
7 Vid. o artigo e gravura a pág. 345 do vol. VI.
9 Vid. a gravura e artigo a pág. 385 do vol. V.
10 Vid. a gravura e artigo a pág. 33 do IV vol.


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16 de maio de 2016

S. Francisco em 1866

As igrejas de S. Francisco em Guimarães. Gravura de autor desconhecido tirada a partir de fotografia ~de Antero Frederico de Seabra. Arquivo Pitoresco, 1866, p. 153.

O último dos textos sobre os espaços e os monumentos de Guimarães que Inácio Vilhena Barbosa publicou na revista Arquivo Pitoresco saiu em 1866 e trata do convento e das igrejas de S. Francisco, ou seja, da igreja do convento e da capela da Ordem Terceira, dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Fala da fundação do convento, no início do século XIII e dos locais onde esteve implantado (primeiro no sítio de Vila Verde, depois dentro da muralha, nas imediações da Torre Velha, no lugar onde depois seria implantado o Hospital do Anjo, e, por último, em lugar mais apartado da muralha que cercava a vila, que é aquele onde o encontrámos hoje).


S. Francisco
Diz o cronista da ordem seráfica da província de Portugal que, vindo a este reino S. Francisco de Assis, em companhia do seu discípulo S. Gualter, e partindo ambos daqui em romaria a S. Tiago de Compostela, na sua passagem por Vila Verde, junto de Guimarães, fundou aí o primeiro daqueles santos uma casa de oração e nela deixou para servir a Deus S. Gualter e outro companheiro. Realizou-se este sucesso pelos anos de 1216, reinando el-rei D. Afonso II.
Ao diante agregaram-se a estes dois religiosos mais alguns companheiros, constituindo-se em comunidade. Durou este convento por espaço de oitenta anos. Sendo então o edifício demasiadamente apertado para o número de seus moradores e achando-se, além disso, em muita ruína, por causa, não da idade, mas da mesquinhez da construção, resolveu-se mudar o convento para dentro dos muros da vila de Guimarães, hoje cidade.
Edificou-se, pois, o novo convento junto da cerca de muralhas da dita vila, contíguo à torre velha, no lugar ocupado por um hospital chamado do Anjo, que deu o nome à rua para onde deitava a sua porta principal.
Foi esta a segunda fundação do convento da ordem mendicante instituída por S. Francisco de Assis. Porém, pouco tempo perseverou ali. Tendo rebentado aquelas fatais discórdias que armaram o braço do infante D. Afonso, depois rei, quarto do nome, contra el-rei D. Dinis, seu pai; e que lançaram o reino em tamanha perturbação, o infante, nas correrias que fez por diversas partes do país, foi à frente dos seus parciais sobre Guimarães. Como a vila, fiel ao seu monarca, lhe fechasse as portas e resistisse às suas promessas e às suas ameaças, pôs-lhe o infante apertado cerco e não poupou diligências para a tomar de assalto. Não lograram os sitiantes o seu intento, mas fizeram consideráveis danos à povoação. Sabendo el-rei D. Dinis que fora causa principal de tais danos o convento de S. Francisco porque, em razão de se achar acercado das muralhas da vila, puderam os rebeldes introduzirem-se nele e daí maltratarem os que sustentavam a autoridade do soberano, mandou demolir o convento.
Cuidaram logo os frades de promover a edificação de um novo convento. Neste empenho foram auxiliados por muitas famílias ricas da vila e pelo arcebispo de Braga, D. Fr. Telo, que tinha sido religioso da mesma ordem. Com o auxílio destes benfeitores, conseguiram não somente os meios precisos para a obra, mas também vencer as oposições que lhes fez o cabido da colegiada de Nossa Senhora da Oliveira sobre o lugar escolhido para a construção, que era um terreiro fora da cerca de muros, mas próximo dela.
Lançou a primeira pedra nos alicerces o dito arcebispo, celebrando-se a cerimónia com grande solenidade.
Quando faleceu el-rei D. Dinis, em Janeiro de 1325, achava-se o convento acabado, ou quase concluído. Foi esta a terceira e última fundação.
Não tem este edifício celebridade em nossa história. A única circunstância que nos ocorre, de que se deva fazer menção, é que era muito frequentado pelos príncipes da casa de Bragança, quando iam passar algum tempo a Guimarães. D. Afonso, primeiro duque de Bragança, era-lhe muito afeiçoado e fez-lhe grandes esmolas; e do mesmo modo a duquesa D. Constança de Noronha, sua segunda mulher. Esta princesa, que era filha de D. Afonso, conde de Gijon e Noronha, filho natural de Henrique ir, rei de Castela, e de D. Isabel, filha também natural de el-rei D. Fernando I de Portugal, viveu todo o tempo da sua viuvez nos paços que o duque seu marido edificara em Guimarães* e, falecendo em 26 de Janeiro de 1480, foi enterrada, por disposição sua, no convento de S. Francisco da mesma vila. Tem no túmulo este breve epitáfio: Alphonsi Ducis hoc conjux Constança Noronha conditur in túmulo. Diz em vulgar: Está encerrada neste túmulo Constança de Noronha, esposa do duque Afonso.
Assim como o edifício é pobre de recordações históricas, também o é de beleza e primores artísticos. A igreja conserva algumas das suas feições primitivas, em que se acha desenhada a simplicidade arquitectónica da época de el-rei D. Dinis. As reparações e reconstruções posteriores fizeram-lhe bastantes alterações. A frontaria apenas da primeira fábrica tem o portal. A capela-mor foi reconstruída a expensas do primeiro duque de Bragança, que por essa razão ficou sendo seu padroeiro e, por sua morte, seus sucessores. É templo grande, com catorze capelas, algumas das quais eram cabeças de morgados, e foram construídas em diferentes épocas. Na de S. Gualter está o sepulcro que contém os ossos deste santo. Acha-se esta igreja em bom estado e celebra-se nela o culto divino com decência.
Contíguo à igreja, para onde tem porta, está o claustro com as suas galerias sustentadas por colunas de pedra e adornado com um chafariz, há neste claustro duas capelas, uma das quais pertence à casa do capítulo.
O edifício do convento não é notável em coisa alguma. Não é pequeno, mas também não se pode dizer que seja vasto. Depois da extinção das ordens religiosas, foi aplicado para diversos misteres do serviço público e nele se construiu um teatro.
No adro da igreja, a que fazem sombra altos e frondosos carvalhos, ergue-se um esbelto cruzeiro de pedra.
Ao lado da igreja, e deitando para o mesmo adro, estão o templo e hospital dos terceiros de S. Francisco, construídos no século XVII, e reformados e melhorados posteriormente, por diversas vezes. São muito dignos de menção e de serem conhecidos das pessoas que visitarem a cidade de Guimarães, o primeiro pelo esplendor com que nele se exerce o culto e se fazem as festividades, e o segundo pela grandeza e asseio da casa e pela raridade, alinho e conforto com que são tratados os enfermos. Já em outro lugar tivemos ocasião de referir que esta confraria e a dos terceiros de S. Domingos, da mesma cidade, contam cada uma de um a dois mil irmãos e que os seus hospitais figuram entre os melhores e mais bem administrados de todo o reino.
Os dois templos de S. Francisco estão situados em um vasto terreiro a que dão o nome, o qual fica vizinho da praça do Toural** e, um pouco mais distante, mas perto, do campo da Feira***. Com o crescer da povoação, desapareceu a muralha que a separava do convento e a casaria lá se foi estendendo e abraçando o terreiro por partes outrora despovoadas. A nossa gravura é cópia de uma fotografia da colecção do sr. Seabra.
I. DE VILHENA BARBOSA.
[in Arquivo Pitoresco, vol. IX, Lisboa, 1866, pp. 153-154]
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15 de maio de 2016

O Carmo em 1862

Convento das carmelitas em Guimarães. Gravura de Pedroso sobre desenho de Nogueira da Silva. Arquivo Pitoresco, 1852, p. 57
No seu itinerário pelos monumentos de Guimarães, Inácio de Vilhena Barbosa também se deteve no convento de Santa Teresa ou de S. José ou do Carmo, que foi recolhimento das carmelitas calçadas e depois recolhimento de crianças desvalidas sob invocação de Santa Estefânia, em homenagem à rainha D. Estefânia, consorte de D. Pedro V.
Nos dias em que o historiador o conheceu, o terreiro Carmo estava longe de ser o jardim bem ordenado que agora preenche o largo Martins Sarmento. Era delimitado pela rua da Infesta que, prolongando a rua de Santa Maria, passava em frente ao Convento, e pela rua do Poço, que dava continuidade à rua do Gado (actual ruas das Trinas). Ambas juntavam na rua da Porta de Santo António, que dava passagem para a antiga Vila Velha de Guimarães, onde estão o Castelo e o Paço dos Duques. Quase pela mesma altura em que Vilhena Barbosa escrevia, o Eng. Almeida Ribeiro, no seu plano para a cidade de Guimarães, descreveu o espaço do terreiro do Carmo como um dos que oferecem mais dificuldades de melhoramento em toda a cidade de Guimarães. As ruas são estreitas, turtuosíssimas, e estão nelas edificadas algumas casas que é força respeitar. Além disto os níveis de algumas das ruas e terreiros apresentam um outro obstáculo a um bom melhoramento. A gravura que agora se reproduz ajuda a perceber a descrição de Almeida Ribeiro.

O texto que se segue foi inicialmente publicado em 1862 no Arquivo Pitoresco.

O convento do Carmo
No dia 16 de Março de 1685 lançou-se a primeira pedra de um convento para religiosas na rua da Infesta da vila, hoje cidade, de Guimarães. Aos 8 de Abril do ano seguinte disse-se a primeira missa em uma capela do novo convento, apesar de se achar a edificação ainda atrasada. Mesmo sem estar acabado tomaram o hábito carmelitano algumas donzelas, com o título de recolhidas, mediando as competentes licenças do provincial dós carmelitas, e do arcebispo de Braga, D. Luís de Sousa.
Foi dedicado o convento a Santa Teresa. Quanto ao nome do fundador, ou fundadora, conservou-se em tal segredo, pela sua piedade e modéstia, que ficou absolutamente ignorado.
Passados alguns anos, cremos que em 1704, estando o edifício concluído, chegou a bula do papa, que autorizou as recolhidas de Santa Teresa a receberem o véu de religiosas carmelitas calçadas. O convento trocou a sua primeira invocação pela de S. José. Porém, como o lugar de honra no altar-mor da igreja é ocupado pela imagem de Nossa Senhora do Carmo, o povo principiou a dar esta invocação ao convento e ao templo e por ela os conhece e nomeia ainda ao presente.
Perseverou o convento até ao ano de 1850 ou 51, em que faleceu a última freira.
Vagando então para a coroa, foi concedido o edifício do convento, exceptuando a igreja, ao ministério da guerra, para nele estabelecer o hospital do batalhão de caçadores n.º 7, que nessa época estava aquartelado em Guimarães.
A igreja com as respectivas oficinas foi dada à irmandade de Nossa Senhora do Carmo, erecta no mesmo templo, que a conserva com muito asseio, e nela faz celebrar os ofícios divinos e algumas funções com bastante decência.
O governo, passado algum tempo, deu àquele batalhão outra terra por quartel; mas o convento continuou a pertencer ao ministério da guerra.
Pouco depois, subiu ao trono o sr. D. Pedro V, de saudosa memória, que desde logo prendeu a si a nação por tantos e tão fortes laços, entre os quais muito avultou a escolha de uma esposa, modelo de todas as virtudes cristãs.
Volveu-se mais algum pouco tempo, e esses dois astros, que brilhavam com tamanho resplendor no horizonte de Portugal, reflectindo do alto do sólio para todo o país amor da pátria e da religião, fé no trabalho e esperança no futuro, eclipsaram-se e desapareceram de entre nós, um após outro!
A nação cobriu-se de sincero e verdadeiro luto. Não houve olhos de portugueses que deixassem de verter lágrimas saídas do coração. Todas as terras do reino porfiavam em qual daria mais solene testemunho da dor pública; qual prestaria mais grata homenagem às virtudes cívicas e religiosas dos seus chorados monarcas.
Lembraram-se em Guimarães de honrar a memória da augusta rainha com uma instituição verdadeiramente pia e civilizadora — um asilo de infância desvalida, que se devia intitular de Santa Estefânia.
Pediram para esse fim ao governo o convento das carmelitas, que se achava sem destino. Porém até ao presente, com mágoa e vergonha o dizemos, não foi atendido o pedido. O ministério da guerra não quer largar de si o edifício, que, à falta de moradores e de reparos, se vai arruinando de dia para dia.
Este facto, para o qual não pode haver desculpa plausível, suscita, na verdade, mui graves considerações. Mas não as queremos fazer. Preferimos esperar que o governo ainda atenderá àquele justo pedido, obstando também à última ruína do edifício.
Não está bem patente, na gravura, a frontaria deste convento, porque o nosso desenhador preferiu este ponto de vista, por ser mais pitoresco.
I. DE VILHENA BARBOSA.

[in Arquivo Pitoresco, vol. V, Lisboa, 1862, pp. 57-58]
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