7 de novembro de 2016

Raul Brandão e Guimarães (4)

Raul Brandão

Raul Brandão concluiu a escrita de A Farsa em Maio de 1903 e, a crer na data que inscreveu no início da obra, terá começado a escrever a sua obra-prima, Húmus, no dia 13 de Novembro de 1915. Entre essas duas datas, passaram doze anos e meio sem que, aparentemente, o mestre de Nespereira tenha escrito prosa ficcional. É certo que, em 1906, publicou Os Pobres, mas esse livro já estava escrito desde 1900, tendo ficado três anos a aguardar a carta-prefácio de Guerra Junqueiro e outros tantos à espera de entrar no prelo. Nos doze anos que transcorreram entre o momento em que Brandão escreveu a última frase de A Farsa (É uma água frígida e límpida que apetece sempre beber) e aquele em que começou a compor Húmus, o escritor não deixou de escrever: dedicou-se ao jornalismo e à escrita da história, centrada nos anos conturbados que antecederam a implantação do liberalismo em Portugal, em Agosto de 1820, tendo publicado El-Rei Junot, em 1912, A Conspiração de 1817, em 1914, e O Cerco do Porto, contado por uma testemunha, o Coronel Owen, que prefaciou, anotou e publicou em 1915.

Com Húmus, Raul Brandão quebra um longo interregno e regressa à escrita de ficção, dando continuidade a uma obra que inaugurara com a História dum Palhaço e onde já se inscreviam Os Pobres A Farsa. Com ele, regressa também à vila que já conhecia, e que agora servirá de palco às maquinações da mesquinha, perversa e hipócrita Candidinha. A afirmação de que vila de A Farsa é a mesma de Húmus é consensual entre os especialistas que se têm dedicado ao estudo da obra de Raul Brandão.

Húmus é o melhor livro que Raul Brandão escreveu. Assim o consideram críticos e historiadores da literatura, assim o considerava o próprio Raul Brandão. Trata-se de uma obra literária singular, tanto pela mensagem que transmite, como pelo modo como corta com as convenções e com os preconceitos formais até aí em uso na escrita romanesca  e proclama a sua independência em relação aos processos tradicionais, introduzindo um método de escrita que se liberta das peias de um esquema preconcebido, dando livre curso à imaginação e à inspiração imediata e transportando a sua prosa para territórios que se supunham exclusivos da poesia. É uma das obras maiores da literatura em língua portuguesa do século XX. A narrativa situa-se numa vila onde decorre um drama cujas personagens que são reflexos das angústias, dos sentimentos e do pensamento do próprio autor. Uma povoação fantasmática que reproduz a vila de A Farsa, réplica da Guimarães que Raul Brandão bem conhecia, cuja identidade se desvenda logo nas linhas iniciais, datadas de 13 de Novembro:

Uma vila encardida – ruas desertas – pátios de lajes soerguidas pelo único esforço da erva – o castelo – restos intactos de muralha que não têm serventia: uma escada encravada nos alvéolos das paredes não conduz a nenhures. Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos interstícios das pedras e delas extrai suco e vida. A torre – a porta da Sé com os santos nos seus nichos – a praça com árvores raquíticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na humidade.

Uma vila com pátios lajeados; um castelo; restos intactos de muralha sem serventia; a Sé, a que mais adiante chamará de Colegiada, com uma porta com santos nos seus nichos; uma praça com árvores raquíticas e um coreto de zinco, que o escritor não necessita de nomear para nós sabermos que é o Toural.

Um pouco mais adiante, sob a data de 20 de Novembro, lemos:

Não se passa nada! não se passa nada! No Verão o calor sufoca, de Inverno a mesma nuvem impregna o granito, e apega-se, amolece, dissolve pilares das janelas, casebres e a oliveira da praça, só tronco e duas folhinhas cinzentas. Em volta um círculo de montanhas, descarnadas e atentas, espera a tragédia – e as montanhas não desistem. De quando em quando, na solidão que à noite redobra, caem do alto da Sé as badaladas, uma a uma, pausa a pausa.

E percebemos que “a oliveira da praça, só tronco e duas folhinhas cinzentas”, é a árvore que dá nome à Praça Maior de Guimarães, onde antigamente se concentravam o poder político (Casa da Câmara), o poder judicial (Casa das Audiências) e o poder religioso (Colegiada) e que as montanhas em volta são os montes que cercam o vale onde Guimarães está implantada, entre os quais sobressai a serra, então descarnada, que é a Penha.

Datado de 18 de Dezembro, encontrámos o seguinte trecho:

Os padres clamam num coro desesperado: – Acabou o inferno! acabou tudo! Descompõem-se na sala da colegiada que deita para o passado – o claustro com um pé de oliveira, e dois túmulos encravados na parede, cenografia para o Hamlet – ser ou não ser eis a questão... Cheiram a urina e a ranço. A religião sem inferno está perdida.

A oliveira do claustro da Colegiada de Guimarães. À direita, os dois túmulos dos morgados de Sezim.

A colegiada onde se proclama o fim do inferno é a que conhecemos. Era lá que estava, e ainda está, uma oliveira velha de muitos séculos. Assim como os dois túmulos a que Brandão alude — duas arcas tumulares cravadas na fachada lateral voltada a Sul da igreja, debaixo de arcossólios, que acolheram os restos mortais do morgado de Sezim e da sua mulher. Continuam no mesmo sítio e, para os ver, basta entrar no Museu de Alberto Sampaio.

A vila de Húmus é feita de granito, tem uma montanha descarnada a vigiá-la,  uma praça com uma oliveira e outra com um coreto de zinco e árvores raquíticas, um castelo e restos de muralha, com ou sem ameias, e uma igreja com um portal encimado por nichos com estátuas de santos talhadas em pedra que se esboroa e onde se encosta um claustro com uma oliveira e dois túmulos de pedra encravados na parede. A vila de Húmus, como a de A Farsa, é Guimarães.

E o luar intolerável, o luar indiferente, derrete-se sobre as ameias, sobre a catedral, sobre os santos imóveis nos seus nichos.


*~*~*~*~*~*

Húmus
(fragmentos)

13 de Novembro. 

Ouço sempre o mesmo ruído de morte que devagar rói e persiste...

Uma vila encardida – ruas desertas – pátios de lajes soerguidas pelo único esforço da erva – o castelo – restos intactos de muralha que não têm serventia: uma escada encravada nos alvéolos das paredes não conduz a nenhures. Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos interstícios das pedras e delas extrai suco e vida. A torre – a porta da Sé com os santos nos seus nichos – a praça com árvores raquíticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a humidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na humidade. Nos corredores as aranhas tecem imutáveis teias de silêncio e tédio e uma cinza invisível, manias, regras, hábitos, vai lentamente soterrando tudo. Vi não sei onde, num jardim abandonado – Inverno e folhas secas – entre buxos do tamanho de árvores, estátuas de granito a que o tempo corroera as feições. Puíra-as e a expressão não era grotesca, mas dolorosa. Sentia-se um esforço enorme para se arrancarem à pedra. Na realidade isto é como Pompeia um vasto sepulcro: aqui se enterraram todos os nossos sonhos... Sob estas capas de vulgaridade há talvez sonho e dor que a ninharia e o hábito não deixam vir à superfície. Afigura-se-me que estes seres estão encerrados num invólucro de pedra: talvez queiram falar, talvez não possam falar.

Silêncio. Ponho o ouvido à escuta e ouço sempre o trabalho persistente do caruncho que rói há séculos na madeira e nas almas.
~*~

20 de Novembro
[…]
A vila é um simulacro. Melhor: a vida é um simulacro.
[…]
Reparo melhor na vila... Alvenaria e castanho, construções para séculos. Ruas lajeadas, recantos onde nunca entrou o sol. Paredes mestras. Silêncio e humidade até à medula, gestos lentos, hábitos regrados. Uma rua desce até à igreja de cantaria lavrada. Um prédio enorme avança sobre a ruela onde os passos ecoam. Cresce aqui uma vegetação especial de sepulcro, e a sombra absorvida pelas muralhas da Sé exala-se em bafo passado um século. Os alicerces são temerosos, as traves de uma casa davam para a construção de um bairro. E tudo isto se entranhou de salitre, de interesse e de ódio. Em tudo isto há uma mescla de inutilidade, de fé e de sonho. Tudo isto esta cimentado para séculos. Cada barrote foi pregado com um destino, cada bloco metido na terra para se lhe erguer em cima não uma parede, mas uma ideia, uma vida, uma alma – tudo isto tem uma camada de bolor e se impregnou de desespero. Até os sepulcros foram construídos para a eternidade. A pedra depois de talhada é uma expressão. Entro na catedral. Silêncio e um cheirinho a floresta apodrecida. As lajes estão gastas de um lado pelos passos dos vivos, do outro pelo contacto dos mortos. Tudo aqui gira em torno da mesma ideia. A pedra esboroa-se, mas eu contemplo-a viva, com um povo de estátuas em cima, com um povo de mortos em baixo. Nos alicerces uma geração, outra geração, todos apodrecendo juntos na mesma terra misturada e revolvida. A parte exterior é maravilhosa, a parte subterrânea é mais maravilhosa ainda. É a única raiz que se conserva intacta.

Aqui não andam só os vivos – andam também os mortos. A vila é povoada pelos que se agitam numa existência transitória e baça, e pelos outros que se impõem como se estivessem vivos. Tudo está ligado e confundido. Sobre as casas há outra edificação, e uma trave ideal que o caruncho rói une todas as construções vulgares. Debalde todos os dias repelimos os mortos – todos os dias os mortos se misturam à nossa vida. E não nos largam
[…]

Em certas ocasiões, se as palavras e a insignificância desaparecessem da vida, só ficava de pé o espanto.

Só a insignificância nos permite viver. Sem ela já o doido que em nós prega, tinha tomado conta do mundo. A insignificância comprime uma força desabalada.

Para não ver, para não ouvir, é que nos curvamos sobre a mesa de jogo. Para te não ouvires a ti mesmo, para não veres o que te gasta a todos os minutos e a todas as horas, usura imensa que não sentes e que te vai levar para o escantilhão sôfrego, que te vai mergulhar no silêncio profundo. Usura de todos os instantes. Gasta-nos, desgasta-nos. E todos os dias acordamos mais velhos, todos os dias acordamos mais inúteis. Todos os dias acordamos com mais fel. E todos os dias com mesuras, sem gritos de terror, nos curvamos sobre esta mesa de jogo, não vendo, fingindo que não existe, o espanto que está ao nosso lado, e o espanto pior que trazemos connosco. Chama-se a isto o quotidiano. Isto não tem importância nenhuma. Com isto enchemos a vicia até chegar a morte. Esta mesa de jogo é a nossa existência vulgar, a vida de todos os dias, com o galope da outra vida ao lado. Não se passa nada! não se passa nada! No Verão o calor sufoca, de Inverno a mesma nuvem impregna o granito, e apega-se, amolece, dissolve pilares das janelas, casebres e a oliveira da praça, só tronco e duas folhinhas cinzentas. Em volta um círculo de montanhas, descarnadas e atentas, espera a tragédia – e as montanhas não desistem. De quando em quando, na solidão que à noite redobra, caem do alto da Sé as badaladas, uma a uma, pausa a pausa. O som tem um peso desconforme.

Estamos aqui todos à espera da morte! estamos aqui todos à espera da morte!

~*~

7 de Dezembro

A noite é de aparato. A lua de coral sobe por trás da montanha em osso, e depois na chanfradura das ameias.
~*~

18 de Dezembro

Toda a gente dá a mesma ferocidade, ódio instinto. Espremidos deitam as mesmas paixões. Uns ignoravam-se. Outros usavam a vida em manias. Outros gastavam-na em grotesco. Outros habituavam-se. A paciência era pegajosa. A paciência tinha uma cor especial, verde desbotado, que malferia a vista, e um filho, a cobiça, tal qual como a D. Restituta, que encrespa o pêlo e se põe de pé com o guarda-chuva em riste. Cada ser me perturba como se contivesse em si o céu e o inferno. Bem sei que a fórmula não é inútil: ao contrário a máscara é indispensável e é por ela que nos julgam. Mas, apesar de criarmos o mesmo bolor e de nos sepultarmos ao mesmo tempo com certa comodidade sob alguns palmos de terra, há qualquer coisa que remexe e que faz parte integrante da vida. Até o escuro se eriça – até a grande sombra se deforma. – Muita gente na vida só conta com a morte. A D. Desidéria desata aos ais. E é com secreta satisfação que vejo esfarelar-se este edifício tão bem construído sobre bases, que pareciam inabaláveis, do interesse, da hipocrisia e das conveniências... Impelidos por uma mola dão todos um passo em frente, e há três dias que os padres se descompõem na colegiada sem se chegarem a entender: – Lá vai o inferno! lá vai o inferno! E, efectivamente, de um instante para o outro, lá vai o inferno que tanto custou a fazer, e outras sombras temerosas reduzidas a cisco. Lá vai o cenário admirável e monstruoso, todas as regras, todos os papéis pintados, que atravancavam o mundo, e eram pelo menos metade da nossa existência. O que tinha uma importância extrema passou a não ter importância nenhuma; o que parecia indispensável à vida, e sem o que se não dava um passo na vida, reduziu-se num minuto a zero. E outras coisas insignificantes assumiram proporções enormes... Os padres clamam num coro desesperado: – Acabou o inferno! acabou tudo! Descompõem-se na sala da colegiada que deita para o passado – o claustro com um pé de oliveira, e dois túmulos encravados na parede, cenografia para o Hamlet – ser ou não ser eis a questão... Cheiram a urina e a ranço. A religião sem inferno está perdida. – Mas lá por o homem ter suprimido a morte, não deixa de haver inferno – observa o estúpido cónego Fazenda. – Isso está claro que não deixa, obrigado pela observação, mas é um inferno tão distante que não mete medo a ninguém. – Protesto! – Lá vai o inferno! acabou o inferno!

Lá vai também o céu, mas o céu não faz falta nenhuma.

~*~

13 de Fevereiro

E o luar intolerável, o luar indiferente, derrete-se sobre as ameias, sobre a catedral, sobre os santos imóveis nos seus nichos.

~*~

25 de Dezembro

Nas avenidas de légua erram alguns cães famintos, e os vastos coliseus, os hotéis para estrangeiros, desfazem-se em cisco. Os quatro mil habitantes da pequena vila, perdem-se entre o cenário, a lona, as pastas que esfarelam, o estuque que desaba, o cimento que esboroa. Por uma parede arrombada, vê-se o papel da sala de visitas de Adélia, as cadeiras de palhinha, dois castiçais de prata, uma mesa derrubada a que falta a base, e, entre dois tabiques, a prima Angélica curvada sobre o mesmo pé de meia, que já tem três léguas de comprido. Da catedral, de velho granito, existe a porta, e da muralha antiga um único pano se conserva intacto, sem ameias, como uma fera a que tivessem partido os dentes... Mas a vida persiste, a vida insiste. Já os hábitos tornaram à supuração. Na botica deserta dois homens recomeçaram uma partida de gamão. Abriu hoje a repartição de fazenda – e da mesa de jogo, com o candeeiro em cima, de novo se aproximam, pé ante pé, estas velhas figuras puídas, embrulhadas nos xailes sem pêlo...


Estamos aqui todos à espera da morte! Estamos aqui todos à espera da morte!
Partilhar:

6 de novembro de 2016

Raul Brandão e Guimarães (3)

Raul Brandão

Em 1901, no folheto “O Padre”, Raul Brandão atribui ao território um carácter simbólico que se reparte por três espaços físicos e metafóricos: o campo, lugar da “vida recolhida e severa pelo contacto com as coisas simples e imensas da natureza”, que se despreza e despovoa; a vila, “onde se intriga”; a cidade, “onde se goza”. A vila será o cenário das suas duas obras ficcionais maiores do escritor de Nespereira, A Farsa e Húmus. Jacinto Prado Coelho descreveu a vila de Raul Brandão como “uma abreviatura do mundo”, cujos habitantes representam “a humanidade inteira”.

A vila de Raul Brandão tem uma dimensão mais simbólica do que real, operando como espaço metafórico, sendo assumida como uma paisagem imaginária, impossível de identificar e de localizar no espaço geográfico do mundo concreto. No entanto, da leitura da obra de Brandão, é possível perceber que há uma vila concreta por trás da vila brandoniana, que foi delineada a partir da Guimarães que ele conheceu e que, apesar do título de cidade que já ostentava, mantinha a configuração de vila que sempre tivera.

Para afastar dúvidas na identificação da vila onde Raul Brandão montou o palco da sua narrativa, bastam as primeiras linhas do primoroso quadro inicial de A Farsa.

Quando lemos a descrição duma serra de encostas pedregosas e duma “praça solitária”, cujo granito “revê água” e onde se ergue uma sé, com a sua torre, se desenham arcarias, há “um Cristo aflitivo na abóbada de pedra sustentada por quatro arcos ogivais” e se percute o “telingue-telingue eterno duma fonte”, percebemos que Raul Brandão descreve um espaço familiar, povoado de elementos de fácil identificação: a Penha, a praça da Oliveira, a igreja da Colegiada, com a sua torre e a fonte que nela se encostava, e o monumento icónico e único que continuamos, erradamente, a chamar de Padrão do Salado.
A Praça da Oliveira, em Guimarães, numa fotografia do início do séc. XX, vendo-se a igreja da Colegiada, com a torre, a fonte e, em primeiro plano, à direita, o Padrão.

Alguém mais céptico ainda poderá argumentar que, no que fica dito, não se encontra qualquer referência explícita a Guimarães. Avancemos então até ao terceiro capítulo de A Farsa. Aí, Raul Brandão transporta-nos até à noite de 5 de Dezembro, véspera de S. Nicolau. Na vila, está “toda a populaça na rua”, quando

Os tambores rufam sem interrupção – dir-se-ia que o planeta estoira farto de sonho inútil – e do nada, iluminados a vermelho, brotam bamboleando e somem-se logo sem aparência de realidade, o arco medievo e a mole rendilhada da Sé, para depois a novo clarão ressurgirem só por momentos com a abóbada, o Cristo, as colunatas e os fantásticos recortes de muralha e sombras que tomam corpo e se amontoam nos vastos fundos onde o clarão não penetra.

O único lugar do mundo onde, ano após ano, acontecia, e continua a acontecer, a festividade que Raul Brandão descreve, é Guimarães. Trata-se de um dos actos dos festejos dos estudantes vimaranenses, ao seu padroeiro, S. Nicolau, cuja origem se perde na poeira dos séculos e que são conhecidos por Festas Nicolinas. No programa das festividades, esse é, como o nota Raul Brandão, “o dia das posses, em que desde tempos imemoriais certas famílias estão na obrigação, que a populaça não perdoa nem perde, de dar, uns castanhas, outros lenha, vinho, pão, uma árvore”.

No dia em que Brandão situa a sua narrativa, uma multidão percorre “o burgo medievo com o castelo no alto e as muralhas desdentadas abrangendo as ruelas fétidas”, até que “estaca diante dum prédio emudecido e escuro”, onde se cala a música e se faz silêncio, para se erguer uma voz que chama:

– Cucúsio! Cucúsio! Cucúsio!...

O chamamento emudece quando se abre um postigo “e uma voz comovida responde afinal ao apelo”:

– Pronto, meus senhores, cá está o Cucúsio!...

E logo assoma ao peitoril do primeiro andar, alumiado pela chama vacilante da vela, um monstruoso traseiro como, desde tempos imemoriais, é obrigação daquela família, na véspera do santo, transmitida religiosamente de pais para filhos, mostrá-lo à vila. A charanga ataca o hino, os tambores ao mesmo tempo rufam, os urros estrugem…”

Mais uma vez, um Cucúsio, renovando uma velha tradição da sua família, mostrava o traseiro à vila de Raul Brandão. Que é, porque só pode ser, Guimarães.


*~*~*~*~*~*

A Farsa
(fragmentos)

[Cap. I]


– Ai que ma levam! ai que ma levam!

Uma nuvem desce da serra: arrastam-se os rolos pelas encostas pedregosas e depois as baforadas espessas abafam de todo a vila. E noite, cerração compacta, névoa e granito, formam um todo homogéneo para construírem um imenso e esfarrapado burgo de pedra e sonho. Pastas sobre pastas de nuvens álgidas, que a noite transforma em crepes, amontoam-se na escuridão. O granito revê água. E sob a chuva ininterrupta, sob as cordas incessantes, a vila, envolta na treva glacial, parece lavada em lágrimas...

– Ai que ma levam!

É o único grito que irrompe do escuro, lúgubre, aflitivo, raspado. Depois o silêncio, a mudez concentrada da noite, a nuvem negra coalhada sobre as ruínas da vila toda lavada em lágrimas. Só aquele grito ressoa na praça solitária. A torre da Sé deformou-se: o granito aliado à névoa de mistura com a noite, abriram arcarias, alongaram as portas e fizeram dos restos da muralha antiga um tropel caótico. É um amálgama de realidade e pesadelo, trapos de nuvens e palácios desmedidos. A escuridão remexe. Não se sabe bem onde o sonho acaba e começa a matéria, se é uma cidade desconforme, sepulta em treva e lavada em lágrimas, ou meia dúzia de casebres e uma torre banal. Uma luzinha alumia um Cristo aflitivo na abóbada de pedra sustentada por quatro arcos ogivais. Mas a luz treme à ventania, os arcos balouçam, a abóbada estremece, e, ao repelão do vento, grandes sombras esvoaçam, afundando-se no negrume. uma sufocação, um espanto, o terror de que a candeia se apague, e só fique o nada, a escuridão imensa e compacta e o grito raspado a levam! a levam!... É como a última claridade dum barco de náufragos, tragado sem remissão no redemoinho dum indefinido oceano polar. Adivinha-se a porta da igreja, uma golfada de tinta, e o telingue-telingue eterno duma fonte – o choro baixinho daquela escuridão cerrada. A luz estrebucha. Se o vento a sumisse levaria consigo o último sinal de vida. Ficava apenas na noite infinita, impenetrável e revolta, o grito de angústia:

– Ai que ma levam!
~*~

[Cap. III]

Véspera de S. Nicolau e toda a populaça na rua: uma mixórdia de grotesco e de caligens, de lama e gritos, de gestos confusos e de novelos pastosos que se acastelam lá no alto e barram o céu de horizonte a horizonte em pesadas cortinas sobrepostas. Vem a cerração e a chuva pegada e tão miúda que amolece o granito. Das ruas irrompem sucessivos magotes, num clamor de inferno. Na noite ressoam gritos, urros, e clarões de archotes revoluteiam tornando-a mais densa e profunda: fisionomias e gestos surgem de repente como aparições e logo se somem no pez. É uma mescla de negrume e fogo, de braços que se agitam, de doida ventania e chuva cuspinhenta. Os tambores rufam sem interrupção – dir-se-ia que o planeta estoira farto de sonho inútil – e do nada, iluminados a vermelho, brotam bamboleando e somem-se logo sem aparência de realidade, o arco medievo e a mole rendilhada da Sé, para depois a novo clarão ressurgirem só por momentos com a abóbada, o Cristo, as colunatas e os fantásticos recortes de muralha e sombras que tomam corpo e se amontoam nos vastos fundos onde o clarão não penetra. Uma derrocada em tropel, um jacto vivo de escuridão, um burgo de sonho entrevisto que o vento leva consigo.

A turba avança, a praça trasborda: milhares de bocas que gritam ao mesmo tempo. Aquele mar humano oscila, cresce, clama e dispersa-se. Quando os archotes se apagam, fica a noite e o ruído; avivam-se os fogaréus e voltam a entrever-se as faces, as bocarras abertas pelos risos estúpidos, rasgados de orelha a orelha.

– S. Nicolau! S. Nicolau!...

É, na véspera da festa, o dia das posses, em que desde tempos imemoriais certas famílias estão na obrigação, que a populaça não perdoa nem perde, de dar, uns castanhas, outros lenha, vinho, pão, uma árvore. Forma-se o cortejo. estrondeiam os primeiros compassos da charanga, que desce a rua a passos marciais, archotes à frente. Um reboliço, mais berros, rufos desesperados, uivos, maltas que desaguam de outras vielas recônditas e a multidão que oscila e se espraia até à muralha da igreja. Em cima a abobada negra do céu goteja lama e as névoas arrastam-se lentas e esponjosas, bambinela atrás de bambinela, pegam-se às paredes e deformam-nas, desagregam-se, suspendendo-se nas arestas do granito como grandes farrapos de luto. Os uivos redobram. O mesmo pé de vento parece que fez redemoinhar a canalha e galopar no céu os grossos novelos de fumo.

– A câmara! aí vem a câmara!...

Pendões balouçam-se, inclinam-se como velas sacudidas pelo temporal, a que se agarram meia dúzia de náufragos. Logo mais alto, se ouvem os clamores e a charanga ataca as primeiras notas duma marcha de guerra. Abre o cortejo o presidente do município, imponente e grave, com o pendão erguido; seguem-no, solenes, o Pinheiro Careca e outros tipos cerimoniosos, de sobrecasaca e chapéu alto, sob a chuva incessante. um vaivém: a mó de gente empurra-se e rodopia, mas organiza-se afinal o cortejo, depois de desordens e protestos; das tabernas irrompem os últimos matulas de suíças; e o céu todo lama desce, desaba, imenso, gelado e fétido, sobre a triste humanidade. Fúnebre, consegue o Testa, de cara rapada e olho em alvo, abrir a marcha com o pendão erguido ao vento.

O Careca pega com sofreguidão a uma borla, a charanga segue a passo cadenciado, e por último os magotes anónimos e confusos.

– S. Nicolau! S. Nicolau!...

E tudo aquilo, mar de uivos, treva, archotes, homens e meas, urros e clarões, jorro desordenado e imenso, se engolfa nas ruas estreitas, numa interminável e ensurdecedora bicha. Aqui e além o fogaréu dum archote: dum lado a casaria, do outro a muralha antiga, compacta e bárbara, a que a noite dá dimensões monstruosas.

[...]
A canalha toma-o de repelão, traga-o entre as muralhas estreitas, esmagado naquele oceano de cabeças. A chuva despega-se do céu, enlameia-o, pegajosa e fétida. A turba ulula aos arrancos. Noite, lama, um inferno que apanha e leva também outro fantasma imenso, a velha que atravessa a vila sem ver nem ouvir, perseguida por um cortejo de ideias, de sonho, de exaspero que a envolve e a funde na caligem. O burgo medievo com o castelo no alto e as muralhas desdentadas abrangendo as ruelas fétidas. De quando em quando um buraco, um postigo, um pano intacto, que na sombra redobra de espessura, alumiado pelos clarões dos archotes. Granito – granito sólido, bueiros de treva, mais treva acastelada – e a multidão que corre para um saque, desvairada, aos gritos, com os archotes em punho e as bocas escancaradas... Escuridões longínquas remexem. A névoa envolve e traspassa, a chuva cai sobre a pedra e as ruas envolvendo tudo de fumaceira e mistério. E à medida que vão passando aos urros, o quadro desfila a negro e vermelho, os prédios, os becos, uma praça esganada entre muralhas que se perdem no céu, bueiros que esguicham mais gente e que se afundam na treva, coisas disformes que pertencem à noite e farrapos engrandecidos e misturados de névoa que transformam a vila num burgo de pesadelo, quase alucinatório: são escadinhas que sobem até ao céu; é a quina duma torre toda ensanguentada à luz dos fogaréus, que bamboleia e recua para a treva; é um novelo de casaria que estremece e avança, avivando-se pormenores que logo se perdem; é outra fiada de casebres que surgem como palácios monstruosos e no fundo uma calçada a rever água que vai acabar num poço subterrâneo; são nuvens esgarçadas que flutuam sobre o clarão dos archotes, tomadas duma vida estranha. O burgo parece enorme, o milhar de pessoas que se agita uma enorme multidão desorientada e as nuvens crepes a rasto para o luto duma catástrofe universal.

Por fim um jorro humano estaca diante dum prédio emudecido e escuro, os clamores e a música cessam e a bicha, depois de ondular, atende ansiosa. Novelos sobre novelos as nuvens continuam lá em cima a sua desordenada e eterna correria sem fito.

O pendão camarário oscila, um baque, e, grave como quem cumpre um rito, o Testa destaca-se do grupo e avança limpando da careca o suor das grandes solenidades. Diante do prédio, no silêncio e na noite, três vezes chama:

– Cucúsio! cucúsio! cucúsio!...

Nada. Ninguém responde, e um frémito percorre a turba que espera sempre, milhares de cabeças erguidas no ar, as bocas abertas como peixes diante da casa negra e cerrada. Para o fundo no negrume outros, e mais outros envoltos na escuridão, atendem também como quem espera um milagre. E ouve-se no silêncio a chuva cair, miúda, pegajosa, eterna. Pela fresta duma janela se escoa por fim uma ténue claridade e ao fundo estremece, silenciosa e compacta, a canalha comovida e atenta, até que, avançando com imponência mais dois passos, o Testa, como quem invoca, implora e ordena, torna:

– Cucúsio!...

Sente-se abrir o postigo do prédio e uma voz comovida responde afinal ao apelo:

– Pronto, meus senhores, cá está o Cucúsio!...

E logo assoma ao peitoril do primeiro andar, alumiado pela chama vacilante da vela, um monstruoso traseiro como, desde tempos imemoriais, é obrigação daquela família, na véspera do santo, transmitida religiosamente de pais para filhos, mostrá-lo à vila. A charanga ataca o hino, os tambores ao mesmo tempo rufam, os urros estrugem, o pendão oscila levado pelo Testa, no alto daquela onda, e o sr. Anacleto corre sem ver nem ouvir, desorientado. Anda e por fim, longe, a uma esquina, topa na escuridão com uma figura que mal se destaca da treva, como um farrapo arrancado à própria noite. Come a ferrugem o aço, corrói a desgraça as criaturas. Olha-o surpreso, como se pela primeira vez na vida se lhe deparasse um ser humano. E pára atónito. Sem saber porquê, sem razão plausível, o velho estaca... É uma rapariga, envelhecida pelos tratos: adivinha-se-lhe a palidez, a fome e as lágrimas. É na verdade um farrapo de sonho todo transido de dor. O sr. Anacleto detém-se atordoado diante da mão que rompe do escuro e implora.
[...]
~*~

[Cap. VI]

Em frente da vila cresce em degraus a serra, grande, severa, descarnada e pobre. São montes sobre montes erguidos com majestade até o céu, em sucessivos recortes: primeiro atropelados e ásperos, com fragas acasteladas nos picos, cariadas e negras; depois violetas e diáfanos. É um prodigioso cenário, uma convulsão momentaneamente petrificada que nos aproxima de Deus: gargantas aspérrimas e vales pacíficos: o caos e a mansidão: o infinito, o silêncio e uma humildade que penetra e comove. Por cima da pedra o côncavo imutável do céu. Os montes vêm do alto esfarrapados e nus, com calhaus incrustados na pele rugosa. Mas a certa altura a água borbulha e tudo se transmuda: é a vida: é a emoção que brota fio a fio dos peitos rígidos da montanha. E logo a doçura se alia à grandeza. Nos fundos enxergam-se retalhos de milho, cabanas colmadas e escuras, póvoas isoladas no ermo.

[…]

E a serra tamm. O colosso de terra, de penedia descarnada e abrupta, não dá só piorno bravio mas imensa e prodigiosa vida. De Inverno rasgam-na as águas, desaba a tempestade e o tumulto, dilacera-a o raio, mas depois desse diálogo travado entre a montanha e o Inverno, a vida ressurge, a serra acorda. Anda ternura no ar, desponta a primeira flor na raiz duma fraga. Cheira a neve perfumada e ao hálito inocente dos montes.
Partilhar: