28 de abril de 2014

Quando a liberdade estava a passar por aqui.


O autor deste blogue não se lembra de aqui ter publicado uma fotografia sua. Mas não resiste a publicar esta, apanhado no meio de um mar de gente.

Para onde olhava?

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Aquela quinta-feira começava como costumavam começar, por aqueles dias, as quintas-feiras: num anfiteatro do Liceu de Guimarães, com a cabeça suspensa nas nuvens, enquanto a professora se esforçava por ensinar os fundamentos da física ou da química, que só não se pode dizer que saíssem à mesma velocidade com que entravam, porque nem chegavam a entrar. A professora, já de si apequenada, naquele dia parecia ainda mais pequena, de tão enterrada na cadeira. Havia no ar qualquer coisa de diferente, que se percebia mais pelos silêncios do que pelas palavras. Alguém comentou que alguém dissera que alguém ouvira qualquer coisa, na rádio. Assim que pude esgueirar-me, fui para casa, liguei o velho aparelho, grande como um armário, rodei o botão de sintonizar e, por entre os ruídos espectrais e os assobios agudos da Onda Curta, fui dar a uma estação onde o locutor falava de la situazione in Portogallo. Era verdade, algo se passava neste rectângulo avarandado sobre o mar.

As horas que se seguiram, até à madrugada do dia seguinte, não terão sido muito diferentes das que foram passadas pela maioria das pessoas que viviam por esse país afora, onde a História, que estava a acontecer essencialmente em Lisboa, só podia ser acompanhada à distância. Colado à rádio, depois à televisão, saindo de casas só para ir comprar as edições especiais dos jornais que iam chegando com notícias da capital do Império.

No entanto, aquele dia, que tudo prometera, acabaria com um travo de desilusão. O general do monóculo que se apropriara de uma revolução com a qual pouco, ou nada, tinha a ver, lia uma proclamação ao país em que deixava aberta a porta da guerra em África. 

Dia 26 de Abril de 1974. Os estudantes do Liceu decidem que, nesse dia não haveria aulas. Porque era tempo de celebração da liberdade, não reconheceriam nenhuma autoridade que não fosse a da sua própria vontade. O vice-reitor de turno, homem que tinha pouco afecto pelos estudantes, que lhe retribuíam a desafeição em dobrado, não estava pelos ajustes. Tentou impor a sua autoridade, ignorando, talvez, que já não tinha nenhuma. Mas não tardou muito a ficar ciente e teve que sair da frente, para não ser levado no enxurro.

Compram-se cartolinas, improvisam-se cartazes, ensaiam-se vivas e palavras de ordem e forma-se a mais extraordinária das manifestações espontâneas a que me foi dado assistir até ao dia de hoje. Começou com os estudantes do Liceu, juntaram-se-lhes alunos das outras escolas e, quando chegou à Alameda, já era um mar de gente. E eu ia nele.




É verdade: uma das primeiras manifestações que saíram às ruas de Portugal em saudação à revolução de Abril aconteceu em Guimarães e foi obra dos seus estudantes.


Ao final da tarde daquele dia em que, de repente, aprendemos tudo o que nos quiseram esconder e que, afinal, já sabíamos, nova manifestação, promovida pelos democratas do MDP, no Toural. Uma multidão imensa escuta os discursos que, das varandas do Oriental, se sucedem e que falam de liberdade, de democracia, dos presos políticos, que continuavam presos, da guerra colonial, que não se via meio de acabar. No final, a intervenção mais ardente de todas as que se escutaram naquele dia. Era para ali que eu olhava.Terminava com uma proclamação para o futuro:

“Estamos a caminho do socialismo.”



E eu que, da altura dos meus 15 anos acabados de fazer, não sabia o que era o socialismo, achei bem.

Aquele foi o dia em que me tornei socialista. Devo-o a Santos Simões.

Por aqueles dias, em Portugal, éramos quase todos socialistas.



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27 de abril de 2014

21 de abril de 2014

António Ribeiro passou por aqui

António Ribeiro Martins (22 de Maio de 1930 - 20 de Abril de 2014) 

Para o João

Conheci o António Ribeiro há mais de quarenta anos, mas esse era um conhecer distante. Era, simplesmente, o pai do Eduardo e o irmão do Eduardo Ribeiro. Era também um dos democratas do MDP que muito marcaram a geração a que pertenço. Um dia, haveria de contar-me as suas memórias da sua viagem a Moscovo, ainda em tempo de ditadura, para participar no Congresso Mundial da Paz de 1973. Logo após o 25 de Abril, integrou a comissão administrativa que assumiu os destinos da Câmara Municipal de Guimarães. É desses tempos que guardo, muito viva, a sua imagem a discursar, na Escola Francisco de Holanda, num comício durante a primeira campanha eleitoral para as autarquias locais, cumprindo uma missão que mais tarde percebi que ia contra a sua natureza: António Ribeiro não gostava de estar sob o foco dos holofotes.

Verdadeiramente, conheci o António Ribeiro a partir do final do Verão de 1990, quando Santos Simões me desafiou para integrar a direcção da Sociedade Martins Sarmento. Ao longo das duas décadas de convívio próximo, cimentei uma profunda admiração pelo seu carácter, pela sua generosidade e pela imensa disponibilidade com que se dedicava às causas que assumia, dando muito de si, sem nada esperar em troca. Por aqueles anos, andamos envolvidos em muitas guerras, umas ganhas outras perdidas, mas todas travadas com entusiasmo e dedicação.

António Ribeiro Martins integrou, no Verão de 1990, a comissão administrativa a que os sócios da Sociedade Martins Sarmento confiaram os destinos da Sociedade Martins Sarmento. Com ele, Alberto da Costa Guimarães, Aurélio Fernando, Francisco Ramos e Santos Simões. A sua principal missão seria a de preparar a eleição da direcção que iria completar o mandato da direcção que se demitira e que não cumprira mais do que um terço do mandato para que fora eleita. As eleições, que se realizaram, no dia 20 de Outubro, dariam início a uma nova fase na vida da velha instituição cultural vimaranense, conduzida por Santos Simões.

Às dificuldades decorrentes da situação herdada, resultante de conflitos insanáveis entre os membros da direcção anterior, somaram-se adversidades. Se fossemos dados à superstição, diríamos que, por aqueles dias, aquela casa granítica andava assombrada.

O património da Sociedade estava a caminhar em passo apressado para se transformar num caso de estudo para a arqueologia, ciência que se dedica a escavar em ruínas e que, como bem sabemos, está na origem da instituição. Para onde quer que se olhasse, viam-se ruínas. Ruínas consumadas ou ruínas em potência. Literalmente. O edifício da sede estava a dar de si; a casa de Francisco Martins Sarmento em Briteiros, o Solar da Ponte por onde passou muita da história da arqueologia em Portugal (e também da literatura, já que serviu de refúgio a Camilo Castelo Branco quando andava foragido), estava, há muitos anos, botado ao abandono e metia dó só de o ver transformado num destroço daquilo que havia sido noutro tempo; as ruínas da Citânia de Briteiros eram muito mais ruínas do que no tempo em que Martins Sarmento as escavou, por falta de medidas de restauro e de preservação e por absoluta ausência de condições de conforto para os que a visitavam (a civilização ainda não tinha subido aquela encosta, onde ainda não havia luz, nem água corrente).

Como se o que aí vai dito não fosse mais do que bastante, a nova direcção confrontou-se com um problema que carregava de tons ainda mais negros a situação que tinha pela frente: porque a sua antecessora deixara caducar o respectivo contrato sem cuidar da sua renovação, a Sociedade Martins Sarmento perdera a sua fonte de financiamento mais substancial, um subsídio anual do Fundo de Fomento Cultural.

Perante tal estado de coisas, o mais fácil seria desistir. Mas aquela não era gente de desistir perante as adversidades. A resposta iria exigir determinação e criatividade. Nos anos que se seguiram, três resistentes assumiram o essencial das tarefas de repetir o que sucessivas gerações de vimaranenses haviam feito antes deles e outros continuarão a fazer a seguir: manter viva uma instituição que os nossos velhos do Restelo teimam em dizer inviável. Porque a história da Sociedade Martins Sarmento é isso mesmo: um prodígio de sobrevivência e de superação. Ainda hoje os vejo, sentados em volta da mesa de trabalho: Santo Simões, ao leme, a derrubar os obstáculos, com a determinação, a inteligência e a impaciência que marcavam a sua personalidade única, Francisco Ramos, a deitar contas à vida (porque o dinheiro que tinha que gerir era sempre muito menos do que o mínimo necessário para enfrentar as despesas) e António Ribeiro, que assumiu o pelouro do património da Sociedade, a encontrar as soluções mais adequadas para enfrentar as dificuldades e a assumir a direcção e o acompanhamento das obras.

Não tardou muito, abateu-se o tecto do Salão Nobre da sede quase centenária da Sociedade. Pouco tempo transcorrido, foi a vez do tecto da Sala de Leitura cair morto, por força da idade e da falta de manutenção. O edifício de Marques da Silva pedia cuidados que não podiam continuar adiados. O plano de contingência foi traçado por António Ribeiro e as obras de requalificação do edifício fizeram-se.

Por aqueles dias, na Sociedade Martins Sarmento ninguém se poderia queixar de falta de trabalho.

Não seriam poucos os escolhos práticos e burocráticos que houve necessidade de transpor para fazer algo tão simples e comezinho como levar a electricidade e a água corrente ao alto do Monte de S. Romão. Mas não demorou muito até que a luz se acendesse na Citânia e a água começasse a jorrar da torneira. Com ela, seria possível, finalmente, criar instalações sanitárias para os visitantes na estação arqueológica que Martins Sarmento deu a conhecer ao Mundo. Fizeram-se, mas eram apenas um remedeio, enquanto se congeminava uma ambição maior.

Com o aproximar do centenário da Morte do arqueólogo que lhe dá o nome, a Sociedade Martins Sarmento decidiu que aquela seria a hora de concretizar dois projectos antigos da instituição: a instalação de um museu monográfico em Briteiros e a criação de instalações para o acolhimento confortável e digno dos visitantes da Citânia. O virar do milénio seria marcado pela concretização destes velhos sonhos, desenhados com uma ambição para a qual, à partida, a Sociedade não tinha, nem de longe, meios financeiros suficientes.

Mas o centenário de Sarmento seria assinalado com um programa à altura do homenageado.

A requalificação das ruínas da Citânia fez-se, com uma intervenção de restauro profundo e a a criação de melhores condições de visitabilidade, lançaram-se obras de recuperação no Solar da Ponte, onde seria instalado o Museu da Cultura Castreja, construiu-se de raiz na Citânia uma magnífica casa de acolhimento a visitantes (a cuja inauguração já não assistiriam nem Francisco Ramos, nem Santos Simões).

Hoje, ao pensarmos na realidade actual do património da Sociedade Martins Sarmento, tendo presente a imagem do estado em que se encontrava em 1990, não se pode deixar de pensar que António Ribeiro passou por aqui. A Sociedade Martins Sarmento e a cidade de Guimarães devem-lhe muito.

Aqui chegados, ficam por contar os trabalhos de Hércules que Santos Simões, Francisco Ramos e António Ribeiro tiveram que enfrentar, na procura de meios para financiar as intervenções no património e a actividade cultural da Sociedade Martins Sarmento de que foram os principais obreiros. Essa história, porque também envolve gente pequenina e medíocre, não cabe neste texto, em que se recorda a memória de um Homem superior.

Hoje, a nossa cidade está um pouco mais vazia. Fazes-nos falta, António Ribeiro.

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15 de abril de 2014

Tipos vimaranenses: o jacobeu, o zoilo, o pires e o burro


O modo de ser vimaranense é um interessantíssimo caso de estudo, daqueles que apaixonam os académicos que não têm nada de mais útil para fazer. Não tem faltado quem, decalcando Eduardo Lourenço, discorra longamente sobre a pretensa hiperidentidade das gentes de Guimarães, assumindo a existência de um homo vimaranensis, ramo da espécie humana que haveria de enquadrar na taxonomia de Lineu, caso não habitasse somente na imaginação de eruditos entediados. Em boa verdade, tal espécie não existe, uma vez que em Guimarães, como em toda a parte, se encontram bem representados todos ramos do género humano.
Da natureza dos vimaranenses em geral já há muito que disse o que sabia. Hoje, por falta de mais que fazer, vamos falar de quatro subespécies que estão bem representadas no genótipo vimaranense, quatro filhos-de-algo: o jacobeu, o zoilo, o pires e o burro.
Para identificar o jacobeu, não é preciso mais do que usar o nariz: tresanda à naftalina com que tenta esconder o ranço que lhe preenche o vazio do espaço que vai de orelha a orelha. É a demonstração viva de que o conde de Buffon poderia ter certa razão quando falava da degenerescência dos animais, em geral, e do género humano, em particular. Vive mergulhado na memória dos feitos dos seus antepassados, de quem herdou o pedigree que exibe com soberba altaneira. Porém, por um daqueles acidentes genéticos que são menos incomuns do que o que se pode pensar, herdou a espinha dorsal dum helminto. Untuoso e amaneirado, é a figuração da hipocrisia. Com a mesma mão com que dá palmadinhas nas costas, empunha a faca que espeta nelas.
O jacobeu é a demonstração viva da existência do homem das duas caras. Ele anda por aí.
Já o zoilo, apesar de não poder invocar a filiação numa estirpe da nobreza pré-quatrocentista, dá-se ares de príncipe da Renascença. Na erudição, é um repentista. O seu saber é liofilizado e instantâneo, bastando acrescentar-lhe um pouco de água para que se sinta capaz de perorar com erudição e sapiência sobre qualquer matéria, desde o mistério da virgindade mariana à demonstração do teorema de Fermat, passando pela interpretação teleológica do ritual de acasalamento das tartarugas das ilhas Galápagos. Não se deixa enlear em contradições, sendo costume vê-lo sustentar, em sequência, qualquer argumento e o seu contrário. Há muito que traçou a linha da sua vida, recta e ascendente: aos 25 presidente de câmara, aos 35 primeiro-ministro, aos 45 presidente da república. Com a idade em que já vai, deveria estar a preparar-se para cumprir o seu destino principesco e renascentista: tomar para si a cátedra do Vaticano e, como Bórgia, vestir-se de púrpura e entronizar-se como o papa que ficaria conhecido para a posteridade como Alexandre IX. No entanto, de tanto fantasiar com o fano, a tiara e o báculo, ficou-se pelo avental. Em vez de papa, ainda acaba ajudante de cozinha.
Como a biografia teima em fintar-lhe os planos, passa a vida zangado. Se fosse capaz de ter amigos verdadeiros, já algum lhe teria explicado que a zanga dele é com a própria vida. É vê-lo por aí, ora só, ora com aliados de ocasião, a tentar espalhar a peçonha que há muito o corrói, disparando a sua caturrice em todas as direcções, procurando atingir os que não se curvam em reverências perante a magnificência postiça do seu intelecto. É, simplesmente, um zoilo.
O terceiro elemento deste quadro pitoresco presume ser uma amálgama de Vieira, de Herculano e de Saramago. Está visto: é escritor.
Coloca a pose distante e majestática que julga adequada a um aristocrata. Aos que o saúdam, permite que toquem a sua mão mortiça e fria. Olha com desprezo aqueles que lhe lembram as suas raízes rústicas. Dá-se ares de barão, deixando passar a ideia que o sangue que lhe corre nas veias é azul. Barão vermelho seria ele, por trautear, de vez em quando, as modinhas populares dos amanhãs cantantes, embora sinta que o seu ambiente natural é o dos salões bafientos  da velha direita vimaranense.
Como Herculano, retirou-se do mundo para a sua tebaida, e é de lá do fundo do seu Vale de Lobos que remete as encíclicas com que procura iluminar a plebe ignara. Por acreditar que a sua língua materna não é o português, mas sim uma variante muito particular do romanço, criou um idioma novilatino, com que escreve, usando de uma pena de pato. Pelo modo como junta as palavras para exprimir as ideias cuja compreensão só ele alcança, é capaz de acreditar que o velho padre Vieira reencarnou no seu corpo. Escritor tardio, pressente que o seu destino é ir mais longe do que Saramago. É por isso que, sendo homem de poucos discursos, vai ensaiando ao espelho a oração da sua vida, as palavras que dirá ao Mundo aquando da aceitação do Prémio Nobel da Literatura que lhe está destinado.
Ele sabe que não há, em todo o Universo, quem escreva como ele. Assim o sabem também todos aqueles que algum dia tiveram a desdita de tentar decifrar algum naco de prosa saído da sua pena patesca. O que ele não sabe, ao invés de todos que o tentaram ler, é que não sabe escrever.
Esta personagem, apesar dos seus devaneios de nobreza, é um pé-fresco que nunca deixou de ser pires.
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Entrementes, por esta altura, o outro, que só aparece neste enredo porque são necessários quatro para dançar a quadrilha, deve estar a levantar as orelhas felpudas e a perguntar, com a voz cavernosa dos entes zurradores:
"Então, e o burro?"

Glossário:

Jacobeu: Diz-se de ou partidário de um movimento religioso, dito jacobeia ou sigilismo, surgido no clero português durante o reinado de D. João V  (c. 1744) e que chegou a ter repercussões políticas combatidas pelo Marquês de Pombal (1699-1782); sigilista, beato, que ou quem é hipócrita, falso.
Zoilo: Crítico que, na sua mordacidade, revela inveja, incompetência ou aversão pessoal injustificada.
Pires: Pífio, barato, vulgar, de pouco valor, de mau gosto, mesquinho, ridículo,pretensioso.
Burro (o m.q. jumento):  designação comum a diversos mamíferos do gén. Equus, da fam. dos equídeos; asno.
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