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A mostrar mensagens de Julho, 2013

Bernardino de Santa Rosa e o Basilisco

O Basilisco é uma figura lendária, em cujo corpo se misturam a serpente, o lagarto e o galo. É um ser do mal, capaz de matar apenas com o olhar, não havendo outro meio de o matar se não o próprio olhar. Para tanto, será necessário coloca-lo perante um espelho. No século XVIII, com os avanços dos conhecimentos do mundo animal e dos processos de funcionamento do olhar, a ciência afirma que o Basilisco não existe. O Padre Jeronymo Feijóo, no seu Teatro Crítico Universal, nega a existência daquele ser híbrido e maléfico. Bernardino se Santa Rosa responde-lhe, afirmando a realidade do bicho:
Nega o sapientíssimo Feyjó esta venenosa eficácia aos olhos de basilisco na sua Historia natural. O seu fundamento é este: Supõem, que a potência visiva carece de actividade fora do órgão, em que se exercita; e nesta suposição, nega que possa a vista do Basilisco chegar a ofender os sujeitos distantes. Porém, dado que a potência visiva careça da dita eficácia, não pode negar o mestre Feijó, que os olhos…

Efeméride do dia: O teatro do mundo, segundo frei Bernardino

31 de Julho de 1739 É doutorado em Coimbra frei Bernardino de Santa Rosa, da Ordem dos Pregadores, vimaranense muito ilustre, não só pelos cargos que exerceu na Ordem, mas também pelas obras que deixou escritas. (João Lopes de Faria,Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 87.)
Quando escreveu o seu Dicionário Bibliográfico, Inocêncio Francisco da Silva ignorou o escritor Fr. Bernardino de Santa Rosa, o que lhe valeu um remoque de Camilo Castelo Branco num texto que o romancista dedicou ao livro que transformou o ilustre vimaranense numa figura incontornável do pensamento português do século XVIII: Mas o livro! Quem tem este livro? É coisa tão rara que até o meu amigo Inocêncio Francisco da Silva o desconhece. Chama-se Teatro do mundo visível. Encolher-lhe o restante do título seria um defraudar-lhe a substância: além de visível este teatro do padre é filosófico, matemático, geográfico, polémico, histórico, político, e crítico. Esta r…

Efeméride do dia: Balbúrdia no incêndio

30 de Julho de 1875 Às 5 horas da tarde dão as torres da cidade sinal de incêndio, o qual era violento, na casa do Bravo, em Urgezes; estando nos trabalhos de extinção a companhia dos bombeiros municipais sob o comando do seu inspector, um popular, Joaquim Mendes Cerqueira, “O racha de S. Lázaro”, homem de mau génio (mestre fabricante exímio de tesouras, muito má língua) ordena a uma bombeiro guia que dirija a água para outra parte do edifício e esforçar-se por lhe tirar o governo, e aparecendo nesta ocasião muito encolerizado o administrador do concelho ordena ao guia que entregue o governo ao dito popular, e como resistisse, empurra-o para o lado do incêndio, e acudindo o inspector (José Ferreira de Abreu) a ponderar, respeitosamente, ao presidente da Câmara, que este ali não tinha a dar ordens, o presidente vocifera e gesticula e o inspector ordena ao guia que entregue a agulheta e demite-se; o presidente ainda depois oferece pontapé ao guia que já tinha empurrado, valendo ao presid…

A Citânia, segundo Luis Vermell (1870)

Quando descrevia o Castelo, no seu Guimarães – Apontamentos para a sua história, António Ferreira Caldas, a dado passo, registou: à entrada da torre de menagem lê-se hoje a seguinte - L. Vermell 1868 - nome dum viajante espanhol, que assim quis legar aos vindouros a memória da sua visita ao castelo de Guimarães. Anos mais tarde, Albano Belino referir-se-ia à mesma inscrição, na sua Arqueologia Cristã: Na ombreira direita da porta dessa torre gravou-se em 1868 um nome que, por estranho ao monumento, devia ser apagado. É o nome de Luis Vermell, pintor-escultor espanhol que residiu em Braga até ao ano de 1870. No mesmo livro, ao descrever um oratório existente na rua de Nossa Senhora do Leite, em Braga, Belino escreve que foi habilmente pintado em Dezembro de 1870 pelo pintor-escultor espanhol Luís Vermell, que viveu durante algum tempo em Braga. A pintura está assinada: Original de Luiz Vermell (o peregrino Español). Luís Vermell y Busquets foi pintor, escultor e miniaturista de retrato…

Efeméride do dia: Os alpendres do Toural

29 de Julho de 1744 Provisão régia, ouvida a Câmara, autorizando D. Josefa Teresa Clara da Silva e Azevedo, viúva de Jerónimo Vaz Vieira, tutora de seus filhos menores, a tapar o alpendre que havia numas casas que comprou para juntar às que já tinha e onde vivia no Toural, no qual havia uns penedos e era lugar escuro, e assim se aformoseava o sítio e era cómodo para a sua família. (João Lopes de Faria,Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 81.) A planta de Guimarães do séc. XVI mostra-nos que boa parte das praças de Guimarães era circundada por uma espécie de passeio coberto, formado pelos alpendres das casas que as delimitavam. Assim acontecia no Toural, nas frentes que fechavam a praça a Norte e a Poente. Escrevendo em finais do século XVII, o padre Torcato Peixoto de Azevedo traçou uma descrição do Toural que seria replicada por muitos nos séculos seguintes: Toda esta Praça do Toural é fechada de norte e nascente com o muro da vil…

A Questão do Seco (2)

Mistérios — Era num domingo, pela manhã, às dez horas, minuto para trás, minuto para diante. Um alto personagem, cujo nome nos disseram muito ao ouvido, atravessava rapidamente algumas das nossas ruas e ia dar consigo na loja dum barbeiro. Os manes de Fígaro estremeceram de prazer nos Elísios, e o seu colega de Guimarães, intimado imperiosamente da urgência da escanhoadela do extraordinário freguês, atirou-se apressada, mas reverentemente aos queixos do sobredito, deixando para mais logo a digestão do pasmo que lhe causara tão espectaculosa visita. A obra fez-se num lampo. S. exa. pagou também apressadamente, e por sinal numa moeda, que exalava um acre cheiro a licitações em inventário de menores, e dirigiu-se precipitadamente a uma das barreiras, onde o esperava um carro, cujas alimárias largaram, mal que o ilustre barbeado se meteu dentro... do carro. S. exa., passada uma hora, pegou no sono — louvável prevenção (sic) contra as diabruras, que podiam obrigá-lo a passar a noite em claro. Em…

Efeméride do dia: Juramento da Carta Constitucional de 1826

28 de Julho de 1826 Sai um Bando em que a Câmara anuncia que o dia 31 deste mês era o dia marcado para o juramento da Carta Constitucional dada pelo sr. D. Pedro IV, cujo bando ia assim: adiante de tudo ia uma escolta de 4 soldados e 1 sargento, depois seguiam-se os tambores e bombo atrás destes ia o pregoeiro, atrás iam os juízes almotacés, e quase juntos a estes iam os misteres cada um com sua bandeira na mão, vestidos todos de grande gala, e atrás de tudo ia uma guarda de honra de 30 soldados do regimento 21, sob o comando de um alferes; ao passar o bando pelo Toural deram-se foguetes e vivas. PL (João Lopes de Faria,Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. III, p. 77 v.) Em tempos em que não havia meios de comunicação à distância eficazes, uma notícia ou um anúncio com alguma relevância era levado ao conhecimento público por meios de bandos anunciadores, uns mais solenes do que outros. Ainda hoje no Brasil, em especial na região da Baía, …

A Questão do Seco (1)

O segundo número do jornal que se publicou para dar voz à revolta do foro de Guimarães contra as arbitrariedades do juiz Sousa Seco, abre com um texto onde se narram os acontecimentos que conduziram uma situação de incompatibilidade latente a um conflito sem tréguas. A gota  que fizera transbordar o copo da paciência dos advogados de Guimarães foi a suspensão, pelo juiz Seco, de Avelino da Silva Guimarães do exercício da sua profissão de advogado, sob a acusação de o ter injuriado num agravo que dirigira à ao Tribunal da Relação do Porto, a propósito de actos do juiz num processo que tinha a ver com um tesouro encontrado na Quinta de Aldão por dois criados, que dele se apropriaram. Avelino da Silva Guimarães, além de advogado prestigiado, era um cidadão de Guimarães destacado, tendo sido, anos mais tarde, um dos fundadores da Sociedade Martins Sarmento. À altura da "questão do Seco" era Presidente da Câmara de Guimarães. O texto do Justiça de Guimarães, que a seguir se repr…