31 de maio de 2013

Pregões a S. Nicolau (84): 1932

S. Nicolau (Catedral de Burgos)

As Festas Nicolinas de 1932 foram, uma vez mais, prejudicadas pelo mau tempo. Neste ano, o pregão sobressaiu, repetindo-se o autor do ano anterior, Jerónimo de Almeida. O pregoeiro foi o estudante do quinto ano, Francisco José Teixeira de Aguiar.
O texto começa por uma viagem pelo Mundo (Itália, União Soviética, França, Alemanha, América, Brasil, Espanha), até que chega a Guimarães, satirizando os melhoramentos de que a cidade tinha sido objecto nos últimos tempos.

FESTAS NICOLINAS EM GUIMARÃES
Pregão Escolástico
Recitado em 5 de Dezembro de 1932
pelo quintanista
Francisco José Teixeira de Aguiar

A Academia Vimaranense, no pertinaz desejo de efectuar as tradicionais Nicolinas, solicitou de mim, uma vez mais, o meu humilde concursoescrevendo o Pregão. Como o fizessem nas vésperas da Festa, fiz uma cara feia! Mas os nossos briosos académicos insistiram! E euque, positivamente, não possuo a lira de Elmano - compus sobre o joelho esse Improviso, de cuja pobreza de ideias e mesquinhez de forma peço perdão a Minerva!...
J. A.


Deixem, de S. Domingos, os sinos de tocar,
Que fazem entristecer, a cada passo, a gente!
Tréguas à nossa dor e basta de chorar!
Tristezas hoje?... Não! Nicolau não consente!

Paire, em volta de nós, a alma de Rossini,
Ao ouvir do tambor o musical idioma,
Que eu julgo ver até o próprio Mussolini
No momento em que fez a marcha sobre Roma!

Lenine apodreceu nas steppes de Moscovo!
E o exército vermelho, os rubros soviets,
Julgando reformar este mundo de novo,
Sentiram-se calcar, por toda a gente, aos pés!...

O abençoado sol que doira os nossos campos
Não carece da luz de novas teorias:
São pequenos, azuis e débeis pirilampos.
Tentando iluminar as noites mais sombrias!

Se um dia se apagar o fogo da lareira
Que a todos nos reúne em íntima vigília,
As Pátrias romperão os elos da fronteira
E o homem viverá à toa e sem família!

Reine a Paz e a Harmonia em nossos corações,
Única aspiração que esta época celebra,
Apesar — ó vergonha imensa das Nações! —
Da luta que se deu no seio de Genebra!...

A França quer a Paz e, em nome do Progresso,
Clama o Desarmamento em eloquência vã!
Mas se as coisas se voltam, um dia, do avesso,
Desfaz-se, de-repente, o sonho de Briand!

A Alemanha sorri... e, olhando de soslaio,
Pensa e torna a pensar no seu doirado Império,
E dando de barato a tanto papagaio,
Diz ao Kaiser que venha em comboio-mistério!...

A América, a sonhar nos seus “arranha-céus”,
Contempla, com desdém, a turbulenta Europa,
E diz à Inglaterra: “Ó velhos sócios meus!
Ou me enviais dinheiro ou organizo tropa!...

O nosso irmão Brasil, numa febre maluca,
Ferindo dento em si as lutas mais insanas,
Enquanto os sabiás gorjeiam na Tijuca,
Come balas julgando saborear bananas!

Portugal, esse então, olhando para a Espanha
E vendo o que se passa em plena Catalunha,
A todo o instante espera uma nova façanha,
Para de cá gritar, em voz potente: “À unha!...”

No meio deste imbróglio irónico e fatal,
De que ninguém, talvez, chega a fazer ideia,
A Rússia descobriu o plano-quinquenal,
Para ver se põe termo a tamanha odisseia!

Mas como a Paz na Terra é uma pura quimera
E jamais poderá haver por cá sossego,
O remédio será subir à estratosfera,
Resolvendo por lá também o desemprego!...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

*

Deixemos o que vai por esse mundo fora
E olhemos para nós, para este lindo Berço,
Doirado pelo sol da mais formosa aurora
E eu canto, envaidecido, em sonoroso verso!

Que Guimarães progride é um facto manifesto,
E eu tenho para mim, é minha opinião
Que mesmo se faltar dinheiro para o resto,
Outra Rua não há como a do Capelão!...

Vai já adiantada a Praça do Mercado
Que delícia há-de ser de todos os turistas,
Ficando-lhe a Avenida-nova mesmo ao lado,
Com passeios de mármore e casas futuristas!

Candeeiros de prata e mais melhoramentos
Nunca mais hão-de ter em nossa terra fim!
Com respeito, porém, a certos monumentos,
Bastarão por agora os Vasos do Jardim...

O Castelo voltou à sua mocidade,
Arrancaram-lhe a hera e tem novas ameias:
Relíquia, sem igual, desta nobre cidade,
Que sempre se orgulhou de ter boas ideias!...

A Câmara actual que, sem parar, se empenha
Em cumprir fielmente o seu belo programa,
Mandou principiar, voltado para a Penha,
Um Bairro que a atenção de toda a gente chama!

Quando chega o calor (eu esta ideia louvo-a!)
Como o povo a gozar hoje não é tacanho,
No rápido que vai mesmo direito à Póvoa,
Avança para o mar a fim de tomar banho!

Só um desgosto há que não nos abandona,
E apesar de eu saber que há muita gente rica,
Como ao tempo que foi da velha Mumadona,
Ninguém diz, do* Teatro, ao certo, onde ele fica!...

Oiço, de vez em quando, ali para o Proposto
Um grande brouhaha, uma algazarra imensa,
E eu que nunca gostei de futebol, nem gosto,
Vejo que só na Bola a humanidade pensa!

Como a bola, porém, não tem nenhum miolo,
Contendo dentro em si oxigénio só,
Nesta vida que faz até sorrir um tolo,
Não há nada melhor que jogar o yo-yo!...

*

Guimarães comemora, em breve, o Centenário
Dum filho ilustre seu e dos maiores que teve,
Uma alma de eleição, um génio solitário,
A quem tão fundamente a Arqueologia deve!

É um Sábio que merece o mais profundo culto;
Não é nunca demais, por isso recordá-lo:
Em bronze há-de gravar-se o seu egrégio vulto
Para que ao pátrio-amor lhe sirva de regalo!

Mas Guimarães não teve apenas a Sarmento,
Outros Homens prestaram a Guimarães também,
Ou pelo coração ou pelo pensamento,
Um grato benefício, um luminoso bem!

Que tenha cada um a glória que lhe cabe
E seja a nossa terra mais agradecida
A quem a enobreceu e que por ela sabe
Lutar até morrer em toda a sua vida!...

*

Agora eu vos saúdo, ó Mestres do Liceu!
E peço a Nicolau, com toda a minha alma,
Que olhando para nós lá do alto do céu,
A todos nos conceda vida longa e calma!
*
Senhoras! perdoai a este maçador
Que tanto bem vos quer e não vos pede nada!
Para mim a Mulher será sempre uma flor,
Muito embora essa flor ande, às vezes, pintada!

Mas eu não levo a mal um bocado de tinta,
Pois que, se pouca for, até vos dá mais graça!
Já que, por nosso mal, toda a gente se pinta,
Para ver se a velhice ainda por nova passa!...

*

Até que se acabou o triste pé-descalço,
O sapato e a chinela é tudo o que se vê;
E eu corro, muita vez, neste infeliz percalço
De me esquecer a olhar para um bonito pé...

A higiene é que manda. Há apenas um defeito
Bem alto a protestar contra esta maravilha:
— É que mesmo que seja um pé muito bem feito,
O sapato, se for muito apertado, trilha!

*

Fiquemos por aqui e bastará de tretas!
Rapazes! prosseguir avante, rua em rua!
Fazendo estremecer os frígidos planetas
E ocultar-se, outra vez, em negra sombra a lua!...

Jerónimo de Almeida



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As Poesias de António Lobo de Carvalho (41)

Ao sobredito Marquês, abandonado da Corte, no seu parreiral, onde manga em tudo.




Qual rafeiro, que estando ao sol deitado,
Que os pequenos em pé ouve latindo,
Com o rabo teso apenas sacudindo
Enxota as moscas, que lhe tem pousado:

Tal o velho Marquês, no ouro fiado,
Os mordazes satíricos ouvindo,
À sombra da piedade se está rindo
De quanto agora lhe maquina o fado:

Vê livres os fidalgos inocentes,
Acha-se só, não tem quem o socorra,
Ódio mortal de todos os viventes:

Um clama ao céu justiça, outro que morra,
Nada o altera; chama-lhe imprudentes;
Filho da puta, gabo-lhe a pachorra
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Efeméride do dia: Os frades recebem ordem de despejo

Joaquim António de Aguiar, o Mata Frades (1792-1884)

31 de Maio de 1834
São intimados os frades da Costa, S. Francisco, S. Domingos e Capuchos para deixarem os seus conventos, dando-lhes alguns dias, entregando as chaves das igrejas e sacristias aos párocos das suas freguesias e as das casas e oficinas ao corregedor da comarca.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. II, p. 196)
Assinada a Convenção de Évora Monte (v. efeméride do dia de ontem), prossegue o programa liberal de extinção do Antigo Regime. Muito embora o regente D. Pedro tenha assumido uma postura de recusa do revanchismo sobre os que, na Guerra Civil, tinham enfileirado ao lado das hostes miguelistas, os conventos eram encarados como refúgios de boa parte dos mais ferozes inimigos da ordem constitucional. Mal acabada a guerra, foi publicado o decreto que justificou o cognome por que o seu autor, Joaquim António de Aguiar, ficou conhecido na história nacional, o Mata-Frades. O relatório que antecedia o decreto de 28 de Maio de 1834, publicado no dia 31 seguinte na Crónica Constitucional de Lisboa é expressivo quanto ao modo como, por aqueles dias, eram vistos os que povoavam cerca de meio milhar de casas religiosas em Portugal, cujos rendimentos  com uma dimensão semelhante ao total das receitas do Estado:

Têm-se urdido no Claustro insidiosas tramas contra o Trono legítimo, e contra a civilização e liberdade nacional... as casas religiosas foram convertidas em assembleias revolucionárias; os púlpitos em tribunais de calúnias facciosas e sanguinolentas; e o confessionário em oráculos de fanatismo e de traição. A Nação inteira viu uma parte do Clero Regular trocando a milícia de Deus pela milícia secular, abandonando efectivamente o Santuário cuja potência os não secundava, despojando o culto de suas opulências, para as converter em meios e estímulos de guerra, distribuindo com uma mão as relíquias dos Santos, e com a outra as armas fratricidas, alternando as verdades do Evangelho com as mentiras mais absurdas, as orações com as proclamações mais ferozes, e para cúmulo de horror perpetrando na solidão da noite desacatos inauditos para os assoalhar de dia como obra dos liberais: a Nação toda viu alistado nesses bandos de selvagens assim fanatizados, correndo as fileiras, cingindo em vez do cilício que lhe cumpria trazer, a espada que devera exterminá-lo, e disparando rios de morte com as mãos que foram sagradas para suplicar e atrair as bênçãos do Céu sobre os seus semelhantes, incitando com sua palavra e com o exemplo ao roubo, ao assassínio, e ao incêndio; submetendo enfim a Religião aos caprichos de uma imaginação delirante e furiosa (Relatório do decreto que suprime as congregações religiosas).
(Relatório do decreto que suprime as congregações religiosas, in Maltez, José Adelino, Traição e Revolução – Uma biografia do Portugal político do século XIX ao XX, Vol. I (1820-1910), Tribuna da História, Lisboa, 2004, pp. 243-244)

Os conventos masculinos de Guimarães foram esvaziados de imediato, à imagem do que sucedeu no resto do país (para os femininos, iria adoptar-se um procedimento diferente: tendo sido igualmente extintos, a sua entrega ao Estado apenas aconteceria após a morte da última das sua freiras, tendo-se proibido os noviciados). No dia 18 do mês seguinte, foi publicado o decreto sobre a venda dos bens nacionais, em que os bens de mão morta (que não se transmitiam por herança, ficando para sempre nas mãos da Igreja) dos conventos foram colocados em hasta pública.

Em Guimarães ficaram todos os conventos masculinos completamente devolutos em 9 de Julho, na sequência de nova intimação do corregedor. Destes,  Convento de Santa Marinha da Costa seria vendido em leilão. A Câmara pretendia dar-lhe um outro destino, que o Governo não autorizou. A este propósito, escreveu o Padre António Caldas no seu Guimarães - Apontamentos para a sua História:

Em 1834, em sessão de 29 de Novembro, representou a câmara às cortes, pedindo a criação, no próximo convento da Costa, dum estabelecimento de educação de expostos, onde ao menos se lhes ensinassem as primeiras letras, com algum ofício útil; bem como se ensinassem também às meninas as prendas domésticas. Mas o governo de sua majestade, talvez por motivos de muito peso, preferiu a venda do convento, por um preço inferior ao valor das telhas, que cobriam este edifício, à fundação dum instituto de tal ordem!

Nos anos que se seguiriam, muito se discutiria acerca do destino a dar aos conventos masculinos de Guimarães. O de S. Francisco seria entregue à Ordem Terceira que hoje o governa; o de Santo António dos Capuchos seria adquirido pela Misericórdia, para acolher o seu hospital; o de S. Domingos viria a ser entregue à Sociedade Martins Sarmento, para nele instalar os seus museus, a sua biblioteca e os seus serviços. E assim continuam nos dias de hoje.
Pela sua parte, o Mosteiro da Costa, foi colégio, seminário e casa de habitação. Em 1911 passou a ter António Leite de Castro Sampaio E Vaz Vieira como proprietário único. Retornaria à posse do Estado. No princípio do último quartel do século XIX passou por um profundo processo de requalificação, com projecto de Fernando Távora, que o transformou numa pousada.
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30 de maio de 2013

Pregões a S. Nicolau (83): 1931

Repouso de S. Nicolau

O pregão de 1931 voltou a sair da pena inspirada de Jerónimo de Almeida. Foi lido pelo estudante Joaquim Viana da Fonseca. Por aqueles dias, escrevia-se no jornal: O Comércio de Guimarães:

O cortejo do bando escolástico, não se apresentou com o chiste de alguns anos. Quando o vimos, ia bastante desorganizado.
E foi pena, porque a letra do Bando, da autoria do nosso prezado conterrâneo o snr. Jerónimo Almeida, era uma mimosa e rápida resenha de alguns factos passados entre nós. Agradou.


FESTAS NICOLINAS EM GUIMARÃES
Pregão Escolástico
Recitado em 5 de Dezembro de 1931
pelo académico
Joaquim Viana da Fonseca

“Só de Ti, Nicolau, vem a alegria.
Só Tu ao coração prestas alento.”
Dr. João Evangelista de Morais Sarmento
(Pregão de 1818)

AUTOR:
Jerónimo de Almeida

Já se perde nas brumas da memória
A lembrança do tempo que passou,
Já ninguém contar sabe agora a história
De quando a nossa Festa começou!
Mas se alguém existir e tenha a glória
De afirmar que tal data desvendou,
De cuidados se tire e, sem assombros,
A nossa capa negra deite aos ombros!

Há quem diga que a Festa despontara
Entre os velhos alunos de Latim,
E a trombeta da fama a transportara
Desde as margens do Selho até Pequim!
Lá do alto do Céu, então, baixara,
Em resplendente nuvem de cetim,
Nicolau muito amado, o bom Patrono,
Que ali, na Oliveira, tem seu trono.

Houve sempre, no mando, pessimistas,
Sempre gente que diz de tudo mal,
Uns que têm ideias bolchevistas,
Outros que pensam só no vil metal!
Eu que nunca gostei de dar nas vista
De quem vai ao Café Oriental,
Antes quero comer duas sardinhas
Dentro da loja da Senhora Aninhas!

Lindo Berço da Pátria Portuguesa,
Não esqueças tuas nobres pergaminhos;
Avança para a frente com firmeza,
Abrindo novas ruas e caminhos!
Dá-lhes novos aspectos de beleza.
Passeios de cimento aos quadradinhos!
E, galgando muralhas e congostas,
À antiga Araduca volta as costas!...

Tu sonhaste um pequeno paraíso
À volta das ruínas do Castelo,
Para nele te mirares, como Narciso
Enamorado de seu rosto belo!
Começaram as obras... O granizo
Arrasou-lhe os canteiros, qual martelo!
Resolveu-se, por isso, nunca mais
Gastar o tempo em coisas triviais...

Anda travada enorme divergência
A respeito dos Paços do Concelho,
Os edis actuais pedem clemência,
— Que decida do caso o que é mais velho!
O cofre camarário abria falência,
De tanto que mexeram no aparelho!...
E se alguém me pergunta: '‘Abaixo ou não?!…”
Só direi: “Sou da mesma opinião!...”

Gritavam para aí, constantemente,
Que eram precisos bairros operários,
Que vivia em gaiolas muita gente,
Tal como os pintassilgos e os canários!
Meditou-se no caso seriamente
E formaram-se, logo, planos vários...
Mas enquanto não há melhor ideia,
Alugaram-se os quartos da Cadeia!...

Nesta vaga medonha de progresso
Que, há anos, inundou a nossa terra,
Já quase, Guimarães, te desconheço,
Nem percebo a razão porque se berra!
Cada passo que dás é um sucesso,
Mais um novo portento se descerra!
Não pode consentir-se, não tem jeito
Criticarem-te assim! — Não há o direito!...

Ó Senhor Delegado de Saúde,
Veja lá no perigo que nos mete!
— Ver poeira no ar eu nunca pude!
Era melhor correr-nos a cacete,
Que vassouras de dia! É muito rude!
Os pulmões mais robustos compromete!
Mas o caso não é para cantigas,
Pois até nos passeios dão bexigas...

Só tu, formosa Penha, eras capaz
De nos dares aquilo que nos falta;
Já o Sameiro fica para trás,
Porque a serra da Penha é bem mais alta!
Tudo ali são encantos, mimos, paz,
Com que nossa alma se distrai e exalta!
E para quem não leva um bom farnel,
Um Bar, um Restaurante e um Hotel!

É por isso que Braga tem ciúmes
E anda triste a pensar no Bom Jesus,
Desde que ergueu o olhar aos altos cumes,
Descortinando, ao longe, estranha cruz…
Resplandecia a Penha de mil lumes,
Num halo apoteótico de luz!
E ficou a saber, quem nos inveja,
Que essa cruz indicava a nova Igreja!

Todo aquele que subir até lá acima,
Leve o seu coração tranquilizado,
S. Cristóvão a todos guia e anima,
Num penedo gigante consagrado.
O reparo da estrada já se ultima,
Ficando todo o piso alcatroado...
Poderão os “chauffeurs” cá da Parvónia,
No volante mexer sem cerimónia!...

Histórico pelote de D. João,
Oratório sem par de Aljubarrota,
Pulsa mais forte o nosso coração,
Lembrando, de Castela, hoje a derrota!
O Tesouro saia da escuridão,
Mercê dum invulgar compatriota!
Louvemos, pois, assim quem, com tal gesto,
Dum rico património salva o resto!

Sombras vãs de futuros monumentos,
Promessas sem valor daquele e deste,
— Onde estão esses belos ornamentos,
De que qualquer cidade se reveste?!...
Ó fugazes e belos pensamentos
Que, às vezes, atingis o azul celeste,
— É preciso deixar aos nossos netos,
Mais papéis recheados de projectos!...

“Cesse tudo o que a musa antiga canta”
Pois iremos, enfim, ter um Teatro,
Está delineada, há muito, a planta,
Só ele valerá por três ou quatro!
Quem, por isso, quiser pintar a manta,
Pode ouvir o Menano, que idolatro!
E ao fitar os seus lindos arrebiques,
Saudades terá do “Afonso Henriques”!...

Adorado Toural, tão soalheiro,
Testemunha das nossas desventuras,
Foi por causa da crise do dinheiro,
Que estiveste alguns anos às escuras!
É preciso arranjar um sinaleiro
Para tão perigosas conjunturas!
E se fazem de ti como a um boneco,
Reclama o Chafariz, mesmo assim seco!

Companheiros de estudo, confiança,
— Parece, desta vez, que não me engano,
O Liceu tem andado numa dança
Dizem que volta o 6.° e 7.º ano!
Entretanto ninguém ainda descansa,
Com receio de mais um desengano!
Ó Senhores Professores, por quem sois,
Arranjai os dois anos — são só dois!

Edison morreu! se, acaso, morre
Quem tão alto o seu nome assim ergueu!
O seu génio imortal o mundo corre,
E, em ondas de harmonia, sobe ao céu!
Mas se ainda há alguém que não discorre
Sobre o grande valor que se perdeu,
Que vá ao “Gil Vicente” hoje ao Sonoro,
—Não é isto verdade, ó Teodoro?...

Eu não sei o que mais possa existir
Que fascine os mortais cá deste mundo:
— Eles voam no espaço, sem cair!
Eles descem ao pélago profundo!
Só falta aparecer um elixir
Que ressuscite os mortos, num segundo!
Se até — ó maravilha! — os próprios moucos,
Ouvem daqui bailados em Marrocos!...

Ó Senhoras gentis, castas donzelas,
Esperança da nossa mocidade,
Abandonai as frígidas janelas,
Vinde gozar connosco a liberdade!
O porvir da mulher não tem cancelas,
Podeis andar e rir-vos à vontade!
Mas se fordes à urna — por favor! —
Votai unicamente pelo Amor!...

Costureiras do “High-Life” tão catitas,
Aboliu-se da moda a saia curta
Com que o diabo andava a fazer fitas,
Para ver se o juízo, à gente, furta!
Não vos julgueis, pintadas, mais bonitas!
— Não se pinta, também, a flor da murta.
Usai só de pomadas higiénicas,
Se quereis que vos chame fotogénicas!

Silvos do Castanheiro e do Proposto!
Da Avenida, Minhoto e Vila Flor!
Pagai a Nicolau o vosso imposto,
Aumentando o ruído do tambor!
Sirenes! buzinai com maior gosto!
Ó sinos de S. Pedro, mais calor!
E saiba todo aquele que não freme,
— Aqui em Guimarães nunca se treme!


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