31 de março de 2013

Da ópera para o convento

Antigo Convento das Capuchinhas de Guimarães (hoje, Oficinas de S. José)


Na sua edição do dia 25 de Julho de 1844, a Revista Universal Lisbonense traz uma notícia onde se dá conta de uma exibição no teatro do Porto, cuja receita reverteria para as freiras Capuchinhas de Guimarães, dos cantores de ópera Sra. Olivier e Sr. Sermallei. A notícia é atravessada por uma manifesta ironia, que se percebe, por outros textos publicados pela mesma revista, da antipatia que os seus redactores dedicavam àqueles artistas.

HARMONIA ENTRE O MUNDO E O ERMO
Quais serão no orbe moral os antípodas de um convento de capuchinhas se não forem os dos virtuosos escriturados? e quais serão os antípodas de um teatro de ópera se não for um convento de capuchinhas? Pois… coisa inaudita!... acabámos de ver trabalhar entre estes antípodas um telégrafo eléctrico de amor.

A Sra. Olivier e o Sr. Sermallei fizeram no teatro do Porto um benefício para as velhas e desamparadas religiosas capuchinhas de Guimarães, que lhes rendeu 240$ réis (o domine, lábia mea aperies ás sopas della mia felicitá!).

As santas religiosas agradeceram ao Sr. Sermallei e à sra. à Sra. Olivier numa carta muito bem concertada, em que se falava mais de Deus do que de Donizetti, em que rematavam prometendo-lhes a glória, não a dos folhetins, mas a eterna: e com esta carta lhes mandaram algumas caixas de doces finos, obra de suas mãos, tão saborosos no seu género como as caritativas árias tinham sido no seu.

Revista Universal Lisbonense, volume 4, 1844-1845, 25 de Julho de 1844, p. 11
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Pregões a S. Nicolau (24): 1855



Sebastião da Costa Vieira Leite, que ficaria conhecido como o padre poeta e que já havia declamado o bando escolástico dos estudantes de Guimarães pelas festas de S. Nicolau, acumula em 1855 a função de pregoeiro com a de autor do pregão. Neste pregão prometia-se, para o dia da festa, “um Céu na terra de prazeres novos”.

Bando Escolástico
FEITO E RECITADO
POR
Sebastião da Costa Vieira Leite
em 1855.

Depressa ò povos mil, vinde em torrente
Pasmar à minha voz altiloquente!
Cessem penas cruéis, cessem cuidados,
Afanoso lidar, tristes enfados;
E escutai-me um programa portentoso
Que vai ditar-vos leis, vai assombroso,
Mostrar-vos como brilha a mocidade
Que logra de Minerva alta amizade.

Do frígido Dezembro a sexta Aurora,
Festiva como nunca o fora outrora,
Ou vista a nuvem parda, ou fresca rosa
Lhe tinja a face divinal, mimosa,
Ou rompa a custo, a sombra densa e escura,
Ou toda livre, em luz se envolva pura;
Quando enfim se mostrar, tereis ò povos,
Um Céu na terra de prazeres novos.
Mascarada vereis tão surpreendente,
Que endoudeça de gosto a toda a gente,
Geral entusiasmo, e riso, e danças,
Aquém e além subtis, finas lembranças,
Facécias mil, e mil exibições,
Grato enlevo de alegres folgazões,
De música dulcíssimos acentos,
Capazes de amansar tigres cruentos;
Vereis mais o que a língua não exprime,
Por ser fraca em dizer o mais sublime;
Eis aqui, Guimarães, como o estudante
Vai mostrar-te amanhã, função que espante!
Mas que falta ainda aqui de valor tanto,
Que em tudo sabe desparzir o encanto?
Ah! sim, sois vós, ò Querubins da terra.
Vós, que sendo na paz, sendo na guerra,
Delícias sempre, e mimos e primores
Donde brandos emanam mil amores;
Se de tudo vós sois a vida, o alento…
Ò virgens, sede pois, um só momento,
Aos filhos da ciência consagradas:
Esperai, na janela debruçadas,
A vermelha maçã, e amor, e vida,
E frases de paixão a mais sentida;
Escutai-as, que são a expressão de alma
Do jovem que incendido não se acalma;
E depois consenti que a mão tremente
Vá sentir-lhe de um beijo o ardor fervente.
Não pede mais a sábia juventude,
Se mais pedir-vos vai contra a virtude,
Bem longe pois, irmão degenerado,
Que connosco não quer ser mascarado;
E muito mais o peralvilho estulto,
Aos vícios dado, e na ciência inculto.
Se pois, houver algum que queira insano,
Roubar-vos este mimo soberano,
Se quiser, temerário e disfarçado,
Do estudante, amanhã, campear ao lado,
Ai dele! que melhor fora em tal caso,
O nariz cora a terra andar-lhe raso;
Ou lá numa trapeira entaliscado,
Ser mais do que chouriças defumado;
Melhor fora, que ser em pó desfeito,
Ou rachado cem vezes pelo peito.

Está ditada a lei, notória a festa!
Agora o que será que ainda me resta?
Nada mais que dizer em voz troante:
Multidão escolar! avante, avante!
Fazei de assombro estremecer o mundo
Desde o mais alto até ao mais profundo!
Rebentai os zabumbas, os tambores,
Se neste estrondo há majestade e horrores.
Enquanto a fama corre, e do universo
Subindo além, o vai deixar submerso,
E suspenso e abatido à nossa glória;
Pois, de outra igual não fala a humana história!!
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Escritores vimaranenses (54): Luís António Navarro de Andrade


LUÍS ANTÓNIO NAVARRO DE ANDRADE, cidadão brasileiro, natural de Montevideu, nasceu em 25 de Agosto de 1825, filho do tenente-coronel dr. Sebastião Navarro de Andrade. Pertence a uma família nobre e distinta, oriunda da Espanha que se estabeleceu em Portugal, e aqui possuiu o morgado do Toural, em Guimarães.
Jornalista de 1848 até 1868, época em que redigiu diferentes jornais, sendo o primeiro a Sentinella do throno, fundado em 1848 para combater as ideias revolucionárias. Em 1849 substituiu na redacção do Brazil seu redactor o célebre jornalista dr. Justiniano Rocha. Em 1851 passou à redacção em chefe do Diário do Rio de Janeiro, folha diária, a mais antiga do Brasil.
Redigiu e colaborou depois em grande número de periódicos semanais e diários, escreveu vários folhetos acerca de assuntos políticos a respeito da guerra do Paraguai.
Fez parte da câmara municipal da Corte na qualidade de vereador suplente em 1863 quando foram suspensos e processados pelo governo a maior parte de seus membros, e defendeu os vereadores processados. Tendo aceitado o cargo de cônsul geral do estado oriental no reino da Prússia em 1865, aí exerceu essas funções até 1867. Regressando ao Brasil tomou de novo a redacção do Diário do Rio de Janeiro, onde prestou importantes serviços até 1868, em que abandonou completamente o jornalismo.
Depois de prolongada enfermidade, que o afastou dos trabalhos activos, foi em 1881 nomeado chefe da repartição do tombamento, fundada na mesma época pela câmara, reorganizou-a depois, e elevou com zelo e actividade o valor do património municipal, que por então quase nada produzia.
Tendo apenas vinte e sete anos quando se achava à frente do Diário do Rio, foi condecorado por sua majestade fidelíssima com a comenda da ordem de Cristo pelos relevantes serviços prestados a Portugal advogando a causa do estabelecimento ali dos caminhos-de-ferro e da navegação de vapor entre o nosso país e o Brasil.
Não conheço nenhum dos opúsculos acima mencionados, mas sei que publicou mais o
Livro do povo. Rio de Janeiro, na typ. de Nicolau Lobo Vianna, ou do Diário do Rio de Janeiro, 1856. 8.°— Compreende 27 capítulos e trata da história política dos povos, e da sua organização social e religiosa. Era destinada às escolas. Devia ter seguimento, porém creio que não passou do tomo I. Quando menos, não tenho a este respeito nenhuma informação em contrário.
Relatório apresentado á ill.ma câmara municipal, em 29 de agosto de 1880, pelo commissario do tombamento, etc Rio de Janeiro, na typ. do Cruzeiro, 1880. 4.º de 16 pág. e 1 mapa.
Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo XIII, Imprensa Nacional, p. 342
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Efeméride do dia: A autonomia do concelho de Guimarães

José Luciano de Castro
31 de Março de 1886
União ao Porto - A comissão de vigilância de Guimarães, a respeito da questão brácaro-vimaranense, resolve: 1º A comissão de vigilância toma na devida consideração as declarações solenemente feitas pelo Governo nas duas casas do parlamento acerca do modo como pretende resolver o conflito de Guimarães; 2 º A autonomia municipal, como foi proposta pelo presidente do conselho, José Luciano de Castro,"não mais procuradores à junta geral, não mais um ceitil para o distrito", com quanto que não seja aquilo que primariamente pedimos, é honrosa à cidade e concelho de Guimarães; 3 º Se depois de promulgada a nova reforma administrativa, a cidade e concelho de Guimarães não julgarem satisfeitos a sua dignidade e os seus interesses, continuaremos pugnando pela solução que satisfaça aquela dignidade e interesse; 4 º A comissão reunir-se-á ordinariamente, com até hoje, às quintas-feiras e extraordinariamente todas as vezes que for necessário, para tratar de todos os assuntos relativos à questão.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. I, p. 318 v.)

José Luciano de Castro havia assumido a presidência do Governo de Portugal na sequência da queda do último Governo de Fontes Pereira de Melo, que o conflito que se ateara a partir do dia 28 de Novembro de 1885 ajudara a abater, pelo que se percebe que a procura de uma solução para aquele litígio fosse uma das primeiras preocupações do novo chefe do Governo. Não tardou muito a apresentar uma solução, que visava apaziguar os vimaranenses que defendiam a saída do concelho do distrito de Braga e a sua integração no distrito do Porto. Propunha-se conceder a Guimarães o mesmo regime de autonomia de que gozava o concelho de Lisboa. A proposta foi recebida em Guimarães com sentimentos díspares, como se pode ver pelo seguinte texto, então publicado no jornal O Entusiasta, que nasceu para defender a causa da União ao Porto:

Autonomia
A palavrinha tão eufónica, tão musical, dizem que na sua análise etimologia, se desdobra em duas gregas autos, próprio, e nomos, lei.
Quando o governo nos prometeu a autonomia, em vez da desanexação, logo entendemos que nos falava em grego; de tal modo o fez que parece que a palavra se tornou a ainda mais grega, visto que a autonomia do município de Lisboa virá para nós com modificação sobre modificação.
Se pois o governo, na sua ciência de perverter o sentido genuíno das palavras julga que autonomia se escreve errado, e a converte automonia, com origem em auto e monos? Prega-nos o mono! Então é que nos confunde, nos intriga, nas atrapalha.
E se, por causa das modificações, nos dá uma autonomia modificada, atenuada, de meia ração?
Prega-nos o mono!
E se, como no projecto de 1880, a palavra não corresponde ao facto nem sequer por um ditado?
Prega-nos maior mono!
E se nem o título nos concede?
Prega-nos o maior dos monos!
Pois visto isso, nada de demoras.
Venha isso, seja o que for, quanto antes, queremos desenganar-nos.
O Entusiasta, n. º 4, Guimarães, 4 e Abril de 1886

Para saber mais: O conflito brácaro-vimaranense nas Memórias de Araduca


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30 de março de 2013

Cento e doze aves de pena por "dar os Reis"


Nos Reis de 1843, os estudantes de Guimarães fizeram ressurgir uma velha tradição. Andaram pelas casas a cantar os Reis, recebendo como recompensa mantimentos para um jantar pantagruélico realizado no dia 10 de Janeiro. A notícia saiu na Revista Universal Lisbonense, que a transcreveu do Periódico dos Pobres do Porto.

RENASCIMENTO DE FESTAS ANTIGAS
Escrevem de Guimarães que este ano, véspera de Reis, andaram os estudantes na forma de antigos costumes dando os reis pelas portas dos seus amigos, com música vocal e instrumental: juntaram cento e onze aves de pena, fora carne de porco, de que fizeram um grande jantar no dia 10, que teve lugar na quinta do Matos, próxima da vila, e a que foram convidados os seus amigos; reinou a melhor ordem e sossego.
P. dos P. no Porto
Revista Universal Lisbonense, 3, 1843-1844, 1 de Fevereiro de 1844, p. 293
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Pregões a S. Nicolau (23) 1854



D. Maria II, que em 1852 elevara Guimarães a cidade, faleceu no dia 15 de Novembro de 1853. Guimarães pôs-se de luto e, por esse motivo, neste ano não houve festas a S. Nicolau.
O pregão do ano seguinte vem assinado por F. Martins, ou seja, é da lavra de Francisco Martins Sarmento que, à altura com 21 anos de idade. Foi recitado por António Joaquim Ferreira de Eça e Leiva.


Pregão escolástico
Recitado no dia 5 de Dezembro de 1854
Por António Joaquim Ferreira de Eça e Leiva.

Ao fundo meditar de horas sem conto
O filho do saber põe curto ponto.
– É preciso que a flor aspire o orvalho.
Que o recreio, o folgar siga o trabalho;
Que o moço pensador, rindo fagueiro
Das mil lucubrações dum ano inteiro,
Tenha em prémio pedir de amor a palma
Às plantas da mulher, que trouxe na alma.
– Surge pois, Guimarães; o sol vem perto,
Que brilhante há-de vir ao teu desperto.
Matizados florões prende às janelas,
Cobre as feridas do chão das flores mais belas,
E à flor dos filhos teus, que te amam tanto.
De notas festivais ergue-lhe um canto:
Que amanhã, amanhã, dos Estudantes
A função brilhar vai mais do que dantes,
– Bailados vós vereis – delírios, queixas,
Juramentos de amor, ternas endeixas,
Na quadra juvenil sonha de ardente.
– Mas da turma civil, briosa e honesta,
Sectário do cerol que entre na festa....!?
Ai! Dele! – ninguém há que à pena o arranque
– Interino bacalhau – de ir para o tanque
Maldizer a hora aziaga da lembrança
De vir meter o pé em tão má dança.
Ai! de vós! – todos vós a quem a ciência
As portas não abriu!... Tende paciência…
Dizei como a raposa (se quiserdes):
“Boas uvas serão, mas estão verdes”;
Que da turba, civil, briosa e honesta,
Só quem loiros tiver entra na festa,
Só quem loiros tiver!... Então, formosas,
Não podeis a nenhum ser desdenhosas;
Vós, a cujos pés rica e brilhante
A coroa da função o põe o estudante…
Vê-lo-eis amanhã dívida antiga
Num pomo vos pagar com mão amiga
Mas este simboliza amor, ternuras;
O vosso, maldição, dor, penas duras.

Tomai-o a sorrir ou com seu pranto;
Mas pagai tanto amor, heroísmo tanto.
Um olhar!... um sorrir!... bem sei, é pouco;
Mas um riso, um olhar, o fará louco.
Ai!... Já enternecer-me... isto só basta!
O resto (perdoai) fica na pasta.

Tricanhinha gentil, quebro uso velho,
Finezas não te dou, dou-te um conselho.
Se terno maganão por linda carta
À fala te obrigar... oh! vara e quarta!
Fazer meias, coser ou torcer linhas,
Se não é bom comer, não tem espinhas;
Enquanto que de amor as leis injustas
Te farão – ré ou não – pagar às cestas.
Vós, carcaças, cozinheiras, etecetera,
Tomai esta lembrança ao pé da letra:
Queremos que folgueis a vosso modo;
Queremos ver folgar o mundo todo;
Que, quando Guimarães ri prazenteiro,
Sorrir deve também o Orbe inteiro.

Eia, pois, sócios meus, troai no espaço.
Embora o bombo estoire, ou canse o braço
Dos festejos a voz na asa do vento
Faça a Lua tremer no firmamento.
(Se ela cai?... tanto melior; que veremos
Os bichos que ela tem.) – Eia, mostremos
Que se hoje Guimarães não espanta as gentes
Com incrível valor, feitos ingentes;
Se guerreiros não tem, tem Estudantes,
Que um renome lhe dão maior que o dantes.
                                                                   F. Martins.
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Sousa Bandeira e a moda do "Te Deum"

José de Sousa Bandeira

Te Deum Laudamos (A Vós, ó Deus, louvamos) é um hino litúrgico católico geralmente atribuído a Santo Agostinho e a Santo Ambrósio, de que se conhecem inúmeras versões cantadas, que costumava ser cantado em momentos de congratulação. Os acontecimentos políticos, muitas vezes antagónicos, eram motivo frequente para que houvesse Te Deum cantado nas igrejas, com solenidade e pompa. O confronto político entre liberais e absolutistas, entre 1820 e 1834, fez com que este tipo de celebração litúrgica se banalizasse. Por tudo e por nada se cantava o Te Deum, hino que, naqueles tempos, muitas vezes se entoou na igreja da Colegiada, ora a celebrar vitórias dos liberais, ora em congratulação pelos avanços dos miguelistas. O hino era o mesmo, os cantores eram quase sempre os mesmos, mas o louvor a Deus erguia-se por motivos sucessivamente contraditórios.
Observador atento da realidade do seu tempo, José de Sousa Bandeira usou a sua pena sarcástica para satirizar a moda do Te Deum Laudamos, num soneto que publicou no jornal Artilheiro:

Se governa o Junot, na Sé se entoa
Te Deum aparatoso, e reluzente:
E se triunfa o príncipe regente
Político Te Deum na Sé lá soa.

Tem o lord Te Deum, se despovoa,
Se atrasa, assola o Portugal gemente;
E se o Douro dá leis à Lusa gente,
Apressado Te Deum na Sé ecoa.

Temos Te Deum se a liberdade assoma;
E se morre, há Te Deum; se surge a triste
De devotos Te Deum que imensa soma!

Té se há sangue, há Te Deum! Porém tu riste,
Não vês que da cristã moderna Roma
A santidade nos Te Deums consiste!

                                                Artilheiro, n.º 110. de 21 de Maio de 1836
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Escritores vimaranenses (53): José de Sousa Bandeira


JOSÉ DE SOUSA BANDEIRA, natural de Lisboa e nascido em 1789. Era Escrivão do judicial na comarca de Guimarães, quando em 1828 foi preso por motivos políticos, e processado pela Alçada do Porto, que o condenou a degredo perpétuo para o presídio de Pungo-Andongo em África. Transferido da cadeia do Porto para a de Lisboa, e remetido depois para a torre de S. Julião da Barra, aí jazeu desde 11 de Agosto de 1830, até obter a liberdade com todos os seus companheiros de infortúnio em 24 de Julho de 1833.
É desde alguns anos o decano dos jornalistas portugueses, por ser ele o que em 1826 começou a redigir em Guimarães o periódico Azemel. Foi em 1835 redactor do Artilheiro, passando depois a colaborador do Periódico dos Pobres do Porto, no qual escrevia as Cartas de Braz Tisana, que serviam de folhetins. Adoptou enfim este título para o novo jornal, que, desligando-se da empresa dos Pobres, começou a publicar por si em 1851, e que ainda agora dura contando já nove volumes.
O redactor e proprietário fez desta folha um periódico de índole peculiar, espécie de Pasquino ambulante, ou verdadeiro campo neutro, aberto, como ele diz, ao ataque e à defesa. As suas colunas aparecem diariamente preenchidas com as correspondências de toda a casta, e sobre todo o assunto, enviadas de diversos pontos do reino, principalmente de Lisboa. O carácter, estilo e fim de tais correspondências variam entre si tanto como diferem os dos indivíduos que as fornecem. A maior parte das pseudónimas não passa, pelo comum, de ser o veículo de nojentas intrigas particulares, e de vinganças é ódios pessoais, apenas disfarçados sob capa do zelo do bem público. A decência, e a própria verdade, nem sempre são respeitadas pelos escrevinhadores, que julgando-se acobertados da máscara mais ou menos diáfana com que presumem disfarçar-se, vibram contra os adversários o punhal do doesto e da calúnia, sacrificando quase sempre ao próprio interesse o crédito e reputação alheia. Daí a divulgação de defeitos pessoais, falsos ou verdadeiros, a invenção ou curso dado a mentiras e embustes, que às vezes se vêem forçados a confessar tais, quando se trata de invocar contra eles a severidade da lei (Vej. ainda há pouco o n.º 262 de 13 de Novembro corrente, na pág. 2.ª, col. 3.ª); e sobretudo o detestável gosto de enxovalharem com dictérios e ápodos ridículos aqueles que reconhecem por incapazes de tirar desforra por meios tão indecentes. Se a maledicência folga e ri com tudo isso, geme a moralidade pública, afrouxam-se os laços sociais, e caminha-se para um estado de desânimo e de descrença, cujo termo não é dado prever.
Dos actuais correspondentes do Braz Tisana distinguem-se por mais assíduos o denominado Lusitano, que a voz pública revelou ser o sr. Joaquim Lopes Carreira de Melo, director do colégio de N. S. da Conceição, já mencionado por vezes neste Diccionario; o qual também assina algumas com a sigla **; — e outro que se intitula Ribeirinho, e é, segundo se diz, um sujeito mais geralmente conhecido em toda a parte pela festival e significativa antonomásia de Poeta, granjeada no verdor da idade, e que ainda conserva em anos já maduros. Dele não tratei no lugar próprio, em razão de carecer de alguns esclarecimentos: porém espero ressarcir amplamente essa falta, como tantas outras, no Suplemento final.
Voltando ao redactor do Braz Tisana, e a escritos por ele publicados em Separado, apenas hei notícia dos seguintes:
O sino das duas horas: comedia original em cinco actos, pelo Barbeiro dos Pobres. E um appenso da tia Michaela. Porto, Imp. de Alvares Ribeiro 1840. 8.º gr. de 148 pág.
A apotheose dos martyres da pátria: elogio dramático para se representar no real theatro de S. João em 8 de Abril de 1837. Porto, Imp. de Gandra & Filhos 1837. 8.° de 15 pág. —São interlocutores a Justiça, a Lealdade, o Patriotismo, o Génio Portuense, a Religião e o Despotismo; com um coro de Fúrias.
Alguns que se presumem bem informados, pretendem atribuir-lhe a seguinte composição anónima:
A Revolução: poema heroi-comico em seis cantos e oitava rima. Paris, chez N. B. Duchesne, libraire, rua S. Jacques 1850. 8.° gr. de 144 pág.— As indicações são supositícias, pois se conhece evidentemente haver sido impresso no Porto. — O prólogo, ou exposição da obra consta apenas das seguintes linhas: “A revolução acontecida no Porto em 1846 é um facto histórico público e bem sabido; o que dispensa aqui circunstanciá-lo. Versa neste facto a acção do poema, adornado poeticamente.”
Parece também ser dele uma tragédia em cinco actos, e em verso, que se representou no Porto em 1839, da qual se trcta nas Memórias do Conservatório, tomo II, a pág. 402.
Como o presente artigo vai talvez deficiente, deixarei também para o já aludido Supplemento o mais que porventura teria aqui lugar.
Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo V, Imprensa Nacional, pp. 140-141
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Efeméride do dia: Há 150 anos, os papéis da Colegiada seguiram para Lisboa

Alexandre Herculano
30 de Março de 1863:
Augusto Soromenho levou da Colegiada 4203 documentos anteriores ao século XVII para a Torre do Tombo.
(João Lopes de Faria, Efemérides Vimaranenses, manuscrito da Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, vol. I, p. 311 V.)

Em meados do século XIX, andava Alexandre Herculano às voltas com a tarefa de compilar, transcrever e organizar os documentos históricos nacionais anteriores a 1600 , com o objectivo de publicar os Portugaliæ Monumenta Historica. Em Agosto de 1854 esteve em Guimarães, em representação da Academia Real das Ciências, para examinar os documentos do cartório da Colegiada. Dava-se início a um longo conflito entre o Cabido da Colegiada e o Estado português, com os cónegos a defenderem a integridade e o direito à manutenção em Guimarães dos seus velhos pergaminhos e papéis. Naquela altura, Herculano pôde ver os documentos da Colegiada, mas a oposição dos cónegos impediu a sua transferência para Lisboa.
Em 1858, um novo delegado da Academia, Augusto Soromenho, esteve em Guimarães com o mesmo propósito. Mais uma vez, a resistência dos cónegos vimaranenses levou a melhor, e Soromenho, ao fim de alguns meses, regressou a Lisboa de mãos a abanar.
Só por decreto, publicado em 1862,é que a resistência da Colegiada de Guimarães foi vencida. No início do ano seguinte, Augusto Soromenho regressa a Guimarães para, enfrentando mais uma vez os entraves levantados pelos cónegos, proceder à transferência para a Torre do Tombo dos documentos mais antigos da Colegiada, o que aconteceria no dia 30 de Março. Passam hoje cento e cinquenta anos.

…parte da documentação anterior ao ano de 1600 iria permanecer em Guimarães. O Abade de Tagilde escreveria, meio século mais tarde: nem todos os documentos foram recolhidos na Torre do Tombo; alguns deles estavam em lugares escusos e não foram certamente lobrigados por Augusto Soromenho. Quem encontrou parte dos documentos em falta foi o incansável paleógrafo e documentalista João Lopes de Faria, como se pode ler numa das suas Efemérides Vimaranenses, referente ao dia 15 de Janeiro de 1891:
O Padre Abílio Augusto de Passos, cartorário ajudante da Colegiada, em exercício, por ausência do cartorário proprietário, por influência de mim João Lopes de Faria, manda arrombar a porta dum quarto escuro, de junto ao cartório no 1º patamar da casa capitular, por não saber da chave, e encontramos aí em duas caixas: 13 tombos in fólio encadernados em madeira coberta de couro e com pregagem amarela, em que estão exarados com autenticidade os documentos relativos a Padroados, Testamentos e Doações 2, Sentenças da Fazenda 2, Ditas Eclesiásticas 3, Coutos, Privilégios, Transacções, Contratos, Reconhecimentos; 3 livros de notas em pergaminho; Tombo antigo de Tolões, alguns prazos e 178 pergaminhos. Foram retirados do arquivo e escondidos aqui em 185[7] quando se tratava de levar parte do arquivo para a Torre do Tombo. Os 2 cónegos que existiam vivos, não sabiam da existência aqui de tais documentos, porque foram capitulares; e o cónego João Ferreira Mendes de Abreu, que era um dos dois, estranhou muito não se lhe pedir licença para fazer o arrombamento.

Para saber mais: Os papéis da Colegiada

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