28 de fevereiro de 2013

Escritores vimaranenses (25): Padre Duarte de Sande


P. DUARTE DE SANDE, Jesuíta, cujo instituto professou na casa de S. Roque de Lisboa em 1562. Depois de ter sido Mestre de retórica no colégio de Coimbra, partiu para a Índia em 157'8, e aí viveu por mais de vinte anos, sendo sucessivamente Reitor dos colégios da Companhia em Baçaim e Macau, e Superior da Missão da China. — Foi natural da vila, actualmente cidade, de Guimarães, e morreu em Macau a 22 de Junho de 1600. —E.
 Itinerário de quatro Príncipes japoneses, mandados á Sanctidade de Gregorio XIII, e de tudo quanto lhes succedeu até se restituirem ás suas terras. Macau, no Collegio da Companhia 1590. 4.º.
 Tal é a indicação da obra portuguesa deste autor, de que Barbosa nos dá notícia, e que da sua Biblioteca passou copiada (ao que parece) para o pseudo Catalogo da Academia, para a Biblioth. Asiatique de Temaux-Compans, e para a Bibl. Lus. Escolhida de J. Augusto Salgado. Não há porém entre estes bibliógrafos algum que se acuse de a ter visto; nem memória de que jamais aparecesse algum exemplar dela em local conhecido. Existe na verdade outra obra do mesmo assumpto, escrita em latim, e pelo referido padre, que, conforme a judiciosa observação do sr . Figaniere (na sua Bibliogr. Hist. n.° 1641), e que já antes dele alguém tinha feito, poderia ocasionar o qui pro quo de Barbosa, levando-o a transcrever em português o título da obra latina. Este é como se segue: De Missione Legatorum Iaponensium ad Romanam Curiam, rebusque in Europa, ac totum itinere animadversus Diálogos ex ephimeride ipsorumL egatorum colledus, & in sermonem latinum versus ab Eduardo de Sande, Sacerdote societatis lesu. In Macaensi portu Sinici regnum domo in Societatis lesu. Cum facultate ordinarij & superiorum. 1590. 4.° de VIII-412 pág., e mais 24 no fim sem numeração que compreendem o índice. — Dela existem exemplares na Biblioteca Nacional, e no Arquivo da Torre do Tombo, impressos em papel da China.
Devo contudo advertir, que António de Morais Silva na Relação dos Livros e autores de que se serviu na composição do seu Dicionário, aponta também o Itinerário de Duarte de Sande. Porém a sua autoridade acha-se neste caso enfraquecida pelas muitas inexactidões em que incorreu, dando na dita relação como portugueses alguns livros, conhecidamente escritos em castelhano, etc. Assim, só poderia merecer credito se no corpo do Dicionário alegasse alguma vez com exemplos colhidos do Itinerário, como costuma nas suas autorizações de vocábulos: ora tendo eu feito algum exame a este respeito, não achei uma só citação neste sentido. Isto não quer dizer que não a haja, e que por ventura me escapasse: entretanto subsiste a dúvida, ou quase certeza em que estou, de que a obra de Duarte de Sande nunca se imprimiu em português.
Segundo Brunet, no Manuel du Libr. a obra acima citada De Missione liegatorum é tida por muito rara, e passa por ser a primeira que se imprimiu em Macau. Ao menos não há notícia de outra mais antiga. Diz ele que um exemplar encadernado em marroquim fora vendido por 6 £ 6 sh.
Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo II, Imprensa Nacional, pp. 216-217
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Escritores vimaranenses (24): Padre Domingos da Soledade Silos



P. DOMINGOS DA SOLEDADE SILOS, Religioso egresso da Ondem de S. Francisco, cuja regra professara na província da Soledade- em 1824, e depois Reitor da igreja matriz de Vila do Conde. Tendo exercido o magistério na sua ordem com distinção, e lido filosofia na cidade de Castelo Branco em 1832, granjeou a fama de bom orador sagrado, pregando com grande aplauso muitos sermões, de diversas espécies e assuntos. Foi ultimamente agraciado com as honras de Pregador régio, e de Cavaleiro da Ordem de Cristo. — Nasceu em Braga a 17 de Dezembro de 1805, sendo filho de Martinho José de Sousa, e de sua mulher Águeda Teresa, pessoas de honrado trato, mas pouco abastados de fortuna. Morreu em Guimarães, no hospital da Ordem Terceira de S. Domingos a 22 de Agosto de 1855. Dos esclarecimentos que a seu respeito me enviou o sr. dr. Pereira Caldas, consta que deixara um filho natural, em cuja educação muito se desvelara; e ao qual legou a sua livraria, que se diz ser numerosa e bem escolhida. —E-.
Sermão recitado em 4 de Abril de 1842, na festividade que mandou faser a Câmara e auctoridades de Villa Nova de Famalicão, em testemunho de agradecimento a Sua Magestade a Rainha etc. Braga, Typ. Bracharense 1842. 8.° de 32 pág.
Oração fúnebre, que nas exéquias anniversarias pela infausta morte de S. M. I. Sr. D. Pedro, recitou na real capella de N. S.da Lapa em 25 de Septembro de-1843. Porto, Typ: Commercial 1843. 8.° gr. de 21 pág . Ignoro se além destes dois sermões deixou mais alguns impressos.
 Vida preciosa e glorioso martyrio de S. Torquato, Arcebispo de Braga, extrahida das melhores auctores tanto sagrados como profanos. Lisboa, na Imp. Nacional 1855. 8.º de XX-64 pag.
Há também dele um artigo no jornal político de Braga O Moderado, acerca de melhoramentos nas Caldas das Taipas, entre Braga e Guimarães: e no Brás Tisana e Nacional do Porto publicou a descrição dos regozijos públicos, e boa hospedagem com que em Fafe e nas terras vizinhas foi recebido o sr. A. Herculano, por ocasião da sua viagem à província do Minho.
Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo II, Imprensa Nacional, pp. 198-199
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27 de fevereiro de 2013

Para a história da publicidade em Guimarães (2)

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Os primeiros anúncios comerciais que se publicaram em jornais de Guimarães eram mensagens simples, servindo para informar os clientes da chegada de uma nova remessa ou, como no caso acima, da mudança de instalações de estabelecimentos.

Abaixo, reproduz-se o primeiro anúncio referente negócios imobiliário que encontrámos. Tratava-se da venda de um prédio na actual rua da Rainha:
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Anúncios publicados no jornal A Tesoura de Guimarães de 9 de Setembro de 1856.

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Clubes desportivos de Guimarães (1)



Ainda hoje não é claro o momento da fundação do principal clube desportivo de Guimarães, o Vitória Sport Clube. A mais antiga referência que até agora se lhe conhece foi encontrada por Santos Simões, na sua obra de 1995 sobre o Futebol Vimaranense, e está datada de 17 de Dezembro de 1922. O Ecos de Guimarães desse dia anuncia que o “Vitória Sport Club de Guimarães” iria jogar com o “Maçarico Sport Clube da Póvoa de Varzim”. É provável que a primeira aparição pública do Vitória tenha acontecido naquele domingo, em vésperas do Natal de 1922 (numa alteração de última hora, compareceria ao jogo, em vez do Maçarico SC, uma selecção de todos os clubes da Póvoa, que venceria a partida por 4-1).

A criação de um clube desportivo em Guimarães andava no ar havia algum tempo. Naquela altura, agremiações do género iam surgindo como cogumelos por todo o lado, menos em terras vimaranenses. Era preciso fazer alguma coisa, alerta o quinzenário Pro Vimarane, que se afirmava defensor dos interesses locais, na sua edição da primeira metade de Agosto 1922. Naquela altura, “um pequeno grupo de vontades da nossa terra” já trabalhava na organização de um Clube Desportivo” A propósito, escrevia o articulista do Pro Vimarane: “é inadiável que se opere uma transformação radical nos costumes da mocidade. Não se pode protelar esta vida de tascos e cafés”.

Aqui fica a transcrição desse texto, que inaugurou a primeira secção desportiva a publicar-se com regularidade nos jornais de Guimarães:


Sport

Criámos hoje esta secção, onde toda a gente pode elaborar, dizer da sua justiça, sobre este magno assunto.

O Sport, ou antes, o desenvolvimento físico por meio do Sport, está mais que suficientemente reconhecido como o único remédio para o revigorar da raça depauperada.

O nosso jornal trabalhado por novos e lido quase só por novos, não pode ser um jornal digno da época, digno dos rapazes que o lêem, se não acompanhasse esse grande movimento, que por todo o país vai tomando incremento dia a dia, se não pugnasse pelo seu desenvolvimento nesta terra.

Vamos fazer hoje na cidade de Guimarães, o que em outras terras já há muito se fez: defender e pregar o Sport, como o fazem os grandes e pequenos jornais, os diários e as revistas que lhe consagram páginas inteiras.

Seguindo este pensamento, um pequeno grupo de rapazes, ou por outra, um pequeno grupo de vontades da nossa terra, trabalha afincadamente na organização de um Clube Desportivo, que abranja todos os possíveis ramos de Sport, para o que procura já um campo apropriado.

Estamos a ouvir o leitor dizer por entre dentes: - Aqui em Guimarães não dá nada.

O rapaz de Guimarães — salvo raras o apreciáveis excepções — sofre dum mal terrível, dum defeito pernicioso e contagioso a espíritos menos fortes.

Esse mal, defeito ou doença, consiste na absoluta falta de confiança que em si próprio tem.

Não faz isto ou aquilo porque lhe “faltam os melhores elementos”; “se fosse fulano... agora nós que fazemos?” etc. etc., são frases que lhe ouvimos, quando se lhes vai falar em qualquer iniciativa.

É urgentíssimo cortar este mal pela raiz, é preciso que nos convençamos de que alguma coisa somos capazes de fazer.

É inadiável que se opere uma transformação radical nos costumes da mocidade.

Não se pode protelar esta vida de tascos e cafés.

É extremamente necessário que a indiferença ceda lugar à atenção que nos merecem assuntos da magnitude deste que vimos trabalhando.

Em Guimarães não dá nada!?...

Mas porquê?

Qual o motivo porque não em Guimarães e nas mais terras de Portugal?

Semelhante estribilho pois que assim se lhe pode chamar, só nos deprime nos envergonha.

Não seremos nós homens com vontade própria, rapazes da nossa terra!?

Não dá nada, por via da nossa indiferença.

Não dá nada, porque não quereis sacrificar o vosso comodismo, a vossa indolência, a vossa mandriísse enfim.

E no dia em que vos convencerdes que há-de dar, não duvideis do êxito final, que vos há-de satisfazer completamente

É o que acontece aos rapazes do que acima falámos e que trabalha na organização do Grupo Desportivo...

Contam já com mil obstáculos, com mil contrariedades; todavia, como chegassem à conclusão de que Guimarães precisa dum Grupo Desportivo; como chegassem a convencer-se de que além do valor que para Guimarães representa semelhante prova de progresso e de vida, é de incontestável valor físico, intelectual e moral; como se convenceram que podiam com isso metamorfosear os hábitos e o pensamento da mocidade, estão dispostos a vencer todos os obstáculos, a contrariar as próprias contrariedades.

Resumindo: querem trabalhar.

Pro Vimarane, Guimarães, 1.ª Quinzena de Agosto de 1922
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Escritores vimaranenses (23): Frei Domingos de S. José Varela


FR. DOMINGOS DE S. JOSÉ VARELA, Monge Beneditino, natural de Guimarães, e organista insigne. Parece que era já falecido em 1823. As indagações biográficas, que a seu respeito me prometeu o meu ilustre amigo dr. Pereira Caldas, ainda não surtiram efeito: porém como há tudo a esperar das suas diligências, é provável que no Suplemento seja amplamente resolvida a deficiência que ora se nota nesta parte. — E.
Compêndio de Musica theorica e pratica, que contém breve instrucção para tirar musica; lições de acompanhamento em órgão, cravo, guitarra, ou qualquer instrumento em que se pode obter harmonia, e methodia de affinar os messnos. Porto, na Typ. de António Alvares Ribeiro 1806. 4.º De VIII-104 pág. com cinco estampas. ,
Este livro, na opinião do cardeal patriarca S. Luís, contém observações e experiências mui curiosas sobre os fenómenos da harmonia esta aplicação aos instrumentos músicos. Contudo, não me consta que os professores da arte fizessem dele grande caso.
Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo II, Imprensa Nacional, p. 190
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26 de fevereiro de 2013

Da educação das raparigas


Quando o século XIX se aproximava do fim, a educação das raparigas continuava dirigida para a sua preparação para o mundo doméstico. A instrução das raparigas das classes mais altas tinha como finalidade prepará-las para o casamento e não para assegurarem o seu sustento. Aprendiam as artes da agulha, bordar e costurar, a tocar piano, a falar francês. Em 1891, o jornal Religião e Pátria publicou um anúncio em que se publicitava um novo colégio, dirigido por Senhoras Salésias, situado em S. Miguel das Aves, distando apenas da estação de Negrelos na linha de Guimarães, o espaço de um pequeno passeio a pé, que prometia uma educação esmerada, assente na solidez de princípios da Religião Cristã, firmeza temperada de carinho e disciplina, esmero em cultivar o espírito e formar o coração. Ali aprenderiam a ler, escrever, contar, sistema métrico, aritmética, português, francês, geografia, história universal, piano, desenho, flores e economia doméstica.

O anúncio indicava os custos mensais da pensão das educandas: uma mensalidade de 8.000 réis, paga em trimestres, antecipadamente, mais 500 réis mensais caso quisessem que a roupa fosse lavada e engomada no colégio e outro tanto para aluguer do piano, caso o não tenham e pretendam estudar aquele instrumento. Livros, medicamentos e outros extras eram pagos separadamente. Particularmente interessante é o rol do enxoval que cada rapariga admitida no Colégio da Visitação de Santa Maria., de S. Miguel das Aves, deveria levar aquando da sua admissão. É o seguinte:

Enxoval que cada educanda deve trazer
1 Leito de ferro,-segundo o modelo do Colégio e que não exceda a 1m,70 de comprido e 0m,75 de largo.
Colchão, enxergão, travesseiro e almofadinha.
6 Lençóis.
3 Fronhas de travesseiro e 3 de almofadinha, tudo liso.
3 Cobertores.
2 Cobertas brancas.
1 Cortinado segundo o modelo do Colégio.
4 Toalhas de rosto.
4 Guardanapos.
6 Camisas de dia.
4 ditas de dormir.
2 Camisolas de malha.
2 Corpos de flanela.
2 Coletes de espartilho.
2 Saias de baetilha, lã ou flanela.
2 ditas de fazenda escura.
6 Pares de calças.
24 Lenços de assoar
12 Pares de meias.
1 Vestido de merino preto.
1 Casaco próprio para Inverno
1 Talher de metal fino.
1 Copo de vidro para água e outro pequeno para vinho
1 Caixa de folha para pentes, escovas de pentes, de dentes, fato e cabelo. Sabonetes, esponja, pós de dentes.
1 Copo para o lavatório.
1 Lavatório de ferro.
1 Bacia de loiça e outra de folha pintada com o número da Educanda.
1 Cadeira para o dormitório.
1 Dita para o trabalho.

Religião e Pátria, Guimarães, 14 de Fevereiro de 1891


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Para a história da publicidade em Guimarães (1)

A Tesoura de Guimarães, 2 de Setembro de 1856
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José Joaquim Machado Ferraz tendo agradecido pessoalmente a todos os ilm.os e exm.os snrs. que o obsequiaram em acompanhar e assistir ao enterro por morte do seu prezado filho, na noite de 5 de Agosto na Igreja de S. Domingos. Podendo acontecer que a alguns o não tenha feito pede desculpa dessa falta, e protesta a todos o seu eterno reconhecimento por tão distinto obséquio – este é o teor do primeiro anúncio publicado na imprensa vimaranense, no primeiro número do jornal A Tesoura de Guimarães, publicado no dia 2 de Setembro de 1856, onde aparecia acompanhado por duas outras comunicações de teor semelhante. Ainda não era o tempo da publicidade comercial propriamente dita. Que não tardaria.


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Escritores vimaranenses (22): Frei Diogo do Rosário

FR. DIOGO DO ROSÁRIO, Dominicano, Prior no convento de Guimarães, e muito aceite ao venerável Arcebispo de Braga D. Fr. Bartolomeu dos Mártires. — Foi natural de Évora, e morreu em Guimarães no ano de 1580.-E.
Historia das vidas & feitos heróicos & obras insignes dos sanctos: com muitos sermões & praticas spirituaes, que seruem a muitas festas do anno. Reuistas & cotejadas cõ os seus originaes autênticos, polo padre frey Diogo do Rosairo da ordem de suo Domingos, de mandado do muy Illustre & Reverendissimo senhor dõ frey Bartholomeu dos Martyres Arcebispo & senhor de Braga, Primaz das Hespaqnhas, & Impresso em Braga em casa de António de Maris Impressor de sua senhoria Reuerendissima. Anno 1567.— Tudo ho que n'este liuro se tracta somete ho author aa censura da sancta madre ygreja cdtholica. Foy vista & examinada & aprouada a presête obra por mandado de sua senhoria Reuerendissima.Com priuilegio Real.— Este título acha-se dentro de uma portada gravada em madeira: fólio gótico: de IV-CCLXIX folhas, numeradas pela frente.
Tomo II. — Com rosto Igual nos seus dizeres, e contém II-CXCVIII folhas. Nesta edição (bem como nas seguintes) o texto é intercalado com gravuras em madeira, representando os factos das vidas dos santos historiados. Assim se imprimiu pela primeira vez este livro, conforme obtive saber por uns apontamentos, que deixara manuscritos o hábil bibliógrafo José a Silva Costa, e como depois verifiquei em presença de um exemplar que da referida raríssima edição existe hoje na Bibl. Nacional, pertencente anteriormente à livraria de D. Francisco de Melo Manuel da Câmara; pôde ser o próprio, que viu também o sobredito Costa. Reflectindo sobre o contexto do título, fica talvez razão para duvidar se Fr. Diogo foi próprio, e original autor da obra, ou se foi somente encarregado pelo arcebispo de rever e cotejar como ele diz, os originais que serviram para a impressão dela, compostos por outros sujeitos.
Seja porém o que for, é certo que esta edição é raríssima, e que Barbosa não houve notícia da sua existência; pois ele, e os que o-seguiram, têm até agora dado como primeira a outra, que se fez depois daquela, e que é realmente segunda, cujas indicações são:
Historia das vidas e feitos heróicos, e obras insignes dos Sanctos, etc. Coimbra, por António de Mariz 1577. fol. 2 tomos.
A esta seguiu-se uma terceira edição, também ignorada de Barbosa, e de todos os nossos bibliógrafos, que não fazem memória dela. O sr. Barbosa Marreca me fez ver há pouco um exemplar, existente na Bibl. Nacional, e adquirido pela casa na compra feita há poucos anos da livraria que foi de Cipriano Ribeiro Freire. Eis-aqui o seu título:
Flos sanctorum das vidas e obras insignes dos Sanctos. Com muitos sermões & praticas espirituaes, querservem pard muitas festas do anno. Lisboa, por Balthasar Ribeiro 1590. — À custa de João de Hespanha e Miguel d'Arenas, livreiros. Fol. gótico, de v-389 folhas. — As estampas desta edição são de gravura mais perfeita que as das anteriores.
A referida edição, além de ser até agora como que desconhecida, apresenta duas singularidades notáveis, que não deixarei de apontar: 1.ª, os caracteres góticos em que foi composta no ano de 1590, quando esta espécie de tipos estava já de todo fora do uso; 2.ª, a de sair dos prelos do impressor Baltasar Ribeiro, do qual se não me engano, apenas se conhecia uma produção única, que era o Discurso e Relação etc. de João Fogaça, impresso em 1591. Nela, como se vê, começou a alteração feita no título da obra denominando-a Flos Sanctorum.
Este Flos Sanctorum, o primeiro que saiu à luz em Espanha (se devemos dar fé à afirmativa de Manuel de Faria e Sousa) continuou a reimprimir-se depois várias vezes, sempre com alterações e aditamentos, a saber: Lisboa, 1622. fol. — Ibi, por Lourenço d'Anvers 1647. fi.—Ibi, por António Craesbeeck de Mello, 1681 (e não 1682, como tem erradamente Barbosa) foi. de VII-948 pág., com uma estampa gravada a buril, além de grande número delas em madeira intercaladas no texto. Nesta edição (de que tenho um exemplar) se acrescentaram as vidas de alguns santos, que correm de pág. 893 até ao fim, e se dizem compiladas da 3.*ªparte do Fim. Sanctorum do P. Ribadeneira. — As de S. Pedro de Alcântara e Santa Rosa de Viterbo são obras de Fr. Luís de S. José, capucho, falecido em 1704, segundo o testemunho de Barbosa no artigo competente.
Reimprimiu-se ainda uma vez o Fios Sanctorum por diligência ou indústria do P. José Pereira Baião, que lhe adicionou cento e tantas vidas de Sanctos novos. Lisboa, na Offic de Miguel Rodrigues, 1741. fol. 2 tomos. Esta mesma última edição está hoje exausta, de sorte que dificilmente aparece dela algum exemplar. Creio que o preço dos últimos vendidos tem sido regulado entre 4:800 e 7:200 réis, e talvez alguns por mais. Da reputada por primeira, isto é, de 1577, lembro-me de ouvir dizer, que alguns se venderam em tempo antigo por 14:400 réis. Um que existe na livraria que foi de Joaquim Pereira da Costa, acha-se no respectivo inventário avaliado em 6:000 réis.
Os outros Fios Sanctorum que temos em português, vej. nos artigos Fr. Francisco de Jesus Maria Sarmento, João Franco. Barreto, Simão Lopes, Boaventura Maciel Aranha, Jorge Cardoso, etc, etc.
Summa Caietana, trasladada em portuguez, com muitas annotações e casos de consciência, e decretos do sagrado concilio Tridentino. Por mandado do mui illustre e reverendissimo senhor D.Fr. Bartholomeu dos Martyres, etc Braga, por António Maris 1565. 8.° - Esta é a citada no denominado Catálogo da Academia. — Barbosa não a conheceu, e em lugar dela aponta outra feita em Coimbra, pelo mesmo impressor 1573: 8.º. 442 folhas numeradas pela frente. De ambas existem exemplares na livraria de Joaquim Pereira da Costa: o de 1565 avaliado em 800 réis, o de 1573 em 300 réis, em razão de achar-se muito picado de traça.
Há outra versão portuguesa da mesma Summa feita por Paulo de Palácio, a qual foi várias vezes reimpressa.
Tractado de avisos de confessores, ordenado por mandado do Arcebispo Primaz. Braga, 1578: 8.°—e Coimbra, por José Ferreira 1681.4.º. Ainda não pude ver esta obra, que inutilmente procurei na Bibl. Nacional e na da Acad. das Ciências, não sabendo também de algum exemplar quo exista em poder de particulares.
Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo II, Imprensa Nacional, pp. 173-174

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25 de fevereiro de 2013

A bala, a senhora e o nariz dela




Quando, num dia do Inverno de 1892, Ana Monteiro foi saldar uma conta ao estabelecimento de um industrial de S. Martinho de Leitões, não imaginava que iria sair de lá para o hospital de Guimarães com uma bala alojada debaixo do olho esquerdo e desenganada da sua sorte, à espera da sua horinha. Se a história vivida por esta senhora naquele dia fatídico era, até aí, singular, o seu desfecho inesperado acaba por demonstrar que a vida real também tem o seu quê de nonsense. Aqui fica, tal como a contou o jornal Religião e Pátria.

Uma bala saída pelo nariz


Deu-se há tempo na freguesia de S. Martinho de Leitões, Taipas, um caso original que é certificado por pessoa competente, e que pode facilmente ser constatado por quem duvidar, diz o nosso esclarecido colega “Comércio do Minho”.

ali um fabricante de cotins, em casa do qual compareceu Ana Monteiro, com o fim de lhe pagar uma pequena dívida.

Estava lá na mesma ocasião uma rapariga dos seus 20 anos, parente do fabricante.

Como quer que Ana Monteiro visse uma gaveta com bastante dinheiro em cobre, disse gracejando para o dono da casa:

— Ali podem-se encher as mãos..

Ao que o fabricante retorquiu:

— Mas também lá está quem o guarde.

Referia-se a um revólver que estava na mesma gaveta, sobre o dinheiro.

A parente do dono da casa pegou no revólver para o examinar; mas com tanta infelicidade que a arma disparou-se, indo a bala alojar-se no rosto de Ana Monteiro, por baixo do olho esquerdo, junto ao nariz.

Houve gritos, cheliques, clamor; a mulher derramou muito sangue, e foi sacramentada porque a julgaram gravemente ferida e ela dizia que morria.

Compareceu o médico. Analisado o ferimento, não se atreveu a extrair a bala e mandou recolher a infeliz no hospital de Guimarães.

Ali esteve a pobre mulher o primeiro dia, muito aflita e assustada, à espera da sua horinha, como ela dizia.

Vai senão quando, à noite, começa a sentir vontade de assoar-se. Comprimiu o nariz, puxou com quanta força teve, e sentiu cair no lenço uma coisa pesada…

Era a bala!

Saíra-lhe pela narina direita, tendo atravessado o canal na parte superior quase sem ofender o osso.

Foram dispensados os cuidados médicos. A mulher voltou para casa pelo seu pé, muito satisfeita por ter escapado tão inesperadamente a uma operação dolorosa em que o seu nariz não levaria a melhor, e à qual nem mesmo poderiam subtraí-la aos foros inalienáveis de senhora do seu nariz.  

Religião e Pátria, Guimarães, 14 de Dezembro de 1892


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Escritores vimaranenses (22): Frei Custódio de Faria


FR. CUSTÓDIO DE FARIA, Augustiniano, Professor das línguas grega e hebraica no colégio da Graça de Coimbra, pertencente à sua Ordem, e daí chamado para exercer o lugar de professor de hebraico e de retórica no Seminário Patriarcal de Santarém. Nasceu na vila, hoje cidade de Guimarães, a 16 de Dezembro de 1761, e professou a regra de Santo Agostinho no convento da Graça de Lisboa em 19 de Março de 1785. Foi nomeado Censor do Ordinário para a qualificação dos livros pelo cardeal patriarca Mendonça em 1797. Retirou-se de Portugal para o Rio de Janeiro, creio que em 1807, e lá vivia ainda em 1820. Ignoro a data da sua morte. — E.
Arte nova da Lingua Grega, para uso do collegio da Graça de Coimbra. Coimbra, na Imp. da Univ. 1790. 4.º de 142 pág.
Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, continuado e ampliado por Pedro V. de Brito Aranha, Tomo II, Imprensa Nacional, p. 112
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24 de fevereiro de 2013

27 de Maio de 1923: Vitória SC 7 - SC Braga 1



Os jogos de futebol entre o Vitória Sport Clube e o Sporting Clube de Braga têm uma longa história, marcada por uma intensa rivalidade que é muito mais antiga do que o futebol. No primeiro jogo entre as duas equipas, que terá acontecido em Braga no dia 22 de Abril de 1923, o resultado ficou com os mesmos números do último, que aconteceu no dia 23 de Fevereiro de 2013: SCB 3 –  VSC 2.
Aqueles eram tempos em que o Vitória, que era um dos clubes que há altura praticavam futebol em Guimarães, não participava em qualquer campeonato regular, e os jogos iam acontecendo de modo mais ou menos esporádico. A história do segundo confronto entre o Vitória e o Braga é curiosa. O Comércio de Guimarães anunciara que, no dia 27 de Maio daquele ano, o Grupo Excursionista do Boavista Foot-ball Club, do Porto, se deslocaria, em passeio, a Guimarães, aproveitando o ensejo para realizar, no Campo da Atouguia, um jogo com o Vitória. Todavia, aquela visita não se chegou a realizar, mas, mesmo assim, houve jogo na Atouguia, tendo os boavisteiros sido substituídos pelo "onze vermelho" do Sporting Club de Braga. Os vimaranenses saíram-se galhardamente e venceram com uma goleada que ficou para a história: 7-1.
Pelo Vitória, jogou a seguinte equipa:
Mário, Pimentel, Pontes, Evaristo, António Mendes, Pereira, Artur Mendes, Adriano Mendes (cap.), Mendes Martins, Belmiro e Costa.
Segundo O Comércio de Guimarães, os pretos e brancos que, desde o princípio do jogo dominaram sempre os de vermelho, deram-nos alguns momentos de regular association, notando-se bem a sua superioridade. Segundo o jornal Ecos de Guimarães, Artur foi, sem dúvida, o melhor da tarde.
Por aquela altura, quando o futebol ainda dava os primeiros passos em Guimarães, já havia queixas quanto ao comportamento do público. O jornal vimaranense A Razão, registaria o lamento quanto ao comportamento dos adeptos vimaranenses, notando que a assistência, mais uma vez arranjou com que os visitantes levem impressões más a nosso respeito. Todavia, esse comportamento não estragou a festa, como notam os Ecos de Guimarães: quem não assistiu a este “match perdeu a oportunidade de passar uma tarde agradável.

Aqui fica o relato do jogo do Ecos de Guimarães, escrito por alguém que assinava com o pseudónimo Goal:

Foot-ball

No desafio realizado no domingo entre o onze Vermelho do Sporting de Braga e as primeiras categorias do Vitória Sport Club, venceu o Vitória por 7 a 1.
A linha do Vitória apresentou-se em campo assim constituída: Mário;Pimentel e Pontes; António, Evaristo e Pereira: Costa, Belmiro, Artur, Adriano e Mendes Martins.
O onze Vermelho compunha-se dos seguintes: Crisântemo, Romão e Pereira; Morais, Manuel e Silva; Américo, Zeca, Neca Daniel e J. Silva.
O árbitro, sr. Macedo, apita às 15:13 para dar começo no jogo.
O Vitória sai e executa uma rápida avançada que os “backs” do onze vermelho inutilizam.
Evaristo, que joga a “half-back” centro, apodera-se da bola e avança para o campo adversário passando a bola a Artur que marca o 1“goal” às 15:20.
O jogo começa a desenrolar-se no campo do onze vermelho obrigando as defesas a empregarem-se a fundo, devido aos sucessivos ataques dos adversários.
Os Vermelhos começam a scr dominados pelos do Vitória.
Belmiro, numa linda avançada, passa a bola a Adriano que marca o 2.º “goal” às 15:43, terminando assim a primeira parte com dois “goals” a favor do Vitória.
No se segundo tempo o Vitória joga com vento e sol a favor.
Os Vermelhos são cada vez mais carregados pelos adversários.
Artur que é “forward centro, consegue após uma passagem de António marcar o 3.º “goal” às 16:9.
Depois de dois minutos de jogo Artur marca o 4.º “goal” (16:11)
Os Vermelhos esforçam-se para furar as redes do Vitória.
Américo, ponta direita dos Vermelhos, aproveita uma aberta na área ao “goal” conseguindo enfiar a bola nas redes de Mário, pela primeira e última vez, às 16:14.
O jogo mostra fases interessantes e de verdadeira association.
Mário teve boas defesa.
Os Jogadores do Vitória portam-se admiravelmente.
Artur, aproveitando um passagem de Adriano, marca o 5.° “goal” às 16:30.
Bola ao centro. Sai o onze vermelho que faz uma avançada que os “backs” do Vitória inutilizam.
Artur, depois de algumas passagens entre os seus colegas, apodera-se da bola, marcando o 6.° “goal” às 16:40.
A assistência coroa de palmas o esforço empregado por Artur, para que o seu grupo saia vitorioso.
Agora o jogo desenrola-se ao meio do campo havendo descidas até aos “backs” de ambos os grupos.
São passados alguns minutos e Mendes Martins passa a bola a Adriano que marca o 7.º e último “goal” às 17 horas.
Artur foi, sem dúvida, o melhor da tarde.
Dos Vermelhos distinguiram-se: Romão, Neca, Pereira e Américo.
Quem não assistiu a este “match não podia passar uma tarde agradável.
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A fim de convidar o Vitória Sport-Club desta cidade a jogar com Sport-Vista Alegre Club, de Ílhavo esteve entre nós o nosso prezado amigo snr. Augusto Serra e Costa.
Goal
Ecos de Guimarães, 3 de Junho de 1823
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