31 de janeiro de 2013

Luz para um dia de cinza

Hoje comecei o dia a ler o que vai aí abaixo e, nos meus olhos, a manhã cinzenta e turva tornou-se, subitamente, luminosa. Não fui eu que escrevi o que agora partilho, mas asseguro-vos que também saiu de mim.



é que essas pedras todas que por aí andam a atirar cheios de sis tão sós e nada ensolarados, para já ainda só nos conseguiram acertar nos tornozelos. e nós temos muito mais do que pés para continuarmos a andar. e é com eles que cantamos, sim, mas a dor com que os torcemos enquanto nos desviamos de alguns calhaus rasteiros um pouco mais prenhos de morte que os outros leva um longo caminho até chegar à voz com que a devolvemos: aí já o corpo a diluiu de tal forma que, às vossas pedras, ao vosso amargo, acabaremos sempre a responder com rebuçados. doces, redondos, compactos rebuçados bem certeiros na direcção das vossas testas quadradas.

é que além de termos andado a treinar os dotes para a doçaria, também tivemos muito tempo para aperfeiçoar a pontaria.
 
Encontrado aqui: plano desfocado
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30 de janeiro de 2013

28 de janeiro de 2013

A loja Reforma (1863-1864)




A loja maçónica Reforma, de Coimbra, que teve o vimaranense José da Cunha Sampaio como primeiro Venerável, teve vida curta: iniciou a sua actividade no início de 1863 e deixou de funcionar a partir de Maio de 1864. A sua breve história foi contada por Joaquim Martins de Carvalho, nos seus Apontamentos para História Contemporânea, editados em 1868. Aqui fica: 

No princípio de 1863, vendo alguns membros da Sociedade do Raio, que depois dos acontecimentos do dia 8 de Dezembro de 1862 era impossível manter o mistério que are aí tinha havido na mesma sociedade, e igualmente que haviam obtido o principal fim da sua criação pelo facto de se ter retirado do governo da universidade o sr. visconde de S. Jerónimo, trataram de reorganizar a sociedade, sobre outras bases, dando-lhe a forma maçónica.

A maior parte porém dos académicos que haviam pertencido a sociedade do Raio não tomaram parte em a nova organização maçónica.

As primeiras reuniões preparatórias foram numa casa em Celas no princípio do mês de Fevereiro de 1863, e no fim do mesmo mês mudaram as reuniões para o colégio da Estrela nesta cidade.

Poucos dias aí se conservaram, e no mês de março mudaram-se para as casas da rua do Norte, pertencentes ao sr. Gonçalo Telo. Nesse local continuaram as suas reuniões e admissões de novos membros, conseguindo regularizar-se no dia 27 de maio do mesmo ano sob os auspícios do Gr.·.O .·. da Conf .·. Mac .·. Port .·., e tomando o nome de loja Reforma. Foi eleito Vener.·. o estudante do 3.° ano de direito, José Bento da Cunha Sampaio. Os fins da organização da loja - Reforma eram conseguir o ensino livre como em França, a reforma das leis académicas, e dar união e força a toda a academia. Além disso, como era Gr.·. M.·. o sr. José Estêvão Coelho de Magalhães, pretendiam por intermédio dele estabelecer relações com o governo presidido pelo sr. duque de Loulé.

A loja Reforma foi funcionando até maio de 1864. Algumas desinteligências que se tinham suscitado entre esta loja e a loja Liberdade, de que adiante falaremos, já tinham sido motivo de desgostos, mas ultimamente ocorreu uma circunstância que fez de todo acabar a Reforma. Em 28 de setembro de 1863 tinha nascido o príncipe herdeiro D. Carlos, e por isso no dia 18 de Abril de 1864 houve uma grande reunião de académicos, que, fundando-se na prática seguida por ocasião do nascimento de outros herdeiros da coroa, resolveram encarregar uma comissão de fazer uma representação ao governo, pedindo a concessão do perdão de acto. Efectivamente se redigiu a representação, que foi assinada pelos membros da comissão os srs. Joaquim José Maria de Oliveira Vale, Pedro Victor de Sequeira, Casimiro António Ribeiro, Henrique de Bessa e Manuel de Oliveira Chaves e Castro.

A comissão dirigiu-a ao reitor da universidade, o sr. dr. Vicente Ferrer Neto de Paiva, que então estava em Lisboa, a fim de a entregar ao ministro do reino, o sr. duque de LouIé.
O sr. Ferrer, respondendo à comissão, e dando-lhe parte de que havia feito entrega da representação ao ministro do reino, acrescentava: - e como bom procurador ponderei a favor dela tudo quanto a minha inteligência me sugeriu.

A academia estava assim quase convencida de que lhe era concedido o perdão de acto; e por isso foi grande a sua surpresa, quando soube que o ministro do reino, em portaria de 26 do mesmo mês de abril, indeferira a sua pretensão.

Esta portaria produziu na academia um efeito extraordinário. Além do indeferimento, queixavam-se da forma desabrida como ele era dado. Reuniram-se os académicos no seu teatro. e decidiram representar as cortes e protestar contra a apreciação que o ministro do reino fizera da academia de Coimbra. 

O estado de excitação dos estudantes e algumas assuadas que houve por essa ocasião, fizeram com que a autoridade superior reclamasse aumento de força. Efectivamente no dia 29 de Abril chegou a Coimbra vindo do Porto um batalhão de 200 praças de infantaria 5. Com a chegada da tropa ainda mais ofendida se julgou a academia. Reuniram-se outra vez no seu teatro e resolveram reclamar da autoridade a saída do batalhão. Como porém não lhes fosse deferida a sua reclamação, deliberaram abandonar a cidade, marchando para o Porto, à imitação do que já os académicos em 1854 tinham feito, indo para Tomar.

Logo na madrugada do dia 30 de Abril saíram no comboio para o Porto mais de 200 académicos, e seguidamente foram indo outros, sendo poucos os que ficaram na cidade. Por alguns dias se conservaram no Porto, de onde voltaram pelas diligências para isso empregadas por alguns cavalheiros, e pelos amigáveis conselhos do vice-reitor, o sr. conselheiro José Ernesto de Carvalho e Rego.

Os membros da loja Reforma eram na sua quase totalidade de opinião contrária a que a academia fosse para o Porto, mas não puderam evitar esse passo. Tiveram até de acompanhar os seus condiscípulos por espírito de camaradagem.

A estes acontecimentos se seguiu o acabamento da loja Reforma, que depois do mês de Maio de 1864 nunca mais tomou a funcionar.
Joaquim Martins de Carvalho, Apontamentos para História Contemporânea, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1868, pp. 269-271
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27 de janeiro de 2013

José Sampaio: da Sociedade do Raio à Loja Reforma

 
 José da Cunha Sampaio, primeiro Presidente da Sociedade Martins Sarmento,foi uma das principais figuras da Sociedade do Raio. Com o afastamento de Antero de Quental, a Sociedade do Raio dissolveu-se, tendo sido reorganizada com configuração maçónica. Nascia então a Loja Reforma, na qual José Sampaio ocupou as funções de primeiro Venerável Mestre. Domingos Leite Castro fala desse tempo de José Sampaio em Coimbra, num texto que publicou na Revista de Guimarães em 1900:

O período da formatura de José Sampaio foi dos mais curiosos e originais da academia. Toda a corrente filosófica, literária e política do tempo, chegando a Coimbra, encontrou aí umas dúzias de rapazes de talento prontos a assimilá-la. Na apatia geral do país, atrasado no saber e falho de crítica, gasta e exânime a velha escola arcádica, esta fermentação de novas ideias, estranhas preocupações, aspirações novas e atrevidas, fez escândalo. Daí ruidosos protestos contra a velha literatura, contra o velho regime universitário e suas obsoletas instituições.

Ficaram célebres na tradição essas orgias da mocidade, para as quais o fumo capitoso das discussões filosóficas e literárias, a verve e o dito, davam o maior contingente. As ceias, a troça ao futrica e ao caloiro, as longas caminhadas de dia ou de noite, o extraordinário dispêndio de talento na inesgotável alegria, cortada apenas pelos rápidos assomos de hipocondria do futuro poeta da morte, fizeram “essa encantada e quase fantástica Coimbra”, de que nenhum perdeu a memória e a saudade nos posteriores trabalhos da vida.

Entre esses rapazes, Antero do Quental tomara breve, pelo encanto que exercia sobre os seus companheiros, uma supremacia natural. Ao grupo dos seus amigos mais íntimos pertenceu José Sampaio com seu irmão Alberto, Germano Meireles, Florido Teles, Frederico Filemon, Félix dos Santos, Santos Valente, os dois Machados de Faria e Maia, Alberto Teles, Anselmo de Andrade, José Falcão, Filomeno da Câmara, Lobo de Moura, A. Castelo Branco, Teófilo Braga e Manuel Arriaga[1]. Desse grupo saiu mais tarde no campo da literatura a célebre questão de Coimbra, no campo da acção a Sociedade do Raio, de que José Sampaio foi um dos membros do Directório.

Em Coimbra, onde sempre medraram desde 1818 a maçonaria e o carbonarismo, a Sociedade do Raio, parece ter realizado o tipo ideal das sociedades secretas. Dentro em pouco contava para cima de trezentos membros, dos quais poucos conheciam os chefes do movimento. Estes, nas iniciações apareciam mascarados e, nas reuniões magnas, celebradas ao ar livre nos arredores da cidade ou numa casa alugada do próprio reitor, confundiam-se na grande mole, dirigindo-a sem se fazerem suspeitar.

Em seguida, faziam a sua primeira revista de forças em homenagem ostensiva ao Dr. Bernardo de Albuquerque, mal visto pelo reitor ou pelas classes conservadoras. Aproveitavam a passagem do futuro rei Humberto para proclamarem os seus princípios e aspirações. Pensaram em raptar o reitor, o severo e venerando Basílio Alberto, símbolo vivo do absolutismo universitário, e deram por último o seu grande golpe na sessão da distribuição de prémios na sala dos capelos, retirando-se de roldão pela porta fora toda a assistência, quando o reitor se levantou para ler o seu discurso.

Foi isto a 8 de Dezembro de 1862, no princípio do 3.° ano de José Sampaio. Antero de Quental, conseguido o primeiro triunfo, fatigado ou desdenhoso, desinteressou-se e a Sociedade do Raio dissolveu-se. Alguns dos seus amigos, porém, e entre eles José Sampaio, tentaram reorganizá-la sob a forma maçónica, congregando elementos novos e ligando-a à política dominante, sob um programa liberal e reformador. Daí a fundação da loja Reforma nos princípios de 1863, sob os auspícios de Gr.·. Or.·. da Conf.·. Maç.·. Port.·. de que era Gr.·. M.·. José Estêvão. Foi eleito Vener.·. José Sampaio[2].

Era este o tempo em que a entrada de Lobo de Ávila no ministério insuflava uma vida nova no partido histórico. As irmãs da caridade tinham sido expulsas, os morgados abolidos, as alfândegas reformadas, feito o contrato do tabaco, instituído o crédito predial e a primeira locomotiva silvava até Badajoz. Era, enfim, o tempo da unha preta, cuja irrequieta e sôfrega energia ia demolindo o prestígio e influência do egrégio duque de Loulé. A loja Reforma foi pela unha preta. Parecia ser o futuro e era ao certo alguma coisa. Quando foi da colossal troça de Antero, raptando a Academia para o Porto, na extravagante questão do perdão de acto em Abril de 1864, a loja Reforma, votando pelo governo, opôs-se. Embalde, porém, a fascinação de Antero pôde mais e os próprios membros da loja, por solidariedade académica, acompanharam os seus colegas. Já então se tinha dado a morte de José Estêvão e fora preciso proceder à eleição do Gr.·. M.·. A loja Reforma votou pelo Ir.·. Viriato (Lobo de Ávila) contra o Ir.·. Cincinato (Loulé). Mas venceu o Ir.·. Cincinato e daí um cisma. As lojas de Coimbra, não sabendo qual dos Grandes Orientes triunfaria, positivamente desorientadas, dissolveram-se. A loja Reforma nunca mais se reuniu depois de Maio de 1864.

Desta rápida excursão pelos domínios da política partidária, José Sampaio não parece ter recolhido lisonjeiras impressões. Nunca lhe ouvi uma alusão passageira a estes episódios da sua vida académica, nunca mais se filiou em nenhum partido; porque certamente não é fazer política servir amigos pessoais, ou ofendido, desforçar-se, como lhe havia de acontecer uma ou outra vez. Na depressão geral do espírito público, que é uma das características do nosso tempo, não há mesmo lugar a fazer-se mais nada sem adquirir-se reputação de simples.
 
Domingos Leite de Castro, “O nosso primeiro Presidente”, Revista de Guimarães, n.º 17, 1900, P.5-17


[1] Anthero de Quental, In Memoriam, pag. 99.

[2] Apontamentos para a história contemporânea, por Joaquim Martins de Carvalho, pág. 269.
 
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26 de janeiro de 2013

Os irmãos Sampaio e a Sociedade do Raio



José Sampaio
Alberto Sampaio
No tempo em que os irmãos José e Alberto Sampaio frequentaram a Universidade de Coimbra, vivam-se tempos turbulentos na Academia, relacionados com a contestação à inflexibilidade do reitor, Basílio Alberto, no que tocava à rigorosa aplicação da disciplina, ainda reguladas pelos estatutos em vigor desde o tempo do Marquês de Pombal. Vai ser aí que, ao lado de Antero de Quental, os dois vimaranenses irão participar na Sociedade do Raio, associação secreta de carácter conspirativo que tinha como propósito precipitar a destituição do reitor. As actividades deste grupo de estudantes são descritas por António Cabral, num livro dedicado a Eça de Queirós, que também viveu o tempo coimbrão dos Sampaios. Aqui fica a transcrição das páginas em que António Cabral conta a história da “revolução” estudantil protagonizada pela Sociedade do Raio:


No ano lectivo de 1861 a 1862, quando Eça de Queirós se matriculara no primeiro ano jurídico, cursaram de novo a Universidade vários estudantes que a rigidez e a severidade do austero reitor de então, conselheiro Basílio Alberto de Sousa Pinto, lente de primo jubilado da faculdade de Direito, haviam feito riscar temporariamente, impedindo-os de frequentar as aulas. O prelado universitário, homem alto e seco, de perfil enérgico e decidido, que eu ainda conheci em Coimbra — já então agraciado com o título de visconde de S. Jerónimo — percorrendo, a cavalo, as ruas e os arredores da cidade, exigia e determinava, em edital afixado na Universidade, o cumprimento exacto e rigoroso dos estatutos pombalinos, impondo à academia uma férrea disciplina. Os estudantes, sujeitos à fiscalização aturada dos verdeaes, eram obrigados a entrar nas aulas com cabeção eclesiástico, batina abotoada, meia preta e sapatos como usam os padres, sendo apenas dispensadas as fivelas. A loba desabotoada ou a bota-de-elástico eram consideradas transgressões subversivas. Troças aos caloiros — proibidas. Proibidas também as estrondosas manifestações de alegria das vésperas de feriado. À menor falta, o reitor fazia internar os estudantes na cadeia académica. A academia respirava uma atmosfera densa e crassa…

O próprio corpo docente vivia desassossegado. Conta-se que o lente da faculdade de Direito, sr. dr. Aires de Gouveia, que então ainda não era bispo de Betsaida, nem arcebispo de Calcedónia, - nem sequer simples sacerdote, mas sim um luzido janota, de bem tratado bigode e rosa fresca a florear-lhe sempre a banda do casaco, fora, um dia, chamado pelo reitor, que lhe exigiu o corte do bigode, por considerar um censurável escândalo não andar um lente de cara toda rapada.

— Prelado, — diz-se que lhe respondera o sr. Aires de Gouveia — na minha cara só eu governo!…

E saiu, deixando o chefe supremo da Universidade espantado com a audácia de tão desrespeitosa resposta.

Tal situação, deveras tensa e violenta, não podia prolongar-se e durar, sem protesto colérico e reacção impetuosa da academia irritadíssima, incitada e impelida a excessos, ao que parece, por um ou outro professor a quem a aspereza do seu prelado desagradava e feria. Alguns estudantes mais valentes, reagindo à severidade do ríspido reitor, juntavam-se em grupos e perseguiam, a horas mortas, os caloiros tresnoitados. Outros, também por noite velha, praticavam toda a casta de desacatos, contra os quais nada podia a polícia universitária, constituída pelos inofensivos archeiros, que se encolhiam, tímidos e apavorados! Era um terror por toda aquela Coimbra…

Assim se chegou às vésperas da distribuição de prémios aos estudantes laureados, que se realizava, todos os anos, a 8 de Dezembro, dia da festa de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Universidade.

Um estudante adventício, Alfredo Mântua, rapaz de grande merecimento, que não chegou a formar-se e que um dia, dando lição na cadeira de Direito eclesiástico, fez afirmações de tanta heterodoxia que os alunos teólogos saíram da aula, doridos e escandalizados — propôs então a alguns amigos, como infalível meio de fazer cair o reitor do seu pedestal de tirano, que a academia lhe voltasse as costas e saísse da Sala dos Capelos no momento em que ele iniciasse a alocução que lhe competia e que era de uso fazer na solenidade da distribuição dos prémios. Foi aceite, como era de esperar, o arrebatado e sedicioso alvitre. Adiante se verá como foi posto em prática.

Para dar combate ao despotismo de Basílio Alberto, diligenciando a sua queda, e também para levantar a academia do seu extremo abatimento, alguns estudantes tinham organizado uma associação secreta, de que foram principais fundadores o aluno do segundo ano jurídico José Bento da Cunha Sampaio, que, finda a formatura, advogou com proficiência em Guimarães; seu irmão, que depois veio a ser o ilustre escritor Alberto da Cunha Sampaio; João de Sousa Vilhena, que há anos faleceu, sendo juiz de uma das varas cíveis de Lisboa; Frederico Fílemon da Silva Avelino, que morreu juiz de Direito, julgo que em Ponte do Lima; Francisco de Assis Caldeira Queirós, também depois juiz de Direito; Frederico de Abreu Gouveia, que eu conheci exercendo as funções de director geral dos negócios de Justiça e José Peres Ramires, que eu também conheci, muito surdo, juiz de Direito na comarca de Cantanhede. O meu ilustre amigo e colega, sr. conselheiro António de Azevedo Castelo Branco, que então cursava o segundo ano jurídico e me deu, para este capítulo do meu livro, valiosíssimas informações, foi dos primeiros sócios. Depois, o número destes avultou e cresceu, contando-se entre eles Antero de Quental — que na sociedade teve influência e preponderância decisivas, o que deu motivo a que inexactamente se dissesse, e se acreditasse, que fora por ele organizada —; o futuro romancista Júlio Lourenço Pinto; D. Tomás de Noronha, depois visconde de Alenquer; José Falcão, mais tarde lente de Matemática na Universidade; o sr. dr. Eduardo Segurado; Florido Teles de Menezes e Vasconcelos, que foi advogado e professor de Economia política, na Academia Politécnica do Porto; o sr. conselheiro Augusto Cardoso Pinto Osório, juiz aposentado do Supremo Tribunal de Justiça; o médico António Mendes Lages, que é hoje padre jesuíta e que no teatro Académico comandava uma horda borradora de caloiros beirões, quando os estudantes se manifestavam furiosamente contra a Rússia, empenhada então em esmagar a Polónia rebelada; António Fialho Machado, depois deputado da Nação, que no mesmo Teatro, com voz de trovão atroador, levantava os vivas, no palco, depois de recitar aquela ode revolucionária de Antero, que começa:

                   Águia da França! que te vejo agora
                   Como ave da noite, triste e escura!
                   Há pouco ainda a olhar o sol — nesta hora
                   Meia ofuscada ao resplendor da altura!

E mais adiante:
                   
                   Contra a Rússia — a heresia das nações —
                   Um grande e forte apóstolo de ferro!
                   Que vá direito dentro aos corações
                   Com rijo abalo esmigalhar o erro!

A esta associação secreta, que ao começar o ano lectivo de 1862 já tinha mais de duzentos sócios, deram alguns estudantes, que nela não estavam filiados, o nome de Sociedade do Raio, inventando que Antero de Quental e outros associados, em dia de medonha trovoada, do alto do Penedo da Saudade intimaram a Divindade, em brados clamorosos e atroadores, a provar a sua existência, castigando o ateísmo dos borradores com a expedição fulminante dum raio… que os partisse! Balela extreme!… Se bem que alguém, da família do dr. José Peres Ramires, me disse que este referia o facto como verdadeiro, mas sucedido no quarto de Antero e não no Penedo da Saudade: e acrescentava que o raio caíra em sítio próximo, o que muito impressionara o poeta…

A apresentação ou filiação dos sócios fazia-se à hora fatídica da meia-noite, em local remoto, sombrio e ermo, desconhecido dos neófitos, perante estudantes encapuzados nos gorros. Essas reuniões tétricas realizavam-se umas vezes junto dos muros do triste cemitério de Santo António dos Olivais. outras vezes entre os tufos de árvores do Choupal, outras no Vale do Inferno, na estrada de Santa Clara. Os prosélitos inscreviam-se num livro, liam perante três embuçados um termo de compromisso com solene juramento, recebiam e davam estreitos apertos de mão e ficavam formando parte da associação terrível, que se dividia em secções e era superiormente dirigida por um conselho supremo, a que presidiam, alternando-se, José Sampaio, Caldeira Queirós e Peres Ramires.[i][i]
Eça de Queirós, que, todavia, segundo li, assinou o manifesto da academia, ofendida e magoada pelo rígido reitor Basílio Alberto, não pertenceu à Sociedade do Raio, cujo princípio data de Abril de 1861. Era um tímido. Alem disso, os dirigentes para ela não convidaram estudantes do primeiro e do quinto ano, e o futuro escritor era novato. Os primeiranistas, noviços, inexperientes, e os quintanistas, que em breve deixariam a vida académica, não convinham para membros da tremenda sociedade. Só dela eram sócios os estudantes que mais em relevo e em evidência se achavam pelo seu valor intelectual ou pela sua força física e não estavam em começo ou no fim da sua carreira literária. Tal era a ousada associação secreta que tinha deliberado depor o inflexível reitor Basílio Alberto.

Fez ela terríveis coisas. Um exemplo: em Outubro de 1862 — a 21 ou 22 — , quando o príncipe Humberto de Itália, que depois foi o rei infeliz covardemente assassinado em Monza, visitou Coimbra, alguns dos membros da Sociedade do Raio aproveitaram a ocasião para manifestar as suas ideias avançadas. Foi nomeada uma comissão para saudar o príncipe, composta, na sua maior parte, por alunos que Basílio Alberto tinha feito riscar da Universidade e que, como adventícios, voltavam à frequência das aulas, sendo incumbido Antero de Quental, que, aliás, não tinha sido riscado, de redigir e ler — como leu, estando presente o reitor — a mensagem de saudação, de que foi entregue a Sua Alteza uma cópia, escrita em italiano. Nesse documento, em que havia palavras de amor e de ternura para a Itália livre e para Garibaldi, recentemente ferido em combate, na sua tentativa de unificação do_ seu país, com secreto acoroçoamento de Cavour, lia-se o seguinte período, demasiadamente significativo: — “Não é ao representante da casa de Sabóia que vimos prestar homenagem; é ao Filho do Primeiro Soldado da Independência italiana; desse de quem os reis da Europa aprendem como neste século ainda se pôde ser popular sendo-se rei; de quem a Itália espera ressurreição completa; de quem espera a Igreja cristã uma nova época de verdadeira grandeza e liberdade verdadeira.” À noite, houve récita no Teatro Académico, lendo Fialho Machado aquela poesia de Antero de Quental, cujos primeiros versos são:

                   Itália e Portugal! Que duas pátrias,
                   Ambas tão belas, tão formosas ambas!
                   Uma a pátria do berço; outra a das almas:
        Uma a das artes; outra a dos combates!

Correu depois em Coimbra que o príncipe Humberto julgara que a poesia era feita em latim!...

Na subsequente distribuição de prémios, a 8 de Dezembro de 1862, o plano lembrado por Alfredo Mântua executou-se. Os mais alentados e valentes estudantes, membros da Sociedade do Raio, os mais conhecidos pela sua ousadia e pelo seu destemor, ocuparam, na Sala dos Capelos, a frente do auditório, junto à teia, e, mal o reitor pronunciou as primeiras palavras do discurso que era da praxe proferir naquela festa universitária, deram-se as mãos, formando cadeia, e voltaram-se, saindo de roldão e arrastando assim todos os académicos presentes, muitos dos quais não estavam no segredo da violenta manifestação. O reitor, cujo ânimo esforçado não se apoucava nem intimidava facilmente, assistiu, sereno e afoito, à sabida dos estudantes, recebeu o ultraje sem se diminuir na sua dignidade, e, aquietado o tumulto e sossegada a inquietação dos lentes e doutores, pronunciou placidamente a sua oração, falou em termos alevantados, mas vigorosos, referindo-se ao que acabava de passar-se como quem já esperava tal acto revolucionário e descomedido.

Evacuada a Sala dos Capelos pela academia em massa, cá fora, os estudantes, em vez de se dirigirem em silêncio imponente para as respectivas moradas, como fora combinado ao delinear-se o programa da impetuosa manifestação, romperam, desvairados, em vivas e morras, em gritos estridulosos, em aclamações vibrantes. Muitos académicos ficaram, desde logo. persuadidos de que aqueles desmandos deploráveis seriam obstáculo sério e estorvo invencível à imediata exoneração do reitor, muito provável, quase certa, se a desconsideração gravíssima de que ele fora alvo não exorbitasse da combinação assente, desfechando em chinfrim indecoroso, em verdadeiro tumulto de arruaceiros. Não se enganaram, esses. O governo do duque de Loulé, querendo fazer respeitar o princípio da autoridade, manteve o conselheiro Basílio Alberto no seu posto, para o qual tinha sido nomeado por decreto de 7 de Abril de 1859, tendo sido nele reconduzido por decreto de 7 de Abril de 1862.

Foi então que alguns membros mais destemidos da Sociedade do Raio formaram o plano audacioso de raptar de noite o reitor e de o manter alguns dias preso em casa desconhecida, dispensando-lhe todas as atenções, cercando-o de todos os cuidados e restituindo-o depois à liberdade e à família, com recomendação de que tratasse tão bem a academia como ele próprio fora tratado. Este plano atrevido nunca passou de esboço ou projecto sem consistência e sem autorização do conselho director da terrível associação secreta.

Passados meses, em Julho, quando já tinha findado esse ano lectivo, tão agitado e tão fértil em acontecimentos de gravidade, Basílio Alberto, já então agraciado com o título de visconde de S. Jerónimo, pediu a demissão do cargo de reitor da Universidade de Coimbra — que serviu muito a meu contento, reza o decreto de 22 de Julho de 1863, que lha concedeu. Foi nomeado, para o substituir, o dr. Vicente Ferrer, mais benévolo e complacente, a quem mais tarde, por decreto de 17 de Novembro de 1870, foi também dado o título de visconde de Freixo, mercê a que renunciou, sendo-lhe aceite a renúncia por decreto de 1 de Março de 1871, como tudo se pôde ver nos respectivos números do Diário do Governo.

A Sociedade do Raio, dada ao reitor a exoneração que ele solicitara, dissolveu-se, visto que a razão principal, ou talvez única, da sua existência, era a permanência do odiado Basílio Alberto no alto lugar de prelado universitário. As várias secções reuniram-se, para resolver se os sócios se deveriam filiar na maçonaria, que os partidos histórico e regenerador então exploravam, sob a direcção, em Coimbra, respectivamente, do dr. Lourenço de Almeida Azevedo, que eu ainda conheci lente da faculdade de Medicina, e do dr. António da Silva Gaio, também lente de Medicina, romancista e dramaturgo notável. Na secção a que assistiu a ilustre personalidade que me forneceu, para este capítulo, algumas informações interessantíssimas, o sr. dr. Manuel de Arriaga combateu arduamente a filiação dos sócios na maçonaria, achando indigno que a academia trocasse a negra batina pelo avental do trolha. Apesar disso, alguns estudantes, que já sonhavam talvez com pingues e rendosos empregos públicos, fizeram-se maçons, procurando promover a reforma do ensino e a substituição do regime disciplinar da Universidade. Poucos foram. A maioria riu da inofensiva maçonaria daquela época e dos tais pruridos de reforma.

António Cabral,  Eça de Queirós. A sua vida e a sua obra. Cartas e documentos inéditos, Paris-Lisboa, Livrarias Ailaud e Bertrand, 1916, pp. 46-55.



[i] Veja-se em O Conimbricense, número 2189, de 18 de Julho de 1868, o folhetim de Joaquim Martins de Carvalho que tem por título: As sociedades secretas em Coimbra.
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