24 de dezembro de 2013

Do que se fala quando se invoca a nêspera...


A fotografia que vai acima gerou, aqui ao lado, a conversa do costume, acerca do que será uma nêspera, se o fruto com esse nome que encontramos nos supermercados,



se o fruto que nos oferecem no mercado de Guimarães, quando o nomeamos,



A ambos chamam nêsperas mas, de serem tão diferentes, qualquer um perceberá que devem ser designados de modo diferente, sob pena de não se saber ao certo do que se fala quando se fala duma nêspera.
O primeiro é o fruto da nespereira-do-japão (eriobothrya japonica), árvore da família das rosáceas que, apesar do nome, tem origem na China. Quando maduro é doce e um pouco ácido. Tem a pele amarela e cinco grandes sementes castanhas. É geralmente conhecida por nêspera mas, provavelmente por não saberem a o que lhe chamar, têm-lhe dado muitos nomes: no Brasil chamam-lhe ameixa-amarela, mas também pode ser conhecida por ameixa-japonesa ou ameixa-americana; nos Açores chamam-lhe mónica; no Norte de Portugal é conhecida por a magnole, magnólio ou magnório. Os franceses chamam-le loquat ou  Japanese medlar, os franceses nefle du Japon, os alemães japanische mispel, os espanhóis nispero japonés ou nispero do Japón
O segundo é o fruto da nespereira-da-europa (mespilus germanica), também da família das rosáceas, árvore cultivada na Europa há milénios. Segundo o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, é um “pomo drupáceo, turbinado, verde-acerbo, tornando-se, ao sorvar, castanho, mole e comestível”.
A nêspera, é o fruto da nespereira. Quando está no ponto de ser comida, tem uma textura mole, a sugerir podridão (só a sugerir) e um sabor único, um pouco ácido e a puxar para a maçã. Os caroços são pequenos (quando comparados com o fruto a que outros dão o mesmo nome) e não são lisos, antes pelo contrário. Assim sendo, este pouco têm a ver com os outros frutos a que, em terras com um léxico mais pobre, também chamam nêsperas. Não lhes conheço outro nome. Em Espanha, chamam-lhes nísperas ou nísperos germanicos, ou ainda níspero, níspero europeo, nisperero europeo, miézpola, míspero, míspola, mispolera, néspera, niéspera, niéspola, níspera, níspola e nispolero. Os ingleses chamam-lhe medlar. Já os franceses, conhecem-no por nefle (de néflier, nespereira) ou cul de chien (= cu de cão). Quem quiser plantar a sua árvore, basta procurar na net 'nespereira comum'.
 O outro fruto é o magnório, e nasce da árvore que no Norte de Portugal se chama de magnólio, magnole ou magnoleiro. Magnol é um elemento que aparece na composição de diversas palavras da taxonomia botânica, introduzido pelo fitólogo e monge francês Jacques Plumier (1646-1715), em honra do botânico que primeiro identificou a família das magnólias, o médico e director do Jardin des Plantes de Montpellier, Pierre Magnol (1638-1715). Faz todo o sentido chamam magnório a este fruto. Mas, se lhe quiserem chamar nêspera, façam favor de ser mais rigorosos e dizer nêspera japonesa. Porque a nêspera é a outra.

A história da literatura portuguesa teria de ser reescrita, se a Nespereira onde Raul Brandão escreveu as suas obras maiores se chamasse Magnoleiro...
Partilhar:

18 de dezembro de 2013

Nós queremos dormir, snr. Administrador do Concelho de Guimarães!


Em 1902, a pacatez vimaranense foi agitada por uma publicação entitulada, o Burgo Podre, que dois jovens vimaranenses, Eduardo de Almeida, que escrevia os textos em prosa, e Alfredo Pimenta, que escrevia em verso, tinham trazido de Coimbra no fundo das malas. Os textos saíam anónimos.  Pimenta escreveria mais tarde que eram dezasseis página tremendas, irreverentes, sacrílegas com que nos propúnhamos dinamitar o burgo, purificar o Céu, e alimpar as almas, e lavar os corpos dos nossos conterrâneos. O primeiro número (apenas se publicaria outro) terminava com um texto onde se prova ao snr. Administrador do Concelho, em termos amaneirados, por várias razões filosófico-jurídicas que os morteiros e os sinos incomodam.
Aqui fica, à atenção do Jorge Castelar, que se queixa do mesmo:

Senhor Administrador do Concelho de Guimarães,
Quando um incidente feio da nossa política vos instituiu no honroso encargo de delegado e representante do governo e do governador civil (art. 269 do Cód. Administ.) nesta terra de Guimarães, nós, e os seus mais cidadãos, ficamos esperançados em que se restabeleceria a paz e modorra das coisas públicas. Poderiam as conhecidas e imutáveis rameiras passear imponente os seus cabelos gordurosos e as saias de ganga, às horas mais vivas, os largos mais movimentados; poderiam as mulheres das sardinhas atormentar os burgueses honestos com esses palavrões infames, que eles, honestamente, gritam às esposas, antes de adormecerem, pensando nas irregularidades do câmbio; poderiam as tricanas insultar o “Fole” e arrancar-lhe aqueles vis estrídulos de gargalhadas parvas; poderiam os carrejes despir a blusa e arrancar o número; poderiam abarrotar-se os tascos de malvados e galdérias, que decilitrassem, sem cerimónia e sem sobressalto, quantos caes lhe consentisse a bolsa e o crédito; poderiam certos marialvas atropelar excursionistas, manhã ainda, esposa em casa, além no Cavalinho. Essa esperança alegrava-nos porque, soltas as línguas, violadas as posturas, Guimarães seria Guimarães essencialmente ordinária cheia de lama, analfabeta e malcriada; essa esperança alegrava-nos porque teríamos todos os dias azo de ler, em correspondência, as bravatas de um herói argamassado a esta terra pela sua dignidade, a lutar pela morigeração dos costumes num estilo de conselheiro Acácio em mistura de Palma Cavalão, a expor eternos escândalosvasos de urina despejados sem aviso, marido e mulher a socarem-se em pleno Jardim, bêbados cantando obscenidades repelentes.
Porque, Il.mo Senhor, a terra por que velais é positivamente caracterizada por esse conjunto abjecto de factos.
Mas não – os executores das vossas ordens multam as rameiras, multam as mulheres das sardinhas, obrigam à blusa e a número os carrejões, prendem os bêbados embora, todos os dias, nós tenhamos de admirar os cabelos gordurosas, aprender novas obscenidades, ouvir os arrancos angustiosos e coceguentos do idiota e esmolar a galdéria que se nos atira aos braços para não experimentarmos a navalha barata doa mente.
E, embora contrariados, num meio que não é o nosso, carecidos de bravatas e de facadas, nós somos os primeiros a cantar a vossa força autoritária ainda mesmo que essa força se traduza em amaviosas serenadas de violas, ferrinhos, flautas e rebeca, em mil encarceramentos de batoteiros que, ao dia seguinte, voltam para o café de lepes em que jogam, na apreensão de uns bilhetinhos protestantes que não ofendem a Carta Constitucional no seu art. 6.° e na carta aberta no Barroso, no Cosme, no barato para as despesas das vossas correrias administrativas.
É essa força que nos anima, Il.mo Senhor, a vir hoje incomodar-vos reclamando a vossa atenção para uma pulhice atroz, funérea, neriana.
Houve, tempos idos! um vosso colega que, como se achasse hospedado no Hotel do Toural e como quer que o enfastiasse, ou espertasse, o sino da Misericórdia, aos domingos, chamando para a missa das 11, reduziu o trabalho ao sineiro a meia ração de badalo.
Ora o facto é que, desde que vivemos, nós somos obrigados a receber a folhinha e, ao que nos consta, o snr. Dr. Abel de Andrade não se lembrou ainda de obrigar os homens de Portugal a andar a par das coisas da sacristia, nem tais coisas fazem parte do ensino público visto não se encontrarem para tal fim expressas em diploma algum oficial.
Acresce que nós nos deitamos tarde – ou porque os livros nos prendam à banca, ou seja porque jogássemos largas horas a sueca, o bilhar ou a bisca lambida, ou seja porque os bordéis e as tascas nos demorassem. Logo de madrugada, escuro ainda, quando nos regalávamos no melhor do sono, não nos doendo os calos, quando a nossa cabeça repousava mais docemente no colo da nossa mulher – esposa, amante, tolerada –, quando assistíamos, em sonho, Il.mo Senhor, ao desfiar da nossa glória, mundos de ouro, haréns de fadas, um lugar de amanuense, um lugar de varredor, a herança do tio, a carta da noiva, rivais passados a espada, a taluda, quando, como ensina Lagel, nessa perda momentânea da vontade e da inteligência, presos às mais febris alucinações, encontramos dentro em nós tesouros ignorados — eis que rebenta a mais estrepitosa, a mais sonora, a mais retumbante, a mais satânica, a mais álacre das bimbalhadas, os sinos de S. Domingos, os sinos da Oliveira, os sinos de S. Paio, os sinos das Dominicas, o sino de S. Pedro, os sinos da Misericórdia, os sinos de S. Dâmaso, os sinos do Campo da Feira, os sinos do Anjo, os sinos de Guimarães, os sinos de todo o mundo a badalarem desenfreados, danados, epilépticos. E logo um estrondear incrível de foguetes, de morteiros, de bombas, a pirotecnia a estoirar no espaço.
Arremessamos, loucos de desespero e impotência, as botas, os chinelos, os travesseiros, as calças, sem conseguirmos emudecer essa epopeia infernal de sons.
Isto não pode ser!
V. Exa., que goza de uma fama justa de pacatez, que rega as suas roseiras, que ama o capote à espanhola e o chapéu de coco, V. Exa., que se deita regularmente às 9 horas para se levantar às 9 horas do dia seguinte, V. Exa., que sabe, bem melhor do que nós que não há publicista algum que de preferência se dedique ao direito administrativo – Bonasi, de Foaq, le Blari, Ducroq, Vivieu, Posada, Piernas Hurtado, Santamaria de Paredes, Colmeiro – que aconselhe o barulho como meio de aperfeiçoamento de costumes, e decorou os parágrafos 15.° e 16.° do art. 278 do Cod. Administ., V. Ex.a, que é honrado, honesto e conservador – não pode consentir tal coisa.
Nós queremos dormir, snr. Administrador do Concelho de Guimarães!
[Eduardo de Almeida], Burgo Podre, Guimarães, 1902
Partilhar:

15 de dezembro de 2013

Da Penha



Quem hoje de Guimarães olha a Penha não vê o mesmo que viu quem a olhou no último quartel do século XIX. Onde hoje vemos um manto verde, via-se então uma paisagem inóspita, revestida de granito. No entanto, não faltava quem lhe cantasse as belezas, ajudando a preencher a mitografia da montanha que se debruça sobre Guimarães. De todos os poetas, terá sido Bráulio Caldas aquele que melhor a cantou. Enquanto não arranjo tempo para escrever sobre a biografia da serra contada por Esser Jorge, aqui fica uma balada em prosa que Bráulio dedicou à Penha.

Bráulio Caldas (1861-1905)

A pastora dos cantares
I
Lá no alto da Penha, no píncaro mais esguio da serra, que parece pendurado no céu, por um véu de nuvenzitas brancas feitas de gotas de orvalho e raios de luz, a pastora dos cantares vestida de madressilvas e coroada de folhas de hera, fresca e robusta, rosada como os morangos, loura como os trigais, levanta-se com a aurora, abre os grandes olhos azuis languidamente, cora e empalidece mesmo como a aurora no horizonte, lá no alto da Penha, no píncaro mais esguio da serra, que parece pendurado no céu, por um véu de nuvenzitas brancas, feitas de gotas de orvalho e de raios de luz.
II
Quando a cotovia em espirais ligeiras esvoaça pelas alturas, como que a pedir ao azul luz, muita luz, vibrando um inefável concerto matutino em dueto com a estrela da manhã, ela contempla a paisagem da terra, feita de maciços de verdura, e vai banhar-se nas tinas de cristal que as pérolas de orvalho formam nos estofos de musgo e nas folhitas das ervas, e cumprimenta as borboletas e os répteis que lhe respondem na sua linguagem rude, sorve os perfumes das flores agrestes que vivem lá pelas urzes dos montes; e depois de rezar a oração da manhã pelas contas que a fonte cristaliza, destiando-as do seio da rocha, saúda entusiasticamente a natureza inteira, enviando-lhe um canto fresco e luminoso como o som metálico de um clarim, lá quando a cotovia em espirais ligeiras esvoaça pelas alturas, como que pedindo ao azul luz, muita luz, vibrando um inefável concerto matutino em dueto com a estrela da manhã.
III
Depois à tarde, quando as cores sombrias e pálidas do crepúsculo se esbatem pelos outeiros e o sol como uma enorme águia de oiro, morrendo pelo espaço sacode, nuns estrebuchamentos moribundos as suas asas rutilantes pulverizando de oiro os topos das montanhas, ela, a pastora dos cantares, recostada dolentemente na macia rede de verde-escuro, baixa o rosto entristecido e interrogando os seus leais companheiros, os animaizitos do monte, e as flores dos vales e as rochas de granito, e os gemidos da fonte, e as brisas que perpassam e conta-lhes a história triste de uns amores passados, extintos por uns caprichos ligeiros do namorado, e, arquejando-lhe o peito com volúpia e saudade, soluça melancolicamente e comove as florzitas e as águas e os vassalos do seu palácio e até as próprias rochas, lá pela tarde quando as cores sombrias e pálidas do crepúsculo se esbatem pelos outeiros e o sol como uma enorme águia de oiro, morrendo pelo espaço, sacode nuns estrebuchamentos moribundos as suas asas rutilantes, pulverizando de oiro os topos das montanhas.
IV
Mas quando a escuridão passa a aguada lucubre pela tela do espaço e as aves da noite, vigilantes como o pensamento, gemem um miserere de mágoas nos ramos dos pinheiros, lá pela quebrada das serras, ela, despedindo-se com a oração da noite do tecto azul cravado de pregos de prata, recolhe-se à sua alcova cavada nas rochas, aquela gruta sombria, medonha e bela, arquitectada em colunas toscas de granito, que parecem gigantes negros abraçados num amplexo de paz, e na sombra e na tristeza, deita-se e dorme tranquilamente; ora sonhando umas fantasias orientais, ou sensações voluptuosas quando a lua coa um raio pálido e morno pelas florestas da gruta; ora sonhando um pesadelo horrível e majestoso, quando a orquestra da tempestade açoita a floresta e a penedia, em acórdãos de desespero, lá quando a escuridão passa uma aguada lúgubre pela tela do espaço, e as aves da noite, vigilantes como o pensamento, soluçam um miserere de mágoas nos ramos dos pinheiros, lá pelas quebradas da serra.
V
Uns chamam-lhe a pastora dos cantares, outros a rainha dos bosques, outros a poesia bucólica e eu chamo-lhe a minha amada, àquela que lá no alto da Penha, no píncaro mais esguio da serra namora e canta a natureza, os encantos agrestes das colinas, a solidão das grutas, os gemidos das fontes, os matizes das flores, as ramagens das florestas, as searas dos campos, e ri com a alvorada, e suspira com a tarde e entristeço com a noite e canta e canta... ora faz adormecer a alma em sonhos de delícias, ora a faz voar, voar... em asas de luz pelo espaço fora... uns chamam-lhe a pastora dos cantares, outros a rainha dos bosques, outros a poesia bucólica; e eu chamo-lhe a minha amada.
Caldas de Vizela — Agosto — 1887.

Bráulio Caldas.
Aurora da Penha, n.º único, Guimarães, 29 de Agosto de 1887, p. 11
Partilhar:

13 de dezembro de 2013

Festas Nicolinas: tradição e mudança (4)

A entrega das maçãs (desenho de Gil Azevedo, 1943)

Como se recordarão aqueles que têm tido paciência para ler o que aqui tenho publicado, já afirmei que as causas da decadência das celebrações do dia de S. Nicolau não devem ser imputadas nem ao local onde acontece a entrega das maçãs, nem à adesão dos estudantes a esse número, mas sim à falta das folias que, outrora, traziam colorido e animação às ruas de Guimarães. Agora vou tentar explicar porquê, começando por recordar o que se sabe da “biografia” daquele que, outrora, era o dia principal das festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau. A Colegiada de Guimarães era proprietária da dízima (tributo correspondente à décima parte dos rendimentos) e da são-joaneira (foro que se cobrava pelo S. João) de Urgezes, cuja colecta andava arrendada a paticulares por períodos de três anos. Conhecem-se contratos de arrendamento destes foros desde a segunda metade do século XVII e sabe-se que, desde tempos imemoriais, o arrendamento era feito com a obrigação do rendeiro satisfazer aos estudantes do senhor S. Nicolau pelo seu dia a porção que é obrigado com toda a boa satisfação como é uso e costume e sempre foi, conforme se lê no contrato de 1734. O contrato de 1808 especifica o conteúdo da porção da renda dos dízimos de Urgezes que era devida aos estudantes, e que também conhecida por foro, pensão ou posse:
dois alqueires de castanhas assadas, meio alqueire de nozes, meio alqueire de tremoços, duzentas maçãs, dois almudes de vinho e duas dúzias de palha de argola.
Não se sabe ao certo qual a origem deste costume, indicando-se que teria resultado do legado de um cónego, nunca identificado. Também não se sabe quando começou, mas teve início, seguramente, bem antes a primeira referência datada que lhe conhecemos (contrato de 1734, onde se diz que existe desde sempre). Os documentos deixam algumas dúvidas na identificação de quem teria direito àquela pensão. Umas vezes afirma-se que pertencia aos estudantes, outras que era devida aos coreiros ou meninos do coro da Colegiada da Oliveira. Dos documentos, percebe-se que seria devida, solidariamente, aos coreiros e aos estudantes.
Albano Belino deixou, num manuscrito que pertence à Sociedade Martins Sarmento, uma descrição deste velho costume, que nos remete para as celebrações parodiais do dia de S. Nicolau que conhecemos noutras partes da Europa:
Antigamente a renda não se partia em Urgezes sem que chegassem os três coreiros a cavalo, trajando o primeiro (o bispo) que era o mais velho, batina, murça e meia preta; e os dois restantes (os cardeais), batina, Murça e meia vermelha. Faziam a entrada na cidade e levavam as castanhas assadas aos cónegos e às pessoas mais gradas.
No dia de S. Nicolau de 1883, o jornal O Espectador, de Guimarães, publicava uma descrição das velhas festas dos estudantes a S. Nicolau, em que se refere a renda de Urgezes e o destino que lhe era dado:
Os coreiros, indo ali todos os anos, no dia de S. Nicolau, receber a renda, vinham depois a cavalo e em hábitos corais, oferecer da mesma às pessoas mais gradas da terra. Esta usança, depois de renhidos demandas e peripécias várias, passou para os estudantes de latim em Guimarães, que deram ao caso as aparências de uma grande festa.
Recebida a renda, os estudantes seguiam em cortejo desde Urgezes, entravam na cidade, “apresentavam-se” ao pinheiro, erguido no Toural, desde o dia 29, e procediam à sua distribuição pela população, guardando as maçãs rubicundas para as donzelas da terra.
Já no pregão de 1827 se lia que
As maçãs, de ouro não, mas tão perfeitas,
Tão dignas de ser dadas, ser aceitas.
Que entre as belas toucadas não irritem,
Mas a fagueiros risos as excitem.
(Pregão de 1927)
Quando, em 1834, por força da extinção dos dízimos, a Colegiada deixou de receber a renda de Urgezes, também deixou de pagar o que era devido aos estudantes, o que deu origem a um célebre litígio judicial, que acabaria com sentença a favor dos cónegos.
Depois de 1834, os estudantes continuaram a entregar as maçãs às raparigas, em dia de S. Nicolau, sendo corrente a afirmação de que seriam colhidas pelas suas próprias mãos.
Iremos todos, de prazer arfando,
Rubros pomos colher, maçãs mimosas,
Para vir ofertar às mais formosas.
(Pregão de 1842)

Aquando do ressurgimento das festas, em 1895, a entrega das maçãs atingiu particular brilho, como por aqueles disa relatava o Vimaranense:
No dia imediato pela uma hora da tarde a distribuição das maçãs às damas que nas suas varandas as disputaram à porfia, e cujas toilettes vistosas imprimiam um cachet alegre e encantador a esta festa juvenil. Antes da distribuição das maçãs o Bando académico, vindo de Santo Estêvão, andou em comum pelo centro da cidade ostentando as suas luxuosas vestes. Era formado por 40 cavaleiros e 5 carros. Antes de se dividir pelos diversos pontos da cidade o seu aspecto era realmente surpreendente e deslumbrante

Nos anos que se seguiram, a entrega das maçãs continuou a ser um dos números centrais das festas dos estudantes de Guimarães. Em 1899, o programa anunciava-as assim:
No dia 6, das onze horas para o meio dia entrará nesta cidade a triunfante cavalhada, vinda dos lados da Vaca Negra, pela rua de Alegria, rua de Camões, S. Francisco, circulando o pinheiro, S. Dâmaso, Senhora da Guia, Oliveira, rua da Rainha, rua de Santo António, Gil Vicente, Paio Galvão, Toural e novo círculo ao pinheiro. Daqui, à voz de – destroçar -distribuir-se-ão as
“Vermelhas maçãs, que as donzelas
Recebem em suas próprias janelas.”

No entanto, apesar da promessa, o cortejo não atingiria o fulgor prometido, tendo o jornal O Comércio de Guimarães classificado a entrega das maçãs daquele ano como muito pobrezinha, apenas uma dúzia de rapazes, se tanto, tomaram parte neste número do programa, sem dúvida o mais distinto de todos os dos festejos.
Em 1901, ao contrário do que era costume até aí, em que a entrega das maçãs acontecia de manhã, os estudantes iniciaram a distribuição às três horas da tarde, depois da continência à bandeira escolástica, hasteada no pinheiro. Nos anos que se seguiriam, realizar-se-iam ora ao meio-dia, ora de tarde, mas a tendência será para empurrar a celebração para horas mais tardias.
Em 1903, organizou-se uma comissão de senhoras, incumbida de premiar o melhor carro do cortejo da entrega das maçãs. Segundo anunciava O Comércio d e Guimarães, estariam a ser preparados, pelo menos, uns 14 carros, bem enfeitados, e com bons costumes. Dias depois, o Independente relatava dava conta dos resultados da avaliação da tal comissão:
A entrega das maçãs às gentilíssimas senhoras de Guimarães, realizou-se ontem, aparecendo alguns estudantes ricamente vestidos em carros luxuosamente postos, sendo conferido o prémio das senhoras aos srs: Joaquim Meneses e Gualter Martins, constando o prémio de um bandolim e o segundo de um alfinete de ouro.
Zeca Meira, muito engraçado, representando uma formosa leiteira muito catita, um verdadeiro bijou.
Foi este estudante o que mais engraçado se apresentou no cortejo das maçãs merecendo por isso o prémio da consagração popular. Também se destacaram os académicos João Artur, Couto, Fortunato Sampaio, Fernando Sampaio Bourbon e Gonçalo Sampaio Bourbon.

Em 1903, o cortejo foi muito participado, embora tenha sido classificado como o “mais pobrezinho” que até então se fizera, porque lhe faltou a banda de música a tocar o hino escolástico. Nos tempos que se seguiriam, este número das festas nicolinas tenderia a ser classificado mais vezes como um fiasco do que como um sucesso. A adesão dos estudantes a este número variava conforme os anos, mas era visível que a tendência seria para uma progressiva perda do antigo brilho. E, com altos e baixos, esta foi a tendência que se manteve até aos nossos dias, em que o dia de S. Nicolau, 6 de Dezembro, foi deixando de ser o dia principal da festa.
Como se percebe, o cortejo e a entrega das maçãs eram, no passado, algo diferentes daquilo que são hoje. Eram, desde logo, muito mais espectaculares, porque os estudantes vinham, desde Urgezes, a cavalo (os mais novos) ou em carros (os outros). Em chegando ao Toural, davam meia volta ao pinheiro, em homenagem a Minerva. Seguidamente, dispersavam-se pela cidade, entregando as maçãs espetadas nas pontas das suas lanças, enfeitadas com fitas coloridas, às damas que as aguardavam nas janelas e varandas das suas casas. Não havia, como se percebe, um local fixo onde elas se concentravam à espera dos seus cavaleiros, que distribuíam as maçãs sem desmontarem dos cavalos ou dos carros que os transportavam.
Do que acima se disse, podemos dizer que, a perda do antigo fulgor das maçãzinhas não se deve às mudanças de local que aconteceram ao longo do tempo: na origem toda a terra, depois o Toural, a seguir as Praças de S. Tiago e da Oliveira, agora novamente o Toural. Sou de opinião de que o Toural lhes dá maior visibilidade, mas que não será o sítio que lhes devolverá o brilho. O raiz do problema assenta, do meu ponto de vista, da perda de espectacularidade que afectou este número das festas de S. Nicolau. É que, se ainda há donzelas, não muitas, que aguardam à janela a chegada dos seus cavaleiros, não deixa de ser  decepcionante vê-los chegar apeados...

Mas não é aqui que bate o ponto do declínio das maçãzinhas, como a seguir veremos, quando falarmos das Danças.
Partilhar:

10 de dezembro de 2013

Festas Nicolinas: tradição e mudança (3)

Cortejo da Entrada do Pinheiro, Guiamrães, 2013 (fotografia de Ricardo Garrido)

[Declaração prévia de conflito de interesses: o autor deste blogue é ex-aluno do ex-Liceu Nacional de Guimarães, de que guarda memórias mui gratas, e é professor na Escola Secundária Francisco de Holanda, provavelmente a escola que tem mais nicolinos nos seus quadros, em todo o Universo.]

1. E eis que, de repente, a propósito das Festas Nicolinas, ressurge das cinzas uma suposta rivalidade entre duas escolas secundárias de Guimarães. Pela parte que me toca, sei bem onde tal ressurreição não teve lugar.
Ao que percebi, do que consegui perceber, a origem do conflito terá a ver com a invocação para o “Liceu” teria de prerrogativas em relação às festas nicolinas. Ou ainda mais do que isso: segundo o que se leu numa das "graças" que constavam dos cartazes que enfeitavam os carros de bois da entrada do pinheiro, o tal “Liceu” teria um estatuto superior aos das outras escolas:

Ó velhos estudantes
Porquê a jantarada na Industrial?
Lembrem-se que o Liceu
É a escola principal.

Escola principal em quê? Em estatuto jurídico? Em antiguidade? Em número de alunos? Na posição nos rankings dos resultados dos exames nacionais? Alguém me explica?
Ninguém ganha (e muito menos ganhará o dito “Liceu”) em entrar numa disputa de puxar de galões, que só serve para alimentar discussões patetas e serôdias. Nem a história nem a tradição nicolina autorizam a que se diga que, nos tempos que correm, uma escola goza de foro particular. Por uma razão simples: as festas não são, nem nunca foram, de qualquer escola. Sempre foram dos estudantes de Guimarães, podendo-se argumentar que antigamente a participação estava limitada aos estudantes de humanidades e de ciências, como se depreende dos estatutos de 1837. Era por isso que os alunos do ensino técnico, industrial ou comercial não participavam nas festas, porque os cursos humanísticos e científicos estavam reservados os liceus. Mas há muito que em Portugal deixou de haver distinção entre liceus e escolas técnicas. Com a unificação do ensino secundário, todas as escolas desse grau de ensino ministram cursos científicos e humanísticos, assim como oferecem cursos profissionais. A partir da unificação do ensino, as Nicolinas, em mais uma demonstração da sua capacidade de adaptação a novas realidades, foram apropriadas pelos estudantes de todas as escolas secundárias de Guimarães. A ser de outra maneira, para quem acredita que as festas se deveriam cristalizar na sua pureza original, o que teria de acontecer seria a exclusão dos alunos dos cursos profissionais. O que, convenhamos, não faria qualquer sentido.
As Festas Nicolinas continuam a existir hoje graças aos estudantes do antigo Liceu de Martins Sarmento, depois Liceu Nacional de Guimarães, que asseguraram, durante décadas, a continuação da tradição. A Escola Secundária Martins Sarmento, enquanto herdeira do antigo Liceu, tem todas as razões para se orgulhar dos seus antigos estudantes, mas isso não lhe concede qualquer direito de primazia sobre as outras escolas com que hoje partilha o ensino científico-humanístico no concelho de Guimarães.
"Foto de família" de um dos grupos participantes na entrega das maçãs do ano de 1919, constituído por (da esquerda para a direita): José Sarmento e Castro (aluno do 3.º ano), Alberto Sarmento e Castro (7.º ano), José Carmona Gonçalves (5.º ano) e Fernando laje Jordão (3.º ano).

2. Um outro tema que tem andado na baila tem a ver com a idade daqueles que participam nas festas, como se a tradição apenas autorizasse a participação dos alunos dos últimos anos do Ensino Secundário. Se assim fosse, não teria havido festas nicolinas entre 1928 e 1958, porque nesse tempo no liceu apenas era ministrado o curso geral, que terminava no 5.º ano, correspondente ao actual 9.º ano. Mas isso não aconteceu, pois não? É que não havia nenhuma limitação de idade para a participação nas festas a S. Nicolau, nem nessa altura, nem antes, nem depois. Basta olhar para a fotografia que vai acima para retirar quaisquer dúvidas sobre este assunto.
Esta discussão, mesmo quando assume contornos mais esgalhados e roça a falta de civilidade, em que se confundem as pessoas com as suas opiniões, é virtuosa, porque nos ajuda a compreender melhor a extraordinária resiliência duma velha manifestação cultural que consegue escapar ao rolo compressor da uniformização cultural contemporânea, e que todos os anos renasce das cinzas com um vigor acrescido.
Longa vida ao S. Nicolau vimaranense!
Partilhar:

9 de dezembro de 2013

Festas Nicolinas: tradição e mudança (2)


São curiosas as afirmações acerca da decadência das festas que, há séculos, os estudantes dedicam a S. Nicolau. Este ano, há quem tenha interpretado a inclinação do pinheiro como um sinal dessa decadência (“estes já nem com máquinas o conseguem pôr de pé…”, ouviu-se). Ora, os vaticínios acerca da proximidade do fim dos tempos nicolinos são uma das constantes da tradição, como agora recordamos, onde se afirma que a festa dos estudantes “parece que caminha para o seu termo” e que foi escrito em 1858…
Este texto tem particular interesse por nos ajudar a perceber qual era o programa das festas naqueles tempos (apenas falta a referência ao acto da entrada e levantamento do pinheiro que anunciava que os estudantes de Guimarães estavam em festa), ficando claro que o essencial do programa se concentrava no dia 6, sendo antecedido pela leitura do pregão que, na véspera, o anunciava:
É, sim, de Nicolau festivo dia,
Que amanhã volve cheio de alegria.
No dia 6, os estudantes andavam pelas ruas, cortejando as moças, a quem entregavam “a renda” (nas pontas das “lanças douradas”, não espetavam apenas maçãs, como se verá). Percebe-se claramente que as raparigas não se concentravam num local qualquer, esperando pelos estudantes, antes se punham à janela nas suas casas, onde os rapazes as iam procurar. Antes do Toural, o palco da entrega das maçãs era qualquer lugar de Guimarães onde houvesse uma rapariga à espera delas.
Depois da entrega das maçãs, que acontecia bem mais cedo do que nos dias de hoje, saíam à rua as danças, que eram uma espécie de teatro de rua executado por grupos de estudantes. Estas folias eram o número mais esperado das festas, fazendo parte da matriz original das celebrações a S. Nicolau em Guimarães. As Danças de S. Nicolau, renascidas das cinzas há algumas décadas por obra dos velhos nicolinos, são, a par do pinheiro, um dos momentos mais aguardados e de maior sucesso das festas. No entanto, não preenchem o espaço das antigas exibições de rua que aconteciam no dia 6 de Dezembro e que explicavam porque é que, dantes, era este o dia principal das festas.
O texto da Tesoura de Guimarães sobre as festas a S. Nicolau do ano de 1858 dá argumentos para se perceber que as causas da decadência das celebrações do dia de S. Nicolau não devem ser imputadas nem ao local onde acontece a entrega das maçãs, nem à adesão dos estudantes a esse número, mas sim à falta das folias que, outrora, traziam colorido e animação às ruas de Guimarães.

Folia escolástica
A folga escolástica de S. Nicolau parece que caminha para o seu termo; nem outra coisa era de esperar depois de a confundirem com os divertimentos ordinários e comuns – danças e teatro –, contudo alguma coisa houve de bom, e mau. Comecemos por este.
Não temos grandes queixas; mas alguém as tem, não tendo podido conciliar o sono, com o estrondo dos tambores durante as noites. Parece que a nossa advertência só a nós foi proveitosa. Em outro tempo, iam os estudantes à novena de N. S. da Conceição; antes de ir, faziam as suas graças, às vezes pesadas; mas não amotinavam a povoação com o estrondo dos tambores, salvo de dia e só no dia próprio deles.
Com exclusão deste abuso, tudo o mais esteve bom, e por isso foi pouco, muito pouco.
No domingo saiu o bando a horas competentes, com todo o asseio e boa ordem, fazendo o clarim calar os tambores quando o pregoeiro recitava o bando escolástico, que deixámos transcrito. O pregoeiro ia rica e elegantemente vestido e, o carrinho que o conduzia, vistosamente ornado, podendo dizer-se bem de todos os máscaras, tanto de pé, como a cavalo.
Ontem a distribuição da renda pelas damas começou tarde. Era meio-dia quando os cavaleiros se espalharam pelas ruas chegando às belas meninas, que ornavam as janelas, as coradas maçãs e açucarados bolos que cravados tinham nas pontas agudas das suas lanças douradas.
Às duas horas da tarde estava tudo distribuído.
Poucas foram as exibições que apareceram no resto do dia, mas algumas delas chistosas e picantes. A primeira foi a aparição de um fio eléctrico, com direcção a Braga, pelo qual se estavam recebendo notícias, que eram logo publicadas; entre elas uma recebida de Lisboa, que dizia – Guimarães vai ter tudo o que lhe falta: telégrafo eléctrico, biblioteca, estradas e até caminho-de-ferro, porque uma coisa tinha caído.
Outra era: duas damas, em carrinho descoberto, vestidas com mantos pretos e toucas na cabeça; seguidas de criados com riquíssimas librés. Atrás do carrinho ia um homem do povo, que o empurrava, como para andar mais depressa do que os cavalos o levavam. Na tábua do carrinho, quando o homem o empurrava, e na mão deste, ia um lampião aceso.
Outra compunha-se de quatro indivíduos, cobertos com dominós negros e com archotes acesos na mão, andando a toque de caixa.
À noite, teatro gratuito e primorosamente desempenhado. Concorrência superior à capacidade da casa.
A Tesoura de Guimarães, n.º 226, Guimarães, 7 de Dezembro de 1858


Partilhar:

8 de dezembro de 2013

Festas Nicolinas: tradição e mudança (1)

Pregão de 1929, recitado por um "quintanista do Liceu Martins Sarmento"

Este ano a cena Nicolina andou um pouco mais tempestuosa do que o costume. Não é grande novidade: acabadas as festas, regressa a bonança, e, como diria o meu amigo Miguel Bastos, a tranquilidade e a fidelidade, até Novembro do ano que vem. A febre nicolina é como as marés vivas de Agosto. Para o ano, há mais.
Entretanto, vou percebendo que há quem que as Festas Nicolinas têm donos. Donos do seu estudo, donos da sua tradição, donos, enfim, das festas. Até há os que se julgam com a exclusividade de emitir ou de validar opiniões sobre a matéria. Cá por mim, que não tenho dono, continuarei dizer o que penso. Enquanto que aqueles que enchem o peito e proclamam “eu decido” não tiverem peito bastante para decidirem mudar a Constituição da República, continuarei a dizer o que me apetece dizer. Lamento muito desiludir suas excelências: vão ter que me continuar a aturar. É a vida. Se não gostam do que digo, têm bom remédio: como, mui sabiamente, dizia a minha avó, “ponham na beirinha”.
Este ano, quando os motores das festas ainda estavam na fase do pré-aquecimento, fiz aqui uma pergunta: De quem são as Nicolinas? Pelo que vi, não falta quem ache que são suas e de mais ninguém. Enganam-se: as nicolinas são de todos.
Este ano, voltou a haver desentendimentos entre os velhos e os novos nicolinos. Nisso, não há originalidade: essas divergências são (quase) tão antigas quanto as festas. Ao que percebo, a inovação deste ano tem a ver com a ideia, alimentada por alguns, de que as festas nicolinas pertencem a uma única escola.
Quanto a esse assunto, antes de mais, começarei por reafirmar a minha profunda admiração pelos jovens estudantes que, ano após ano, tomam a seu cargo a missão de organizar as festas mais emblemáticas da cidade de Guimarães. Sobre este assunto, julgo que basta o que já disse aqui, quando lavrei o meu Elogio da Comissão das Nicolinas.
Nenhuma tradição sobrevive se se deixar cristalizar na sua primitiva forma. Caso contrário, o seu lugar passaria a ser o museu ou o arquivo histórico, não a realidade vivida ano após ano.
As Festas Nicolinas são um excelente exemplo do que se disse acima. As manifestações que lhes deram origem aconteciam, no passado, em Guimarães como em muitos outros lugares da Europa. Havia mesmo outras terras onde aquelas manifestações tinham uma grandiosidade a que Guimarães não podia aspirar. Porém, as festas dos estudantes de Guimarães são hoje um caso praticamente único no contexto das festividades cíclicas europeias. Porquê? Porque se souberam adaptar a novas realidades históricas e sociais. Porque não pararam no tempo: se o fizessem, é certo que o tempo, que não pára, seguiria adiante, mas não as festas.
É por isso que eu compreeendo os que dizem que “no meu tempo é que era”. Pois seria. Mas nesses tempos, que variam consoante a idade de cada um dos que o dizem, também não faltava quem dissesse que “no meu tempo é que era”. Se daqui a meio século houver quem diga o mesmo, será certo que as Nicolinas continuam vivas.
Apesar de todas as transformações que sofreram ao longo dos séculos de existência que já levam, as nicolinas continuam a ser as nicolinas, e não outra coisa qualquer, porque nunca cortaram o fio da memória que as vincula a uma tradição centenária e que sempre ligou diferentes gerações.
Não sei o que levou ao corte de relações, este ano, entre a comissão que representava os estudantes “novos” e a direcção da associação que representa os “velhos”. Admito que haja, de ambos os lados, diferentes razões. Agora, o que me custa a admitir, é que os “novos” tenham decidido este ano não respeitar a tradição de irem buscar os “velhos” ao local onde eles se reúnem para jantar, para os acompanharem até ao local de onde arranca o cortejo do pinheiro. Em vez disso, optarom por render essa homenagem aos que participavam no jantar promovido, pela primeira vez, pela Escola Secundária Martins Sarmento. Essa atitude não os honra. Porque se a ideia era afrontar os membros da direcção da Associação dos Antigos Estudantes, foi a memória nicolina, representada pelos “velhos” de todas as gerações, que ofenderam.
Não quero crer que o que motivou a decisão da Comissão esteja relacionado com o local onde os “velhos” se reuniram para jantar, a Escola Secundária Francisco de Holanda, por entenderem, como alguns entendem, que a Escola Secundária Martins Sarmento tem prerrogativas especiais quanto a esta festa. Ou será que não explicaram a quem assim posa pensar que a festa de S. Nicolau não é,nem  nunca foi, uma festa de escola, mas sim a festa dos estudantes de Guimarães? Se não explicaram, tentarei eu explicar.
Tanto quanto é possível saber, a origem das festas escolásticas a S. Nicolau terá estado ligada aos rapazes que aprendiam latim na Colegiada de Guimarães, os coreiros. Demoraria algum tempo a explicar do que se falava, desde o século XVII até à restauração das festas no ano de 1895, quando se falava num estudante. Direi, grosso modo, que eram aqueles que eram os que, em cada momento, andavam a estudar, mas também todos aqueles que já tinham estudado, desde que mantivessem determinadas condições, que seriam registadas nos estatutos de 1838 da Associação Escolástica de Guimarães.
Em 1774, o Marquês de Pombal criou em Guimarães uma cadeira de latim, que funcionou até à aposentação do seu último titular, em 1869, do célebre professor Venâncio, aliás, Francisco Pedro da Rocha Viana. Pouco depois, as festas dos estudantes de Guimarães a S. Nicolau entram em declínio, parecendo encaminhar-se para a extinção. Ainda se realizaram até 1872.
Sinal disso é o que se escrevia, em Dezembro de 1876, no jornal Religião e Pátria:
O alegre, o folgazão, o garrido, o enamorado, o querido das damas, o secular festejo escolástico… morreu! Há anos que estava agonizante, e sempre para o ano futuro se lhe profetizava a morte. Agora, porém, foi certo.
Como deixa saudades aquele folgar de rapazes.
No entanto, ver-se-ia que era precipitada a notícia da morte das festas a S. Nicolau, que ressurgiram no ano de 1881. No ano seguinte, seriam asseguradas pelos estudantes do Instituto Escolar da Sociedade Martins Sarmento, entretanto criado. Até 1884, os festejos mantiveram-se intermitentes. Depois, acontece um novo período de ausência. Em 1892, o curso infantil de ambos os sexos da Sociedade Martins Sarmento voltou a festejar S. Nicolau. Nos dois anos seguintes os antigos folguedos nicolinos seriam evocados pelos estudantes do Colégio de S. Nicolau, entretanto criado. Em 1895, as festas dos estudantes a S. Nicolau foram reinventadas por Jerónimo Sampaio e Bráulio Caldas, com um modelo que se manteria, no essencial, até aos dias de hoje.
Desde então, com altos e baixos, mas com raríssimas interrupções, as festas continuaram, sendo asseguradas pelos estudantes de humanidades. Em 1896, o “seminário pequeno” da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, que começara a funcionar em Dezembro de 1891, transformou-se em liceu nacional, com os seus custos a correrem por conta do erário municipal. As festas a S. Nicolau foram, desde aí, apropriadas pelos estudantes do seminário-liceu. Em 1911, com a extinção do seminário, ficou o liceu nacional, que, em 1917, por proposta do cónego José Maria Gomes, então deputado, seria elevado à condição de liceu central, passando a designar-se, por decreto de 7 de Janeiro de 1919, Liceu Central de Martins Sarmento.
Em 1921, o ensino liceal passou a organizar-se em três ciclos: o 1.º, com dois anos; o 2.º, com três, e o 3.º, com dois. Em 1928, o 3.º ciclo foi retirado ao Liceu Martins Sarmento, situação que se manteria até 1958. Durante essas três décadas, as festas nicolinas foram organizadas pelos estudantes dos dois ciclos que funcionavam no liceu, que iam até ao antigo 5.º ano do ensino liceal (correspondente ao actual 9.º ano).
Entretanto, no ano lectivo 1947-1948, aconteceu a reforma do ensino secundário, que ficou estruturado em duas grandes vias, diferenciadas quanto aos currículos e à origem social dos que os frequentavam: o ensino técnico, destinado aos filhos das famílias menos favorecidas, e o ensino liceal, direccionado para a prossecução de estudos no ensino superior, destinado aos filhos das classes com maiores rendimentos. Esta distinção também marcou as festas nicolinas, que haviam sido apropriadas pelos estudantes do Liceu de Martins Sarmento, entretanto baptizado de Liceu Nacional de Guimarães, assumindo uma feição marcadamente elitista. As festas estavam interditas aos estudantes da Escola Industrial, que eram objecto de práticas humilhantes, de que é exemplo o que aconteceu quando, na manhã que seguiu a uma noite de roubalheiras, encontraram afixada à porta da Escola uma placa com a inscrição “Casa dos Pobres”.
Com o 25 de Abril, ganhou terreno a ideia de acabar com a distinção entre liceus e escolas técnicas. Em 1975, foi extinto o ensino técnico, criando-se o ensino secundário unificado. Iniciava-se o processo de extinção dos liceus. A partir de 1978, desapareceu a designação de liceu dos estabelecimentos que ainda a conservavam, passando todos os antigos liceus e escolas técnicas à condição de Escolas Secundária. Desde então, deixou de haver qualquer distinção entre as escolas secundárias portuguesas, que passaram a ministrar os mesmos cursos. E as festas nicolinas adaptaram-se aos novos tempos: deixaram de ser dos estudantes do antigo Liceu de Guimarães, como haviam sido durante algumas décadas, para passarem a ser de todos os estudantes do Ensino Secundário de Guimarães. Porque, ao contrário do que alguns pensam, as festas nicolinas não são de uma, nem de várias escolas. Porque não são de escolas. São, como sempre foram, dos estudantes de Guimarães. De todos os estudantes de Guimarães.
No pregão de 2013, leio que o pregoeiro aparece identificado como aluno do Liceu de Guimarães, o que está longe de corresponder à verdade, digo-o eu, que fui aluno do tal liceu, de onde saí no último ano da sua existência (1977). A escola que o rapaz frequenta chama-se Escola Secundária Martins Sarmento.
Se se pretende um regresso ao passado para se entregar os privilégios nicolinos aos sucessores dos seus detentores originais, temos que ir até ao tempo em que as festas eram dos estudantes de latim de Guimarães. Alguém me sabe dizer por onde é que eles andam?
(Confesso que me incomoda ouvir utilizar a designação salazarenta de Liceu de Guimarães em vez de Escola Secundária Martins Sarmento. Se querem que seja liceu, chamem-lhe liceu, mas ao menos respeitem a memória do seu patrono e utilizem a designação que lhe foi dada em 1919: Liceu de Martins Sarmento.)


Partilhar:

6 de dezembro de 2013

1 de dezembro de 2013

Restauração de 1640, por João de Meira



Reflexão de João de Meira sobre ao sentido que fazia, em 1901, comemorar o 1.º de Dezembro (passando ao lado das referências datadas, facilmente se perceberá que mantém plena actualidade nos tempos que correm):


É próprio de velhos entrevecidos pela gota ou pelo correr de longos anos recordar, com saudade e superabundância de adjectivos laudatórios, os tempos idos em que tinham mocidade e vida e força.

Portugal assim é, notamo-lo com mágoa, ao deslizar de cada novo ano, quando o primeiro de Dezembro chega e com ele a retórica dos sermões comemorativos, dos números únicos, das poesias gritadas de um camarote sobre plateias pasmadas.

E constatamo-lo com dor, porque ninguém se gasta em recordações do passado senão quando o presente é doloroso. Tito Lívio não aspirava a um retrocesso à época dos Tarquinos, mas Tácito a cada momento corria em espírito aos dias de Augusto.

Todas as nações do mundo, tomadas não sei de que vertigem ao passar do século findo para este século, trouxeram consigo uma grande vergonha. A França teve a Questão Dreyfus, os Estados Unidos a Escravidão de Cuba, a Inglaterra a sangueira do Transwaal. Mas Portugal alcança sobre todas uma triste e desgraçada superioridade com as suas queda de abismo para abismo.

E a culpa bem patentemente se tem visto que não é, felizmente, do sistema que nos rege, mas dos homens que nos governam.

Cá, como outrora na Judeia quando Cristo andava na terra, há sempre um calvário pronto e cruzes disponíveis para os homens de boa intenção e são juízo. Há sempre um modo argucioso de interpretar a lei para vencer os adversários que pugnam pela justiça e pelo bem estar da pátria.

Quando as leis assim compreendidas se mostram impotentes, fabricam-se outras de novo, ad hominem, e, se esta legislação, propositadamente escrita, também nada consegue, o facciosismo tem ainda na mão de homens comprados a vitória certa pelo cacete fratricida.

O exemplo aí está bem frisante nas ultimas eleições de deputados, com a guerra feita aos correlegionários do snr. conselheiro João Franco.

Pois em meio de tão desventurada posição, se havemos de empenhar todas as forças na conquista de um nobre Porvir gastamo-las em recordações do que lá vai.

Actualmente, as comemorações ao primeiro de Dezembro com luminárias e récita de gala são descabidas e sem significação.

Quem é que, tendo gasto em dissipações uma fortuna herdada, em vez de procurar reabilitar-se por um trabalho honrado, junta ainda as derradeiras migalhas para celebrar o aniversário da herança?

Procuremos primeiro sair do atoleiro onde caímos, prossigamos nosso caminho de olhos sempre no Futuro e depois saudaremos as glórias passadas, quando tivermos conquistado outras para lhes pôr ao lado.

Hoje não.
[João de Meira]

Independente, Guimarães, 1 de Dezembro de 1901
Partilhar: