29 de fevereiro de 2012

22 de fevereiro de 2012

José Ferreira Guimarães, fotógrafo imperial


Retrato de Francisco Inácio de Carvalho Rezende (1867-8), por José Ferreira Guimarães

José Ferreira Guimarães foi um dos mais destacados fotógrafos do Brasil oitocentista. Era português, nascido em Guimarães em 1841, de onde terá emigrado aos 11 anos. No Rio de Janeiro, aprendeu a arte fotográfica e tornou-se num dos mais afamados retratistas do Brasil, tendo alcançado o título, a poucos concedido, de Fotógrafo da Casa Imperial. Em 1867, apresentou numa exposição a maior ampliação fotográfica até aí produzida no Brasil. A casa fotográfica que havia criado um ano antes foi a maior do Brasil do seu tempo, com instalações sumptuosoas (um verdadeiro palácio de quatro andares, dedicado à fotografia). Tornou-se, rapidamente, num dos retratistas favoritos da elite brasileira, tendo adquirido vasta fortuna com o seu trabalho. Amigo de D. Pedro II, encerrou o seu ateliê após a instauração da República e, tal como o Imperador, mudou-se para Paris. Foi aí que apresentou, na Exposição Universal de 1889, o “Relâmpago Guimarães”, uma espécie de flash que permitia tirar fotografias em ambientes obscurecidos (as suas experiências foram anteriores à apresnetação do pó relâmpago, inventado pelos alemães Johannes Gaedicke e Adolf Mietke. Faleceu em Paris em 1924. Enquanto viveu no Brasil, viajou várias vezes pela Europea, para aperfeiçoar a sua arte e adquirir equipamento fotográfico. Há registo do seu regresso à Guimarães natal na Primavera de 1873.
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21 de fevereiro de 2012

Da linguagem popular (4)


Mais algumas palavras e expressões populares recolhidas por Alberto Vieira Braga. Da leta C.

Cabido — Pagar foro ao cabido — ter areia na bola, macacos no sótão; atolado; zoeira.

Cachaleira — Alto das costas. Levar de cachaieira — ao carrachucho: — a cavalo no cachaço, sobre os ombros.

Cachapina — Aguardente.

Cagadeira — Cagatório, casinha, sentina.

Calhorda — Mulher mal ajeitada e feia.

Canhão — (calão) Coirão, bucho, meretriz.

Canhenho — Que é vagaroso, acanhado; canhoto, esquerdo.

Carrachucho — Levar ao carrachucho — de escacha pernas sobre os ombros.

Cerimónia — Restos de comida que ficam nos pratos.

Cheira-a-testo — Que anda sempre a meter o nariz em tudo . (Inf. de Salvador Dantas).

Cheira-cus — Cheirão; que mete o nariz em tudo, mesmo onde não é chamado.

Chibas — (pop.) Barbas.

Chincalhão — Chinquilho — jogo do fito. Vem no N. D. C. F. em sentido diverso.

Chuchapitos — Insecto verde parecido com a vaca-loira. Chumbadouro — Parte do gonzo de uma porta que fica presa à parede.

Côdea — Pouca coisa — "Comprei um fato por uma côdea; por tuta e meia, etc.

Conas, Conatas, Conêtas — Forreta, unhas-de-fome, agarradinho; maricas.

Contas-de-enfiar-vinho — Azeitonas.

Corisca — Beata, pirisca — ponta de cigarro.

Cortiço — (calão) Ir como um cortiço — como um nabo, como um anjinho; enjegrado, carregado, azul, etc. (Inf. de S. Dantas).

Cozinha-de-ferro — Carro mortuário, pintado de negro e completamente fechado.

Crôco — Que tem pouca habilidade; estúpido. O N. D. C. F. regista o t. em sentido diferente.

Cróio — (calão) Rebo, samelo, calhau. Também o mesmo que cróia — mulher desavergonhada; rameira. (Inf. de S. Dantas).

Culatrão — Mulher muito gorda; meretriz reles.

Cúnfia — (calão) Confiança; apreço, etc. "Não lhe dou cúnfia." (Inf. de S. Dantas).
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O Entrudo: máscaras e folias, mesmo em tempo de guerra


Hoje é dia de máscaras.

Entre nós, nos tempos que correm, dias como este quase que só acontecem no Carnaval. Não era assim no passado, em que eram frequentes, ao longo do ano, os momentos festivos em que as gentes disfarçavam as suas identidades atrás de máscaras. Esse costume acontecia, por exemplo, nas vésperas das festividades religiosas, mesmo nas mais solenes, como o Corpo de Deus (em meados de Junho de 1729, D. Prior da Colegiada de Guimarães, D. João de Sousa fez publicar um em que condenava e proibia “o abuso de na véspera do Corpo de Deus e de outras festas, haver máscaras, representações, danças e bailes”). Havia máscaras para assinalar factos políticos (no dia 19 Julho de 1728, segundo o cónego Pereira Lopes, citado por João Lopes de Faria, “houve touros no terreiro de Santa Clara com máscaras e um baile. Tudo isto foi continuação das festas que se fizeram pelo aniversário do juramento que Sua Majestade o sr. D. Miguel I, deu de manter as Leis Fundamentais da Monarquia Portuguesa”; estas manifestações com mascarados tinham começado no dia 7 do mesmo mês). No século XIX eram bem conhecidas as mascaradas dos estudantes de Guimarães, em especial por ocasião das festas a S. Nicolau, que tinham a natureza de uma “festa de máscaras”. Podendo acontecer em qualquer época do ano e por qualquer motivo, os bailes de mascarados, em especial os realizados nos teatros, eram a principal manifestação com que em Guimarães se assinalava o Carnaval. Começavam várias semanas antes e terminavam em plena Terça-feira Gorda.

Do Entrudo de 1847 não temos notícia de bailes de mascarados. O povo não tinha grande motivo para festejos, já que se estava em plena Guerra da Patuleia. Nesse ano, o Carnaval aconteceu a 16 de Fevereiro, dia em que Pereira Lopes registou no seu diário:

"Decerto não haveria nesta vila grandes brinquedos de Carnaval (pelo desgosto e miséria em que estava todo o reino e principalmente esta província) se não foram os oficiais e soldados de infantaria nº 7, que então aqui se achava, jogando quase todos o Entrudo com grande gosto (este regimento era da corte) não se embaraçando com isso o seu coronel, andando até a ver, e rindo-se muito com as suas brincadeiras".

A pândega dos soldados foi um breve interregno nas movimentações das tropas. No dia seguinte, Quarta-feira de Cinzas, o batalhão dos foliões, que estava estacionado em Guimarães desde o dia 14, marcharia rumo ao Porto, para onde se aproximava o Duque de Saldanha. Com a tropa cartista fora de portas, logo se começaram a sentir as movimentações dos miguelistas nas imediações de Guimarães. No dia 18, a vila seria tomada pelos miguelistas. Um grupo de milícias, conhecido como o “batalhão de Fafe”, entrava em Guimarães ao som do hino da Maria da Fonte. Segundo Pereira Lopes, “à noite andou esta música a tocar pela vila acompanhada por muitos patuleias, dando vivas à Junta do Porto e morras aos Cabrais”.

A folia carnavalesca de 1847 não foi mais do que um breve interregno nas movimentações das tropas numa guerra fratricida.

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20 de fevereiro de 2012

Érico Veríssimo: um almoço em Guimarães em 1959 (3)


Érico Veríssimo

O almoço prosseguia. As conversas animavam-se. A Festada de Guimarães brilhava. Terminado o almoço — ouvidos e pronunciados vários discursos — fui cumprimentar os membros do conjunto e agradecer-lhes pelo espectáculo. Depois manifestei aos nossos anfitriões o desejo de andar a pé pelas ruas da tradicional cidade. Queríamos ver suas antigas muralhas, seus solares, arcadas e escalinatas. Não sei por que nos levaram a um museu arqueológico. Nada mais indigesto do que um museu desse tipo depois dum farto brodio. Deixamo-nos levar, que remédio! Gastamos nessa visita mais tempo do que devíamos, olhando sem genuíno interesse objectos de pedra de passadas civilizações, enfim, coisas que só podem ser interessantes para os estudiosos do assunto, e assim mesmo com tempo, muito tempo. E percorrendo as salas desse museu Mafalda e eu, desatentos e contrariados, víamos através das janelas que a tarde aos poucos envelhecia, o sol caía e o que queríamos era ir para a rua ver o que restava da Guimarães medieval, meter-nos pelos seus becos crepusculares, olhar as faces de seus habitantes. Terminou finalmente a penosa visita ao museu. Percebemos que o sol ainda não se sumira de todo. Renasceu-nos a esperança de poder ver alguma coisa da cidade. Mas qual! No momento seguinte arrastaram-nos para a sede dum clube de futebol juvenil, o Desportivo Francisco de Holanda, onde seus rapazes nos mostraram as taças de ouro e prata ganhas pela sua equipe em vários campeonatos, como também me pediram para deixar uma "mensagem" escrita no Livro de Ouro do Desportivo. Alinhavei meia dúzia de frases desenxabidas sob as quais assinei meu nome. E que Deus me perdoasse! 

Saímos para o ar livre. Restam no poente alguns tons de vermelho, roxo e rosa. Acendem-se as luzes de Guimarães. Sou informado de que vamos ser levados a ver numa visita-relâmpago um dos mais antigos castelos de Portugal. Seja! Um dos próceres de Guimarães é o nosso guia e aqui está sentado a meu lado, num automóvel em movimento. Em breve avisto o dramático perfil do castelo, com suas torres quadradas e suas ameias. Compreendo que vamos subir uma de suas escadas. Coragem! Noto que os degraus são muito altos. Os portugueses de antigamente deviam ser uns homenzarrões de longas pernas... Meu guia sobe depressa à minha frente, falando sempre, sem revelar a menor canseira na voz ou no ritmo dos passos. (No entanto deve ser uns dez anos mais velho que eu.) Começo a sentir uma ardência na garganta, uma opressão no peito... Numa das salas do castelo por onde ainda deve vaguear em ermas noites o fantasma de D. Afonso Henriques, faz um frio penetrante e húmido. Meu cicerone continua a contar de como D. Afonso rompeu relações com a própria mãe, cujos exércitos o seu próprio derrotou. Graças a essa vitória nascera a nacionalidade portuguesa! Não tenho ânimo nem para dizer: Viva! 

Por fim, descemos. Mafalda teve a sabedoria de não nos acompanhar na escalada. Despedimo-nos dos amigos, entramos no B.M.W. e deixamos Guimarães sem tê-la visto como desejávamos e ela merecia. E agora rodamos na direcção de Vila Real. Sei que daqui para diante os caminhos serão mais íngremes e perigosos, pois estamos começando a subir a Serra do Marão.
(…)

"Queres comer alguma coisa?" Espalmo as mãos sobre o estômago. "Sinto ainda aqui o memorável almoço de Guimarães. Como diria nosso Eça, 'comi como um abade'."

(Érico Veríssimo, Solo de Clarineta, Editora Globo, Porto Alegre, 1975)
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19 de fevereiro de 2012

Da linguagem popular (3)

Da recolha de Provincianismos minhotos de Alberto Vieira Braga, algumas palavras e expressões que figuram na letra B. De bacóla a bute, passando por badalhoca, barreleiro e bojarda.


Bacóla — Homem de pouco préstimo.
Desafio, desafio,
desafio à viola
eu nunca desafiei
com semelhante bacóla.

Badajola — Bacóla — ver este termo.

Badalhoca — Mulher mal arranjada e suja.

Barreleiro — Dala — tabuleiro de lousa onde se lava a louça.

Barrufador — Borrifador, regador. Dic. Cândido Figueiredo regista barrufar.

Bédoira ou Bédoura — Feiticeira, bruxa.

Beijo-de-pretaBeijo-de-Preto — Beiços arrebentados — designação pop. da herpes labial (Porto, Guimarães). O povo chama-lhe também, e talvez mais correntemente, bicho e beijoca.

Berrelas — Pessoa que berra muito. O mesmo que berregas. Vem no N. D. C. F. como prov. trasm.

Berzunda — (calão) Pandega, estroinice.

Bico — Obra miúda que qualquer artista arranja, para fazer fora das suas horas de serviço.

Biqueirada — (calão) Pontapé. (Inf. de S. D.).

Bisca — (calão) Escarro.

Bisgaio — Visgolha, zarolho.

Bodegão — Diabo.

Bóia — ver bóia — ver-se embaraçado, parvo; não perceber bóia — não perceber patavina.

Bojarda — Peta, escova, aróla, etc.

Bradório ou Brodório — -Beberete que os doridos dão depois do enterro.

Bucho — Alcatruz; (calão) meretriz ordinária.

Bufas — (calão) Botas. Suíças.

Bute — (calão) Para mandar embora. "Bute p'ró olho da rua que é sala dos cães".



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Érico Veríssimo: um almoço em Guimarães em 1959 (2)


Érico Veríssimo

No momento em que escrevo estas lembranças não consigo explicar a mim mesmo como e por que só fomos dar com os costados em Guimarães depois das três da tarde. Nossos anfitriões estavam todos reunidos à nossa espera no restaurante Jordão: escritores, jornalistas, artistas, comerciantes, membros das profissões liberais — todos cordiais e compreensivos prontos a desculpar-nos pelo grande atraso. "Ora e essa, homem!, isso acontece. Só estávamos um poucochinho apreensivos, pensando que lhes pudesse ter acontecido algum contratempo no caminho.

Sentamo-nos à mesa. O grupo folclórico, a Festada de Guimarães, composto de membros duma única família de camponeses, havia sido contratado para tocar, cantar e dançar durante o almoço. Era um alegre bando cujos componentes — filhas, filhos, genros, noras, em matéria de idade iam desde o avô de setenta e poucos anos até um neto de sete ou oito. As mulheres trajavam blusa de linho branco, saias de veludo negro bordadas de contas de vidro, meias brancas de algodão. O trajo dos homens consistia numa camisa branca, um colete preto com enfeites encarnados e botões dourados de metal, faixa vermelha ao redor da cintura, calças negras e botinas de salto alto; na cabeça um chapéu preto de aba larga e copa redonda. O atencioso cavalheiro que estava sentado à mesa a meu lado, me disse: "São todos gente simples do campo. O avô, que dirige e ensaia o grupo, é um porqueiro". A orquestra da festa era formada por três violas, uma rabeca, uma clarineta e um cavaquinho. O grupo começou seu programa cantando e dançando a "Margarida Moleira". O conjunto era de primeira ordem, bom ritmo, afinadas vozes. Mafalda, que estava à minha direita, confessou num sussurro a sua fome e perguntou-me se eu já vira o possante cardápio. Apanhei um e examinei-o. Bacalhau assado com batatas. Arroz de frango ao molho pardo. Cabrito assado com grelos. Sobremesas? Tortas de Guimarães, massa folhada com recheio de ovos, amêndoa e abóbora. 

Começaram a aparecer os pratos. O bacalhau com batatas estava submerso num dourado mar de azeite. A galinha de cabidela teve o poder de evocar — apesar de todas as distâncias no tempo e no espaço — as grandes cozinheiras de minha infância e adolescência cruz-altenses: Laurinda, Paula, Arcádia...

(Érico Veríssimo, Solo de Clarineta, Editora Globo, Porto Alegre, 1975)
[continua]
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18 de fevereiro de 2012

Érico Veríssimo: um almoço em Guimarães em 1959 (1)


A 19 de Fevereiro de 1959, desembarcou em Lisboa o escritor brasileiro Érico Veríssimo (1905-1975), na companhia da sua mulher, Mafalda Halfen Volpe, e do seu filho, o também escritor Luís Fernando Veríssimo. Naquela “fria manhã de fim de inverno, sob um céu tão azul e límpido que seria uma insensatez procurar adjectivos raros para qualificá-lo”, esperavam-no, no cais, entre outros, o seu editor português António de Souza Pinto e o escritor Jorge de Sena. Depois de uns dias em Lisboa e arredores, partiriam de “Lisboa para visitar as províncias de aquém e além-Tejo. O veículo? Um automóvel alemão B.M.W. O piloto? Souza Pinto. O navegador e guia? Jorge de Sena. Os passageiros? A trinca Veríssimo.”


O relato da viagem de Érico Veríssimo por terras de Portugal em 1959 ficou  no segundo volume da sua obra Solo de Clarineta”, editado postumamente em 1976. A sua passagem por Guimarães ficaria marcado pelo “memorável almoço de Guimarães”. Aqui fica:



Prosseguimos a viagem, sempre para o norte, rumo de Braga, onde não tínhamos nenhum compromisso com estudantes, grupos literários ou livreiros. Dedicamos um par de horas à velha Bracara Augusta, fundada pelos romanos e na antiguidade ponto de irradiação de cinco importantes estradas militares. Ocupada pelos suevos, arrasada pelos árabes, apagou-se durante quatro séculos de decadência, ao cabo dos quais ressurgiu, tornando-se um dos centros religiosos mais importantes de Portugal. Nesta nossa pressa quase cómica mal relanceamos os olhos por suas igrejas, capelas, conventos, santuários, claustros. Não podíamos esquecer que estávamos sendo esperados com um almoço especialíssimo na vetusta Guimarães, considerada o berço da nacionalidade portuguesa.

(…)


Braga merecia pelo menos cinco de nossos dias inteiros, para que começássemos a conhecê-la, a senti-la bem em profundidade e mesmo em superfície. Mas eis que, pobres mortais, chegamos os cinco à conclusão de que estamos todos com uma certa fominha. Entramos num café para comer algo leve que nos mantenha os estômagos iludidos até à hora do almoço guimarantino.

(…)


De novo tomamos a estrada. "Sabem que horas são?" — pergunta Souza Pinto. — "Uma e meia da tarde. Já devíamos estar chegando a Guimarães." Lembro-me de que o almoço nessa cidade não é nosso único compromisso neste dia.

(…)


Continuamos a jornada na direcção de Guimarães.


Jorge de Sena surpreende-me com a informação de que o nome da histórica cidade é de origem germânica. Sua forma original era Wimara, que deu em Guimara, pois era comum na língua portuguesa o w germânico transformar-se em gu. A forma Vimaranis — diz ainda Jorge — é encontrada duas vezes nas Inquirições de 1258.

(Érico Veríssimo, Solo de Clarineta, Editora Globo, Porto Alegre, 1975)

[continua]
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16 de fevereiro de 2012

Da linguagem popular (2)



Mais alguns provincianismos minhotos, da recolha de Aberto Vieira Braga:
AlfotrecosTrastes velhos.
Alquitétes — Anzoneiro, intrigante.
Amorrinhado — Aborrecido; encolhido. O N. D. C. F. regista amorrinhar-se: — adoecer da morrinha; enfraquecer, alquebrar-se.
Andadeiras — Pôr-se nas andadeiras — fugir, escapulir-se. Equivale a pôr-se nas alhetas, no piro, no bute, ao fresco, etc.
Andar de barriga à bocaGrávida, etc.
Andar pião piãoAndar fraco.
Anzoneiro — Onzeneiro, mexeriqueiro. O N. D. C. F. regista só anzonice.
ApancadoAdoentado, abalado de saúde; tolo. Vem no N. D. C. F. só com esta última significação.
Apascaçado — Apelermado — Pascácio, pacóvio. O N. D. C. F. regista — apascaçar-se — Brazileiro — tornar-se pascácio, etc.
Apertar os arcos(calão) É o que se chama uma apertadela de costelas. Pancadaria.
Arcas — Intestinos.
Armar-à-lebre — Lascar, defecar.
Arrabunhar — Arranhar. O N. D. C. F. regista o t. como prov. beir.
Arranjar unto prá matériaArranjar dinheiro.
Assentado — Que tem bastante água (o pão). Encruado.
Assistida — Diz-se da mulher quando anda menstruada. O N. D. C. F. regista o termo como Brasileiro. É conhecidíssimo no Minho, Douro, e creio que em toda a parte.
Atranca-caminhos — Lavrador a quem a vida corre mal e que é pouco cuidadoso.
Atranquilho — Estorvo.
Augarela — Caldo mal feito.
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15 de fevereiro de 2012

Da linguagem popular (1)


O etnógrafo vimaranense Alberto Vieira Braga (1892-1965) recolheu um largo conjunto de vocábulos e expressões populares que publicou com o título Escassa Respiga Lexicológica (Provincianismos Minhotos). Aqui ficam alguns:

AbadeIr guardar os pitos ao abade — morrer.

É muito conhecida no Minho esta locução, mas pouco usada. Não resisto ao desejo de transcrever a curiosa e verdadeira definição que lhe dá o sr. A. de Pinho, na "Águia" de Julho e Agosto de 1917.

Falando-se dum indivíduo com ar de pouca saúde, que ande, como vulgarmente se diz, a morrer de pé: — Home, aquêl' parece que quer ir guardar os pitos ò abade.

"Na grande maioria das freguesias rurais da região os cemitérios datam de há poucos anos, e algumas delas, não raras, os não têm. Os enterramentos, em consequência, passaram a fazer-se nos adros, depois que foi proibido inumar dentro dos templos. Junto destes, e, portanto, perto dos seus adros, ficavam as casas da residência dos párocos, cujas ninhadas de pintainhos iriam, como é natural, fazer a sua digressão insecticida até aos adros. Desta forma, os defuntos ali enterrados estariam olhando pelos pitos (pintos) do pároco, guardando-os, pois ninguém ousaria roubá-los em tal lugar, com o terror supersticioso da presença dos mortos.”

Abaixar-calçasIr abaixar-calças — defecar. Fazer a sua vida. Dar-de-corpo. O N. D. C. Figueiredo regista neste sentido e como prov. — abaixar.

Abaixo-de-Braga — Mandar alguém abaixo-de-Braga é o mesmo que o mandar àquela parte, à fava, à trampa, à tábua.

Abatóco-te! — (interj.) Estrenóco-te! Abrenúncio!

Abombar — Acto de agitar, de sacudir (o bombo — baloiço). (Inf. de Salvador Dantas).

Abrocheados — Diz-se dos socos que são “enfeitados”' com tachinhas brancas ou amarelas nos bordos da madeira.

Açurriar — Açular, incitar (os cães).

Adei — E então, e daí.

Adunar — Dormir em pé; marrucar. O N. D. C. F.(*) regista adumar.

Agasalho — "Além da Redonda (ver este termo) comida facultativa, havia, e ainda hoje existe, uma refeição que se considera obrigatória e que tem o nome de Agasalho. Sob este nome compreende-se a refeição que é dada aos confrades das irmandades que acodem ao saimento, pão e vinho como aquela outra, acrescentada com uma posta de bacalhau frito, etc." — Oliveira Guimarães, na Portugália, artigo "Usos e Costumes", II vol.

Agrilar — Diz-se dos cereais quando principiam a despontar na terra.

Água-às-mãos — (pop.) Toalha de água-às-mâos — toalha de rosto. Vulgar.

Água-da-Oliveira — Dar água da Oliveira a alguém. É frequente esta locução.

Bastas vezes ouvimos dizer, quando algum novo e desconhecido funcionário vem para Guimarães com fama de mau: A Fulano é preciso dar-lhe água da Oliveira; Beltrano já bebeu água da Oliveira, etc.

Virtude naturalmente atribuída à água do antigo tanque da Oliveira, que tinha o grande poder e subido valor de amansar como um cordeiro quem fosse bravo e mau como um toiro.

Aininas! — (interj. Calão) Designativo de afirmação e satisfação — Olarila! Olaré ! (Inf. de S. D.).

Alabradorado — De modos labregos; grosseiro, estúpido.

Albardeiro — Mentiroso. O N. D. C. Figueiredo regista o t. como prov. trasm.

Albório — Coberto, telheiro, etc. No N. D. C. F. vem o termo alboio como prov. minh. e com a seguinte designação: — "Alboio — O mesmo que alpendre. Casa grande, mas desprezada e abandonada." — Um e outro serão a mesma coisa? É natural. Todavia é mais conhecida e vulgar a forma albório e talvez pela razão simples de este termo ser mais fácil de pronunciar.

(*) N. C. D. F. - Novo Dicionário de Cândido de Figueiredo.
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14 de fevereiro de 2012

Tentação dos gulosos


Os doces de frutas confeitados nesta vila, principalmente ameixa e figo, que se exportam em caixinhas, com muita especialidade para Inglaterra, são uma verdadeira tentação dos gulosos, que possuem a delicada crítica dos prazeres do paladar; e, para nós, que não somos gulosos confirmados, são tidos e havidos pelos doces mais estimados a par das estimadas laranjas confeitadas na ilha de S. Miguel: este objecto parecerá pouco importante, pois saibam os curiosos que no ano de 1835 montou a seis contos de réis.


O Panorama, Tomo IV, Setembro, 1840, p. 282


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Guimarães em 1922

Ernest Peixotto (1869-1940)

Em 1922, o escritor e artista norte americano Ernest Clifford Peixotto percorreu Portugal e Espanha, tendo feito o relato da sua viagem na obra Through Spain and Portugal. Aqui ficam as páginas que dedicou a Guimarães:

Para visitar esta terra partimos de trem, uma manhã, para Guimarães. A estrada do Porto atravessa por uma terra risonha onde cada casa está afogada em videiras e onde o pequeno Leça, cantado por Sá de Miranda, flui borbulhando através de um vale estreito, fazendo mover inúmeras rodas de moinho, mergulhando sob pontes de hera e polindo grandes pedras de granito, que brilham resplandecentes ao sol.

Finalmente, Guimarães aparece deitada no meio das suas vinhas e ainda guardada pelo seu antigo castelo, o berço da monarquia Portuguesa. A cidade tem um belo ar aristocrático - a de um nobre empobrecido com os seus majestosos palácios ostentando os seus escudos esquartelados por cima de suas entradas, as suas casas substanciais e os seus veneráveis pavimentos de pedras agora desgastados por centenas de anos de passos.

A seguir a uma praça pitoresca, com arcadas e de forma irregular, a igreja principal e a antiga Câmara Municipal, um edifício curioso que atravessa a praça com uma série de arcos atarracados. O mau gosto de uma geração recente remodelou o seu andar superior e adornou-o com esferas manuelina e com um cavaleiro indescritível de armadura estranha, uma figura burlesca com a graça de um valete de Luís XIV.

A Igreja de Nossa Senhora da Oliveira é uma construção grave e sombria, que data do primeiro período da história do país. No seu claustro de granito cresce uma oliveira, que recorda a história de onde a antiga igreja retirou o seu nome - uma tradição do tempo dos visigodos. Wamba estava a lavrar os seus campos, quando enviados de Toledo chegaram a dizer-lhe que ele havia sido eleito rei dos povos góticos. Incrédulo, ele gritou, em tom de brincadeira, que seria rei quando seu aguilhão desse folhas Assim dizendo, ele enterrou o longo bastão de oliveira, quando eis que começam a rebentar nele folhas a partir dele; espantado, ele tentou puxá-lo da terra, mas encontrou-o firmemente enraizado. Wamba era rei!

A partir desta igreja, uma rua longa e sinuosa, atravessada aqui e ali por arcos, e guarnecida com habitações antigas, sob aos poucos para o Castelo. A isto eu chamei o berço da monarquia portuguesa, pois aqui nasceu D. Afonso Henriques e aqui foi batizado numa pequena capela que ainda está de pé.

A antiga fortaleza permanece quase intacta, devido à sua construção sólida, pois é construído de blocos de granito bem aparelhados excepcionalmente grandes para um edifício da sua época. Você ainda pode andar por todo o seu caminho da ronda cujas muralhas e escadas, torres e bastiões, e até mesmo os curiosos merlões piramidais, um legado dos Mouros, ainda se mantêm no lugar. A vista das muralhas é encantadora: santuários nas colinas circundantes, o vale verde, a velha cidade, os campos, pelo quais nos dirigimos no dia seguinte, velados pelas suas telas de videiras, que se combinam para fazer um belo panorama.

Acordei cedo na manhã seguinte ao som de sinos, sinos alegres e joviais, tilintando músicas percutindo com um martelo nos sinos harmoniosos e, enquanto eu olhava pela janela, mulheres vestidos de preto iam para a missa (pois era um dia de festa), algumas a pé e uma ou duas em antiquados landaus, que se ajustavam bem com as fachadas de palácios gastas pelo tempo. Mas, antes do hotel, uma carruagem aguardava por nós, e, enquanto o ar ainda estava fresco, seguimos para Braga.

A estrada atravessava por uma terra de vinhedos, não os vinhedos rentes que conhecemos, mas as cepas de vinhas que alegremente trepam pelos de carvalhos choupos e cerejeiras - uveiras, chamam-lhes os Minhotos - vinte ou trinta pés no ar , apanhando sol, como fizeram nos tempos da antiga Roma - ulmisque adjungere vites. Assim crescem nos campos, mas nas aldeias são cultivadas em ramada, estendidas entre altos postes de pedra ou arranjadas em pérgolas e caramanchões que atravessam as ruas estreitas. À sua sombra, sentam-se velhas com rocas, e os estalidos dos teares das casas resistentes, construídas com sólidos blocos de granito.

Nas Taipas, ficamos tentados a sair da estrada e a visitar as ruínas da Citânia, cujas pedras curiosas nos tinham intrigado tanto no museu em Guimarães. Mas, sendo pesquisadores do pitoresco e não arqueólogos, e sendo incapazes de resolver enigmas que têm intrigado todos os estudiosos Celto-ibéricos, desistimos da expedição e começamos a subir a encosta da Falperra.

Through Spain and Portugal, by Ernest Peixotto, New York, C. Scribner's Sons, 1922, pp. 110-115

Rectificação: por uma lamentável troca de ficheiros, induzida pela semelhança dos títulos das obras, o texto que vai aí acima foi aqui inicialmente atribuído a Martin Hume, remetendo para a sua obra Through Portugal, de 1907, quando na verdade é um pouco mais tardio (1922), de outro autor (Ernest Peixotto) e, obviamente, de outra obra (Through Spain and Portugal). Pelo erro, aqui fica o meu pedido de minhas desculpas.
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