23 de janeiro de 2012

Cidade, não região

Guimarães, 21 de Janeiro de 2012 Fotografia do P3

A propósito de lamentos que nos vão chegando ecos, de que Guimarães não estaria a envolver concelhos vizinhos da Capital Europeia da Cultura, parece-me que fará sentido recordar uma história que tem estado esquecida. Conta-se em poucas palavras. No dia 17 de Fevereiro de 2006, o Reitor da Universidade do Minho, Guimarães Rodrigues, avançou com a proposta, anteriormente sufragada pelo Conselho Cultural da UM, para uma candidatura de Braga e Guimarães, com Famalicão e Barcelos, a Região Europeia da Cultura em 2012. Aquando do anúncio, o saudoso Professor Lúcio Craveiro da Silva, então Presidente do Conselho Cultural, já havia sondado e assegurado o suporte à iniciativa dos responsáveis autárquicos de Guimarães e de Braga. A autarquia de Braga não assumirira o apoio e acabaria por retirar o tapete à iniciativa. Por essa altura, um dos principais mentores da política cultural do município de Braga, Rui Madeira, escrevia no Correio do Minho um texto onde se lia:

"(…) Que espírito preside a esta ideia? (…) Trata-se de candidatar uma cidade e não uma região. Trata-se de catapultar uma cidade, para um patamar superior de práticas culturais e de exigência, de dar a conhecer na Europa as suas dinâmicas e potencialidades, e, o que é importante, já que em Portugal, a ideia tem sido mal tratada, partindo do imaterial.”

Assim morreu a ideia da Região Europeia da Cultura, porque Braga queria ser sozinha (e estava no seu direito) Capital Europeia da Cultura. Assim, não seria uma região, mas uma cidade a assumir esse papel em 2012. Ironicamente, para quem não quis partilhar a iniciativa, essa cidade é Guimarães. Ponto final.
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Deste tempo

Guimarães, 21 de Janeiro de 2012
Fotografia do P3
Os dias andam bonitos. Para trás, ficou a cidade cabisbaixa sobre a qual pairava o pressentimento da oportunidade perdida. Dela, já nos vamos esquecendo. Este é o tempo luminoso em que se recebem as primícias do que se semeou. Sem deixar de ser o que sempre foi, a cidade transfigurou-se. Por estes dias, vimos ressurgir, revigorado, o entusiasmo apaixonado desta gente tão singular. E veremos cumprir-se o título feliz do P3: Guimarães levantou-se e andou.

[Há em Guimarães quem apelide a gente de Braga de marroquina. Vá-se lá perceber porquê. Até porque Braga parece estar mais longe  de Guimarães do que Singapura.]
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19 de janeiro de 2012

Das novas do achamento



Porém o melhor fruto, que nela se pode fazer, me parece que será salvar esta gente.
Pero Vaz de Caminha, 1 de Maio de 1500

Era uma vez uma cidade obscura e quase desconhecida. Ficava longe, muito longe da capital do império. Tão longe que só se dava conta da sua existência quando por lá um catraio desacautelado punha a mão onde não devia pôr e era atacado pela alergia ao nemátodo do pinheiro. Em dias assim, mas apenas nesses, até se falava de tal cidade nas crónicas da nação. Nos dias breves que correm, tem sido diferente. Chegaram os descobridores, com o espanto de quem olha para coisa antiga com olhos de novidade. De repente, os aborígenes dessa cidade dão consigo a partilharem a perplexidade dos índios em tempo de descobrimento. E os novos Peros Vaz de Caminha, maravilhados com o exotismo e a bizarria das suas descobertas, não páram de mandar cartas sobre o achamento, onde vão dando conta do assombro que lhes provoca o avistamento de gente tão singular.

Os nativos, que andam encantados com tanta atenção, apenas anseiam que não os queiram salvar.
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Do amor a Guimarães



... Porque tanto amamos a nossa Guimarães? Fôra uma junqueira brava, com um passado de cabana, amortecida na atonia das horas indiferentes e paradas! Mas ela tem, neste formoso quadro minhoto, a mais enternecida paisagem de suavidade e maravilha. As suas casinhas arruam-se em estâncias saudosas. Tressua a pedra dos seus muros o sangue forte dos gloriosos fundadores da nossa nacionalidade. E nem uma só hora, uma só, viveu a inquietação da alma pátria em que ela não estivesse identificada com toda a sua alma. Era terrível e vitoriosa a sua espada, porque ela mesma lhe forjara a têmpera. Longamente se entregou a um sonho de misticismo fervoroso — e é ainda essa luz tão meiga e profunda, admirável, que ilumina os olhos das suas moças. Fez o bragal — do linho da terra, o doce — do fruto das suas árvores. Pintou, agricultando, o quadro esverdecido e doirado das suas encostas e das suas várzeas. Cantou e sofreu. Foi S. Mamede e verteu, regou com seu sangue Aljubarrota, Ceuta e Índia. Não temeu o Império dos Filipes e defrontou-se com Napoleão. E trabalhou sempre. A enxada, o escopro, o cinzel, a forja. Apegou-se à terra, entocou-se nas oficinas, sulcou os mares, estremeceu na ânsia da arte. Com insistência tão devotada e tão amorosa, ao comprido de tantos séculos, que, neste recanto afastado, ao mesmo tempo que amassava em glória um passado brilhante e limpo, fortalecia uma grande e bela tradição de trabalho, essa de que descende e criou a laboriosa e honrada Guimarães de nossos dias.

Setembro de 1925.
Eduardo de Almeida (in O Labor da Grei, Guimarães, 1928)
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15 de janeiro de 2012

Novais Teixeira, por J. Rentes de Carvalho


Joaquim Novais Teixeira
Fonte: Tempo Contado
A figura de Joaquim Novais Teixeira marcou profundamente aqueles que com ele conviveram. Para muitos, mesmo na terra que o viu nascer, continua quase esquecido. Na última edição do Jornal de Letras, o escritor J. Rentes de Carvalho, que conviveu intimamente com Novais Teixeira,  publicou um testemunho sobre "o mais dedicado dos mestres", que vale a pena ser lido. Aqui fica, apanhado no blogue do escritor, Tempo Contado:

Um que deixou marca

Tirante a família, na minha longa vida são bastantes os que recordo, poucos, meia dúzia se tanto, os que até agora deixaram marca perene. Tivesse eu de fazer deles uma lista, Joaquim Novais Teixeira (1899-1972) ocuparia o primeiro lugar. Trinta anos nos separavam e, contudo, mau grado o fosso entre as suas extraordinárias vivências e a ingenuidade do rapaz que começava na vida, logo no primeiro encontro criámos um genuíno laço de amizade.

Foi para mim o mais dedicado dos mestres, guiando, explicando, aconselhando, avisando, mas sempre cuidadoso em esconder a cátedra e o seu saber, deixando-me na ilusão de que quase aprendia por mim próprio. Ensinou-me mais de Literatura do que aprenderia na universidade; por sua mão fiz como que um curso superior de Cinema; introduziu-me em meios e providenciou contactos que transtornariam a minha visão da Política e da História, e fariam envergonhar da tosca singeleza das minhas convicções.

Foi honra o convidar-me para a intimidade familiar, nomeando-me sobrinho, honra maior fazer-me seu confidente.  Porque era generoso e tinha gosto em partilhar amizades, mais de uma vez comi a fabada asturiana que mandava cozinhar quando o seu amigo Luís Buñuel vinha de visita. Comi, mas confesso, assustado com a fama do homem de quem conhecia os filmes, e maravilhado de me ver em tal companhia.

- Este é o Gabo.

Como ia eu saber que, tendo lido uns textos do rapaz, Novais o entusiasmava para que escrevesse, detectando o Gabriel García Marquez que chegaria ao Nobel?

Um fim de tarde estamos no La Rhumerie do Boulevard Saint-Germain a beber cerveja. Vêm cumprimentá-lo e sentam-se connosco dois conhecidos seus, Brigitte Bardot e Roger Vadim . Estonteante momento para um jovem transmontano.

Levo-o a visitar uma amiga num prédio do Quai des Grands-Augustins e, numa jactância tola, digo-lhe que no andar de cima vive Picasso. A vergonha viria  de saber que ao pintor já ele desde os anos 20, quando vivera em Madrid, tratava por Pablo.

Sempre me confundiu, e continua a surpreender, que o jovem vimaranense que foi secretário  de Manuel Azaña, o presidente da República espanhola; o jornalista brilhante; o intelectual  que tão alta  consideração gozou nos meios políticos, literários, artísticos e cinematográficos, em Espanha, França e no Brasil; o português que conheceram e frequentaram todos os "grandes" opositores políticos, escritores, artistas e cineastas portugueses que nas décadas de 50 a 70 viveram em Paris; o homem que tantas portas abriu e tantos compatriotas ajudou; continua a surpreender, sim, que toda essa gente se tenha calado e cale.

Apenas duas excepções conheço: os pintores António Dacosta (1914-1990) e Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992). E o bom António Alçada-Baptista (1927-2008), que algumas vezes o visitara,  nada lhe devia, e se pasmava da ingratidão duns e da ignorância dos mais, ensoberbados por terem fama no Chiado.

Satisfeito o pedido, dada a ajuda ou concedido o favor, essa gente distanciava-se a seguir quanto podia, pois sentiam que com a sua experiência de muitas vidas, e talento para "radiografar" comportamentos, Novais Teixeira  lhes punha a alma e a sabujice a nu.

Ainda andam por aí velhotes importantes que, quando se lhes fala de Novais Teixeira, tomam o ar nebuloso dos primeiros sintomas de Alzheimer e acenam vagamente que sim, acho que me lembro, era um jornalista, não era? A vontade que então dá é de fazer coisas incompatíveis com a minha idade e as boas maneiras.

Não era de queixas, mas amargurava-o o sentimento de quanto lhe doía Portugal, e que nos vissem manhosos, pequenotes, fanfarrões sem jeito, e por vezes tão canalhas.

A fazer contrapeso, refugiava-se ele numa idealização da pátria, com outra gente e recordações de um Minho de As Pupilas do Senhor Reitor. Mas era teatro, e a sua inteligência não lhe deixava continuar por muito tempo a comédia. Voltava então à cena o verdadeiro Novais Teixeira, o homem que de tão modesto parecia ser o avesso de brilhante, mas cujas qualidades intelectuais cintilavam mesmo na mais anódina das conversas.


J. Rentes de Carvalho, in Jornal de Letras de 11 de Janeiro de 2012
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12 de janeiro de 2012

Guimarães, entre a história e o futuro

Em 1537, Guimarães foi dada pelo Duque de Bragança ao infante D. Duarte, a título de dote pelo seu casamento com Isabel de Bragança. Era a essa doação que se referia o infante D. Luís, quando exclamou, ao contemplar a vila de uma janela do Paço dos Duques: - Se quem te deu te vira, não te dera.

É assim Guimarães: uma cidade que encanta os que a vêem. António Lobo de Carvalho alcandorou-a à condição de “pátria do amor”. Torga, que tinha do Minho uma imagem pouco gentil, fixou o olhar nas suas “varandas torneadas onde ainda hoje apetece namorar”. Saramago diria de Guimarães que é um bom sítio para iniciar namoros. Esta é uma cidade que se deixa namorar.

A história é um dos elementos matriciais da constituição vimaranense. Não haverá muitos lugares onde um facto histórico com muitos séculos seja capaz de atear paixões inflamadas. Guimarães é um desses lugares. Aqui, o rasto do passado está por toda a parte. Nas pedras, nos documentos, nas ruas e praças, nos nomes das lojas, dos restaurantes, no estádio de futebol.

Guimarães nasceu em meados do século X, à sombra do mosteiro mandado erigir pela Condessa Mumadona Dias, senhora das terras de Vimaranes, e do castelo que então se fez levantar para protecção dos seus frades e freiras. No final do século seguinte, faria parte do dote que o cavaleiro francês D. Henrique recebeu pelo seu casamento com D. Teresa, filha natural de Afonso VI de Leão e Castela. Seria neste burgo que Henrique e Teresa se viriam instalar, para daqui governarem o Condado Portucalense. Aquando do nascimento de Afonso Henriques, no final da primeira década do século XII, já germinavam entre a nobreza de Entre-Douro-e-Minho aspirações autonomistas que, anos mais tarde, viriam a ser protagonizadas por aquele que, tendo nascido para ser conde, se fez rei.

Ao contrário do que pode parecer, a ideia de Berço da Nacionalidade não deriva do local de nascimento de Afonso Henriques, que permanece incerto. Nesta matéria, de firme apenas existe a tradição, que os documentos históricos não validam, nem invalidam, que dá Afonso Henriques como natural desta terra. Guimarães invoca a condição de berço de Portugal por ter sido daqui que Portugal deu os primeiros passos como país. Foi a 24 de Junho de 1128, na Batalha de S. Mamede, naquela que o pintor Acácio Lino retrataria como “a primeira tarde portuguesa”.

A evocação de S. Mamede e do seu protagonista, Afonso Henriques, é omnipresente em Guimarães. Essa memória é particularmente evidente no outeiro que na Idade Média se designava de Monte Latito e que no Estado Novo se rebaptizou como Colina Sagrada, onde está implantado o Castelo e a pequena igreja onde uma tradição cronologicamente pouco plausível diz ter sido baptizado Afonso Henriques. E lá está também o próprio rei, com o corpo e o rosto que Soares dos Reis lhe inventou e que se tornou no retrato oficial do rei fundador.

Em Guimarães persiste uma forte consciência do valor da herança patrimonial, que alguns julgam desmentida por um facto histórico mal contado. Estava-se no rescaldo da Guerra Civil. Vencidos definitivamente os miguelistas, os liberais assumiram a governação do país. Em 1836, Guimarães era governada por uma Sociedade Patriótica, à qual foi apresentada uma proposta de demolição do Castelo, por ter sido uma “cadeia bárbara que serviu no tempo da usurpação”. Diz-se recorrentemente que a aprovação de tal proposta teria falhado pela margem mínima de um voto. Todavia, o resultado foi bem diverso: de um total de 19 votantes, apenas quatro subscreveram a intenção de demolição. Prevaleceu o argumento de que o Castelo era um monumento histórico que deveria ser preservado. Foi esta mesma consciência patrimonial que predominou em Guimarães ao longo do tempo e que permitiu que, no essencial, o património arquitectónico do Centro Histórico fosse preservado, criando-se as condições que permitiram a sua consagração pela UNESCO, no corolário de um processo de requalificação que se tornou num caso de estudo internacional, por ter envolvido o esforço de preservar o edificado sem cair na tentação de o musealizar, assegurando as condições para que o espaço requalificado continuasse a ser habitado pelos seus moradores de sempre. Este processo contou com muitos obreiros e tem a assinatura do arquitecto Fernando Távora.

À requalificação do Centro Histórico seguiu-se, ainda há pouco, a intervenção na zona exterior à antiga muralha. Por estes dias, Guimarães acaba de sair do mais extenso processo de obras de que foi objecto em muitos séculos, abrangendo um amplo espaço nobre do centro urbano, à volta do Toural, o verdadeiro coração da cidade. Findos os trabalhos, que foram acompanhados por discussões apaixonadas, a cidade recuperou a sua “sala de receber”, agora com uma imagem de contemporaneidade que soube respeitar as marcas do passado.

Um dos elementos mais marcantes do modo de ser vimaranense resulta do apego dos cidadãos à sua cidade. Para o demonstrar, atentemos no exemplo de Joaquim Novais Teixeira, jornalista, crítico de cinema e cidadão do mundo nascido em Guimarães em 1899, cuja memória será evocada pela Capital Europeia da Cultura. Das mais de sete décadas que viveu, apenas os primeiros dezassete anos foram passados em Guimarães. Não obstante, Novais Teixeira alimentou permanentemente um sentimento de afinidade e de pertença a Guimarães, mesmo no tempo em que a ditadura o proibia de regressar a Portugal. Aos que lhe perguntavam se era português, costumava responder: “Não, não sou português, sou mais do que isso, sou de Guimarães! Com efeito, sou de uma pátria pequenina e sólida chamada Guimarães”. Esse sentimento, a que Jorge Sampaio chamou de “patriotismo de cidade”, constantemente replicado em manifestações de afecto à cidade, é uma das marcas mais fortes da identidade local.

Guimarães é uma terra que na política alinha à esquerda (em 11 eleitos na vereação municipal, apenas três representam a direita). Não obstante, os seus cidadãos são entranhadamente conservadores no que respeita à defesa do seu património e das suas tradições. Só assim se explica a sobrevivência de festividades populares como a Senhora da Conceição e a Santa Luzia, em que a tradição manda que os namorados troquem prendas com o seu quê de sugestivo: as raparigas oferecem as “passarinhas”, recebendo dos rapazes os “sardões”, num jogo aparentemente inocente, mas carregado de malícia (as “passarinhas” e os “sardões” são moldados em pasta de farinha e recobertos de açúcar). Ou como as Nicolinas, as festas dos estudantes de Guimarães, que entre finais de Novembro e os primeiros dias de Dezembro, enchem a cidade com uma irreverência saudável e algo subversiva.

É essa Guimarães que está retratada em muitos trechos da obra de Camilo Castelo Branco e em páginas magistrais do escritor da Casa do Alto, em Nespereira, Raul Brandão. É a Guimarães profunda, embora não nomeada, que aparece nas suas obras fundamentais Húmus e A Farsa, a cidade carregada de história, cujas “lajes estão gastas de um lado pelos passos dos vivos, do outro pelo contacto dos mortos”, onde “noite, cerração compacta, névoa e granito formam um todo homogéneo para construírem um imenso e esfarrapado burgo de pedra e sonho”.

Não foi por acaso que Guimarães foi indicada para Capital Europeia da Cultura no ano que agora começa. Esta designação surge como consequência natural de uma prática cultural profundamente enraizada. Esta cidade deu ao mundo notáveis homens de letras como o célebre escritor e jurista quinhentista Agostinho Barbosa ou como o memorável, se bem que hoje quase esquecido, pré-bocagiano António Lobo de Carvalho, poeta fescenino e de língua farpada. Camilo Castelo Branco chamou-lhe “a faustosa cidade que teve academia de sábios, que rivalizam com as mais graduadas, em seu tempo, na capital”.

O dinamismo cultural de Guimarães sofreu um forte impulso no último quartel do século XIX, por obra dos fundadores da Sociedade Martins Sarmento, instituição que completa 130 anos em 2012 e que nasceu como homenagem ao arqueólogo que desenterrou a Citânia de Briteiros e que funcionou como figura tutelar de toda uma geração de homens ilustres, da qual sobressaiu o historiador Alberto Sampaio. Luís de Magalhães referiu-se a essa geração de eruditos como a “Academia vimaranense”, num texto em que afirmava que “se o nosso país fosse atacado de veleidades regionalistas — Guimarães tinha o direito de reivindicar para si as honras de um centro superiormente caracterizado e individualizado no meio intelectual português”. Hoje, Guimarães continua a destacar-se pelo seu dinamismo cultural, em parte fruto da acção do Município, em parte fruto do trabalho das suas instituições culturais e dos seus cidadãos.

É esta cidade, feita de granito e de memórias, pequena na dimensão, cosmopolita na mundividência, que agora vai responder ao desafio de se assumir, por um ano, como um dos faróis culturais da Europa.
[Texto publicado no Jornal de Letras de 11 de Janeiro de 2012]
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10 de janeiro de 2012

Os brasões do chafariz

Chafariz do Toural - Brasão de armas de Guimarães
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Chafariz do Toural - Armas reais
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Chafariz do Toural - Uma das duas águias
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O chafariz do Toural é encimado por uma esfera armilar, abaixo da qual se encontra um elemento escultórico de quatro faces, em duas das quais aparece uma águia. Nas restantes, estão representados, de um lado, as armas reais portuguesas e, do outro, o brasão de Guimarães, com a Virgem Maria com o Menino, tendo uma oliveira à sua direita. O Padre Torcato Peixoto de Azevedo dá-nos uma descrição um pouco diferente deste elemento do chafariz. Não refere o brasão de Guimarães, apenas indicando a existência de”um escudo com as armas de Portugal, e nas costas deste outro com uma águia negra coroada de ouro, com um letreiro aos pés que diz: ano de 1588”. Antigamente, tantos os brasões como as duas águias eram pintados.

Quando os franceses andaram por Guimarães, aquando da invasão de 1809, os escudetes das armas reais foram picados. Os que agora lá se encontram foram cravados posteriormente.

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9 de janeiro de 2012

A cidade a cores


O edifício da antiga Pensão Imperial
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Ao olharmos para a fachada renovada do edifício da antiga Pensão Imperial, vamos escutando alguns comentários curiosos, que denunciam alguma estranheza em relação à utilização da cor naquela fachada. Ora, tal estranheza é o resultado da moda, relativamente recente, de “lixiviar” as fachadas dos edifícios, pintando-as de branco. Antigamente, a cidade era bem mais colorida. Olhando-se para antigas fotografias - infelizmente, para o que aqui nos importa, a preto e branco - percebe-se claramente, pelas diferentes gradações dos cinzentos das fachadas, que a paleta de cores usada no exterior dos edifícios era variada. Desse colorido, quase que só sobrou o dos prédios revestidos a azulejos. Quase tudo o resto é, agora, branco e algo deslavado.

Dantes, a cidade devia ser um pouco mais alegre.

Pode ser que a recuperação da Pensão Imperial se afirme como modelo para que, a exemplo do que já foi acontecendo no Centro Histórico, a zona extramuros de Guimarães vá recuperando alguma cor.

O Hotel do Toural, numa fotografia antiga. Não se percebe qual era a cor da sua fachada, mas não era branca, com certeza.
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8 de janeiro de 2012

Que romaria é esta?



Aspecto do Toural, hoje, às 17:00 horas.
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Aspecto da Alameda, à mesma hora
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Quando, há pouco, cheguei a Guimarães, depois de um par de dias fora, ao ver a multidão que andava na rua, dei comigo a tentar perceber que festa era aquela. Segundo o calendário, 8 de Janeiro é dia de S. Severino, santo que, confesso, não me diz muito e do qual não consta que tivesse direito a romarias entre nós. Não demorei muito para perceber que a razão da festa era… Guimarães.

Depois de perto de dois anos em que esta cidade quase só era notícia pela sucessão de trapalhadas que envolviam a Fundação Cidade de Guimarães, percebe-se que algo mudou. Foi-se embora a má imprensa e Guimarães passou a ser notícia permanente nos jornais e revistas, nacionais e internacionais, por aquilo que é. Sente-se que esta cidade está na moda, suscitando o interesse da comunicação social, que a vai mostrando ao mundo. E, como esta Guimarães é o que é, não falta por aqui material informativo susceptível de gerar encantamento e curiosidade em quem a não conhece ou a conhece mal, suscitando a vontade de a visitar. E o resultado começa a estar à vista.

É por isso que já me causa urticária ver que continua a haver por aí quem se esforce em fazer recordar os motivos das nossas angústias anteriores. Será que há quem ainda não tenha percebido que este é o tempo da Capital Europeia da Cultura?

Esta é a hora de Guimarães. Os vimaranenses têm que a saber aproveitar.
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O problema do estacionamento




Já passa quase um mês desde que o Toural e a Alameda foram devolvidos ao uso público, depois de terem sido o centro daquele que foi o empreendimento mais extenso de que há memória em Guimarães, em muitos séculos. Os resultados da obra vão sendo assumidos pacificamente pela cidade, que ficou mais airosa e confortável para os que a habitam ou a visitam.

No ar, ainda persistem os ecos de algumas das controvérsias que a requalificação gerou. Não me refiro aos que criticam a obra por motivos estéticos, que aceito, mesmo discordando, mas aos que prenunciavam que a praça se iria tornar num deserto. A estes, a realidade encarregou-se de os desmentir rapidamente. Em larga medida, é o modo como as pessoas estão a usar a praça que demonstra que a sua requalificação foi bem sucedida.

Há uma crítica que me merece alguma reflexão, a dos que discordam da opção de não dotar o Toural de um parque de estacionamento subterrâneo. Compreendo essa crítica, embora não me faltem argumentos para demonstrar que, do meu ponto de vista, o parque enterrado seria uma opção errada, por lacerar o Toural com feridas difíceis de sarar. Todavia, esta é uma discussão que já deixou de fazer sentido: a obra está feita e não haverá parque de estacionamento subterrâneo no Toural. Não há volta a dar.

O que agora faz falta é analisar o problema da falta de estacionamento e encontrar soluções. E fará sentido começar por perguntar: será que temos mesmo um problema de falta de estacionamento no centro urbano de Guimarães? Pelo que vejo, ficam-me dúvidas.

O centro urbano de Guimarães é relativamente pequeno, atravessando-se sem dificuldade, em qualquer direcção, a pé, num tempo relativamente curto. Todavia, tendemos a agir como se vivêssemos numa grande metrópole. Aqui, as distâncias são quase sempre curtas, mas, vá-se lá perceber porquê, parecem-nos longas. Em qualquer cidade, deixamos o carro a alguns quarteirões do nosso destino e ficamos satisfeitos por termos encontrado estacionamento perto. Em Guimarães, temos que levar o carro até à porta da loja. Aqui, parece que ficam demasiado longe todos os lugares que não fiquem em cima do Toural.

Para perceber a dimensão do problema de estacionamento nas imediações do Centro Histórico de Guimarães, procedi a um levantamento sumário da oferta de parqueamento existente. Tenho por surpreendente o resultado a que cheguei. Em lugares que se situam, no máximo, a 5 minutos, a pé, da zona mais comercial de Guimarães (Centro Histórico, Toural, Alameda, ruas de Gil Vicente, Santo António e Paio Galvão), encontro nove parques de estacionamento cobertos (dez, se contarmos com o que está a ser construído no antigo Mercado), com uma oferta total que se aproxima dos 1.500 lugares de aparcamento. Poder-se-ia concluir pela falta de estacionamento se esses parques estivessem permanentemente lotados, mas a realidade é bem diferente: quase todos estão, quase sempre, mais vazios do que cheios.

Assim sendo, parece-me manifestamente exagerado afirmar-se que falta oferta de estacionamento. O que faltará é criar o hábito de utilizar a oferta disponível. Para tanto, julgo que o esforço se deveria concentrar nos meios de divulgação da oferta de estacionamento existente. O que também poderá faltar será uma estratégia concertada do comércio local e de quem o representa no sentido de, em vez de se continuar a lamentar da falta de condições, o que só serve para afastar potenciais clientes, encontrar os meios para os atrair. Por exemplo, com a oferta de tempo de estacionamento gratuito nos parques da cidade a quem faça compras nas suas lojas. Simples, eficaz e barato.

Nota: para quem não saiba, aqui fica a lista dos parques de estacionamento cobertos que identifiquei no centro de Guimarães: S. Francisco Centro, Mumadona, C. C. Palmeiras, C. C. Santo António, Gil Vicente, Triângulo, Estádio, Pingo Doce, Centro Cultural Vila Flor, a que se juntará, em breve, o da Plataforma das Artes. A estes, há que juntar alguns parques de estacionamento a céu aberto, onde sempre se encontra lugar disponível, como o da Caldeiroa ou o de Santa Luzia (Redentoristas).

[Publicado em O Povo de Guimarães de 7 de Janeiro de 2012]
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4 de janeiro de 2012

Guimarães, segundo Craesbeeck (6)


 [Conclusão]

6. Nos exercícios fabris excede a todos os povos de Espanha; nos mais não inveja aos povos vizinhos; na política do governo é bem conhecida, pois foi a província corte Lusitana, e nela se observaram sempre os ditames ajustados da justiça; primeira Torre do Tombo; primeira nas medidas do pão, e vinho, aonde as mais comendas vinham ajustar as suas; primeira Relação; primeira Casa dos Contos: ainda hoje conservam as paredes os títulos e lugares. A nobreza apregoa o Conde de D. Pedro no seu “Nobiliário”, epílogo das ilustres famílias nela originalmente nascidas; e outras muitas se acham nos títulos do Cartório desta Colegiada, mais antigas. No serviço político, publiquem-no as coroas de D. Afonso Henriques, os bastões do grande Capitão D. Gonçalo Mendes, e de outros muitos, fechando o número e coroado Rei do Pegu, Salvador Ribeiro; na religião, os muitos conventos, os muitos Santos; e os muitos homens de Letras e Armas, que floresceram: de que tudo trata, com largueza, a “Corografia”, em capítulos particulares e de seus privilégios.

(in Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726, Edições Carvalhos de Basto, Lda., Barcelos, 1993,pp. 85)
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3 de janeiro de 2012

Guimarães, segundo Craesbeeck (5)


 [continuação]
5. O comércio principal desta vila era com Castela, hoje diminuto; com a cidade de Lisboa, no contrato do pano de linho e linha, de que resulta muita utilidade a esta vila; e com o Brasil menos generoso; e na facaria de instrumentos para cortar, dos quais grande cópia se lavra e fabricam armas de fogo. Com os mais povos de Portugal, principalmente do Alentejo e da Beira, contrata os panos de cor, que depois de repartidos por outros lugares desta província lhe conduzem proveitosa ganância. No edificar, observou os vestígios da antiguidade gótica: entre estes apareceu o castelo em forma de redondo obtuso, por se conformar com a dilatação do terreno; o palácio ducal, fundado pelo Infante D. Afonso a despesa de seu pai, el-Rei D. João I, cuja morte o deixou imperfeito, dizendo o Infante, a quem lhe perguntou porque não o aperfeiçoava - que morrera a galinha dos ovos grandes. As muralhas são das melhores daqueles tempos, as quais acrescentou el-Rei D. Afonso III, com a declaração que se refere na “Corografia”, sendo que depois el-Rei D. Dinis mandou fazer os muros novos, como se vê dos escudos de armas postos sobre as portas de suas serventias; e depois as torres, que foram feitas por ordem de el-Rei D. João I, como também se vê dos escudos de suas armas nelas postos; mas uma das torres, que estava posta para a porta da Garrida, mandou derrubar o Senhor D. Fernando II* e com a pedra dela fazer uma cerca, desde os Passos (que já estavam começados, e feita obra neles para agasalho) até à torre, que está junto da porta da Garrida, onde o muro novo se vem juntar com o velho, como deixou escrito o Doutor Simão Vaz Barbosa, no seu livro.

(in Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726, Edições Carvalhos de Basto, Lda., Barcelos, 1993,pp. 84)

* Duque de Bragança entre 1478 e 1483.
[continua]
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2 de janeiro de 2012

Guimarães, segundo Craesbeeck (4)


[continuação]


4. Sobre o terreno, fundadores e sua antiguidade temos já tratado; e quanto aos ares é o sítio fresco, airoso, em tudo propício à propagação humana e procriação dos frutos, tão aprazível aos olhos, que vista de longe de um Infante Português, sujeita ao inferior domínio, disse: - Quem te deu, não te viu; que se te vira, não te dera. - Cinco mil fontes, de copiosas e cristalinas correntes, inundam o terreno, fertilizando os campos e regalando os corpos, formando multiplicados ribeiros, que incorporados no precipitado Ave e fresco Avizela, desafogam no Oceano o túmido da sua inundação copiosa. A frugalidade dos mantimentos recomendam mais de cinquenta mil cruzados que os dízimos rendem às igrejas, e não menos que ao Príncipe nas suas sisas, tributos e próprios; desta rendosa soma se colhera a opulência de sua riqueza nos frutos naturais; para a multiplicação destes amontoou Ceres as espigas e acumulou Baco os cachos, dando-se as mãos; ocupa este os extremos no levantado das árvores, dando posse aquela do estendido dos campos: ambos em competência úteis, em conformidades férteis; não se queixa Baco ver-se menos suave, por ver a Ceres mais loura; as sementes são trigo, e milho branco, primeiro conhecido em Itália no tempo de Plínio, abundante copa do grande, que de poucos anos a esta parte fertilizou toda a Lusitânia; cevada menos, por se escusar com o milho; todo o género de legumes, e toda a variedade de hortaliças que frutificaram como nos mais terrenos; e como se diz da Campânia, não se avantaja a frugalidade com um só fruto, senão com a multiplicação deles: nas mais férteis terras produz um campo uma só vez e neste três frutos brotam cada ano uma seara; parece incrível de verdade se a experiência a não abonava; e nas mesmas terras se produz o pão, o vinho, as frutas e as hortaliças; na limitação do terreno se multiplica quanta nas mais dilatadas campinas tributa a natureza: de sorte que não inveja a estendida largueza do Alentejo. Na criação e multiplicação dos gados excede as mais terras das outras províncias, por em seu terreno se criar inumerável gado.

(in Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726, Edições Carvalhos de Basto, Lda., Barcelos, 1993,pp. 83-84)
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1 de janeiro de 2012

Guimarães, segundo Craesbeeck (3)



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3. Das portas que acima fizemos menção são: a primeira de Santa Bárbara, mais vizinha do castelo; sucede a estrada régia para a ponte de Mem Guterres, vulgarmente chamada de Domingos Terres; comunicação para as terras de Basto, Barroso, e outras mais de Trás-os-Montes; a porta de S. António, chamada de Garrida, segunda em ordem e primeira na situação da nova muralha, começada pelo Senhor Rei D. Afonso, 3.º Conde de Bolonha: via régia para a ponte de Donim, comunicação para as terras de Lanhoso, S. João de Rei e Bouro (primeira via de Adriano que penetrava o Reino de Galiza); a porta de Santa Luzia, segunda em ordem da nova muralha, correspondente à ponte de S. João, por outro nome Pedrinha, estrada pública para a cidade de Braga, Ponte de Lima, e mais terras desta província; a quarta porta, intitulada de S. Domingos, terceira em ordem da nova muralha, via régia para a ponte de Cervas, cita entre os confins de Guimarães e Barcelos, por onde se comunicam ambas, e se penetram as terras daquela vila e as da Maia, e mais circunvizinhas; a quinta porta é o postigo de S. Paio, caminho público para a ponte de Negrelos e Real, a dita para a cidade do Porto, e demarcação de seu distrito; o qual postigo se abriu depois da muralha, como se diz na “Corografia Portuguesa” e ultimamente se abriu mais no ano de 1725, com licença Régia; a sexta porta é da Torre Velha, correspondente à ponte das Caldas, comunicação para as Terras de Ferreira, e outras da Comenda do Porto; a sétima é a do Campo da Feira, correspondente à ponte de Pombeiro, divisão e comunicação de Felgueiras, Amarante, e ultimamente a de Santa Cruz ou Freiria, correspondente à ponte de Bouças, via vulgar que comunica para os julgados de Roças, Vila-Boa, Ribeira de Soas e outras circunvizinhas. As cinco primeiras vadeiam o Ave; as três últimas o Vizela; todas em distância de quatro léguas de largo, e seis de comprido, em que se aperfeiçoa a forma oval, sem alteração à circunferência, e sem advertirem a licença de algumas pontes, que não confundem o círculo, nem lhe mudam a forma.


(in Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726, Edições Carvalhos de Basto, Lda., Barcelos, 1993,p. 83)
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