30 de outubro de 2011

Imprensa vimaranense (13)


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Com o título A Reacção publicou-se entre Outubro de 1872 e Fevereiro de 1874 (informação de Pereira Caldas). Apresentava-se como “folha religiosa, literária e noticiosa” e era de pendor marcadamente anti-liberal. O seu administrador foi administrador José António Teixeira de Freitas e teve como responsável S. A. de Magalhães Brandão. Imprimia-se na Tipografia do jornal Religião e Pátria. Tinha morada no n.º 17 da antiga rua de S. Dâmaso. Publicava uma secção com o título “Piparotes Reaccionários” que “por nossa conta, e por conta de vários jornais católicos, oferecemos aos liberastas”.
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29 de outubro de 2011

Para onde o caminho aponta



Reuniu hoje o Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães. Quem ali chegou de novo (e vários são os agora que tomaram assento pela primeira vez neste pequena assembleia) dificilmente perceberá o que mudou entre Março e Outubro de 2011. Foi como da noite para o dia. Dia claro, este, em que o ar se respira com uma normalidade serena e saudável. Olhando em volta, percebe-se facilmente que se atiraram dois anos pela janela fora e que agora o tempo é escasso e a conjuntura difícil. Mas é o que temos, já sem margem para o erro. É manifesto que se corre contra o relógio e que a velocidade de cruzeiro em que se entrou nestes últimos meses arrisca abeirar os limites de segurança. Não há margem para olhar para trás: repisar equívocos e enganos passados é um inútil desperdício de tempo e de energias. Como alguém disse hoje, a CEC2012 tem uma boa narrativa, mas escasseia-lhe o tempo para a contar. Todos somos chamados para lhe dar corpo. Temos uma Capital Europeia da Cultura para construir. Compete-nos contribuir para a insuflar com o entusiasmo, a generosidade e a paixão de que as gentes de Guimarães são pródigas. Não podemos perder este desafio.


[Entretanto, salta aos olhos que Guimarães vai (re)aparecendo, com constância e consistência, nas páginas de órgãos de informação com relevância mundial. O New York Times, depois de colocar Guimarães na lista dos sítios a visitar em 2011, noticiou que as artes lançam raízes na “cidade berço”. A revista Lonely Planet seguiu-lhe agora os passos, e incluiu Guimarães nos principais destinos para 2012. Quase em simultâneo, a revista Wallpaper apresenta Guimarães como uma das 20 razões para estar em Portugal. Guimarães anda nas bocas do mundo, do lado feliz das notícias. É aí que queremos estar.]
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28 de outubro de 2011

A questão do Seco

Suplemento ao n.º 3 do Jiustiça de GUimarães
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No ano de 1872, Guimarães foi abalada pela “questão do Seco”. Por aquela altura, um juiz prepotente, Seco de seu nome, lançava a "anarquia na comarca de Guimarães com o seu absolutismo" (expressão de Domingos Leite Castro), chegando a pontos de suspender da advocacia o dr. Avelino da Silva Guimarães, que então exercia as funções de Presidente da Câmara, por este ter ousado questionar o procedimento do magistrado quanto às suas atribuições na administração das crianças expostas. Algum tempo antes, o dr Bento Cardoso, um dos mais prestigiados advogados portugueses do seu tempo, mas então já minado pelos efeitos da doença e da velhice, tinha sido levado a abandonar o tribunal de Guimarães. Foi chegada a hora de também José Sampaio entrar em rota colisão com o famigerado juiz. Em defesa dos direitos de um cliente, que o juiz Seco teimava em atropelar, viu-se forçado a recorrer a Famalicão para encontrar um tabelião que não tivesse medo de lavrar o seu protesto contra a actuação do iníquo magistrado. Em seguida, anunciou que também ele abandonava o tribunal de Guimarães, que "o juiz assim ia despovoando", como escreveria, anos mais tarde, José Sampaio.

Aqui chegados, Francisco Martins Sarmento, tendo tomado conhecimento da situação, se decide a sair a público em defesa do direito e da justiça. É José Sampaio que, a este propósito, nos dá conta de que ele:
''Estava disposto a lutar. O amor da justiça, uma das feições mais salientes do seu carácter, tinha sido locado pela tirania da autoridade: não era preciso mais para o transformar num lutador”.

Já há muito era conhecida em Guimarães a veia de polemista verrinoso e implacável de Martins Sarmento. Não encontrando, nos jornais da terra quem lhe quisesse abrir as páginas para enfrentar a prepotência do juiz, assumiu os trabalhos e as despesas da fundação, produção e distribuição de um jornal, A Justiça de Guimarães, que se publicou enquanto durou a contenda. Aí, à pena apaixonada de Sarmento, juntaram-se outras, com particular destaque para José Sampaio e Avelino da Silva Guimarães. Juntos lançaram uma violenta campanha pública de contestação ao Seco. O juiz replicou-lhes com um folheto; os redactores da Justiça de Guimarães responderam-lhe com um livro.

Dos tribunais, a questão do Seco havia passado para a imprensa; da imprensa transbordou para as ruas O anúncio da anulação da suspensão de Avelino da Silva Guimarães foi sublinhado ruidosamente com o rebentamento de engenhos explosivos nas imediações da residência do Seco e com o passeio triunfal de uma filarmónica pelas ruas da cidade; um partidário do famigerado juiz, que o defendia, como nos dá conta Domingos Leite Castro, "a tanto por linha num jornal lisbonense, veio também a Guimarães, provocando os adversários, procurar duas bofetadas. Levou-as".

No princípio de Agosto a questão do Seco terminava. O juiz foi obrigado a retirar-se de Guimarães. A sua saída da cidade foi saudada festivamente pelo estralejar dos foguetes.
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27 de outubro de 2011

A "justiça de Guimarães", segundo o Padre António Vieira (aliás, Padre Manuel da Costa)

Os responsáveis pelo jornal Justiça de Guimarães colheram o título daquele periódico na obra atribuída ao Padre António Vieira (há discussão quanto à autoria deste livro, actualmente atribuído ao Padre Manuel da Costa, também seiscentista) cujo título completo é Arte de furtar: espelho de enganos, teatro de verdades, mostrador de horas minguadas, gazua geral dos reinos de Portugal, escrita em meados de seiscentos e publicada em Amesterdão um século depois. Ao que se depreende, a expressão "justiça de Guimarães" tem o sentido de justiça cega e inclemente. Aqui se transcreve o excerto da Arte de Furtar onde aparece aquela expressão:

Se Deus castigara logo, quantos o ofendem mortalmente, já não houvera gente no mundo, e há Desembargadores que dão sentenças de morte, por sustentar capricho. E se na sua mão estivera, despovoariam o Reino. Vi um Padre da Companhia de Jesus propor uns embargos, para livrar um pobrete da forca: falava com um destes Ministros, que era o Relator, na escada da Relação; e alegava-lhe, que o réu não pecara mortalmente no homicídio, por quanto fora motus primo primus[i], e em sua justa defesa; e que tinha sua mercê naquela razão, de que pegar para favorecer a Misericórdia. Perguntou-lhe o Desembargador muito sábio, se era Teólogo? Respondeu o Padre muito modesto, que sim. Pois é Teólogo (disse o Desembargador já picado) e alega-me que pode um homem matar outro sem pecar mortalmente! O Padre lhe instou muito sereno: v. m. vai agora matar um homem, porque vai sentenciar ele à morte, e cuida que vai fazer um acto de virtude: e o algoz, que o há-de enforcar, não tem necessidade de se confessar disso: um bêbado, um doido e um colérico matam vinte homens, e não pecam: logo bem digo eu, que pode um homem matar outro sem pecar. Não soube o senhor Doutor responder a isto com toda a sua garnacha, e deu as costas, e levou avante a sua opinião, sem querer amainar da sua teima. Eis aqui como morrem muitos ao desamparo, entregues ao cutelo destes sábios, porque não têm quem acuda por eles, nem cabedal, para lhes modificar a pena, que é a sua espada, e às vezes unha. Nem me digam zelosos, que convém castigar-se tudo com rigor, para que haja emenda; porque lhe direi, que o seu zelo, quando mais se refina, é como o do outro, de quem disse o Poeta: Dat veniam corvis, vexat censura columbas[ii]; e ainda mal que tantos exemplos vemos, em que se cumpre ao pé da letra, o que disse o outro: Quidquid delirant Grai, plectuntur Achivi[iii]. E vem a ser o que nós chamamos Justiça de Guimarães. Não nego que há crimes, que se devem castigar com morte a fogo e ferro, quais são os de Læsæ Majestatis Divina, & humana[iv]. E em tais casos é bem, que mostrem os Reis com o último suplício o poder, que Deus lhe deu até sobre os Sacerdotes. E porque a praxe desta doutrina pareceu em algum tempo escandalosa, no que toca aos Sacerdotes, é bem que a declaremos: e quem a quiser entender bem, leia o Capítulo que se segue.

Padre António Vieira, Arte de Furtar, Oficina de Martinho Schagen, Amesterdão, 1744, pp. 303-304


[i] Motus primo primus- movimento espontâneo.
[ii] Dat veniam corvis, vexat censura columbas - A censura poupa os corvos e persegue as pombas (verso de Juvenal, Sátiras, II, 63)
[iii] Quidquid delirant Grai, plectuntur Achivi - "quando os gregos deliram, é o povo que paga". A expressão latina original é "Quidquid delirant reges, pectuntur Achivi" (Horácio, Epist., I, 2, 14), ou seja, "quando os reis deliram, é o povo que paga" ou, na expressão mais vernácula, "quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão".
[iv] Læsæ Majestatis Divina, & humana – lesa majestade divina e humana
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Imprensa vimaranense (12)

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Entre Fevereiro e finais de Agosto de 1872 publicou-se em Guimarães um jornal com o título  Justiça de Guimarães, que apenas tratou de um assunto: o conflito que então se abriu entre a cidade e o juiz Francisco Henriques de Sousa Seco. Aparecia como responsável Ilídio António Dias, que seria o testa de ferro do grupo de cidadãos que encabeçava a contestação ao famigerado juiz. Seriam seus proprietários os advogados Rodrigo Teixeira de Menezes, José da Cunha Sampaio, Jerónimo Pereira Leite de Magalhães, João Pereira Leite de Magalhães e Couto e Avelino da Silva Guimarães e teve como colaboradores, entre outros, Joaquim Peixoto de Abreu Vieira, José Sampaio, Avelino da Silva Guimarães, Rodrigo Salazar e Francisco Martins Sarmento. Este último foi o financiador e a alma mater desta publicação, que teve distribuição gratuita.

O Justiça de Guimarães, que foi buscar o seu título a um excerto da Arte de Furtar, publicada em meados do séc. XVIII com a indicação do Padre António Vieira como seu autor, terminou o seu curso com a saída de Guimarães do juiz Seco, cujas malfeitorias seriam resumidas por João Lopes de Faria: abusava da lei, entre outras coisas, levando grandes emolumentos, teve conflito com o delegado Adelino Pinto Tavares Ferrão, chegando este a pedir a demissão, desconsiderou e ofendeu o advogado Bento Cardoso, que teve de abster-se de ir ao tribunal, bem como quase todos os mais, suspendeu Avelino da Silva Guimarães, que era o Presidente da Câmara, por ela (Câmara) recorrer contra ele juiz, à conta dos órfãos que tinham 7 anos, conforme a isso ordenava a lei, multou José da Cunha Sampaio, mandou trancar algumas páginas duma promoção inteira, em um processo-crime do ex-delegado Adelino Ferrão, em que era réu o juiz eleito de S. Miguel das Caldas, etc.

Excerto da página 304 da primeira edição Arte de Furtar, atribuída ao Padre António Vieira (Oficina de Martinho Schagen, Amesterdão, 1744), de onde foi retirado o título do jornal Justiça de Guimarães
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25 de outubro de 2011

Imprensa vimaranense (11)


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Surgido em 1871, O Berço da Monarquia parece suceder ao A Sentinela, uma vez que tinha o mesmo proprietário, Augusto dos Santos Guimarães, que também era o detentor da tipografia onde era composto e impresso. Em 1872, o jornal passou a ter um formato um pouco maior do que o anterior, aparecendo, como administrador, Jacinto de Sousa Alves, e o jornal era feito na Tipografia de O Berço da Monarquia. A redacção manteve-se na mesma morada, na rua de D. João I. Publicava-se às quartas-feiras e aos sábados. Terá desaparecido ainda na primeira metade do ano de 1872. O escritor vimaranense Miguel Mascarenhas assinou alguns textos curiosos, que se publicaram na secção “Folhetim” deste jornal. Aparentemente, este jornal nada tem a ver com o que foi publicado com o mesmo título no final da década de 1850.
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24 de outubro de 2011

Imprensa vimaranense (10)


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O jornal A Sentinela publicou-se, segundo o padre António Caldas, entre Junho de 1870 e Janeiro do ano seguinte. Apresentava-se como “religioso, político e noticioso”. Augusto dos Santos Guimarães exercia as funções de administrador. Como responsável, aparecia José dos Santos. Tinha tipografia própria e escritório e redacção no n.º 3 da rua dos Fornos (actual rua João Lopes de Faria). Publicava-se às segundas e às quintas-feiras. Entre 1916 e 1917 haveria de publicar-se em Guimarães um jornal com o mesmo título, mas com natureza completamente diferente.
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23 de outubro de 2011

Imprensa vimaranense (9)


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O jornal Fraternidade começou a publicar-se no final de Janeiro de 1870, substituindo o jornal Vimaranense. Apenas sabemos que foi o seu administrador e responsável, António Vieira Correia da Cunha, que, até aí, exercia as mesmas funções no Vimaranense. Imprimia-se na Tipografia Fraternidade e tinha escritório na rua Escura (actual rua Gravador Molarinho). Publicava-se duas vezes por semana, às terças e às sextas-feiras. Apresentava-se como “jornal político e noticioso” e era afecto ao Partido Progressista. Não é certo quanto tempo tenha durado, mas terá terminado a sua existência no Verão de 1870, uma vez que em Agosto desse ano já se publicava novamente o Vimaranense, com o mesmo aspecto gráfico, o mesmo responsável e a mesma sede do Fraternidade.

Num texto intitulado “Guimarães”, publicado no n.º 2, de 1 de Fevereiro de 1870, dá-se a seguinte imagem da cidade:

É duro e custa a sofrer, quando lá por fora ouvindo falar em desproveito de Guimarães, não podemos alçar a voz em nosso desabono e temos de abafar em nós mesmos a Indignação e o desespero.

E que poderá dizer um homem, que vindo a Guimarães, entre num botequim e pernoite numa das nossas hospedarias? Por certo que não pode ajuizar bem.

Os botequins, à excepção de um, são viveiros de vadios que, falando o mais livremente possível, jogam as mais pesadas “larachas” e as mais inauditas grosserias ao primeiro desconhecido que aí entre, seja ele da condição que for. As hospedarias são viveiros de toda a espécie de imundície, tendo ainda o hóspede às vezes do lutar com a estúpida “carolice” de um dono de casa, que sem notar um impedimento de saúde lhe nega carne à sexta-feira por ser dia de jejum! Enfim Guimarães de há um século, é o mesmo Guimarães de hoje. E a razão é óbvia.
Desde longos tempos que aqui se têm gladiado cobardemente dois partidos ou antes duas facções, das qnais resultava apenas a corrupção e a arbitrariedade.

É a estes inconvenientes e não a outros, que podemos atribuir a causa mediata do nosso atraso, porque estes são nossos contemporâneos e de outros não temos conhecimento.

Arvorados em autoridades os chefes destes dois partidos eram corruptos, como eles muitas vezes o confessaram mutuamente nas duas “luminárias”, que então eram seus órgãos, e por este motivo é evidente que levavam os povos à corrupção, e as autoridades subalternas à morosidade e ao desleixo. — As câmaras eram eleitas a seu modo. Para vogais eram escolhidos pelas aldeias, gente que influísse nas eleições e se algumas vezes a muitos pedidos e empenhos se formou uma câmara, composta de homens ilustrados e independentes, estes encontravam as dependentes, estes encontravam as coisas em tal disposição, que se metiam à “mouta” para não cair sobre eles o estigma da opinião pública.

Eis o motivo porque não temos caminhado: autoridades cuidavam apenas muito de si, e os vimaranenses já aclimatados a este despótico proceder, persistiam em se calar, e sofriam silenciosos as suas arbitrárias determinações.
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20 de outubro de 2011

Imprensa vimaranense (8)


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A Gazeta do Minho publicou-se em 1885 e 1886, durante o interregno de publicação do jornal Religião e Pátria, que substituiu. No cabeçalho, aparecia como responsável José Martins da Costa. Como administrador, figurava o nome de José António de Faria e Silva, que antes exercera as mesmas funções no Religião e Pátria. Tinha redacção e tipografia no n.º 17 da rua Sapateira (tal como o jornal a que sucedeu). Segundo o Padre António Caldas, publicou-se até Outubro de 1866. Em Abril de 1867, reapareceu o título Religião e Pátria.
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18 de outubro de 2011

Imprensa vimaranense (7)


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De todos os jornais que em Guimarães iniciaram e terminaram o seu curso no século XIX, o Religião e Pátria foi o que alcançou maior longevidade. Publicou-se entre Outubro de 1862 e Dezembro de 1895, com um intervalo entre 11 Novembro de 1865 e 20 de Abril de 1867, tendo sido então substituído pelo título Gazeta do Minho. Não são claras as razões da suspensão do título, que foi assim anunciada:

Acaba, com este número, o último desta série, a publicação do periódico “Religião e Pátria”, para começar brevemente a publicação dum outro, que terá em tudo a mesma índole deste, diferindo apenas no título.

Somos levados a dar este passo por circunstâncias que não cabe relatar aqui; mas não sofrerão nada com isso os snrs. assinantes, aos quais pedimos a continuação do favor da sua assinatura.

O Religião e Pátria apresentava-se como “religioso, político e noticioso”. Teve como primeiro responsável Tomás Guilherme de Sousa Pinto, sendo administrador. José António de Faria e Silva. Teve redacção e tipografia instaladas, sucessivamente, na Praça da Oliveira, na rua do Gado, na rua Sapateira, na rua Nova do Muro e na Rua de S. Paio. Era semanário mas, a espaços, publicou-se duas vezes por semana.
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17 de outubro de 2011

A festa do ladrão


A igreja de S. Francisco de Guimarães, no início do séc. XX.
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Na Secção Literária do primeiro número do jornal O Conciliador (5 de Maio de 1860), José Joaquim da Silva Júnior publicou um texto com o título “Um facto do século passado”, em que contava a história da festa do ladrão, que se celebrava na igreja de S. Francisco a cada dia 29 de Abril. O facto que aquela festa celebrava terá acontecido no ano de 1710 (diz o autor que calhou então a uma terça-feira, o que não corresponde à verdade: o dia 29 de Abril de 1710 calhou a um domingo).

Aqui fica o texto em referência:

Há por aí memórias que, apresentadas aos olhos dos homens, não deixam de causar uma certa impressão, o que, para que ele as acredite, necessita de empregar uma crítica severa; tal é o facto que passo a narrar.

No domingo próximo passado que se contam 29 de Abril, fui eu despertado por uma ideia a que não podia deixar de prestar o meu assentimento. Ouvi repicar os sinos de S. Francisco, a princípio estranhei o caso, e moveu-me a curiosidade ir ver o que seria, porém, antes de entrar na igreja, vi um homem (era o chamado servo da Irmandade de Santo António) conduzindo nos braços uma porção de velas de cera, estacionei e, pensando por um pouco, disse: - Ah! Sim – é a festa do ladrão.

Parece-me que os meus leitores tomaram isto por uma graça. Pois olhem, que o não é. A chamada festa do ladrão é uma missa cantada, que anualmente se costuma celebrar no altar de Santo António em comemoração de um atentado de roubo, que se ia perpetrar na capela do mesmo santo, ou em toda a igreja, cujo facto é o seguinte:

Um pobre mendigo por nome Manuel Dias, natural do bispado de Coimbra (assim diz a crónica) em a madrugada do dia 29 de Abril de 1710, dirigiu-se a um largo que, plantado de carvalhos, fica ao norte da igreja de S. Francisco, e em uma janela, que ainda hoje ali existe acima do rés do chão seis ou sete palmos, empreende a tentativa de arrombamento (não se sabe se tinha companheiros) e tendo já tirado uma grade de arame, que era mais própria para defender a vidraça de alguma pedrada, com que os rapazes a podiam mimosear, do que para segurança do local para onde dava, teve de sucumbir ao enorme peso de tal grade, e deslocando uma coxa, ainda que o homem se esforçou por fugir, não pôde ir mais longe que três varas.

Este dia era uma terça-feira. Chegada que foi a manhã, dirigindo-se à igreja de S. Francisco, com o santo fim de ouvirem a missa, umas mulheres viram o tal meliante mendigo deitado por terra, e julgando que algum malfeitor o havia maltratado, foram primeiro (talvez cheias de medo) chamar os frades e dar-lhes parte do que viram.

Saíram dois frades do convento e foram ter com o homem, que se não movia de onde estava, e, perguntado, respondeu; que queria roubar o Santo António. Os frades, depois de terem livrado o ladrão do peso da grade, conduziram-no à igreja, aonde já era mui numeroso concurso do povo, e querendo pô-lo em lugar seguro, o levaram para a capela maior: o povo, que o queria ver, e que talvez ainda no dia antecedente o tinha visto pedindo esmola de porta em porta, mas que, não lhe agradando o ofício, queria fazer-se rico depressa e por meios muito lícitos, se aglomerava em roda dele, de sorte que não houve remédio, senão tirá-lo dali e levarem-no para um dos púlpitos, onde era visto por todos à vontade. Esteve ali até ao meio-dia.

A esta hora chegou o Juiz de Fora com o seu competente séquito e, dirigindo-se ao delinquente,. Lhe começou a fazer perguntas. Nesta ocasião foi vista a imagem de Santo António banhada em água ou suor que, correndo, molhou a toalha do altar e outros panos com que se procurou secar aquele líquido. Este facto, diz a crónica, causou sensação nos circunstantes e na verdade e para causar, assim como causou a mim, e há-de causar a todos os que tiverem conhecimento dele; não fazemos mais comentários.

Depois deste acontecimento, os frades entregaram à Misericórdia o dito senhor Manuel Dias, para no hospital lhe ser tratada a lesão, que houvera recebido do atentado, aonde morreu, passados dois meses, estando sempre assistido por frades franciscanos, a quem dissera que queria ser enterrado no pátio à entrada da igreja.

Tenho, pois, narrado o facto, e agora resta-me mostrar o seu testemunho.

Já os amáveis leitores sabem que eu li a crónica de S. Francisco que, além do que fica dito, diz que o juiz de fora mandara lavrar um auto de tudo isto. É um documento que tenho desejo de o haver à mão (se ele existir) no que me empenharei, e dele lhes darei conhecimento.

Além da crónica existe a tradição, que está em harmonia com o que deixo dito. Deste acontecimento foram coevos os avós de algumas pessoas que ainda hoje vivem e contam o facto por o terem ouvido àqueles: este testemunho parece que não deve ter-se por suspeito.

Sobre tudo, porém, o anteparo que está à entrada da igreja de S. Francisco, tem na parte superior um retábulo, dividido em duas partes; em uma destas se vê o ladrão tendo sobre ele uma grade de arame, algumas mulheres querendo levantá-lo e dois frades. No fundo do retábulo se lê o seguinte, que reproduzimos fielmente como está escrito:

RETRATO DE MANOEL DIAS NATURAL DE COIMBRA ESTE QUIS ROUBAR A CAPELA DE ST.º ANTÓNIO E TENDO TIRADO A REDE DA BIDRAÇA CAHIU COM ELLA E DESCONGUNTOU HUA PERNA COM QUE NÃO PODE FUGIR ATE PELA MANHAM CHEGARÃO HUAS MULHERES QUE CHAMANDO A DOUS RELIGIOZOS O BIERÃO LEBANTAR.

Na outra parte do retábulo vê-se a imagem de Santo António no seu altar, o ladrão, a justiça e, além disto, frades e povo tendo nas mãos panos brancos e, no fundo, a seguinte legenda:

LEBANDO A IGREJA DIANTE DE ST.º ANT.º CHEGOU A HELE O DOUTOR JUIS DE FORA E LHE QUIS FAZZER ALGA.S PROGUNTAS E NESTE TEMPO SUOU O SANTO PELO ROSTO E MÃOS QUE MOLHOU MT.ª SOMA DE LENÇOS DAS PEÇOAS QUE ESTAVAM PREZENTES EM 29 DE ABRIL DE 1710.

Este mesmo retábulo (sem a legenda), está reproduzido no azulejo da capela maior da igreja ao lado do Evangelho, o qual se julga foi ali posto em 1740, isto é, trinta anos depois do acontecimento. E junto ao altar de Santo António, está uma rede de arame pendurada na parede, e nela se lê o seguinte.

Esta foi a rede que Santo António lançou ao ladrão Manoel Dias em 29 de abril de 1710.

Finalmente, em todos os anos se celebra neste dia uma missa cantada em memória do acontecimento.

José Joaquim da Silva Júnior

O Conciliador, n.º 1, 5 de Maio de 1860, pp. 1-2
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16 de outubro de 2011

Imprensa vimaranense (6)

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A Oliveira começou a publicar-se no dia 20 de Abril de 1860, apresentando-se como um "jornal de anúncios" que incluiria "também alguns artiguinhos de instrução e recreio". Inicialmente era de distribuição gratuita. A partir do n.º 3, passou a apresentar-se como "jornal de instrução, recreio, notícias e anúncios, não contendo política de qualidade alguma", deixando então de ser grátis. O seu proprietário era Delfim José Monteiro Guimarães Júnior. Imprimia-se na Tipografia de Francisco José Monteiro (n.º 32 da rua da Caldeiroa). A indicação de que o jornal se abstinha da política deixou de constar a partir do n.º 8.  Terminou a sua curta existência com o n.º 18,  no dia 3 de Julho de 1860. 
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12 de outubro de 2011

Imprensa vimaranense (5)


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O jornal O Conciliador começou a publicar-se em Maio de 1860 e desapareceu no seu terceiro ano, em 1862. Era propriedade de José Ferreira Mendes de Abreu e C. A. Máximo, exercendo o primeiro as funções de redactor. Imprimia-se no n.º 8 da rua do Gado, onde funcionava a tipografia do jornal Vimaranense. Saía às quintas-feiras. No primeiro número apresentou-se como um periódico religioso e literário, que se absteria da política e que daria "conhecimento das notícias mais importantes, tanto estrangeiras, como nacionais e das possessões ultramarinas, não poupando as da localidade".
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10 de outubro de 2011

Imprensa vimaranense (4)


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Pouco se conhece acerca do primeiro dos periódico que em Guimarães se publicaram com o título O Berço da Monarchia. Era semanário, saía às segundas-feiras e o seu primeiro número veio a público, provavelmente, no dia 17 de Maio de 1858. Apresentava-se como semanário de instrução e recreio. Imprimia-se na tipografia de Francisco José Monteiro, situada no n.º 32 da rua da Caldeiroa. Era aí que tinha a sua redacção. É possível que tenha resultado de alguma “dissidência” do jornal Tesoura de Guimarães, que manteve a sua redacção na mesma morada até Janeiro daquele ano. Apenas conheço um exemplar deste jornal, o n.º 9, de 12 de Julho de 1858, pertencente à colecção a Sociedade Martins Sarmento. Foi oferecido pelo incansável paleógrafo João Lopes de Faria.
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