31 de agosto de 2011

A Praça de S. Tiago (5)

A "Casa Medieval" da Praça de S. Tiago
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A mesma casa, quando ainda se encontrava na viela de S. Dâmaso
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Na década de 1960, foi-lhe acrescentado à Praça de S. Tiago, um novo elemento, o edifício conhecido por “Casa Medieval”, que foi removido do local onde se encontrava, na sequência das obras que rasgaram a alameda que vai do antigo jardim Público ao Campo da Feira. Foi reconstruída no topo do bloco de casas situadas entre o Largo de S. Tiago e a rua dos Açoutados, do lado contrário ao edifício dos antigos Paços do Concelho. O transplante deste edifício foi saudado por A. L. de Carvalho, no Notícias de Guimarães de 15 de Fevereiro de 1959, como “um feliz advento para aquele abandonado rossio”, cujo estado constituíria “um espectáculo pouco edificante para a fisionomia arcaica daquela zona da cidade”.

O processo de trasladação e reconstrução da “Casa Medieval” arrastou-se ao longo do tempo. Pensada em 1959, só em Maio de 1963 é que a Câmara Municipal decidiu a sua concretização “com a máxima autenticidade”, com o propósito de entregar o edifício à Junta de Turismo local. O concurso para a reconstrução aconteceria apenas no final de Julho de 1967. A inauguração teve lugar no dia 31 de Maio de 1968.

Resta dizer que a "Casa Medieval" não foi reconstruída exactamente como era. A frente voltada a norte, com uma varanda e duas janelas, não existia na Viela de S. Dâmaso (a casa estava encostada a dois outros edifícios). A reconstituição da frontaria voltada para a Praça de S. Tiago, com o característico ressalto (saliência dos pisos superiores em relação ao rés-do-chão, que alinha com a rua), essa sim, foi fiel.

Resta dizer que a “Casa Medieval” não é medieval. É do século XVII. Alberto Vieira Braga, no n.º XVIII das suas Curiosidades de Guimarães (Revista de Guimarães n.º 69, de 1958, pág. 170), descreveu-a assim, quando ainda estava em S. Dâmaso:

“(…) é exemplar único e pouco vulgar, puramente seiscentista. Tem o rés-do-chão de pedra, avultando logo como que uma meia laranja de gomos de pedra, elegante saliência que suporta o primeiro andar, também de pedra, rematando com o enxerto do segundo andar, liso e de tabique.”

A Casa (dita) Medieval, onde hoje funciona o Gabinete de Imprensa de Guimarães, é um dos “salvados” do arrasamento do quarteirão de S. Dâmaso em meados do século XX. O outro é a Igreja de S. Dâmaso, que na mesma altura foi transferida para um dos topos do Campo de S. Mamede.
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30 de agosto de 2011

Um nome que o Toural podia ter tido

O Toural em meados do séc. XX
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A propósito dos nomes que o Toural tem tido, o meu amigo Francisco Brito deu-me a conhecer uma outra designação que a Praça poderia ter tido, ao menos por alguns dias (final de Julho e início de Agosto de 1826) e para algumas pessoas (os constitucionais de Guimarães). Essa denominação é atribuída à Praça pelo autor de um curioso texto, com o título “Festas em Guimarães pela aclamação da Carta Constitucional” publicado no jornal Borboleta Constitucional, de 16 de Setembro de 1826. Aí se refere aquele espaço da cidade de Guimarães como a “Praça de PEDRO IV (que assim se deve chamar à Praça do Toural por seu Patriotismo)”. Nas três páginas em que se descrevem os festejos, o autor não utiliza o nome Toural, referindo-se-lhe como a Praça e, por duas vezes, Praça de D. Pedro IV (“saiu, na tarde do 1.º de Agosto da Praça de D. Pedro IV um luzido Bando, que anunciava a grande Festividade do dia seguinte”; “o festejo teve lugar na grande Praça de D. Pedro IV”).

O texto da Borboleta Constitucional é uma reportagem circunstanciada das celebrações com que os vimaranenses assinalaram a aclamação da Carta Constitucional. Conhecem-se, pelo menos, duas outras descrições daqueles festejos, uma directa, a que consta no diário do Cónego Pereira Lopes de Lima, na transcrição dele fez o João Lopes de Faria, outra indirecta, a que nos dá o Padre Ferreira Caldas, no seu Guimarães – Apontamentos para a sua história. Os três relatos são coincidentes naquilo que narram, mas apenas o articulista da Borboleta Constitucional designa o Toural por Praça de D. Pedro IV, o que nos leva a supor que tal renomeação seria, provavelmente, a expressão de um desejo que nunca se concretizou.

As diversas referências ao Toural que se encontram em diferentes documentos das décadas de 1820 e 1830, designam-no sempre como Campo do Toural ou Praça do Toural. Aqueles tempos não eram dados a alterações toponímicas, área em que predominava uma constância secular: as ruas mantinham as designações que lhes vinham da tradição, muitas vezes medieval, que se relacionavam com suas características ou com as actividades nelas exercidas, ou então usavam de nomes ligados à religião. Só depois de 1850 é que foi introduzido o costume de mudar os nomes às ruas. Em 1853, as ruas Sapateira e dos Mercadores passaram a homenagear a Rainha D. Maria II; em 1863, a rua de Gatos passou a designar-se rua D. João I. Note-se que, até àquela altura, nenhuma outra rua de Guimarães tinha nome de pessoa. Camões, Paio Galvão ou João Franco só chegariam às placas toponímicas vimaranenses depois de 1880, iniciando a "tradição" de mudar o nome das ruas ao sabor das modas, que ganharia força política com a Primeira República.
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29 de agosto de 2011

A Praça de S. Tiago (4)


Fachada principal do polémico projecto “Ourique”, que esteve para ser construído no miolo da Praça de S. Tiago.
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Em 1916, a Câmara Municipal de Guimarães decidiu avançar com um concurso para a elaboração do projecto para o novo edifício dos Paços do Concelho (na proposta que apresentou, o Presidente da Câmara afirmava que “a casa que serve de sede para a Câmara Municipal é absolutamente imprópria, sob todos os pontos de vista sem excepção de um único”). Dos vários projectos apresentados ao concurso, um chamou as atenções por, como se escreveu em O Comércio de Guimarães, “apanhar bocados dos nossos principais monumentos”, fazendo “lembrar a história desta terra, não esquecendo absolutamente nada”. Trata-se do projecto Ourique, apresentado pelo Arquitecto José Marques da Silva. O local escolhido para a sua implantação foi a Praça de S. Tiago que, para tal, seria “alargada”, assim como as ruas Gravador Molarinho e do Espírito Santo. Por falta de meios de financiamento suficientes, o projecto de instalação dos Paços do Concelho na Praça de S. Tiago, que implicaria o desaparecimento deste largo, nunca se concretizou. Anos mais tarde, o projecto de Marques da Silva começaria a ser levantado fora das muralhas, na actual Praça de Mumadona. Nunca seria concluído.
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28 de agosto de 2011

Dos nomes que o Toural teve (e do nome que devia ter)

O Toural, numa fotografia de meados do séc. XX

Num tempo em que ainda não tinha a configuração actual (recorde-se que, no essencial, os edifícios que hoje fecham a praça são do século XIX), era o Campo do Toural (algumas vezes, o terreiro do Toural). Na centúria de oitocentos afirmou-se como a Praça do Toural (designação já usada, por exemplo, pelo Padre Torcato Peixoto de Azevedo no início do século XVIII). Em Novembro de 1911, quando o monumento a D. Afonso Henriques já tinha sido trasladado para ali, a República mudou o nome do Toural para Praça do Libertador de Portugal. Pouco tempo perduraria esse nome: ainda 1911 não tinha chegado ao fim e já o Toural era conhecido por Praça D. Afonso Henriques, designação que se manteria até Dezembro de 1943. Passou então a designar-se oficialmente por Largo do Toural, nome que ainda hoje se mantém, mas que não corresponde à história, nem à configuração física da sala de visitas de Guimarães.

Todavia, para os vimaranenses, aquele espaço central da Guimarães que se ia alargando para fora das velhas muralhas, nunca deixou de ser, apenas e só, o Toural.

E assim continuará a ser. Mas julgo que já era tempo de devolver o Toural à sua condição de praça. O vocábulo largo, atribuído a território urbano, designa, por definição um “espaço desimpedido numa povoação, mais amplo que as ruas que nele desembocam, e menor, geralmente, que uma praça”, enquanto que uma praça é um “lugar público, grande largo, geralmente rodeado de edifícios, para embelezamento de uma cidade, vila, etc., e como meio higiénico para melhor circulação do ar e plantação de árvores” (definições do Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado). Se assim é, não restam dúvidas de que o Toural é uma praça, e não um largo.

Quando estão em curso obras de requalificação do Toural que irão devolver aquele espaço à sua grandeza, faz sentido repensar a sua designação oficial, elevando-o à condição de praça, que é, naturalmente, a sua. Praça do Toural, portanto.
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27 de agosto de 2011

A Praça de S. Tiago (3)

Capela de S. Tiago (desenho de Carlos Van Zeller, 1835).
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A Capela de S. Tiago foi demolida quase no final do século XIX, num tempo em que a cidade de Guimarães já tinha sido amplamente fotografada. No entanto, não conhecemos qualquer fotografia deste monumento.


A primitiva capela da Praça de S. Tiago seria, segundo a tradição, um templo pagão, dedicado à deusa Ceres. O edifício que perdurou até ao último quartel do século XIX foi erigido no início do século XVII, no lugar da capela original, que se encontrava em ruínas.

Em Julho de 1882, a Câmara, por proposta do seu Vice-Presidente José de Castro Sampaio, decidiu expropriar a Capela de S. Tiago, com o propósito de a demolir, no quadro do projecto de melhoramento da Praça de S. Tiago proposto na década de 1860 pelo Eng.º Almeida Ribeiro. Houve quem protestasse contra esta demolição, considerando-a lesiva do património. Nos protestos, destacou-se o Padre Abílio Passos, que fez publicar uma carta sobre o assunto, no O Comércio de Guimarães (6 de Julho de 1885), na qual, apesar de ver com simpatia a intenção de “(…) proceder a melhoramentos no largo de S. Tiago, porque nisso havia reconhecida vantagem mais crescida ainda da boa higiene, pois todos conhecemos as más condições do local e suas pertenças bem como vemos as ruínas, que ameaçam algumas das construções da travessa do mesmo nome, que são acanhadas e velhas, desmanteladas e sujas”, protestava veementemente contra a demolição de uma “verdadeira página de pedra para a nossa história momentosa, heróica e respeitável”.

Não obstante os protestos, a decisão de demolição iria manter-se. Em Maio de 1886 foi publicada uma carta de lei autorizando a Câmara Municipal a avançar com a sua intenção. A demolição consumar-se-ia em Janeiro de 1887. A requalificação da Praça de S. Tiago, dirigida por Fernando Távora no último quartel do século XX, devolveria, simbolicamente, a capela à praça, gravando o traçado da sua planta no chão onde outrora se ergueu.
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26 de agosto de 2011

A Praça de S. Tiago (2)

O espaço ocupado pela actual Praça de S. Tiago, na planta quinhentista de Guimarães.
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Durante séculos, a Praça de S. Tiago não foi o espaço amplo dos dias de hoje. No interior do largo que hoje dá forma à praça, havia várias linhas de casas e uma capela, a capela (ou igreja) de S. Tiago, cuja planta está desenhada no chão da praça, no local da sua antiga implantação.

A configuração que hoje lhe conhecemos, não existia então, nem existiria antes do século XX. A área actualmente ocupada pela Praça era, na sua maior parte, preenchida com edificações. O largo propriamente dito chamava-se então de Praça do Peixe, por ser aí que os peixeiros exerciam o seu ofício. A igreja fechava o espaço do lado do Poente, havendo uma outra corrente de casario em frente à que hoje existe do lado Sul e uma segunda fileira de casas, paralela à que agora delimita a praça do lado do nascente, que faceava com a rua dos Pasteleiros, hoje desaparecida. A norte, o recinto da Praça era delimitado pela mesma frente edificada que ainda hoje existe. Pela observação da planta de 1569, é visível que Praça do Peixe ocupava uma área substancialmente menor do que aquela que actualmente é preenchida pela Praça de S. Tiago.
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25 de agosto de 2011

A Praça de S. Tiago (1)

A Praça de S. Tiago, numa fotografia de meados do séc. XX.
Há algumas zonas de Guimarães de que conhecemos poucas fotografias antigas. Um desses espaços, que hoje é um dos que mais se destacam pela sua “fotogenia”, é a Praça de Santiago. São escassas as imagens que conhecemos deste recanto da cidade. Mas existe uma razão: durante muito tempo foi uma praça de “má fama”. Não servia para bilhetes postais.

Ainda no século XIX, houve projectos para o melhoramento desta praça, e vielas anexas,que era descrita, como um espaço onde cada pocilga, é um foco de infecção. Daqueles casebres imundos emanam partículas deletérias que comprometem a saúde pública, como pode ler-se em O Comércio de Guimarães de 16 de Outubro de 1884. Tais projectos repetiram-se ao longo do século XX. Em Maio de 1904, a Câmara aprovou um projecto de ampliação da Praça de S. Tiago, procedendo à expropriação de três prédios, cujas traseiras fazem uma viela infecta, impossível de se tornar habitável”.

Em 1911, o jornal republicano Alvorada fez um inquérito aos seus leitores, que deveriam responder à seguinte pergunta: Qual é a obra mais urgente e de mais alcance que a Câmara deve empreender? Numa das respostas, um leitor propunha a eliminação completa do bairro de S. Tiago, o bairro das meretrizes. Esse antro antissocial e ao mesmo tempo antigiénico que desmoraliza a nossa sociedade, que definha a nossa raça e mancha a atmosfera que nos rodeia, deve ser tirado do centro da cidade.

A República propôs-se arrasar parte do casario da Praça de S. Tiago e das ruas adjacentes, para “melhor higienização” da cidade. Em 1916, foi posta a concurso a concepção do projecto de um novo edifício para a Câmara Municipal de Guimarães e outros edifícios públicos. Venceria o projecto “Ourique”, do arquitecto Marques da Silva (o mesmo que depois começou a ser construído na actual Praça de Mumadona). Só não foi edificado em plena Praça de S. Tiago por falta de meios financeiros.

No dia 28 de Agosto de 1928, a Câmara de Guimarães aprovou a seguinte deliberação:

A Comissão manifesta a sua vontade para que a autoridade administrativa empregue todos os meios ao seu alcance, para acabar com as casas de toleradas estabelecidas no Largo 13 de Fevereiro e suas proximidades, desta cidade, e expulsar aquelas que se entregam à prostituição, embora não aquarteladas, comprometendo-se pela sua parte, a coadjuvar a autoridade administrativa em tudo que estiver ao seu alcance.

As preocupações que estão por trás desta proposta, e que, segundo o Comércio de Guimarães, mereciam a plena aprovação do público, mantiveram-se ainda durante várias décadas, em que a Praça de S. Tiago era vista como um espaço pouco recomendável. Nos tempos que correm, na sequência da sua requalificação, uma das obras de Fernando Távora em Guimarães, é uma das praças mais visitadas e fotografadas da cidade de Guimarães.
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Mentira n.º 5.1.0

O Castelo de Guimarães, numa fotografia do início do século XX.
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A propósito do texto publicado na revista Visão da semana passada (“As grandes mentiras da História de Portugal”, que pode ser lido no site da revista), e a que já aqui me tinha referido, escrevi ao director da revista, procurando, essencialmente, esclarecer dois aspectos do texto que não correspondiam à verdade: a afirmação de que foi apenas por um voto que o Castelo de Guimarães não foi demolido em 1836 e a sugestão de que o mesmo monumento, na sua forma actual, seria uma das “construções de cartolina” do Estado Novo. Não recebi resposta, mas vejo um excerto da minha mensagem publicado na página do “Correio do Leitor” da Visão de hoje.

Aqui fica o meu email na íntegra. A negro, no penúltimo parágrafo, vão os excertos publicados pela Visão. A sua selecção, cirúrgica q.b., dá impressão de que, mesmo num órgão de comunicação de referência, haverá, por vezes, preocupações que se elevam mais alto do que o rigor e a objectividade.

Exmo Senhor Director da Visão

Publica a Visão, no seu n.º 963, um texto intitulado “As grandes mentiras da História de Portugal”, onde se desmontam “ideias feitas que não correspondem à verdade”. Chamou-me à atenção a “mentira n.º 5”, onde se utiliza o Castelo de Guimarães como exemplos de pastiches erguidos pelo Estado Novo e se transmitem alguns factos, porventura fundamentados em “ideias feitas”, que não correspondem à verdade.

Escreve-se que a demolição do Castelo de Guimarães não foi aprovada, em reunião camarária, no ano de 1836, pela diferença de apenas um voto. A proposta de arrasamento do castelo, “por ser uma cadeia bárbara que serviu no tempo da usurpação”, foi votada, de facto, mas não em reunião da Câmara e o resultado foi muito diferente do indicado. A demolição foi discutida e votada em reunião da Sociedade Patriótica Vimaranense, que governava Guimarães na sequência da vitória dos liberais na Guerra Civil, tendo sido chumbada por quase 80% dos presentes (colheu 15 votos contra e 4 a favor).

Diz-se que a Torre de S. Bento foi demolida antes de 1881. É verdade: foi derrubada essa torre, assim como as outras cinco que se erguiam ao longo da muralha que cercava Guimarães. Mas não faziam parte do castelo, nem foram reconstruídas pelo Estado Novo.

Antes da década de 1940 o Castelo de Guimarães estava longe de ser um “monte de pedras”, como erradamente se pode concluir do texto em apreço. O restauro iniciado em 1936 não “reergueu” o Castelo de Guimarães, limitando-se a uma intervenção reconstrutiva que manteve, no essencial, a estrutura preexistente do monumento. A intervenção afectou, principalmente, a área envolvente, com o propósito declarado de realçar a monumentalidade do Castelo da Fundação. Qualquer fotografia do Castelo anterior a 1936 servirá para dissipar quaisquer dúvidas que possam existir.

Como facilmente de demonstra, o Castelo de Guimarães não será o melhor exemplo das “construções de cartolina” do Estado Novo de que fala a Visão.

Com os melhores cumprimentos,
António Amaro das Neves
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24 de agosto de 2011

Sobre o pelourinho de Guimarães

Pelourinho de Vila Viçosa, D. Carlos de Bragança (rei), aguarela sobre papel, 1885.
Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.


O pelourinho era um local onde se executavam penas ignominiosas, impostas aos presos e aos condenados, que nele eram amarrados e sujeitos a açoites ou à vergonha pública. A sua configuração era a de uma coluna de pedra, mais ou menos lavrada, implantada numa praça central, por regra em frente à Casa da Câmara. Na Idade Média, os pelourinhos eram simples obeliscos de pedra, de secção circular ou poligonal, sem ornamentação. A designação de pelourinho apenas começou a ser utilizada em meados do século XVI. Até aí, este instrumento de execução de penas era conhecido como picota (de acordo com o Elucidário de Viterbo, a picota era um “pelourinho com suas cadeias, e argolas, onde os criminosos eram expostos à vergonha”).

No foral manuelino de Guimarães não se encontra qualquer referência ao pelourinho ou à picota. Como já vimos, Conceição Falcão Ferreira, concluiu que o pelourinho “não existia na Praça, a julgar pelo mais cerrado silêncio de milhares de diplomas compulsados”.

Todavia, existe, pelo menos, uma referência ao pelourinho ou picota de Guimarães, anterior ao século XVII. Está numa acta da vereação de Guimarães, de 21 de Março de 1531, referente a uma reunião em que os vereadores “acordaram que os moleiros que maquiarem mais do ordenado que paguem cem réis de pena pela primeira e pela segunda duzentos réis e pela terceira estarão na picota” (a maquia era a porção do cereal que os moleiros cobravam como pagamento do seu serviço).

Parece seguro que a picota referida nesta deliberação municipal seria a coluna implantada sobre degraus que aparece na praça principal de Guimarães, junto à Casa da Câmara, na planta de c. 1569, e que posteriormente seria mudada para o espaço junto ao Convento de S. Francisco que ficaria conhecido como Largo do Pelourinho, hoje Largo do Trovador.
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23 de agosto de 2011

A Praça da Oliveira (9)

Pormenor da planta de Guimarães de c. 1569. Uma dobra na folha oculta parte da base da coluna que aparece em frente à antiga rua dos Açoutados.

Não encontrámos, até ao momento, qualquer referência documental ao elemento que aparece implantado no lado virado a Norte da Praça da Oliveira, apontando para a embocadura da rua dos Açoutados, a que nos referimos antes. Todavia, somos levados a acreditar que se tratava mesmo do pelourinho de Guimarães, apesar do silêncio dos documentos, a que se refere Conceição Falcão no seu “Guimarães - ´Duas vilas, um só povo” (p. 325):

Do pelourinho de Guimarães nada fica para a Idade Média. Não existia na Praça, a julgar pelo mais cerrado silêncio de milhares de diplomas compulsados. As notícias posteriores – séculos XVII – dão conta da sua existência, para os lados de S. Francisco.

As referências mais antigas ao pelourinho de Guimarães que conhecemos levam-nos até ao início do século XVI (no dia 21 de Janeiro de 1606, o pedreiro Domingos Manuel, morador na rua Caldeiroa, arrematou, em sessão de Câmara, a execução do conserto do Pelourinho).

A localização do pelourinho é-nos dada pelo padre Torcato, nas suas Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães (p. 341), quando escreve que caminhando por este terreiro de S. Sebastião para nascente, está o Pelourinho.

Quem ainda conheceu o pelourinho, no largo que lhe tomou o nome, foi o Padre António Caldas, que o descreveu no final do seu “Guimarães – Apontamentos para a sua história”:

Havia aqui, para as correições públicas, um pelourinho, que se levantava em forma de coluna de pedra sobre degraus, no largo de S. Francisco, num semicírculo do muro de suporte que divide o mesmo largo do largo do Pelourinho, hoje do Trovador.

Acontece que a descrição do Padre Caldas do pelourinho de Guimarães (uma coluna de pedra sobre degraus) é consistente com o elemento que aparece desenhado na Praça da Oliveira na planta quinhentista, o que nos leva a especular que se poderia tratar do mesmo instrumento do poder judicial, inicialmente implantado onde era esperado que estivesse (na Praça Maior) e posteriormente mudado para o local onde ficaria até à sua remoção definitiva, já no último quartel do século XIX.

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A Rua de Santa Maria

A rua de Santa Maria quando se chamava de Elias Garcia
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A rua de Santa Maria é uma das mais antigas de Guimarães, aparecendo referenciada em documentos medievais. Conceição Falcão Ferreira classificou-a como rua de elite, por ser uma das preferidas da aristocracia vimaranense, onde nobres e clérigos tinham as suas moradas. De todas as suas casas destacava-se a do Conde da Azenha, a célebre Casa do Arco que atravessa a artéria. Com o andar do tempo, foi-se degradando. Era descrita, em meados do século XX, como uma rua imunda e nauseabunda, um vazadouro, “particularidades” que eram atribuídas aos maus costumes dos seus moradores. A sua requalificação data do início da década de 1970. Foi rebaptizada pela Câmara Municipal republicana no dia 2 de Novembro de 1910, adoptando o nome de Elias Garcia, pioneiro do republicanismo português. No final de 1943 recuperou a sua antiga designação, pela qual o povo nunca deixou de a chamar: rua de Santa Maria.
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22 de agosto de 2011

A Praça da Oliveira (8)




Vista parcial da Praça da Oliveira em meados de 1930
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Nesta fotografia, publicada na revista Ilustração em Agosto de 1930, é visível que a Casa da Câmara já havia sido "descascada" do reboco que revestia a sua fachada voltada para a Praça da Oliveira, mas o que sobressai é o candelabro com três lâmpadas implantado em plena praça. Acabaria por ser transplantado, em 1933, para o Largo Cónego José Maria Gomes.
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19 de agosto de 2011

A Praça da Oliveira (7)

A Praça da Oliveira na planta de Guimarães de c. 1569


Na planta de Guimarães de meados do século XVI, a Oliveira aparece indicada simplesmente como “A Praça”, o que nos remete para a sua condição de praça central de Guimarães, a Praça Maior. Os alpendres (assinalados pelo ponteado) tinham uma presença forte na configuração da praça, distribuindo-se pelas frentes do norte, do poente e do sul. Estes últimos são aos únicos que sobreviveram até aos nossos dias, embora o mesmo não tenha acontecido com os seus prolongamentos para a rua dos Mercadores (actual rua da Rainha) e na direcção da Senhora da Guia.

Nesta planta, há um elemento que me intriga, e que ainda o não consegui identificar. Aparece do lado esquerdo da praça, próximo da Casa da Câmara. Parece um obelisco.
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A Praça da Oliveira (6)


Aspecto da Praça da Oliveira numa fotografia de 1858
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Antigamente, a Praça da Oliveira era marginada por alpendradas, como aquela que agora se vê nos edifícios do lado voltado a Sul, por trás da oliveira e do padrão. Na fotografia que vai acima, é possível ver as casas do lado poente da praça, ainda com alpendradas ao nível do piso térreo (repare-se no trecho visível entre o Padrão e a oliveira). De notar, também, as varandas salientes, em madeira.
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18 de agosto de 2011

Mentira n.º 5.1

O Castelo de Guimarães numa fotografia de meados do séc. XIX (c. 1860)

A revista Visão de hoje (18 de Agosto de 2011) publica um artigo interessante com o título “As grandes mentiras da História de Portugal”. Ao lermos a “mentira n.º 5”, ficamos a saber que “os castelos (não) são do tempo dos mouros” -“tinham sido, mas o tempo destruíra-os. Então, o Estado Novo decidiu reerguê-los como achou que ficavam melhor – com muitas ameias bem recortadas”. O primeiro exemplo escolhido para ilustrar esta tese é, ora nem mais, o Castelo de Guimarães. Aqui fica a transcrição do essencial:

Antes da década de 40 do século XX, quem percorresse o País quase não encontraria castelos. Reduzidas as antigas fortalezas medievais a montes de pedras, só a custo custaria divisar aqui ou ali um pedaço de muralha, um vestígio de escadaria ou uma torre arruinada.
Querem ouvir uma história? Se, num belo dia de 1836, um dos vereadores vimaranenses tivesse votado  de forma diferente numa reunião camarária, o Castelo de Guimarães teria sido demolido e a sua pedra utilizada para calcetar as ruas. Foi só por um voto que saiu derrotada a proposta nesse sentido apresentada pela Sociedade Patriótica Vimaranense. Vá lá, compreende-se: estava ainda bem viva a memória de toda a guerra civil entre os liberais de D. Pedro e os miguelistas... mesmo assim, ainda seria demolida a torre de S. Bento, antes de, em 1881, a fortaleza ter sido classificada como «monumento histórico de primeira classe» e, em 1908, ter ascendido à dignidade de «monumento nacional».
(...) Em Guimarães, foi a partir de 1937 que se procedeu a obras de intervenção, surgindo aos olhos de todos um harmoniosos edifício de torres direitas e ameias certinhas rodeado de árvores frondosas e de extensos relvados. É esse o castelo que hoje vemos e que podemos visitar, associando-o a D. Afonso Henriques e apodando-o de «berço da nacionalidade».

Acontece que, ao tentar desmontar uma ideia feita, o autor do texto acaba por nos dar um acumulado de “ideias feitas que não correspondem à verdade”. Vejamos:
1. Quase tudo o que se diz sobre a proposta de 1836 para a demolição do Castelo de Guimarães está longe de corresponder ao que verdadeiramente aconteceu. É verdade que a proposta existiu e é verdade que foi derrotada. Mas tal não aconteceu em reunião camarária, nem foi o voto de um único vereador que impediu a sua aprovação. Em Janeiro de 1836, um dos membros da Sociedade Patriótica Vimaranense, em reunião daquela agremiação, que se substituíra à Câmara no governo da vila na sequência da vitória dos liberais na Guerra Civil, apresentou uma proposta para que se demolisse o Castelo para usar a sua pedra nas calçadas, “por ser uma cadeia bárbara que serviu no tempo da usurpação”. O assunto levantou acesa discussão, mas a proposta acabou rejeitada, com quatro votos a favor e quinze contra. Não foi, assim, pelo voto de “um dos vereadores vimaranenses”, mas por uma diferença esmagadora (quase 80% dos participantes da votação, que não eram vereadores, votaram contra a demolição do Castelo).
2. Não se percebe bem a referência à Torre de S. Bento. Foi demolida, de facto, no século XIX, assim como as restantes torres da cerca de muralhas da vila de Guimarães (das seis que existiam, apenas se salvou, e não toda, a Torre da Alfândega). Mas estas torres não faziam parte do Castelo, nem foram reerguidas pelo Estado Novo.
3. Aquando da intervenção que se iniciou em 1936 (e não em 1937, como se diz no texto da Visão) o Castelo de Guimarães estava muito longe de ser um “monte de pedras”. O arranjo do espaço envolvente, dentro do espírito revivalista do Estado Novo, contribuiu para realçar a monumentalidade do Castelo da Fundação, ao mesmo tempo que lhe retirou boa parte da vida que lhe vinha do bulício das gentes que, durante séculos, povoaram as ruas que foram arrasadas para abrir espaço para o novo parque. Mas não “reergueu” o castelo, limitando-se a uma intervenção de “alindamento” que manteve o essencial da sua estrutura original. Para dissipar dúvidas, basta observar alguma fotografia do Castelo, tirada antes da década de 1930, como aquela que vai acima, que foi tirada por volta de 1860.
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A Praça da Oliveira (5)


Vista parcial da Praça da Oliveira no início do séc. XX.

A fotografia que vai acima mostra a Praça da Oliveira num momento anterior a 1913 (ano em que foram retiradas as grades que fechavam o Padrão e circundavam o adro principal da Colegiada). Note-se a ausência da Oliveira. A oliveira original, do século XIV, já desapareceu há muito. Sabe-se que a que estava na praça no início da década de 1820 secou, supostamente por obra dos vizinhos, que se queixavam dos incómodos causados pela árvore. Em sua substituição, outra foi plantada no mesmo lugar em 1824. Seria derrubada em 1870, porque atrancava o caminho. Durante mais de um século, não houve oliveira na praça que lhe tomou o nome. O processo de reabilitação do Centro Histórico permitiu que a cidade se reencontrasse com um dos seus símbolos no ano de 1985.
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17 de agosto de 2011

A Praça da Oliveira (4)

Os Paços do Concelho de Guimarães, provavelmente em 1908
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Nesta fotografia pode ver-se que a fachada voltada para a Praça da Oliveira da Casa da Câmara era revestida a reboco. Não se consegue perceber qual fosse a cor da pintura da fachada, mas parece certo que não seria o branco.

Os escudos e as esferas armilares que encimam as janelas aparecem cobertos por panos pretos, em sinal de luto, o que permite presumir que a imagem foi colhida em 1908, por altura do Regicídio.
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16 de agosto de 2011

A Praça da Oliveira (3)


O tanque da Oliveira, numa fotografia de meados do séc. XIX.
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Um dos elementos que, até ao início do século XX, marcavam presença na Praça da Oliveira, preenchendo-a com o rumor da água que escorria das suas três bicas, era o tanque-chafariz quinhentista que se encostava à torre da Colegiada. A água que debitava, vinha do manancial da Penha e chegava-lhe através do Cano da Vila. Foi instalado no século XVI e desmantelado em 1904, aquando da montagem do sistema de abastecimento público de água ao domicílio. Havia tempos que se defendia a sua remoção, pelos danos que a humidade causava aos magníficos túmulos dos Pinheiros, que ocupam no interior da torre.
O tanque da Oliveira, entre o final do século XIX e o início do séc. XX. Repare-se na diferença do muro frontal do tanque (desapareceu a reentrância central visível na primeira fotografia. Terá acontecido quando, na década de 1870, a oliveira da praça foi derrubada e o seu tronco replantado no interior do tanque.
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Praça da Oliveira, depois de 1904. Notem-se as marcas que ficaram na parede da torre, depois da remoção do tanque.
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Praça da Oliveira, depois de 1904. Depois da remoção do tanque, foi instalado um bebedouro no mesmo local (visível nesta fotografia).
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