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A mostrar mensagens de Julho, 2011

Sempre

A memória dos homens abarca o tempo das suas vidas, mas presume que encerra em si toda a eternidade. A partir da nossa experiência vivida, tendemos a assumir que aquilo que sempre vimos, até onde as nossas lembranças alcançam, sempre existiu. Porém, a Terra não começou a girar movida pelo embalo do primeiro sopro da nossa respiração. O tempo histórico tem muitas camadas e nós apenas habitamos uma delas, o nosso tempo.
Dou dois exemplos de coisas de sempre, que afinal não o são.
Guimarães assinala o 24 de Junho, dia Batalha de S. Mamede, o momento em que Portugal começou a fazer-se nação, com um feriado municipal e festejos solenes. Tendemos a pensar, e há quem o afirme com convicção, que sempre foi assim, o que só serve para perceber quão curta pode ser a memória dos homens.
A primeira vez que em Guimarães se comemorou a Batalha de S. Mamede com cerimónias públicas assinaláveis foi no seu oitavo centenário, em 1928. E, curiosamente, celebrou-se de véspera, porque se assumiu que a batalha…

Olhar de fora para dentro

No final do último Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães, um jornalista perguntou-me quem eram os vencedores do processo que parecia fechar-se naquele dia, com a saída de cena da até então Presidente da Fundação. Percebi que o que respondi não correspondeu ao que seria esperado: não há vencedores, saímos todos derrotados. O saldo não era o resultado daquela reunião, mas sim o acumulado de dois anos perdidos numa floresta de enganos.


O processo de construção da Capital Europeia da Cultura tem sido de tal modo conturbado e desgastante, que foi acumulando desencanto e desânimo naqueles que, genuinamente, acreditavam que a distinção que Guimarães recebeu serviria para projectar uma imagem ainda mais positiva da cidade. Não foi isso que aconteceu até agora, antes pelo contrário, apesar do New York Times. Guimarães passou a ter o que não tinha antes: má imprensa e má imagem, por exclusiva responsabilidade de quem tomou o encargo de preparar 2012, mas ignorou a realidade da cidade, d…

As celebrações afonsinas de 1911 (15)

No dia 6 de Agosto de 1911, Guimarães assinalou o oitavo centenário do nascimento de D. Afonso Henriques com um cortejo cívico quepercorreu as ruas da cidade, passando pela estátua do primeiro rei português, acabada de trasladar para o Toural, e terminou junto do Castelo, com o descerramento de lápides comemorativas na base de ambos os monumentos. Aqui fica a descrição das festas do centenário de 1911, segundo o relatado do jornal republicano Alvorada:


As festas do centenário

Decorreram com brilho igual ao dos anos anteriores as festas da cidade; e se no ano findo elas chegaram ao seu apogeu sob a inteligente e activa direcção de João Gualdino com o arrojo das exposições agrícola, industrial e de pintura retrospectiva local, este ano tomaram brilho intenso com o arrojo do centenário de Afonso Henriques, como fundador da nossa nacionalidade, realçado pelo cortejo cívico-histórico e pela homenagem que as placas colocadas no pedestal e no Castelo comemoram.

As feiras de gado bovino e cavala…

Imagens das Gualterianas de 1907

Fotografias da reportagem da "Ilustração Portuguesa" (n.º 81, de 9 de Setembro de 1907) intitulada Festas Populares - As Festas Gualterianas em Guimarães, referente às Festas da Cidade do ano de 1907:

 Uma janela original
 Capela onde se baptizou D. Afonso Henriques
 Claustro de Nossa Senhora da Oliveira
 Uma barraca de refrescos

 Manuel Casimiro e filho (toureiros), na ida para a corrida
 Jardim do Toural
 Velho Castelo
 Grande Hotel do Toural
 Largo D. Afonso Henriques

 Tourada: bancada de sombra (esquerda) e bancada de sombra (direita)
 Estátua de D. Afonso Henriques
 Toural
 A comissão de remonta medindo um cavalo
Campo da Feira

As celebrações afonsinas de 1911 (14)

A comemoração do centenário do nascimento do fundador da monarquia portuguesa, em 1911, despertou sentimentos contraditórios entre os republicanos vimaranenses, com a República a instalar-se em Portugal. O texto que a seguir se transcreve é ilustrativo desse estado de espírito.

A propósito do centenário de Afonso Henriques
A comemoração do oitavo centenário do nascimento de Afonso Henriques, que a cidade de Guimarães apensou este ano às grandiosas festas Gualterianas, se por um lado alegra e encoraja o meu coração de patriota, não é menos certo que por outro lado me traz amargura, desalento e desesperação.

Às vezes um mal apenas se subentende. Não há possibilidade de o descortinarmos franco e aberto como um inimigo leal. E o centenário do nascimento de Afonso Henriques, posto que rodeado de atavios sem número, ofuscantes como a luz deste fecundo sol de Agosto, representa para mim um mal, um mal encoberto, um mal que só a minha razão, após longa análise de diversas circunstâncias, pôde d…

Imagens das Gualterianas de 1908

Imagens da reportagem da "Ilustração Portuguesa" (n.º 131, 24 Agosto de 1908) sobre as Festas Gualterianas de 1908:

Ornamentações no Toural
Cortejo dos excursionistas
Grupo de excursionistas (caixeiros portuenses)
 Chegada do excursionistas à Praça da Oliveira
 O Coro de raparigas (na Senhora da Guia) Janela ornamentada: a tourada Janelas ornamentadas: O namoro (fotografia da esquerda) e o Almirante e o Zé Povinho (fotografia da direita)

As celebrações afonsinas de 1911 (13)

AFesta da Cidade Comemoração solene do VIII centenário do nascimento de D. Afonso Henriques

É este o dia principal das Gualterianas, consagradas neste ano ao Ilustre Vimaranense que foi o Fundador da nossa nacionalidade.
Guimarães veste as suas melhores galas.

A Praça do Toural, para onde foi transferida a bela estátua do Rei Conquistador; a Praça de D. Afonso Henriques, transformada num amplo e formoso jardim público; as ruas de S. Dâmaso, Praça da República do Brasil (Campo da Feira), Senhora da Guia e rua da República (Rainha) ostentarão vistosas decorações, executadas por Emiliano Abreu, segundo desenhos dos nossos distintíssimos artistas e ilustres professores Abel Cardoso e José de Pina.

O Toural será uma página dos Lusíadas, com as estâncias em que Camões cantou os feitos heróicos do Primeiro Português e com escudos onde se comemoram as conquistas e as vitórias de D. Afonso Henriques. (...)
Alvorada, 27 de Julho de 1911

O que agora se precisa: inteligência e golpe de asa

Guimarães, 1947: imagem do esforço do lectivo para reerguer a tourada, reduzida a escombros por um incêndio.
É em tempo de dificuldade que se vê de que massa é que esta gente é feita. É aí que se põe à prova a generosidade e a grandeza que por aqui sempre se manifesta quando toca a reunir. O exemplo de 1947 está presente como resposta à pergunta recorrente sobre se ainda iremos a tempo. Foram precisos três dias e três noites para que Guimarães reerguesse a tourada dos escombros. Não temos mais do que esse tempo para encontrar uma solução capaz de voltar a insuflar confiança e entusiasmo num projecto que tem tudo para ser um grande momento de celebração colectiva. Dos que agora têm nas suas mãos as decisões que urgem, espera-se inteligência e golpe de asa, para que se superem as diferenças e se inventem soluções mobilizadoras. Não nos desiludam.

As celebrações afonsinas de 1911 (12)

Aqui se continua a publicação de extractos de notícias da imprensa local de Guimarães acerca das celebrações que a cidade dedicou, em 1911, ao centenário do nascimento de D. Afonso Henriques, que aconteceram em simultâneo com as Festas da Cidade (Gualterianas).

A Festa da Cidade Comemoração solene do VIII centenário do nascimento de D. Afonso Henriques
É este o dia principal das Gualterianas, consagradas neste ano ao Ilustre Vimaranense que foi o fundador da nossa nacionalidade.
Guimarães veste as suas melhores galas.
A Praça do Toural, para onde foi transferida a bela estátua do Rei Conquistador, a Praça de D. Afonso Henriques, transformada num amplo e formoso jardim público, as ruas de S. Dâmaso, Campo da Feira,  Senhora da Guia e rua da Rainha, estarão vistosas decorações, executadas por Emiliano Abreu, segundo desenhos dos nossos distintíssimos artistas e ilustres professores Abel Cardoso e José de Pina.
O Toural será uma página dos Lusíadas, com as estâncias em que Camões cantou os fei…

Novo impulso

Os problemas com a preparação da CEC e as dificuldades de relacionamento do Conselho de Administração da Fundação Cidade de Guimarães, primeiro com a cidade, depois com a cidade e com a Câmara Municipal de Guimarães, tiveram o seu desfecho natural na reunião do Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães de 22 de Julho. O entendimento a que se chegou pôs termo a um processo que abriu feridas dificilmente sanáveis, marcando um momento de virar a página e de avançar para uma nova fase do processo, necessariamente com novos protagonistas.

Na reunião, a Câmara Municipal e a Fundação Cidade de Guimarães chegaram a um entendimento, através do qual a até aí Presidente da Fundação cessou funções, sem quaisquer contrapartidas, ressalvando o compromisso da Fundação Cidade de Guimarães em compensar Cristina Azevedo da diferença, caso venha a existir, entre a remuneração que recebia antes de assumir funções na FCG e aquela que venha a auferir na sua futura situação profissional. Ao contrário do…

Resposta para a pergunta que mais se ouve nos dias que correm: seremos capazes?

Resgate

"Sou de uma pátria pequenina e sólida chamada Guimarães"

Joaquim Novais Teixeira  No Outono de 1956, depois de décadas de interdição de regressar à sua terra natal, Joaquim Novais Teixeira voltou a Guimarães. Os seus amigos fizeram-lhe uma homenagem num jantar, no Restaurante Jordão. O homenageado agradeceu num discurso onde realçou a sua condição de vimaranense, antes de tudo o mais. Aqui fica um excerto das palavras que proferiu, que ficamos a dever ao meu amigo Paulo Cunha:
Guimarães tem sido sempre também uma das constantes da minha vida. Em toda a parte me dou a conhecer como homem de Guimarães E, em toda a parte, me conhecem como tal.
Quando alguém me pergunta se sou português, é do meu hábito – e da minha verdade – responder:
‘Não, não sou português, sou mais do que isso, sou de Guimarães! Com efeito, sou de uma pátria pequenina e sólida chamada Guimarães, que tem por limite Vizela e Caneiros, a Penha e a Pisca. O resto, meus velhos amigos, é a fronteira de um outro mundo’.
No amor pelos homens, e na defesa dos seus direitos e dignidade, …

Epílogo?

Vista geral de Guimarães no início do século XX.
Este é um filme com um argumento complexo, composto por um mosaico de histórias paralelas, algumas delas obscuras, com uma pitada de comédia e doses generosas do mais absurdo nonsense. O enredo é marcado pelo protagonismo dos estatutos, elemento central de um mistério que paira sobre o desenvolvimento da narrativa, funcionando permanentemente como elemento perturbador de qualquer desenlace que se possa adivinhar. Dentro do mistério, um enigma indecifrável: como é que, sendo o que são, passaram pelo crivo dos juristas da Câmara Municipal de Guimarães, do Ministério da Cultura, do Conselho de Ministros e da própria Presidência da República?
Vamos lendo notícias acerca de um conflito entre o Presidente da Câmara Municipal de Guimarães e a Presidente da Fundação Cidade de Guimarães. É visível que existe. Mas há um conflito maior, mais profundo e insanável, que está aberto entre o Conselho de Administração da FCG e a realidade. Há muito que é …

Igreja de S. Paio (3)

A antiga igreja de S. Paio, antes da demolição. À direita, vê-se a torre da Misericórdia.

Elogio de um pequeno diamante

Vista geral de Guimarães no início do século XX O meu amigo Francisco Brito encontrou num sermão de Frei Rafael de Jesus (natural de Guimarães, chegou a cronista-mor do reino) uma expressão interessante sobre Guimarães (“não é Guimarães a maior povoação da terra; porém, é Guimarães, a melhor povoação do mundo”). O Sermão foi proferido no dia da Senhora da Assunção (15 de Agosto), provavelmente do ano de 1673, na Igreja da Senhora da Oliveira. Era o segundo sermão que proferia nesse dia, no mesmo local (o primeiro, proferiu-o de manhã) e a frase aparece numa altura em que o pregador explicava as razões que levaram a Nossa Senhora a escolher Guimarães para aí deixar a sua Imagem que ficaria conhecida como a Senhora da Oliveira. Aqui fica um naco do sermão de Frei Rafael de Jesus.
Escolheu a Senhora para sua Imagem a melhor parte da terra, a melhor parte do culto; a melhor parte do título e a melhor parte do tempo. A melhor parte da terra, pelo lugar; a melhor parte do culto, pela Imagem; …