31 de julho de 2011

Sempre




A memória dos homens abarca o tempo das suas vidas, mas presume que encerra em si toda a eternidade. A partir da nossa experiência vivida, tendemos a assumir que aquilo que sempre vimos, até onde as nossas lembranças alcançam, sempre existiu. Porém, a Terra não começou a girar movida pelo embalo do primeiro sopro da nossa respiração. O tempo histórico tem muitas camadas e nós apenas habitamos uma delas, o nosso tempo.

Dou dois exemplos de coisas de sempre, que afinal não o são.

Guimarães assinala o 24 de Junho, dia Batalha de S. Mamede, o momento em que Portugal começou a fazer-se nação, com um feriado municipal e festejos solenes. Tendemos a pensar, e há quem o afirme com convicção, que sempre foi assim, o que só serve para perceber quão curta pode ser a memória dos homens.

A primeira vez que em Guimarães se comemorou a Batalha de S. Mamede com cerimónias públicas assinaláveis foi no seu oitavo centenário, em 1928. E, curiosamente, celebrou-se de véspera, porque se assumiu que a batalha se travara no dia 23 de Junho de 1128. Nas décadas que se seguiram, as comemorações do dia da Batalha de S. Mamede, a “primeira tarde portuguesa”, limitavam-se a uma cerimónia religiosa na Igreja de S. Miguel do Castelo. O feriado municipal (instituído pela Primeira República) era no dia 2 de Junho, e assim foi até que, em Janeiro de 1952, um decreto-lei extinguiu os feriados municipais sem enraizamento popular. Celebrava Gil Vicente.

A primeira vez que se assinalou o 24 de Junho como feriado municipal de Guimarães, celebrando a Batalha de S. Mamede, foi em 1974. Mas as comemorações daquela data só começaram a ganhar solenidade e dimensão a partir de 1983, ano em que contaram com a presença do Presidente Ramalho Eanes. Não obstante, parece generalizada a convicção de que em Guimarães sempre se comemorou a Batalha de S. Mamede com pompa e circunstância. Basta folhear os jornais de Guimarães das décadas de 1940 ou 1950, para se perceber que a realidade era bem diferente. Todos os anos, lá apareciam notícias referentes a duas celebrações que coincidem no dia 24 de Junho: a Batalha de S. Mamede e o S. João, santo muito popular e festeiro. Por regra, publicavam-se textos, mais ou menos extensos, a lamentar que as festividades de S. João já não eram o que tinham sido. Ao lado, uma pequena caixa, quase escondida, dava conta da missa em S. Miguel do Castelo com que se celebrava S. Mamede.

O segundo exemplo a que me referirei prende-se com as celebrações que marcam o nascimento de D. Afonso Henriques. Por estes dias, tenho ouvido dizer que em Guimarães sempre se assinalou o nascimento do rei fundador no dia 25 de Julho do ano 11 de cada século. Não vou aqui dissecar a controvérsia, aliás estéril, acerca do ano de nascimento de D. Afonso Henriques (a data de 1111 foi fixada por Alexandre Herculano, que assumiu que a morte de D. Henrique ocorrera em 1114; como é certo que o Conde morreu em 1112, basta ajustar contas de Herculano para se chegar ao ano de 1109). Ora, a verdade é que, em novecentos anos, o nascimento de D. Afonso Henriques apenas foi assinalado em Guimarães num ano 11, o de 1911. E não foi no dia 25 de Julho, mas sim a 6 de Agosto, com um cortejo cívico que integrou o programa das Gualterianas daquele ano. Aliás, não deixa de ser curioso perceber que a tradição que aponta para o dia 25 de Julho, presente em diversos documentos setecentistas, como na História Genealogica da Casa Real Portuguesa, de António Caetano de Sousa, remete constantemente para o ano de 1109.

De sempre é aquilo que é de todo o tempo, que se repete com uma constância ininterrupta desde os confins da História, tendo alcançado a dimensão perpétua do que é eterno. Para cada um de nós, de sempre é aquilo que vemos repetir-se ao longo das nossas vidas. Mas convém não esquecer que, antes de nós, já os ponteiros do relógio giravam.

[Texto publicado em O Povo de Guimarães, 29 de Julho de 2011] 
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30 de julho de 2011

Olhar de fora para dentro



No final do último Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães, um jornalista perguntou-me quem eram os vencedores do processo que parecia fechar-se naquele dia, com a saída de cena da até então Presidente da Fundação. Percebi que o que respondi não correspondeu ao que seria esperado: não há vencedores, saímos todos derrotados. O saldo não era o resultado daquela reunião, mas sim o acumulado de dois anos perdidos numa floresta de enganos.


O processo de construção da Capital Europeia da Cultura tem sido de tal modo conturbado e desgastante, que foi acumulando desencanto e desânimo naqueles que, genuinamente, acreditavam que a distinção que Guimarães recebeu serviria para projectar uma imagem ainda mais positiva da cidade. Não foi isso que aconteceu até agora, antes pelo contrário, apesar do New York Times. Guimarães passou a ter o que não tinha antes: má imprensa e má imagem, por exclusiva responsabilidade de quem tomou o encargo de preparar 2012, mas ignorou a realidade da cidade, dos seus cidadãos e das suas instituições. Esperava-se, de quem chegava para dirigir o processo, que fizesse melhor do que aquilo a que estávamos habituados. Seria difícil fazer pior do que aquilo que se fez. E não se caia na ilusão de acreditar que a saída da anterior Presidente da Fundação Cidade de Guimarães seria a solução para todos os males que  corroem o processo de construção da CEC. Os problemas persistem. O tempo, esse, não pára.

Hoje, longe de Guimarães, ao ler as notícias, dou-me conta de que vai fazendo caminho a ideia de que o que aconteceu nas últimas duas semanas seria o resultado de intriga palaciana – a que nem sequer falta o palácio – conjugada com um enredo de disputa política que aponta, não para 2012, mas sim para as eleições autárquicas de 2013. Acredito e sei que não foi assim. Aquilo a que se chegou resultou da evidência da necessidade de pôr termo a um profundo mal-estar que se tornou insustentável, resultante da manifesta inadequação do Conselho de Administração da FCG, e da estrutura que montou, para o desempenho da missão exigente que lhe estava atribuída. Vai sendo tempo de mudar o estado de coisas, o que também terá que passar por uma estratégia de comunicação capaz de se sobrepor à especulação, sob pena de não se ver o fim da instabilidade que tem dispersado a atenção, impedindo a mobilização de energias para o essencial: fazer com que 2012 tenha a grandeza que se exige.
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28 de julho de 2011

As celebrações afonsinas de 1911 (15)


No dia 6 de Agosto de 1911, Guimarães assinalou o oitavo centenário do nascimento de D. Afonso Henriques com um cortejo cívico que percorreu as ruas da cidade, passando pela estátua do primeiro rei português, acabada de trasladar para o Toural, e terminou junto do Castelo, com o descerramento de lápides comemorativas na base de ambos os monumentos. Aqui fica a descrição das festas do centenário de 1911, segundo o relatado do jornal republicano Alvorada:



As festas do centenário


Decorreram com brilho igual ao dos anos anteriores as festas da cidade; e se no ano findo elas chegaram ao seu apogeu sob a inteligente e activa direcção de João Gualdino com o arrojo das exposições agrícola, industrial e de pintura retrospectiva local, este ano tomaram brilho intenso com o arrojo do centenário de Afonso Henriques, como fundador da nossa nacionalidade, realçado pelo cortejo cívico-histórico e pela homenagem que as placas colocadas no pedestal e no Castelo comemoram.

As feiras de gado bovino e cavalar estiveram muito concorridas de gado entre o qual se notavam belos exemplares, que obtiveram os prémios respectivos.

A tourada de sábado esteve regular, e a de domingo, à antiga portuguesa, esteve brilhante, com uma enchente à cunha, tendo as honras da tarde os cavaleiros João Marcelino e Morgado de Covas que colheram vastos aplausos.

O arraial de sábado, no Campo da república do Brasil, esteve muito concorrido e animado, fazendo bom negocio as barracas de todas as espécies. O grupo de tricanas agradou, como sempre, ao público das aldeias, especialmente, para quem este número se torna imprescindível, além do realce que oferece nos números em que colabora.

O cortejo cívico revestiu uma imponência extraordinária, produzindo sensação o grupo de guerreiros vestidos em estilo do século XII, sob o risco e direcção de José de Pina, mas a pé por dificuldades insanáveis da ultima hora, indo a cavalo apenas um com o estandarte da época, entre os arautos. Os dois carros alegóricos de honra e da indústria, de Abel Cardoso e José de Pina, foram muito admirados, e mereceram geral agrado os carros da agricultura e de alfaias agrícolas da iniciativa de João Margaride, pelo fino gosto que ele sabe imprimir aos seus trabalhos, como apaixonado que é deste ramo da riqueza nacional, tão digno de ser imitado. Estes carros, que eram acompanhados de grupos alegres e característicos, dispostos com arte, precedidas de uma soberba junta de bois, punham nesta parte do cortejo um cunho alegre e comunicativo que muito agradou ao digno governador civil, que da varanda da Sociedade Martins Sarmento assistia ao desfile. As numerosas associações de classe com as suas bandeiras, em boa compostura, os nossos briosos bombeiros com material adornado, as crianças das escolas oficiais primarias empunhando bandeirinhas nacionais, que agitavam, cantando hinos, seguidos de um lindo carro com formosas crianças; o grupo alegre e colorido das tricanas com os seus descantes populares o pessoal numeroso de ambos os sexos das fábricas de tecidos, autoridades, comissões das festas, magistratura, professorado, tudo constituía um espectáculo empolgante que nos enchia de orgulho, pelo que representava de valioso aos olhos dos forasteiros. Este imponente cortejo, que tinha uma extensão respeitável, era precedido da charanga de cavalaria 6, tocando a bélica marcha de guerra, e rematava-o infantaria n.° 20, sob o comando de um major.

Ao descerrar da lápide comemorativa do centenário, no pedestal de Afonso Henriques, pelo ilustre governador civil, assistindo ao acto também o nosso digno e inteligente representante nas Constituintes, dr. Eduardo de Almeida, foram lidas (...) mensagens pelos presidentes da Associação Comercial e da Comissão municipal, respectivamente.

(...)

Chegado o cortejo ao Castelo foi descerrada ali a lápide colocada no sopé do mesmo, com vivas a república e à Pátria livre, dispersando em seguida.

As janelas dos prédios estavam apinhadas de senhoras, que lançavam flores continuamente sobre o cortejo.

As iluminações gerais de domingo, das quais se destacou o largo do Toural, em arcaria da época com versos dos Lusíadas e feitos afonsinos, sob a indicação de Abel Cardoso, produziu belo efeito, distribuindo luz a jorros sobre a imensa onda humana que sob ela revolteava delirante em descantes e danças animadas, a que as músicas e o fogo do ar davam mais brilho. A banda de infantaria portou-se bem no concerto.

Algumas varandas estavam belamente ornamentadas e ¡Iluminadas, havendo luminárias em algumas torres.

O exercício de bombeiros, na segunda-feira, executado sob um sol abrasador, correu como sempre magistral, revelando destreza e valentia, sob o comando competentíssimo de Simão Costa e José de Pina, produzindo sensação nu publico o salvamento por meio do lençol de lona, adquirido pelo seu brioso comandante.

A batalha de flores, que este ano se feriu no campo do Toural, esteve animadíssima, notando-se apenas falta de carros adornados, devido não sabemos a que circunstâncias, não sendo talvez estranho ao facto a batalha que em Vizela se vai ferir no próximo domingo.

A marcha milanesa, ansiosamente esperada, esteve feérica como sempre, produzindo belo efeito o carro elefante. É tal a alma deste número das gualterianas que sabemos de um indivíduo que veio de Abrantes propositadamente para ver a marcha. Um bravo aos seus iniciadores!

Rematou as festas o concerto no jardim público pela banda da guarda republicana do Porto, que se houve magistralmente, colhendo aplausos.

A execução do hino nacional com que as bandas regimentais terminam os seus programas, nos jardins públicos, deu, causa, como vem sucedendo ali há alguns domingos, a que se efectuasse uma prisão por desacato ao mesmo, dando lugar a uma manifestação patriótica em que tomaram parte também elementos estranhos à terra. 

Alvorada, 10 de Agosto 1910


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27 de julho de 2011

Imagens das Gualterianas de 1907

Fotografias da reportagem da "Ilustração Portuguesa" (n.º 81, de 9 de Setembro de 1907) intitulada Festas Populares - As Festas Gualterianas em Guimarães, referente às Festas da Cidade do ano de 1907:


 Uma janela original

 Capela onde se baptizou D. Afonso Henriques
 Claustro de Nossa Senhora da Oliveira

 Uma barraca de refrescos


 Manuel Casimiro e filho (toureiros), na ida para a corrida

 Jardim do Toural

 Velho Castelo

 Grande Hotel do Toural

 Largo D. Afonso Henriques


 Tourada: bancada de sombra (esquerda) e bancada de sombra (direita)

 Estátua de D. Afonso Henriques

 Toural

 A comissão de remonta medindo um cavalo

Campo da Feira
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As celebrações afonsinas de 1911 (14)



A comemoração do centenário do nascimento do fundador da monarquia portuguesa, em 1911, despertou sentimentos contraditórios entre os republicanos vimaranenses, com a República a instalar-se em Portugal. O texto que a seguir se transcreve é ilustrativo desse estado de espírito.
 
A propósito do centenário de Afonso Henriques

A comemoração do oitavo centenário do nascimento de Afonso Henriques, que a cidade de Guimarães apensou este ano às grandiosas festas Gualterianas, se por um lado alegra e encoraja o meu coração de patriota, não é menos certo que por outro lado me traz amargura, desalento e desesperação.

Às vezes um mal apenas se subentende. Não há possibilidade de o descortinarmos franco e aberto como um inimigo leal. E o centenário do nascimento de Afonso Henriques, posto que rodeado de atavios sem número, ofuscantes como a luz deste fecundo sol de Agosto, representa para mim um mal, um mal encoberto, um mal que só a minha razão, após longa análise de diversas circunstâncias, pôde descobrir. E não será um mal, oh, não será, o sermos hipócritas?

Que significa, na realidade, a comemoração do centenário de Afonso Henriques?

Patriotismo?

“A Velha Guarda”, cuja direcção está confiada a um dos homens mais inteligência da nossa terra, e não só inteligente mas livre de preconceitos, dignou-se conceder-me permissão para dizer o que quisesse sobre o assunto que venho tratando.

E porque assim é, cumpre que eu diga em poucas palavras toda a verdade, embora ela vá ferir quem quer que seja que se julgue no direito de exigir que só se escrevam, neste momento, longas apreciações lisonjeiras, mas falhas de sinceridade.

O centenário de Afonso Henriques, que agora se comemora, não significa por forma alguma que na maioria dos habitantes da cidade de Guimarães haja uma réstia, sequer, de patriotismo.

Pois que! Onde, em que terra do país, por mais modesta e afastada que seja, se viu já o que aqui se tem visto, no actual momento histórico?

Eu exijo o testemunho valioso do leitor independente, isto é, no gozo de plena liberdade de consciência; eu reclamo a opinião sincera, desinteressada, daquelas pessoas que, desligadas por completo de coteries políticas, possam emitir uma opinião terminante, decisiva.

E, pois, dir-me-ão: tudo o que se tem passado na cidade de Guimarães, tudo o que se ouve aí, a todos os cantos, autorizam-nos a afirmarmos que a comemoração do centenário de Afonso Henriques obedece a um puro sentimento de patriotismo?

Ninguém nos desmentirá; todos confessarão que nos assiste o direito de negarmos a menor parcela de patriotismo a essa comemoração, que, contudo, mais brilho vem dar, se é possível, às imponentíssimas festas da cidade.

É que, na verdade, o patriotismo, hoje, tem de ser encarado por modo bem diverso daquele por que o encara a maioria da população vimaranense. Daí o não ser possível acreditarmos na sinceridade do patriotismo que agora tão solenemente se invoca.

A cegueira dessa maioria, por fetiches que tiveram já a sua época de preponderância e falsa glória, subsiste ainda e é ela quem lhe conduz os passos e dita todas as acções.

E este estado mórbido, que nos entristece e envergonho, desvirtua toda a obra que se pretenda classificar de patriótica, infelizmente agora que, mais que nunca, seria preciso que todos tivéssemos muito amor à nossa querida pátria.

Que a evocação, ao menos, dos feitos assombrosos de Afonso Henriques, por virtude dos quais ainda somos uma nação livre e independente, seja poderoso incentivo para uma nova orientação em ordem a modificar radicalmente todos os sentimentos anti-patrióticos por diferentes modos expressos nos últimos tempos.

Que a sua nobilíssima conduzia, de guerreiro mediévico quase sem igual, nos incite a lutarmos corajosamente porque se conserve intacta a terra estremecida que é a nossa pátria.

Dêmos todos o amplexo fraternal indicativo de mútuo e intenso afecto, de recíproca aspiração pelo supremo bem comum.

X.


A Velha Guarda, 5 de Agosto de 1911


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26 de julho de 2011

Imagens das Gualterianas de 1908

Imagens da reportagem da "Ilustração Portuguesa" (n.º 131, 24 Agosto de 1908) sobre as Festas Gualterianas de 1908:


 
Ornamentações no Toural

Cortejo dos excursionistas

 Grupo de excursionistas (caixeiros portuenses)

 Chegada do excursionistas à Praça da Oliveira

 O Coro de raparigas (na Senhora da Guia)
Janela ornamentada: a tourada
Janelas ornamentadas: O namoro (fotografia da esquerda) e o Almirante e o Zé Povinho (fotografia da direita)
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As celebrações afonsinas de 1911 (13)



A Festa da Cidade
Comemoração solene do VIII centenário do nascimento de D. Afonso Henriques


É este o dia principal das Gualterianas, consagradas neste ano ao Ilustre Vimaranense que foi o Fundador da nossa nacionalidade.

Guimarães veste as suas melhores galas.


A Praça do Toural, para onde foi transferida a bela estátua do Rei Conquistador; a Praça de D. Afonso Henriques, transformada num amplo e formoso jardim público; as ruas de S. Dâmaso, Praça da República do Brasil (Campo da Feira), Senhora da Guia e rua da República (Rainha) ostentarão vistosas decorações, executadas por Emiliano Abreu, segundo desenhos dos nossos distintíssimos artistas e ilustres professores Abel Cardoso e José de Pina.


O Toural será uma página dos Lusíadas, com as estâncias em que Camões cantou os feitos heróicos do Primeiro Português e com escudos onde se comemoram as conquistas e as vitórias de D. Afonso Henriques.
(...)

Alvorada, 27 de Julho de 1911

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25 de julho de 2011

O que agora se precisa: inteligência e golpe de asa

Guimarães, 1947: imagem do esforço do lectivo para reerguer a tourada, reduzida a escombros por um incêndio.

É em tempo de dificuldade que se vê de que massa é que esta gente é feita. É aí que se põe à prova a generosidade e a grandeza que por aqui sempre se manifesta quando toca a reunir. O exemplo de 1947 está presente como resposta à pergunta recorrente sobre se ainda iremos a tempo. Foram precisos três dias e três noites para que Guimarães reerguesse a tourada dos escombros. Não temos mais do que esse tempo para encontrar uma solução capaz de voltar a insuflar confiança e entusiasmo num projecto que tem tudo para ser um grande momento de celebração colectiva. Dos que agora têm nas suas mãos as decisões que urgem, espera-se inteligência e golpe de asa, para que se superem as diferenças e se inventem soluções mobilizadoras. Não nos desiludam.

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As celebrações afonsinas de 1911 (12)


Aqui se continua a publicação de extractos de notícias da imprensa local de Guimarães acerca das celebrações que a cidade dedicou, em 1911, ao centenário do nascimento de D. Afonso Henriques, que aconteceram em simultâneo com as Festas da Cidade (Gualterianas).


A Festa da Cidade
Comemoração solene do VIII centenário do nascimento de D. Afonso Henriques

É este o dia principal das Gualterianas, consagradas neste ano ao Ilustre Vimaranense que foi o fundador da nossa nacionalidade.

Guimarães veste as suas melhores galas.

A Praça do Toural, para onde foi transferida a bela estátua do Rei Conquistador, a Praça de D. Afonso Henriques, transformada num amplo e formoso jardim público, as ruas de S. Dâmaso, Campo da Feira,  Senhora da Guia e rua da Rainha, estarão vistosas decorações, executadas por Emiliano Abreu, segundo desenhos dos nossos distintíssimos artistas e ilustres professores Abel Cardoso e José de Pina.

O Toural será uma página dos Lusíadas, com as estâncias em que Camões cantou os feitos heróicos do Primeiro Português e com escudos onde se comemoram as conquistas e as vitórias de D. Afonso Henriques.

Pelas 11 horas do dia sairá da rua de Paio Galvão

O Cortejo Cívico que deve constituir um dos mais belos números deste programa que será organizado pela ordem seguinte:

I —Dois arautos ladeando o porta-estandarte — cavaleiro vestido à época, conduzindo o estandarte branco de Afonso Henriques.

II —Um grupo de cavaleiros, vestindo como os guerreiros do século XII.

III —Carro Histórico, obra monumental de Abel Cardoso

IV —Charanga de Cavalaria.

V —Corporações dos Bombeiros Voluntários de Guimarães e de Vizela, com algum material adornado.

VI —Banda de música.

VII —Escolas primárias oficiais.

VIII —Carro das escolas.

IX —Banda de música.

X —Grupo da Agricultura, no qual se incorporam os bois premiados na feira gualteriana, grupos de operários de lavoura, carro de alfaias agrícolas, grupo de ceifeiras, espadelada, festada minhota e carro da Casa Herold.

XI —Operários das fabricas de de fiação e tecidos, de camisolas, de pentes, etc, e grupo de raparigas minhotas, cantando.

XII —Carro da indústria, magnífico projecto de José de Pina.

XIII —Banda de música.

XIV —Associações de classe com as suas bandeiras.

XV —Banda de música.

XVI —Associações de recreio, dos Empregados de Com+ercio, Club do Caçadores e Grupo do Propaganda “Por Guimarães”.

XVII —Banda de música.

XVIII—Academia, professorado, Imprensa periódica, Sociedade Martins Sarmento, autoridades civis e militares, Associação Comercial, Câmara Municipal, representantes do Governo e, fechando o préstito, o regimento de infantaria 20 com a respectiva banda de música.

O itinerário do cortejo será o seguinte:

Rua de Paio Galvão, Toural (poente), Praça de D. Afonso Henriques (contornando), Toural (nascente), rua de Santo António até ao Castelo do Guimarães,

No sopé da estátua e no Castelo de Guimarães serão inauguradas inscrições com os seguintes dizeres:

Guimarães a D. Afonso Henriques no VIII centenário do seu nascimento
VI—VIII—MCMXI  

Independente, 22 de Julho de 1911
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24 de julho de 2011

Novo impulso


Os problemas com a preparação da CEC e as dificuldades de relacionamento do Conselho de Administração da Fundação Cidade de Guimarães, primeiro com a cidade, depois com a cidade e com a Câmara Municipal de Guimarães, tiveram o seu desfecho natural na reunião do Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães de 22 de Julho. O entendimento a que se chegou pôs termo a um processo que abriu feridas dificilmente sanáveis, marcando um momento de virar a página e de avançar para uma nova fase do processo, necessariamente com novos protagonistas.

Na reunião, a Câmara Municipal e a Fundação Cidade de Guimarães chegaram a um entendimento, através do qual a até aí Presidente da Fundação cessou funções, sem quaisquer contrapartidas, ressalvando o compromisso da Fundação Cidade de Guimarães em compensar Cristina Azevedo da diferença, caso venha a existir, entre a remuneração que recebia antes de assumir funções na FCG e aquela que venha a auferir na sua futura situação profissional. Ao contrário do que vem sendo dito, nomeadamente através de alguns órgãos de comunicação, não corresponde à verdade que a Presidente da Fundação cessante abandone o cargo com uma elevada indemnização.

Assim se encerrou, com elevação e bom senso, um capítulo de uma história acidentada. Para a solução encontrada, muito contribuíram a inteligência, a capacidade de gerar consensos e a sensibilidade de Jorge Sampaio e de Luís Teixeira e Melo. Também é de justiça realçar a dignidade assumida por Cristina Azevedo num momento que não era fácil.

Vai agora abrir-se um novo capítulo na construção da Capital Europeia da Cultura. Todos sabíamos que não ia ser fácil erguer a CEC, até porque nunca tínhamos feito nada de semelhante. Mas agora não faz sentido que fiquemos a olhar para a sombra do que até aqui correu mal. Importa aprender com os erros, para não os repetir. E seguir adiante.

O passo que se segue é da exclusiva competência dos eleitos da Câmara Municipal de Guimarães. À luz dos estatutos da Fundação Cidade de Guimarães, cabe agora ao Presidente da Câmara propor à vereação o nome do próximo Presidente da Fundação Cidade de Guimarães. É expectável que essa indicação resulte de diálogo com o Secretário de Estado da Cultura e com os vereadores de todas as correntes políticas, de modo a que a solução seja tão partilhada, consensual, transparente e mobilizadora quanto possível.

Ao longo de todo este tempo temos ouvido mil vezes repetida, quase sempre em vão, a palavra envolvimento. Agora temos a oportunidade de demonstrar que somos capazes de a aplicar.

Os estatutos da FCG têm sido, mais do que uma fonte de problemas, um entrave para a sua resolução. A revisão, que compete à CMG e à SEC, deve ser colocada de imediato em cima da mesa, mas não irá a tempo de produzir efeitos antes da tomada de posse do próximo Conselho de Administração, pelo que importa definir com o futuro Presidente do Fundação um conjunto de regras que defendam o interesse público. A começar por não se fazerem nomeações por um tempo que ultrapasse aquele que pode vir a ser o do limite da vida útil da FCG.

Não faço ideia de qual possa ser a solução que vem aí. Apenas sei que não há tempo para esperas, nem espaço para se cair numa situação de vazio. O processo de programação está em curso, há decisões urgentes para tomar, há agulhas que têm que ser acertadas rapidamente, há que instalar a estabilidade no seio da FCG, 2012 está à porta.

Têm a palavra os nossos decisores políticos.

PS: Alguns amigos têm-me colocado dúvidas em relação aos efeitos do acordo de dia 22 de Julho sobre a composição do Conselho de Administração da FCG. Essa interrogação é pertinente e suscitou dúvidas, mesmo entre os especialistas (lá voltamos outra vez aos estatutos, desastrados e desastrosos). A doutrina que prevaleceu foi a de que, com a saída da Presidente da Fundação, presidente, por inerência, do CA, os restantes membros daquele órgão mantêm-se em funções até à designação de novo Presidente da FCG, que nomeará um novo CA (esta é, à luz dos estatutos, uma competência exclusiva do Presidente da FCG, que apenas está obrigado a acomodar no CA o vereador da CMG com poderes delegados na área da cultura). Nada o obriga (e nada o impede) a reconduzir qualquer membro do CA cessante.
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23 de julho de 2011

22 de julho de 2011

Resgate



Céu sem nuvens, sol radioso sobre Guimarães. Um dia magnífico para iniciar o resgate da esperança. Recobrar o ânimo. Acreditar. Ir à luta. O tempo urge, mas é na urgência que esta gente mostra aquilo de que é capaz.
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20 de julho de 2011

"Sou de uma pátria pequenina e sólida chamada Guimarães"

Joaquim Novais Teixeira 
No Outono de 1956, depois de décadas de interdição de regressar à sua terra natal, Joaquim Novais Teixeira voltou a Guimarães. Os seus amigos fizeram-lhe uma homenagem num jantar, no Restaurante Jordão. O homenageado agradeceu num discurso onde realçou a sua condição de vimaranense, antes de tudo o mais. Aqui fica um excerto das palavras que proferiu, que ficamos a dever ao meu amigo Paulo Cunha: 

Guimarães tem sido sempre também uma das constantes da minha vida. Em toda a parte me dou a conhecer como homem de Guimarães E, em toda a parte, me conhecem como tal. 

Quando alguém me pergunta se sou português, é do meu hábito – e da minha verdade – responder:

‘Não, não sou português, sou mais do que isso, sou de Guimarães! Com efeito, sou de uma pátria pequenina e sólida chamada Guimarães, que tem por limite Vizela e Caneiros, a Penha e a Pisca. O resto, meus velhos amigos, é a fronteira de um outro mundo’. 

No amor pelos homens, e na defesa dos seus direitos e dignidade, não reconheço fronteiras. Mas a minha Pátria, a Pátria que me fez vibrar, a minha Pátria autêntica e forte é a Pátria da minha infância, é Guimarães!

Notícias de Guimarães, 7 de Outubro de 1956
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19 de julho de 2011

Epílogo?

Vista geral de Guimarães no início do século XX.

Este é um filme com um argumento complexo, composto por um mosaico de histórias paralelas, algumas delas obscuras, com uma pitada de comédia e doses generosas do mais absurdo nonsense. O enredo é marcado pelo protagonismo dos estatutos, elemento central de um mistério que paira sobre o desenvolvimento da narrativa, funcionando permanentemente como elemento perturbador de qualquer desenlace que se possa adivinhar. Dentro do mistério, um enigma indecifrável: como é que, sendo o que são, passaram pelo crivo dos juristas da Câmara Municipal de Guimarães, do Ministério da Cultura, do Conselho de Ministros e da própria Presidência da República?

Vamos lendo notícias acerca de um conflito entre o Presidente da Câmara Municipal de Guimarães e a Presidente da Fundação Cidade de Guimarães. É visível que existe. Mas há um conflito maior, mais profundo e insanável, que está aberto entre o Conselho de Administração da FCG e a realidade. Há muito que é claro que a Presidente da FCG perdeu a confiança da generalidade dos vimaranenses. A retirada de confiança por parte do Presidente da Câmara é o corolário natural, se bem que tardio, de um processo de decomposição que vai ameaçando seriamente o sucesso da CEC. Agora, todos percebem que a actual presidente da FCG já não tem quaisquer condições, nem réstia de legitimidade, para continuar em exercício. Quem agora lhe retirou a confiança foi quem lha havia dado. O que se espera é um gesto de dignidade na hora da saída de cena, que é inevitável. A cada hora que passa, a situação vai-se tornando mais insustentável e vai ganhando terreno a indicação de que o CA resiste, não pela sugestão de que ainda tenha condições para cumprir o mandato que lhe foi entregue, mas por algo bem mais rasteiro, o apego aos salários desmedidos que os seus membros auferem ou a expectativa de obtenção de indemnizações milionárias. Não quero crer que seja o vil metal a principal matéria que sustenta o argumento deste filme.

Entretanto, convencidos de que estas serão as cenas finais, aguardamos ansiosamente pelos fotogramas onde aparecerá a palavra fim. Fazemos votos para que esta história, já que não foi de proveito, sirva de exemplo. E que, afastando calculismos que podem ter justificado alguns silêncios incompreensíveis, se encontre agora uma solução transparente, consensual e mobilizadora, para fazermos de 2012 um momento de que Guimarães se orgulhe. É muito tarde, mas ainda conseguiremos ir a tempo.
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18 de julho de 2011

Elogio de um pequeno diamante


Vista geral de Guimarães no início do século XX
O meu amigo Francisco Brito encontrou num sermão de Frei Rafael de Jesus (natural de Guimarães, chegou a cronista-mor do reino) uma expressão interessante sobre Guimarães (“não é Guimarães a maior povoação da terra; porém, é Guimarães, a melhor povoação do mundo”). O Sermão foi proferido no dia da Senhora da Assunção (15 de Agosto), provavelmente do ano de 1673, na Igreja da Senhora da Oliveira. Era o segundo sermão que proferia nesse dia, no mesmo local (o primeiro, proferiu-o de manhã) e a frase aparece numa altura em que o pregador explicava as razões que levaram a Nossa Senhora a escolher Guimarães para aí deixar a sua Imagem que ficaria conhecida como a Senhora da Oliveira. Aqui fica um naco do sermão de Frei Rafael de Jesus.

Escolheu a Senhora para sua Imagem a melhor parte da terra, a melhor parte do culto; a melhor parte do título e a melhor parte do tempo. A melhor parte da terra, pelo lugar; a melhor parte do culto, pela Imagem; a melhor parte do título, pelo favor; a melhor parte do tempo, pela ocasião. Digo que escolheu a Senhora para colocação desta Sagrada Imagem a melhor parte da terra pelo lugar; porque se a melhor parte do mundo é a Europa; e da Europa, é a melhor parte Espanha; de Espanha, é Portugal a melhor parte; de Portugal, Entre-Douro-e-Minho; e de Entre-Douro-e-Minho Guimarães. As razões de sua bondade, nos explicam as letras de seu nome: São nove, e não são mais as notas da Arismética. O G, a define grande, pelo populoso dos moradores. O V, valorosa, pelos progressos das armas. O I, ilustre, pela nobreza das famílias. O M, majestosa, pela elegância dos edifícios. O A, antiga, pela incerteza da sua fundação. O R, régia, por berço de tiaras e púrpuras. O segundo A, abundante, pela fertilidade dos campos. O E, excelente, pelo claro dos sujeitos. O S, salutífera, pela benignidade do clima. Esgotando-se em seu nome, e em suas prerrogativas todos os números da Arismética; e se nela quisermos passar adiante, a veremos cifra de toda a perfeição da terra, pois o nome a define grande, valorosa, ilustre, majestosa, antiga, régia, abundante, excelente, e salutífera; vindo-lhe, como de molde a singular definição do Sol, que nas letras de ser, traz o claro do seu ser a solo.
Não é Guimarães a maior povoação da terra; porém, é Guimarães a melhor povoação do mundo: o maior, fá-lo a quantidade; e a qualidade, o melhor, e maior grandeza, é a que resulta da virtude, que a que forma o vulto. (…) Como poderá tirar a Guimarães, ser a maior povoação do mundo, quem vir que é a melhor povoação da terra? Não dá estimação às coisas o muito que avultam, senão o muito que valem; e a não ser assim, não se estimara mais um pequeno diamante, que um grande penedo.
Sermoens varios. Do M. R. P. Prègador Géral, & Cronista Mòr do Reyno, Fr. Rafael de Jesus, Religioso do Princepe dos Patriarchas Sam Bento (…) Prègados em a Curia de Braga pelos annos de 1673, 74, e 75. Lisboa, na Officina Crasbeeckiana,1687, pp. 88-90
Nota: Arismética é o mesmo que Aritmética.
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Frei Rafael de Jesus, por Diogo Barbosa Machado, na "Bibliotheca lusitana”:

Fr. RAFAEL DE JESUS, nasceu em a Vila de Guimarães, recebendo na sua antiga Colegiada a graça baptismal a 2 de Maio de 1614. Foram seus Progenitores Simão Fernandes, e Catarina Mendes, que o educaram tão virtuosamente, que deixado o século buscou o Claustro da augusta Religião do Príncipe dos Patriarcas S. Bento vestindo a monástica cógula em o Convento da Vitória da Cidade do Porto a 2 de Maio de 1629, quando contava 15 anos de idade. Aplicado aos estudos severos saiu neles egregiamente instruído, e como o génio o inclinava para o exercício do púlpito o continuou pelo espaço de vinte anos na Corte de Lisboa, e em varias Cidades de Espanha com geral aplauso dos ouvintes, donde procedeu ser nomeado pela Religião Pregador Geral. A capacidade do talento o constituiu digno de ocupar os lugares de Reitor do Colégio da Estrela em 1665, Procurador geral em a Cidade do Porto em 1668. Abade do Convento de S. André de Rendufe em 1673. Procurador geral na Cidade de Braga em 1676, e D. Abade do Convento de Lisboa em 1679. Não se limitou o seu estudo às letras sagradas, mas discorrendo pelo vasto campo da História saiu nela tão instruído, que mereceu ser Cronista-mor do Reino por Alvará passado a 11 de Novembro de 1681. Faleceu no Convento de S. Bento de Lisboa a 23 de Dezembro de 1693, quando contava 79 anos de idade, e 64 de Religioso.
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