30 de janeiro de 2011

O Vimaranes-Cine (2)


No princípio de Novembro de 1919, o Vimaranes-Cine exibiu os filmes Bailarinas, que não consigo identificar, Vida de Cão, de Charlie Chaplin e Jou-Jou, de Baldassarre Negroni (1916). O jornal Gil Vicente deu a notícia:

"Vimaranes-Cine"

Agradou imenso o programa exibido na passada quinta-feira, no "Vimaranes-Cine (Teatro D. Afonso Henriques).

A formosa película da série de ouro, em 7 partes, Bailarinas, é sem dúvida uma fita de valor e umas das mais comoventes que temos visto.

Charlot vida de cão, conservou o público em contínua gargalhada.


Hoje será exibido o importante filme em 8 actos, Jou-Jou, continuação da impagável fita Charlot vida de cão. 

                                                                            (Gil Vicente, 9 de Novembro de 1919)



Vida de Cão (A Dog's Life), 1918
Autor: Charles Chaplin
Elenco: Charles Chaplin, Edna Purviance e Dave Anderson
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29 de janeiro de 2011

O Vimaranes-Cine (1)

A propósito de teatros vimaranenses, eis uma outra preciosidade, retirada do baú do esquecimento:


Planta do Teatro D. Afonso Henriques (c. 1920). Cortesia do nosso amigo J. M. Torcato Ribeiro.

No início de Novembro de 1919, o teatro de Guimarães, o D. Afonso Henirques, era classificado, numa nota no jornal Gil Vicente, como um pardieiro, onde tudo estava podre, ameaçando ruína: 

"Além de não possuir nada, absolutamente nada do que deve exigir-se numa casa que se destina a espectáculos, tem actualmente o inconveniente sério de não mostrar uma tábua que não tenha sofrido a acção da velhice."

No entanto, foi aí que o empresário Luís do Souto instalou o Vimaranes-Cine.

A sala de espectáculos que aparece representada na imagem que damos aí acima é o Teatro D. Afonso Henriques, na sua versão Vimaranes-Cine, cerca de 1920.
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27 de janeiro de 2011

16 de janeiro de 2011

A implantação República nos jornais de Guimarães (8)


Do Regenerador, de 21 de Outubro de 1910

 
Os nomes das ruas
 
Vai por essas cidades e vilas de Portugal uma delenda Cartago nos nomes antigos dos largos, ruas e travessas.
 
Não sabemos o que tenciona fazer a futura comissão municipal republicana, desta cidade.

Resolverá mudar os nomes às ruas?

Sendo assim, parece-nos que deveríamos voltar ao antigo, por exemplo: a rua da Rainha poderia chamar-se — a rua Sapateira; a de D. João I — rua de Gatos; a rua de Santo António — rua do Mata Diabos; a rua de Camões —rua das Molianas; a praça de D. Afonso Henriques — Campo do Vendaval; a rua de S. Dâmaso — rua de Trás do Muro; etc, etc.

Mas, a sério: há muita gente que ignora a razão que levou as câmaras passadas a porem às ruas os nomes que têm. A rua da Rainha é assim chamada em homenagem a D. Maria II, quando deu a Guimarães o título de cidade. A rua de D. João I comemora a romagem que o Mestre de Avis fez a Nossa Senhora da Oliveira, depois da vitória de Aljubarrota.

Tirar à praça D. Afonso Henriques o nome que tem é delir o nome glorioso do primeiro vimaranense.

Não se deixem, pois, os membros da futura comissão municipal influenciar pelo espírito iconoclasta que pretende destruir as nossas mais belas tradições.

O povo é capaz de não aceitar...
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15 de janeiro de 2011

A implantação República nos jornais de Guimarães (7)


Do Independente, de 15 de Outubro de 1910


Manifesto

O snr. Dr. Eduardo de Almeida, distinto administrador do concelho, fez distribuir há dias profusamente nesta cidade o seguinte manifesto:


AO POVO DE GUIMARÃES

"Causou intensa e profunda comoção a maneira leal o tão correcta como este povo, cujas excelentes qualidades do trabalho são bem características e que, não obstante, durante longos anos foram quase desprezados pelos governos monárquicos — porque atendiam os interesses particulares e não os interesses gerais —, o povo de Guimarães, que sempre se mostrou dedicado até o sacrifício e paciente até ao grau extrema da resignação, acolheu a ideia que um movimento verdadeiramente heróico tornou um facto; o renascimento da Pátria portuguesa com a implantação vitoriosa da República.

Não pode esquecer nunca que todo o regimento de infantaria 20 merece a maia cordial admiração e o nosso mais entusiástico respeito pelo nobre procedimento que adoptou no transe difícil que atravessamos.

O povo do Guimarães, que o próprio amor à nossa querida terra poderia lentamente inutilizar na apatia por um excesso de abnegação, compreendeu que o sangue, o generoso sangue derramado em Lisboa, vinha afinal libertar-nos dum passado tão perniciosamente angustioso e nos dava a garantia do futuro no progresso e no levantamento da Pátria.

É agora, porém, indispensável que todos se compenetrem de que um dos primeiros deveres de todo o cidadão republicano está na manutenção da ordem — sem ordem não pode haver progresso; é necessário que se restabeleça já a normalidade para que todos possam trabalhar.

— O administrador do concelho, Eduardo de Almeida.

 
Jardim do Toural

A banda regimental executa amanhã, se o tempo o permitir o seguinte programa:

(...)

A Portuguesa — A. Keil.
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12 de janeiro de 2011

A implantação República nos jornais de Guimarães (6)


De O Comércio de Guimarães, de 28 de Outubro de 1910


A nova Câmara Municipal de Guimarães

Finalmente, tomou posse na passada quarta feira, 21 do corrente, a nova vereação municipal, nomeada pelo ilustre governador civil do distrito.

(…)

No acto da posse foi, pelo actual presidente do Senado snr. José Pinto Teixeira de Abreu, lida a seguinte alocução:

Senhor Presidente

Acabais de obedecer às instruções governativas dando-nos posse da administração do município deste concelho.

Senhor Presidente

A vaidade não nos cega a nós, obscuros Vimaranenses, até ao ponto de não vermos quão pesado encargo vamos tomar.

Mas no actual momento nenhum de nós, republicanos sinceros, se recusaria a prestar o seu auxílio, ainda que com sacrifícios à causa que desde longos anos nos habituámos a adorar.

Não expusemos, é certo, o peito às balas como os nossos correlegionários da heróica cidade de Lisboa para a implantação do novo regime, mas nem por isso os republicanos de Guimarães, apesar de poucos, mas sinceros, tiveram um momento de desânimo pela fé republicana e pelos seus dirigentes.

Aqui nesta mesma sala nós testemunhámos o quanto como cidadãos livres pugnámos pelo nosso direito de voto e portanto pela República quando nos queriam cercear esse direito.

É ainda o amor fraternal que une a alma republicana que nos anima a arcar com esta tremenda responsabilidade.

A Comissão Municipal não fará política, não fará favores a ninguém, mas fará justiça a todos.

Todos são vimaranenses e a vossa divisa sem trabalhando pela república, pela prosperidade da pátria e especialmente pelos legítimos interesses deste conceito.
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11 de janeiro de 2011

A implantação República nos jornais de Guimarães (5)


De O Comércio de Guimarães, de 11 de Outubro de 1910

 
"O Comércio de Guimarães"

Não se publicou na sexta-feira passada o nosso periódico por ficar sem efeito toda a matéria que estava composta, relativa ao regime findo.

 
NOVO REGIME

Após dias sangrentos, lutas encarniçadas e heróicas, dias de amargura e ansiedade, foi proclamada a república em Portugal.

Após esse dia que marcará uma era importante em a nossa nacionalidade, as manifestações têm-se repetido pelos adeptos ao novo regime, têm-se içado bandeiras, foi enfim proclamada a República.

Quanto sangue derramado, quantas vidas imoladas, dizem que 3 a 4 mil, quantos esforços heróicos e dedicações sinceras tombadas!...

O novo regime não nos apavora. Nele homens há de valor que lutarão pela salvação de Portugal, a nossa única ambição e assim seja a deles.

O nosso periódico, que defendeu sempre um ideal político nobre e altivo, nunca teve em vista ferir pessoalmente.

Advogava ideias, não atacava pessoas.

A confirmar o que deixamos escrito aí estão os arquivos de 27 anos de existência, aonde, é certo, se travaram questões (algumas bem graves) as quais tratamos sempre com aprumo e lealdade.

A nossa pena nunca se moveu a ódios; procurou edificar e não destruir.

Em frente do novo regime, o nosso jornal nunca se esquecerá de pugnar, como o tem feito, pelos interesses morais e materiais de Guimarães, conservará a sua atitude de defensor dos interesses da Pátria e da Igreja.

Será esta a nossa divisa.

O povo tem-nos encontrado sempre a seu lado, nas lutas que julgamos justas, a seu lado queremos viver.

Tudo nos leva a crer que os vencedores de hoje respeitem a crença dos vencidos.

Que uma nova era de paz caia sobre Portugal e a luz divina alumie os seus filhos, são esses os votos que como portugueses e cristãos fazemos.

Vimaranenses:

Por Guimarães, Por Deus e pela pátria.

 
Proclamação da República

Como em quase todas as terras do país, em Guimarães também houve manifestações de regozijo pelos adeptos do novo regime.

Os republicanos têm sido correctos e bastante moderados nas suas manifestações, não havendo, no meio de tanto movimento, uma única nota discordante.

A não ser vivos comentários, discussões e manifestações, nada de anormal se tem passado em Guimarães.

Algumas casas religiosas têm estado policiadas, o que a nosso ver seria desnecessário, pois cremos que os vimaranenses as respeitariam, pois que todas estão no firme propósito de respeitar e fazer respeitar a lei.

No dia 8 foi solenemente proclamada a República nesta cidade.

Foi içada a bandeira na Câmara Municipal, no meio de vivas à República, ao exército, à Pátria, ao povo português, etc., etc.

O largo fronteiro àquele edifício achava-se repleto de povo, bem como estacionavam ali duas bandas de música e a banda regimental que fez a devida continência à bandeira.

Em seguida também foi içada a bandeira no quartel de Infantaria 20, repetindo-se as manifestações de regozijo.

Alguns dias e noites percorreu as ruas da cidade uma marcha "aux flambeaux", vendo-se à sua frente alguns conhecidos republicanos que entusiasmados soltavam vivas e empunhavam bandeiras republicanas.

Em todo o percurso houve boa ordem, debandando tudo sem incidentes.

Alguns edifícios particulares hastearam bandeiras e iluminaram as suas fachadas.

 
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10 de janeiro de 2011

A implantação República nos jornais de Guimarães (4)


De A Restauração, 11 de Outubro de 1910



A nossa orientação


Decerto nenhum dos nossos leitores espera que A Restauração lhe venha dar notícia das alterações políticas da última semana, que já são conhecidas no mundo inteiro. Mas talvez que alguns nos não levassem a bem que deixássemos de expor a nossa orientação relativamente a esses acontecimentos.

A este respeito porem nada temos que dizer. Norteados por princípios que pairam acima de todas as contingências políticas — princípios que nos dominam e em que nós não dominamos — nada temos que alterar no rumo até aqui seguido.

A Restauração, como claramente indica o seu subtítulo, é um semanário católico. Cuidamos que, por mercê de Deus, não temos desonrado essa nobre profissão; e esperamos continuar a honrá-la quanto em nossas limitadas forças caiba.

Como esta profissão é indivisível, nós, para sermos católicos, queremos sê-lo em todas as manifestações da actividade moral, tanto da vida individual como da vida social. Reprovamos pois e combatemos tudo quanto é contrário aos ensinamentos católicos, e só abraçamos e defendemos o que com eles se conforma.

Nomeadamente em política, temos seguido sempre a orientação que nos parece mais harmónica com os grandes princípios da moral e do direito aplicados às circunstâncias sociais em que vivemos. Essa mesma orientação continua remos a seguir: podem mudar — como têm com efeito mudado — estas circunstâncias, e portanto a aplicação daqueles princípios ; mas estes não mudam.

Na república, como na monarquia, cabem excelentes normas de governo: estas temo-las sempre louvado, e louva-las-hemos sempre. Mas em ambas as formas políticas são possíveis os maiores erros: estes nunca nós temos aprovado, nem aprovaremos jamais.

Em suma, o que nos importa, em política, não são as formas de governo, mas sim o modo como dentro delas se governa. Para que este modo de governar seja o que deve ser, é que sempre temos empregado e continuaremos empregando os nossos esforços.

Assim, apesar das grandes perturbações políticas produzidas pela mudança de instituições entre nós, nada temos que alterar à nossa orientação.

Estas palavras que escrevemos agora, ao ser derribada a monarquia e proclamada a república em Portugal, escreve-las-íamos com a mesma verdade, se a mudança fosse em sentido inverso.

É esta uma das vantagens de que gozam os homens de princípios.
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9 de janeiro de 2011

A implantação República nos jornais de Guimarães (3)



Do Independente, 8 de Outubro de 1910



O ADVENTO DA REPÚBLICA

 
Como os leitores já sabem pela leitura dos jornais diários, está definitivamente proclamada a República em Portugal.

Após uma luta heróica entre os revolucionários e as tropas que se conservaram fiéis às instituições monárquicas, triunfou a causa republicana ao cabo de um renhidíssimo combate que se prolongou durante 19 horas.


O governo provisório da República ficou assim constituído:

Presidência, dr. Joaquim Teófilo Braga.

Interior, dr. António José de Almeida.


Justiça, dr. Afonso Costa.


Fazenda, Basílio Teles.


Guerra, António Xavier Correia Barreto.


Marinha, Amaro Justiniano de Azevedo Gomes.


Estrangeiros, dr. Bernardino Luís Machado Guimarães.


Obras públicas, dr. António Luís Gomes.


Com a assistência da Comissão Municipal Republicana, autoridades e outras individualidades, realizou-se hoje ao meio dia no edifício da Câmara Municipal desta cidade a proclamação da República Portuguesa, sendo hasteada nos Paços do Concelho a bandeira da República.


A proclamação foi lida pelo snr. dr. Eduardo de Almeida.


Tudo correu na melhor ordem.


A banda militar do regimento de infantaria n.º 20 e as duas bandas civis desta cidade tocaram a "Portuguesa" durante a cerimónia da proclamação da República.


Em quanto as bandas de música executaram o hino anunciador da implantação da República Portuguesa, os manifestantes, que se encontravam nos Paços do concelho e no largo fronteiro, aclamaram e saudaram com entusiasmo as novas instituições, sendo levantados muitos vivas à Pátria e à República.



Autoridades



O Governo Provisório nomeou governador civil de Braga o snr. dr. Manuel Monteiro, o qual anteontem assumiu as funções do seu cargo.



*


Foi nomeado administrador deste concelho e já ontem tomou posse do seu lugar o snr. dr. Eduardo de Almeida Júnior, distintíssimo advogado nos auditórios desta comarca.

A escolha foi acertadíssima, pois o nomeado ao seu belo carácter alia uma luminosa inteligência, o que tudo faz prever que o novel funcionário há-de desempenhar-se brilhantemente da missão que lhe foi confiada.


Felicitamo-lo cordialmente.
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8 de janeiro de 2011

A implantação República nos jornais de Guimarães (2)


Do Regenerador, de 7 de Outubro de 1910:

 
Por Guimarães

Nesta faina jornalística, em que temos andado, a par da defesa dum partido que julgamos bem intencionado e apto para bem governar o país, tivemos sempre esta preocupação — sermos úteis à nossa terra, promovendo o seu engrandecimento, ora lembrando o que lhe era útil, ora censurando em gazetilhas ligeiras e inofensivas o que nos parecia digno de censura.

Nunca a nossa pena se moveu por ódios pessoais nem por intransigências dum partidarismo faccioso.

Então, como hoje; hoje, como sempre, nós pusemos ao servido desta terra onde nascemos os minguados recursos da nossa inteligência e o esforço da nossa boa vontade.

Como há sempre quem malsine as melhores intenções e de tudo faça política, nem sempre se nos fez justiça. A maldade humana vê sempre oculto nas dobras dos mais belos empreendimentos o espírito de ganância, o desejo de figurar, o mercantilismo torpe, a vaidade balofa e estulta.

Deixá-la!
*

A pátria portuguesa está passando por um dos momentos mais notáveis da sua existência histórica.

Baqueia um regime que contava 8 séculos de vida, em que houve dias venturosos, como os das conquistas sociais de Afonso Henriques, das lutas pela independência de D. João I, das aventuras marítimas do tempo de D. Manuel, da restauração de D. João IV; e momentos de amargura, como o desastre de Alcácer-Quibir, os 60 anos de dominação espanhola e a decadência que se acentuou em diferentes épocas da nossa história.

Não é sem uma certa tristeza que vemos baquear a instituição monárquica e arriar a linda bandeira azul e branca, em que se ostentavam as Quinas que afirmaram ao longe e ao largo o espírito aventureiro dos nossos nautas e o valor heróico dos nossos guerreiros.

Mas não nos apavora o sistema republicano.

Homens de ordem e de paz, acatamos, como é do nosso dever, o governo legitimamente constituído e que represente a vontade da maioria da nação.

O que queremos é que haja o respeito por todos os direitos e que todos cumpram o seu dever patriótico.

O que desejamos ardentemente é que os homens que estão à frente dos negócios deste velho Portugal afirmem ao mundo civilizado talento e rectidão de intenções, promovendo o progresso e o engrandecimento da Pátria.

Que Deus continue a proteger o torrão abençoado em que nascemos!

Que as bênçãos do Céu desçam sempre sobre a terra bendita da Pátria!

Nós, vimaranenses, devemos sempre pugnar, principalmente, pelo progresso desta nossa terra; mas para isso é necessário que nos unamos e vivamos como irmãos, afastando os ódios, que separam, os sentimentos de inveja e de rancor que nos aviltam.

Seja o nosso lema — "Por Guimarães!"



*~*~*

Proclamação da República

Depois de renhida luta, em que, segundo consta, morreram muitas pessoas, foi proclamada a república em Lisboa (…).

Ontem alguns partidários do novo regime saíram para a rua, à noite, em manifestação, indo ao quartel de infantaria 20.
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6 de janeiro de 2011

A implantação República nos jornais de Guimarães (1)



Do Notícias de Guimarães, de 6 de Outubro de 1910:

LISBOA EM REVOLUÇÃO

Pelas parcas informações até nós chegadas pelos jornais do Porto, apenas podemos apresentar, como boato, a nossos prezados leitores, que alguns exércitos de Lisboa, juntamente com grande número de populares tentam impor à Monarquia novas instituições em pró da liberdade; isto é, proclamar a república.

O letíferos passos que imprudentemente el-rei dera, são a causa, talvez irremediável, da queda vergonhosa da secular monarquia que tanto trabalho e sangue custou ao nosso filho e grande rei D. Afonso Henriques.

As notícias, vindas ate nós, são todas desfavoráveis à monarquia, nem uma só a acompanha em favor.

Daí o desânimo quase geral que, com intensidade assombrosa se apodera dos monárquicos, até dos da província.

Conversas a que temos assistido, todas reflectem a indiferença pela mudança de regime, tal desgosto que entre todos, em geral, lavra.

Isto o que podemos assegurar aos nossos leitores, como certo. O que se está, a esta hora, passando em Lisboa, é-nos Inteiramente desconhecido, por o telégrafo estar cortado de Lisboa ao Porto.

Sabe-se, porém, que a bandeira republicana está hasteada em vários pontos de Lisboa e em diversos vapores, tendo a marinha de guerra salvado com 31 tiros o seu içamento — prova eloquente de que está ao lado dos revoltosos.

Também é do domínio dos informadores e dos que leram os jornais de terça-feira da capital, que vários mortos e feridos têm havido de parte a parte, e entre eles grandes individualidades civis e militares.

Aguardemos os acontecimentos que esses fiel e iniludivelmente nos mostrarão debaixo de que regime é regido o nosso desditoso Portugal.

Oxalá a solução destes gravíssimos acontecimentos seja a mais satisfatória e redentora para a nossa querida Pátria desventurado, que sincera e profundamente respeitamos e amamos.

À ÚLTIMA HORA
A REPÚBLICA EM PORTUGAL

Está definitivamente constituída a mudança de regime, no nosso país.

Antes que o passo fosse decisivo, o coração do exército português que era, insofismavelmente, fiel às Instituições, hoje apagadas, bateu-se como um herói, e como um herói sacrificou o último alento.

Foi, porém, em vão, vertida essa caudalosa corrente de sangue em holocausto, em defesa do regime que, pelos monárquicos, tinha sido arremessado ao descrédito e por eles sujo, deixando-o quase exausto, sem forças, tornando-o, portanto, impossível de vida. Eis porque, a república em Portugal hoje é um facto, ficando o ministério provisório assim constituído:

Presidente — Teófilo Braga
Interior — António José Almeida
Justiça — Afonso Costa
Estrangeiros — Bernardino Machado
Guerra Coronel — Xavier Barreto
Marinha—Capitão de mar e guerra Azevedo Gomes
Fazenda — Basílio Teles
Obras públicas — António Luís Gomes.

Com o que, portugueses, que ontem éramos monárquicos, não havemos de ensarilhar armas, mas sim unidos e com denodo e energia, trabalhar e combater pelo bem da pátria e do povo, simbolizado no actual regime.
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