30 de outubro de 2010

Esclarecimento


A propósito das notícias acerca das retribuições pagas pela Fundação Cidade de Guimarães que têm vindo a público e que amplificam rumores e especulações que vão circulando, nomeadamente pela Internet, alguns dos quais particularmente ofensivos e injustos, tenho a esclarecer, pela parte que me toca, o seguinte:

1. Faço parte do Conselho Geral da Fundação Cidade de Guimarães em representação da Sociedade Martins Sarmento, por designação da Câmara Municipal de Guimarães, sufragada em reunião da vereação.

2. Não tive qualquer participação na definição da política remuneratória da FCG, da qual apenas agora tomei conhecimento (até aqui, apenas conhecia o valor das senhas de presença dos vogais do Conselho Geral da FCG).

3. Integro a direcção da Sociedade Martins Sarmento há 20 anos, exercendo as funções de Presidente da Direcção desde meados de 2004, sem nunca ter recebido um cêntimo de retribuição pelo trabalho que desenvolvo na instituição (antes pelo contrário, já que continuo a pagar as minhas quotas anuais de sócio da SMS).

4. Por entender que a minha condição de membro do CG da FCG resulta de representação institucional da Sociedade Martins Sarmento, assumi, desde sempre, que qualquer verba por mim recebida a título de senhas de presença em reuniões reverteria para a instituição que represento, pelo que não retiro qualquer benefício pessoal, grande ou pequeno, da minha presença naquele órgão, que aceitei integrar com o único propósito de contribuir para que a Capital Europeia da Cultura seja um acontecimento no qual os cidadãos de Guimarães se revejam.

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29 de outubro de 2010

A CEC2012 e a Comunicação - Uma reflexão que se impõe

 
Nem todos teremos reparado, mas já passaram quatro anos sobre o anúncio de que Guimarães seria Capital Europeia da Cultura no, então ainda distante, ano de 2012. A cidade recebeu a boa nova com assombro não disfarçado e manifesto encantamento. Um dos responsáveis pela selecção das cidades capitais da cultura, Robert Scott, classificaria a indicação de Guimarães como uma "oportunidade fantástica" para a cidade. Guimarães fez questão de dizer que não a iria desperdiçar. A mobilização foi instantânea. Antecipando o chamamento geral, os vimaranenses disseram presente. E, desde logo, ia ficando claro, no discurso dos responsáveis, que se evitariam erros passados.

Por aquela altura, alguém notou que a verdadeira dimensão do sucesso de 2012 só se avaliaria quando, com distanciamento bastante, porventura em 2020, olhando em volta, se perceber o que a Capital Europeia da Cultura terá mudado em Guimarães. Ainda estamos longe dessa avaliação que, estou certo, será francamente positiva. Agora, é o tempo para fazer o que faz falta ser feito para que, no futuro, 2012 fique registado, à imagem de 1884, como um momento de viragem na história da nossa cidade. O comboio já está em marcha, o tempo é escasso e ninguém deve ficar de fora, porque todos fazemos falta.

Não sendo tempo para avaliações, este pode ser um momento para acertar agulhas, perceber o que funciona e o que não funciona, afinar estratégias e reorientar o rumo.

Se há matéria que vai provocando inquietações e perplexidades a quem observa com suficiente distanciamento, situa-se no plano da comunicação. A praxis de comunicação da CEC parece ter uma orientação desarticulada, funcionando, quase sempre, por impulso, em cima do joelho, sem estratégia nem linha de rumo definida. Não é compreensível que, com o orçamento de que dispõe, a comunicação da Capital Europeia da Cultura funcione em bases próximas do amadorismo, no sentido menos nobre da palavra.

Olhando para o que se conhece do que está a ser feito, verifica-se que, em geral, o conhecimento público é muito escasso. Dá ideia de que a visibilidade e a transparência não são preocupações presentes na organização da CEC. Se não se conhece, não será porque não esteja a ser feito, mas simplesmente porque não chega ao conhecimento. Porém, passe o lugar comum, o que escapa ao conhecimento é como se não existisse. Salta aos olhos que a CEC tem um problema de comunicação, em geral, e de comunicação e partilha com Guimarães e os vimaranenses, em particular.

Atentemos os principais momentos de visibilidade pública ocorridos até hoje, desde que ficou definido o modelo de governo da CEC, com a criação da Fundação Cidade de Guimarães, em meados de 2009:

1. Apresentação oficial da Capital Europeia da Cultura (sessão solene no CCVF e espectáculo multimédia na Praça da Oliveira), a 14 de Julho de 2009: teve repercussão assinalável, tanto nos meios de comunicação nacional e local, como na mobilização dos cidadãos.

2. Conferência de Eduardo Lourenço, na Sociedade Martins Sarmento, a 23 de Janeiro de 2010: organizada em cima da hora, sem divulgação local, não se chegou a perceber se era de acesso público ou por convite. Foi notória a presença de inúmeros convidados vindos do Porto e a ausência de pessoas de Guimarães, que se sentiram esquecidas. Uma oportunidade perdida, naquela que tinha tudo para ser uma excelente iniciativa de apresentação pública da FCG à cidade.

3. Apresentação da marca da CEC, no Centro Histórico, a 28 de Julho de 2010: para além de notória descoordenação, a iniciativa não foi capaz de mobilizar a adesão do público, facto que não será alheio o momento escolhido. Conhecendo um pouco melhor a realidade vimaranense, não era preciso muito para dar àquele evento uma visibilidade significativamente maior entre a população: bastava fazê-lo coincidir com um dos momentos fortes das Gualterianas, que estavam à porta.

4. Campanha publicitária, a nível nacional, com anúncios que mostravam uma praia algarvia vazia no Verão de 2012, durante o mês de Agosto de 2010: se a ideia era provocar polémica, a campanha terá sido um sucesso. Todavia, uma vez que não afirmava o que pretenderia promover, a campanha não promoveu absolutamente nada. Falou-se dos anúncios, é certo, mas não pela afirmação positiva da CEC, apenas pela polémica desnecessária e inútil, muito ao gosto da silly season.

Não deixa de ser esclarecedor que o único momento de partilha pública da CEC com a cidade em que a comunicação funcionou bem (a apresentação de Julho de 2009), tenha acontecido antes da entrada em funcionamento da FCG, tendo sido assumida, com reconhecida competência, pelo sistema de comunicação da Câmara Municipal. Se essa estrutura existe, está bem oleada e se funciona, porque é que não é chamada a colaborar na divulgação da CEC, pelo menos até que a FCG consiga montar uma máquina capaz de dar resposta cabal à exigente tarefa de bem comunicar? Aliás, não se chega perceber qual possa ser a necessidade de duplicar meios para que as coisas não funcionem melhor do que antes.

Na ausência de uma estrutura de comunicação eficaz, até actividades desenvolvidas por áreas da programação da CEC que estão a fazer um trabalho no terreno reconhecidamente positivo, acabam por ver diminuído o seu impacto. É o caso das iniciativas da área de Comunidade: as suas actividades de aproximação à cidade, como as exposições realizadas no Paço dos Duques e no Estádio, ficaram longe do alcance público que mereciam, porque não chegaram atempadamente ao conhecimento da generalidade dos eventuais interessados. Deve apostar-se num esforço de maior abertura à população, mesmo em iniciativas que têm como principal destinatário um público específico. Não será um desperdício de meios e de oportunidades, por exemplo, trazer a Guimarães alguém com a dimensão de Cláudio Torres, para o pôr a falar para uma sala repleta de cadeiras vazias?

Nos tempos que correm, é vital a utilização da Internet como veículo de comunicação institucional. Trata-se de um meio de acesso universal, ágil e de actualização permanente. As páginas web são, cada vez mais, os rostos das instituições. Acontece que a página de Guimarães 2012 dá uma imagem muito pobre do que poderá vir a ser a Capital Europeia. Quem a ela aceda, no momento em que escrevo, lerá, por exemplo, o anúncio de que nos próximos dias 16 e 17 de Outubro (em 2011, portanto) decorrerá o "Fórum Guimarães - Uma Alma para a Europa". Sucede que esse evento ocorreu em 2009. Um jornalista que ali procure informações, apenas encontrará, no espaço reservado à imprensa, um texto em latim, sem sentido. Se descarregar o único documento que se disponibiliza, será confrontado com uma fotografia intrigante de duas jantes de automóvel. E o resto não é mais animador: na agenda, encontra zero agendamentos; na área de clipping (recortes de imprensa) a notícia mais recente que encontrará tem a data de 19 de Outubro de 2009.

Recentemente, ficou claro que, na FCG, no que toca à comunicação com a cidade, ainda persiste um incompreensível desconhecimento da realidade local. Tendo Guimarães uma assinalável densidade de órgãos de comunicação, diversos nos meios, nos públicos e nas orientações, a assinatura de um protocolo de parceria com um único grupo de comunicação apenas poderia ter uma consequência: despertar o descontentamento, a desconfiança e a animosidade de quem ficou de fora. Conhecendo a realidade vimaranense, só alguém muito ingénuo poderia imaginar algo de diferente. Em Guimarães, qualquer pessoa de boa fé diria que uma iniciativa como aquela seria um tiro no pé, com efeitos contraproducentes no objectivo de ganhar aliados para a mobilização da população. O que leva a concluir que a FCG, no que toca à comunicação, poderá estar a funcionar em circuito fechado e que, porventura, não andará bem aconselhada.

Uma estrutura formal de acompanhamento do processo de programação, composta por entidades externas à FCG, conhecedoras da realidade em que nos movemos, cuja criação está, aliás, prevista no programa apresentado em Bruxelas, poderia contribuir para a prevenção de passos em falso dispensáveis.

É certo que o tempo urge, mas ainda é possível acertar a agulha. Para tanto, não é preciso inventar nada. Bastará levar à prática aquilo que também está previsto no documento de candidatura ao título de Capital Europeia da Cultura: criar uma equipa de comunicação ágil e eficaz, de inquestionável experiência e profissionalismo, e gizar, com recurso a "um conjunto de peritos e especialistas", um plano de comunicação que, em todos os momentos do processo, transmita "uma única imagem de projecto – um projecto emblemático, que se assume como capitalidade e com impacto a longo prazo". Esse plano deverá ter entre as suas preocupações a de "favorecer o contacto, a aproximação e a participação activa das forças vivas locais no desenvolvimento da execução do evento". Até ao momento, não é visível que o plano de comunicação da CEC exista. Se existe, não funciona. Não será por falta de tempo, nem de orçamento.

A cidade e os cidadãos têm que voltar a ser ganhos para o objectivo de 2012. É preciso acrescentar, ao orgulho de ser de Guimarães, o sentimento de pertença à Capital Europeia da Cultura. É urgente investir na comunicação, feita com imaginação, criatividade e inteligência, para envolver neste desígnio colectivo entusiasmante o nosso património mais valioso: as pessoas.

Uma última nota. Na passada sexta-feira assisti à reunião de associações locais onde foi apresentado o programa "Tempos Cruzados", que visa agregar as contribuições do movimento associativo de Guimarães para a CEC. A certa altura, dei-me conta de que, em diversas intervenções, havia referências a "eles", aos que estão "lá em cima", e a "nós". "Eles", os de lá de cima, eram os responsáveis da FCG, instalada no Monte Cavalinho. "Nós", os de cá de baixo. É esta uma das ideias que as boas práticas de comunicação devem desfazer rapidamente. Aqui, não deve haver nós, nem eles. A CEC é de todos. E todos não seremos demais.


[Texto publicado no Notícias de Guimarães, edição de 29 de Outubro de 2010]
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10 de outubro de 2010

5 de Outubro de 1910: o princípio e o fim do “Correio de Guimarães”


"E o Porto e a província? -pergunto eu ao Chagas. - Que me importa a província! Que importa mesmo o Porto! -A república fazemo-la depois pelo telégrafo."

Raul Brandão, Memórias I


Tendo a revolução republicana arrancado no dia 4 de Outubro de 1910, a proclamação da República aconteceu em Lisboa, já no dia 5. Os primeiros jornais do Porto com notícias da queda da monarquia em Lisboa chegaram a Guimarães na manhã do dia 6. Entretanto, já circulavam, por entre rumores e boatos que o corte do fio do telégrafo entre Lisboa e Porto ajudava a alimentar, informações sobre algo de grave que estaria a acontecer na capital. O primeiro jornal a dar a notícia da revolução em Guimarães usava o título de Notícias de Guimarães, e era de orientação monárquica, tendência progressista. Aí se escreveu:

"Pelas parcas informações até nós chegadas pelos jornais do Porto, apenas podemos apresentar, como boato, aos nossos prezados, que alguns exércitos de Lisboa, juntamente com grande número de populares, tentam impor à Monarquia novas instituições em pró da liberdade; isto é, proclamar a república."

Acrescenta o redactor que, das notícias que chegavam, nenhuma era favorável à monarquia. A bandeira republicana já estaria "hasteada em vários pontos de Lisboa, tendo a marinha de guerra salvado com 31 tiros o seu içamento". A fazer fé nestas informações, a monarquia em Portugal era já uma causa perdida.

A imprensa ainda era, à época, o único meio de comunicação social existente, assumindo uma enorme importância na formação da opinião pública, não obstante os elevados índices de analfabetismo então vigentes em Portugal.

E Guimarães sempre foi terra especialmente abundante em jornais. Durante o ano de 1910, contam-se onze títulos de jornais, entre os projectos que vinham de trás, os que nasceram e aqueles que se extinguiram ao longo daquele ano. Nas vésperas do 5 de Outubro, publicavam-se aqui seis jornais (Comércio de Guimarães, Independente, Imparcial, Restauração, Regenerador e Notícias de Guimarães). A estes, irá juntar-se um novo título, o Correio de Guimarães, que se apresnetou como órgão local do Partido Pogressista, com João Rocha dos Santos como director e o Capitão Alcino Machado como administrador. Este projecto jornalístico resultava de uma cisão do Partido Progressista vimaranense (Rocha dos Santos figurara, até Agosto desse ano, como redactor político no cabeçalho do Notícias de Guimarães).

Aliás, a proverbial abundância de jornais nesta terra foi o tema de uma crónica de sabor picaresco publicada no Correio de Guimarães, assinada por um tal "Caracoles", onde se fala do "abençoado berço da monarquia, onde os jornalistas brotam espontaneamente, como o escalracho nas hortas" e onde se lê:

"A verdade é que, quando fora de Guimarães se diz que em uma cidade tão pequena se publicam seis jornais, ouvem-se logo as perguntas:

Nessa cidade cultivam-se as letras com esmero? É um meio académico, um alfobre de intelectuais?

Ora a verdade é que não temos cá chocadeira, nem alfobre de espécie alguma! Aqui o jornalista nasce e corre para a imprensa, como os patinhos correm para a água com a casca do ovo ainda colada no sim-senhor!"

A abrir o seu primeiro número, o Correio de Guimarães anunciava os seus objectivos, centrados na defesa da ideia da monarquia, que por aqueles tempos atravessava uma crise cada vez mais insustentável:

"Sendo progressistas, somos também monárquicos, e hoje mais que nunca, a monarquia que por covardia ou inconsciência se entregou confiadamente na mão dos exploradores que desde há muito cobiçavam a presa, carece de monárquicos.

Mal parece dizê-lo, mas a verdade insofismável é que os mais interessados em que se mantenham as instituições vigentes as entregam vergonhosamente aos seus adversários.

Não vale até muito a pena ser monárquico num país como este onde é quase um crime, professar ideias monárquicas."

Ironicamente, o Correio de Guimarães, que nasceu com o firme propósito de defender a monarquia, veio a público no preciso dia em que se implantou a República em Portugal. E, assim como nasceu, assim se finou, ficando-se pelo primeiro número, uma curiosa raridade que se conserva na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento.

A queda da Monarquia não implicou a extinção dos jornais monárquicos: apenas desapareceram, naturalmente, aqueles que estavam vinculados a partidos políticos do antigo regime, entretanto extintos. A par dos projectos de imprensa republicana que, após o 5 de Outubro, se reactivaram, como A Alvorada, de A. L. de Carvalho, ou nasceram, como A Velha Guarda, de Mariano Felgueiras, não faltaram, ao longo dos dezasseis anos que durou a Primeira República, jornais de orientação monárquica, alguns deles afinados pela pauta do radicalismo, como aquele em que viria a estar envolvido, também como director, o próprio João Rocha dos Santos (que, no tempo de Salazar, exerceria as funções de Presidente da Câmara Municipal de Guimarães), com o título de Ecos de Guimarães (1914-1928).

Com o nascimento e a morte do Correio de Guimarães no dia 5 de Outubro de 1910 escreveu-se uma página singular na riquíssima história da imprensa vimaranense: uma página escrita fora do tempo.

[Texto publicado em O Povo de Guimarães, edição de 8 de Outubro de 2010]
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