24 de junho de 2010

Guimarães, 24 de Junho de 1128

 
Luís de Camões
 
Mas o Príncipe Afonso, que desta arte
Se chamava, do avô tomando o nome,
Vendo-se em suas terras não ter parte,
Que a mãe, com seu marido, as manda e come,
Fervendo-lhe no peito o duro Marte,
Imagina consigo como as tome.
Revolvidas as causas no conceito,
Ao propósito firme segue o efeito.

 
De Guimarães o campo se tingia
Co'o sangue próprio da intestina guerra,
Onde a mãe, que tão pouco o parecia,
A seu filho negava o amor e a terra.
Com ele posta em campo já se via;
E não vê a soberba o muito que erra
Contra Deus, contra o maternal amor;
Mas nela o sensual era maior.

 
Ó Progne crua! ó mágica Medeia!
Se em vossos próprios filhos vos vingais
Da maldade dos pais, da culpa alheia,
Olhai que inda Teresa peca mais:
Incontinência má, cobiça feia,
São as causas deste erro principais:
Cila, por uma, mata o velho pai,
Esta, por ambas, contra o filho vai.

 
Mas já o Príncipe claro o vencimento
Do padrasto e da iníqua mãe levava;
Já lhe obedece a terra num momento,
Que primeiro contra ele pelejava.
Porém, vencido de ira o entendimento,
A mãe em ferros ásperos atava;
Mas de Deus foi vingada em tempo breve:
Tanta veneração aos pais se deve!

 
Luís de Camões, Os Lusíadas, canto III, Estrofes 30-33
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20 de junho de 2010

A servidão de Cunha e Ruilhe (18)




As autoridades de Guimarães enviaram ao rei a sua posição, que era a favor de que se mantivesse a tradição. No entanto, não conseguiram mostrar a famigerada provisão de D. João I que teria instituído a servidão dos moradores (ou dos vereadores) da Vila de Barcelos, que posteriormente teria sido transferida para as freguesias de Cunha e de Ruilhe.

 
"E visto o que alegaram e constou das informações do Provedor da Comarca da dita Vila de Guimarães, ouvidos os oficiais da Câmara dela, e remetendo a cópia da primeira obrigação que os suplicantes fizeram, e por não satisfazerem com os documentos em que fundavam a sua resposta, foram por especial ordem minha notificados para que os juntassem, ao que não satisfizeram; e pretenderam ser nesta Corte ouvidos, para o que se mandou ao Corregedor do cível da cidade Simão da Fonseca e Sequeira, que no termo de oito dias os ouvisse, e com o que os supraditos disseram, novamente os suplicantes representavam, tendo outrossim já sido ouvida a nobreza e povo da dita Vila de Guimarães, que requereram e pediam se conservasse a dita servidão, como privilégio concedido à Senhora da Oliveira da mesma Vila, e que sobre a posse dela os poderiam, os suplicantes, demandar pelos meios ordinários."
(Da Provisão de D. João V de 24 de Julho de 1843)

 
Note-se que a nobreza e o povo de Guimarães, ao solicitarem a D. João V que mantivesse o tributo da vassoura, utilizaram, pela primeira vez até então, o argumento de que seria um "privilégio concedido à Senhora da Oliveira".

 
A petição dos moradores de Cunha e Ruilhe foi enviada ao rei em 1734. Em Fevereiro desse ano, já o Senado de Guimarães havia mandado lançar no respectivo livro de registos a sua resposta a um requerimento d os moradores daquelas duas freguesias sobre a obrigação de varrerem a praça e açougue desta vila de Guimarães. Demoraria quase 10 anos até que o rei lavrasse a sentença que extinguia em definitivo a servidão da vassoura:

 
«Hei por bem extinguir esta ignominiosa servidão, e que sobre a continuação dela se não admita requerimento algum de novo e se ponha perpétuo silêncio nos que houver.
(Da Provisão de D. João V de 24 de Julho de 1843)
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19 de junho de 2010

A servidão de Cunha e Ruilhe (17)



 

Em 1734, os moradores das freguesias de S. Miguel de Cunha e de S. Paio de Ruilhe apresentaram ao rei D. João V uma petição para que os libertasse da servidão (a que também chamam de escravidão) a que estavam sujeitos havia muito tempo. As razões que justificam esta iniciativa estão transcritas na provisão que o rei acabaria por passar em 24 de Julho de 1743:

 
(…) "havia 300 anos se achavam obrigados pela Câmara da vila de Guimarães a uma servidão injuriosa de irem sete vezes no ano a varrer a Praça, Terreiro e açougue da mesma vila, por cada vez três homens das ditas freguesias, a quem cabia por distribuição, aos quais vestiam na Câmara uma opa vermelha e barrete da mesma cor, de que caía uma ponta até ao talabarte e a espada que levavam e a metiam em um cinto armado às esquerdas, e os faziam descalçar um pé, ficando com o outro calçado, pondo-lhe ao cinto o sapato e meia que tinham descalçado, e sendo conduzidos por um guarda, que havia para isso deputado, os faziam exercer naquela vil servidão, assim como os das galés, estando os suplicantes sujeitos a ir varrer ainda que debaixo de grandes penas, com que eram vexados na falta de assim servirem, padecendo grandes injúrias e ludíbrios de grupos dos rapazes e outras semelhantes, nas ocasiões desta sua servidão, e a qual se dizia, era fundada por uma sentença que havia do Senhor Rei D. João o Primeiro, e tinham os vereadores da dita vila de Guimarães em seu poder, por haverem estes suprido a falta, que não chegara a ocupar por medo ou fraqueza a ordenança de Barcelos, sendo-lhe destinado o sitio ou estância para o assalto da praça de Ceuta, por cuja causa proviera aos vereadores da dita vila de Barcelos esta servidão; e o Conde da mesma vila pelos livrar, a impusera aos suplicantes, que sendo nesse tempo do termo da dita vila de Barcelos, fizera passar as ditas freguesias para o termo da vila de Guimarães; sendo certo que, se acaso havia a dita sentença, não podia ser justo título para a servidão em que os suplicantes se achavam, porque se os vereadores da dita vila de Barcelos tinham, como se dizia, sido condenados na dita servidão, não deviam padecer os suplicantes a pena, pois nas matérias penais não havia nem podia haver extensão.

 
(…) E porque os ditos Vereadores da Vila de Guimarães mais obrigavam os suplicantes, para final reconhecimento da sua servidão, com vestes e insígnias ignominiosas, do que por haver daquela limpeza necessidade, pois os lavradores a faziam, por conveniência própria das suas fazendas, mandando quotidianamente varrer as ruas, praças, terreiros e açougue."
(Da Provisão de D. João V de 24 de Julho de 1843)

 
Neste documento já aparece toda a história que depois se repetiu tantas vezes: que a origem da servidão estava relacionada com a tomada de Ceuta e que, depois, tinha sido passada pelo Duque de Bragança (sem especificar qual, se D. Afonso ou D. Jaime) para os moradores das freguesias de Cunha e Ruilhe, que foram transferidas com tal encargo para o termo de Guimarães. Aparece também claro que a insistência dos de Guimarães em manterem aquela tradição vexatória nada tinha a ver com a necessidade de prover á limpeza da vila (que era assegurada pelos lavradores), mas com o intuito de fazerem prevalecer.
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18 de junho de 2010

A servidão de Cunha e Ruilhe (16)





Em presença dos motivos alegados pelos dois moradores de S. Miguel de Cunha que, por serem caseiros de Gabriel Pereira de Castro, em 1608, pretendiam ser isentados a obrigação de irem varrer as ruas de Guimarães nas vésperas dos dias festivos, foram notificados o "juiz e vereadores e procurador e mais oficiais da câmara da dita vila de Guimarães", que responderam por escrito, argumentando que:

 
"(…) se quem fizera a petição do agravo que os agravantes apresentaram fora sabedor da muita verdade com que os moradores de Cunha e Ruilhe eram constrangidos a varrerem a praça da dita vila não dissera que era patranha a dita obrigação pois a verdade era que de dez, vinte, trinta, quarenta, cinquenta, cento, duzentos, trezentos anos e mais e tempo imemorial sempre o sobredito se guardara infalivelmente e nunca pessoa das ditas freguesias foram escusadas de irem varrer por ser tributo devido e obrigação particular que as ditas duas freguesias tinham e deviam à dita vila e nenhuma outra pessoa era obrigada ao dito tributo e dívida senão todos os moradores das ditas freguesias o porque foram apartadas do concelho com o dito especial encarrego com o qual cumpriram até agora e os que faltavam com a dita obrigação sempre foram constrangidos pelos oficiais da câmara da dita vila de Guimarães com penas que sempre pagaram e sem contradição de pessoa alguma como tudo largamente constava pelo instrumento que se apresentaria a seu tempo. E tanto era o sobredito assim que as mesmas duas freguesias sem mais mandado algum entre si faziam repartição de giro dos que haviam de ir varrer e aqueles a que sucedia os tais iam varrer roda e giro como foro que deviam de dívida particular à dita vila de Guimarães em pena de certa falta que seus antepassados fizeram de maneira que a dita pena pensão dívida e obrigação estava adquirida à dita vila e em fazenda bens e proveito e honra sua que tinha sobre os moradores das ditas duas freguesias que lhe não podia ser tirada pelo dito modo de agravo por não ser caso dele senão de apelação conforme a ordenação deste reino e se os ditos agravantes pretendiam alguma coisa deviam obrigar os agravados e a dita vila ordinariamente e que quanto ao que os ditos agravantes requeriam como caseiros que diziam que eram do doutor Gabriel Pereira de Castro meu desembargador nesta Relação e casa do Porto se respondia que se não apresentava por eles coisa que justificasse seu requerimento (…).
 
(do Acórdão do Tribunal da Relação do Porto, de 10 de Junho de 1608)

 
Repare-se que na resposta da parte de Guimarães, no que toca à origem desta servidão, não há qualquer referência a Barcelos nem a Ceuta. Diz-se que a mesma vinha de "tempo imemorial", de há "trezentos anos e mais" e que resultava, note-se bem, "de certa falta que seus antepassados fizeram".

 
A sentença seria favorável aos interesses defendidos pelos de Guimarães: no seu acórdão, o Juiz da Relação não dá provimento às pretensões dos dois caseiros da honra de Cunha.

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“Guimarães, onde prendem a gente e soltam os cães”



No seu diálogo A Visita das Fontes, encontrámos a seguinte referência a Guimarães, no diálogo entre o Soldado e a Fonte Velha, de D. Francisco Manuel de Melo (págs. 351 e 353 da edição de 1962):

 
SoldadoEscusai de o dizer, que por vós o diz a cantiga.
Fonte Velha — Donde diz?
Soldado De Guimarães, donde prendem a gente e soltam os cães.

 
Esta associação, nos ditos populares, de Guimarães aos cães, que encontramos mais vezes, tem pouco ede histórico e muito de facilidade na rima. A propósito desta passagem, onde se refere Guimarães como terra onde prendem a gente e soltam os cães, escreveu Giacinto Manuppella, que editou aquela obra:

 
"Uma referência pouco lisonjeira ao que nós chamamos Justiça de Guimarães vem também na "Arte de furtar" (pág. 310 da ed. de Lisboa, 1937). O adágio em epígrafe não anda no conhecimento do povo vimaranense, pelo menos modernamente; mais parece, portanto, um subproduto da má-língua literária dos séculos passados, que facilmente enfileirou com numerosos outros ditados em que a consonância de Guimarães e cães não deixou de sugerir epigramáticas zombarias. No caso específico, porém, trata-se de uma justiça de Guimarães, evidentemente pouco criteriosa e bastante paradoxal, de cujas façanhas se perdeu a memória histórica; a não ser que o adágio surgisse como anónimo e espontâneo comentário a uma só, famigerada sentença judicial lavrada em Guimarães com tao pouco siso que bradou ao céu e engendrou nos espíritos essa desconfiança na justiça vimaranense que bruxuleia no irónico adágio. À falta de explicações historicamente averiguadas, o estudioso encontrará uma compensação adequada na leitura do elegante e saboroso ensaio de Alberto Vieira Braga: Guimarães no costado dos seus títulos de honra, na graça dos poetas e nas ditangas do povo. (No Vol. III, págs. 77-106, da revista Ethnos. Lisboa, 1948. Veja-se especialmente a p. 94)."

 
Francisco Manuel de Mello, A visita das fontes. Edição, introdução e comentário de Giacinto Manuppella, Imprensa da Universidade de Coimbra, 1962. N.º 434 de Esclarecimentos e observações, pp. 598-599.
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17 de junho de 2010

As relíquias de Guimarães


Cofre-relicário da Colegiada de Guimarães (1519). Da colecção do Museu Alberto Sampaio.

"Guimarães. Enobrece grandemente esta Vila o estimável tesouro de relíquias que se conserva no Convento de S. Domingos depositadas pelo Beato Fr. Lourenço Mendes, a quem as havia entregado prodigiosamente um Anjo, declarando-lhe como naquela hora tendo destruído os infiéis a Cidade de Antioquia, salvara por mandado de Deus aquelas santas Relíquias, para não padecerem o desprezo dos hereges e tivessem culto devido no seu Convento. Eram elas as seguintes: parte do Santo Lenho, das faixas e mantilhas com que Maria Santíssima envolveu seu amado Filho; uma pedra do Sepulcro de Cristo, e outra donde subiu glorioso ao Céu; do véu de Nossa Senhora e ossos dos Santos Apóstolos; do maná que se achou no sepulcro de S. João Evangelista; da vara de Moisés; relíquias dos Santos Inocentes e de muitos Santos Mártires, Confessores e Virgens, cujos sacros despojos se colocaram no ano de 1415 no formoso retábulo, onde presentemente se veneram, ficando de fora uma das mais insignes, que é o coração de Santo Inácio, Bispo de Antioquia, no qual depois de morto se achou gravado com letras de ouro o Santíssimo Nome de Jesus. Na Sacristia da igreja de Nossa Senhora da Oliveira se conserva um pedaço do Santo Lenho, leite da Virgem Maria Senhora nossa, uma massaroca da mesma Senhora, um tornozelo do pé de S. Torcato, ossos de S. Pedro Mártir, e outras relíquias."

João Baptista de Castro, Mapa de Portugal Antigo e Moderno, Tomo II, Lisboa, 1763, p. 198
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A servidão de Cunha e Ruilhe (15)



Uma primeira sentença, dada pelo Juiz de Fora de Guimarães em 23 de Junho de 1608, condenava dois moradores de Cunha, Manuel Gonçalves e Sebastião Gonçalves, caseiros do doutor Gabriel Pereira de Castro, desembargador dos agravos da Relação do Porto, a restituírem aos vereadores e ao procurador da vila de Guimarães "a sua posse antiga, vindo varrer a dita Praça quando por giro lhe couber, e lhes paguem a perda que nisso lhes deram, que se liquidará; e sejam notificados, com pena de vinte cruzados pagos da cadeia para os cativos e acusador, e acudam com a dita obrigação aos tempos devidos e costumados".

 
Os caseiros de Gabriel Pereira de Castro recorreram contra o acórdão do Juiz de Fora de Guimarães para o Tribunal da Relação, explicando que:

 
"a razão de seu agravo era que ele juiz e vereadores e procurador da cidade sem razão alguma o permitir os queriam obrigar e aos moradores de Cunha e Ruilhe que por giro fossem a dita vila com barretes vermelhos e outras insígnias infames varrer as ruas e praças padecendo grandes e notáveis afrontas dos rapazes e povo e o sobredito por pretexto de dizerem que por os moradores de Barcelos fugirem em uma batalha dos primeiros reis deste reino em pena da dita infâmia eram obrigados irem com barretes vermelhos significadores dela varrer as ditas ruas e que os moradores da dita vila de Barcelos deram as ditas duas freguesias para os moradores delas irem em seu lugar, o que tudo era patranha sem fundamento algum de verdade nem nas crónicas deste reino se fazia menção de tal e por o dito modo faziam com penas graves executar o dito abuso e corruptela levando penas e penhores aos moradores das ditas freguesias se não iam varrer as ditas praças e ruas e que era uma nova espécie de servidão que aos homens livres e honrados senão podia impor pela qual razão muitos moradores delas deixavam de viver nelas por não passarem pela afronta que na dita vila padeciam e que além de ser contra toda a razão natural e civil haver-se de tolerar tal corruptela e abuso neles agravantes ainda a mais particular razão para serem relevados do dito encargo de varrer e trazerem os tais barretes por serem caseiros de casais encabeçados da honra de Cunha que era morgado do doutor Gabriel Pereira de Castro desembargador dos agravos nesta minha relação e casa da cidade do Porto por pertencer a Dona Joana da Cunha sua mulher e lhe ser dotado por seu pai Matias de Sousa reservando só para si os usos e frutos de sua fazenda, pela qual razão se lhes passara o privilégio que apresentavam em pública forma pelo que sendo como eram as ditas propriedades do dito desembargador todos seus caseiros eram livres de todo o encargo do concelho ignominioso qual o sobredito era."
(do Acórdão do Tribunal da Relação do Porto, de 10 de Junho de 1608)

 
Neste excerto do recurso, aparece-nos a indicação de que a obrigação de varrer as ruas de Guimarães tinha sido "herdada" pelos moradores de Cunha e Ruilhe dos moradores de Barcelos, tendo sido estabelecida por estes terem desertado "em uma batalha dos primeiros reis deste reino" (note-se a ausência de referência a D. João I ou à conquista de Ceuta e que os autores do recurso classificam esta justificação da servidão como uma "patranha sem fundamento algum de verdade".
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16 de junho de 2010

A servidão de Cunha e Ruilhe (14)



Em 1608, os moradores de Cunha começaram a movimentar-se para se libertarem da servidão vexatória com que eram agravados várias vezes ao ano. Realizou-se então uma reunião da vereação, à qual foram chamadas a participar as "pessoas da governança que foram achadas". Em cima da mesa estava o facto de "os moradores de São Miguel de Cunha se quererem isentar de vir varrer a praça desta vila pelas vésperas das festas, como é costume".

 
Colocada a questão de se saber se "era bem que se defendesse a posse antiga desta vila, e se se fariam as demandas às custas das rendas do concelho", todos concordaram que se deveriam fazer as "demandas necessárias e se defendesse a posse em que esta vila estava". Para o efeito, foi nomeado advogado o vereador Diogo de Guimarães Golias. A reunião contou com a presença de 25 homens, como se pode ver pelas respectivas assinaturas.

 
Os diligências para prover à defesa dos interesses de Guimarães iniciaram-se desde logo. Assim, alguns dias depois daquela reunião, "apareceram em sessão vinte e cinco pessoas de ambos os sexos da freguesia de S. Miguel de Cunha, do Termo desta Vila, e assinaram termo de declaração, em como sabiam que os moradores da dita freguesia eram obrigados a vir todos, por seu giro, a varrer a praça e açougues da Vila nas festas do ano, segundo seu costume, e isto pela obrigação de seus casais, a cuja obrigação vinham também todos os moradores de Ruilhe, porquanto esta obrigação foi antigamente dos moradores da Vila de Barcelos. As ditas freguesias foram desmembradas do seu Termo para o de Guimarães, a fim dos moradores delas virem cumprir a dita obrigação, sem disso os escusar privilégio algum". Neste documento encontrámos a primeira referência à transferência de Cunha e Ruilhe de Barcelos para Guimarães, com a transmissão da obrigação da vassoura de Barcelos para os moradores daquelas freguesias. Não há, porém, qualquer referência à origem desta penitência.

 
O processo faria o seu curso. Numa nota de João Lopes de Faria referente ao dia 7 de Maio daquele ano, ficamos a saber que "a Câmara e gente da governança elegeram o vereador João Bravo da Silva para ir ao Porto tratar do agravo que tiraram os moradores da freguesia de Cunha, sobre virem varrer a vila "por ser coisa muito importante a esta vila", ao qual dariam, à custa das rendas do concelho, quinhentos réis por dia e cavalgadura para ida e volta".

 
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15 de junho de 2010

A Árvore de Jessé


A Árvore de Jessé da Colegiada de Guimarães, segundo António de Azevedo (Clicar na imagem para ampliar)

O frontão da Colegiada tem sido objecto de muita discussão. Muito se tem falado acerca da rosácea que iluminaria o interior da igreja, a partir do janelão sobreposto ao pórtico. Vários autores têm afirmado a sua certeza quanto à sua existência em finais da Idade Média, mas nenhuma evidência documental a suporta. O Padre Caldas escreveu, em 1881, no seu Guimarães, Apontamentos para a sua história:
A famosa e elegante janela gótica, rasgada sobre o portão do templo; e que nos seus arcos ogivais, com estátuas, peanhas, baldaquinos e festões, oferecia uma admirável moldura a um grande espelho - por onde a luz se coava através das pinturas dos vidros, e dos mil variados lavores esculpidos em pedra - também, noutra ocasião nefasta, havia sido barbaramente alterada pelos reformadores: os quais - vendo talvez quebrados muitos destes vidros coloridos, e despedaçadas algumas partes daquelas formosas esculturas, que lhes serviam de caixilho - entenderam para si, que o melhor modo de restaurar o magnífico espelho, era aplicar-lhe o camartelo - deitá-lo abaixo - e substituí-lo por uma parede de cantaria lisa, com quatro óculos envidraçados, desiguais na circunferência, e desgraciosamente colocados!
(António José Ferreira Caldas, Guimarães (Apontamentos para a sua história), Guimarães, Sociedade Martins Sarmento e Câmara Municipal de Guimarães, 1996, pp. 273-274)
O que se sabe de certo é que aquela parede estaria emparedada em meados do século XVI, provavelmente com um aspecto próximo daquele que hoje apresenta e que lhe foi aberta, no meio desse século, uma janela circular, a que foram acrescentadas, cem anos depois, duas frestas ovais.
Em 1909, num artigo sobre a Arquitectura em Portugal, João Barreira escreveu:
Da primitiva construção restam apenas a fachada e os arcos interiores, aquela enriquecida por um belo portal, acima do qual se rasga uma janela fortemente escavada na frontaria, e que constituiria um originalíssimo exemplar do gótico flamejante se o personagem que agora se encontra voltado para o interior da igreja é com efeito Jessé, do qual devia irromper em maravilhosa dicotomia, pelo vão da vasta ogiva, a árvore genealógica da sua descendência.
(Notas sobre Portugal, vol. 2, Imprensa Nacional, Lisboa, 1909, pp. 220-221)

Em 1956, o escultor e historiador de arte António de Azevedo retomou a hipótese avançada por João Barreira e, num opúsculo intitulado Santa Maria de Guimarães – Um problema de toponímia e arquitectura artística sustenta, dando-a como segura, a hipótese de a escultura que representa Jessé (actualmente em no Museu Alberto Sampaio) ter estado originalmente voltada para o exterior e colocada na base da janela do pórtico da igreja, estando na base da representação da sua descendência, elemento muito representado na iconografia cristã, nomeadamente em Portugal. A ilustração que encima estas notas é um interessante ensaio de recriação de António de Azevedo do janelão do pórtico da igreja da Senhora da Oliveira de Guimarães, que aparece na capa do seu opúsculo.

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14 de junho de 2010

A servidão de Cunha e Ruilhe (13)



[Continua daqui]


Não faltam nos livros municipais de Guimarães, referências à servidão da vassoura, demonstrando que ela foi um facto ao longo de vários séculos.

 
Para escaparem à humilhação pública, não raras vezes aqueles a quem cabia a vez de pagar o tributo da vassoura não compareciam, sendo a Câmara de Guimarães diligente nas penas que lhes aplicava, já que a obrigação era para cumprir.

 
Através das preciosas Efemérides Vimaranenses, de João Lopes de Faria, temos notícia de que no início de Julho de 1658, foram condenados os moradores de Cunha, por faltarem à obrigação. Em Junho de 1664, foi a vez de serem condenados os de Ruilhe, por terem faltado à obrigação de varrerem a praça e os açougues de Guimarães na véspera do Corpo de Deus. Conhecem-se outras condenações pelo mesmo motivo, nomeadamente nos anos de 1723, 1732 e 1740.

 
A solução para amenizarem a carga vexatória que rodeava o pagamento do tributo da vassoura, sem deixarem de cumprir com aquilo a que estavam obrigados, a solução poderia ser cumpri-la em horas em que a vila estava deserta. Mas, a Câmara não o permitia. Em 22 de Março de 1605, a vereação de Guimarães decidiu que os homens de Cunha e de Ruilhe a quem cabia varrer a praça e os açougues de Guimarães deveriam cumprir a sua obrigação depois das 6 horas da manhã. A partir de 1698, a varredura das ruas em vésperas se festas não podia começar antes das 8 horas da manhã.

 
Mas a resistência persistia, como se nota por uma condenação de 1721 aos três moradores de Cunha e de Ruilhe a quem cabia varrer as ruas de Guimarães na véspera da festa de Santa Isabel, porque "não varreram a dita praça e açougue como deviam, e vindo de madrugada, a ponto que não foram vistos, devendo fazer aquela obra a horas que de todos fossem vistos, sendo com Sol a principiar".
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Gaivotas em terra (bis)


Ninho de gaivota em chaminé de casa na rua de Paio Galvão, em fotografia de hoje.
(Clic na imagem para ampliar)

 
Em 1828, escrevia António José Leite Sampaio:

"Gaivota (brava) – É própria da água; há-as pretas e brancas. Têm aparecido algumas no Rio de Vizela."
António José Leite Sampaio, "Memória sobre a Ribeira do Vizela", Revista de Guimarães, 110, 2000, p. 240.

Idem 
(Clic na imagem para ampliar)
 
Embora não muito comuns, encontram-se algumas referências ao avistamento de gaivotas por estes lados. Classificavam-nas como aves de arribação. As que têm sido vistas na cidade de Guimarães nos últimos dias (em número que não pára de crescer: primeiro falava-se em duas, hoje já há quem tenha tido, na sua linha de visão, dez dessas aves marinhas), pelos vistos, vieram para ficar. Casa, já têm.
 
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13 de junho de 2010

A Praça da Oliveira: um problema de perspectiva


Um texto aqui publicado há dias saiu ilustrado pela seguinte gravura, representando parte do largo da Oliveira, com o Padrão em primeiro plano:



Esta litografia foi publicada em 1839 na obra Scenery of Portugal and Spain, de George Vivian. Na década de 1920, foi inserida na obra O Labor da Grei, alusiva à Exposição Industrial e Agrícola de Guimarães, realizada em 1923.

 
Uma réplica desta ilustração, mais esquemática, foi publicada em 1840 na revista Panorama:



 
Confesso que estas gravuras sempre me intrigaram, por mostrarem, à esquerda, um edifício que não consigo identificar. Todavia, olhando agora com um pouco mais de atenção, é possível perceber que tem vários pormenores errados. O principal, afinal, salta aos olhos: tanto a imagem original, como a réplica, estão invertidas. Rodando a imagem horizontalmente, fica a ver-se o seguinte:


 
O tal edifício que aparecia à esquerda, e que agora está no lado oposto, é a torre da Colegiada. É verdade que aquelas duas portas que estão na sua base são uma criação do artista (o que lá existe é uma janela rectangular com grades de ferro). A gárgula que aparece na parte superior da esquina visível não deixa dúvidas. A oliveira não aparece. As casas com arcos que se vêem ao fundo situam-se no lado da praça virado para poente, fronteiro à igreja (tal como ainda hoje acontece no topo virado a Sul, as casas daquela face da praça também eram alpendradas).

 
O ângulo que nos é mostrado na gravura é, também ele, uma recriação do artista, porque nenhum local da praça permite observá-la daquela perspectiva. O mais aproximado que se consegue é algo como o que se vê na fotografia seguinte: 

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11 de junho de 2010

Ainda o janelão da Colegiada



A rosácea gótica, supostamente existente, no ano de 1844, a encimar o pórtico da Igreja da Colegiada, e que se pode observar na gravura que ilustra a visita a Guimarães naquele ano de H. G. Kingston, publicada no primeiro volume do livro de viagens Lusitanian sketches of the pen and pencil, apenas existiu na imaginação do seu autor. Sabemos que janela maior, redonda, foi mandada rasgar em visitação à Colegiada de meados do século XVI e que o D. Prior D. Diogo Lobo da Silveira mandou abrir, em 1665, "duas frestas no coro de cima, ovadas com suas vidraças".

 
Em 1830 a igreja foi objecto de obras profundas, havendo entre os historiadores vimaranenses alguma inclinação para atribuir a essa reforma a destruição da janela, com a sua rosácea, que lá existiria. A verdade é que, quando essas obras se iniciaram, já o janelão da Colegiada tinha a configuração que lhe conhecemos até ao restauro da década de 1970, como se confirma o Rev.º Kinsey, num livro publicado em Londres em 1828:

 
"Acima do arco está uma janela nobre, enriquecida com escultura, aparentemente da idade e do estilo das janelas da igreja de S. Tiago, em Dieppe; mas o centro da janela foi emparedado e novamente perfurado para abrir quatro pequenas janelas redondas, cujo efeito é muito ruim."
W. M. Kinsey, Portugal illustrated in a series of letters, Londres, 1828, p. 297
 


O que Kingston viu, em 1844, foi, mais ou menos o que se pode ver na pintura reproduzida acima. A  tal rosácea, nunca existiu. Mas ficava lá bem...
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10 de junho de 2010

O janelão da Colegiada


Em meados de 1844, um grupo de viajantes ingleses instalou-se na Estalagem da Oliveira, situada em frente à Colegiada. As impressões da visita a Guimarães ficariam registadas no primeiro volume da obra Lusitanian sketches of the pen and pencil, de William H. G. Kingston, publicado em Londres em 1845, onde aparece um desenho representando a Catedral de Guimarães, traçado a partir de uma das janelas da estalagem.

 
(Clicar na imagem para ampliar)
Enquanto o resto do grupo terminava o pequeno-almoço, fiz um desenho da catedral a partir da janela da sala. (William H. G. Kingston, Lusitanian sketches of the pen and pencil, Londres, 1845, vol. I, p. 130)

 
No prefácio da obra, que inclui alguns desenhos (traçados a lápis) que ilustram o texto (escrito a caneta), o autor faz questão de notar que, apesar de não serem artísticos, são fiéis à realidade. A ser verdade, por cima do pórtico da igreja existiria, naquela altura, uma rosácea gótica bastante elaborada.

A fotografia mais antiga que conhecemos que permite ver o janelão que encima o portal da igreja da Colegiada é de Frederik W. Flower e mostra-o tal como o conhecemos, de outras tantas imagens posteriores: com uma abertura circular central (a que acrescia uma abertura menor que se lhe sobrepunha e duas outras de formato oval, colocadas lado a lado, na parte inferior).

O Padrão do da Oliveira e parte da fachada da Colegiada numa fotografia de Frederik W. Flower (obtida entre 1849 e 1859)

 
Esta fotografia, publicada na obra Guimarães do Passado e do Presente, de 1985, e também no volume com o mesmo título lançado em 2009 pela Câmara Municipal de Guimarães, aparece datada de 1845, em ambas as publicações, indicação que, seguramente, está errada, uma vez que os trabalhos fotográficos do seu autor, Frederick William Flower, foram realizados ao longo da da década que vai de 1849 a 1859. Pela presença das grades de ferro no padrão e no adro da igreja, percebemos a fotografia não será anterior a Março de 1857.

Falta resolver o mistério da rosácea desenhada por Kingston.

 
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8 de junho de 2010

Guimarães em 1840




A gravura que encima este texto foi publicada em 1840 na revista Panorama e reproduz uma litografia incluída na obra Scenery of Portugal and Spain, de George Vivian, editada em Londres no ano anterior, que pode ser vista aqui. Aparece a ilustrar um texto sobre o "berço da monarquia e primeira corte de Portugal", onde, a certa altura, se descreve a actividade económica desta terra:

"Se olharmos agora para Guimarães no estado actual, veremos que, desfrutando a primazia de ser uma das maiores vilas da sua província, porque é povoada por mais de oito mil almas, logra os merecidos créditos de ser a mais industriosa. O seu aspecto é agradável, a sua posição excelente, os seus arrabaldes abundantes e recreativos. Para darmos ideia da actividade que desenvolve nas manufacturas em que se distinguiu sempre, aproveitaremos as notícias estatísticas da Geographia do Sr. Urcullu, que obteve a tal respeito seguras informações locais. Há na vila uma rua que é uma continuada fábrica de curtumes; não tem menos de 200 tanques para este mister; e produz anualmente este ramo acima de 32:000 couros no valor de cem contos de réis; além do que nos arredores há fabricas da mesma manipulação que produzem a importância de 50 contos anuais proximamente. Há vinte anos que esta indústria tem duplicado à vista do que dantes era; mas por outro lado o comércio das linhas, panos de linho e ferragens tem decaído depois do tratado de 1810 e da independência do Brasil: todavia ninguém ainda hoje negará o incontestável merecimento dos tecidos de linho adamascados, fabricados em Guimarães, que em duração e primor de obra por certo que não tem rival. A boa têmpera das peças de cutelaria, que nesta vila se manufacturam, atribuem alguns à excelência e propriedade das águas; mas se isto não é querer dar desconto ao bom trabalho dos operários, aqui teremos mais um privilégio do território onde é sita Guimarães. Calcula-se pois que os três últimos produtos industriais, que apontámos, não rendem mais de oitenta contos de réis por ano, expedidos tanto para o reino como para o Brasil. Os doces de frutas confeitados nesta vila, principalmente ameixa e figo, que se exportam em caixinhas, com muita especialidade para Inglaterra, são uma verdadeira tentação dos gulosos, que possuem a delicada crítica dos prazeres do paladar; e para nós, que não somos gulosos confirmados, são tidos e havidos pelos doces mais saborosos a par das estimadas laranjas confeitadas na ilha de S. Miguel: este objecto parecerá pouco importante, pois saibam os curiosos que no ano de 1835 montou a seis contos de réis. A légua e meia da vila junto ao rio Vizela há duas boas fábricas de papel, cuja extracção, termo médio, se reputa em onze contos de réis: e a uma légua para o sul estão os afamados banhos conhecidos pelo nome de Caldas de Vizela, já frequentados em tempo dos romanos, que ali tinham levantado um templo à deusa Ceres: hoje pela eficácia de suas águas em varias moléstias são muito procurados por grande número de enfermos."

O Panorama: semanario de litteratura e instrução, publicação da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, volume IV, Lisboa, 1840, p. 282.
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A servidão de Cunha e Ruilhe (12)




Quando escreveu a Corografia Portuguesa, o Padre António Carvalho da Costa contactou com as Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, de Torcato Peixoto de Azevedo, sendo muito provável que o tenha feito por intermédio do próprio autor (o Padre Torcato faleceu em meados de 1705 e a primeira edição da Corografia foi publicada pouco depois, em 1706). O texto do Padre Costa segue a par e passo o de Torcato, sendo manifestas as semelhanças os capítulos de ambas as obras em que são tratados os privilégios concedidos pelos reis a Guimarães. Já vimos o que escreveu o monógrafo vimaranense. Aqui fica o texto da Corografia:

“Provisão de el-Rei Dom João o Primeiro, em que manda que os Vereadores da Vila de Barcelos vão varrer a praça, e açougues de Guimarães todas as vésperas das festas da Câmara daquela Vila, que vem a ser nas vésperas das festas da Natividade de N. Senhor, da sua gloriosa Ressurreição, do Espírito Santo, de Corpus Christi, de São João Baptista, da Visitação de Santa Isabel, de S. Gualter, de N. Senhora da Assunção, e de S. Miguel o Anjo.

A causa por que el-Rei Dom João o Primeiro deu à Vila de Barcelos tão aniquilado tributo, foi que indo este Rei a tomar a Cidade de Ceuta aos Mouros, como tomou no ano do Senhor de 1414, aos 22 dias do mês de Agosto do dito ano, repartiu as estâncias da muralha da Cidade pelos moradores das cidades e Vilas que com ele foram, e o ajudaram nesta empresa, para que cada um defendesse a que se lhe entregava. Os Mouros se refizeram, e tornando com grande força para recuperarem a Cidade, que tinham perdida, e investiram com grande fúria e alaridos à escala, de que desanimados os de Barcelos, e atemorizados seus ânimos, fugiram, e deixaram de todo livre a estância, que se lhes tinha encarregado para defenderem; vendo-a os de Guimarães de todo desamparada, se dividiram em dois troços, um com que a foram ocupar e defender, e outro com que defenderam a sua, que lhes estava entregue; e com tanto valor o fizeram em uma e outra estância, que só deles aqueles inimigos se foram mais queixosos. Castigou el-Rei a fraqueza dos de Barcelos com lhes mandar que fossem varrer a praça e açougues aos de Guimarães, a quem gratificou com esta honra a valentia com que obraram na defesa daquela Cidade, e em todas as mais ocasiões em que com ele se acharam.

Por espaço de mais de setenta anos continuaram nesta servidão os Vereadores da Vila de Barcelos nas Vésperas das festas acima ditas, da sorte que lhes foi mandado, com um barrete vermelho na cabeça, uma banda ao ombro da mesma cor, a espada à cinta, e um pé calçado e outro descalço, e vassoura de giesta, que eram obrigados a trazer para fazerem esta limpeza; e acabada ela, iam à Câmara, e entregavam aos Vereadores o barrete, e banda, com que davam satisfação à sua servidão; os quais, vendo se algum faltava a ela, o condenavam em pena pecuniária, como lhe parecia, ou o aliviava a causa de sua falta; até que, não havendo quem quisesse ser Vereador naquela Vila, o Duque de Bragança Dom Jaime fez contrato com a Câmara e povo de Guimarães de lhe largar do termo da Vila de Barcelos, de que era senhor, as freguesias Cunha e Ruilhe, para continuarem naquela servidão, e que as desanexava daquele seu termo, para que elas se unissem e anexassem ao de Guimarães. Foi por todos admitido seu requerimento por coisa justa, e vir fazê-lo pessoalmente, como se vê no contrato, que de tudo se fez, o qual se guarda no Cartório da Câmara de Guimarães, pelo qual renunciaram os Vereadores da Vila de Barcelos este tributo, que padeciam nos moradores das freguesias de Cunha e Ruilhe, que ainda hoje estão continuando nesta servidão no mesmo modo que fica dito, e com as mesmas circunstâncias.

Bem trabalhou o Doutor Gabriel Pereira de Castro por aliviar deste tributo as duas freguesias, Cunha e Ruilhe, por ter nelas certos caseiros que, confiados no seu poder, faltaram à servidão, a que por giro estavam obrigados; foram condenados pelos Vereadores da Câmara de Guimarães em seis mil réis cada um; puseram a causa em pleito, que correu até à maior alçada, assistindo-lhe sempre este Doutor, e não foi bastante o seu muito poder para que ali se não sentenciasse que pagassem os condenados a condenação que lhes estava feita, e continuassem a sua servidão, com custas, como se vê da mesma sentença, que se guarda no Cartório da dita Câmara de Guimarães.”

[Padre António Carvalho da Costa, Corografia Portugueza e Descripçam Topografica do famoso Reyno de Portugal, 2.ª Edição. Typographia de Domingos Gonçalves Gouvea, Braga, 186, pp. 91-92]

Note-se que a Corografia segue as Memórias Ressuscitadas com tanta proximidade que até repete o erro de indicar o ano de 1414 para a conquista de Ceuta...

Curiosamente, mais à frente, no mesmo volume da Corografia Portuguesa, o Padre Costa dá uma outra variante da história, sem qualquer referência a Ceuta. Segundo esta, a servidão da vassoura não incidiria sobre os vereadores da Vila de Barcelos, mas sim sobre os moradores da freguesia de Santa Eugénia de Rio Covo, que seria um couto onde se acolhiam criminosos, tributário do concelho de Guimarães:

“Dizem foi antigamente couto de Guimarães, e por castigo e privilégio que tinham eram os moradores obrigados a ir-lhe varrer as ruas; mas sendo mui prejudicial a Barcelos haver aqui este couto tão seu vizinho, em que recolhiam seus criminosos, donde saíam a roubá-los lhes deram em troca as duas Freguesias de Cunha e Ruilhe com a mesma obrigação”
[Idem, p. 278]

[Continua]
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7 de junho de 2010

Gaivotas em terra

Guimarães, 7 de Junho de 2010

Há cerca de um mês, talvez um pouco mais, um par de gaivotas tomou o espelho de água situado em frente à Escola Francisco de Holanda como lugar de poiso e de mergulho. Diz quem sabe que apareceram ali na sequência de uma das tempestades desabridas que nos assolaram durante o mês de Abril.


  
Guimarães, 7 de Junho de 2010

Em Guimarães não é comum o avistamento destas aves marinhas, o que não significa que o seu aparecimento seja novidade. Já nos inquéritos paroquiais de 1842 (in Revista de Guimarães, n.º 108), na resposta à primeira parte da questão n.º 7 (Zoografia ou nomenclatura dos animais quadrúpedes, aves, répteis, peixes, insectos, vermes), aparece a referência à presença de gaivotas em duas freguesias. Em Gonça, surgem na listagem das aves de arribação “a rola, a codorniz, a galinhola, o tordo, tordeia, tornilho, poupa, cuco, andorinha, pêga, corvo, gaivota, e alguns Invernos a águia”. 

Em Fareja, freguesia que hoje pertence ao concelho de Fafe, o pároco dividiu as aves bravias entre indígenas e de arribação, identificando: “na classe das segundas, galinhola, rola, pombo-troca, papa-figos, tordo, narceja, torninho, sombria, taralhão, gaivota, ganso bravo. Estas últimas duas só procuram as margens de rios, ribeiros e lameiras, sem dúvida porque só nelas encontram comodidades e sustento próprio”.

  Guimarães, 7 de Junho de 2010


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A servidão de Cunha e Ruilhe (11)




 
O documento mais antigo em que se encontra referência a Ceuta e a Barcelos na origem da servidão da vassoura a que estavam sujeitos os moradores das freguesias de Cunha e de Ruilhe são as Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, escritas entre finais do século XVII e os primeiros anos do século XVIII, mas que ficaram inéditas até 1845. Apesar de inéditas, as Memórias do Padre Torcato foram lidas por vários autores, que as utilizaram sem citar a fonte. O exemplo mais acabado dos plágios de que foi alvo encontrámo-lo da Corografia do Padre Carvalho da Costa, onde foram vertidos largos trechos da obra do monógrafo vimaranense. Assim sucede, por exemplo, com o texto que se segue, onde surgem algumas novidades a propósito da suposta servidão de Barcelos a Guimarães:

 
"Para coroa de todos os privilégios desta vila, farei menção de uma Provisão de el-rei D. João o 1.°, à qual em nenhuma parte há outra semelhante. Quando este senhor tomou a cidade de Ceuta em 1414*, repartiu as estâncias das muralhas pelos moradores das cidades, e vilas que o acompanharam nesta empresa: sentidos os Mouros da perda de sua cidade, se juntaram em grande número, e vieram logo sobre ela, e fizeram o maior ataque pela estância que guardava a gente de Barcelos: ficaram estes tão assustados, que fugiram, desamparando aos Mouros o lugar que lhe estava balizado. Os moradores de Guimarães, que guardavam a estância contígua se dividiram logo em dois terços, e com um foram lançar fora os Muros do muro que já ocupavam, e com o outro ficaram defendendo o lugar que se lhe tinha nomeado.

 
Agradeceu el-rei esta valorosa acção com lhes passar uma Provisão em 1517**, para que os moradores da vila de Barcelos viessem nas vésperas de todas as festas que a câmara desta vila costuma celebrar, varrer-lhe a Praça Maior, Padrão, e Açougues, com um barrete vermelho na cabeça, e uma banda ao ombro, da mesma cor, e a espada à cinta, e um pé calçado, e outro descalço, com vassouras de giesta que traziam de suas casas, para fazerem esta limpeza. Acabada ela, entravam na câmara, aonde os esperavam os ministros, e em livro particular lhes faziam seus registos, e se faltava algum sem mandar certidão de causa justa, era condenado em seis mil reis para os encargos do concelho. Continuaram os moradores de Barcelos nesta servidão mais de sessenta anos, até que não havendo quem a quisesse habitar, veio o duque de Bragança D. Jaime, senhor da dita vila pedir à câmara, e povo desta vila quisessem fazer com ele um contrato, em que lhe largaria as freguesias de Cunhe, e Avinhe*** para que os moradores delas continuassem aquela servidão: porque aquela sua vila se ia despovoando da nobreza que tinha: e como seu requerimento era justo se fez o contrato, que se guarda no cartório da câmara, e assim os moradores das ditas freguesias ainda continuam a limpeza dita do mesmo modo. Bem trabalhou o doutor Gabriel Pereira de Castro para livrar as ditas duas freguesias, por ter nelas certos caseiros que faltaram à servidão, e que haviam sido condenados: saiu a sentença contra os ditos caseiros, a qual se guarda no cartório da câmara."  
[Torcato Peixoto de Azevedo (Padre), Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, Porto, Typographia da Revista, 1845, pp. 413-414]

 
* Erro: a conquista de Ceuta aconteceu em 1415.
** Gralha da edição de 1845: deve ler-se 1417.
*** Gralha da edição de 1845: deve ler-se Ruinhe, aliás, Ruilhe.

 
Note-se que o Padre Torcato afirma que teria sido o duque D. Jaime a contratar com a Câmara de Guimarães a transferência de Cunha e Ruilhe de Barcelos para Guimarães, com o encargo de assumirem à sua conta as obrigações da servidão. Como já vimos, Mestre António, que seria necessariamente contemporâneo de tal acontecimento, não se lhe refere.
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6 de junho de 2010

O Campo da Feira, segundo George Vivian


Em 1839, foi publicada em Londres a obra Scenery of Portugal and Spain, com litografias feitas a partir de desenhos de George Vivian por L. Haghe. Vivian (1798-1863), pintor e desenhador inglês, havia viajado, provavelmente na década de 1830, por Espanha e Portugal, desenhando paisagens de diferentes cidades. Como era usual entre os viajantes do período romântico, publicou as suas impressões de viagem numa obra que incluía 33 litografias gravadas a partir dos seus desenhos. A imagem que está abaixo, representando uma vista do Campo da Feira, em Guimarães, foi republicada em 1985 no volume Guimarães, do Passado e do Presente, organizado por Joaquim Fernandes:


(Clicar na imagem para ampliar)
 
A gravura seguinte foi publicada no periódico O panorama: jornal literário e instrutivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, de 26 de Junho de 1841, p. 201:

(Clicar na imagem para ampliar)
 
Note-se que esta gravura, aparentemente elaborada a partir da anterior (aparece assinada por Pereira e Coelho, o que indica que foi desenhada por António Joaquim Gonçalves Pereira e gravada por José Maria Baptista Coelho), é bastante mais rigorosa quanto aos pormenores, permitindo ver mais claramente que, à época, a Igreja dos Santos Passos ainda não estava dotada das duas torres laterais que actualmente a encimam.

Conhece-se uma outra gravura feita a partir dos desenhos de George Vivian, que mostra o Padrão da Praça da Oliveira, que também saiu originalmente na a obra Scenery of Portugal and Spain, e que foi publicada em 1928, no volume O Labor da Grei (organizado por Francisco Martins e alusivo à Exposição Industrial e Agrícola de 1923):

(Clicar na imagem para ampliar)

Note-se que há um erro na indicação da data desta gravura, tal como sucede na do Campo da Feira publicada no volume Guimarães, do Passado e do Presente: em ambos os casos, aparece o ano de 1820, quando o livro Scenery of Portugal and Spain apenas saiu em 1839.


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5 de junho de 2010

A servidão de Cunha e Ruilhe (10)

A referência mais antiga à servidão da vassoura que conhecemos foi escrita em 1512 por Mestre António, cirurgião de Guimarães, no seu Tratado sobre a província de Entre-Douro-e-Minho e suas abundâncias, que permaneceu inédito durante mais de quatro séculos:

"E assim os desta comarca andaram vinte  e tantos anos nas guerras de Castela pelos quais serviços lhe deram muitos privilégios estremadamente à vila de Guimarães que lhe deram o título de mui nobre e sempre leal, e o castelo castelo de Guimarães nunca se acha ser tomado de mouros, os que fugiam das guerras de outras partes foram ajuntados em certos lugares como degredados e foram dados como tributários à dita vila de Guimarães para sempre como hoje em dia as de Cunha e Ruilhe, que são daqueles vêm cada ano varrer açougues e praças e ruas da vila de Guimarães e para outras quaisquer coisas que os mandem chamar, posto que vivem quatro léguas de Guimarães e não são do seu termo e assim eram os de Fão e Esposende se não o duque Dom Afonso que Deus tem por muitos serviços que lhe fizeram os tirou da dita sujeição e os deu a Barcelos por termo por que viviam mais perto dele e todos os privilégios principais que depois foram outorgados pelos reis a Lisboa e aos outros lugares do reino dessem eles assim que pela maneira que os termos outorgados a nossa mui nobre e sempre leal vila de Guimarães."

[Luciano Ribeiro,  "Uma descrição de Entre Douro e Minho por Mestre António", Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, vol. 23, fasc. 3-4, Porto, 1959, p. 459.]


Note-se que Mestre António não faz qualquer referência à transmissão de Barcelos para Guimarães das freguesias de Cunha e Ruilhe, com a obrigação de os seus moradores assumirem a servidão vexatória a que estariam sujeitos os moradores ou, conforme as versões, os vereadores barcelenses.  Por outro lado, indica que Fão e Esposende teriam idêntica sujeição, tendo sido passadas pelo primeiro Duque de Bragança, D. João, do concelho de Guimarães para o de Barcelos, por ficarem "mais perto dele".  Mestre António é claro quanto à origem desta costumeira: aquelas freguesias eram lugares onde os desertores de guerras foram degredados e "dados como tributários à dita vila de Guimarães", não fazendo qualquer referência a Ceuta. Por outro lado, com base neste documento,  podemos concluir pela falta de consistência da tradição de que teria sido o Duque D. Jaime a entregar a Guimarães as freguesias de Cunha e Ruilhe, para libertar os de Barcelos da servidão a que estariam sujeitos. A existir, Mestre António não a poderia ignorar: escrevendo o seu Tratado em 1512, teria sido contemporâneo da suposta transferência, uma vez que D. Jaime apenas chegou a Duque de Bragança no ano de 1500. Por outro lado, note-se  que, havendo uma versão desta tradição que diz que foi o Duque D. Afonso o responsável pela transferência daquelas freguesias de Barcelos para Guimarães, na obra de Mestre António apensas se encontra notícia do movimento em sentido contrário das freguesia de Fão e Esposende.

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4 de junho de 2010

Um dragão em Guimarães, no rasto do cometa de Hevelius


Dois cometas avistados no século XVII, segundo Hevelius

No ano de 1665, a Europa descobriu o cometa de Hevelius. À época, as "estrelas com cabeleira" eram olhadas pelo comum dos com a sobrecarga de medo de quem os via como bolas de fogo arremessadas por Deus para castigo dos homens ou, no mínimo, como sinais do Céu para aviso da humanidade. Este cometa não deixou de se fazer acompanhar por um cortejo de prodígios, cujas notícias iam circulando por toda a Europa. De alguns desses fenómenos, um dos quais ocorrido em Guimarães, teve conhecimento o Padre António Vieira, como percebemos por uma carta que enviou ao Duque do Cadaval em 26 de Maio de 1665:

 
"Saem por esta banda novos prodígios. Em Guimarães vomitou um doente um Dragão de quase um côvado* de comprido com duas asas, e grossura até ao meio de dois dedos, e cor vermelha escura; dali para a cauda menos grosso, e de cor parda. Disse-me Sanfins que o vira pintado, e com certidão de Médico jurada ao pé. Outra carta vi de pessoa digna de fé, escrita de Melgaço, em que diz aparecem naquelas partes muitos sinais horrendos de dia e de noite, que não especifica; só refere que no dia 16 de Abril ao sair do Sol aparecera um grande raio de cor verde e amarela, o qual se rematava em duas nuvens pequenas, uma muito branca, e outra muito vermelha: e correndo por grande espaço para a parte interior de Galiza, ultimamente se desfizera sobre ela em raios e coriscos de fogo. Aqui em Coimbra se viu também por algumas vezes um globo de fogo para a parte do Sueste, que nascia à meia-noite, e se ia levantando devagar, e durava por espaço de duas ou três horas; mas, se o que se escreve de Roma é verdade, eu o tenho por maior prodígio de todos. A carta que se refere é de um Português que está naquela Cúria, chamado Fernão Lopes de Sousa; e diz que nela houve por três dias uma névoa tão espessa e tão escura, que se não viam os homens nem os edifícios, e que as trevas eram palpáveis como as do Egipto. Outra carta diz, que o Cometa se teme lá muito, e que demonstra muito maior cauda, e que a Rainha de Suécia com dois grandes Matemáticos que tem, o observa sempre, mas não se fala no juízo. Deus se lembre da Sua Igreja e do nosso reino que também é seu, e a V. Exc. guarde muitos anos, como desejo e havemos mister. Coimbra 4 de Maio de 1665."

 
[Cartas do P. António Vieira da Companhia de Jesus, tomo segundo. Oferecido ao eminentíssimo senhor. Nuno da cunha e Ataíde. Lisboa ocidental, Oficina da Congregação do Oratório, 1735]

* O côvado é um medida linear antiga equivalente a 66 centímetros.
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