29 de dezembro de 2009

O pau da cabeleira de António Lobo de Carvalho

Faustino Xavier de Carvalho (1820-1869)

O poeta satírico português Faustino Xavier de Novais (n. Porto, 17 de Fevereiro de 1820), foi um dos colaboradores do Periódico dos Pobres do Porto, onde escrevia com o pseudónimo Saturno. Entre 1852 e 1857 dirigiu a revista "O Bardo, jornal de poesias inéditas", que então se publicava na sua cidade natal. Nos últimos anos da sua vida, deixou o Porto, mudando-se para o Brasil, segundo Camilo Castelo Branco por causa de "um amor baixo, ignóbil até a miséria". Morreu no Rio de Janeiro, em 1869. Na obra "Cartas de um roceiro", publicada no Rio de Janeiro, conta uma história curiosa, envolvendo o poeta vimaranense António Lobo de Carvalho. É a seguinte:



"Ouvindo isto ocorreu-me outra história do vizinho Gaudêncio.

Conta ele que um antigo poeta satírico, chamado António Lobo de Carvalho, era homem de vida irregular, e vingativo por natureza.

Sujeito, ou sujeita, que lhe não satisfizesse todas as vontades, podia contar com um soneto mordacíssimo, e imundo muitas vezes, na linguagem, mas notável sempre pelo aticismo. O poema espalhava-se, e o herói ensurdecia, atordoado pelas gargalhadas com que o povo o saudava na passagem! Já V. vê que isto devia acarretar-lhe um numeroso exército de inimigos.

Avisaram-no um dia de que se tramava contra ele um horrível plano de vingança.

Alguns indivíduos, armados, haviam de introduzir-se em um pátio, sobre o qual olhava uma janela do seu quarto de dormir. Depois bater-lhe-iam à porta, e quando ele deitasse a cabeça fora da janela, para saber quem o procurava, a resposta voaria das bocas das espingardas, em uma furiosa descarga.

O poeta ficou ciente. Às horas do costume tirou a cabeleira, pendurou-a na cabeça de pau que tinha para esse fim, como eu tenho, apagou a luz e deitou-se, com tenção de dormir sossegadamente. Enganava-se. Bateu-se à porta.

Às escuras, como estava, e tendo deixado levantada a vidraça, abriu uma das portas da janela, sem ruído algum, pôs-se em guarda, espetou a forma da cabeleira em uma vara a propósito, estendeu-a para fora da janela, o perguntou: "Quem está aí?".

Uma descarga foi a resposta, e o poeta, com todo o sangue frio, chegou então à janela, e disse para baixo: "Agora, meus amigos, vão…"

Não sei bem onde ele os mandou, nem sei se eles foram; sei apenas que o poeta passou bem o resto da noite, porque só fora ferido no combate o pau da cabeleira."

Faustino Xavier de Novais, Cartas de um roceiro, Rio de Janeiro, 1867, pp. 388-389
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28 de dezembro de 2009

Soneto de António Lobo de Carvalho, poeta vimaranense do séc. XVIII


Ilustração do Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro Para o Ano de 1860.


AOS AVARENTOS.

Maldito seja, seja excomungado,
Aquele horrendo mísero jarreta,
Que cheia de dobrões tendo a gaveta,
Nem somente um real dá emprestado!

Permitia o céu que a moça e o criado
Algum furto lhe façam com tal treta,
Que o misérrimo vil, como escopeta.
Arrebente de estouro, exasperado!

Veja enfim por castigo derradeiro.
Quando estiver já quase moribundo,
A festa que se faz ao seu dinheiro.

E padecendo as penas do profundo,
O diabo lhe conte quanto o herdeiro
Se regala com ele cá no mundo!

António Lobo de Carvalho.

 [in Almanach de Lembranças Luso-Brasileiro Para o Ano de 1860, Tipografia Franco-Portuguesa, Lisboa, 1859, pág. 344]
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27 de dezembro de 2009

Guimarães em 1867



Ilustração da Revista O Panorama

É muito notável o entusiasmo, com que o autor do Tratado Elementar de Geographia, D. José de Urculu, começa a falar do Guimarães. — Vila linda, diz ele, vila linda e industriosa, no meio duma campina tão agradável como fértil entre os rios Ave e Vizela, cercada duma muralha de 3.685 passos geométricos de circunferência, fortificada com 7 torres...... Guimarães foi a primeira capital da monarquia portuguesa; aqui nasceu D. Afonso Henriques; tem muita nobreza antiga; é pátria igualmente de muitos ilustres varões. —

Cumpre distinguir a Guimarães antiga da Guimarães moderna. — Segundo vemos pela noticiosa Corographia Portugueza do Padre António Carvalho da Costa, o assento da primeira foi entre os dois rios, já indicados, ao pé do monte Latito, dividido depois em dois nomes — o de Santa Maria, e Monte Largo, entre o norte e o nascente. — No cume desse lugar altíssimo mandou a condessa Mumadona edificar um castelo, e dentro dele uma torre, toda fechada, que muito de longe se avista. A entrada dessa torre, à mão esquerda, estavam esculpidas em uma pedra as letras seguintes: Via maris, de que alguns autores tomaram o nome alatinado de Vimaranes, facilmente convertido no de Guimarães. Outros, porém, inclinam-se a crer que algum senhor Godo possuiria a terra, e que tendo o nome de Vimareno, este fosse posto á mesma terra.

Dentro daquele castelo se encontram vestígios dos paços do conde D. Henrique, assim como permanece o paço do primeiro duque de Bragança, D. Afonso, — a majestade arquitectónica do qual paço o Padre António Carvalho encarece com hiperbólicos termos.

Sabido é que o conde D. Henrique estabeleceu em Guimarães a sua corte; bem como é também sabido que nos Paços Reais da velha Guimarães nasceu D. Afonso Henriques, o fundador da monarquia portuguesa.

Guimarães, a povoação nobre, foi sempre honrada pelos soberanos de Portugal. El-rei D. Dinis começou a cercá-la de fortes muros; seu filho, D. Afonso IV completou a fortificação; e D. João I, de boa memória, acrescentou as torres, que melhoraram ainda mais os meios de defesa.

Voltando ao castelo, empregaremos as próprias expressões do mencionado Padre António Carvalho, que apresentara a medição exacta de sua área, e imaginosamente pintam a perspectiva que aquele ponto oferece: — Tem este castelo de terreno, dentro da sua muralha, de nascente a poente sessenta e nove passos, e de norte a sul trinta e seis, e no meio dele lhe está servindo de penacho a torre velha, que se a domina com a sua altura, elas com a valentia, e fortaleza da sua nova muralha a desassustam do risco das baterias, por ser a sua arquitectura mais forte. —

Com uma certa melancolia se nos apresentam à memória as notícias dos tempos que já lá vão. Assim, e debaixo deste aspecto, acolhemos de bom grado estas palavras históricas: — Enquanto este castelo foi assistido de seus primeiros Reis, eles mesmos eram os seus alcaides-mores: ao depois seus sucessores o entregavam por homenagem, e punham nele Alcaides para a sua defensa, que muitos anos o habitaram, fazendo sua morada no Palácio Real, que depois com a sua ausência chegou a ver mui breve sua ruína. -

Falando-se de Guimarães, é dever de justiça recordar as honrosas expressões da Carta de 22
de Junho de 1853, pela qual foi aquela vila elevada à categoria de cidade, com a denominação de Cidade de Guimarães, — e são as seguintes: — Atendendo a haver ela sido o berço da Monarquia, e assento da primeira Corte dos Reis portugueses, onde nasceu e foi baptizado o poderoso D. Afonso Henriques; atendendo a que a mesma vila desfruta a primazia de ser uma das mais populosas da província do Minho, e a mais florescente cm diversos ramos de industria, à qual são devidas a sua opulência e prosperidade, e as suas relações comerciais dentro e fora do país: atendendo a que a famosa vila de Guimarães sempre foi honrada por meus augustos predecessores com especiais privilégios, possuindo condições e elementos necessários para sustentar a dignidade e categoria de cidade; etc.— A rainha, a senhora D. Maria II, de quem é esta Carta, aludia também ao que presenciara em Guimarães, por ocasião da sua visita à província do Norte.



in O Panorama, 2.º ano da 5.ª séria, 1867, pp. 209-210.

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11 de dezembro de 2009

Barcelos, Guimarães e a Conquista de Ceuta




Eis a tradição de Ceuta e do castigo infligido aos de Barcelos a favor dos de Guimarães, num curioso relato de um barcelense, de acordo com um livro de viagens dos primeiros anos do século XX:

Mais tarde, quando regressávamos já ao hotel, admiramos também a casa da Câmara, um grande edifício remoçado, e essa circunstância deu ensejo a que Veríssimo nos narrasse certo castigo infligido as edilidades de Barcelos por D. João I. É uma dessas imaginosas penalidades em que a fantasia antiga, sem peias de códigos, se comprazia tantas vezes.

O Mestre de Avis, tendo acabado de tomar Ceuta, confiou aos homens de armas de Barcelos a defesa de certo ponto da muralha. A ordem não devia parecer assustadora a guerreiros ainda encorajados pelos entusiasmos de uma vitória recente. Não foi porém assim – e em certa ocasião os barcelenses, amedrontados pelos desesperados ataques da moirisma, abandonaram o seu posto de honra e largaram a fugir desordenadamente, como se todo o Islão, com Maomé a frente, tivesse invadido a praça de cimitarra erguida.

Vendo isto, os guerreiros de Guimarães, que defendiam um posto vizinho, atroaram o brônzeo céu da África com os brados da sua indignação; e, dividindo-se em dois grupos, tão bravamente defenderam toda a muralha que nada lucrou Mafoma com a vergonhosa debandada dos barcelenses. D. João I, informado do caso, ordenou que daí em diante fossem os vereadores de Barcelos varrer, todos os anos, as pragas e os açougues de Guimarães...

Durou quase oitenta anos essa ominosa penitência. Nas vésperas das festas camarárias de Guimarães, nove vezes por ano, lá iam os infelizes representantes do município barcelense com um barrete vermelho, banda da mesma cor, um pé calçado e outro descalço, à cinta a espada envergonhada, nas mãos uma ramuda vassoura de giesta, limpar as imundícies da vila de Afonso Henriques. No fim, concluída a tarefa, iam entregar aos vereadores adversos, em sinal de servidão, o barrete e a banda. Alguns destes bodes expiatórios do delito de seus avós eximiam-se ao cumprimento da pena, e pagavam, de cara alegre, a grossa multa em que, pela falta, eram condenados.

Por fim, aquele místico duque D. Jaime de Bragança, que espostejou a mulher e o pajem Alcoforado, não achando já quem quisesse ser vereador na sua boa vila de Barcelos, ofereceu à Câmara de Guimarães as freguesias de Cunha e Ruilhe para desempenharem aquele serviço. A proposta foi aceite – e Barcelos respirou alfim, livre para sempre das vassouras e das sujidades vimaranenses.

Veríssimo condimentou esta narrativa com grande número de pormenores, reconstruindo o diálogo com uma saborosa ênfase arcaica. Também amesquinhou, com desculpável zelo patriótico, a acção heróica dos vimaranenses em Ceuta. Na sua opinião, esses bravos acutiladores da mourisma não passavam de ardilosos tecelões de intrigas...

– Intrigantes... Invejosos... Sempre assim foram!... Quando nós arranjámos o milagre das Cruzes, logo eles arranjaram o da Oliveira... Eu não quero dizer mal de ninguém, mas a verdade é a verdade!

– Mas, na sua opinião, os guerreiros de Barcelos abandonaram a muralha de Ceuta, ou não? – inquirimos, divertidos.

– Não, senhores... Cá na minha, foram os de Guimarães que os enganaram, dizendo-lhes que el-rei os estava a chamar. Eles então foram, está claro! Uma pessoa, quando o rei chama, deve ir logo!

D. João de Castro, Jornadas no Minho – Impressões, aventuras e travessuras de dois excursionistas meridionais, Ferreira & Oliveira, Lda. - Editores, Lisboa, 1906, pp. 335-337.

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5 de dezembro de 2009

A Planta de Guimarães de 1569


A planta de 1569 (clicar na imagem, para ampliar)


Acaba de ser apresentada ao público a edição da Sociedade Martins Sarmento da já célebre planta de Guimarães do século XVI, que actualmente se encontra na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Trata-se de uma peça singular, de cuja origem pouco se sabe. Não conhecemos em que condições terá sido produzida, apenas que pertenceu à biblioteca de Diogo Barbosa Machado, escritor e bibliógrafo do século XVII, autor da primeira obra de referência bibliográfica portuguesa (a Bibliotheca Lusitana, Historia, Critica e Chronologica, na qual se comprehende a noticia dos autores portuguezes, e das obras que compozeram desde o tempo da promulgação da Lei da Graça, até o tempo presente, que começou a ser publicada em 1741). Em 1770, Barbosa Machado doou os livros e os manuscritos da sua notável biblioteca ao rei D. José I, quando se tratava de reconstituir, no Palácio da Ajuda, em Lisboa, a Biblioteca Régia, que havia sido destruída com o terramoto e o subsequente incêndio que, em 1755, destruiu a Casa do Forte do Paço Real da Ribeira. Na sequência da ida da família real para o Brasil, os 60.000 volumes da Biblioteca Régia também iriam atravessar o Atlântico, a partir de 1810, onde dariam corpo ao acervo inicial da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, instituída por D. João VI. A colecção de Barbosa Machado é um dos frincipais fundos da BNRJ. É lá que se encontra a planta de Guimarães de 1569.

A planta será um importante instrumento para o aprofundamento do conhecimento da evolução do perfil urbano de Guimarães ao longo dos séculos, permitindo confirmar ou desmentir certas ideias feitas sobre alguns aspectos do antigo urbanismo de Guimarães, a começar pela configuração da antiga muralha. Até aqui, tem prevalecido a ideia de que a cerca velha que, envolvendo o Castelo, delimitava a antiga vila velha ou vila do castelo, se fechava, no lado voltado a sul, entre as portas da Freiria (próxima da Capela de Santa Cruz) e de Santa Luzia (nas imediações da embocadura da rua com o mesmo nome), conforme se pode observar no seguinte desenho, de Moura Machado:



Ora, pela planta de 1569, podemos ver que o ponto de separação entre as duas antigas vilas de Guimarães se situava bastante mais próximo do topo do Monte Latito, correndo entre as torres da Garrida e de Santa Cruz (Porta da Freiria) e passando no mesmo sítio onde hoje se encontra a fachada do paço dos Duques voltada a Sul:



Legenda: A - Castelo; B - Paço dos Duques; C - muralha.


Em boa verdade, não é grande novidade, uma vez que, por exemplo, já nas suas Memórias Ressuscitadas da Província de Entre-Douro-e-Minho no ano de 1726, Francisco Xavier da Serra Craesbeeck, quando descrevia o cerco de Afonso VII ao castelo, onde se encontrava Afonso Henriques, escrevia:

É de advertir que a cerca, em que o dito Infante foi cercado por el-Rei de Castela, vinha serrar onde hoje estão os Passos, e quando el-Rei D. Dinis mandou fazer a cerca nova, que vai continuando com a cerca velha, devia ficar o lanço do muro, que cercava a cerca velha; e, sendo os Duques de Bragança Donatários da Coroa, tiraram o dito muro, e na parede donde ele estava, fizeram os Paços, que estão na terra de el-Rei, que os ditos Duques, por virtude da doação, que tinham da Coroa, fundaram na terra, que traziam dela; e como foi a dita doação conforme a Lei Mental, falecendo depois o Senhor Duarte sem filhos, ao qual as ditas terras vieram por sucessão, tornaram à Coroa onde estão.

Ou seja: o muro da cerca velha foi demolido pelos duques de Bragança para construírem o seu paço em Guimarães, o que vem demonstrar que a vila do castelo tinha uma área bem menor do que aquela que lhe tem sido atribuída.


Espaço delimitado pela cerca velha, de acordo com o mapa de 1569.
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1 de dezembro de 2009

Como eram diferentes, as Nicolinas, antigamente




No ano de 1857, foram como as descreveu o jornalista da Tesoura de Guimarães. Como se segue:


S. Nicolau. – Este festejo escolástico não foi tão pomposo e agradável como se esperava e estava premeditado; isto não só por ocorrências inesperadas, mas também por melindres e caprichos, na nossa opinião, mal entendidos. Se não pertencêssemos a esta ilustre classe, talvez não pugnássemos tanto pelo seu crédito; e, se notamos defeitos, é só com o fim de os vermos remediados. O público está acima de tudo, e o público não tem culpa nas ofensas ou caprichos dos particulares.

O pregão anunciador do festejo ia vistoso e magnífico. A figura de Camões seguida daquelas que representavam as faculdades da Universidade de Coimbra, mostravam o apreço que as ciências e a literatura dão ao nosso primeiro poeta. – Se haviam de alterar o programa, deviam também mudar a hora da saída, porque em muitas partes deixou ele de ser ouvido, e quando mesmo o Pregoeiro tivesse peito de bronze, e não se achasse tão incomodado, com se achou, só altas horas da noite poderia terminar, satisfazendo aos desejos de todos.

O dia do festejo só se conheceu às duas horas da tarde, tempo em que entrou na praça do Toural o Corpo Escolástico representando a entrada de Vasco da Gama em Lisboa na sua volta da descoberta da Índia. – O préstito do nosso herói era composto dos seus companheiros de armas todos vestidos no trajo da época 1500, e de quatro melindianos, representando estes o bom acolhimento que Vasco da Gama teve em Melinde, e a amizade começada entre o Rei daquele país e o Rei de Portugal. – Seguiram-se duas danças; uma de damas, figurando o prazer de muitas belas pelo regresso dos heróis que lhes estavam destinados, outra de portugueses e melindianos, significando o prazer dos dois povos por sua mútua amizade.

À noite, no teatro, que estava cheio, foi Vasco da Gama coroado de louros na presença de Minerva; seguindo-se a representação de duas comédias que foram bem desempenhadas, e os intervalos foram cheios com danças, e poesias, terminando assim o festejo escolástico do S. Nicolau.

A comissão promotora dos festejos teve a delicadeza de pedir às damas desculpa de suas faltas.


A Tesoura de Guimarães, n.º 129, Guimarães, 11 de Dezembro de 1857

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