30 de outubro de 2009

Do nascimento de António Lobo de Carvalho



 O Largo da Misericórdia, numa fotografia de 1890. A Rua das Flores, onde nasceu António Lobo de Carvalho, corria pelo lado esquerdo da fotografia. Foto da Casa de Sarmento.


Do notável “poeta fescenino” António Lobo de Carvalho não conhecemos o retrato. Da sua biografia, também não sabemos muito. Os que se debruçaram sobre a história da sua vida, como Natália Correia, dizem que “nasceu em Guimarães, provavelmente em 1730”. O Padre António Caldas registou que António Lobo “nasceu em Guimarães pelos anos de 1730, tendo por pais Diogo Ferreira da Silva e Jerónima Lobo, e viveu por muitos anos e falta de meios na Rua de Santa Rosa de Lima”.

Camilo Castelo Branco, que o chamou de “ave rara”, escreveu que “o poeta satírico António Lobo de Carvalho, falecido em Lisboa aos 26 de Outubro de 1787, nasceu em Guimarães, não se sabe precisamente quando. Era filho ilegítimo de fidalgo, e tinha em Vila Real parentes maternos que o educaram nas letras, consoante os frades da terra podiam ministrar-lhas”.

Fomos à procura do registo de nascimento do nosso poeta, e encontrámo-lo a nascer em Guimarães, na paróquia de Nossa Senhora da Oliveira, no dia 2 de Abril de 1733. Ao contrário da informação de Camilo, era filho legítimo. Teve, pelo menos, quatro irmãos, um dos quais, José António Lobo, dois anos mais novo, se finaria em Lisboa em meados de 1756. Quanto à residência na Rua de Santa Rosa do Lima, ainda não encontrámos qualquer referência na documentação do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta. É certo que o seu nascimento ocorreu na antiga Rua das Flores, que corria pelo lado voltado a Poente do Largo da Misericórdia (na sua configuração actual), em direcção a Valdonas. Temos notícia da residência da sua família nessa rua durante vários anos. Em 1756, já se havia mudado para a Rua do Gado. Quando o seu pai faleceu, no final de 1760, a família era moradora na Rua de Santa Maria.

Aqui fica a transcrição do registo de nascimento de António Lobo de Carvalho, não sendo ainda claro onde foi buscar o último apelido que utilizou ao longo da vida (Carvalho):

António. Aos dois dias do mês de Abril de mil setecentos e trinta e dois digo e trinta e três anos nasceu António filho legítimo de Diogo Ferreira da Silva e de sua mulher Jerónima Lobo Machado moradores na Rua das Flores desta freguesia e foi baptizado aos dez do presente mês e ano e lhe não pus os santos óleos pelos não haver ainda nesta igreja. Foram padrinhos o Capitão Gonçalo Lopes Pereira morador a Santa Cruz desta freguesia e Teresa Maria Borges mulher de Joaquim da Costa, moradores a Santa Luzia, freguesia de São Paio. Foram testemunhas o mesmo padrinho e o marido da madrinha, os quais assinam, e por verdade fiz este assento era ut supra.

O Cónego Cura, Luís Álvares Pereira
Gonçalo Lopes Pereira
Joaquim da Costa Silva

(à margem: Recebeu os santos óleos.)

[Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, Guimarães. Livro de nascimentos n.º 6 da paróquia de Santa Maria da Oliveira.]
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29 de outubro de 2009

Desde que nasce o sol até que é posto

Desde que nasce o sol até que é posto
Governa o lavrador o curvo arado,
E de anos o soldado carregado
Peleja, quer por força, quer por gosto:

Cristalino suor alaga o rosto
Do barqueiro, do remo calejado;
Do cascavel ao dente envenenado
Anda o rude algodista sempre exposto:

Trabalha o pobre desde a tenra idade;
O destro pescador lanços sacode
Para escapar da fome à atrocidade;

Todos trabalham, pois que ninguém pode
Comer sem trabalhar; somente o frade
Come, bebe, descansa e depois fode.

António Lobo de Carvalho, poeta português do séc. XVIII. Nasceu em Guimarães.

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27 de outubro de 2009

25 de outubro de 2009

Guimarães: mãe ou madrasta?



Se acaso em Guimarães um rio houvera

com ninfas pelas margens em cabelo

e espuma donde brota a de Citera

 
Eu cantaria o Rei e o seu Castelo,

a velha Igreja, Mumadona austera,

Pedralva – o Velho, e até qualquer camelo,

 
Se acaso em Guimarães tal coisa houvera.

[M. Branco de Matos, Este Chão, Esta Cidade (Guimarães – um roteiro poético), Guimarães, 2008, p.7]



Gostar de Guimarães não se constrói, nasce connosco.

Costuma dizer-se que Guimarães é "má mãe e boa madrasta".




Um dos traços que mais me fascina em Guimarães está no modo aberto como esta cidade encanta e se deixa amar por aqueles que a descobrem. Ao longo dos tempos, muitos têm sido os que, vindos de outras paragens, entre tantas escolhas possíveis, elegeram Guimarães para viver. É que, se ninguém escolhe a terra onde nasce, está ao alcance de qualquer um escolher a terra onde quer viver e fazê-la sua. Guimarães é uma terra generosa, acolhedora e franca. Boa mãe, para os seus filhos e para todos os que a adoptam como mãe. Sempre foi assim.

Poderia deixar aqui um longo rol de nomes de vimaranenses que vieram ao Mundo em outros lugares e que em Guimarães deixaram a marca das boas obras.

(Assim como poderia indicar uns quantos que, nascendo dentro dos muros do velho burgo, se foram daqui e não mais deram sinais de afeição pela terra que lhes escutou o primeiro choro.)

É por isso que me causa uma certa pele-de-galinha a conversa de que Guimarães é má mãe e boa madrasta, especialmente quando aparece na boca de pessoas lúcidas, mas que, porventura, não serão imunes às manifestações um tanto primárias de um certo fundamentalismo bairrista.

Num dos últimos dias do último ano, foi lançado um livro de poesia muito bonito, que é uma das mais belas manifestações de amor a Guimarães escritas em  verso que eu conheço. A sessão foi um acto de amor inteligente a esta cidade. Ainda me lembro como, a certa altura, reparei que, ao meu lado, na mesa onde eu fazia o papel de anfitrião, estavam o autor do livro, a pessoa a quem coube a sua apresentação e o primeiro responsável autárquico de Guimarães. Todos eles são vimaranenses com obra feita em Guimarães. Sei que cada um deles, à sua maneira, aprendeu a amar esta cidade. No entanto, nenhum nasceu em Guimarães.

Certo dia, na altura em que, há alguns anos, a roda do destino me atirou para algo que não fazia parte do meu projecto de vida, colocando-me à frente da Sociedade Martins Sarmento, um grupo de pessoas veio ter comigo, com a intenção de me dar os parabéns, porque, "finalmente, havia um vimaranense à frente de uma instituição de Guimarães". Confesso que o propósito daquela embaixada, sei que bem intencionada, me tocou como um murro no estômago. Com aquele gesto, estava-se a negar a cidadania vimaranense à pessoa a quem substituí, num momento em que as suas cinzas ainda nem sequer tinham arrefecido. De seu nome Joaquim António dos Santos Simões, foi, de todas as pessoas com quem até hoje trabalhei, aquela que mais generosa e persistentemente dedicou a sua vida a Guimarães (e a quem esta cidade tanto deve). Na cabeça pequenina daquela gente, não era um vimaranense. Enganavam-se duplamente: porque poucos terão sido vimaranenses como Santos Simões (e eu não conheço nenhum que demonstrasse um afecto mais genuíno por esta cidade) e porque eu, por acaso, embora haja por aí muita gente que pensa o contrário, também não nasci em Guimarães.


Confesso, a quem julgar que isso possa ser um defeito, que o meu modo de gostar de Guimarães não me veio do nascimento: é uma construção, tecida com  razão e afeição, de que me orgulho.

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24 de outubro de 2009

Dos incêndios


Guimarães, 23 de Outubro de 2009

A notícia do incêndio de dia 23, na rua de Camões, renovou um velho debate sobre as condições de segurança nas construções antigas de Guimarães situadas no Centro Histórico e na respectiva "zona tampão". Essa é uma discussão importante. Pode contribuir para que se não deixe cair a guarda em matéria de prevenção, mas a verdade é que não há nenhum meio para tornar aquelas velhas construções imunes a incêndios. A solução seria a substituição dos materiais e técnicas de construção tradicionais, em que o granito se conjuga com a taipa de fasquio e a taipa de rodízio, por materiais incombustíveis, promovendo-se a betonização dos edifícios. Mas aí já não estaríamos a falar, seguramente, do Centro Histórico de Guimarães.

Incêndios sempre os houve e, certamente, sempre os haverá. Mas a cidade sempre se soube recompor a seguir às grandes catástrofes que a atingiram ao longo da sua história.

Não faltam memórias de grandes incêndios. Um dos mais terríveis de que temos registo é o que levou, em 4 de Junho de 1869, quase todo o topo norte do Toural (apenas se salvou o edifício da esquina virada a poente, que era de construção recente e em pedra), provocando quatro mortos e centenas de feridos, resultantes de uma explosão num armazém onde se guardavam, entre outro produtos inflamáveis, pólvora e gás. Na altura, foi voz corrente que o número de mortos seria mais elevado, porque não terão voltado a ser vistos uns carpinteiros da Senhora do Porto que então estavam a trabalhar em Guimarães.


Aqui fica o relato desse desastre, tal como apareceu no jornal Religião e Pátria:



O lado virado a Norte do Toural, já recuperado do grande incêndio de 1869 (fotografia de 1884)


Horrorosa catástrofe

Guimarães presenciou, na madrugada de ontem, uma das mais horrorosas catástrofes de que aqui há notícia.

Pelas duas horas deram as torres sinal de incêndio, que estava já muito ateado, numa casa ao Toural, onde o snr. João José de Sousa Aguiar tinha um armazém de fazendas e de molhados e materiais inflamáveis, e uma fábrica de refinação de açúcar.

Os socorros acudiram prontos e, apesar do incêndio ter tomado proporções assustadoras, várias pessoas se dispunham já com corajosa dedicação a combatê-lo, quando se ouviu uma fortíssima detonação seguida de uma violenta explosão. É escusado descrever a cena horrorosa que se passou então. Passado o primeiro pasmo, principiaram a ouvir-se clamorosos alaridos, gritos aflitivos de dor.

As vítimas haviam sido muitas. A explosão arremessara para longe uns, a outros fizera-os cair dentro da labareda, que então tomara proporções gigantescas.

Ninguém, por muito tempo, se chegou a o incêndio. Apenas se tratou logo de valer às vítimas, que principiaram a ser conduzidas em macas para o hospital da Ordem se S. Domingos, que a respectiva mesa prontamente franqueou.

Dos que se sabe, contam-se vinte e dois gravemente feridos, dos quais já faleceram três.

Dos outros, mais ou menos levemente contusos e feridos, talvez possa dizer-se que foram todas ou quase todas as pessoas que assistiam e trabalhavam na extinção do incêndio, porque a explosão fez voar estilhaços, que varreram o terreiro e quebraram as vidraças das casas vizinhas.

Afinal, o incêndio, achando elemento, desenvolveu-se numa escala espantosa, passou às casas contíguas e devoraria ainda as outras se não fosse fortemente combatido; mas era já alto dia, e ainda nãos e tinha conseguido a sua completa extinção.

Além das lamentáveis desgraças, que consternaram toda esta população, os prejuízos foram também grandes, apesar de se fazerem muitos salvados em géneros de negócio e móveis pertencentes às casas vizinhas que mais ou menos sofreram o incêndio.

Todos trabalharam com dedicação e coragem; mas são dignos de especial menção os bombeiros e os soldados do destacamento do 14, que se arrojavam denodadamente ao perigo, e que se viam sempre no mais aceso do incêndio.

Merecem também louvores os facultativos que imediatamente correram a valer às vítimas, os padres que se dispuseram a ministra-lhes os sacramentos, as mesas da V. Ordem Terceira de S. Domingos e de S. Francisco, pela prontidão com que mandaram abrir os seus hospitais.

As casas estavam seguras nas companhias Garantia e Bonança.

Parece que o proprietário do armazém fora há tempos intimado para retirar dali os materiais inflamáveis, e que não fizera caso da intimação.

Como este, há ainda por aí outros armazéns e depósitos, que nunca deviam ser consentidos senão em casas isoladas, para fora de barreiras.

Sirva ao menos isto de exemplo e prevenção para futuras catástrofes.

Religião e Pátria, 9.ª série, n.º 47, 5 de Junho de 1869


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23 de outubro de 2009

Um problema de ‘lana caprina’


Guimarães é uma cidade com as suas curiosidades. Uma delas reside no facto de, por aqui, os "historiadores" parecerem brotar às catadupas, de onde menos se espera. Dá-se um pontapé numa pedra e saltam dois "historiadores" de baixo dela. O mais certo, é serem especialistas num dos ramos mais obscuros dos estudos históricos nacionais, a Idade Média. O que não falta por aí são "medievalistas de bancada", que nunca entraram num arquivo e que são incapazes de ler e de interpretar um documento medieval, por manifesta iliteracia paleográfica, mas que transluzem certezas em matérias em que os humildes historiadores profissionais apenas conseguem avançar, e muito à cautela, com dúvidas e incertezas.

Não tenho por hábito discutir medicina com médicos, nem leis com juristas, nem gáspeas com sapateiros. Do mesmo modo, não discuto história com qualquer um, pelo que há muito adoptei o hábito higiénico de ignorar as "obras" desses historiadores adventícios. E, confesso, também não tenho como argumentar com tais "eruditos", uma vez que não tenho o hábito de ler o que escrevem, por falta de interesse e de paciência.

Mas quase que vou abrir uma excepção.

Mão amiga chamou-me a atenção para um texto hoje publicado no jornal Notícias de Guimarães, onde, a certa altura, se escreve que, num livro recentemente publicado em Viseu, um certo Coronel do Exército Português "cita, longamente, o nome do actual Presidente da Sociedade Martins Sarmento, Amaro das Neves, e as suas «Memórias de Araduca», em proveito da teoria Viseense". Não percebo como, com tudo o que aqui já escrevi, o meu nome possa ser invocado em nome de tal teoria. Mas percebo a intenção da bicada, na linha de outras que me têm passado ao lado, que está por trás da expressão "em proveito da teoria Viseense". Pretende-se sugerir, de modo enviesado, que eu seria um agente ao serviço da causa dos que defendem o nascimento de Afonso Henriques em Viseu. Não estou ao serviço dessa causa. Nem, em matéria de investigação histórica, estou ao serviço de qualquer causa, seja ela qual for.

O que hoje espicaçou o meu interesse foi encontrar, no tal artigo, a transcrição de um excerto de um texto que escrevi há quase vinte anos, onde afirmei que «a questão do lugar de nascimento de Afonso Henriques é, no contexto da História nacional, um problema de lana caprina, dos que não tiram o sono a qualquer historiador». O texto em referência, com o título "Afonso, rei de Portugal nascido em parte incerta", foi publicado no jornal O Povo de Guimarães, no dia 23 de Março de 1990. O assunto era o local de nascimento de Afonso Henriques. Na altura, saltou-me às canelas, com uma ferocidade carregada de despropósito, um colaborador do jornal O Comércio de Guimarães, em termos que considerei completamente desajustados, o que me levou a escrever ao então director daquele jornal, perguntando-lhe se já "valia tudo". Em resposta, recebi uma carta simpática, através da qual o director de O Comércio de Guimarães dava conta da sua solidariedade com a minha irritação e, por entre expressões pouco generosas para o autor do tal texto que o seu jornal publicara, me informa, de livre e espontânea vontade, que não tenho razões para acreditar que não fosse sincera, que concordava com aquilo que eu havia escrito no meu texto que estivera na origem do incidente.

Resta dizer, a quem ainda não tenha reparado, que, por ironia, aquele que era director do jornal O Comércio de Guimarães, na Primavera de 1990, vem a ser o autor do texto a que aqui me referi, hoje publicado no Notícias de Guimarães. O meu texto, que agora cita e com o qual afirmou concordar na altura da sua publicação, pode ser lido aqui.



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21 de outubro de 2009

O Desafio de 2012 (9)

[Ler texto anterior]

Joaquim Novais Teixeira, nascido em Guimarães em 1899, ganhou o Mundo.

Emigrante em Espanha desde os 20 anos, ali frequentou o meio literário e artístico, tendo-se relacionado com vultos da cultura espanhola do seu tempo, como Unamuno, Garcia Llorca, Pio Baroja, Diez Canedo, Valle-Inclán, Luís Buñuel. Durante a República Espanhola, colaborou com o Presidente Manuel Azaña, tendo chefiado o Serviço de Imprensa Espanhola. Viveu de perto os acontecimentos da Guerra Civil. Os textos que publicou em diversos jornais sobre a República espanhola, hoje quase ignorados, constituem um dos mais notáveis contributos para o conhecimento daquele período intenso e conturbado da história de Espanha. Finda a Guerra, refugiou-se em França. Impedido pelo regime salazarista de regressar a Portugal, a invasão da França pelas tropas de Hitler conduziu-o ao exílio no Brasil. Aí, dirigiria a Interamericana, serviço que, no Brasil, apoiava a causa dos Aliados.

Colaborou na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, de que foi secretário-geral. Também se dedicou à tradução, tendo transposto do castelhano para português diversas obras. Esta actividade foi particularmente intensa no ano de 1927. No Brasil, teve particular ressonância a edição que preparou das cartas do Padre António Vieira, que veio ao lume pela primeira vez no ano de 1948.

Como jornalista, foi considerado um dos melhores especialistas mundiais na política internacional do seu tempo. Em França, foi o representante de jornais brasileiros prestigiados, como O Globo e O Estado da São Paulo. Ficaram famosas as suas reportagens na Itália e Suíça, os trabalhos que publicou sobre a questão franco-árabe e as reportagens que realizou na Tunísia, na Argélia e em Marrocos.

Desde cedo ligado ao cinema, Novais Teixeira foi um dos mais respeitados críticos do seu tempo. Integrou os júris de diversos festivais internacionais de cinema (Cannes, Locarno, Berlim, etc.), chegando a presidente da direcção da Fédération Internationale de la Presse Cinématographique. Em 1972, colaborou na organização do Festival de Cinema de Nice, nesse ano dedicado ao jovem cinema português. Em homenagem ao jornalista vimaranense, o Syndicat Français de la Critique de Cinéma atribui o prémio Novais Teixeira, à melhor curta-metragem de cada ano.

Novais Teixeira é hoje uma figura quase esquecida na terra que o viu nascer e que ele próprio nunca esqueceu. Cidadão do Mundo, com raízes em Guimarães, a sua obra deixou marcas profundas em países como a Espanha, a França ou o Brasil. Guimarães deve-lhe uma homenagem. 2012 parece ser uma excelente ocasião para a concretizar.


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20 de outubro de 2009

Cónego José Maria Gomes, republicano

O Cónego José Meria Gomes, numa caricatura de José de Meyra de 1905. Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.

Quando a República ainda dava os primeiros passos em Portugal, o Cónego José Maria Gomes escreveu ao jovem Administrador do Concelho de Guimarães, Eduardo de Almeida, uma carta em que dava conta da sua adesão à causa republicana, mais tarde publicada no jornal Alvorada:


Meu exm.º am.º

Após umas enormes férias (não falando em feriados) que oxalá o novo regime reduza, como já reduziu as galas, entro hoje em exercício de funções professorais, no Liceu desta cidade. Apraz-me vir declarar neste momento a v.ª ex.ª digníssima autoridade administrativa local, – que adiro franca e lealmente à República que a evolução nos trouxe no rápido carril dos desmandos e descrédito do regime extinto.

Adiro não com o simples acatamento da impotência, não com a mera obediência passiva, mas com a rasgada afirmação da minha simpatia e da firme crença, em que estou de que, com o advento da República, raiaram para a nossa Pátria melhores tempos. Do que tenho pena é se, quase a cinquentar, não logro ver toda essa pujante florescência que antevejo a nova seiva fará brotar da grande árvore secular, tão depauperada!

Adiro, sim, à República e creio que, sob o seu regime, o velho Portugal pode renascer para a realeza das máximas prosperidades e todos podem, se o quiserem, ascender até às culminâncias da santidade cristã.

Adiro e pergunto: "Porque hão-de apavorar-se os padres com a República?" Eu penso que só terão que recear dela aqueles de quem ela tiver que recear também.

Oxalá que eles saibam, salvaguardando crenças, não excrescências, receber sem esgares doentios a Jovem República triunfante e compreender que as hostilidades e intransigências criaram ao clero francês uma situação de desfavor e revindicta que pudera ter-se atenuado.

Este meu deslizar para a República, meu caro amigo, não é um gesto astucioso de adoração ao sol nascente, não é um passo calculado de maromba política; é o naturalíssimo pendor e suave declive de um homem que sempre buscou elevar-se pelo trabalho, que sempre pugnou por ideais de justiça e honestidade, e que, há mais de 20 anos, tem vivido alheio às agremiações e lutas partidárias.

Adiro, pois, sem encavacar porque, se é certo que nunca estive inscrito nas fileiras republicanas, não o é menos que, desde há muito, pairava nessa atmosfera o meu espírito liberal. Esta adesão, meu caro dr., faço-a agora com tanto mais prazer quanto é nas mãos de v. ex.ª que a deponho, de v. ex.ª, cujas qualidades de inteligência e carácter há muito admiro; e as de prudência, cordura e bondade ainda nos últimos dias se revelaram altíssimas como administrador de Guimarães.

Dizia-me ontem um amigo de alta posição no nosso meio: "Teve Guimarães a boa fortuna de dar-lhe a República para administrador aquele rapaz (perdoe v. ex.ª o aparente desprimor) que é inteligente e delicado e que, sem quebra dos seus princípios nem postergar ordens superiores, tem sabido dulcificar as agruras do momento."

Para findar, saúdo na pessoa de v. ex.ª a República Portuguesa!

Esta carta pode v. ex.ª torná-la pública e até o desejo, mas na sua integra.

Saúde e Fraternidade!

Guimarães, 17 de Outubro de 1910.

De v. ex.ª, amigo, atento e venerador.

Cónego José Maria Gomes.

in Alvorada, n.º 17, 1.º ano, Guimarães, 18 de Março de 1911

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19 de outubro de 2009

Capitão Luís de Pina Guimarães, republicano

O antigo Café Oriental, obra do Capitão Luís de Pina

Do Capitão Luís de Pina, militar e artista vimaranense (entre as suas obras conta-se saudoso Café Oriental), defensor da causa republicana, aqui fica um texto publicado na Alvorada, no início de 1911:


Sosseguem...

Quem ouvir a oposição fazer grande celeuma por falta das constituintes ou por abuso da justificada ditadura do governo provisório e não estiver bem precavido ou orientado do que realmente têm sido entre nós as eleições para deputados, há-de naturalmente supor que desde o dia 5 de Outubro tudo corre mal por falta de parlamento, e que elas se deviam ter realizado desde logo.

Ora o governo provisório não devia fazer eleições pela ignóbil porcaria, e uma lei eleitoral não podia decretar-se do pé para a mão sem aturado estudo fundamentado nas conveniências da acção reformadora das novas instituições, às quais o governo devia prestar todas as suas mais urgentes atenções e energias, sem perder de vista a sua própria e indispensável defesa, porque os inimigos são numerosos e atrevidos, uns por conservantismo piegas, outros por conveniências partidárias de arranjos, e muitos, como o povo inculto, que é a grande maioria, por supor a República uma coisa detestável, cuja síntese e o roubo, o latrocínio.

E, decretada a nova lei eleitoral e chamado o país para a boca da urna, imaginar-se-á que vai ali a consciência e a vontade livre dos eleitores?

Como estão enganados…

No actual estado de educação do povo as eleições não podem representar mais que uma farsa, cujo principal papel cabe ao caciquismo, que há 60 anos tem servido de comparsa a uma ditadura a que se tem chamado constitucionalismo, e em que a maioria pertencia sempre, invariavelmente, àquele dos dois partidos que se revezavam no poder.

Por muito tempo ainda a urna deixará de representar a consciência livre do país, porque a grande maioria ignora o importante papel cívico que perante ela tem a desempenhar, e é levado como um rebanho obediente de carneiros indiferentes.

Desde que assistimos de perto às últimas eleições em Braga, nenhuma significação elas têm para nós, no campo monárquico.

Vimos ali anafados sacerdotes, suando como bois, visivelmente cansados por uma torpe galopinagem, redemoinharem à roda das urnas, de olhar perscrutador, risonhos do seu predomínio num povo embrutecido, enquanto este, como em S. Victor, olhava, indiferentemente criminoso, para o estado de ruína e de desolador desconforto do edifício escolar, ao centro de cuja sala o regime, por escárnio e por seu peculiar egoísmo, colocava a mesa da assembleia, em risco de desaparecer nos boqueirões abertos no pavimento, tão podre como as instituições que assim patenteavam um dos seus corpos de delito em crimes de toda a espécie.

E esse povo, com bastante mágoa nossa, lá ia de lista na mão votar nos réus de tão descarado desleixo, concorrer com o seu voto, inconsciente ou forçado, para a continuação da bambochata nacional.

Como um tremendo protesto contra tamanha imoralidade surgiu então um oportuno pontapé na urna do Souto, que fez voar em várias direcções as listas de diversos matizes; pontapé que foi numa apoteose, o mais eloquente e formal desdém por um acto que nada significava em vésperas da derrocada salvadora.

Capitão Pina.

in Alvorada, n.º 9, 1.º ano, Guimarães, 21 de Janeiro de 1911

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18 de outubro de 2009

Uma imagem para 2012

José de Guimarães, símbolo do logotipo do ICEP (1993)

Nos tempos que correm, a imagem corporativa constitui uma das principais marcas da identidade de uma instituição ou de um evento. O elemento central dessa imagem, o logotipo, mais do que um mero sinal gráfico, deve ser a marca: uma metáfora visual da identidade do objecto a que se refere. Para um acontecimento como a Capital Europeia da Cultura, o logótipo deve entrelaçar elementos caracterizadores da terra e das gentes de Guimarães, assim como referenciais simbólicos, imateriais e intangíveis, simultaneamente locais e europeus. Devendo ser, por natureza, um objecto simples, o símbolo deverá agregar um conjunto complexo de elementos identificadores facilmente compreensíveis. Ainda não foi definida a imagem corporativa de Guimarães 2012, tendo sido anunciada a intenção de a escolher através do lançamento de um concurso internacional. Parece-me um bom caminho, embora sinta que vai sendo tarde para arrancar com esse processo. Julgo que, com vantagem, poderia ser outra a opção, encomendando-se a concepção do logotipo da CEC2012 directamente a um artista de referência, reconhecidamente capaz de transpor para formas simples a complexidade dos elementos simbólicos em jogo, acrescentando-lhes uma significativa mais-valia de contemporaneidade e dimensão artística. Quem? José de Guimarães, claro.

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17 de outubro de 2009

Jerónimo de Almeida, republicano

Jerónimo de Almeida, numa caricatura de José de Meyra de 1905. Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.

De Jerónimo de Almeida, poeta vimaranense, defensor da causa republicana, aqui fica um texto publicado na Alvorada, no início de 1911:


Propaganda rural

Vai iniciar-se uma série de conferências, para propaganda rural do novo regime republicano, pelas diversas povoações e subúrbios do nosso concelho.

Elas traduzirão um alto interesse para a consolidação da vasta obra da República, e, sem ela, dizer se que estamos numa nação de cidadãos republicanos – é um erro, pois que a verdadeira doutrina republicana não penetrou ainda na consciência das multidões da província. Longe, muito longe estamos ainda de que isso represente uma verdade consumada.

A República preparou-se e educou unicamente a população da capital e das grandes cidades, especializando o sul do país. Para o norte, e, sobretudo, na massa popular, ela consistia numa utopia, quando se não urdisse à volta da sua palavra uma ideia de revolução e anarquia. É um facto comezinho, que quando a uma criatura rústica se falasse em República, ela se aterrorizava julgando que República – era andar tudo sem rei vem roca.

Este era o juízo nítido que essa gente néscia formulava do regime democrata.

Realizou-se o seu advento, e, como fosse imprevisto, não houve tempo para antecipados terrores. Mas não se julgue que essa grande massa se desiludiu da falsa conjectura que formava das novas instituições, mas que ela vive inquietamente à espera de alguma coisa má que está para acontecer... – consequência inevitável da República se ter implantado. Se se cala não é confiante nos seus desígnios, esperançada na sua legislação, crente de que o governo lhe há-de reivindicar os lídimos direitos e liberdades: – cala-se porque teme que a levem para as goles, e crê aproximar-se o dia em que lhe lançarão pesados tributos, para a tornarem mais escrava ainda que nos tempos da monarquia!

Será isto para muitos a República ainda hoje, porque nós não desconhecemos a escura ignorância do nosso povo, cujo espírito atravessa uma constante noite cerrada. Levemos-lhe luz. Façamos dele não uma plebe ignara e inconsciente, com uma vida instintiva, – mas um povo de verdadeiros cidadãos e sinceros patriotas.

Ensinemos-lhe que a República é um regime de democracia e justiça, ao lado do qual devemos unir os nossos esforços, comungando nos mesmos ideais, defendendo nobres aspirações, lutando pelo progresso – livres de preconceitos e de feudalismos, – e fazendo com que esta pátria, durante séculos ludibriada pela tirania dos reis e dos governos, seja uma pátria gloriosa e feliz, em que as leis sejam as mesmas para os ricos e para os pobres.

Jerónimo de Almeida.

in Alvorada, n.º 7, 1.º ano, Guimarães, 7 de Janeiro de 1911

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14 de outubro de 2009

Da cidade extraordinária e da cidade ordinária

Há poucos dias, quando já quase encerrava a campanha eleitoral para as eleições autárquicas, foi despoletada em Guimarães uma polémica originada na leitura de declarações ao jornal Público, de 3 de Outubro, de Álvaro Domingues, geógrafo que tem colaborado com a Câmara Municipal de Guimarães, nomeadamente no âmbito da revisão do Plano Director Municipal, a propósito da distinção que faz entre aquela que classifica como a "cidade extraordinária" (o Centro Histórico classificado) e a "cidade ordinária". Dizia Álvaro Domingues:

"Guimarães sempre teve mais de dois terços da população e do emprego fora do perímetro urbano. E sempre acharam normal; agora cavou-se uma trincheira. Só se preocupam com o centro histórico, com a cidade extraordinária. Do outro lado da trincheira, está a cidade ordinária, a genérica, que não tem marca e ninguém vê... As pessoas agarram-se ao que acham que conhecem, e, à medida que vai aumentando o trauma da perda da cidade extraordinária, aumenta a amnésia do resto."

Estas declarações levantaram alguma discussão, incluindo expressões de indignação por parte do Presidente da Câmara, confrontado pela oposição com o teor das afirmações de Álvaro Domingues. Todavia, a única novidade nesta discussão não são, ao contrário do que possa parecer, as declarações do geógrafo, mas sim as reacções que provocaram, explicáveis pelo ardor da disputa, em contexto eleitoral, que se vivia naquele momento. Para se recentrar a discussão, proponho a leitura do seguinte texto:

"Guimarães é, a este propósito, um caso de grande contraste e contradição. Face à velocidade e à complexidade do que muda, perdem-se uns em lamentos sobre perdas das paisagens mitificadas do passado; perdem-se outros no rol de contrariedades acerca do que realmente existe e da sua invariável falta de outro sentido que não seja o caos ou o "feísmo". Como terapia apaziguadora, andarão uns e outros à procura de enquadramentos forçados para as suas paisagens extraordinárias: o apinhado de casas no centro histórico da cidade com o castelo ao fundo; o bucolismo de um fragmento de uma veiga com os seus campos, vinhas e casas vetustas.

Tudo o resto são paisagens ordinárias e banais, sem memória, sem identidade, sem qualquer tipo de espessura que tenha ficado do legado da história, dos traços de uma natureza por demais revolvida e transformada. É uma espécie de diálogo pela negativa, pela ausência, pela superficialidade ou pela contrariedade. No entanto, estas paisagens genéricas são o palco do quotidiano da maior parte das pessoas e é por isso estranho que assim se possam manter estas contrariedades e ausências."

O autor dos dois parágrafos acima transcritos, perfeitamente coerentes com as declarações ao jornal Público, é Álvaro Domingues. Ali encontramos, também, a distinção entre a "cidade extraordinária" e a "cidade banal". Porém, ao contrário do que agora sucedeu, elas não provocaram qualquer polémica, nem sequer um mínimo de discussão. Constam do processo de "Candidatura ao título de Capital Europeia da Cultura", apresentado por Guimarães em Bruxelas, documento que está publicado e que não deverá ser desconhecido daqueles que agora se pronunciaram sobre esta questão. Se, desta vez, como consequência da notícia do Público, Álvaro Domingues deixar de trabalhar com Guimarães, estou em crer que será Guimarães quem mais ficará a perder. Deixemos, pois, que a poeira assente.
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13 de outubro de 2009

Sobre a obra de Soares dos Reis em Guimarães

António Soares dos Reis

A notícia de Samuel Silva para o Público acerca do "achamento" das relíquias de S. Gualter, na Igreja de S. Francisco, em Guimarães, fazia referência a uma imagem da Senhora das Dores atribuída a António Soares dos Reis. Trata-se efectivamente de uma obra daquele artista, que deu entrada na igreja na década de 1870. Esta não foi a única produção do grande escultor para S. Francisco de Guimarães. Saiu do seu escopro, também ,uma imagem do Coração de Maria, paga com esmolas e donativos dos fiéis, que foram recolhidos, segundo João Lopes de Faria, pelo padre comissário dos terceiros de S. Francisco, António Joaquim Teixeira, pelos irmãos Ferreiras de Abreu e por D. Maria de Belém, José e padre António. Deu entrada na Igreja em finais de Maio de 1877, tendo sido benzida solenemente numa festividade religiosa que teve lugar no primeiro dia de Junho desse ano.

Porém, a escultura de Soares dos Reis não conquistaria as simpatias dos devotos (João Lopes de Faria comparou-a a "uma estátua de cemitério"). Seria substituída por outra, mandada fazer em Roma, por um anónimo, ao escultor Giusepe Bernardi, que os jornais descreviam como "afamado e insigne escultor", mas que não deixou grande rasto na História da Arte. Esta imagem seria sagrada na Basílica e S. Pedro de Roma, pelo Papa Leão XII, no dia 9 de Agosto de 1882.

O jornal Religião e Pátria relata que, no dia 26 de Agosto, sábado, ao anoitecer, a nova imagem foi "levada a ocultas e sem o mínimo aparato para a referida capela e depois de colocada no seu altar e convenientemente assente sobro um trono todo refulgente de luzes e todo perfumado de flores, exposta à veneração pública dos fiéis". Segundo João Lopes de Faria, foi "grande a concorrência até altas horas da noite, despertada pelos repiques de sinos, foguetes e música".

No dia seguinte, domingo, de acordo com o mesmo jornal, teve lugar "uma pomposíssima festividade em honra do SS. e Imaculado Coração de Maria, à qual assistiu um numerosíssimo concurso de fiéis, atraídos ali não só pela devoção à Mãe de Deus, como também para verem e analisarem uma formosíssima imagem, que um piedoso anónimo, em substituição doutra pouco atraente e muito imperfeita".

Quanto à escultura do Coração de Maria de Soares dos Reis, foi, nessa altura, retirada dos olhares do público. Segundo João Lopes de Faria, terá sido levada para casa pelo anónimo doador da nova imagem.

António Soares dos Reis (1847-1889) é um dos mais destacados escultores portugueses. Em Guimarães, é autor do monumento a D. Afonso Henriques (1887), uma das suas obras mais conhecidas, adquirida por subscrição pública. Na colecção de arte da Sociedade Martins Sarmento há também uma obra de Soares dos Reis, um relevo representando a morte de Adónis.

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11 de outubro de 2009

As relíquias de S. Gualter

Fotografia do jornal Público

Por estes dias, é notícia a descoberta das relíquias de S. Gualter. Desses despojos já tínhamos a informação de que, no dia 4 de Agosto de 1577, teriam sido trasladadas para "um sepulcro de pedra dourada, numa capela, levantada em colunas", edificada pela vila de Guimarães. Mais tarde, por volta de 1800, terão passado para uma das capelas da igreja de S. Francisco, onde permaneceram até à década de 1870, altura em que o altar em que estavam foi ocupado pela imagem da Senhora das Dores, esculpida por Soares dos Reis. No início da década de 1880, o Padre António Ferreira Caldas afirma que as relíquias de S. Gualter estavam depositadas sobre a banqueta do altar do Descendimento, na Igreja de S. Francisco. Nessa altura, estariam já tal como foram encontradas agora. Aliás, o local e a forma como estavam guardadas as relíquias de S. Gualter eram há muito conhecidas, como o demonstra o ensaio biográfico "S. Gualter de Guimarães", publicado na Revista de Guimarães, entre 1922 e 1929, por Aloísio Tomás Gonçalves, onde o autor escreveu que:

"É a imagem-relicário, onde se encerram as relíquias de S. Gualter, uma grosseira escultura de madeira, sem arte nem gosto executada, curta, atarracada, deploravelmente pintada. Está vestida de hábito, franciscano quanto à forma, mas de seda preta! A urna que a encerra poisa sobre a banqueta, ficando-lhe sobranceiro o retábulo do Descendimento." (Revista de Guimarães, n.º 35, 1925, pág. 282).

O relicário onde estavam guardados era a imagem de roca que representava o próprio santo, em postura jacente, num dos altares da igreja de S. Francisco de Guimarães. Trata-se de um conjunto de ossos, incluindo a caveira. Não parece que o achado inclua o esqueleto completo de um indivíduo. Visivelmente, alguns dos ossos foram serrados, possivelmente com a intenção de multiplicar as relíquias. O achado é curioso e o recurso às tecnologias de datação hoje disponíveis poderá fornecer-nos muitas informações acerca daquele achado, nomeadamente permitindo saber se aqueles ossos podem ou não ser mesmo de S. Gualter. A confirmar-se essa possibilidade, para a qual a tradição das relíquias aponta, o recurso às técnicas hoje disponíveis, como as utilizadas nas reconstituições faciais forenses, que permitiram a reconstituição do Menino do Lapedo, ou a digitalização em 3D, usada para nos mostrar a face do faraó Tutankamon, poderá permitir a reconstituição do rosto de S. Gualter.

Até que as perícias científicas se aproximem de informações mais seguras acerca do achado, há que usar de alguma prudência. O culto das relíquias (os restos da existência terrena de figuras a quem se presta culto), tão presente na religiosidade dos nossos antepassados, muitas vezes foi objecto de fraudes, de enganos e de furtos. Na Idade Média, as relíquias que operavam milagres eram essenciais para qualquer santuário, que não seria concebível se não possuísse despojos de Santos, da Virgem Maria ou do próprio Jesus Cristo. E, se as não havia, inventavam-se. Como sucedeu no seguinte episódio burlesco, ocorrido em Junho de 1867, tal como o descreveu João Lopes de Faria nas suas preciosas Efemérides Vimaranenses:

"Num dos últimos dias deste mês espalhou-se a notícia de que na ermida da Penha aparecera um cadáver, enterrado há muito tempo, em bom estado de conservação. O povo logo quis ver a relíquia de um santo e alguns afiançavam ter presenciado factos miraculosos; sabia-se que era um frade da Costa e o seu nome. O povo corria em multidões a admirar o prodígio e a untar-se com um fragmento da relíquia. Concorreram os zeladores da ermida, estando muito povo, os padres António Ferreira de Abreu e Domingos Ribeiro Dias, quando chegaram viram exaltados os ânimos por estar fechada a ermida, trataram de convencer o povo, de que os deixassem ir sós à ermida para averiguarem, por a ermida comportar pouca gente, o que conseguiram e trouxeram-lhe uma ossada descarnada dizendo que não havia razão para que a ossada fosse de santo porque tanto podia ser como a de qualquer indivíduos. O povo grita: Maroteira! Tarantada! Esconderam-no e mostram agora uns ossos que trouxeram para isto. Não o despersuadiram ainda, depois de lhe mostrarem todos os escaninhos da ermida e da casa, de que não havia ali um santo." Isto é o relato do jornal "Religião e Pátria", de cuja redacção faziam parte os ditos padres, que historiam a seu bel-prazer. Eles padres e outros zeladores estavam lá e bem sabiam o que haviam feito que era: uma pequena cova aberta à porta da sacristia com uns ossos humanos que o povo dizia queriam atribuir serem de frei Guilherme, iniciador e instalador da ermida, a quem chamavam santo, mas convencido que foi o 1.º dos padres que os trouxe da igreja de S. Francisco. Terminaram esta farsa eclesiástica, vindo o povo em selvajaria a jogar com pontapés os ossos pelo monte abaixo, desrespeitando-os, sendo a caveira achada, pelos anos 1928, pouco abaixo do 1º Passo subindo, debaixo de alguma terra, quando aí abriram covas para arvoredo.

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9 de outubro de 2009

Autárquicas 2009 – reflexões avulsas sobre as propostas para a cultura

Quase a entrar no período de reflexão para o próximo acto eleitoral, partilho aqui algumas reflexões avulsas, que resultam da leitura dos programas dos partidos candidatos ao município de Guimarães.

1. Em primeiro lugar, até pela dificuldade que tive para aceder a alguns dos programas eleitorais dos partidos, noto que, em regra, os programas são encarados como documentos sem importância e escritos com a ideia de que ninguém os lê, apenas servindo para cumprir uma mera formalidade. Está demasiado enraizada entre nós a tradição de que os programas não são para cumprir. E o escrutínio público também não é um costume muito nosso: hoje já ninguém se lembra do que se prometeu há quatro anos e não nos preocupamos em verificar o nível de cumprimento dos programas eleitorais, em apurar se quem foi poder concretizou o que prometera quando foi a votos, nem se aqueles que foram oposição apresentaram as propostas que se comprometeram a apresentar ao longo do mandato.

2. Entre nós também vai faltando o espírito de "governo sombra" na administração autárquica, que permitiria aos partidos que não estão no poder um melhor conhecimento dos dossiês, contribuindo para uma maior especialização e solidez das respectivas linhas programáticas. Acredito que não seria de todo inútil a "institucionalização" pelos partidos da oposição da figura de "vereador sombra", para acompanhamento de cada um dos principais pelouros da autarquia.

3. Podemos dividir os programas eleitorais dos diferentes partidos em dois grupos: há os que estão convictos de que vão ser poder e que, por isso, são mais contidos no que toca a promessas, e os que estão certos de que, no máximo, terão assento na oposição, e que avançam com diferentes promessas, mais ou menos avulsas, sem sentirem necessidade de ponderarem os respectivos cadernos de encargos.

4. O modo como os diferentes partidos abordam a cultura dá-nos uma ideia clara das suas preocupações em matéria cultural. O que vemos, quando olhamos para as propostas dos dois partidos tradicionalmente mais votados em Guimarães, não é especialmente entusiasmante. Em ambos os casos, não se acrescenta uma única ideia nova em relação ao que já era conhecido. Em ambos os casos, nada há, absolutamente nada, para além da CEC2012. Não deixa de ser sintomático que nenhum deles tenha definido uma linha de política cultural para a autarquia. Apenas e só CEC. O que não é pouco, antes pelo contrário, mas que peca por se situar numa área onde a margem de intervenção da autarquia se restringe à construção de obra física.

5. Não terá, porventura, grande significado, mas registo que o PS e o PSD omitiram, nos respectivos programas, quaisquer referências a apoios destinados às associações culturais (o primeiro compromete-se expressamente a apoiar as associações de bombeiros e as associações e clubes desportivos, nada referindo a propósito das associações que trabalham no campo da cultura).

6. A aposta cultural em Guimarães tem estado fortemente voltada para a fruição e muito balanceada para as artes performativas. O tempo que aí vem há-de ser especialmente propício para um maior equilíbrio do investimento cultural, apostando igualmente na criação, nos diferentes domínios da cultura. Há, nas propostas dos partidos, alguns sinais, tímidos embora, de que este pode ser o caminho.

7. Porque não estão inscritas nos programas eleitorais dos partidos melhor posicionados para assumirem a maioria na autarquia, não somos capazes de adivinhar quais serão as linhas de força da política cultural da CMG para os próximos anos. A verdade é que os dois maiores partidos não têm políticas culturais claramente definidas (para além da CEC.) Em ambos os casos, não há enquadramento teórico, não há definição de objectivos, não há uma determinação clara de qual seja a vocação da autarquia na área da cultura. Não estando definidos os limites da intervenção da Câmara, o que podemos ter, nos próximos quatro anos, pode ser tudo ou pode ser nada. É absolutamente necessário definir-se, com clareza e em termos compreensíveis para os agentes culturais, o que a autarquia pode e o que a autarquia deve fazer e o que a autarquia não pode nem deve fazer nos diferentes domínios da intervenção cultural.

8. Na falta de linha de rumo previamente traçada, a acção cultural da CMG tenderá a fazer-se por navegação à vista, ao sabor da maré e da casuística. O horizonte será sempre o mais próximo, as decisões serão contingentes e não necessariamente coerentes entre si.

9. Estarei eu especialmente pessimista em relação à cultura em Guimarães, para além da CEC, para os anos de 2009 a 2013? Nem por isso. Acredito que o improvável não é impossível e que até pode ter forte probabilidade de vir a acontecer. E o improvável que acontece pode ser especialmente exaltante. Como a Capital Europeia da Cultura, improvável, quase impossível, há quatro anos, bem o demonstra.

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Mário Cardozo, republicano

Mário Cardozo, numa caricatura de José de Meyra de 1907. Da colecção da Sociedade Martins Sarmento.

No dia em que a República perfazia um ano, Mário Cardozo, que viria a ser arqueólogo e Presidente da Sociedade Martins Sarmento, publicou no jornal republicano Alvorada um texto sobre aquela que considerava ser a maior obra da República, a "emancipação da consciência":

A CAMINHO

A maior obra iniciada e a completar dentro das instituições republicanas é, certamente, a emancipação da consciência. Com verdade, jamais um povo pôde chamar-se civilizado e emancipado, sem que na sua alma se tenha prendido e arraigado com amor o sentimento de soberania, o orgulho da vontade própria, a nobreza da independência, a luz da libertação espiritual.

Um país que num século avançado como o nosso, viva ainda subjugado à passividade duma fé grosseira, acorrentado ao círculo de ferro do velho fanatismo impotente para dominar as pulsações e o latejar dum cérebro que pensa – é um país de deserdados e de párias.

Um povo que, vendo nascer à sua volta a claridade imensa duma madrugada ideal, queira conservar-se nas trevas duma noite profunda – é um povo de cegos.

Um povo que numa era de liberdade e de igualdade, prefira dobrar-se ao azorrague mil vezes humilhante do despotismo ignóbil duma casta – bem merece a condição infamante e desprezível de escravo e de vendido.

Uma nação que, abdicando dos seus direitos, da sua energia colectiva, da sua autonomia, consinta o jugo, a tutela ambiciosa dos estranhos, a dependência abjecta, a subordinação rastejante – é uma nação com uma vida instintiva, é um rebanho famélico, é uma horda imunda, selvagem, que não deve ser diferenciada da animalidade inconsciente.

Por isso eu acho essencialíssima e nobilíssima entre todas a obra da República que visa directamente à educação cívica do povo, à libertação do espírito, à emancipação da consciência. Eu tenho fé, eu tenho crença no ressurgimento completo da alma nacional, porque através de todos os vícios e decadências, ela tem mantido sempre uma parcela, uma centelha do fogo sagrado. A chama vai crescendo e avivando, ao calor duma nova pátria; um dia irradiará clarão imenso; vulcão inexaurível para guiar, mais uma vez, a humanidade na sua marcha incessante para o progresso e para a verdade!

Mário Cardozo.

in Alvorada, n.º 1, 1.º ano, Guimarães, 5 de Outubro de 1911


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7 de outubro de 2009

Autárquicas 2009 - propostas do PCTP/MRPP para a cultura

O PCTP-MRPP é um pequeno partido que concorre às próximas autárquicas em Guimarães com um pequeno programa, onde há uma singular proposta para a Capital Europeia da Cultura (a criação de um Observatório de Astronomia na Penha) e uma singela proposta cultural (o apoio a associações desportivas e culturais). E nada mais.

Eleições autárquicas 2009 | Programa eleitoral do Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses - MRPP
Extensão: 410 palavras
Menções à cultura: 2
Menções à Capital Europeia da Cultura: 2
Espaço dedicado à Capital Europeia da Cultura: 25 palavras
Espaço dedicado à cultura: 21 palavras


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Autárquicas 2009 - propostas do Bloco de Esquerda para a cultura

O Bloco de Esquerda é um fenómeno sociológico de difícil de compreensão: apesar da sua reduzida penetração, inserção social e visibilidade em largas franjas do território português, obtém, em eleições nacionais, resultados significativos. É o que sucede em Guimarães, como se viu nas últimas eleições legislativas. No próximo domingo veremos se há uma transposição directa do resultado nacional para o resultado em eleições locais.

O programa eleitoral do Bloco de Esquerda para as próximas eleições autárquicas em Guimarães reflecte a reduzida implantação orgânica do partido no nosso concelho, revelando, a muitos níveis, um deficiente conhecimento da realidade local, que resulta em algumas ideias peregrinas, como a de colocar contadores de tempo em todas as passadeiras, sem que se perceba para que sejam, nem como sejam tais contadores (a não ser que a ideia seja colocar semáforos com temporizadores em todas as passadeiras, o que transformaria Guimarães numa cidade sui generis no que respeita a mobilidade, pedonal ou motorizada) ou a que defende que “todos os edifícios públicos devem estar cobertos com painéis solares” (o que contribuiria significativamente para dar um ar pós-moderno ao nosso Centro Histórico, Património Mundial, onde, numa grande parte dos edifícios, a telha tradicional seria inevitavelmente coberta por superfícies espelhadas).

Sendo um documento cuja construção não prima pelo rigor, onde saltam aos olhos erros de palmatória (como a expressão “em cede de discussão pública”), o programa do Bloco de Esquerda revela preocupações com a dimensão cultural da governação autárquica, que outras forças partidárias não valorizam. Apresenta um conjunto de propostas interessantes, mas porventura dificilmente exequíveis - como o cartão social para a cultura, que isentaria de pagamentos “desempregados, pensionistas, estudantes, pessoas com rendimentos abaixo dos 600 euros” ou a abertura da biblioteca (supõe-se que seja a Biblioteca Municipal Raul Brandão) 24 horas por dia, todos os dias da semana. Propostas há que revelam um manifesto desconhecimento da realidade, como aquela que prevê a gratuitidade na entrada “em todos os museus e locais de interesse público”, o que apenas seria viável com a municipalização dos nossos museus, uma vez que a CMG não possui, nos tempos que correm, qualquer equipamento dessa natureza e não se vê como possa obrigar as entidades que possuem museus em Guimarães a prescindirem de receitas vitais para a sua sobrevivência. Uma outra proposta que revela desconhecimento daquilo que já existe é a que defende a criação de um “espaço internet gratuita para os detentores do cartão social”. A aplicar-se, seria um claro retrocesso em relação ao que já temos há muito, uma vez que Guimarães dispõe de espaços de internet gratuitos (com e sem fios) para todos os utilizadores que os procurem.

O Bloco de Esquerda advoga, entre outras medidas, a instituição de um “Concelho (sic) Local para a Cultura”, o apoio da Câmara à actividade das associações culturais, a disponibilização de espaços públicos para trabalho associativo e cultural, a descentralização e a criação de espaços culturais alternativos no concelho, a promoção de uma rede intermunicipal de criação e divulgação cultural, a criação de um Observatório da Cultura Tradicional da Antiga Galécia, a disponibilização de ateliês gratuitos de formação em diferentes áreas da cultura e das artes. Estas propostas podem assumir-se como contributos a ter em conta na definição de uma política cultural concelhia.

Por último, fica a nota de que o Bloco de Esquerda é o único dos partidos candidatos aos órgãos municipais vimaranenses em cujo programa não se faz qualquer referência ao maior empreendimento cultural da história de Guimarães, que terá lugar no decurso do próximo mandato autárquico, a Capital Europeia da Cultura de 2012.

Eleições autárquicas 2009 | Programa eleitoral do Bloco de Esquerda
Extensão: 6321 palavras
Menções à cultura: 34
Menções à Capital Europeia da Cultura: 0
Espaço dedicado à Capital Europeia da Cultura: 0 palavras
Espaço dedicado ao capítulo sobre a cultura: 546 palavras


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6 de outubro de 2009

Autárquicas 2009 - propostas do CDS-PP para a cultura

Para as autárquicas de 2009, as preocupações do CDS centram-se nas questões económicas, às quais é dedicada a maior fatia do respectivo programa eleitoral. Este partido não desenvolve uma linha programática para a política cultural, optando por avançar com algumas (poucas) ideias avulsas. Para além da proposta de criação de uma Carta Cultural e Associativa (com o propósito de “diagnosticar as necessidades existentes com vista a uma melhor planificação de novos equipamentos e iniciativas”), no capítulo dedicado à cultura constam mais três ideias: a criação de uma “imagem de "marca" para o artesanato vimaranense”, a valorização das festas da Cidade, e o auxílio às “entidades Nicolinas na preservação da Tradição Nicolina e das Festas Nicolinas”. No capítulo em que trata da diversificação do mundo rural, está inscrita uma outra proposta de natureza cultural, para ser lançada no âmbito da Capital Europeia da Cultura 2012: a criação de um Museu Virtual do Mundo Rural.

As referências à CEC são laterais, e também de escassas: para além da proposta do Museu Virtual do Mundo Rural, há a referência a uma aposta num turismo de qualidade, “nomeadamente o histórico e o cultural, com especial enfoque na Capital Europeia da Cultura 2012".

Já em relação aos projectos-âncora para 2012, o CDS é quase telegráfico, advogando a “rápida implementação dos projectos de requalificação urbana no âmbito da Capital Europeia da Cultura” e propondo-se retomar uma ideia já abandonada, a da construção de um parque de estacionamento subterrâneo entre o Toural e Alameda, que considera factor de revitalização do comércio tradicional e de fixação de população no Centro Histórico.

É manifesto que, nas eleições municipais de 2009, a cultura não tem lugar entre as prioridades dos centristas vimaranenses.

Eleições autárquicas 2009 | Programa eleitoral do Centro Democrático Social – Partido Popular
Extensão: 3444 palavras
Menções à cultura: 6
Menções à Capital Europeia da Cultura: 3
Espaço dedicado à Capital Europeia da Cultura: 48 palavras
Espaço dedicado ao capítulo sobre a cultura: 58 palavras


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Alfredo Pimenta, republicano

No dia 23 de Novembro de 1910, Alfredo Pimenta proferiu, na Associação dos Empregados do Comércio de Guimarães uma conferência, marcada por um espírito republicano inflamado, que ficou na memória de quem a escutou e que encheu o primeiro número do semanário Alvorada, dirigido por A. L. de Carvalho. O tema sobre que falou foi “A obra social da República”. Aqui fica um pequeno extracto, em que se refere, nomeadamente, à Sociedade Martins Sarmento:

Cidadãos de Guimarães: eu amo profundamente, entranhadamente, a minha terra, a nossa terra. A ela me prendem afectos de família. Nela sonhei os primeiros sonhos, nela criei as primeiras ilusões. Às vezes, cerro os olhos e evoco o passado. Tristemente, evoco-o. E sombras surgem, sombras de mortos, sombras de afastados. Dentre as primeiras, deixem-me citar uma: Amadeu de Freitas, carácter nobre, amigo leal que tantas vezes me consolou em horas amargas, que tantas vezes me acompanhou em horas alegres. Dentre as segundas, Gonsalo de Meira, outro amigo desinteressado desta terra, acompanhando-a sempre, desejando-a progressiva, feliz e culta. E se me é lícito sair do âmbito dai minhas relações pessoais, eu friso um nome, glorioso nome, a única legítima glória vimaranense: Martins Sarmento. Quando eu subia a encosta da vida, descia-a ele: não nos encontrámos.

Sarmento, a quem a falta de uma educação filosófica sistemática grandemente prejudicou - viveu afastado dos seus cidadãos. O seu nome, todavia, é grande. E os meus amigos têm obrigação de respeitá-lo. Está aí a Sociedade Martins Sarmento. Não a abandonem. Protejam na. Entrem lá dentro, cerquem-na de afectos. (Aplausos) Olhem por ela. Ela foi fundada com um espírito eminentemente democrático, para espalhar a instrução pelo concelho. Mas hoje está convertida numa sacristia. (Aplausos calorosos) Vão lá dentro, rasguem aquelas opas, apeiem aqueles deuses, abram as janelas para que entre o ar e a alegria! (Intensos e prolongados aplausos.)

É essa a maior homenagem, a mais nobre que podem prestar a Sarmento que, se pudesse ver o que por cá se passa, choraria a estas horas lágrimas de raiva e de vergonha.

Meus correlegionários: tenho diante de mim um povo admirável; não o abandonem; liguem-se a ele; indiquem-lhe o caminho a seguir; acompanhem-no e ele me ajudará a fazer de Guimarães uma grande cidade na República! (Apoiados).

in Alvorada, n.º 1, 1.º ano, Guimarães, 27 de Novembro de 1910
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Autárquicas 2009 - propostas da CDU para a cultura

Embora centrando o essencial das suas preocupações nas políticas sociais, a CDU é, entre as candidaturas às próximas eleições para as autarquias vimaranenses, aquela que apresenta um programa para a cultura melhor articulado. Desde logo porque, não deixando de relevar a importância da Capital Europeia da Cultura, não submerge nesse acontecimento todas as suas propostas para a intervenção cultural da CMG.

A matriz da política cultural proposta pela CDU parte de um conjunto de referenciais centrados na ambição de “democratização da cultura, entendida e praticada enquanto factor de emancipação”, que fundamentam as propostas de acção cultural que são enunciadas.

De entre as propostas da CDU, destaco as que se referem à criação de um Conselho Municipal de Cultura; de um espaço de produção e mostra de novos valores no contexto da Arte Contemporânea; de três museus-escolas: Museu-Escola das Termas no edifício dos Banhos Velhos das Taipas, Museu-Escola das Cutelarias, nas Taipas, Museu-Escola de Folclore e Etnografia, em S. Torcato; de um gabinete concelhio de Arqueologia e História Local; de um Centro de Interpretação da Batalha de S. Mamede; do apoio à instalação de um Parque Arqueológico, abrangendo, nomeadamente a Citânia de Briteiros e o Castro de Sabroso, acolhendo uma ideia já avançada pela SMS.

O programa da CDU integra também um conjunto de propostas e linhas orientadoras no âmbito da descentralização, da animação, da formação e do apoio à actividade das associações.

Das propostas apresentadas, algumas mais inovadoras do que outras, julgo que a ideia de criar um Centro de Interpretação da Batalha de S. Mamede é susceptível de ser encarada com interesse, por poder dar resposta a uma lacuna que afecta um elemento essencial da memória e da identidade vimaranense, que carece de ganhar maior visibilidade, nomeadamente no actual contexto de discussão acerca do local de nascimento de D. Afonso Henrique, onde têm sido esgrimidos argumentos confusos em torno da ideia de berço da nacionalidade. Este centro de interpretação poderia, eventualmente, estar associado a um Memorial da Batalha de S. Mamede e preencheria, com vantagem, o espaço de um projecto que nunca foi bem resolvido (a instalação em Guimarães de um museu dedicado a D. Afonso Henriques).

Por último, noto que o programa da Coligação Democrática Unitária é praticamente omisso em relação aos projectos âncora que estão a ser desenhados com a Capital Europeia da Cultura no horizonte.

Eleições autárquicas 2009 | Programa eleitoral da Coligação Democrática Unitária
Extensão: 7577 palavras
Menções à cultura: 41
Menções à Capital Europeia da Cultura: 2
Espaço dedicado à Capital Europeia da Cultura: 69 palavras
Espaço dedicado ao capítulo sobre a cultura: 839 palavras

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5 de outubro de 2009

A proclamação da República em Guimarães

O largo da Oliveira, nos primeiros anos do século XX. Ao fundo, os antigos Paços do Concelho, local onde pela primeira vez foi hasteada a bandeira da República em Guimarães.

As repercussões em Guimarães da instauração da República, em 5 de Outubro de 1910, foram noticiadas do modo que se segue pelo jornal O Comércio de Guimarães, de orientação monárquica:


Proclamação da República

Como em quase todas as terras do país, em Guimarães também houve manifestações de regozijo pelos adeptos do novo regime.

Os republicanos têm sido correctos e bastante moderados nas suas manifestações, não havendo, no meio de tanto movimento, uma única nota discordante.

A não ser vivos comentários, discussões e manifestações, nada de anormal se tem passado em Guimarães.

Algumas casas religiosas têm estado policiadas, o que a nosso ver seria desnecessário, pois cremos que os vimaranenses as respeitariam, pois que todas estão no firme propósito de respeitar e fazer respeitar a lei.

No dia 8 foi solenemente proclamada a República nesta cidade.

Foi içada a bandeira na Câmara Municipal, no meio de vivas à República, ao exército, à Pátria, ao povo português, etc., etc.

O largo fronteiro àquele edifício achava-se repleto de povo, bem como estacionavam ali duas bandas de música e a banda regimental que fez a devida continência à bandeira.

Em seguida também foi içada a bandeira no quartel de Infantaria 20, repetindo-se as manifestações de regozijo.

Alguns dias e noites percorreu as ruas da cidade uma marcha “aux flambeaux”, vendo-se á sua frente alguns conhecidos republicanos que entusiasmados soltavam vivas e empunhavam bandeiras republicanas.

Em todo o percurso houve boa ordem, debandando tudo sem incidentes.

Alguns edifícios particulares hastearam bandeiras e iluminaram as suas fachadas.

In O Comércio de Guimarães, n.º 2495, 1.º ano, Guimarães, 8 de Outubro de 1910
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Autárquicas 2009 - propostas do PSD para a cultura

O programa do Partido Social-Democrata para as eleições de 2009 para o Município de Guimarães anuncia o propósito de “construir um caminho alternativo ao da actual maioria socialista”. No que toca à cultura, não obstante a intenção enunciada, encontramos naquele documento algumas similitudes com o do PS, embora sejam óbvias as diferenças de forma e de conteúdo.

Há exactamente duas décadas que o Partido Social-Democrata está afastado do governo de Guimarães. Costuma dizer-se que o poder desgasta. Não o nego. Porém, olhando para o programa do maior partido da oposição e comparando-o com o do partido do poder, tendo a pensar que o exercício da oposição, pelo menos no que é aparente, desgasta mais do que o poder, uma vez que a rotina de lidar a tempo inteiro com os problemas do concelho conduz a um conhecimento aprofundado dos dossiês, que se revela de grande utilidade na hora de se passar para o papel um programa eleitoral. Este handicap ajuda a perceber o facto de o programa do PSD conter algumas debilidades e desequilíbrios e revelar alguma perda de qualidade em relação a programas anteriores do mesmo partido, nomeadamente o de 2005. Um exemplo de desequilíbrio: um quarto do texto do programa é ocupado por uma longa citação de uma conferência de Silva Peneda sobre a regionalização, matéria que, aliás, não é da competência das autarquias locais, mas que é assumida como “primeira prioridade política” para o próximo Presidente da Câmara. Um exemplo de debilidade: entre as propostas de “apoios a cidadãos em situação de vulnerabilidade social”, prevê-se subsidiar “o aluguer do contador na factura da EDP”, esquecendo-se que a cobrança de alugueres de contadores já foi suprimida em 2008.

Indo ao que aqui nos interessa, notamos que o programa eleitoral do PSD coincide com o do PS quando reduz à Capital Europeia da Cultura as suas propostas culturais para o mandato 2009/2012. Defende que a CEC deverá ser mais do que “a concretização de cinco projectos para a cidade e uma programação cultural totalmente municipalizada”, ignorando que o modelo de gestão encontrado para a CEC, com o voto do próprio PSD, aponta claramente para a desmunicipalização da programação cultural da CEC, que é assumida por uma Fundação em cujo Conselho de Administração a CMG apenas tem um voto (em cinco). Quanto aos cinco projectos (que, em boa verdade, não serão bem cinco…), propõe-se materializar três (CampUrbis, Mercado e Toural/Alameda) e não concretizar os que estão previstos para a feira semanal e para a Veiga de Creixomil. Em substituição deste último, propõe-se avançar com a “requalificação e ampliação para a margem de Ponte do Parque das Taipas” e a construção de “um equipamento cultural que permita levar eventos da Capital Europeia da Cultura ao Norte do Concelho”, sem especificar a natureza do equipamento proposto. A este propósito, recorde-se que, em 2005, os social-democratas vimaranenses propunham a construção de “dois pequenos auditórios”, um para a zona norte e outro para zona sul do concelho.

As restantes propostas para a cultura em Guimarães resumem-se à absorção de três das seis propostas da JSD para a CEC: a fixação no CCVF da Orquestra do Norte (ideia que está longe de ser consensual), a organização de uma “agenda de eventos paralelos aos principais”, abrangendo, nomeadamente, “actividades culturais mais locais e regionais”, e a realização de um concurso de artes destinado a jovens artistas vimaranenses. Soa a pouco e parece algo pobre, especialmente quando se vê que se deixam cair algumas propostas emblemáticas do partido ao longo do mandato que agora termina, como a valorização do 24 de Junho ou a candidatura das Nicolinas ao reconhecimento como Património Imaterial da Humanidade.

Os programas dos dois partidos tradicionalmente mais votados no concelho de Guimarães coincidem, pois, na limitação das suas propostas culturais à CEC 2012, cuja programação será administrada pela Fundação Cidade de Guimarães, entidade externa à CMG. Alguém que desconheça a nossa realidade local pode ser levado a crer que ambos os partidos se puseram de acordo para decretarem a extinção do pelouro da Cultura…

Eleições autárquicas 2009 | Programa eleitoral do Partido Social-Democrata
Extensão: 4306 palavras
Menções à cultura: 12
Menções à Capital Europeia da Cultura: 8
Espaço dedicado à Capital Europeia da Cultura: 546 palavras
Espaço dedicado ao capítulo sobre a cultura: 0 (não tem capítulo autónomo sobre este tema)

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4 de outubro de 2009

Autárquicas 2009 - propostas do PS para a cultura

Quando, em 2005, o cabeça de lista do Partido Socialista à Câmara Municipal de Guimarães, António Magalhães, anunciou a intenção de promover o estudo de uma possível candidatura da cidade-berço a Capital Europeia da Cultura, “eventualmente em coligação com outros concelhos”, foi acusado de populismo e de estar a criar ilusões. Recordo que, na altura, estava em cima da mesa a possibilidade de uma candidatura conjunta do quadrilátero urbano Guimarães, Braga, Barcelos e Famalicão, na sequência de um desafio lançado pelo Reitor e pelo Conselho Cultural da Universidade do Minho. Esta candidatura não se concretizaria, porque Braga se colocou de fora, uma vez que os seus responsáveis autárquicos alimentavam o projecto de uma candidatura a solo a CEC 2012. Tanto quanto se sabe, não se chegou a concretizar qualquer estudo sobre uma eventual candidatura de Guimarães, o que não obstou a que, em Outubro de 2006, fosse anunciada a decisão do Governo de levar Guimarães a Capital Europeia da Cultura em 2012. O caminho percorrido desde então não foi isento de bloqueios, de dificuldades e de indecisões, mas hoje, finalmente, o processo está em fase de arranque, prevendo-se que não tarde muito a entrar em velocidade de cruzeiro, rumo a um dos desafios mais exigentes e exaltantes em que Guimarães esteve envolvido ao longo da sua história.

Como seria natural, o desafio da Capital Europeia da Cultura ocupa espaço central no programa eleitoral do Partido Socialista, que tem por trás de si a responsabilidade e a vantagem de contar, há longos anos, com uma confortável maioria em Santa Clara, o que lhe assegura, naturalmente, maior conhecimento e domínio técnico dos diferentes dossiês, nomeadamente dos projectos que foram gizados com o horizonte da CEC.

Lê-se no programa do PS que, de acordo com o modelo de gestão que foi encontrado para a CEC, a respectiva programação ficará a cargo de uma entidade criada para o efeito (a Fundação Cidade de Guimarães), enquanto que à Câmara Municipal competirá “a construção dos equipamentos culturais e as intervenções de regeneração urbana”, nomeadamente a requalificação do conjunto Toural, Alameda e Rua de Santo António, a requalificação da envolvente do Castelo, Paços dos Duques e Capela de S. Miguel; o Campurbis; a Veiga de Creixomil; a Plataforma das Artes; o Laboratório da Paisagem; a ampliação da Biblioteca Raul Brandão; a Casa da Memória; a extensão do Museu Alberto Sampaio; a feira semanal. No elenco dos projectos para a CEC que integram o programa eleitoral do Partido Socialista notamos a ausência do projecto de renovação do Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, o mais antigo museu português do seu género e uma das mais sólidas referências culturais de Guimarães, mas não é crível que essa falta de referência pressuponha a intenção de o deixar cair.

De acordo com o que está definido, à autarquia caberá a função de disponibilizar o hardware, as estruturas físicas, para a CEC, enquanto que a Fundação Cidade de Guimarães gerirá o software, isto é, os conteúdos e a programação.

A candidatura socialista dedica o primeiro capítulo do seu programa à Capital Europeia da Cultura. Mas há vida para além da CEC 2012, como o demonstram os capítulos dedicados à gestão do território municipal; à valorização do potencial humano; ao desenvolvimento económico e o emprego; ao ambiente; à mobilidade sustentável; à coesão social; ao turismo; ao desporto. Por ironia, a cultura não merece um capítulo próprio neste documento, que circunscreve as propostas do PS para a acção cultural da autarquia à implementação física dos projectos constantes na candidatura a CEC 2012, alguns dos quais só com um conceito muito lato de cultura é que podem ser considerados projectos culturais (refiro-me, por exemplo, à feira semanal, à Veiga de Creixomil ou à requalificação do eixo Alameda-Rua de Santo António).

Como é óbvio, o silêncio do programa socialista quanto à cultura, para lá da CEC, não pode ser entendido como uma intenção de eliminar ou sub-empreitar a uma entidade externa participada pela CMG toda a acção cultural da Câmara para o mandato 2009-2013. Caso contrário, uma vez que os projectos físicos para a CEC são competência dos pelouro dedicados ao Urbanismo e ao Planeamento, o pelouro da Cultura da CMG ficaria completamente esvaziado de funções.

Eleições autárquicas 2009 | Programa eleitoral do Partido Socialista
Extensão: 7693 palavras
Menções à cultura: 27
Menções à Capital Europeia da Cultura: 9
Espaço dedicado à Capital Europeia da Cultura: 2001 palavras
Espaço dedicado ao capítulo sobre a cultura: 0 (não tem capítulo autónomo sobre este tema)


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