31 de janeiro de 2009

O 7.º centenário da Morte de Afonso Henriques em Guimarães (9)

Monumento a D. Afonso Henriques

Julgamos poder noticiar que efectivamente se não realizará no dia 6 do próximo mês de Dezembro a solenidade do lançamento da primeira pedra do monumento que nesta cidade se vai erigir ao venerando fundador da monarquia, e que, por conseguinte, se não celebrará oficialmente o septicentenário do glorioso herói. É isso o que consta da resolução tomada pela Câmara Municipal em sua sessão de 18 do corrente, e o que foi comunicado ao digno presidente da comissão central do monumento em ofício de 19.

É certo também nunca oficialmente se resolveu que se celebrasse o septicentenário, e que tudo o que a este respeite se tem dito e propalado, não passa de bons desejos dos que, tomando a nuvem por Juno, imaginaram já resolvido e deliberado o que era só sugerido pela sua fantasia de patriotas à outrance.

Historiemos, para darmos por provado o que dizemos.

A ideia da celebração do sétimo centenário de D. Afonso Henriques apareceu a público há um ano, pouco mais ou menos, num artigo do “Comércio do Porto”, se bem nos recordamos. A comissão do monumento tratava então ainda dos meios de dar realização ao seu objectivo, pondo-se em relações com o afamado escultor Soares dos Reis, para ouvir a sua opinião a respeito do monumento, e combinar com ele as bases dum contrato para a sua construção. A meio caminho destas relações e adoecendo gravemente o sr. Soares dos Reis, a comissão teve de esperar pelo seu restabelecimento para prosseguir nas negociações encetadas. Só depois de muito tempo é que as negociações se reataram, tendo-se fechado o contrato ainda apenas há cerca de dois meses.

Para se não mostrar refractária aos estímulos patrióticos, que já então fervilhavam, fez inserir nas condições do contrato uma [cláusula], pela qual os srs. Soares dos Reis e José António Gaspar se obrigassem a ter pronto, no dia 6 do Dezembro, o trabalho necessário para se poder fazer nesse dia o lançamento da primeira pedra, isto para acautelar a possibilidade de se resolver que efectivamente se fizesse nele essa solenidade. Mas isto não foi resolver que ela se fizesse, nem a Comissão, simples delegada da Câmara, o poderia resolver definitivamente, sem a ouvir e sem conseguira sua anuência.

Depois suscitaram-se novos embaraços sobre a escolha do local para a erecção do monumento, em vista da provável remoção da igreja de S. Sebastião, e isto veio dar ainda ocasião a que se demorasse a resolução definitiva do lançamento da primeira pedra no dia 6, tendo a comissão de consultar a esse respeito os srs. Gaspar e Soares dos Reis, de propor à Câmara, em vista do voto destes e de outras pessoas autorizadas, que o local fosse o centro da actual praça regularizada do Campo de S. Francisco, suscitando-lhe por essa ocasião a lembrança de se comemorar o septicentenário da morte de D. Afonso Henriques, lançando-se solenemente a primeira pedra do monumento no dia 6 de Dezembro. Esta proposta, perfeitamente concorde com as anteriores deliberações da comissão, foi feita à Câmara em ofício do digno presidente da comissão em data de 11 do corrente, quando já por aí se desfraldavam ao vento as velas do mais exaltado patriotismo, pedindo-se voz em grita a celebração do centenário, e dando-se até como coisa já resolvi da. Nada havia porém decidido, como se vê, e a Câmara, que, em sessão do mesmo dia 11, resolveu que o local para a erecção do monumento fosse realmente o indicado pelos snrs. Soares dos Reis e José António Gaspar, nada resolveu a propósito do lançamento da primeira pedra, guardando-se, prudentemente, para tomar a este respeito uma resolução conveniente, depois de estudar os meios de que podia dispor para essa solenidade em tal dia, e o conjunto de todas as circunstâncias de tão momentoso assunto.

Afinal, em sessão de 18 do corrente, e tendo ponderado bem todas as circunstancias do assunto, resolveu, o que a nosso ver todas essas circunstâncias lhe aconselhavam - que sentia não poder abraçar a lembrança suscitada pela comissão, porque, exigindo a inauguração solene de um monumento ao fundador da monarquia festejos brilhantes que custavam avultadas despesas, ela não tinha em seu orçamento verba para ocorrer a tais despesas, nem podia, na presente ocasião, votá-las em orçamento suplementar, por não ter onde buscar receita para lhes fazer face.

Estas foram as razões em que a Câmara fundou a sua resolução sensatíssima, e assim o comunicou ao digno presidente da comissão, em ofício do mesmo dia 13. Mas a Câmara poderia ainda acrescentar a estas, outras razões, que decerto influíram também na sua resolução, e que são as que acodem naturalmente a quem pensa um pouco despreocupadamente desta questão, sem os desvairamentos duma paixão exaltada, mas sob os influxos dum verdadeiro sentimento patriótico.

Estas razões seriam as seguintes;

O lançamento da primeira pedra dum monumento a D. Afonso Henriques, na celebração do seu septicentenário, e em Guimarães, berço do herói, deveria ser uma festa de tal modo imponente, principalmente depois que impensadamente ela foi anunciada como já resolvida para se fazer com toda a magnificência, que nem se desconsiderasse o seu glorioso objectivo, nem se desonrasse a terra que lha promovia. Ainda que houvesse os meios, que a Câmara não tem, nem a comissão, e que, apesar de quantos hourras pelo centenário para aí temos .ouvido, não sabemos que ninguém tenha promovido, seria possível, em tão curto espaço de tempo, projectar-se e realizar-se essa magnificente solenidade? Ainda que isso fosse possível, seria prudente arriscar tantos trabalhos, tantas despesas, tantas magnificências aos potabilíssimos aguaceiros dos desabridos dias de Dezembro? Queriam que os forasteiros, convidados pelos anúncios pomposos das festas, viessem a Guimarães , somente para ver os projectos grandiosos delas?

Ou, por outro lado, queriam que a terra passasse de novo pela vergonha dum outro centenário, como o de S. Dâmaso, no ano findo?

A resolução camarária foi pois acertadíssima. Oficialmente, não haverá celebração do septicentenário, nem, para não dar ocasião a desgostos, se fará o lançamento da primeira pedra do monumento no dia 6 de Dezembro. A terra tem oficialmente salva a sua dignidade. Os patriotas sensatos e prudentes aplaudem-se na resolução da Câmara, e no circunspecto procedimento da comissão. Os centenaristas enragés, esses podem fazer a sua celebração do centenário, mas a terra nada tem com isso. A esse porém, ousaríamos nós lembrar uma coisa: é que se não brinca assim com a dignidade duma povoação, nem se mancham os seus arminhos com os fumos arruaceiros de festas... de fantasia.

E a respeito de centenário, pomos aqui ponto.

Religião e Pátria, n.º 43, 38.ª série, 25 de Novembro de 1885

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30 de janeiro de 2009

O 7.º centenário da Morte de Afonso Henriques em Guimarães (8)

Centenário de D. Afonso Henriques

A exma. câmara resolveu, em sessão de quarta-feira, não abraçar a lembrança da comissão do monumento a D. Afonso Henriques, para que fosse lançada solenemente a primeira pedra no dia 6 de Dezembro, porque exigindo a inauguração solene de um monumento ao fundador da monarquia festejos brilhantes que causariam avultadas despesa, não tem no seu orçamento verba para acorrer a tais despesas.

Não publicamos no n.º anterior do nosso jornal esta resolução, por nos ter sedo fornecida um pouco mais tarde.

Agora duas palavras acerca da resolução do senado vimaranense.

Se chamarmos à resolução da câmara - um desastre camarário - não aberramos muito da verdade, porque realmente a resolução foi um desastre.

Lamentamo-lo e lamentamo-lo profundamente

Não tinha verba para acorrer às despesas da solenidade, mas estaria impossibilitada de pedir, pelas vias competentes, autorização para essa verba? Se lhe fosse negada, sobre quem cairia o ridículo?

Agora aproveite-se a lição: enquanto que a Câmara de Guimarães não abraça a lembrança da comissão do monumento, Coimbra, que guarda as cinzas do D. Afonso Henriques, prepara-se para celebrar o centenário. Ouçamos o “Conimbricense”:

Quando no dia 19 do corrente veio a nossa rasa felicitar-nos o conselho administrativo da Associação dos Artistas, aproveitámos a ocasião para lhe expor o dever que entendíamos ter a cidade de Coimbra de por algum modo comemorar o próximo 7.° centenário do fundador da nação portuguesa; e lhe lemos o artigo que a esse respeito já tínhamos escrito, e vai hoje publicado no primeiro lugar deste número do Conimbricense.

Lembramos-lhe que festejando Associação dos Artistas o aniversário da sua fundação no dia 8 de Dezembro, podia muito facilmente celebrar-se esse acto no domingo 6 do mesmo mês, reunindo-se assim as duas comemorações - a da Associação dos Artistas, e a do centenária de D. Afonso Henriques.

Saindo de nossa casão referido conselho administrativo reuniu-se imediatamente em sessão extraordinária, e por unanimidade decidiu aceitar a nossa indicação e reunir no dia 6 as duas comemorações; o que nos foi logo comunicado, e com o que muito folgámos.

Assim está dado o primeiro passo; e esperamos que as outras associações façam também da sua parte o que puderem, para que a cidade de Coimbra pague dignamente esta dívida de gratidão àquele guerreiro, a quem devemos, primeiro do que a ninguém, o sermos hoje uma nação independente. - Joaquim Martins de Carvalho.

Além do que deixámos transcrito, o nosso prezado colega traz um excelente artigo a respeito do centenário, que publicaremos no próximo número.

Depois disto só nos resta esperar pelo procedimento da comissão.

- Do Porto e de outras localidades têm chegado numerosas cartas a diferentes indivíduos desta

cidade, pedindo esclarecimentos a respeito da celebração do centenário.

- Por falta de espaço e de tempo não responderemos ao nosso apreciável colega da “Religião e Pátria”, mas recomendamos-lhe a leitura do “Conimbricense”.

Vimaranenses, hurrah pelo centenário! Assim como os habitantes de Coimbra não se arreceiam dos dias frios e chuvosos, assim também os habitantes do Guimarães devem mostrar que o patriotismo, a dignidade do Berço da monarquia portuguesa estão acima dos frios e das chuvas de Dezembro!

Connosco pensa muita gente séria e de senso!

Vimaranenses! hurrah pelo centenário!

O Comércio de Guimarães, n.º 140, 2.º ano, 23 de Novembro de 1885

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29 de janeiro de 2009

O 7.º centenário da Morte de Afonso Henriques em Guimarães (7)

Inauguração do monumento a D. Afonso Henriques

Ouvimos dizer que talvez já se não faça, no dia 6 do próximo Dezembro, o lançamento da primeira pedra deste monumento, porque, apesar de estar já escolhido pela Câmara o local para ele, há ainda quem sustente que, no caso notabilíssimo da remoção da igreja de S. Sebastião, o local não deve ser esse, mas outro, e porque é de recear que a estação chuvosa não deixe dar ao acto o lustre e luzimento que ele está pedindo.

Conquanto seja nossa opinião que não procede a razão dada a respeito da escolha do local, pelos fundamentos que apresentamos em um dos nossos números passados, não somos todavia tão intransigentes que não concordemos em que é de justiça pesar bem todas as razões pró e contra, e dar, em certo modo, uma satisfação à opinião que desaprova a erecção do monumento no centro da actual praça regularizada do Campo de S. Francisco, ou à outra, se esta for a atendida, como não é de esperar. A segunda razão do adiamento é que nos parece ter todo e cabimento. A inauguração dum monumento ao fundador da monarquia, e de mais a maia no seu sétimo centenário, não é coisa que possa fazer-se condignamente nos pequeníssimos, e quase sempre desabridamente chuvosos e frios dias de Dezembro. Não seria decoroso que a terra, que se orgulha de ser a pátria desse famoso herói, fizesse mesquinhamente essa inauguração, e não lhe seria a ela, como a ninguém, agradável, que o mau tempo viesse, fatalmente, prejudicar o luzimento das suas festas, se para elas ela se preparasse.

Não sabendo pois, o que há de verdade na notícia de que nos fazemos chegar, somos todavia obrigados a confessar que achamos justos os motivos do adiamento, e que com ele haveria tudo a lucrar e nada a perder.

Religião e Pátria, n.º 41, 38.ª série, 18 de Novembro de 1885
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28 de janeiro de 2009

O 7.º centenário da Morte de Afonso Henriques em Guimarães (6)

Inauguração do monumento a D. Afonso Henriques

Sob pretexto dos dias chuvosos e frios de Dezembro, aventou-se ontem a ideia do adiamento da inauguração do monumento a D. Afonso Henriques, que, como a ilustrada comissão tinha resolvido, havia do ter lugar no dia 6 de Dezembro, aproveitando-se a ocasião do 7.° centenário de D. Afonso.

Sabemos que a comissão ainda não tratou de semelhante assunto. Isto porém não exclui a ideia de ainda resolver o adiamento, som contudo acharmos muito plausíveis os motivos que ontem se espalharam para apalpar ou dispor a opinião pública...

O ano passado, quando se tratou do centenário de S. Dâmaso ninguém se lembrou dos dias chuvosos e frios de Dezembro!

É possível, ou pode fazer-se possível que o empreiteiro do cabouco não o dê concluído para o dia da inauguração, e então, neste caso, o motivo é justo, porque nada se podo fazer som ele estar concluído.

Segundo ouvimos dizer, o sr. Marquês do Valada, ou seja adiada ou não a inauguração, tenciona assistir a ela.

O Comércio de Guimarães, n.º 139, 2.º ano, 19 de Novembro de 1885
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27 de janeiro de 2009

O 7.º centenário da Morte de Afonso Henriques em Guimarães (5)

Monumento a D. Afonso Henriques

Como era de esperar, a Câmara Municipal, na sua última sessão, resolveu que o monumento ao glorioso fundador da monarquia seja levantado do centro da actual praça regularizada do Campo de S. Francisco.

A primeira pedra deste monumento há-de ser lançada no dia 6 do próximo Dezembro, sétimo centenário do vencedor de Ourique, e por isso vai em breve proceder-se aos trabalhos indispensáveis para que essa cerimónia se realize nesse dia.

Religião e Pátria, n.º 40, 38.ª série, 14 de Novembro de 1885
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26 de janeiro de 2009

O 7.º centenário da Morte de Afonso Henriques em Guimarães (4)

Centenário de D. Afonso Henriques

Como dissemos no artigo anterior, à comissão do monumento é a quem cumpre, na nossa opinião, tomar a iniciativa dos festejos para a celebração do centenário. A dívida enorme em que estamos para com o herói de Ourique, para com o vulto gigante das façanhas épicas de outrora, e que nos legaram os nossos antepassados, pesa ainda sobre a geração presente, e por isso é preciso solvê-la, mas solvê-la condignamente.

A comissão composta de distintos cavalheiros, nossos conterrâneos, todos respeitabilíssimos, todos patriotas, não pode nem deve permanecer inactiva perante essa época memorável de 6 de Dezembro, não pode nem deve cruzar os braços perante a sensação que hoje domina todos os filhos de Guimarães. O grito de alarme que soltámos ao espaço, ecoou profundamente no coração dos vimaranenses, porque a realização do centenário estava na mente de todos, e a todos se impunha como necessária, como precisa, como inadiável.

Parar no momento actual, seria cerrarmos os olhos à luz do século presente, e embrenharmo-nos nas trevas dos séculos passados!

O povo que ainda há pouco tempo se levantava numa exposição industrial, a esforços numa sociedade regeneradora, duma agremiação benemérita e patriota, não deve cair com o centenário do seu filho mais ilustre, mais insigne, mais audaz, mais glorioso!

Parar no momento actual, seria ouvir ao país inteiro:

- Ò raça degenerada, para que te orgulhas do ser o berço da monarquia, a pátria do rei atleta, se deixas passar despercebidamente o centenário daquele que te honrou, que te imortalizou nas páginas da história portuguesa, com o seu nascimento!

Mário.

O Comércio de Guimarães, n.º 137, 2.º ano, 12 de Novembro de 1885
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25 de janeiro de 2009

O 7.º centenário da Morte de Afonso Henriques em Guimarães (3)

As celebrações, em Guimarães, do 7.º centenário da morte de Afonso Henriques estiveram envolvidas em polémica, num tempo em que se discutia o local onde seria implantada a estátua a D. Afonso Henriques, que na altura estava a ser executada pelo escultor Soares dos Reis, avançando-se com a ideia do lançamento da primeira pedra no dia em que se assinalava o centenário, 6 de Dezembro de 1885.

Monumento a D. Afonso Henriques

Diz o nosso colega do “Comércio de Guimarães” que, para se abrir o cabouco para o monumento a D. Afonso Henriques, cuja primeira pedra há-de ser lançada no próximo dia 6 de Dezembro, se espera apenas que a Câmara Municipal indique o ponto em há-de ficar o monumento, e acrescenta que, na opinião de um cavalheiro que foi ouvido a esse respeito, a estátua deve levantar-se no centro do actual campo de S. Francisco, tendo em atenção as dimensões que lhe foram dadas no projecto.

Não sabemos o que a Il.ma Câmara resolverá, mas quer-nos parecer não resolverá de outro modo. A projectada remoção da igreja de S. Sebastião não nos parece que deva ser agora tomada em consideração para se determinar o lugar em que deve levantar-se a estátua. A altura desta e da respectiva base foram calculadas para o actual Campo de S. Francisco, sendo, claro que para um recinto maior e de mais largos horizontes, deveria ser outra a altura. Demais, a obra da remoção da igreja não está ainda senão em projecto, e, quer-nos parecer que, quando se faça, não deverá prejudicar a regularidade do enquadramento actual do Campo. O largo de S. Sebastião será sempre o largo de S. Sebastião, como o Campo de S. Francisco será sempre o Campo de S. Francisco, cada um com os seus limites c com o seu destino especial. Foi esta a opinião que ouvimos ao esclarecido jornalista portuense, o sr. Manuel Maria Rodrigues, quando aqui veio em companhia dos snrs. Soares dos Reis e Gaspar, por ocasião de se celebrar com eles o contrato para a erecção do monumento; e foi este igualmente o nosso voto, quando aquele esclarecido jornalista, verdadeiramente preocupado com o caso, nos falou a tal respeito, como sabemos que o é de muitos cavalheiros com a autoridade e competência, que nós não temos.

Repetimos: não sabemos o que a Il.ma Câmara resolverá, mas quer-nos parecer que a sua resolução não pode ser outra senão a que indicámos.

Religião e Pátria, n.º 39, 38.ª série, 11 de Novembro de 1885
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O 7.º centenário da Morte de Afonso Henriques em Guimarães (2)

Centenário de D. Afonso Henriques

A redacção do “Comércio de Guimarães” resolveu dar um número único no dia 6 do Dezembro em comemoração do 7.° centenário de D. Afonso Henriques, primeiro rei português e nascido na nossa pátria.

O número único será colaborado por alguns dos nossos mais distintos escritores.

O Comércio de Guimarães, n.º 135, 2.º ano, 5 de Novembro de 1885
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24 de janeiro de 2009

O 7.º centenário da morte de Afonso Henriques em Guimarães (1)

Em finais de 1885, quando se aproximava o dia 6 de Dezembro, em que passavam 700 anos sobre a morte de D. Afonso Henriques, surgiram em Guimarães diversas movimentações para que a data fosse assinalada de modo condigno. A título de exemplo, aqui se transcreve o segundo texto de uma série de cinco que foram então publicados no "O Comércio de Guimarães":

CENTENÁRIO DE D. AFONSO HENRIQUES
II

Assim como de pequenas nascentes de água que recebendo no percurso de seu trajecto o tributo de outras nascentes e de pequenos riachos dos terrenos por onde vão passando, chegam a formar-se grandes rios, formidáveis cursos de água, assim também a dívida em que estamos para com o herói de Ourique longe de estar saldada, avultando de século para século, de geração para geração, sempre crescendo e sempre avolumando, apresenta-se-nos hoje tamanha, tão importante, que, para a saldarmos, se nos antolha insignificante a inauguração da estatua pedestre que, lhe vamos erigir, que para a solvermos, se nos parece insuficiente uns modestos festejos que se projectam fazer.

É necessário mais, muito mais; é indispensável que estes festejos com que celebramos o centenário sintetizem o pensar da geração actual, que sejam como que a expressão do sentir dos homens de hoje, sendo necessário que eles tenham uma significação mais altruísta, mais acentuadamente progressista e moderna, e para isso é preciso que sejam magnificentes e soleníssimos, grandes e estrondosos, porque nisso vai empenhada a nossa honra, o orgulho que sentimos de ser sempre na vanguarda de tudo que é grande, de tudo que é nobre.

É por isso tempo de trabalhar: um mês pouco mais se nos depara; mas neste período relativamente pequeno que nos resta, pode-se lazer muito, poder-se-á aproveitar o perdido se todos que sentem bater o coração mais aceleradamente a todas as glórias da pátria se unirem, se todos os vimaranenses que amam a sua terra se empenharem nesta cruzada civilizadora, prestando-lhes todos o seu apoio, contribuindo e colaborando todos para a sua realização e para o seu brilhantismo.

Guimarães, o berço do vencedor de Ourique, desse vulto gigante da nossa autonomia, não, pode cruzar os braços e assistir impassível perante essa época memorável do 6 de Dezembro, que nos vem recordar uma dívida em aberto há sete séculos, que nos vem patentear a nossa imersão demorada na inércia e no desalento de que parece vamos ressurgindo, e nos faz rever com vergonha no projectado centenário de S. Dâmaso uma página escura da nossa história brilhante, quando no Brasil, corações generosos, almas de patriotas, se empenham para celebrar o centenário de Afonso Henriques.

O grito ei-lo lançado pelo centenário, e perante ele cessam todos os desalentos, quebram-se todas as malquerenças, todos os ressentimentos se apagam, e então toda unida e disciplinada, essa falange nobre de espíritos grandes e generosos, belos e entusiastas, de caracteres imaculados e de almas de eleição, tendo escutado e compreendido o nosso apelo às armas, o grito de guerra que arremessámos ao espaço - guerra da luz contra as trevas, da civilização contra a ignorância, da inteligência contra a estupidez – é connosco, vem colocar-se ao nosso lado, disposta a secundar os nossos esforços, pôr-se ao abrigo da nossa bandeira - a do progresso, a da civilização, e unida e disciplinada, pronta a entrar em combate à primeira voz de fogo, à porfia, procurando desenvolver forças e transformar a esperança que alimentamos de um desejo fervoroso, uma utopia em um facto indiscutível e realizável.

É esse o fim que alveja mos e para a sua realização nos artigos subsequentes iremos expandindo e desenvolvendo as ideias que nos ocorrem sobre este assunto.
Mário.

O Comércio de Guimarães
, n.º 134, 2.º ano, 2 de Novembro de 1885
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19 de janeiro de 2009

Escola de Desenho ou Escola Industrial?

No último dia de Março de 1884, foi discutida na Câmara dos Deputados a questão da criação em Guimarães de uma Escola de Desenho ou de uma Escola Industrial. O assunto foi levantado pelo deputado Wenceslau de Lima. No Diário da Câmara dos Senhores Deputados, encontrámos a transcrição deste debate:

“O sr. Wenceslau de Lima: - Mando para a mesa a declaração do motivo por que faltei a algumas sessões da câmara, sendo esse mesmo motivo que me impediu de estar presente quando se discutiu e foi votado o orçamento rectificado.

Por essa ocasião, o sr. Mariano de Carvalho apresentou uma proposta para ser incluída no orçamento a verba necessária para ocorrer à despesa que ocasionasse a criação de uma escola de desenho em Guimarães. Eu não aprovaria essa proposta se estivesse presente, porque a cidade de Guimarães não precisa do favor de uma escola de desenho. O que faria, era instar com o sr. ministro das obras públicas para que desse cumprimento exacto à lei de 20 de Dezembro de 1864, com que se fundamentou a criação de uma escola industrial na Covilhã, porque essa mesma lei impunha ao governo a obrigação de criar desde logo uma escola industrial, não só na Covilhã, mas também em Guimarães e Portalegre.

Não está presente nenhum membro do governo e por isso não me alongo nas considerações que tinha a fazer, limitando-me a deixar registadas estas palavras no Diário das sessões, para que s. exa., o sr. ministro das obras públicas, tendo delas conhecimento, dê as explicações necessárias sobre o motivo por que não aplicou a Guimarães o preceito daquela lei.”

A esta intervenção, responderá o deputado Mariano de Carvalho, nos seguintes termos:

“O sr. Mariano de Carvalho: - Referindo-me a algumas palavras proferidas pelo Ilustre deputado o sr. Wenceslau de Lima, direi apenas a s. exa. e à câmara, qual foi o motivo por que pedi a criação de uma escola de desenho industrial em Guimarães, e não uma escola de ensino industrial.

O decreto de 1864, na parte em que criou as escolas de ensino industrial, a meu ver, está revogado, e por consequência o decreto referendado pelo actual sr. ministro das obras públicas, pelo qual foram orçadas em várias terras do reino escolas de ensino e de desenho industrial, foi ilegal.

Mas pouco importa agora esta questão. Quer esteja em vigor o decreto de 1864, quer não esteja, as escolas de ensino ou de desenho industrial não podem ser orçadas, sem que no orçamento se consigne para esse fim uma verba.

Conheço desde muito a necessidade da criação de uma escola de ensino industrial na cidade de Guimarães e desejaria que ela se criasse; mas como a despesa era maior, sabia que uma proposta neste sentido não seria aceite nem pelo governo nem pela comissão, por isso me limitei a propor a criação de uma escola de desenho industrial, porque enfim era um princípio para depois se organizarem escolas mais amplas, ao que essa cidade tem direito.

Foi esta a razão do meu procedimento, que, se deu pequeno resultado, sempre deu mais algum que quaisquer retóricas vãs.”

Ainda nesse ano de 1884, por pressão das forças vivas de Guimarães, nasceria a Escola Industrial Francisco de Holanda.
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14 de janeiro de 2009

11 de janeiro de 2009

Guimarães antiga IV

Não sei porquê, mas ela chegou adiante de Nespereira e em vez de tomar a volta da estrada de Vizela, seguiu para Santo Tirso.

E quando foi da Maria da Fonte? Lembram-se?

– Andavam ali a passear em frente da casa onde hoje está o Bernardino, o capitão do 13, omandante do destacamento que estava aqui o alferes do mesmo e o major reformado Leite.

Ouviram-se uns tirozitos para os lados da Conceição.

O que será aquilo? Perguntou alguém ao capitão. Este tira um óculo do bolso assestou-o e disse: “são uns rapazitos que andam aos grilos…”

Despediu-se logo do major e foi o alferes pelo postigo em direito ao quartel.

Dali a pouco um corneta tocava a reunir à esquina do Campos, e depois à esquina das Molianas, e viam-se passar os soldados a correr uns pelo Postigo, outros pela porta da vila e ainda outros por Mata Diabos.

Decorrida que foi meia hora era o Toural invadido por centenares de homens armados com caçadeiras, chuços, bacamartes, foices roçadoiras, o diabo. Pediram no meio de um grande berreiro que tocassem a fogo nas torres das igrejas,

Um rapazote dos seus 18 anos, parece que estou a vê-lo, em mangas de camisa, calça arregaçada e em cabelo; dirigiu-se a loja do Baptista, e pede que lhe dêem pólvora e chumbo. Se lho dessem, que faria fogo com o bacamarte de boca do sino que trazia e que apontava contra o Baptista.

Deram-lhe pólvora e chumbo.

Dali foi ao chapeleiro a intimou-o a ir tocar a fogo à torro de S. Pedro.

O chapeleiro obedeceu.

O sino era enorme e o som ouvia-se a grande distância, juntou-se mais povo e lá foi tudo em direcção ao quartel.

Chegaram ali e encontraram a porta fechada, o capitão tinha dentro a companhia formada.

De repente abriu-se a porta.

A multidão grita fazendo grande algazarra.

Sai do quartel a companhia que forma em linha rapidamente cruzando as baionetas, o povo não cessa de gritar. O capitão manda dar uma descarga para o ar... e tudo fugiu.
Não morreu ninguém naquela ocasião. Depois não sei o que sucedeu.

* * *

Eram horas do meu jantar. Saí da farmácia Barbosa depois de me haver despedido dos alegres velhotes dizendo-lhes: agora vou jantar e depois voltarei para continuar a ouvi-los.

Creiam que não há nada que me entretenha, como ouvir a conversa interessantíssima dos velhotes. Gosto mais do que ouvir falar das vidas alheias.

Na farmácia Barbosa haverá de tudo como na botica, mas não há más línguas.

Guimarães, 5-11-904
António Infante
Ecos de Vizela, 1.º ano, n.º 17, 7 de Dezembro de 1904
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8 de janeiro de 2009

Guimarães antiga III

– E quando a sr.ª D. Maria II visitou Guimarães?

Chegou aqui num sábado, 15 de Maio e foi hospedar-se na casa do Cavalinho.

Na quinta e na sexta-feira chegavam de momento a momento, grandes carroças conduzindo toldos, cozinhas, louças, colchões, enfim muita cangalhada pertencente à casa real.

Parece que a sr.ª D. Maria II, julgava que vinha para aqui acampar em algum monte e que não encontraria casa aonde pudesse ser recebida.

As carroças paravam todas à porta do Campos e então diziam aos cocheiros.
– “Levem isso para o paço.”

O paço era na casa do Cavalinho. Todos aqueles campos que a circundavam ficaram coalhados de carros que tinham vindo de Lisboa, do Porto, de Coimbra e de Braga.
Nunca vi tantos carros na minha vida.

– A rainha demorou-se aqui dois dias. Houve iluminações e música e ali junto do “Cruzeiro do fiado” que ficava em frente da casa do Sousa Júnior; levantou-se um rico pavilhão guarnecido a seda azul e branca.
A Senhora D. Maria II quando chegou dirigiu-se para o pavilhão e ali lhe foram entregues as chaves da cidade.

Depois meteu pela Porta da Vila o foi à Oliveira rezar.

O povo era muito e todos desejavam ver de perto a Senhora D. Maria II.

Morava na rua da Rainha um ourives chamado “Zé Frade”, aonde mora agora o Agostinho vidraceiro. Era um grande miguelista.

Eu para fugir aos encontrões do povo entrei para a loja do “Frade”, ele que não tinha deitado cobertores nas janelas e fechara uma das portada loja, apareceu-me lá de dentro com uma espada velha na mão gritando furiosamente voltado para mim: “aqui quem der vivas à Rainha mato-o”.

Eu tive-lhe medo e deitei a correr para a rua.

Em Vizela eslava preparada uma grande festa à Senhora D. Maria II e faziam tenção de lhe pedir para elevar aquela povoação a concelho.
(continua)

António Infante
Ecos de Vizela, 1.º ano, n.º 16, 1 de Dezembro de 1904

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7 de janeiro de 2009

Guimarães antiga II

Não havia iluminação pública, de maneira que quando à noite me mandavam levar qualquer encomenda ao estafeta, eu atravessava este largo do Toural com o Credo na boca e a cada passo me encharcava nas poças de água que por aqui havia!!

Era neste largo onde o regimento 18 fazia exercício, mas às vezes também o coronel Pereira lhe passava revista ali no largo da Misericórdia.

Vinha o regimento formado lá de cima dos quartéis com a música, na frente e parava junto da casa dos coutos onde morava o coronel.

Ele saía de casa e ali mesmo lhe passava revista.

Que bonito aquilo era. Hoje não se vê disso.

* * *

– E as portas da cidade? Uma ali à esquina do Bernardino.

Chamava-se o “Postigo”.

Outra à porta da Vila, outra a S. Bento e outra à “Torre dos cães”.

Todas se fechavam à noite, ao toque do recolher, e o sino da Oliveira dava sinal.

* * *

O que tinha graça era o modo de acender os lampiões da iluminação, quando foram postos aí nalgumas ruas.

Aqui no Toural havia dois, na Alfândega outros dois, à Senhora da Guia outros dois etc. Andava um homem com a chave de um cadeado; chegava, abria-o o puxava por uma corrente, o lampião descia; depois do o acender tornava a puxar pela corrente o lampião subia e lá ficava no alto dando uma luz lindíssima não inferior à de hoje “em certas noites”.

Vieram mais tarde os candeeiros de petróleo, e nós julgávamos que superior a isso, nada viria.

(continua)

António Infante
Ecos de Vizela, 1.º ano, n.º 16, 1 de Dezembro de 1904

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6 de janeiro de 2009

Guimarães antiga I

Com o título "Guimarães antiga", num folhetim publicado no rodapé do jornal Ecos de Vizela, saíram umas curiosas memórias acerca da vida em Guimarães em meados do século XIX. Começamos aqui a transcrever esse texto.

GUIMARÃES ANTIGA

Costumam juntar-se na farmácia Barbosa uns bons velhotes conversando alegremente sobre diversos casos que se vão desenrolando diversos que casos que, segundo eles afirmam, nada se parecem com aqueles que há setenta anos aqui se passavam.

Não há nada que mais mo entretenha que escutar a interessantíssima conversa desses honrados negociantes aposentados.

Ainda ontem apanhei três em flagrante.

– Quem nos diria a nós que havíamos de ver estas ruas e estes largos como hoje estão, assim completamente transformados?!

– Quando nós íamos acompanhar os patrões ao teatro velho que era nas casas de Vila Pouca, conduzindo lampiões acesos para eles verem aonde punham os pés!

Ainda lá tenho em casa um desses lampiões!

***

Ali onde se vê hoje a igreja de S. Pedro, que por sinal nunca a hão-de acabar de construir, existiam umas cinco casitas.

Em uma delas morava um chapeleiro.

E a Alfândega onde se vendia o peixe, com as latrinas à beira, tudo aquilo uma imundície!?...

Hoje há naquele lugar um coerente de casas onde se vê belo estabelecimento do Jordão, a chapelaria da D. Ana, o hotel do “Zé” Maria, o estabelecimento do Roberto, etc.

Que enorme diferença.

– Aqui ao lado na casa do Manuel Castro, era o hospital da Misericórdia.

Houve um tempo em que o Ferreira e o Simões faziam guardas ao hospital, vestidos com as suas fardas de milícias. Lembra-se!

– Oh! se lembro! até um deles queria ficar sempre de sentinela à porta para conversar com as raparigas que passavam pela antiga rua de Arrochela.

Bom tempo esse!

(continua)

António Infante
Ecos de Vizela, 1.º ano, n.º 16, 1 de Dezembro de 1904
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2 de janeiro de 2009