24 de novembro de 2008

23 de novembro de 2008

19 de novembro de 2008

O meu pregão, por Novais Teixeira

Novais Teixeira

Ao fundo, já se escuta a cadência dos sinais da festa que se repete, todos os anos, entre o cair de Novembro e os primeiros dias de Dezembro. Festa de saudade, para tantos espalhados por esse Mundo afora. Como o grande jornalista de renome mundial, Joaquim Novais Teixeira, que, no Notícias de Guimarães de 29 de Novembro de 1969 fez publicar o texto que aqui se recorda:

Sempre me alimentei da boca da infância. Ainda hoje as iguarias da minha mesa são o dia-a-dia da minha mesa de menino, tão raro nestas lonjuras do mundo!...

Depois, o espírito. Aí desabrochou. Cresceu, ganhou barbas cá fora, mas jamais perdeu as raízes. Quando digo que não sou português, sou de Guimarães, quero dizer na minha que Portugal é uma simples catalogação do homem vimaranense que eu sou.

Há, em mim, húmus-telúrico. Sou de Guimarães antes de Guimarães ser. Sou homem mais da Terra que da História. De Guimarães, me interessa mais um Amigo que o Castelo; mais as suas gentes que as suas muralhas. Neste sentido de eternidade que dou em mim ao homem de Guimarães, um Amigo veio antes ao mundo que a Dona Mumadona, e Deus sabe as chegadas à Lua que o esperam ainda? - e a que luas!

Depois dos sentimentos vieram as ideias. Ora, as ideias nascem, se desenvolvem e aperfeiçoam em mim sempre no caldear dos sentimentos que aí desabrocharam. Quando leio um livro que nada tem, as mais das vezes, com Guimarães, mas no que salta acidentalmente o nome de Guimarães, sinto, ao deparar com o nome, um sobressalto, o sobressalto de me encontrar a mim mesmo quando menos o esperava.

Não sou homem de dogmas, mas, se alguns me vêm ao subentendido são todos de Guimarães. No uso corrente da língua me ficaram palavras de Guimarães, ignoradas fora da nossa zona linguística. Por exemplo, Catixa!... Há muito pelo mundo a que dizer Catixa!... O Catixa! me surpreende com frequência quando falo de mim para mim, o que é mais frequente ainda.
A palavra Saudade está gasta e depreciada no nosso folclore de ocasião. É pena, mas não tenho outra para vos dizer que estou cheio, cheiinho de saudades vossas. Vocês não sabem que luzem mais em mim as luzes da Rua de Santa Maria que as de todos os Campos Elísios, romanos ou parisienses, deste Continente e dos outros?!

Tenho também o meu Calendário pessoal com os seus respectivos fastos. Todos de criança, todos de menino! Entre eles, os das Nicolinas, com o seu “Pinheiro”, com o seu “Pregão”, com as suas “Maçãs”.

Rapazes do meu Liceu, velhinhos meus: uma maçã das minhas para a mais linda rapariga de Guimarães! É difícil, impossível a escolha. Vem do coração, eu sei! Oh!, mas se Ela fosse neta de alguma moça que aí conheci ou namorisquei às portas da adolescência!...

E que o ribombar da pele da minha alma ecoe na pele dos vossos bombos para melhores destinos do Homem, do Homem acima e por cima da História, da História feita ou por fazer, do Homem da nossa Terra e de todas as Terras, do Homem sobre todas as coisas!...

Paris, Novembro de 1969.
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17 de novembro de 2008

Alberto Sampaio, o Tempo e a Obra

Foto: Eduardo Brito

No âmbito das comemorações do Centenário de Alberto Sampaio, foi inaugurada, no passado sábado, dia 15 de Novembro, na Sociedade Martins Sarmento a Exposição Bibliográfica "Alberto Sampaio, o tempo e a obra", que estará patente ao público até ao dia 7 de Dezembro.

Todas as obras que estão patentes nesta exposição pertencem à Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento, com excepção dos volumes da Revista de Portugal onde se incluem as primeiras publicações dos textos O Norte Marítimo e Ontem e hoje, que foram cedidos pela Biblioteca Pública de Braga.

Esta iniciativa enquadra-se no programa da homenagem ao historiador Alberto Sampaio que congrega as Câmaras Municipais de Guimarães e de Vila Nova de Famalicão, o Museu de Alberto Sampaio e a Sociedade Martins Sarmento.

A Entrada é livre.


Alberto Sampaio, o tempo e a obra

Um dia, sem sabermos bem porquê, vemo-nos impelidos por uma corrente que determina o nosso percurso.

Alberto Sampaio


Quando escreveu a frase que encima este texto, Alberto Sampaio reflectia sobre o que terá levado Francisco Martins Sarmento a estudar a Citânia de Briteiros e a fazer-se arqueólogo. Mas também estaria a referir-se ao seu próprio percurso, ao modo como ele mesmo se fez historiador. Há um paralelismo singular entre a história de vida de Alberto Sampaio e a do seu sábio amigo Martins Sarmento. Tal como o arqueólogo dos nossos castros, também Sampaio dispunha de meios de fortuna suficientes para não necessitar de viver do seu trabalho; tal como ele, foi um trabalhador dedicado e incansável. Homem de sólida cultura humanista, movido por uma curiosidade nunca satisfeita, abalançou-se na tentativa de compreender os segredos do nosso passado longínquo, construindo uma obra histórica profundamente original e inovadora. À imagem de Sarmento, Alberto Sampaio foi um historiador tardio, iniciando os seus estudos histórico-económicos quando já tinha dobrado os quarenta anos e ia entrando no último terço da sua existência.

A obra histórica de Alberto Sampaio surgiu com as marcas do espírito do tempo e da circunstância em que começou a ser construída. Apesar de sempre ter preferido a sombra à luz, renunciando a lugares de destaque, foi um dos principais obreiros dos primeiros anos da Sociedade Martins Sarmento, instituição que nasceu para mudar profundamente o horizonte cultural da sua terra natal. Assim que surgiu, a SMS introduziu em Guimarães uma agitação profundamente enriquecedora. Fomentou o ensino, criou escolas, abriu uma Biblioteca Pública e instalou um Museu, promoveu os estudos científicos, lançou a Revista de Guimarães. Contribuiu para induzir o impulso de desenvolvimento económico que lavrou em Guimarães em finais do século XIX. Criou cultura. Fez pensar. E Alberto Sampaio, que escreveu, no primeiro texto que publicou na Revista de Guimarães, que “fazer pensar é tudo; e a agitação a única alavanca que pode deslocar esse mundo: pois que agitar quer dizer – instruir, ensinar, convencer e acordar”, também esteve no centro desse pujante movimento de renovação e mudança. Foi naquele tempo e naquela circunstância que Alberto Sampaio ensaiou os seus primeiros passos como historiador.

A exposição “Alberto Sampaio, o tempo e a obra”, tem um único protagonista: o historiador Alberto Sampaio, através dos textos que nos legou. Nesta mostra está patente a obra da maturidade do historiador, que integra todos os estudos que publicou a partir do momento em que iniciou um percurso sólido e marcadamente original na historiografia portuguesa. As obras expostas cobrem o quarto de século que transcorre entre 1884, ano em que publicou o seu primeiro texto na Revista de Guimarães, e 1908, o ano em que desapareceu. Trata-se de uma obra relativamente breve na extensão, mas densa no conteúdo, ou, com a descreveu Luís de Magalhães, “não muito vasta nem volumosa, mas fortemente concentrada e intensa”.

Alberto Sampaio introduziu uma visão inovadora da História, “sem personagens”, centrada não nos gestos das grandes figuras históricas, mas no pulsar colectivo das gentes, como o notou Jaime de Magalhães Lima:

Grandes individualidades puderam formar e reger grandes governos, mas só a grandeza dos povos significará e alimentará a grandeza das nações. O primeiro acto de uma nova e mais justa concepção da história nacional será libertar-nos do fetichismo das individualidades e contemplarmos as energias da grei, tal qual aprendemos na lição magnífica que Alberto Sampaio nos legou.

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16 de novembro de 2008

10 de novembro de 2008

Uma Excursão ao Soajo em 1882


Francisco Martins Sarmento (1833-1899) e José Leite de Vasconcelos (1858-1941) são duas figuras marcantes da cultura portuguesa que se cruzaram ao longo do último quartel do século XIX. Os primeiros contactos entre ambos ocorreram em finais de 1879, numa altura em que José Leite, com 21 anos, era ainda um jovem estudante a dar os primeiros passos nas coisas da etnografia e da arqueologia, e em que Sarmento era um arqueólogo respeitado que, por força das suas explorações na Citânia de Briteiros, colhera significativo reconhecimento internacional. O jovem de então, descreveria mais tarde as impressões do primeiro encontro, num texto que publicado no volume de homenagem a Martins Sarmento, organizado a quando do seu centenário, em 1933:

As minhas relações com Martins Sarmento datam dos fins de 1879. Foi o meu prezado amigo, e seu primo, o snr. conde de Margaride quem me apresentou a ele, por ocasião de umas férias escolares que eu passava em Guimarães. A primeira vez que lhe falei, estava Martins Sarmento à banca, à noite, a trabalhar na primeira edição do seu estudo da Ora Marítima de Avieno. A mim prendeu-me imediatamente o modo lhano como me recebeu, tendo ele então já firmados os seus créditos de erudito, e sendo eu nas letras mero principiante. Recordo-me que logo nessa noite falámos muito. Depois disso não me faltou ensejo de estar com ele, porquanto, durante a época da minha formatura no Porto, eu ia a Guimarães frequentemente nas ferias. Com Sarmento realizei mesmo algumas excursões arqueológicas, pelos arredores da sua cidade natal, à Citânia de Briteiros, a Soajo. Conquanto eu a esse tempo andasse na febre da colheita das tradições populares portuguesas, e no começo dos meus estudos filológicos, já sentia bastante inclinação para a arqueologia, à qual, por dever dos meus cargos oficiais, e para a execução do plano dos meus trabalhos, tive posteriormente também de consagrar-me: o contacto com Martins Sarmento não afrouxou, de certo, essa inclinação!

Ligados pelo interesse comum pelas coisas da arqueologia e da cultura popular, separava-os uma manifesta diferença de carácter, que ajuda a perceber algumas desavenças científicas que mantiveram, em especial depois de 1896, e que justificam o esfriamento das suas relações nos últimos anos da vida de Sarmento. Leite de Vasconcelos, que se descreve a si próprio, numa carta que escreveu a Sarmento no início de 1884, como alguém sem dotes oratórios, “tão seco falando, como escrevendo”, traça do arqueólogo vimaranense um retrato muito diferente do seu:

A par dos seus méritos científicos, Martins Sarmento dispunha de méritos literários. Escrevia com muita facilidade. As suas cartas, – como em geral todos os seus escritos, mesmo os mais sérios –, participam também dessa simplicidade que caracteriza a linguagem familiar e despreocupada. Sarmento escrevia pouco mais ou menos como falava.

Os textos que aqui se publicam são os apontamentos que Leite de Vasconcelos e Martins Sarmento retiraram numa excursão que realizaram ao Soajo, em meados de Setembro de 1882. As referências aos preparativos para esta incursão arqueológica e etnográfica, organizada por Sarmento, aparecem na sua correspondência para o seu amigo José Leite. A primeira, dá conta que a expedição seria combinada a partir de Vila Praia de Âncora, para onde o arqueólogo se preparava para partir, entre finais de Julho e inícios de Agosto. Será dali que, no dia 22 deste mês, Sarmento escreverá, dizendo que a excursão se deveria realizar entre 10 e 15 de Setembro, aproveitando para dar algumas instruções acerca do equipamento com que José Leite se deveria prevenir para enfrentar a viagem:

Dizem os entendidos que se não deve ir ao Soajo sem os seguintes apetrechos – uma manta, cobrejão ou o que quer que seja que se leve sobre a albarda da burra, e em que a gente se tem de embrulhar até o nariz a certas horas em que o frio é intruso; item, casacão grosso, de Inverno, para o mesmo efeito, sem esquecer que também o fato leve é indispensável para outras horas do dia e para certos sítios mais abrigados; item, uns alforges para levar neles roupa, etc., e que se põem comodamente na anca do animal. Um pau para ajudar a marcha é bom.

Numa outra carta, datada do primeiro dia de Setembro, Sarmento notaria que a excursão não admitirá “contas do Porto” – o que me aborrece bem – e por isso será necessário saber-se com certeza que companheiros o meu amigo traz, para prevenir o meu cicerone.

No dia 6, a incursão por terras soajeiras já estava organizada, conforme Sarmento dá conta a Leite de Vasconcelos:

A excursão ao Soajo está marcada para o dia 10 (dez) do corrente. Devemos encontrar-nos em Viana, cerca da uma hora da tarde. É a essa hora que eu chego, saindo daqui no comboio do meio-dia, e ao meio-dia o meu amigo deve estar em Viana, vindo no comboio que cruza com aquele em que eu saio daqui. O ponto de reunião em Viana deve ser o restaurante da estação do caminho-de-ferro. De Viana vamos em carro até à Barca, e no dia seguinte subiremos para o Soajo, partindo às 4 da manhã. O João Gomes, que é o nosso cicerone, hospeda-nos essa noite; mas eu falei-lhe só no meu amigo, por ter como certo que virá só, pedindo-lhe que arranjasse uma cavalidade para o dia seguinte. No caso de trazer mais alguém consigo, previna-me, para nós não termos embaraços à partida.

Participariam na expedição, além de Sarmento e de Vasconcelos, João Gomes, o Dr. António de Lacerda e o Dr. António Inácio Ferreira de Freitas. Nas notas de José Leite de Vasconcelos, ficou registada uma imagem impressiva do grupo dos expedicionários que então esquadrinharam os segredos que as montanhas guardavam:

Nós todos a cavalo, os srs. dr. Martins Sarmento e dr. Freitas, embrulhados em mantas como dois alentejanos, os srs. João Gomes, dr. António de Lacerda e eu, embrulhados em cobertores brancos, seguíamos através do nevoeiro, pela serra fora, à maneira das visões fantásticas das baladas do Norte.

[Posfácio da obra "Uma Excursão ao Soajo em 1882", da autoria de José Leite de Vasconcelos e de Francisco Martins Sarmento, primeiro volume da colecção de minimis, hoje lançado pela Sociedade Martins Sarmento.

O livro é composto por notas de viagem colhidas por Leite de Vasconcelos e Francisco Martins Sarmento numa excursão ao Soajo, em Setembro de 1882. O texto de Leite de Vasconcelos, com o título Uma excursão ao Soajo – Notas numa carteira, foi inicialmente publicado em 1882, na Tipografia do Tirocínio, em Barcelos, num opúsculo que teve uma tiragem de apenas 30 exemplares. As notas de Martins Sarmento são retiradas dos seus cadernos Antiqua, onde deixou o registo minucioso de três décadas de explorações arqueológicas e etnográficas.

A obra, com o preço de capa de 5 euros, já se encontra à venda na SMS, em Guimarães.]



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7 de novembro de 2008

6 de novembro de 2008

5 de novembro de 2008

4 de novembro de 2008

Proposta de desanexação de Guimarães do Distrito de Braga

João Franco Castelo Branco, em 1886.

Aquando do conflito brácaro-vimaranense de 1885-1886, em Guimarães defendeu-se a desanexação do concelho do distrito de Braga e a sua integração no distrito do Porto. Esta ideia tomou a força de proposta de lei, que foi apresentada pelo deputado do círculo de Guimarães, João Franco Castelo Branco, em sessão da Câmara dos Deputados de 15 de Janeiro de 1886. Aqui se transcreve o teor do projecto de lei, assim como o discurso de apresentação então proferido por João Franco, cuja transcrição se encontra no “Diário da Câmara dos Senhores Deputados da Nação Portuguesa”, sessão de 15 de Janeiro de 1886:

Senhores. - A rivalidade tradicional e existente entre os concelhos de Braga e de Guimarães é um facto geralmente sabido por todos ou quase todos os membros desta câmara.

Essa rivalidade agravou-se, chegando ao seu maior grau de intensidade, com os acontecimentos ocorridos na cidade de Braga, no dia 28 de Novembro último, que não é preciso relatar, por sobejamente conhecidos e geralmente lamentados.

Urge, pois, a adopção do uma mediar, que, pondo fim ao mal-estar recíproco dos dois concelhos rivais, favoreça a indispensável harmonia entre os mesmos concelhos e os seus respectivos distritos.

A desanexação do concelho de Guimarães do distrito administrativo de Braga, para de futuro ficar pertencendo ao do Porto, parece-me ser a única aconselhada como satisfazendo plenamente àquele intuito.

É por um conjunto de circunstâncias bem apreciado e conhecido era todo o norte do país, se com o decorrer do tempo hão crescido sensivelmente as incompatibilidades do concelho de Guimarães com a capital do seu distrito, para uma vida administrativa em comum, pelo contrário as suas relações com o distrito, e muito especialmente com a cidade do Porto, têm aumentado dia a dia em intensidade e mútua simpatia.

Ao passo que as antigas mas nunca esquecidas questões da directriz do caminho de ferro do Minho, do prolongamento do caminho de ferro da Povoa, cavavam fundo na estima recíproca das duas cidades minhotas, por um antagonismo de interesses sempre crescente, a abertura do caminho de ferro de Bougado, pondo em comunicação directa e rápida Guimarães com o Porto, e o desenvolvimento das relações comerciais entre as duas cidades, de certo as mais industriais de todo o norte, fizeram brotar espontaneamente, e de há muito, o desejo de apertar cada vez mais os estreitos laços que já as prendiam.

Por isso nos comícios que em Guimarães se realizaram, logo depois do dia 28 de Novembro, o pedido da anexação ao distrito do Porto expluiu, não como um desforço sentimental e apaixonado, mas como a afirmação de um facto há muito latente no espírito público.

Há mais de um ano que a Revista de Guimarães, publicação da benemérita e ilustre sociedade Martins Sarmento se fez eco do desgosto geral, e num artigo de critica acerca da economia distrital em relação ao concelho de Guimarães terminava com esta acerba ironia: Por este preço pagamos nós a honra de pertencer ao distrito de Braga.

Existirão, porém, alguns factos de ordem material ou de interesse geral que se oponham à fervorosa pretensão que este projecto de lei procura satisfazer? Absolutamente nenhum.

O concelho de Guimarães é limítrofe numa grande extensão do Porto, pelos concelhos de Santo Tirso, Lousada e Felgueiras.

Tem hoje ligação directa e fácil por quatro comboios diários com a cidade do Porto.

É pela barra do Porto que entram e saem as matérias-primas e os produtos da sua indústria.

E com o Porto que se prende quase inteiramente o viver económico de terra tão largamente trabalhadora.

Portanto, nenhum obstáculo material e tantas razões de ordem superior demonstram a sensatez do pedido.

Por outro lado a existência do distrito de Braga como circunscrição administrativa não periga de forma alguma com a desanexação de Guimarães.

Braga é hoje o quarto distrito do reino, quanto a população e riqueza.

Com a aprovação deste projecto de lei descerá apenas um grau, ficando ainda o quinto com relação aos mesmos pontos, e portanto em condições de vida bem mais desapontada e próspera do que os dezasseis restantes distritos do reino.

Senhores! A aprovação deste projecto de lei será finalmente mais uma consagração dos princípios liberais.

Uma representação contendo mais de quatro mil assinaturas, quase tudo o que de população masculina e maior no concelho saberá ler e escrever, acaba de ser entregue ao poder executivo.

Representações de todas as corporações administrativas, e das diversas associações do concelho virão em breve ao parlamento.

E ninguém ousará pôr em duvida que as manifestações da vontade dos cidadãos, quando livres e espontâneas, conformes aos princípios, e sem ofensa dos interesses gerais da nação, constituem o melhor critério para avaliar dos seus direitos e decidir dos seus interesses.

Em face, pois, de uma tão eloquente unanimidade de sentir e querer, o espírito liberal desta câmara, a mais genuína representação da vontade popular, há-de por certo acolher benevolamente e conceder a sua aprovação ao seguinte projecto de lei, que tenho a honra de submeter à sua sabedoria:


Projecto de Lei


Artigo 1.° O concelho de Guimarães é desanexado do distrito administrativo de Braga, e fica pertencendo ao do Porto para todos os efeitos administrativos e políticos.

§ único. As juntas gerais dos distritos do Porto e de Braga serão convocadas extraordinariamente logo que este projecto seja lei do país, a fim de procederem a uma nova distribuição dos procuradores às juntas pelos respectivos concelhos, tendo em atenção a remodelação operada por este artigo 1.°

Art. 2.° Fica revogada toda a legislação em contrário.

Sala das sessões da câmara dos deputados, 13 de Janeiro de 1886. = O deputado pelo círculo de Guimarães, João Ferreira Franco Pinto de Castelo Branco.

Leu-se na mesa e foi admitido e enviado à comissão de administração.
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3 de novembro de 2008

2 de novembro de 2008

Ainda a proposta de Bernardino Machado sobre as Dominicas

[Fotografia de Eduardo Brito]
Fonte do antigo Convento de Santa Rosa do Lima (pormenor de uma das bicas).

Na sequência da proposta do deputado Bernardino Machado, para entregar à Sociedade Mertins Sarmento o Convento de Santa Rosa do Lima (Dominicas), foi entregue na Câmara dos Deputados duas representações com a mesma intenção , uma da Associação de Socorros Mútuos Vimaranense, entregue pelo deputado Ilídio Machado, a outra da "população de Guimarães", apresentada por Bernardino Machado. As representações e as intervenções que a seu propósito ocorreram, foram publicadas no “Diário da Câmara dos Senhores Deputados da Nação Portuguesa”, sessão de 5 de Maio de 1883:

Representações
...
...
3.ª Dos habitantes da cidade de Guimarães, pedindo para ser aprovado o projecto de lei apresentado na sessão de 26 de Março último pelo sr. deputado Bernardino Machado, que tem por fim conceder à sociedade Martins Sarmento, promotora da instrução popular naquela cidade, o edifício e cerca do convento das religiosas de Santa Clara de Lima.

Apresentada pelo sr. deputado Bernardino Machado, e enviada à comissão de fazenda, ouvida a de instrução primária e secundária.

...

O sr. Ilídio do Vale: - Mando para a mesa uma representação da Associação de Socorros Mútuos Vimaranense, juntando o seu pedido ao de outras corporações da cidade de Guimarães, a fim de que seja convertido em lei, com a brevidade possível, o projecto de lei, apresentado nesta câmara pelo sr. deputado Bernardino Machado, para a concessão do edifício e cerca do convento das religiosas de Santa Rosa de Lima sociedade Martins Sarmento, para que nesse edifício possa funcionar o instituto-escola criado por essa benemérita associação, e que é incontestavelmente o mais completo, criado pela iniciativa particular no nosso país, porque, alem de todas as disciplinas, que constituem o curso dos liceus de 2.ª classe, tem ainda cursos nocturnos de desenho profissional, tão necessário naquela localidade.

Creio mesmo, que o governo não tem ainda os dados oficiais necessários para bem avaliar a importância e desenvolvimento deste instituto, apesar do funcionário desde o princípio do corrente ano lectivo.

Estou convencido que se os tivesse não deixaria do estimular e prestar o devido auxílio a tão proveitosa instituição.

E quando todos os dias se está aqui a ouvir queixas sobre a falta de iniciativa particular no nosso país em beneficio da instrução, parece-me que com alguma razão se poderia acusar também a falta de auxílio dos poderes públicos a essa iniciativa, quando ele tenta traduzir-se em factos.

A representação da Associação de Socorros Vimaranense, bem como todas as outras no mesmo sentido, parecem-me muito dignas da atenção de um governo e de um parlamento que tenham a peito não simplesmente declamar sobre a falta de instrução, mas sim propagá-la e difundi-la, e como tal espero que ela será tomada na consideração que a todos os respeitos merece.

O sr. Bernardino Machado: - Mando para a mesa uma representação de habitantes do Guimarães em favor do projecto de lei que tive a honra de trazer a esta câmara para ser concedido à sociedade Martins Sarmento o edifício e cerca do convento de Santa Rosa de Lima.

Os serviços com que a sociedade Martins Sarmento tem já correspondido aos seus nobres intuitos fazem-nos ver nela mais do que o impulso generoso da sua fundação, uma força perseverante de colaboração para o desenvolvimento intelectual do país, e estou certo por isso que os poderes constituídos nunca lhe faltarão com o seu apoio, que é uma dívida pública.


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