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A mostrar mensagens de Julho, 2008

O ano de 1884: fazer pensar e agitar

Palácio de Vila Flor, 15 de Junho de 1884: inauguração da Exposição Industrial de Guimarães

Na vida dos homens, das instituições e das nações há momentos que se gravam a letras de ouro. Assim também nas cidades. O ano de 1884 é, para Guimarães, um desses momentos: um ano de viragem, o ano em que a modernidade começou a acontecer por aqui.

Nesse tempo, Guimarães era habitada por uma plêiade de homens ímpares, daqueles que deram os seus nomes às ruas da cidade e cujas obras, nem sempre suficientemente lembradas, deveriam ser um exemplo para as novas gerações. De entre todos, sobressaía Francisco Martins Sarmento, arqueólogo de pergaminhos já firmados nos meios científicos nacionais e internacionais, o homem sábio e solidário que a cidade admirava e escutava. Em sua homenagem, tinha sido criada, um par de anos antes, uma instituição que cedo se tornaria numa poderosa alavanca do progresso cultural, mas também social e económico, de Guimarães, a Sociedade Martins Sarmento. Alberto Sampaio, Jo…

O VIII centenário da Batalha de S. Mamede (3)

O quiproquó que chegou a ameaçar as comemorações do VIII centenário da Batalha de S. Mamede foi rapidamente ultrapassado. Na sequência de uma reunião, noticiada pelo Comércio de Guimarães de 20 de Abril de 1928, que teve lugar na Associação Artística, foi decidido dar início à subscrição pública para angariação de fundos para financiar os festejos. Para o efeito o concelho foi dividido em oito zonas, cada qual com sua comissão angariadora.

Na mesma altura, foram criadas duas comissões. Uma delas, a de propaganda, que teria a seu cargo a divulgação das comemorações, presidida por Eugénio da Costa Vaz Vieira. A outra, teria como propósito organizar um Te-Deum, sendo integrada por Monsenhor João Ribeiro, Cónego Alberto Vasconcelos, Padre Francisco da Silva, Dr. João Martins de Feitas e Padre Gaspar Roriz. Por seu lado, a Comissão Central seria constituída pelas seguintes entidades: Sociedade de Propaganda de Guimarães, Comando Militar, Liceu Central, Arcipreste, Associação Artística, Assoc…

O VIII centenário da Batalha de S. Mamede (2)

Do Comércio de Guimarães, de 17 de Abril de 1928

No dia 14 de Abril de 1928, sábado, o monumento a D. Afonso Henriques apareceu coberto de crepes, em sinal de luto. Junto dele, um dístico com a legenda, onde se lia: “Inditosa pátria que tais filhos tens...”. O assunto foi largamente comentado pela população. Na noite do dia anterior, tinha-se realizado uma reunião da Grande Comissão do 8.° Centenário da Batalha de S Mamede, à qual não compareceram os representantes da Câmara Municipal, da Sociedade Martins Sarmento e da Associação Comercial e Industrial de Guimarães, razão pela qual os pressentes decidiram, por unanimidade, considerar dissolvida a Grande Comissão. As comemorações estavam em risco. Na altura, o Delegado da Imprensa, Eugénio da Costa Vaz Vieira, que estava à frente da organização das comemorações, fez publicar uma nota oficiosa em que se lia: Na qualidade de Delegado da Imprensa que promoveu a Reunião Magna do dia 11 do corrente, na qual foi unanimemente votada a nomeação …

Os "campos de S. Mamede"

Aquando da passagem do VIII centenário da Batalha de S. Mamede, Alfredo Pimenta publicou na revista Ilustração Modernaum texto em que defendia que o recontro teria ocorrido no Campo da Ataca, em Aldão, que saiu acompanhado por algumas fotografias de Marques de Abreu, onde se mostravam os "campos de S. Mamede".

Guimarães - Vista geral dos campos de S. Mamede, vendo-se ao fundo o templo de S. Torcato


Guimarães - Outra vista dos campos de S. Mamede.


Guimarães - O passado e o presente - Gado pastando nos campos de S. Mamede.

Na morte de Alberto Sampaio (Notícia de O Regenerador)

Nota necrológica do jornal o Regenerador, do Padre Gaspar Roriz, publicada no dia 4 de Dezembro de 1808:

Na sua casa de Boamense, freguesia de Cabeçudos, Famalicão, faleceu no dia 1 do corrente o ilustre vimaranense e notável publicista, snr. Dr. Alberto Sampaio, irmão do falecido Dr. José Sampaio, que foi notável advogado nesta cidade e tio do actual juiz de direito na comarca de Esposende, snr. Dr. António Vicente Leal Sampaio. É uma morte que nos enluta a lodos os que prezamos a honra da nossa terra. Alberto Sampaio fez parte duma plêiade distinta de poetas e publicistas, figurando em destaque ao lado dos mais exímios cultores da moderna literatura portuguesa. A sua colaboração em diferentes revistas científicas, especialmente na “Portugalia”, a brilhante publicação de Ricardo Severo, e na “Revida”, da Sociedade Martins Sarmento; o seu valioso estudo acerca das vilas do norte de Portugal, ultimamente publicado em volume, revelam uma cerebração privilegiada, um talento superior, um trab…

Guimarães na feliz restauração de 1808 (5)

D. João VI. Gravura da Col. da Sociedade Martins Sarmento.

Para prover à defesa da vila, logo envidou esforços Rodrigo Vieira Borges de Campos, Abade Reservatário de S. Paio de Vizela, que conseguiu da Junta Suprema do Porto duas peças de artilharia que deveriam ser usadas para defender Guimarães. Como Loison, vindo pela Beira Alta, mostrava tenções de se dirigir em direcção ao Porto, as forças de Guimarães partem para Amarante para lhe fazer frente. Eram compostas pelo Batalhão dos Privilegiados, pelo Regimento de Milícias de Guimarães, entretanto reorganizado e comandado pelo coronel António Cardoso de Menezes, e por uma companhia formada por duas centenas de jovens voluntários. Na tarde do dia 21 de Junho, já Loison estava em Mesão Frio, repousando a meio da sua marcha triunfal em direcção ao Porto, quando recebeu a notícia de que o Norte se levantava contra os franceses. Depois de algumas hesitações, decide recuar, em vez de seguir rumo a Amarante. Quando a hoste vimaranense chega a …

Na morte de Alberto Sampaio (notícia do Independente)

A notícia publicada pelo jornal o Independente, de Guimarães sobre a morte e as cerimónias fúnebres do historiador Alberto Sampaio introduz alguns elementos interessantes, a par de pequenas imprecisões, nomeadamente a referência ao seu local de nascimento.


Dr. Alberto Sampaio

Em Vila Nova de Famalicão faleceu na terça-feira passada, vitimado por uma febre tifóide, na Quinta de Boamense, na freguesia de S. Cristóvão de Cabeçudos, o snr. Dr. Alberto da Cunha Sampaio, primoroso escritor e distinto agricultor.

O ilustre morto, que residia no Porto, ia amiudadas vezes a Cabeçudos – sua terra natal – de visita à sua estimadíssima família. Era irmão do falecido jurisconsulto dr. José da Cunha Sampaio, e tio do nosso prezadíssimo amigo snr. Dr. António Vicente Leal Sampaio, distinto juiz de direito na comarca de Esposende. Carácter nobilíssimo e trabalhador infatigável, o finado foi um dos maiores propugnadores e cooperadores da Exposição Industrial que se realizou em Guimarães em 1884, podendo di…

Guimarães na feliz restauração de 1808 (4)

O General Sepúlveda. Gravura da Col. da Sociedade Martins Sarmento

No dia 16 de Junho de 1808, dia do Corpo de Deus, houve festa em Guimarães, onde já foram explícitas as manifestações de desafio ao usurpador. Circulavam notícias de que, em Bragança, o velho General Sepúlveda se havia colocado à frente da sublevação contra os franceses. Na festa vimaranense desse ano, não faltou quem ostentasse no chapéu o laço que simbolizava a soberania portuguesa. As manifestações anti-francesas prolongaram-se pelo dia seguinte, com música, luminárias e ladainhas. O dia 18 seria o dia do levantamento em Guimarães. A iniciativa de convocar o povo para aclamar o príncipe regente fora do Corregedor da Comarca, António Manuel Borges: “Foi ele que de seu moto próprio e por efeitos de puro patriotismo e fidelidade mandara convocar o povo da vila em 18 de Junho pelo seu escrivão José António de Miranda, e por seu meirinho Plácido Machado Pereira, para que pelas 4 horas da tarde se achasse no largo de N. Senh…

A Batalha de S. Mamede (1128-1928), segundo Alfredo Pimenta

Alfredo Pimenta

A Chronica Gottorum, que, em apêndice da Terceira Parte da Monarquia Lusitana, António Brandão publicou, diz textualmente: «Era 1166... Commisit cum eis praelium in campo Sancti Mametis, quod est prope castellum de Vimaranes...». No texto da Monarquia Lusitana (livro IX, fls. 88) lê-se uma transcrição da História dos Godos, em que se dá a batalha como sendo em Junho de 1128, no dia de S. João Baptista, «in Campo Sancti Mamantis, vulgo Mametis, prope Castellum Vimaranense». O primeiro problema que se levanta é o da localização do acontecimento. O nosso malogrado João de Meira disse, por mais duma vez, fundado em certo passo do Portugaliae Monumenta Historica, (castellum quos vocitant sanctum mames), que a batalha se dera, não, como a tradição afirma, em campos do vale de S. Torcato, mas junto do Castelo (conclusão III da sua conferência Guimarães, publicada na Revista de Guimarães, vol. XXXI, n.° 3). O que se lê na Crónica dos Godos e na História dos Godos e no documento d…

Guimarães na feliz restauração de 1808 (3)

Gravura alusiva à entrada dos franceses em Espanha em 1808. Da Col. da Sociedade Martins Sarmento

Em Guimarães, tardará a ser admitida a soberania dos franceses e dos espanhóis, seus aliados. A vila seria ocupada por tropas espanholas em meados de Dezembro, mas só no final de Janeiro de 1808 é que aparece formalizada nos documentos da Câmara a autoridade do “Imperador dos “Franceses”. No dia 19 de Maio, a Câmara responde a um aviso do Duque de Abrantes, que o Príncipe D. João deixara à frente da Regência de Portugal, em que se aconselhavam os portugueses a submeterem-se ao Imperador dos Franceses e dava conta das “benéficas e magnânimas intenções” de Napoleão, com promessas de um futuro venturoso. Na resposta da Câmara de Guimarães transmitiam-se os “protestos de submissão e obediência a S. M. Imperial e Real”. Tal submissão não se prolongaria por muito tempo. Já nos primeiros dias daquele Maio se desencadeara em Madrid uma rebelião do povo espanhol contra a dominação francesa, que seria…

Um fio de cabelo

Raul Brandão

"Essa extraordinária mulher que no colégio nos habituámos a conhecer pelo nome de D. Teresa ou Tareja, ajudou, pela ascendência do encanto feminino e pela ambição e astúcia, a deitar os alicerces a um reino. Dominou, num mundo bárbaro, os homens rudes e grosseiros, conseguindo manter a herança que o marido lhe legara. Mas pela beleza, que é força e fraqueza ao mesmo tempo, ia talvez destruir tudo, quando o poder passou, na cilada de S. Mamede, para as mãos do que devia ser o Homem, aquele homem feroz indispensável para marchar à frente das hordas, que nos assaltos nocturnos de que reza a História – se a grave História não está toda errada... – tomavam os castelos e conquistavam um reino. Vencida, essa figura de mulher destaca-se ainda no passado obscuro, e até hoje nos prende. Pouco ou nada sabemos dela ao certo, mas o encanto que exercia não se desvaneceu de todo. Das palavras que o amante lhe mandou gravar no túmulo depreende-se que foi loura – e um fio de cabelo fi…

O advento da nação, segundo Luís de Magalhães

Luís de Magalhães
O facto histórico, de que a cidade de Guimarães celebra o oitavo centenário pode bem considerar-se a primeira afirmação do nosso espírito de nacionalidade, o nosso primeiro assomo de independência política. Essa aspiração não brotou da alma dum Príncipe ambicioso e sedento dum domínio absolutamente autónomo nos seus estados. D. Afonso Henriques era apenas um adolescente, quando o recontro de S. Mamede se deu. Por maior que fosse a precocidade desse soberano, tão valoroso e heróico homem de armas como político, – e, muito novo ainda, sobejas provas deu ele dessas qualidades supremas na individualidade dum imperante, – não se pode supor que um rapaz de dezasseis anos houvesse sido o agente principal, cabeça e braço dum feito que demandava faculdades de visão politica e de mando militar que só uma longa experiência dos homens e dos negócios públicos e uma consumada pratica das coisas da guerra poderiam dar a quem o tentasse. Não, esse arranque glorioso não foi a obra exclu…

Da normalização da ortografia

Em Dezembro de 1878, um grupo presidido por Adriano de Abreu Cardoso Machado apresentou à Academia Real das Ciências um pedido para que se providenciasse a publicação de “uma gramática e um dicionário ao mesmo tempo ortográfico e prosódico ou ao menos um vocabulário”, de modo a que se satisfizesse uma “necessidade que todos reconhecem e sentem, – a de uma ortografia normal”. O texto incluía um “parecer da comissão de reforma ortográfica”, cuja leitura fará algum sentido, pelo menos como mera curiosidade, agora que se discute a questão da normalização da língua através do tão discutido acordo ortográfico. Se outro interesse não tivesse, este texto, não tanto pelo que nele se escreve, mas pelo modo como se escreve, é revelador do muito que evoluiu a ortografia da língua portuguesa desde finais do século XIX. Aqui fica um excerto:
"A istória ensina, que o português primitivo, a língua do berço da monarquia (Entre Douro e Minho), a que falávão os senhores e ómens d'armas que ajudá…

Guimarães na feliz restauração de 1808 (2)

Alegoria à retirada do Príncipe D. João para o Brasil, em 1807. A figura feminina personifica a Providência. Gravura da Col. da Sociedade Martins Sarmento

Com a invasão iminente, D. João dá a conhecer a Napoleão a adesão de Portugal ao Bloqueio Continental. No dia 30 de Outubro, num último esforço para evitar a invasão, declara guerra à Inglaterra, numa manobra concertada com os ingleses, com quem assinara uma convenção secreta alguns dias antes, segundo a qual a Inglaterra se comprometia a colocar a família real e o governo português a salvo no Brasil. Nessa altura, a invasão parecia inevitável. No dia 18 de Outubro, já as tropas comandadas por Jean-Andoche Junot haviam entrado em Espanha, no seu caminho em direcção a Portugal. A entrada em território português teve lugar no dia 20 de Novembro, marchando em direcção a Lisboa, sem se depararem com resistência pelo caminho. Com a proximidade dos franceses, precipitaram-se os preparativos para pôr em prática um plano de contingência, já…

O dia de S. Mamede, por Fidelino de Figueiredo

Fidelino de Figueiredo, por Abel Cardoso

Bela entre as mais belas terras de Portugal, Guimarães é, por certo, a mais nobre, porque lhe coube a honra excelsa de ser pátria da Pátria Portuguesa – essa Pátria imortal que há oito séculos conhece as horas altas do triunfo e as amarguras de crises pungentes, até chegar à “apagada e vil tristeza”, a que Camões verberava e a que contemplamos hoje.

Um povo, que soube diferenciar-se para sempre e poderosamente do grande conjunto peninsular; que se formou como nação independente pela sua vontade heróica, sobrepondo-se à terra e à antropologia; que criou uma das línguas mais formosas dos homens e uma das literaturas mais ricamente típicas; que viveu uma historia que é um prodígio e um eterno mistério; que foi obreiro principal no reconhecimento integral da Terra e um dos criadores da América; que soube cristalizar a sua sobreexcitação heróica no hino nunca excedido dos Lusíadas; que ainda hoje, na hora triste das dissídias e da pobreza, é senhor du…

Guimarães na feliz restauração de 1808 (1)

Napoleão Bonaparte. Pormenor de gravura da Col. da Sociedade Martins Sarmento.

Continua aberta ao público, até ao próximo dia 20 de Julho, na Galeria de Exposições Temporárias da Sociedade Martins Sarmento, a exposição O tempo tão suspirado, comemorativa dos 200 anos da aclamação em Guimarães do príncipe regente D. João VI. A entrada é livre. Entretanto, iremos publicando aqui o texto que preparámos para o catálogo desta exposição:

Um dos traços mais marcantes do modo de ser das gentes de Guimarães reside na maneira generosa e arrebatada que os vimaranenses sempre colocam nos empreendimentos colectivos em que se envolvem, em especial quando estão em causa as bases da sua própria identidade comunitária. Nos anais de Guimarães não faltam exemplos, desde aqueles tempos remotos em que se lançaram os fundamentos da construção de Portugal, de grandes gestas colectivas, por vezes situadas na fronteira estreita que separa a história e o mito. É do lado da história que, inegavelmente, se posici…

O VIII centenário da Batalha de S. Mamede (1)

As comemorações dos oitocentos anos da Batalha de S. Mamede começaram a ser preparadas numa reunião na redacção do jornal "O Conquistador", que juntou os representantes de "todos os jornais de Lisboa, Porto e Guimarães". Entre outras ideias, foi aí lançada a da publicação de um "número único ilustrado e grandioso, com colaboração de vimaranenses e escritores de nomeada".

Na noite inverenosa de 11 de Abril, houve uma reunião muito participada no Salão Nobre da Sociedade Martins Sarmento, para se debater a melhor maneira de comemorar a Batalha de S. Mamede. Dessa assembleia resultou a constituição de uma Grande Comissão com a incumbência de dar os primeiros passos para a organização do programa comemorativo. Era constituída pelas seguintes entidades: Câmara Municipal, Comando Militar, Sociedade Martins Sarmento, Arcipreste, Associação Comercial e Industrial, Reitor do Liceu Nacional Martins Sarmento, Director da Estação dos Correios, Telégrafos e Telefones d…

Quando o 24 de Junho foi a 23

A primeira vez que a Batalha de S. Mamede foi objecto de celebrações com alguma dimensão aconteceu em 1928, na passagem do seu VIII centenário. Curiosamente, o acontecimento foi assinalado, não a 24, mas a 23 de Junho. Na altura, persistiam dúvidas em relação ao dia em que a batalha teria acontecido. A origem dessas dúvidas parece ter origem nas fontes que indicam que a batalha teria ocorrido no dia da festa de S. João, como a Chronica Gottorum (Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses), quase contemporânea dos factos que descreve, onde se lê:

Na era de 1166 [ano de 1128], no mês de Junho, na festa de S. João Baptista, o ínclito infante D. Afonso, filho do Conde D. Henrique e da rainha D. Teresa, neto do grande imperador da Espanha, D. Afonso, com auxílio do Senhor e por clemência divina, e também graças ao seu esforços e persistência, mais do que à vontade ou ajuda dos parentes, apoderou-se com mão forte do reino de Portugal. Com efeito, tendo morrido seu pai, o Conde D. Henrique, quan…

O monumento a D. Afonso Henriques

A estátua a D. Afonso Henriques, actualmente nas imediações do Castelo, esteve originalmente no Campo de S. Sebastião. A seguir à instauração da República foi transferida para o Largo do Toural, onde foi tirada esta fotografia (Marques Abreu, 1928, para a revista Ilustração Moderna).

As duas versões da estátua de D. Afonso Henriques

A estátua de D. Afonso Henriques acabou por ser erigida dois anos depois da data para a qual estava prevista (1885, quando passavam 700 anos sobre a morte do primeiro rei). O projecto de Soares dos reis teve duas versões diferentes (a principal diferença residia na cota de malha, acima do joelho, na primeira versão, até aos pés na versão que acabou por ser realizada).

Primeira proposta

Versão final

Desenhos de Soares dos Reis.

A inauguração do monumento a Afonso Henriques (1887)

No dia 20 de Outubro de 1887, foi inaugurada, no Campo de S. Francisco, a estátua de D. Afonso Henriques, mandada erigir por subscrição pública, com o propósito de homenagear o rei fundador na passagem do sétimo centenário da sua morte, ocorrida em 1185. O monumento, da autoria do escultor Soares dos Reis, foi descerrado pelo rei D. Luís I e pelo príncipe real, o futuro rei D. Carlos.A seguir, transcreve-se a reportagem do jornal Religião e Pátria a propósito desta inauguração.

Fez a guarda de honra uma força de infantaria 20.

O espectáculo é surpreendente, e chega a parecer fantástico.

Todas as casas e janelas do vasto campo adornadas com preciosas colgaduras de damasco e seda, e cheias de centenares de senhoras. Em baixo uma multidão enorme de mais de 15.000 pessoas. Do meio desta massa que se aperta, que se amontoa, numa febre de entusiasmo que chega até ao delírio, levantam-se e flamuleiam os precioso estandartes e pendões das diversas corporações que compõem o imponente e magnífico …

"Se na batalha do campo de S. Mamede..."

Alexandre Herculano. Gravura da Col. da Sociedade Martins Sarmento.

“Se na batalha do campo de S. Mamede, em que Afonso Henriques arrancou definitivamente o poder das mãos de sua mãe, ou antes das do conde de Trava, a sorte das armas lhe houvera sido adversa, constituiríamos provavelmente hoje uma província de Espanha. Mas no progresso da civilização humana tínhamos uma missão que cumprir. Era necessário que no último ocidente da Europa surgisse um povo, cheio de actividade e vigor, para cuja acção fosse insuficiente o âmbito da terra pátria, um povo de homens de imaginação ardente, apaixonados do incógnito, do misterioso, amando balouçar-se no dorso das vagas ou correr por cima delas envoltos no temporal, e cujos destinos eram conquistar para o cristianismo e para a civilização três partes do mundo, devendo ter em recompensa unicamente a glória. E a glória dele é tanto maior quanto, encerrado na estreiteza de breves limites, sumido no meio dos grandes impérios da Terra, o seu nome ret…

As celebrações afonsinas de 1911 (5)

Reportagem do Cortejo Histórico e Cívico com que, nas Gualterianas de 1911, no dia 6 de Agosto, se assinalou em Guimarães o VIII centenário do nascimento de Afonso Henriques:

Pelas 12 horas da manhã saiu o imponente e deslumbrante cortejo cívico em honra de D. Afonso Henriques.

Saiu ao estralejar de girândolas e ao repicar festivo dos campanários da cidade.

A ordem por que ia distribuído já a publicamos, tendo só a acrescentar que o cortejo ia bem organizado, bem representado, na melhor boa ordem e muito extenso.

Causou entusiasmo pela forma primorosa que se apresentou, um cavaleiro vestido à época, os grupos de cavaleiros vestindo como os guerreiros do século XII etc, etc.

Também causou assombro o Carro de honra, obra primorosa de Abel Cardoso, cuja descrição já foi por nós feita, bem como o Carro da Indústria de José Pina que, mais uma vez, mostrou aos estranhos que Guimarães tem artistas que nos honram.

Aos dois notáveis artistas, os nossos parabéns.

Incorporaram-se também no cortejo o Ca…

As celebrações afonsinas de 1911 (4)

Intervenção do Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, José Pinto Teixeira de Abreu, na cerimónia comemorativa do oitavo centenário do nascimento de D. Afonso Henriques, em 1911:

“Exmo. Presidente da Direcção da Associação Comercial de Guimarães.

É com o máximo prazer que a Comissão Municipal da Câmara de Guimarães, legítima representante desta cidade e concelho, toma parte nesta comemoração solene do 8.° centenário do nascimento de D. Afonso Henriques, o heróico conquistador da nossa autonomia, o ínclito fundador da nossa nacionalidade. Nem podia a Câmara, a que me honro de presidir, deixar de se associar a esta homenagem que vós tão benemeritamente promovestes e que tão brilhantemente realizais.

Afonso Henriques e o primeiro vulto da Historia da nossa Pátria e a maior honra e glória da nossa terra. Valente e destemido, como os cavaleiros normandos, cujo milenário a grande República Francesa ainda há pouco celebrou; alma aberta aos mais belos ideais de independência e de liberdade;…