25 de julho de 2008

O ano de 1884: fazer pensar e agitar

Palácio de Vila Flor, 15 de Junho de 1884: inauguração da Exposição Industrial de Guimarães

Na vida dos homens, das instituições e das nações há momentos que se gravam a letras de ouro. Assim também nas cidades. O ano de 1884 é, para Guimarães, um desses momentos: um ano de viragem, o ano em que a modernidade começou a acontecer por aqui.

Nesse tempo, Guimarães era habitada por uma plêiade de homens ímpares, daqueles que deram os seus nomes às ruas da cidade e cujas obras, nem sempre suficientemente lembradas, deveriam ser um exemplo para as novas gerações.

De entre todos, sobressaía Francisco Martins Sarmento, arqueólogo de pergaminhos já firmados nos meios científicos nacionais e internacionais, o homem sábio e solidário que a cidade admirava e escutava. Em sua homenagem, tinha sido criada, um par de anos antes, uma instituição que cedo se tornaria numa poderosa alavanca do progresso cultural, mas também social e económico, de Guimarães, a Sociedade Martins Sarmento.

Alberto Sampaio, José Sampaio, o Padre António José Ferreira Caldas, Domingos Leite Castro, o Conde de Margaride, Avelino Germano, Avelino da Silva Guimarães, Adolfo Salazar, Joaquim José de Meira, o Padre Oliveira Guimarães, futuro Abade de Tagilde, e tantos outros, faziam parte dessa geração que, irmanada das mesmas preocupações de filantropia e de abertura ao progresso, contribuiria para o arranque de Guimarães rumo aos tempos modernos.

Por essa altura, a Sociedade Martins Sarmento estava mergulhada em projectos ambiciosos que a iria transformar numa das mais prestigiadas instituições culturais portuguesas: a criação de cursos de formação profissional, a instalação da sua Biblioteca Pública, a fundação do Museu Arqueológico, o lançamento de uma publicação periódica que contribuiria para a elevação cultural de Guimarães e dos vimaranenses e para que Guimarães passasse a projectar para o exterior uma imagem de cidade de progresso e de modernidade.

Em meados de Fevereiro de 1884, começou a ser distribuído o primeiro fascículo da publicação que a SMS anunciara algum tempo antes, a Revista de Guimarães, em cuja introdução os fundadores da Sociedade traçaram “o desenho ambicioso de suas vastas esperanças” e inscreveram um voto: “concorrer poderosamente para uma melhor orientação da nossa opinião pública e, por esta, para o aumento de prosperidade, que a nossa terra merece e anseia”. Não por acaso, o primeiro artigo publicado na nova Revista respondia a esta pergunta: “Convirá a Guimarães organizar uma exposição industrial?”. O seu autor, Alberto Sampaio, respondeu assim:

“Uma exposição em Guimarães não só é conveniente, mas impõe-se como uma necessidade, se a considerarmos como o primeiro passo para o rejuvenescimento e aperfeiçoamento tanto das suas antigas indústrias como das que têm sido introduzidas nestes últimos quarenta anos.”

E assim se fez, em 1884, a grande exposição industrial de Guimarães, ideia lançada por Domingos Leite Castro, concretizada por iniciativa e obra da Sociedade Martins Sarmento, que teria em Alberto Sampaio a sua alma mater. Assim se cumpriam os objectivos da Sociedade, que nasceu para fazer pensar e agitar. Porque, como escreveu Sampaio, “fazer pensar é tudo; e a agitação a única alavanca que pode deslocar esse mundo: pois que agitar quer dizer – instruir, ensinar, convencer e acordar”.

Na sequência do sucesso da exposição industrial de Guimarães, cuja abertura ao público, na Casa de Vila Flor, seria saudada pelos silvos do comboio que, na mesma altura, chegava até à estação do Cavalinho, o tecido económico de Guimarães não voltaria a ser o mesmo, com a aceleração do processo de introdução de indústrias modernas, movidas pelas novas fontes de energia.

Ainda nesse ano, e na sequência da Exposição, por pressão da Sociedade Martins Sarmento, secundada por outras instituições vimaranenses, seria criada, a Escola Industrial Francisco de Holanda.

O movimento do progresso era acompanhado por uma imprensa atenta e interventiva, a que nesse ano se juntou um novo título, ainda hoje em publicação, O Comércio de Guimarães.

Em 1884, Guimarães havia em Guimarães grandes movimentações para a erecção de dois dos monumentos mais emblemáticos da cidade: o monumento a Pio IX, que então ficaria concluído, e a estátua de D. Afonso Henriques, que seria inaugurada em 1887. Nesse ano ficou concluída a Basílica de S. Pedro, que hoje domina o Toural.

Aquele foi o ano que viu desaparecer prematuramente o Padre António José Ferreira Caldas, autor daquela que ainda hoje é a melhor monografia de Guimarães. Na mesma altura, nasceu Eduardo de Almeida, um dos mais notáveis escritores que esta terra produziu, cujo nome está indelevelmente ligado ao ressurgimento da Sociedade Martins Sarmento na década de 1920.

Em 2009, passarão 125 anos sobre 1884, ano de viragem, em que em Guimarães aconteceu a modernidade. Para assinalar a efeméride, a Sociedade Martins Sarmento, impulsionadora e protagonista dos acontecimentos mais marcantes que então ocorreram, está a preparar, com outras entidades, um programa comemorativo que se deseja à altura daquilo que vai ser comemorado.

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21 de julho de 2008

O VIII centenário da Batalha de S. Mamede (3)

O quiproquó que chegou a ameaçar as comemorações do VIII centenário da Batalha de S. Mamede foi rapidamente ultrapassado. Na sequência de uma reunião, noticiada pelo Comércio de Guimarães de 20 de Abril de 1928, que teve lugar na Associação Artística, foi decidido dar início à subscrição pública para angariação de fundos para financiar os festejos. Para o efeito o concelho foi dividido em oito zonas, cada qual com sua comissão angariadora.


Na mesma altura, foram criadas duas comissões. Uma delas, a de propaganda, que teria a seu cargo a divulgação das comemorações, presidida por Eugénio da Costa Vaz Vieira. A outra, teria como propósito organizar um Te-Deum, sendo integrada por Monsenhor João Ribeiro, Cónego Alberto Vasconcelos, Padre Francisco da Silva, Dr. João Martins de Feitas e Padre Gaspar Roriz.

Por seu lado, a Comissão Central seria constituída pelas seguintes entidades: Sociedade de Propaganda de Guimarães, Comando Militar, Liceu Central, Arcipreste, Associação Artística, Associação dos Alunos da Escola Industrial e Comercial, Academia Vimaranense, Núcleo dos "Scouts", Director do "Conquistador", Bernardino Jordão, Director dos CTT, Sociedade Patriótica 1.º de Dezembro de 1640 e Inspector Escolar Primário.

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O VIII centenário da Batalha de S. Mamede (2)

Do Comércio de Guimarães, de 17 de Abril de 1928

No dia 14 de Abril de 1928, sábado, o monumento a D. Afonso Henriques apareceu coberto de crepes, em sinal de luto. Junto dele, um dístico com a legenda, onde se lia: “Inditosa pátria que tais filhos tens...”. O assunto foi largamente comentado pela população. Na noite do dia anterior, tinha-se realizado uma reunião da Grande Comissão do 8.° Centenário da Batalha de S Mamede, à qual não compareceram os representantes da Câmara Municipal, da Sociedade Martins Sarmento e da Associação Comercial e Industrial de Guimarães, razão pela qual os pressentes decidiram, por unanimidade, considerar dissolvida a Grande Comissão. As comemorações estavam em risco.

Na altura, o Delegado da Imprensa, Eugénio da Costa Vaz Vieira, que estava à frente da organização das comemorações, fez publicar uma nota oficiosa em que se lia:

Na qualidade de Delegado da Imprensa que promoveu a Reunião Magna do dia 11 do corrente, na qual foi unanimemente votada a nomeação da Grande Comissão do 8.° Centenário da Batalha de S. Mamede, constituída pelas Entidades ali indicadas, com a aprovação da Assembleia, comunico à Cidade de Guimarães que não tendo comparecido à reunião marcada no dia 11, para as 21 horas de hoje, os Representantes da Câmara Municipal, Sociedade Martins Sarmento e Associação Comercial e Industrial da Guimarães, os membros presentes que faziam parte dessa Comissão resolveram por unanimidade considerar dissolvida a Grande Comissão.

Guimarães, 13 de Abril de 1928.

Três dias depois, distribuiu uma nova nota:

“Comunico à Imprensa que por seu ofício n.° 129 com data de 14 do corrente, o Exm.° Snr. Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Guimarães, me participou o seguinte :

“No entanto, a V. Ex.ª declaro que é propósito desta Comissão dar às festas a realizar o Concurso que dentro das suas atribuições legais lhes possa prestar e as circunstâncias do momento lhe permitam.»

Em nome da Imprensa, e como seu Delegado, agradeci, por meu ofício com data de 14 ,o concurso da Exm.ª Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Guimarães para a Comemoração do 8.º Centenário da Batalha de S. Mamede.”

Guimarães, 16 de Abril de 1928.

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20 de julho de 2008

Os "campos de S. Mamede"

Aquando da passagem do VIII centenário da Batalha de S. Mamede, Alfredo Pimenta publicou na revista Ilustração Moderna um texto em que defendia que o recontro teria ocorrido no Campo da Ataca, em Aldão, que saiu acompanhado por algumas fotografias de Marques de Abreu, onde se mostravam os "campos de S. Mamede".

Guimarães - Vista geral dos campos de S. Mamede, vendo-se ao fundo o templo de S. Torcato


Guimarães - Outra vista dos campos de S. Mamede.


Guimarães - O passado e o presente - Gado pastando nos campos de S. Mamede.

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Na morte de Alberto Sampaio (Notícia de O Regenerador)


Nota necrológica do jornal o Regenerador, do Padre Gaspar Roriz, publicada no dia 4 de Dezembro de 1808:

Na sua casa de Boamense, freguesia de Cabeçudos, Famalicão, faleceu no dia 1 do corrente o ilustre vimaranense e notável publicista, snr. Dr. Alberto Sampaio, irmão do falecido Dr. José Sampaio, que foi notável advogado nesta cidade e tio do actual juiz de direito na comarca de Esposende, snr. Dr. António Vicente Leal Sampaio.

É uma morte que nos enluta a lodos os que prezamos a honra da nossa terra.

Alberto Sampaio fez parte duma plêiade distinta de poetas e publicistas, figurando em destaque ao lado dos mais exímios cultores da moderna literatura portuguesa.

A sua colaboração em diferentes revistas científicas, especialmente na “Portugalia”, a brilhante publicação de Ricardo Severo, e na “Revida”, da Sociedade Martins Sarmento; o seu valioso estudo acerca das vilas do norte de Portugal, ultimamente publicado em volume, revelam uma cerebração privilegiada, um talento superior, um trabalhador infatigável.

O único cargo que exerceu foi o de guarda-livros do Banco de Guimarães, onde todos o respeitavam pela bondade do seu coração, pela limpidez do seu carácter e pelo seu profundo saber.

Sempre modesto e recolhido, ele só shiu para a rua a trabalhar com um afã verdadeiramente benemérito, quando Guimarães resolveu realizar a sua exposição industrial em 1884, cuja importância lhe veio, quase toda, do saber e da actividade de Alberto Sampaio.

E a terra onde este homem era menos conhecido era talvez a terra onde nasceu – Guimarães – que ele ilustrou e honrou com um nome que o país declina com veneração e respeito!...

A câmara exarou na acta da última sessão um voto de sentimento pela morte do ilustre vimaranense. Cumpriu o seu dever e interpretou o sentir dos que admiraram o talento do dr. Alberto Sampaio.

“O Regenerador” consigna também o seu pesar pela irreparável perda deste homem que, depois de Sarmento, foi a mais lídima glória da nossa terra nas lutas da pena e da cultura da ciência.

Os funerais do Dr. Alberto Sampaio realizaram-se ontem, em Cabeçudos, indo daqui assistir alguns cavalheiros.

À família enlutada, e, especialmente, ao snr. Dr. Leal Sampaio, apresentamos os cumprimentos do nosso profundo pesar.

(O Regenerador, n.º 2, ano I, Guimarães, 4 de Dezembro de 1908)

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19 de julho de 2008

Guimarães na feliz restauração de 1808 (5)

D. João VI. Gravura da Col. da Sociedade Martins Sarmento.

Para prover à defesa da vila, logo envidou esforços Rodrigo Vieira Borges de Campos, Abade Reservatário de S. Paio de Vizela, que conseguiu da Junta Suprema do Porto duas peças de artilharia que deveriam ser usadas para defender Guimarães.

Como Loison, vindo pela Beira Alta, mostrava tenções de se dirigir em direcção ao Porto, as forças de Guimarães partem para Amarante para lhe fazer frente. Eram compostas pelo Batalhão dos Privilegiados, pelo Regimento de Milícias de Guimarães, entretanto reorganizado e comandado pelo coronel António Cardoso de Menezes, e por uma companhia formada por duas centenas de jovens voluntários. Na tarde do dia 21 de Junho, já Loison estava em Mesão Frio, repousando a meio da sua marcha triunfal em direcção ao Porto, quando recebeu a notícia de que o Norte se levantava contra os franceses. Depois de algumas hesitações, decide recuar, em vez de seguir rumo a Amarante.

Quando a hoste vimaranense chega a Mesão Frio, na tarde do dia 22, de Loison e a sua tropa já só encontra o rasto e alguns despojos, entre os quais três fardas de general, duas das quais seriam trazidas para Guimarães. Os de Guimarães participaram na perseguição aos franceses em retirada, causando-lhes pesadas baixas quando tentavam a travessia do Douro, na Régua. No dia 23, estavam em Lamego. Viriam a travar uma batalha encarniçada na Póvoa de Juvantes, a duas léguas daquela cidade, na qual se destacaria o célebre Monsenhor Miranda. Com ele estava um dos célebres “frades brancos”, Frei António Pacheco(1), de S. Domingos de Guimarães, de quem Luz Soriano, numa nota em que cita José Acúrsio das Neves, disse:

“Foi ele que combateu contra o general Loison na sua intentada expedição da Régua, indo na coluna de Guimarães. Foi ele o que na sua volta levou uma das fardas de que acima se fez menção, depositando-a no tempo de Nossa Senhora da Oliveira, onde com ela na mão subiu ao púlpito, e batendo-lhe com um pau, entusiasmou o povo."(2)

Deixando atrás de si um rasto medonho de destruição, que perduraria na memória das gentes e se consagraria na expressão ir para o maneta, os franceses batiam em retirada. Como escreveu Vasco Pulido Valente, “pela primeira vez, «os gloriosos conquistadores da Europa» fugiam"(3). Espalhavam terror por onde passavam, fugindo de gente mal munida de armas, mas carregadas de ira contra o usurpador. Fugiam também da combativa e memorável hoste de Guimarães de 1808.



(1) É o autor da História Crítica dos Franceses em Portugal durante os anos de 1870-1808 e 1809, um manuscrito com cerca de 700 páginas de que adiante se dá notícia num texto de Manuel Mendes, publicado em 1959, na Revista de Guimarães.

(2) Simão José da Luz Soriano, História da guerra civil e do estabelecimento do governo parlamentar em Portugal, comprehendendo a história diplomática, militar e política deste reino desde 1777 até 1834: guerra da península, Imprensa Nacional, Lisboa, 1870, pág. 264

(3) Vasco Pulido Valente, Ir prò maneta. A Revolta contra os Franceses (1808), Alêtheia Editores, Lisboa, 2007, pg. 67.

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18 de julho de 2008

Na morte de Alberto Sampaio (notícia do Independente)


A notícia publicada pelo jornal o Independente, de Guimarães sobre a morte e as cerimónias fúnebres do historiador Alberto Sampaio introduz alguns elementos interessantes, a par de pequenas imprecisões, nomeadamente a referência ao seu local de nascimento.


Dr. Alberto Sampaio


Em Vila Nova de Famalicão faleceu na terça-feira passada, vitimado por uma febre tifóide, na Quinta de Boamense, na freguesia de S. Cristóvão de Cabeçudos, o snr. Dr. Alberto da Cunha Sampaio, primoroso escritor e distinto agricultor.

O ilustre morto, que residia no Porto, ia amiudadas vezes a Cabeçudos – sua terra natal – de visita à sua estimadíssima família.

Era irmão do falecido jurisconsulto dr. José da Cunha Sampaio, e tio do nosso prezadíssimo amigo snr. Dr. António Vicente Leal Sampaio, distinto juiz de direito na comarca de Esposende.

Carácter nobilíssimo e trabalhador infatigável, o finado foi um dos maiores propugnadores e cooperadores da Exposição Industrial que se realizou em Guimarães em 1884, podendo dizer-se que foi ele a alma da notável Exposição.

À Sociedade Martins Sarmento, bem como a outras colectividades vimaranenses, também o dr. Alberto Sampaio prestou assinalados serviços.

O dr. Alberto Sampaio, que era uma das nossas mais altas capacidades mentais, deixa dispersa na “Revista de Guimarães”, e noutras revistas e jornais, uma obra literária e histórica importantíssima

Os actos fúnebres realizaram-se anteontem, pelas 10 horas da manhã, na igreja paroquial de Cabeçudos, sendo o cadáver do extinto depositado em jazigo da família no cemitério paroquial daquela freguesia.

Em diferentes turnos que se organizaram de casa à igreja e da igreja ao jazigo, seguraram as toalhas do caixão os snrs.: Visconde de Pindela, Abade de S. Cosme, José de Azevedo Menezes, dr. Sebastião de Carvalho, António José de Sousa Cristino, António Veloso, dr. Pedro Guimarães, dr. Álvaro Ribeiro da Costa Sampaio, Abade de Tagilde, dr. Joaquim José de Meira, cónego dr. Manuel Moreira Júnior, cónego Alberto da Silva Vasconcelos, Álvaro Costa Guimarães, Eduardo M. de Almeida, Jerónimo de Castro, João Gualdino Pereira, por si e como representante do sr. dr Avelino Germano da Costa Freitas, António Leal de Barros e Vasconcelos, José Ferreira Ramos José Francisco Gonçalves Guimarães, Joaquim Malvar, Joaquim Mendes, Álvaro da Silva Penafort e António Barreira.

Por recomendação do finado, o cadáver do morto foi conduzido à mão pelos filhos dos caseiros da Quinta de Boamense, e o caixão foi fechado em casa pelo snr. Dr.,António Vicente Leal Sampaio, sobrinho do falecido.

Por o extinto assim o ter manifestado muitas vezes, não houve convites para o enterro, nem foram depostas coroas no féretro, sendo o funeral foi o mais modesto possível.

Dirigiu o funeral o snr. Joaquim Penafort Lisboa, digno escrivão do 4.º ofício no juízo de direito desta comarca.

O falecido deixou testamento cerrado aprovado pelo notário snr. J. Penafort no qual institui seus universais herdeiros a seus sobrinhos dr. António Vicente Leal Sampaio e D. Henriqueta Leal Sampaio.

Sentindo profundamente o passamento do dr. Alberto Sampaio, enviamos expressivas condolências a toda a família enlutada e especialmente a seu sobrinho, o nosso querido amigo snr. dr. Leal Sampaio.

(O Independente, nº 365, 8.º ano, Guimarães, 5 de Dezembro de 1908)


[Também publicado aqui]

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17 de julho de 2008

Guimarães na feliz restauração de 1808 (4)

O General Sepúlveda. Gravura da Col. da Sociedade Martins Sarmento

No dia 16 de Junho de 1808, dia do Corpo de Deus, houve festa em Guimarães, onde já foram explícitas as manifestações de desafio ao usurpador. Circulavam notícias de que, em Bragança, o velho General Sepúlveda se havia colocado à frente da sublevação contra os franceses. Na festa vimaranense desse ano, não faltou quem ostentasse no chapéu o laço que simbolizava a soberania portuguesa. As manifestações anti-francesas prolongaram-se pelo dia seguinte, com música, luminárias e ladainhas.

O dia 18 seria o dia do levantamento em Guimarães. A iniciativa de convocar o povo para aclamar o príncipe regente fora do Corregedor da Comarca, António Manuel Borges:

“Foi ele que de seu moto próprio e por efeitos de puro patriotismo e fidelidade mandara convocar o povo da vila em 18 de Junho pelo seu escrivão José António de Miranda, e por seu meirinho Plácido Machado Pereira, para que pelas 4 horas da tarde se achasse no largo de N. Senhora da Oliveira, e o que aí em companhia de Monsenhor Miranda levantou a voz: Viva o nosso Príncipe, e vivam os portugueses."(1)

Após a aclamação de D. João como legítimo Príncipe Regente de Portugal, as ruas foram percorridas por um grande cortejo, no qual os retratos da família real foram conduzidos debaixo de um pálio.

No dia seguinte, 19, teve lugar uma nova procissão, à qual acorreu a população em massa, nela se incluindo clero, mulheres e crianças, em armas, todos prontos a contribuirem para a expulsão do invasor. Logo nesse dia se começou a organizar o célebre “Batalhão dos Privilegiados das Tábuas Vermelhas”. Numa reunião que teve lugar no dia 20, onde estiveram presentes todas as autoridades da Vila de Guimarães, organizaram-se as forças que iriam entrar em combate contra os franceses: reactivou-se o Regimento de Milícias; mandaram-se armar as ordenanças de toda a Comarca, que deveriam colocar-se sob o comando do capitão-mor da vila, Francisco Cardoso de Menezes Barreto; foram lançados editais a convidar “os honrados e abonados cidadãos” a formarem um corpo de voluntários de Infantaria, sob comando de Gaspar Teixeira de Magalhães e Lacerda, futuro Visconde do Peso da Régua, ao qual se deveria reunir um contingente de soldados a cavalo, que foi pedido ao general da Província de Trás-os-Montes. A estas forças, deveria juntar-se uma outra, um corpo de defesa constituído por membros das comunidades religiosas, que receberia instrução ministrada por oficiais indicados pela Junta Provisória de Guimarães.

À frente do Batalhão dos Privilegiados foram colocados o coronel de milícias João Couto Ribeiro de Abreu e o Monsenhor Pedro Machado de Miranda Malheiro. Na mesma altura, foi instituída a Junta Provisória de Guimarães, que seria composta pelo Desembargador Manuel marinho Falcão, pelo Corregedor António Borges e pelo Juiz de Fora José Freire de Andrade, os quais, desde logo, defendem que, em vez de se adoptar uma postura de defensiva em relação à eminência da resposta dos franceses, se deveria avançar numa ofensiva contra os invasores.

No dia 22, foi recebido em Guimarães um decreto da Junta do Supremo Governo do Porto, datado do dia 19, em que se declarava abolido o governo francês:

“Em nome do Príncipe Regente de Portugal. A Junta do Supremo Governo. Faz saber a vós Corregedor da Comarca de Guimarães que o Governo Francês se acha inteiramente abolido e exterminado deste País e restituído nele a Real Autoridade do Nosso legítimo Soberano, a qual será exercitada plena e independentemente pela sobredita Junta enquanto não for restituído neste Reino o Governo deixado e instituído por S. Alteza Real em consequência do que ordena a mesma Junta, que o dito Real Senhor seja aclamado e as Suas Reais Armas descobertas e respeitadas nessa Comarca como sempre foram e hão-de ser, e que todas as autoridades constituídas obrem nesta conformidade, expedindo-se todas as ordens no Seu Real Nome: o que se vos participa para que executeis e façais executar, participando-o às Câmaras dessa Comarca. Porto 19 de Junho de 1808. Bispo, Presidente Governador. Ao Corregedor da Comarca de Guimarães. Pelo Príncipe Regente N. Senhor.”

Os vimaranenses não tinham aguardado pela ordem. Por essa altura, em terras de Guimarães o Príncipe Regente já estava aclamado e as armas reais portuguesas estavam a descoberto.



(1)José Acúrsio das Neves, “História geral da invasão dos franceses em Portugal e da restauração deste reino”, in Obras Completas, vol. II, Edições Afrontamento, Porto, s/data, pág. 330.

[continua]

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A Batalha de S. Mamede (1128-1928), segundo Alfredo Pimenta

Alfredo Pimenta

A Chronica Gottorum, que, em apêndice da Terceira Parte da Monarquia Lusitana, António Brandão publicou, diz textualmente:

«Era 1166... Commisit cum eis praelium in campo Sancti Mametis, quod est prope castellum de Vimaranes...». No texto da Monarquia Lusitana (livro IX, fls. 88) lê-se uma transcrição da História dos Godos, em que se dá a batalha como sendo em Junho de 1128, no dia de S. João Baptista, «in Campo Sancti Mamantis, vulgo Mametis, prope Castellum Vimaranense».

O primeiro problema que se levanta é o da localização do acontecimento.

O nosso malogrado João de Meira disse, por mais duma vez, fundado em certo passo do Portugaliae Monumenta Historica, (castellum quos vocitant sanctum mames), que a batalha se dera, não, como a tradição afirma, em campos do vale de S. Torcato, mas junto do Castelo (conclusão III da sua conferência Guimarães, publicada na Revista de Guimarães, vol. XXXI, n.° 3).

O que se lê na Crónica dos Godos e na História dos Godos e no documento dos Portugaliae Monumenta Historica não invalida, a meu ver, a tradição, nem a contradiz. O Castelo de Guimarães chamou-se de S. Mamede? Está bem.

A batalha deu-se perto do Castello – prope Castellum. O que conviria averiguar é o significado preciso da palavra prope.

O nosso Bento Pereira, na sua Prosódia in vocabularium bilinguae, dá à palavra prope o significado de perto, junto, vizinho. Nenhum destes significados é incompatível com a localização da batalha de S. Mamede, em terras do vale de S. Torcato.

Há, em Aldão, o chamado Campo da Ataca (hoje, parte duma propriedade que pertence a Rodrigo Pimenta, meu irmão) – nome que, segundo a tradição, lhe vem de ter sido nele que se travou o encontro bélico. Impressionam-me sempre estas deslocações dos factos, por virtude da tradição. Já a batalha de Ourique, há quem pretenda que ela se deu muito longe do local que a tradição lhe atribui. A batalha de S. Mamede não podia dar-se no vale de S. Torcato? «Junto do Castelo de S. Mamede» é uma expressão muito vaga, para que queiramos que ela signifique o lugar onde hoje é o Cano, e não possa significar a Arcela, a Madre de Deus, ou o campo da Ataca. É natural q. se tomasse como ponto de referencia, o Castelo, visto não haver ali, mais perto, coisa mais digna. E por isso se disse – perto do Castelo, prope Castellum, como, se o caso se tivesse dado em Vizela, por exemplo, se teria dito – perto de Guimarães.

Desconheço, e não tenho elementos aqui à mão, e nem sei se os há para a fazer, – a história da freguesia de S. Mamede de Aldão. Qual a data da primitiva capela? Porque se diz sob a invocação do Mártir de Cesareia da Capadócia, essa capela? Foi o Castelo que deu nome à freguesia distante, ou foi a freguesia que deu nome ao Castelo? Se pudéssemos responder a estas perguntas, talvez ficássemos habilitados a ir contra a tradição, no problema da localização da batalha, e a apoiar o asserto do inolvidado João de Meira, a quem a preocupação da verdade obcecava. Mas o que é facto, é que o chamar-se castelo de S. Mamede ao castelo de Guimarães não é razão para se afirmar que a batalha se travou em redor dos seus muros – para o que talvez houvesse um termo mais próprio do que prope (1).

Ultrapassado o problema da localização, resta-nos o da sua importância como feito militar, e como acontecimento de natureza política.

Do que foi a batalha de S. Mamede, a que eu chamaria antes combate de S. Mamede, muito embora a palavra praelium possa designar acção geral (mas em Bréal et Bailly, Dictionnaire etymologique latin, praelium significa simplesmente combate), porque tanto quanto nos é possível supor, o caso não teria comprometido forças muito avultadas, nem ocupado muito espaço, nem durado muitas horas, – do que foi a batalha de S. Mamede, como feito militar, nada se sabe. Na Monarquia Lusitana diz-se que «escrevem nossos autores que o Infante saiu desbaratado do primeiro recontro e que tornando à peleja por conselho de seu Aio Egas Moniz (o qual lhe acudiu com alguma gente de refresco) alcançou a vitória». António Brandão não dá muito crédito a «esta variedade». De modo que, repito, nada se sabe ao certo do que foi a batalha sob o ponto de vista militar.

E sob o ponto de vista político?

O reinado de D. Afonso Henriques é, por assim dizer, uma peça inteiriça: todo ele, de ponta a ponta, é um sistema de esforços conjugados, e superiormente dirigidos, para a independência do Condado de Portugal.

A batalha de S. Mamede é o primeiro acto decisivo, claro, que não admite dúvidas, da série gloriosa de feitos do fundador do Reino de Portugal. É o nosso grito de independência, é a nossa primeira afirmação de personalidade e de vontade. Vitorioso da hoste estrangeira, Afonso Henriques ergue voo, nas suas legítimas aspirações, e sonha o talhar de fronteiras que é o seu longo reinado.

Génio político e militar formidável, Afonso Henriques é o obreiro máximo da nossa existência como Nação. E foi na batalha de S. Mamede que o plano grandioso se fixou, se concretizou e definiu. Sem a batalha de S. Mamede, a história de Portugal não podia existir: ela foi o seu berço.

Tudo quanto veio depois, a obra inolvidável das dinastias que se seguiram, saiu do combate dos campos de S. Mamede, em q. D. Afonso Henriques passando sobre os seus sentimentos de filho, defrontou a vontade da Mãe, subjugada à influência do estrangeiro. Perdoa-se a D. Teresa essa fraqueza sentimental de uma paixão serôdia – recordando-se que também ela cooperara, ainda em vida do marido, para que as condições do condado portucalense tornassem possível o gesto audacioso de Afonso Henriques, em 1128.

Volvidos 800 anos sobre essa data fascinante, a Nação persiste. Foi a continuidade da Realeza que garantiu essa persistência. Neste ano em que escrevo, em que me irritam os nervos, cantos de sereia castelhana que mascaram mal disfarçados apetites do Imperialismo Ibérico, é um dever, e um dever sagrado, recordar a batalha de S. Mamede, e a figura prestigiosa do Rei que a venceu. Coincidência curiosa: há oito séculos, nasceu Portugal. Em 1128, ergue-se o Sol magnífico; em 1828, abre-se a noite nefanda. Como vimaranense e como português, não posso, nesta hora, calar o grito sagrado: - Viva Portugal!

(l) Duarte Galvão diz que o recontro se deu «em hum lugar q. chamam Samtidanhas» (Crónica delRey Dom Affomso Hamrriques, cap. VI). Indo, presumivelmente, atrás de Galvão, o espanhol Mariana (Historia General de España, libro X) escreve «diose la batalla en la vega de Santivañez, cerca de Guimaraens». Samtidanhas, Santivañez – que mais haverá?

Alfredo Pimenta.

(A Ilustração Moderna, n.º 25/26, Julho-Agosto de 1928, Porto, pág. 189-191)

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16 de julho de 2008

Guimarães na feliz restauração de 1808 (3)

Gravura alusiva à entrada dos franceses em Espanha em 1808. Da Col. da Sociedade Martins Sarmento

Em Guimarães, tardará a ser admitida a soberania dos franceses e dos espanhóis, seus aliados. A vila seria ocupada por tropas espanholas em meados de Dezembro, mas só no final de Janeiro de 1808 é que aparece formalizada nos documentos da Câmara a autoridade do “Imperador dos “Franceses”.

No dia 19 de Maio, a Câmara responde a um aviso do Duque de Abrantes, que o Príncipe D. João deixara à frente da Regência de Portugal, em que se aconselhavam os portugueses a submeterem-se ao Imperador dos Franceses e dava conta das “benéficas e magnânimas intenções” de Napoleão, com promessas de um futuro venturoso. Na resposta da Câmara de Guimarães transmitiam-se os “protestos de submissão e obediência a S. M. Imperial e Real”.

Tal submissão não se prolongaria por muito tempo. Já nos primeiros dias daquele Maio se desencadeara em Madrid uma rebelião do povo espanhol contra a dominação francesa, que seria perpetuada por dois célebres quadros, O Dois de Maio ou a Carga dos Mamelucos e os Fuzilamentos da Moncloa, de Francisco Goya, ele próprio testemunha dos acontecimentos daqueles dias. O levantamento contra os franceses, vitorioso em Espanha, teria reflexos em Portugal. São dadas ordens aos chefes militares espanhóis que se encontravam em Portugal para regressarem ao seu país, aprisionando e levando consigo os franceses. Obedecendo a estas ordens, o general Ballesta prendeu, no dia 6 de Junho, o Governador do Porto, o general francês Quesnel e parte para a Galiza. Uma primeira intenção de aclamação do Príncipe regente no Porto prevista para a madrugada do dia seguinte, ficaria adiada.

Em Lisboa, o levantamento dos militares espanhóis não teve o mesmo sucesso do Porto. Junot desarma-os e prende-os sem que tivessem tempo de pôr em prática as ordens que chegavam de Espanha, e logo dava início à repressão do levantamento em curso no Norte, depositando essa missão nas mãos de Loison, o famigerado Maneta. Ao mesmo tempo, punha em curso um processo de mobilização geral, com que pretendia criar um exército de 50.000 portugueses para combater Espanha, intenção que em muito contribuiu para agudizar as inquietações e a revolta contra os franceses, cada vez menos surda.

Antes da primeira invasão francesa, foram avançadas em Portugal medidas preventivas para evitar os saques e as destruições de património. O exército francês, ao contrário do inglês, não se fazia acompanhar por cozinhas nem hospitais de campanha. As suas tropas sustentavam-se com os saques que iam perpetrando. Os soldados aboletavam-se nos conventos e os oficiais superiores nos palácios. As pratas das igrejas costumavam ser alvos preferenciais dos seus saques. No dia 19 de Outubro de 1807, foi recebida em Guimarães uma carta do Príncipe Regente que mandava pesar as pratas da Colegiada, para mandar guardar a bom recato no convento de Santa Cruz de Coimbra, ou no de Tomar ou no de Palmela, “para ficar em depósito durante as actuais circunstâncias”. Esta medida não chegaria a concretizar-se, acabando grande parte desses objectos de prata, num total de mais de 378 quilos, por cair em mãos dos franceses, a título de contribuição de guerra. Boa parte da animosidade latente na população contra os franceses resultava deste tipo de delapidações.

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Um fio de cabelo

Raul Brandão

"Essa extraordinária mulher que no colégio nos habituámos a conhecer pelo nome de D. Teresa ou Tareja, ajudou, pela ascendência do encanto feminino e pela ambição e astúcia, a deitar os alicerces a um reino. Dominou, num mundo bárbaro, os homens rudes e grosseiros, conseguindo manter a herança que o marido lhe legara. Mas pela beleza, que é força e fraqueza ao mesmo tempo, ia talvez destruir tudo, quando o poder passou, na cilada de S. Mamede, para as mãos do que devia ser o Homem, aquele homem feroz indispensável para marchar à frente das hordas, que nos assaltos nocturnos de que reza a História – se a grave História não está toda errada... – tomavam os castelos e conquistavam um reino. Vencida, essa figura de mulher destaca-se ainda no passado obscuro, e até hoje nos prende. Pouco ou nada sabemos dela ao certo, mas o encanto que exercia não se desvaneceu de todo. Das palavras que o amante lhe mandou gravar no túmulo depreende-se que foi loura – e um fio de cabelo ficou no negrume e na morte e teima ainda em reluzir."
Raul Brandão, 1928.
(A Ilustração Moderna, n.º 25/26, Julho-Agosto de 1928, Porto, pág. 192)
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15 de julho de 2008

O advento da nação, segundo Luís de Magalhães

Luís de Magalhães

O facto histórico, de que a cidade de Guimarães celebra o oitavo centenário pode bem considerar-se a primeira afirmação do nosso espírito de nacionalidade, o nosso primeiro assomo de independência política.

Essa aspiração não brotou da alma dum Príncipe ambicioso e sedento dum domínio absolutamente autónomo nos seus estados. D. Afonso Henriques era apenas um adolescente, quando o recontro de S. Mamede se deu. Por maior que fosse a precocidade desse soberano, tão valoroso e heróico homem de armas como político, – e, muito novo ainda, sobejas provas deu ele dessas qualidades supremas na individualidade dum imperante, – não se pode supor que um rapaz de dezasseis anos houvesse sido o agente principal, cabeça e braço dum feito que demandava faculdades de visão politica e de mando militar que só uma longa experiência dos homens e dos negócios públicos e uma consumada pratica das coisas da guerra poderiam dar a quem o tentasse.

Não, esse arranque glorioso não foi a obra exclusivamente individual dum chefe subordinando os súbditos ao seu pensamento e à sua vontade. Foi uma obra colectiva, a expansão vital duma pátria em embrião. E os grandes instrumentos dessa aspiração foram os antigos cavaleiros do Borgonhês, os barões do Condado Portucalense, os Mendes da Maia, os Monizes e Coelhos de Riba-Douro, os castelões, os ricos-homens da terra minhota, que viam em D. Teresa, manejada pelo senhor de Trava, um agente de Afonso VII, trabalhando pela manutenção, aqui, do feudo leonês.

A nação portuguesa nasceu verdadeiramente nessa data. Aí, dum Condado feudatário, ela tornara-se numa Monarquia autónoma. E tão fortemente esse separatismo se radicou que, tendo-se fundido ulteriormente num só todos os outros estados hispânicos, o que se formou na jornada de S. Mamede se tem conservado firme e resistente através de oito séculos, perpetuando, na Península Ibérica, o dualismo nacional que é ainda hoje, – e esperamos que sempre o será, – a sua inalterável estrutura política.

Luís de Magalhães.

(A Ilustração Moderna, n.º 25/26, Julho-Agosto de 1928, Porto, pág. 186)

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Da normalização da ortografia


Em Dezembro de 1878, um grupo presidido por Adriano de Abreu Cardoso Machado apresentou à Academia Real das Ciências um pedido para que se providenciasse a publicação de “uma gramática e um dicionário ao mesmo tempo ortográfico e prosódico ou ao menos um vocabulário”, de modo a que se satisfizesse uma “necessidade que todos reconhecem e sentem, – a de uma ortografia normal”. O texto incluía um “parecer da comissão de reforma ortográfica”, cuja leitura fará algum sentido, pelo menos como mera curiosidade, agora que se discute a questão da normalização da língua através do tão discutido acordo ortográfico. Se outro interesse não tivesse, este texto, não tanto pelo que nele se escreve, mas pelo modo como se escreve, é revelador do muito que evoluiu a ortografia da língua portuguesa desde finais do século XIX. Aqui fica um excerto:


"A istória ensina, que o português primitivo, a língua do berço da monarquia (Entre Douro e Minho), a que falávão os senhores e ómens d'armas que ajudárão Afonso Enriques a fundar este reino, éra uma mistura da linguájem rude dos aboríjenes (mistura tambem) e do latim bárbaro das lejiõis românas, – mistura alterada com elementos introduzidos pelos conquistadores do nórte, principalmente os suévos e vizigódos, e tambem pelos sarracenos, e alterada ainda, depois de conquistado o sul, por motivo das relaçõis com os seus abitantes já meio árabes e outros árabes verdadeiros, e, depois de estabelecida a capital em Lisboa, por cauza da colonização vinda de Marrócos e do grande número d'estranjeiros que concorríão ao seu porto, particularmente os cruzados mitos dos quais aí ficárão; bem que móstre que predominava o elemento latino, pelo mito que se encarnara na Península o módo de ser dos românos, por ser o latim a língua dos atos religiózos e das relaçõis com Roma e com os outros governos da Európa, e porque os sacerdótes érão quázi os únicos ómens de letras no país. Assim como nos ensina que esse amálgama éra apenas língua falada; porque pouco ou nada se lia e escrevia, visto que o elemento burguês apenas se fazia sentir, e os senhores só cuidávão de armas, desdenhando até o saber ler e escrever, – erro de educação que durou em parte até não mito lonje de nós.

Póde pois imajinar-se o que éra o português d'éssas épocas, e atésta-o o mito pouco que d'ele résta. Póde dizer-se que não se escrevia; e falava-se um português tão simples, quanto érão simples os ómens e a vida que vivíão."


in Reprezentação á Academia Real das Ciências Sobre a Refórma da Ortografia, Lisboa, Imprensa Nacional, 1878 [Project Gutenberg Ebook]

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14 de julho de 2008

Guimarães na feliz restauração de 1808 (2)

Alegoria à retirada do Príncipe D. João para o Brasil, em 1807. A figura feminina personifica a Providência. Gravura da Col. da Sociedade Martins Sarmento

Com a invasão iminente, D. João dá a conhecer a Napoleão a adesão de Portugal ao Bloqueio Continental. No dia 30 de Outubro, num último esforço para evitar a invasão, declara guerra à Inglaterra, numa manobra concertada com os ingleses, com quem assinara uma convenção secreta alguns dias antes, segundo a qual a Inglaterra se comprometia a colocar a família real e o governo português a salvo no Brasil. Nessa altura, a invasão parecia inevitável. No dia 18 de Outubro, já as tropas comandadas por Jean-Andoche Junot haviam entrado em Espanha, no seu caminho em direcção a Portugal. A entrada em território português teve lugar no dia 20 de Novembro, marchando em direcção a Lisboa, sem se depararem com resistência pelo caminho.

Com a proximidade dos franceses, precipitaram-se os preparativos para pôr em prática um plano de contingência, já velho de séculos, que visava prevenir situações em que a soberania nacional fosse colocada sob ameaça: a transferência da família real e da corte portuguesa para o Brasil. No dia 26 de Novembro, D. João assinava um decreto onde se lia:

Tenho procurado por todos os meios possíveis conservar a neutralidade de que até agora tem gozado os meus fiéis e amados vassalos e apesar de ter exaurido o meu Real Erário, e de todos os sacrifícios a que me tenho sujeitado, chegando ao excesso de fechar os portos dos meus reinos aos vassalos do meu antigo e leal aliado, o rei da Grã-Bretanha, expondo o comércio dos meus vassalos a total ruína, e a sofrer por este motivo grave prejuízo nos rendimentos de minha coroa. Vejo que pelo interior do meu reino marcham tropas do imperador dos franceses e rei da Itália, a quem eu me havia unido no continente, na persuasão de não ser mais inquietado (...) e querendo evitar as funestas consequências que se podem seguir de uma defesa, que seria mais nociva que proveitosa, servindo só de derramar sangue em prejuízo da humanidade, (...) tenho resolvido, em benefício dos mesmos meus vassalos, passar com a rainha minha senhora e mãe, e com toda a real família, para os estados da América, e estabelecer-me na Cidade do Rio de Janeiro até a paz geral.”

Ao nascer do dia 29 de Novembro de 1807, a nau Príncipe Real zarpava do Tejo, rumo ao imenso Atlântico, levando a bordo a rainha D. Maria I, o Príncipe Regente, D. João, e os príncipes que se lhe seguiam na linha de sucessão ao trono português, os seus filhos D. Pedro e D. Miguel. Com eles, partiam mais de dez mil pessoas, numa armada composta por oito naus, três fragatas, três brigues e duas escunas, com escolta assegurada por quatro naus da armada de Inglaterra. Por essa altura, já Junot entrava em Lisboa. Ficaria “a ver navios”. Portugal era ocupado, mas não perdia a independência, que seguiu, rumo ao Rio de Janeiro, na bagagem da Rainha e do Príncipe Regente.

Entretanto, a Norte, cumprindo o estipulado na convenção secreta de Fontainebleau, o general Taranco y Liano, à frente de uma força de composta por mais de seis mil homens, ocupa o Porto, no dia 13 de Dezembro, depois de vencidas algumas dificuldades. O general Taranco esteve à frente das forças invasoras no Porto por pouco mais de um mês, uma vez que viria a falecer no dia 27 de Janeiro de 1808, sucedendo-lhe o general Domingos de Ballesta.

[continua]

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O dia de S. Mamede, por Fidelino de Figueiredo

Fidelino de Figueiredo, por Abel Cardoso

Bela entre as mais belas terras de Portugal, Guimarães é, por certo, a mais nobre, porque lhe coube a honra excelsa de ser pátria da Pátria Portuguesa – essa Pátria imortal que há oito séculos conhece as horas altas do triunfo e as amarguras de crises pungentes, até chegar à “apagada e vil tristeza”, a que Camões verberava e a que contemplamos hoje.

Um povo, que soube diferenciar-se para sempre e poderosamente do grande conjunto peninsular; que se formou como nação independente pela sua vontade heróica, sobrepondo-se à terra e à antropologia; que criou uma das línguas mais formosas dos homens e uma das literaturas mais ricamente típicas; que viveu uma historia que é um prodígio e um eterno mistério; que foi obreiro principal no reconhecimento integral da Terra e um dos criadores da América; que soube cristalizar a sua sobreexcitação heróica no hino nunca excedido dos Lusíadas; que ainda hoje, na hora triste das dissídias e da pobreza, é senhor dum império e sabe tingir a sua dor de idealismos poéticos e de orgulhos fidalgos – é um grande povo e guarda por certo intactos tesouros de energias.

Quem as chamará à actividade, quem as galvanizará e drenará para a epopeia da reconstrução? Que titã? A voz magica dalgum poeta, o gesto escultural dalgum homem de Estado, o heroísmo inspirado dalgum soldado, uma grande dor colectiva, um grande movimento revulsivo da alma nacional? Deus o sabe! Nós, portugueses, devemos saber apenas este dogma da nossa religião cívica: que a Pátria é imortal e que a nossa energia, os nossos pensamentos, a nossa vida lhe pertencem. Só é grande a vida que nesse fogo criador se consumiu.

Eis por que eu quero tanto a esse burgo pitoresco de Guimarães, porque lá nasceu Portugal, nesse inolvidável dia de S. Mamede, Portugal, soldado invencível, monge e mártir, poeta namorado, campeão dos mais altos valores criados pela alma humana, em comunhão com Deus, porque lá nasceu o que não pode morrer: a Pátria.

Que maneira mais fecunda de comemorar a rebeldia santa de Afonso Henriques do que fazer desse pensamento carne da nossa carne, direcção espiritual, programa político, unirmo-nos todos, em torno do altar-mor da Pátria, esse castelo de Guimarães, com o mesmo pensamento lealdoso dos barões de Afonso I?

Madrid, 4 Maio 1928.

Fidelino de Figueiredo.

(A Ilustração Moderna, n.º 25/26, Julho-Agosto de 1928, Porto, pág. 15)
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13 de julho de 2008

Guimarães na feliz restauração de 1808 (1)

Napoleão Bonaparte. Pormenor de gravura da Col. da Sociedade Martins Sarmento.

Continua aberta ao público, até ao próximo dia 20 de Julho, na Galeria de Exposições Temporárias da Sociedade Martins Sarmento, a exposição O tempo tão suspirado, comemorativa dos 200 anos da aclamação em Guimarães do príncipe regente D. João VI. A entrada é livre. Entretanto, iremos publicando aqui o texto que preparámos para o catálogo desta exposição:

Um dos traços mais marcantes do modo de ser das gentes de Guimarães reside na maneira generosa e arrebatada que os vimaranenses sempre colocam nos empreendimentos colectivos em que se envolvem, em especial quando estão em causa as bases da sua própria identidade comunitária. Nos anais de Guimarães não faltam exemplos, desde aqueles tempos remotos em que se lançaram os fundamentos da construção de Portugal, de grandes gestas colectivas, por vezes situadas na fronteira estreita que separa a história e o mito. É do lado da história que, inegavelmente, se posicionam os actos praticados pelos vimaranenses no ano de 1808, aquando da “feliz restauração” do Príncipe Regente D. João, num acto de resistência contra o invasor francês.

O golpe de Estado do 18 de Brumário (9 de Novembro de 1799) havia colocado os destinos da França nas mãos de Napoleão Bonaparte. A ambição daquele que, cinco anos depois, se coroaria Imperador dos Franceses, não cabia na estreiteza das fronteiras do seu país. Também não cabia do lado de dentro do limes do antigo Império Romano. Ambicionava conquistar a Europa, dominar o Oriente, expandir-se para a América. À frente do mais poderoso exército do seu tempo, nenhum obstáculo suficientemente forte se entrepunha entre Napoleão e o seu projecto expansionista, excepto a Inglaterra.

Portugal, por força da velha aliança anglo-britânica, ficou numa situação particularmente delicada, com uma faca de dois gumes apontada ao seu coração. De um lado, os franceses, que ameaçavam invadir a metrópole, caso Portugal não assumisse uma posição clara contra a Inglaterra; do outro, os ingleses, que lhe tomariam as colónias, caso Portugal se bandeasse para o lado de Napoleão. Portugal Continental tornou-se num alvo para a França, que cedo encontrou na vizinha Espanha dois aliados interessados na partilha dos despojos do reino de D. Maria I: o rei Carlos IV e o generalíssimo Manuel de Godoy, o Príncipe da Paz.

Em 1806, Napoleão impõe à Europa o Bloqueio Continental, decretando que todos os países europeus deveriam fechar os seus portos ao comércio com a Inglaterra. Encurralado, D. João, o Príncipe Regente que, desde 1799, governava Portugal em nome de sua mãe, D. Maria I, hesitou e Portugal não abdicou de imediato dos seus negócios com o seu principal parceiro comercial, a Inglaterra. No dia 27 de Novembro de 1807, Napoleão subscreveria com Manuel de Godoy, em representação da Espanha, o Tratado de Fontainebleau, que autorizava o atravessamento de tropas francesas pelo território espanhol, a caminho de Portugal, e estabelecia a partilha entre os signatários do território de Portugal. Os três primeiros artigos do tratado estipulavam a divisão da metrópole portuguesa em três partes:

Artigo 1. A província de Entre Douro e Minho, com a cidade do Porto, se trespassará em plena propriedade e soberania para Sua Majestade o Rei da Etrúria, com o título de Rei da Lusitânia Setentrional.

Artigo 2. A província do Alentejo e o reino dos Algarves se trespassarão em plena propriedade e soberania para o Príncipe da Paz, para serem por ele gozados, debaixo do título de Príncipe dos Algarves.

Artigo 3. As províncias da Beira, Trás-os-Montes e Estremadura portuguesa, ficarão por dispor até que haja uma paz, e então se disporá delas segundo as circunstâncias, e segundo o que se concordar entre as duas partes contratantes.”

Em simultâneo, foi assinada uma convenção secreta paralela, na qual ficou definido o programa militar para a concretização da ocupação e conquista de Portugal, em conformidade com o Tratado de Fontainebleau. Os dois artigos iniciais deste documento estabelecem os contingentes militares a envolver na campanha:

Artigo 1. Um corpo de tropas imperiais francesas de 25 000 homens de infantaria e 3 000 de cavalaria entrará em Espanha e marchará directamente para Lisboa; unir-se-ão a estas um corpo de 8 000 homens de infantaria espanhola, e 3 000 de cavalaria, com 30 peças de artilharia.

Artigo 2. Ao mesmo tempo, uma divisão de tropas espanholas, consistindo em 10 000 homens, tomará posse da província de Entre Douro e Minho e da cidade do Porto; e outra divisão de 6 000 homens, também de tropas espanholas, tomará posse do Alentejo e do reino dos Algarves.”

[continua]

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O VIII centenário da Batalha de S. Mamede (1)

As comemorações dos oitocentos anos da Batalha de S. Mamede começaram a ser preparadas numa reunião na redacção do jornal "O Conquistador", que juntou os representantes de "todos os jornais de Lisboa, Porto e Guimarães". Entre outras ideias, foi aí lançada a da publicação de um "número único ilustrado e grandioso, com colaboração de vimaranenses e escritores de nomeada".

Na noite inverenosa de 11 de Abril, houve uma reunião muito participada no Salão Nobre da Sociedade Martins Sarmento, para se debater a melhor maneira de comemorar a Batalha de S. Mamede. Dessa assembleia resultou a constituição de uma Grande Comissão com a incumbência de dar os primeiros passos para a organização do programa comemorativo. Era constituída pelas seguintes entidades: Câmara Municipal, Comando Militar, Sociedade Martins Sarmento, Arcipreste, Associação Comercial e Industrial, Reitor do Liceu Nacional Martins Sarmento, Director da Estação dos Correios, Telégrafos e Telefones de Guimarães, Escola Industrial Francisco de Holanda, Sociedade de Defesa e Propaganda de Guimarães, Presidente da Academia Vimaranense, Sindicato Agrícola de Guimarães, Inspector Primário, Associação Artística Vimaranense, Associação dos Empregados do Comércio, Representante dos Alunos da Escola Industrial Francisco de Holanda, Comissário do Núcleo de Scouts e, em representação da Imprensa, o Padre Gaspar Roriz.
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12 de julho de 2008

Quando o 24 de Junho foi a 23


A primeira vez que a Batalha de S. Mamede foi objecto de celebrações com alguma dimensão aconteceu em 1928, na passagem do seu VIII centenário. Curiosamente, o acontecimento foi assinalado, não a 24, mas a 23 de Junho. Na altura, persistiam dúvidas em relação ao dia em que a batalha teria acontecido. A origem dessas dúvidas parece ter origem nas fontes que indicam que a batalha teria ocorrido no dia da festa de S. João, como a Chronica Gottorum (Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses), quase contemporânea dos factos que descreve, onde se lê:

Na era de 1166 [ano de 1128], no mês de Junho, na festa de S. João Baptista, o ínclito infante D. Afonso, filho do Conde D. Henrique e da rainha D. Teresa, neto do grande imperador da Espanha, D. Afonso, com auxílio do Senhor e por clemência divina, e também graças ao seu esforços e persistência, mais do que à vontade ou ajuda dos parentes, apoderou-se com mão forte do reino de Portugal. Com efeito, tendo morrido seu pai, o Conde D. Henrique, quando ele era ainda criança de dois ou três anos, alguns [indivíduos] indignos e estrangeiros pretendiam [tomar conta] do reino de Portugal; sua mãe, a rainha D. Teresa, favorecia-os, porque queria, também, por soberba, reinar em vez de seu marido, e afastar o filho do governo do reino. Não querendo de modo algum suportar uma ofensa tão vergonhosa, pois era já de maior idade e de bom carácter, tendo reunido os seus amigos e os mais nobres de Portugal, que preferiam, de longe, ser governados por ele, do que por sua mãe ou por [pessoas] indignas e estrangeiros. Acometeu-os numa batalha no campo de S. Mamede, que é perto do castelo de Guimarães e, tendo-os vencido e esmagado, fugiram diante deles e prendeu-os. [Foi então que] se apoderou do principado e da monarquia do reino de Portugal.

(Versão de José Mattoso, in D. Afonso Henriques, ed. Círculo de Leitores, 2006, pág. 45)

A confusão em relação ao dia da Batalha de S. Mamede, que se travou “no mês de Junho, na festa de S. João Baptista”, terá resultado da tradição que faz celebrar o S. João, não no dia, mas na véspera da data que o calendário lhe dedica.
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11 de julho de 2008

As duas versões da estátua de D. Afonso Henriques

A estátua de D. Afonso Henriques acabou por ser erigida dois anos depois da data para a qual estava prevista (1885, quando passavam 700 anos sobre a morte do primeiro rei). O projecto de Soares dos reis teve duas versões diferentes (a principal diferença residia na cota de malha, acima do joelho, na primeira versão, até aos pés na versão que acabou por ser realizada).

Primeira proposta

Versão final

Desenhos de Soares dos Reis.

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A inauguração do monumento a Afonso Henriques (1887)

No dia 20 de Outubro de 1887, foi inaugurada, no Campo de S. Francisco, a estátua de D. Afonso Henriques, mandada erigir por subscrição pública, com o propósito de homenagear o rei fundador na passagem do sétimo centenário da sua morte, ocorrida em 1185. O monumento, da autoria do escultor Soares dos Reis, foi descerrado pelo rei D. Luís I e pelo príncipe real, o futuro rei D. Carlos. A seguir, transcreve-se a reportagem do jornal Religião e Pátria a propósito desta inauguração.

Fez a guarda de honra uma força de infantaria 20.

O espectáculo é surpreendente, e chega a parecer fantástico.

Todas as casas e janelas do vasto campo adornadas com preciosas colgaduras de damasco e seda, e cheias de centenares de senhoras. Em baixo uma multidão enorme de mais de 15.000 pessoas. Do meio desta massa que se aperta, que se amontoa, numa febre de entusiasmo que chega até ao delírio, levantam-se e flamuleiam os precioso estandartes e pendões das diversas corporações que compõem o imponente e magnífico cortejo. Aproxima-se o momento solene. El-Rei e o Príncipe Real adiantam-se e descem a tribuna, acompanhados da real comitiva, para irem descerrar a estátua. É não há ninguém que se não sinta fortemente comovido, quando, ao descobrir-se o majestoso monumento, que simboliza o pagamento de uma enorme dívida de gratidão, milhares de vozes se levantam numa aclamação uníssona e demorada, em que vibrava o grande sentimento do amor da pátria e do respeito e dedicação ao princípio monárquico numa exaltação de entusiasmo indescritível. Estrondeiam nos ares centenares de foguetes, as músicas tocam o hino real, as senhoras acenam das janelas com lenços brancos, voam pombas com preciosas fitas, os vivas e as aclamações sucedem-se ininterruptamente. El-Rei mesmo não pode ser superior à geral comoção, e ante a majestade daquele magnífico, soberbo, único espectáculo, saindo um pouco, como muito bem observa o “O Primeiro de Janeiro», das reservas majestáticas para se confundir mais intimamente na solene manifestação cívica, abeirou-se da tribuna e dirigiu-se directamente ao povo, num eloquentíssimo improviso, inspirado nas sugestões patrióticas do seu espírito de rei e do seu coração de português.

Compreende-se que não podemos fazer uma reprodução exacta do eloquentíssimo discurso de El-Rei, apesar de sermos dos que tiveram a fortuna de mais de perto o ouvir. E nessa impossibilidade, não querendo mesmo, na ligeira síntese dos nossos apontamentos, tirar o brilho ao formosíssimo e cálido colorido daquelas eloquentíssimas frases, tão calorosamente proferidas como apaixonadamente lhe nasciam da alma e lhe acudiam aos lábios para se soltarem deles em frémitos de entusiasmo, limitar-nos-emos a deixar imaginar aos nossos leitores o efeito que este enérgico e caloroso discurso produziu em todos os que o escutaram. A explosão do entusiasmo e a comoção foi tão extraordinária e tão comunicativa, que até as senhoras que estavam nas janelas e que não podiam ouvir El-Rei, tomaram parte no geral delírio de aclamações, que se prolongou por muito tempo, como se um eflúvio eléctrico se derramasse por toda aquela enorme massa e a agitasse na mais fervida das comoções.

Em seguida principiou a desfilar o cortejo cívico pela frente da estátua e da tribuna real. Ao passar em frente desta, as bandeiras abatiam-se e as saudações e vivas irrompiam calorosos do meio das corporações, sendo repetidos por toda a multidão.

Levou cerca de meia hora o desfilar do cortejo, que dali seguiu para o campo do Proposto, onde se ia proceder à inauguração das obras da escola industrial.

Religião e Pátria, n.º 33, 42.ª série, 22 de Outubro de 1887
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10 de julho de 2008

"Se na batalha do campo de S. Mamede..."

Alexandre Herculano. Gravura da Col. da Sociedade Martins Sarmento.

“Se na batalha do campo de S. Mamede, em que Afonso Henriques arrancou definitivamente o poder das mãos de sua mãe, ou antes das do conde de Trava, a sorte das armas lhe houvera sido adversa, constituiríamos provavelmente hoje uma província de Espanha. Mas no progresso da civilização humana tínhamos uma missão que cumprir. Era necessário que no último ocidente da Europa surgisse um povo, cheio de actividade e vigor, para cuja acção fosse insuficiente o âmbito da terra pátria, um povo de homens de imaginação ardente, apaixonados do incógnito, do misterioso, amando balouçar-se no dorso das vagas ou correr por cima delas envoltos no temporal, e cujos destinos eram conquistar para o cristianismo e para a civilização três partes do mundo, devendo ter em recompensa unicamente a glória. E a glória dele é tanto maior quanto, encerrado na estreiteza de breves limites, sumido no meio dos grandes impérios da Terra, o seu nome retumbou por todo o globo.”

Alexandre Herculano, O Bobo, Cap. I
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As celebrações afonsinas de 1911 (5)

Reportagem do Cortejo Histórico e Cívico com que, nas Gualterianas de 1911, no dia 6 de Agosto, se assinalou em Guimarães o VIII centenário do nascimento de Afonso Henriques:

Pelas 12 horas da manhã saiu o imponente e deslumbrante cortejo cívico em honra de D. Afonso Henriques.

Saiu ao estralejar de girândolas e ao repicar festivo dos campanários da cidade.

A ordem por que ia distribuído já a publicamos, tendo só a acrescentar que o cortejo ia bem organizado, bem representado, na melhor boa ordem e muito extenso.

Causou entusiasmo pela forma primorosa que se apresentou, um cavaleiro vestido à época, os grupos de cavaleiros vestindo como os guerreiros do século XII etc, etc.

Também causou assombro o Carro de honra, obra primorosa de Abel Cardoso, cuja descrição já foi por nós feita, bem como o Carro da Indústria de José Pina que, mais uma vez, mostrou aos estranhos que Guimarães tem artistas que nos honram.

Aos dois notáveis artistas, os nossos parabéns.

Incorporaram-se também no cortejo o Carro das Escolas representado por um barro engalanado a rosas, conduzindo alunos de ambos os sexos das escolas oficiais da cidade o concelho que distribuíam flores.

O Carro ia bem ornamentado, lendo-se diversas legendas dedicadas à instrução.
Carro das alfaias agrícolas, bem ornamentado com os competentes apetrechos agrícolas.
Corpo da Casa Herold, também de um belo efeito.

Por vezes ouvimos à passagem do cortejo, o estralejar de salvas de palmas, principalmente quando aparecia o grupo das raparigas minhotas, muito bem vestidas e adornadas com muito ouro.

Iam cercadas de lavradores e conduziam apetrechos duma espadelada.

Mereceram muitos aplausos.

No cortejo incorporou-se o ilustre governador civil do distrito snr. Dr. Manuel Monteiro que à passagem do mesmo pela estátua de D. Afonso Henriques subiu a um estrada adornado para esse fim, com a Associação Comercial, Câmara Municipal e pessoas de representação.

O snr. Eduardo Almeida presidente da Associação Comercial leu uma bem burilada mensagem referente ao acto solene, sendo-lhe respondido por outra mensagem pelo presidente da comissão municipal, snr. José Pinto Teixeira de Abreu, sendo ambos os oradores muito aplaudidos.

Em seguida o sr. governador civil descerrou a lapide que se achava coberta em a bandeira da época encimada por uma palma.

Esta cerimónia foi coroada por uma estridente salva de palmas, repicar festivo dos sinos e pelas filarmónicas que tomavam parte no cortejo.

A lápide encerra os seguintes dizeres:

“Guimarães a D. Afonso Henriques
no VIII centenário do seu
nascimento
VI – VIII – MCMXI”

O cortejo continuou em seguida em direcção ao Castelo aonde se procedeu a idêntica cerimónia.
O Comércio de Guimarães, n.º 2575, de 11 de Agosto de 1911
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9 de julho de 2008

As celebrações afonsinas de 1911 (4)

Intervenção do Presidente da Câmara Municipal de Guimarães, José Pinto Teixeira de Abreu, na cerimónia comemorativa do oitavo centenário do nascimento de D. Afonso Henriques, em 1911:

“Exmo. Presidente da Direcção da Associação Comercial de Guimarães.

É com o máximo prazer que a Comissão Municipal da Câmara de Guimarães, legítima representante desta cidade e concelho, toma parte nesta comemoração solene do 8.° centenário do nascimento de D. Afonso Henriques, o heróico conquistador da nossa autonomia, o ínclito fundador da nossa nacionalidade. Nem podia a Câmara, a que me honro de presidir, deixar de se associar a esta homenagem que vós tão benemeritamente promovestes e que tão brilhantemente realizais.

Afonso Henriques e o primeiro vulto da Historia da nossa Pátria e a maior honra e glória da nossa terra. Valente e destemido, como os cavaleiros normandos, cujo milenário a grande República Francesa ainda há pouco celebrou; alma aberta aos mais belos ideais de independência e de liberdade; fundador duma nacionalidade e conquistador dum império, Afonso Henriques bem merece as consagrações da História e esta homenagem que lhe e tributada pela cidade de Guimarães, que tem como sua maior glória o haver sido o berço do herói de Ourique, do egrégio conquistador que estendeu os domínios da sua pátria desde as margens do Minho até às terras transtaganas.

A Câmara vem, pois, cumprir um dever que lhe e imposto pelo seu patriotismo, e porque sabe que assim interpreta o sentir deste povo laborioso e honrado.

Mas há mais: a Câmara precisava de vir aqui para dizer bem alto que a República Portuguesa não rasgou nem pretende rasgar as páginas brilhantes da nossa Historia, quer ela venha exarada nos versos inspirados de Camões, ou no estilo clássico dos velhos cronistas; quer venha exposta no estilo incomparável de Herculano, nas monografias brilhantes de Oliveira Martins; na prosa elegante de Pinheiro Chagas, ou nos trabalhos eruditos de Teófilo Braga, o mais alto magistrado da República Portuguesa, que presta a homenagem do seu respeito e da sua admiração ao grande vimaranense que se chamou Afonso Henriques.

A ele, pois, e diante daquela bela estátua que a benemérita colónia portuguesa residente no Brasil mandou erigir cm 1887, para assim perpetuar a memória de quem foi tão grande, a Câmara Municipal de Guimarães, como interprete de todos os munícipes desta cidade e concelho, presta a homenagem de admiração e de respeito que é devida ao ilustre fundador da nacionalidade portuguesa.
A vós, snr. Presidente, e na vossa pessoa a todos os vossos colegas na Direcção, a todos os cidadãos que vos auxiliaram, ao povo laborioso e honrado desta nossa querida terra, e ainda aos que neste dia nos visitam e tomam parte nesta manifestação patriótica, o nosso louvor e as nossas felicitações.

O nosso louvor pela bela lição de civismo que dais com esta manifestação; as nossas felicitações pela forma brilhante e pela imponência com que a realizais.

Por último, cumpre-me agradecer-vos, snr. Presidente, o honroso convite que me dirigis para descerrar as lápides comemorativas do 8.° centenário do nascimento de D. Afonso Henriques. Pretendo, porém, declinar essa honrosa missão.

Dando-nos a honra da sua presença a este acto solene o ilustre cidadão dr. Manuel Monteiro, meritíssimo governador civil do distrito de Braga, eu peço a sua ex.ª em nome da cidade de Guimarães, que se digne descerrar essas lápides, com que pretendemos perpetuar esta homenagem prestada ao fundador da nacionalidade portuguesa. E ao terminar eu quero saudar a Pátria, bradando:

Viva a República Portuguesa!

Viva a Pátria livre!

Viva Portugal independente!

Viva a Pátria de Afonso Henriques!

Viva Guimarães.”

Chegado o cortejo ao Castelo, foi descerrada ali a lápide colocada no sopé do mesmo, com vivas a República e à Pátria livre, dispersando em seguida.

As janelas dos prédios estavam apinhadas de senhoras, que lançavam flores continuamente sobre o cortejo.

A Alvorada, n.º 38, 11 de Agosto de 1911
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