30 de junho de 2008

24 de Junho, feriado nacional?

"A Primeira Tarde Portuguesa", painel de Acácio Lino (Assembleia da República)

Circula, nomeadamente em blogues vimaranenses, uma petição promovida pela JSD local para que seja dada mais solenidade ao dia 24 de Junho, enquanto “Dia da Fundação de Portugal”. A iniciativa é estimável e bem intencionada, mas parece-me eivada de algum voluntarismo que a torna potencialmente contraproducente, o que parece aconselhar um pouco mais de ponderação e melhor fundamentação.

O que se pede no abaixo-assinado é “que o dia 24 de Junho de 1128 seja reconhecido, tal como outras efemérides nacionais, de uma forma própria, com a solenidade devida e com a dignidade que a data da Fundação de Portugal merece, transferindo para esta data o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”. A associação de Camões ao 24 de Junho, dia em que se comemora a Batalha de S. Mamede, não parece que faça grande sentido: nada do que se conhece da biografia de Camões o associa àquela data e nada do que se conhece da obra camoniana nos remete para a Batalha de S. Mamede. Aquilo que Camões veicula, em Os Lusíadas (Canto III, estâncias 42 a 53), é a ideia da origem mística de Portugal, associada ao milagre de Ourique, que prevaleceu em Portugal desde o dealbar da dinastia de Avis até Alexandre Herculano. Foi o historiador de Vale de Lobos quem defendeu que em 28 de Junho estava desencadeada uma revolução que “equivalia a uma declaração formal de independência” [A. Herculano, História de Portugal, Ed. de 1980 (Bertrand), tomo I, pág. 399]. A partir de Herculano, bem depois de Luís de Camões, é que começou a prevalecer a tese de que a independência começa a existir a partir de 1128. No 24 de Junho é Afonso Henriques que se celebra, não Luís de Camões. Ou muito me engano, ou uma associação tão pouco ajustada pode ser susceptível de fazer ruir a ideia.

(A propósito, na petição lê-se o seguinte: Segundo Alexandre Herculano, Portugal nasceu “naquela tarde de 24 de Junho de 1128, nos Campos de S. Mamede, junto ao Castelo de Guimarães”. Bem a procuro, mas ainda não consegui descobrir em que obra é que Herculano terá escrito a expressão que aparece entre aspas. Será que foi mesmo o historiador de Vale de Lobos que escreveu aquilo?)

Por outro lado, a proposta para elevar o 24 de Junho a feriado nacional pode gerar alguns anti-corpos que se podem virar contra quem a apresentar. A substituição do 10 de Junho por aquela data implicará, como já vimos algures, o desaparecimento do feriado municipal de Guimarães. Mas não só o de Guimarães, uma vez que aquele dia ocupa o top entre os feriados municipais portugueses, ocorrendo em nada menos que quarenta concelhos. Operar a transferência pretendida implicaria que boa parte dos portugueses passassem a ter menos um dia de feriado por ano. O que não me parece lá muito simpático…

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20 de junho de 2008

Uns versos num papel


Estando a arrumar os papéis, terminados os trabalhos de preparação da exposição O Tempo Tão Suspirado, encontrei entre as páginas de um livro, uns gatafunhos curiosos, que, depois de decifrados, remetem para uma velha tradição muito nossa, a da poesia repentista. Não nos faltam exemplos de produções poéticas deste género, na sua maioria saídas das camadas populares e pouco letradas (o que está muito longe de ser é o mesmo que dizer "pouco cultas"). Mas também os encontramos entre gente erudita que, por puro divertimento, dá largas à admirável arte do improviso, oscilando do registo lírico à verrina estreme. Entre nós o mais destacado cultor deste género foi, sem dúvida, o grande João de Meira.

O anónimo autor dos versos que encontrei naquela folha solta filia-se na mesma linha:

O que ontem te falei vai em anexo
E desta forma cumpro o prometido,
Aproveito e junto-lhe um amplexo
Com o que fica o embrulho mais florido.

Aí tens o Rei, o tal do Reino Unido,
O Tarrafal e o Pomar da tela,
E se jorra um copo que possa ser enchido
Ia até uma ginjinha, e havia d'ir "com ela".

Ficas, pois, a seco no que toca à encomenda
E o que t'aprouver lhe juntarás a gosto
Que diferente é a ceia da merenda,
Como o Sol, que ao nascer não é como ele posto.

Posta a coisa assim nestes trejeitos
Explicada fica a magreza do presigo
Mas é com carinho e com os meus respeitos
Que é assim que se trata um Amigo.

Não sei que prenda embrulhava tal papel. Mas sei que ditoso deve ser quem tem amigos assim.
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"Respect"


A Oliveira de Guimarães é um dos símbolos desta terra que honra os seus pergaminhos e se honra da sua história, do seu património e das suas tradições. Passo por ela e espanto-me , ao encontrá-la garrotada por uma cercadura de televisões e a servir de enquadramento à publicidade de uma loja que promete um LCD a partir de 15 € por mês.
Respect (respeito) vai sendo o lema do campeonato da Europa de futebol. Um pouco mais de respeito para com um dos símbolos que mais marcam a nossa identidade, é o que vai faltando. Respeito, bom-senso e bom gosto.

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17 de junho de 2008

Guimarães, 18 de Junho de 1808

Na tarde de 18 de Junho de 1808, com Junot a governar Portugal a partir de Lisboa e o famigerado General Loison, o Maneta, a ameaçar por perto, o povo de Guimarães levantou-se e ergueu a sua voz aclamando o Príncipe Regente D. João, futuro rei D. João VI. Para assinalar esta data e os actos heróicos que se lhe seguiram, a Sociedade Martins Sarmento organizou uma exposição comemorativa sob o título O Tempo Tão Suspirado. A inauguração terá lugar no dia 18, pelas 17:30. Na altura, será lançado o catálogo da exposição, que certamente se tornará numa obra de referência para a compreensão daquele período tão conturbado da nossa história local e nacional.

O catálogo inclui, entre outros textos a transcrição integral de uma pequena obra, muito rara, publicada naquele mesmo ano de 1808, a Relação do que se praticou em Guimarães, em aplauso da feliz restauração deste reino, de onde transcrevemos o excerto que se segue:

“A sempre fiel, nobre, e valorosa Vila de Guimarães, que tem a honra de ser o berço dos seus primeiros Reis, e da Nobreza do Reino, em todo o tempo da sua existência se tem confiantemente mostra-o digna desta singular prerrogativa. Ela foi a primeira das Cidades, e Vilas da sua Província a quebrar animosamente os duros ferros da escravidão Francesa na tarde do sempre memorável dia 18 de Junho deste corrente ano de 1808, e sem rebuço, e com o mais decidido entusiasmo, e valor gritou Vivas, e Aclamações aos nossos legítimos Soberanos, a nossa liberdade, e Santa Religião, passando logo a render graças ao Altíssimo, cantando-se uma devota Ladainha a Nossa Senhora da Oliveira; formando-se uma solene Procissão com os Retratos de S. Majestade, do Príncipe Regente Nosso Senhor, e da Princesa Nossa Senhora, levados debaixo do Pálio pelas primeiras Dignidades do Cabido, tremulando na frente da dita Procissão os Estandartes Reais, e sendo ela dirigida pelas ruas mais públicas, no meio dos Magistrados, Clero, Nobreza, e imenso Povo, e recolhendo-se à Colegiada, onde se cantou Te Deum laudamus entre lágrimas de alegria.

Ela se distinguiu em os dias seguintes, marchando os seus habitantes às margens do Douro a perseguir a divisão Francesa, comandada pelo ímpio, e sanguinário Loison, de que muitos dos mais esforça dos com valor, e coragem própria de almas grandes, o foram bater até à Cruz da Camba, mais confiados na protecção, e amparo da Senhora da Oliveira sua Patrona, do que nas poucas, e ferrugentas armas, que levavam, fazendo aclamar a Restauração do Suavíssimo Governo do Príncipe Regente Nosso Senhor em todas as Vilas, Cidades, e Povoações, por onde passavam.”

Anónimo, Relação do que se praticou em Guimarães, em aplauso da feliz restauração deste reino, Lisboa, Na offic. de Joaquim Tomaz de Aquino Bulhões 1808.


[Também publicado aqui]
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