28 de abril de 2008

O baile do Visconde de Margaride

Vista actual da Casa do Conde de Margaride (fonte: Virtual Earth)

O memorável baile do aniversário do então Visconde de Margaride, realizado no seu palacete, no Largo do Carmo (hoje Martins Sarmento), que teve lugar na noite de 8 para 9 de Janeiro de 1874, e que seria objecto de uma crónica satírica de Camilo Castelo Branco, foi noticiado como se segue, no jornal Religião e Pátria do dia 10 daquele mês:


Baile

Na noite de quinta para sexta-feira teve lugar o magnífico baile com que o sr. Visconde de Margaride quis obsequiara os seus amigos pessoais e políticos de todo o distrito no dia do seu natal.

Às 10 horas da noite os aposentos destinados a tão esplêndida festa estavam cheios de convidados, e por essa hora também grande massa de povo parava defronte do palacete dos srs. viscondes de Margaride, para ver entrar o grande número de concorrentes ao baile e para gozarem as escolhidas peças de música que a banda marcial do regimento de infantaria n.º 3 executava com mestria, tocando a um palanque formado de transparentes e que brilhantemente iluminados e erguia a um dos lados do terreiro, Para cima de trezentas pessoas entre damas e cavalheiros tomaram parte em tão luzido divertimento, que durou desde as 9 horas da noite de quinta-feira até às 7 da manhã seguinte. A esta hora quem atravessasse aquela parte da cidade ouvia ainda a harmonia cadenciada da excelente orquestra que tocava ao movimento das variadas danças, que durante toda a noite se entredançaram com gracioso donaire, com júbilo, com louca animação.

A casa achava-se decorada com riqueza, brilho e excelente disposição. Era de um efeito surpreendente o jubiloso espectáculo daquela festa quando na sua hora mais animada se deparava na cabeceira da primeira sala em todo o espaço iluminado a centenares de luzes que se reflectiam nos riquíssimos adornos, em todo o espaço, dizemos, das alas em corrente onde a festa reinava com todos os seus esplendores.

É escusado dizer que o serviço foi mimoso, asseado, abundante e oferecido com aquela nobre expansão que caracteriza os ilustres viscondes. Os mais apelidados manjares, os mais finos e apurados vinhos, a par das mais delicadas iguarias e gelados, tudo ali se ofertava aos convidados, e em tão boa ordem que nada deixava a desejar.

Autoridades civis e militares de quase todos os pontos do distrito de Braga e algumas ainda do distrito do Porto; clero, aristocracia, comércio, tudo tinha nesta festa dignos representantes.

Era perto da meia-noite quando ainda a banda marcial anunciava a entrada de algumas damas, vindas propositadamente naquela ocasião do Porto e de Braga.

Se os cavalheiros se apresentaram todos, como efectivamente se apresentaram, primorosamente vestidos, as senhoras, tomando esse dia como de verdadeira gala para não perderem o estimável título da graça e do bom gosto que por toda a parte as celebra e enobrece. Primor, mimo, brilho, asseio, riqueza e bom gosto tudo nelas se dava em brilhante exposição, atraindo as vistas dos numerosos cavalheiros que pejavam as salas.

Como prova oferecemos humildemente aos leitores os leves apontamentos que pudemos tomar entre a vertiginosa e constante agitação duma festa como esta. (...)

Segue-se uma curiosa descrição dos trajes das senhoras que participaram no baile, que se estenderá pelo número seguinte do jornal.

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26 de abril de 2008

O aniversário do Visconde de Margaride, por Camilo Castelo Branco

O Conde de Margaride, numa caricatura de José de Meira.

O Conde de Margaride, Luís Cardoso Martins da Costa, bacharel em filosofia, nasceu no dia 8 de Janeiro de 1836. Era filho de Henrique Cardoso de Macedo e de Luísa Ludovina de Araújo Martins. Aos 30 anos, casou com Ana Júlia Rebelo Cardoso de Meneses. Por decreto de 1 de Agosto de 1872, passou a usar o título de Visconde de Margaride; em 1874, tornou-se Conselheiro de Estado. Em 1877, foi agraciado com o título de Conde de Margaride. Destacou-se pela sua actividade política, tendo sido Governador Civil dos distritos de Braga e do Porto. Em Janeiro de 1874, ainda Visconde, foi mimoseado por Camilo Castelo Branco com um texto que foi publicado no primeiro dos quatro números das Noites de insónia, oferecidas a quem não pode dormir, onde o romancista satiriza a festa de aniversário do ilustre vimaranense.


REABILITAÇÃO DO SNR. VISCONDE DE MARGARIDE

S. exc.ª festejou o seu natalício com um baile, em um dia de jejum, por uma noite de Janeiro, breve e esplendorosa. O dia era de abstinência carnal, note-se. Creio que o preceito começava à meia-noite, pontualmente à hora em que a restauração das forças, esvaídas na vertigem dos bailados, reclamava vários fenómenos reparadores desde a trituração até ao filtramento do quilo no sistema sanguíneo. Se eu não odiasse o palavreado vulgar, diria que os hóspedes do snr. visconde precisavam de comer.

À magnitude do apetite correspondeu a magnificência dos acepipes. Era já soada a hora da abstinência do boi, do peru, da galinhola, do salmagundy. E, não obstante, as iguarias condimentosas, a febra, a alimentação rija lourejava nos pratos e nas terrinas entre ondulações de perfumes. Alguns dos convivas sabiam que o dia ou a noite era de peixe. Senhoras de idade canónica, respeitáveis por seus princípios e observantes das disciplinas da igreja, não vendo alvejar a pescada ou o rodovalho entre coxins de batata e cebola, tantalizavam a perdiz em molho de vilão; mas, cerrando os dentes à invasão do pecado, esquivavam-se a sair do baile com o bolo alimentício azedado por escrúpulos. Neste comenos, alguém disse o que quer que fosse a meia voz às pessoas perplexas entre a galinhola truffée e a religião dos Afonsos.

Umas pessoas, depois que ouviram a nova, sorriram, como vencidas de tentação deliciosa, e comeram carnes. Outras, invulneráveis e inflexas na sua abstinência, martirizaram-se com trutas e salmões. Como quer que fosse, houve escândalo. Comeu-se volateria e ruminantes em sexta-feira. Algumas conscienciosas saíram do baile do snr. visconde, às 8 horas e meia da manhã, com o peso do estômago sobre si.

A opinião pública, já em Guimarães, já em Braga, ergueu-se à altura dos princípios, e murmurou. Eu fiz parte desta opinião adversa ao magistrado superior do distrito a quem corre o dever de penitenciar os seus hóspedes com trutas e salmão em dias de peixe, em memória dos augustos mistérios do cristianismo.

Quanto a mim, o snr. visconde era um ateu e os seus hóspedes uma cáfila de heresiarcas. Eis senão quando a imprensa do Porto divulga uma notícia que bafejou um hálito de júbilo na face de Braga, no perfil de Guimarães, e nos três quartos do país. Apresso-me a repeti-la em grifo com uma consolação católica, e tanto ou quê apostólica: O snr. visconde de Margaride tinha obtido dispensa do prelado bracarense para que os seus hóspedes pudessem comer carne.

Orvalhe-se de lágrimas de alegria o rosto da cristandade portuguesa; que eu por mim, quanto um abraço cabe nas potências da fantasia, aqui aperto contra o coração o snr. visconde de Margaride, e felicito os católicos que digeriram inocentemente as suas vitualhas.

Camilo Castelo Branco, Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº1, Janeiro de 1874, Biblioteca de Algibeira, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, Porto

Nota: Salmagundy é uma salada, já usada nos séculos XVII e XVIII, composta com galinha quente, anchovas, ovo cozido, ervilhas, cebola cozida e uvas e temperada com uma vinagreta.

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20 de abril de 2008

Notícias da Exposição Industrial de Guimarães de 1884 (1)


A Exposição Industrial de Guimarães de 1884 teve grande ressonância na imprensa local, regional e nacional daquela épica. Entre as inúmeras notícias que então se publicaram, destaca-se uma longa, detalhada e muito interessante reportagem publicada em 18 números do
Jornal de Comércio, de Lisboa, de que a seguir se transcreve um excerto, onde se descreve a génese da Exposição e se dá conta da intervenção destacada que nela teve Alberto Sampaio, que nesse mesmo ano daria os seus primeiros passos como historiador, nas páginas da Revista de Guimarães. Os textos publicados no Jornal do Comércio são do Dr. Avelino da Silva Guimarães, da Sociedade Martins Sarmento e profundo conhecedor da indústria vimaranense.


"(...)

Estas considerações; o conhecimento do valor industrial dos povos do concelho de Guimarães, moderados no salário, sujeitos a trabalho até ao sacrifício; a decadência que se manifesta em parte das antigas indústrias vimaranense; - inspiraram a SOCIEDADE MARTINS SARMENTO a promover, já a concentração do espírito público de Guimarães para o estudo do estado precário da sua indústria, já o emprego de esforços para que o governo realizasse a fundação de estabelecimentos de instrução técnica, decretados desde 1864.

Com estes fins beneméritos, a Sociedade fundou os dois cursos nocturnos de francês e desenho, nomeou comissões de comerciantes, fabricantes e consócios, para procederem a inquéritos parciais por classe de indústria, realizou uma conferência pública na sala da biblioteca, tomando por tema – a importância da indústria vimaranense, e meios de a melhorar –, e resolveu se promovesse uma Exposição Industrial puramente concelhia.

A criação dos cursos nocturnos realizou-se facilmente, graças ao desinteresse e altos dotes cívicos dos dois professores; a Exposição teve largas e variadas dificuldades a vencer.

Teve o pensamento, o projecto da direcção dois anos de incubação. A Sociedade carecia de meios para fazer face às despesas; alguns receavam-se de tudo, e nem sequer esquecia como argumento de impugnação, a necessidade de dar à Exposição, não o aspecto modesto da simples exibição dos produtos fabris, mas o aspecto ornamental das grandes exposições nacionais. O ornamental, como dizia Spencer, preferindo ao útil!

Dois factos recentes resolveram os ânimos mais tímidos: a inauguração do caminho-de-ferro de Guimarães, e a criação da escola industrial da Covilhã; aquela aquecendo e progredindo pela ideia de progresso, esta agitando pelo sentimento de um agravo. A direcção da Sociedade convidou uma assembleia geral de proprietários, comerciantes e industriais. Presidiu o ilustre consócio, o Sr. conde de Margaride.

O projecto da Exposição foi recebido com entusiasmo. Por deliberação desta assembleia, organizou-se uma comissão central composta inteiramente de sócios da SOCIEDADE MARTINS SARMENTO: os Srs. barão de Pombeiro (presidente), dr. António Coelho da Mota Prego (presidente da Câmara), Manuel de Castro Sampaio (administrador do concelho), visconde de Lindoso, directores da Sociedade: dr. José da Cunha Sampaio, António Augusto da Silva Carneiro, António José da Silva Basto, dr. Avelino Germano, dr. Avelino da Silva Guimarães, Domingos Leite de Castro (autor da primeira proposta para a Exposição), Adolfo Salazar, dr. Joaquim José de Meira, dr. Domingos de Castro Meireles, Manuel de Freitas Aguiar, José Miguel da Costa Guimarães e Eugénio da Costa Vaz Vieira; José Martins de Queiroz, dr. Alberto Sampaio, A. A. da Silva Caldas, dr. Luís Augusto Vieira, António José Pinto Guimarães, Domingos José de Sousa Júnior, Manuel Ribeiro de Faria, I. de Menezes, Domingos Martins Fernandes, José Ribeiro da Silva e Castro e João Dias de Castro.

Organizada a grande comissão central, começaram de convidar-se classes de comerciantes e industriais, para os ouvir e consultar acerca do melhor método a seguir para o plano da Exposição.

Foi convidado o Sr. dr. Alberto Sampaio para organizar o projecto do programa e regulamento.

Depois de decorridas bastantes semanas, depois de tomado o espírito de algum imprevisto desânimo, depois de ter exercido um certo domínio no ânimo do público a acção perniciosa dos retrógrados, uns sinceros, outros pelo velho achaque da maledicência, a maioria da comissão refez-se de coragem, resolveu vencer todas as dificuldades, e levar por diante o plano da Exposição.

Organizaram-se duas comissões: numa assembleia-geral, uma comissão de meios, composta dos sócios os Srs. padre João Gomes de Oliveira Guimarães, Domingos Martins Fernandes, Eduardo Almeida e António José Baptista Guimarães; numa sessão da comissão forma-se uma subcomissão executiva, composta dos Srs. dr. Alberto Sampaio, presidente, Domingos Leite de Castro, Domingos Martins Fernandes e Manuel Ribeiro de Faria. A comissão central abre uma subscrição para receita, e subscreve com largueza; a subcomissão de meios consegue em poucos dias abundante receita por subscrição pública. A Câmara subscreveu com 200$000 réis; a companhia do caminho-de-ferro com 100$000 réis.

A animação arrasta a todos, o entusiasmo renasce no comércio e na indústria, o patriotismo dos cidadãos vimaranenses aviva intensamente, uma polémica jornalística acerca da criação da escola de desenho incendeia ainda mais, por se reputar insuficiente pela a riqueza e variedade industrial de Guimarães. A subcomissão executiva confere ao dr. Alberto Sampaio pleno arbítrio na direcção técnica para a organização da Exposição. A comissão central conheceu que em trabalhos desta ordem há sempre necessidade duma certa concentração de poderes, da energia duma direcção superior. Escolheu para este fim, e acertadamente o Sr. dr. Alberto Sampaio, nomeando-o presidente da subcomissão executiva.

O dr. Alberto da Cunha Sampaio é dotado de inteligência viva e muitíssimo cultivada, especialmente em estudos económicos. Sem ocupações profissionais, cheio de ardor e de brio, caracteristicamente trabalhador, agora convencido até ao entusiasmo da oportunidade da Exposição, a comissão não podia fazer melhor escolha para director técnico desta exibição sistemática e concentrada da riqueza industrial de Guimarães.

Assumindo esta direcção, o dr. Alberto Sampaio desenvolve a máxima actividade, visitando as casas de comércio, as fábricas e oficinas, animando a todos, resolvendo dúvidas, organizando, enfim, o quadro das indústrias concelhias. Nas conjunturas mais graves, mais por satisfação aos seus consócios, que por necessidade, consulta a comissão central.

Consegue-se do Sr. António de Moura Soares Veloso, gerente da companhia do caminho-de-ferro de Guimarães, a cessão do palacete de Vila Flor, situado em posição vantajosa, e próximo da estação do caminho-de-ferro.

Convidam-se os numerosos expositores a escolherem lugar para as suas instalações, pela maior parte feitas a expensas próprias.

Sendo muito numerosos, havendo uma grande variedade de classes de indústrias, poucas e pequenas as salas para tão desenvolvida Exposição, imaginem-se os esforços que o director técnico teve de fazer, as indicações prudentes e engenhosas que foi necessário usar, para que todos ficassem bem, e todos satisfeitos.

(...)"

[Também publicado aqui]

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18 de abril de 2008

O Soldado Porto

O "Soldado Porto" (Fotografia de Tiago Laranjeiro)

A propósito do que aqui se escreveu sobre a estátua do Guimarães das duas caras, aqui fica uma fotografia recente da estátua que simboliza o Porto, e que hoje se encontra junto à Casa dos 24, obra do arquitecto Fernando Távora. O autor da fotografia que agora aqui se publica reparou especialmente no dragão que decora o capacete do soldado. A presença daquele bicho mitológico nesta estátua nada tem de particularmente intrigante, uma vez que o dragão é um dos elementos heráldicos do antigo brasão da cidade do Porto, onde aparecia sobreposto a uma coroa ducal, de onde foi adaptado para o emblema do maior clube desportivo daquela cidade.

Brasão da Cidade do Porto (1837)

Esta estátua já aqui apareceu representada, a propósito do conflito brácaro-vimaranense de 1886, por figurar num desenho satírico publicado no jornal “Maria Rita”, que agora se volta a reproduzir.


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17 de abril de 2008

À volta do Guimarães das "duas caras" (6)

A cara que ornamenta a couraça da armadura do Guimarães, sendo um pormenor irrelevante, deu origem a uma tradição que perdurou e que se colou à imagem de Guimarães e dos seus moradores. Há, todavia, na estátua, um elemento que, a nosso ver, será bem mais significativo, com clara intenção simbólica, que tem sido ignorado por completo: o emblema inscrito no escudo do guerreiro, representando uma árvore que envolve, com as suas raízes, um animal. É este elemento que sustenta a nossa convicção de que o Guimarães foi esculpido com a manifesta intenção de ser assumido como a personificação da cidade.

Emblema do escudo do Guimarães (Fotografia de Agostinho Ferreira)

A árvore do escudo é a oliveira, elemento que, desde a Idade Média, está associado a Guimarães, figurando no brasão da cidade. Trata-se da representação da oliveira que dá o nome à Praça Maior de Guimarães, que esteve na origem de uma notável série de milagres, registados em meados do século XIV. O animal é um leão, que em geral se associa ao poder, à justiça, à força e à nobreza. Porém, aqui não está representado na sua posição de majestade, o leão rampante das representações heráldicas, mas sim deitado e subjugado pela oliveira, que se lhe sobrepõe e o domina com as suas raízes, que o envolvem como uns longo dedos asfixiantes. O que ali vemos é um leão caído e derrotado.

Se a oliveira representa Guimarães, vejamos o que representa este leão dominado. O leão foi assumido pelo rei Afonso IX nas suas armas reais, tornando-se na insígnia dos seus sucessores. Está presente, desde sempre, nas armas reais de Espanha. Nos brasões portugueses, simboliza, em muitos casos, uma aliança com a casa real de Leão (Espanha) ou uma concessão por ela outorgada. A figura do leão está, assim, associada a Espanha.

Iluminura representando Afonso IX, com o leão das suas armas pintado no escudo.

Eis o que representa o emblema do escudo do guerreiro da Casa da Câmara: a oliveira que venceu o leão. Guimarães que resiste e que vence Espanha, numa referência à contribuição desta terra para a génese da nacionalidade portuguesa, com a independência conquistada contra Espanha, à afirmação da nacionalidade em 1385, com D. João I e à sua recuperação, em 1640, e subsequentes guerras da restauração, que ainda perdurariam nas memórias de muitos vimaranenses quando a estátua foi erigida.

O nobre guerreiro que espreita a praça da Oliveira, do alto da antiga Casa da Câmara, é Guimarães que se contempla a si própria.



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16 de abril de 2008

À volta do Guimarães das "duas caras" (5)


Fotografia de Eduardo Brito
A segunda cara do Guimarães, representada sobre o ventre do guerreiro, na couraça da armadura, está na origem da tradição das duas caras, apodo aplicado a Guimarães e aos vimaranenses. Esta representação não é, no entanto, um caso único. Braga também tem o seu duas caras. Trata-se de uma imponente estátua equestre, com alguns elementos iconográficos próximos do Guimarães, que está colocada num penedo onde se teria erguido a primitiva igreja do Bom Jesus, em Braga, no lugar conhecido como o Terreiro de Moisés, naquele santuário. Neste caso, a segunda cara aparece, não na armadura, mas no escudo que está preso no braço esquerdo do cavaleiro. É obra do escultor Pedro José Luís Foi oferecida em 1819, por Luís Castro do Couto, do Pico dos Regalados. A história de São Longuinhos (Longinus), contada por Manuel Anastácio, pode ser lida aqui. A tradição associada a este santo, em Braga, foi narrada por Viale Moutinho e está aqui.

Pormenor da fotografia que vai acima.

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À volta do Guimarães das "duas caras" (4)

Pelo local onde esteve originalmente implantada, bem como pela sua iconografia, estamos em crer que a estátua do Guimarães foi mandada fazer com o propósito de dar corpo a uma figura tutelar que simbolizasse a então vila de Guimarães. As fontes mais antigas que nos falam desta peça referem-se-lhe como “a figura de Guimarães” ou “o Guimarães”. A esta luz, a não ser por obra de um inusitado sentido de auto-ironia dos vimaranenses responsáveis pela encomenda da obra, resulta difícil de entender a sua interpretação enquanto representação simbólica das duas caras, com toda a carga pejorativa desta expressão, dando razão a uma suposta duplicidade de carácter de Guimarães e dos vimaranenses. Parece-nos óbvio que a associação às duas caras surgiu depois da obra ter sido colocada na Casa da Alfândega, por efeito de uma analogia que nada teve a ver com a intenção inicial que lhe deu origem.

Por força da dimensão depreciativa da tradição das duas caras, têm surgido algumas tentativas, tão imaginativas quanto forçadas, de ocultar a tradição ou de a pintar com cores mais simpáticas para a cidade e os seus cidadãos, associando-a a uma lenda que fala de um suposto feito militar das hostes vimaranenses na conquista de Ceuta, no reinado de D. João I. Segundo esta lenda, depois de tomada aquela praça marroquina, o rei terá distribuído a tarefa da defesa dos diferentes troços da sua muralha pelos contingentes de cada uma das terras que contribuíram com soldados para a conquista, protegendo-a contra o previsível contra-ataque dos muçulmanos. Como os de Barcelos teriam fraquejado nesta tarefa, os de Guimarães terão assegurado a defesa de dois troços, juntando ao que lhes tinha sido destinado aquele que os de Barcelos teriam deixado desguarnecido. De acordo com esta tradição, o rei teria depois ditado o castigo a aplicar aos de Barcelos, para toda a eternidade: desde então, dois vereadores barcelenses viriam varrer as ruas de Guimarães, em vésperas de dias festivos, com um barrete vermelho na cabeça e um pé descalço e outro calçado. Mais tarde, já no século XVI, a Vila de Barcelos teria conseguido isentar-se da servidão, logrando transferi-la para os moradores das freguesias de Cunha e Ruilhe, que então teriam sido desanexadas de Barcelos e entregues a Guimarães. Desde 1980, temos visto defendida uma explicação, nunca antes avançada por qualquer historiador, segunda a qual as duas posições que os vimaranenses teriam defendido em Ceuta estariam representadas simbolicamente pelas duas caras da estátua do Guimarães.
É inegável que a obrigação vexatória, de que fala a tradição, foi imposta às freguesias de Cunha e Ruilhe, que, anos a fio, lutaram nos tribunais para dela se livrarem. Comprova-o o Tombo dos Bens da Câmara de Guimarães de 1735, onde constam “três barretes de rabo comprido feitos à mourisca e três faixas, tudo de baeta vermelha, com que os moradores das duas freguesias de S. Miguel de Cunha e São Paio de Ruilhe, cada uns no seu giro, se preparam e compõem quando vêm varrer a praça e terreiro de Nossa Senhora da Oliveira e açougues desta vila nas festas da Câmara, cuja varredura fazem nos próprios dias das mesmas festas pela manhã, com um pé descalço e o outro calçado e a espada metida na faixa que cada um ata pela sua cinta às avessas pela parte esquerda e o barrete metido na cabeça com o rabo estendido pelas costas abaixo”. Porém, se esta obrigação existiu, nada permite concluir que algum dia tivesse sido imposta às gentes de Barcelos, nem que Barcelos tivesse entregue Cunha e de Ruilhe a Guimarães para se livrar do vexame. Por uma razão simples e indesmentível: aquelas freguesias já pertenciam ao concelho de Guimarães quando foram feitas as inquirições de 1258, no reinado de Afonso III, muito antes da conquista de Ceuta, que só teve lugar em 1415. Foi por isso, e por ter demonstrado que em Ceuta a defesa das posições portuguesas não foi feita como consta na lenda, que o historiador vimaranense Alfredo Pimenta qualificou esta tradição como uma história da carochinha.
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15 de abril de 2008

À volta do Guimarães das "duas caras" (3)

Em finais de 1874, a Câmara decidiu proceder ao alinhamento das casas do lado do sul do campo do Toural com a fachada do lado terreiro de S. Francisco, o que implicou, entre outras obras, a demolição da alpendrada da alfândega do peixe, que suportava a estátua. A demolição teria início em meados de Maio de 1876. Por essa altura, a Câmara começou a estudar a possibilidade de transferir a figura do Guimarães do edifício da alfândega para os Paços do Concelho. Foi apeada no dia 11 de Agosto desse ano, tendo sido transferida para uma loja no hospício dos expostos, onde ficaria até 20 de Junho de 1877, dia em que foi erguida para o lugar onde ainda hoje se encontra, sob um pedestal que havia sido preparado previamente. A notícia, encontrámo-la numa breve do jornal Religião e Pátria de 23 de Junho de 1877:

Guimarães – Está no seu novo posto a estátua de Guimarães. Depois de escodada, para se lhe tirarem as grosseiras pinturas e douraduras que a desfeavam, foi quarta-feira de tarde içada para o cimo da frontaria dos paços municipais. Está onde deve estar.”

A estátua representa um guerreiro, de feição serena e pose elegante, que enverga uma armadura medieval, segurando uma lança na mão direita e empunhando um escudo no braço esquerdo. Nas costas, caindo dos ombros até aos pés, uma capa acrescenta majestade à figura. Os laços que envolvem a cintura e os tornozelos são uma manifestação da tendência para o adorno, por vezes algo excessivo, ao gosto da época em que a peça foi esculpida. O pormenor desta figura que mais tem concentrado as atenções é o rosto que decora a couraça da armadura, sobre o ventre, que esteve na origem da tradição vimaranense das duas caras. Estamos certos de que se trata de um elemento meramente decorativo, sem simbologia particular, comparável a outros que se encontram em representações do mesmo género (não será preciso ir muito longe: basta passar os olhos pelo friso de estátuas dos reis do palácio de Vila Flor para confirmar esta ideia).

Pormenores de estátuas de reis portugueses, do palacete de Vila Flor, em Guimarães
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14 de abril de 2008

À volta do Guimarães das "duas caras" (2)

Pormenores da estátua de Afonso Henriques, do palacete de Vila Flor, à esquerda, e do Guimarães, à direita


A figura que representa Guimarães, que se encontra na platibanda do edifício da antiga Casa da Câmara, na Praça da Oliveira, é uma peça escultórica talhada em granito fino, certamente contemporânea das estátuas do escadório do Bom Jesus, em Braga, e das que representam os reis das duas primeiras dinastias que contornam a fachada Nascente e metade da fachada Norte do palacete de Vila Flor, em Guimarães. Uma observação atenta permitirá concluir que tem a mesma filiação artística destas últimas. A comparação de alguns pormenores do Guimarães, com outros tantos da estátua de Afonso Henriques que encima o pórtico do palacete voltado a Norte, parece apontar no sentido de ambas as peças terem a mão do mesmo escultor.

Embora ainda se desconheça quase tudo acerca da história do Guimarães, podemos datá-lo da primeira metade do século XVIII, sendo evidentes os seus traços ao gosto da época. Esteve originalmente colocado em cima da Casa da Alfândega, que se encostava ao lado exterior da muralha de Guimarães, voltada para a desaparecida igreja de S. Sebastião, junto ao local onde hoje ainda se pode ver o pano de muralha que agora ostenta o dístico Aqui nasceu Portugal. Enquanto aí permaneceu, apresentava uma roupagem diferente da actual, mais colorida, uma vez que estava pintado em policromia.

[Continua...]

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13 de abril de 2008

À volta do Guimarães das "duas caras" (1)

O Guimarães

A figura que personifica Guimarães, que esteve originalmente na Casa da Alfândega (junto ao local onde está o troço de muralha em que se lê Aqui nasceu Portugal) e que hoje se encontra em cima da antiga Casa da Câmara, na Praça da Oliveira, tem sido objecto de alguma discussão e de interpretações manifestamente erróneas que temos visto reproduzidas em publicações de entidades insuspeitas. Nos próximos dias, iremos tentar perceber um pouco melhor essa figura que está na origem do epíteto das duas caras, aplicado a Guimarães e aos vimaranenses.

Começaremos por notar que o Guimarães não é filho único, uma vez que tem manifesto parentesco com um género de representações tutelares que conhecemos em outras terra, como o Basto, originalmente um guerreiro lusitano da família dos que se guardam na Sociedade Martins Sarmento, de Cabeceiras de Basto, o Porto, a estátua do soldado que se ergue junto à Casa dos 24, na Sé do Porto, ou o Lamego, da fonte do Jardim da República, na terra de que tomou o nome.

Sobre este assunto, pode-se ler o que já se escreveu aqui e aqui.


O Basto.
Fonte: aqui.

O Lamego.
Fonte: aqui.


O Porto.
Fonte: aqui.
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9 de abril de 2008

A Fonte de D. João

Fotografia de Eduardo Brito (pormenor)

Quando passámos por coisas que sempre nos habituámos a olhar, sabemos que as conhecemos, sem necessidade de as questionar. Basta olhar um pouco mais de perto: não raras vezes nos surpreendemos quando do olhar fazemos ver. As pedras, no seu silêncio, guardam, por vezes, segredos que o tempo já engoliu. São assim as pedras de Guimarães: um infinito manancial de memórias, umas já contadas, outras ainda por contar. Pedras há por aí que nos falam da história de Guimarães, de Portugal e mesmo do Império que este país construiu com a aventura das descobertas. Um bom exemplo desta ideia podemos encontrá-lo no Largo da Misericórdia, naquela fonte discreta que se encosta ao muro da antiga casa nobre dos Coutos, hoje Tribunal da Relação. Por baixo das armas nacionais, elas próprias com a sua originalidade, pode-se ler uma inscrição, à primeira vista, enigmática:

Ioão Primeiro Rei do Reino Unido

Menistro aqvi fes por a Estevão Ivsto,

o qval com esta Fonte Magestoza

Ornov a Patria do Primeiro Avgvsto

Anno de 1820

Como todas a fontes de Guimarães, a do Campo da Misericórdia foi criada com um propósito simples: levar a água potável onde ela escasseava, num tempo em que ainda não existia um sistema público de abastecimento doméstico. O Campo, ou Terreiro, da Misericórdia foi rasgado em meados do século XVII, à custa da demolição das velhas casas que então se erguiam no miolo edificado entre o lado nascente da rua da Ferraria (ou Ferreira) e a frente poente da rua das Flores, abrindo um espaço amplo, de planta rectangular, com a Misericórdia no topo voltado a sul e a casa de torre dos Carvalhos no lado do Norte.

Havia muito tempo que os moradores daquela zona requeriam à Câmara que lhes providenciasse um acesso condigno à água, quando, no dia 18 de Julho de 1818, o Senado Municipal registou na sua acta que “vista a utilidade que resulta ao bem comum desta vila, do estabelecimento de um novo tanque no Terreiro de nossa Senhora da Misericórdia, que há anos por isso se tem requerido a este Senado pela nobreza e povo dela, que o mesmo tanque se constituísse sem prejuízo de quaisquer outros tanques já feitos”.

A obra seria financiada com recurso a uma subscrição pública, de cuja organização ficou encarregue o bacharel António Ribeiro da Cunha. O trabalho de pedraria foi adjudicado a Bártolo Fontão, mestre-pedreiro de S. Cristóvão de Selho, que seguiu o risco que recebeu do Senado. O tanque seria alimentado com água do manancial da Penha. Para evitar a redução do caudal dos pontos de água que já recebiam água da mesma origem, foi mandada explorar uma nova mina na serra. Em Março de 1819, teve lugar uma segunda adjudicação de obra, relacionada com a empreitada de encanamento e condução da água desde a Praça da Oliveira até ao novo tanque. A canalização, que atravessou a rua dos Mercadores, seria instalada com recurso ao reaproveitamento de pedra do Castelo.

O que de mais interessante guarda aquela fonte esconde-se na inscrição acima transcrita e nas armas que a encimam. Ali se fala num “João Primeiro rei do Reino Unido” e no “primeiro augusto”. Quanto a este último, nenhuma dúvida pode existir: trata-se de Afonso Henriques, que teve Guimarães como primeira pátria. Já o rei do Reino Unido, João I, é D. João VI, que tem o seu nome ligado à história de Guimarães desde o ano de 1808, num tempo em que Portugal se encontrava sob domínio do invasor francês, com Junot rei e senhor em Lisboa.

No dia 7 de Junho daquele 1808, ao nascer do sol, com a bandeira real hasteada, entre foguetes, salvas de tiros e o repicar dos sinos, foi aclamado, no Castelo de S. João da Foz do Douro, no Porto, o príncipe regente, D. João. Aquele foi um acto de resistência e rebelião contra o domínio francês, de cuja repressão se encarregaria o cruel e sanguinário Louis Henri Loison, o célebre Maneta, cuja fama lhe reservaria lugar no vocabulário popular, por estar na origem da expressão “ir para o maneta”. Os franceses enviaram agentes para as comarcas do Norte, com o objectivo de recrutarem soldados para o Exército Imperial Francês, tendo em vista organizar a resposta aos que se levantavam contra o seu jugo.

Naquele ano, o 16 de Julho era dia de festa em Guimarães, com a celebração do Corpo de Deus. Nesse dia, alguns vimaranenses fizeram a sua primeira demonstração patriótica, tendo aparecido, segundo um relato que nos deixou o dominicano Frei António Pacheco, “muitas pessoas de elevada categoria com o laço da Nação Portuguesa no chapéu, festejando publicamente o Augusto nome de Sua Alteza Real, o nosso Príncipe”. A proclamação do Príncipe Regente, o futuro D. João VI, teria lugar às cinco da tarde do dia 18, entre vivas e repiques dos sinos da vila e das freguesias do seu termo.

Na manhã do dia seguinte, 19, as ruas de Guimarães seriam percorridas por uma procissão, que foi acompanhada por uma chuva de pétalas de flores, lançadas das janelas. Frei António Pacheco, que também lá estava, descreveria mais tarde aquela procissão de exaltação patriótica:

“Naus triunfantes puxadas por eclesiásticos e estudantes, em duas alas, vestidos de tritões, de golfinhos, de sereias e de vários peixes, cantando a música e instrumentos as canções mais festivas e análogas com letra e solfa, toda própria de tal objecto e de tais marítimos, tal e qual se pode isto fingir, indo adiante o Deus Neptuno com seu tridente todo alegre e risonho, vestido de gala, com um grande manto azul riquíssimo, rodeado de um cardume de peixes todos alegres. Nunca se viu procissão tão nobre e festiva, correndo todas as praças e ruas da vila, que estavam iluminadas com primor, indo em diversos lugares acompanhando outros concertos de música e infinito povo até de madrugada.”

As naus desta procissão pretendiam simbolizar o regresso próximo, do outro lado do mar, de D. João e da Família Real.

Ir-se-iam os franceses, ficariam os ingleses em seu lugar, sem que o Príncipe regressasse a Portugal, mesmo após a derrota definitiva de Napoleão e o Congresso de Viena, que, em 1815, procurou restabelecer a velha ordem na Europa, determinando a restauração das antigas monarquias europeias depostas por Napoleão.

Fotografia de Eduardo Brito (pormenor)

Em Março de 1816, após a morte de sua Mãe, a rainha D. Maria I, o príncipe regente foi proclamado como D. João VI, rei do Reino Unido de Portugal Brasil e Algarves, a nova denominação do reino que havia sido adoptada a partir do dia 16 de Dezembro de 1815, quando se elevou o Brasil à nova condição de reino. Menos de dois meses após a aclamação, D. João assinou uma carta régia através da qual alterava as armas nacionais, ajustando-as à nova denominação oficial dos seus domínios, com a introdução da esfera armilar de D. Manuel I, que, desde sempre, havia sido utilizada como símbolo do Brasil colonial. As armas nacionais ficaram assentes sobre uma esfera armilar em ouro, forrada a azul, com a coroa real sobreposta (abandonada n sequência da independência do Brasil, a esfera armilar regressaria às armas nacionais após a implantação da República em Portugal).

O Reino Unido teria uma duração efémera. No dia 24 de Agosto desse mesmo ano de 1820 que está gravado na inscrição da fonte do Campo da Misericórdia, estalava no Porto a Revolução Liberal que iria forçar o regresso a Portugal de D. João VI, efémero D. João I do Reino Unido de Portugal Brasil e Algarves, que assim se extinguia.

A inscrição comemorativa e as armas reais do Reino Unido, lavradas em granito, que a encimam, perpetuam, na fonte do Campo da Misericórdia de Guimarães, a memória de um tempo histórico singular, em que Portugal mudou de nome.

Entretanto, a fonte foi dando água ao Terreiro da Misericórdia. Em 1905 foi amputada, com a desmontagem do tanque. Desde então, a água das suas bicas passou a jorrar para duas pequenas taças de pedra.

[Texto publicado na revista Líquida, publição da Vimágua, E.I.M., SA, Abril de 2008]

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6 de abril de 2008

Vimaranenses: João Rebelo Leite

Nas virtudes nas letras e nas armas sempre Guimarães floresceu como pátria de filhos, que em qualquer destas nobres profissões sempre igualaram, se não excederam, os mais beneméritos que Portugal conta nos seus anais. E uma mesma família ilustrava a pátria já em uma já em outra.

É prova João Rebelo Leite, o Lidador vimaranense, irmão do Padre Torcato Peixoto de Azevedo autor das “Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães”, cuja biografia pode ver-se no número 27 do “Espectador”, filho de João Rebelo Leite e D. Isabel Peixoto de Azevedo.

Nascera o nosso ilustre patrício no começo do ano de 1621 e aos dezanove anos de idade acompanha seu pai, capitão de ordenanças de Guimarães, a Lamas de Mouro, Melgaço, onde recebendo dos castelhanos oito feridas, é preso e conduzido ao hospital de Pontevedra e daí a Compostela, onde pôde escapar-se.

Tam contratempo mais lhe acendeu no ânimo o desejo de marchar contra os inimigos da pátria e por isso passou a servir no exército do Alentejo. Aqui uma bala lhe atravessou uma perna no ataque de Villa Nova del Tresna em 1643.

Em 1644 foi um dos quatrocentos infantes eu entraram na praça de Elvas, atravessando corajosamente por entre os inimigos que a sitiavam.

Em 18 de Setembro de 1646 é nomeado capitão de infantaria e, reformada a companhia que comandava, esteve, embora capitão reformado, na batalha do Montijo.

Passando novamente a servir no Minho, foi nomeado sargento-mor de um terço volante, depois governador da praça de Valença, onde valorosamente resistiu a diversos ataques dos espanhóis, e mais tarde, por nomeação régia, sargento-mor do terço pago.

Por este tempo dou provas da sua piedade castigando severamente um dos soldados que o haviam acompanhado à Galiza a que se atrevera a saquear o sacrário dum templo. Com toda a pompa restituiu aos espanhóis as santas partículas, fazendo uma brilhante procissão até à Igreja.

É então nomeado Tenente de Mestre de Campo general do exército do Minho em cujo posto, à custa de seu sangue desenvolvendo singular prudência, recuperou a praça de Lindoso.

Tantos serviços lhe mereceram a nomeação régia de Mestre de Campo Ada honorem por patente de 15 de Janeiro de 1664. Esta honrosíssima distinção não O fez conservar inactivo, antes o vemos acompanhando a D. Francisco de Sousa, governador do Minho, nos ataques a Fragoso, Lourinho, Boaças, Porrinho e no sítio da Guardiã, onde, comandando um terço, foi ferido tão gravemente que ficou aleijado.

Um certificado do governador declara que o nosso honrado e valente patrício teve o primeiro lugar e estimação do exército

Uma tão longa carreira terminou a 2 de Outubro de 1667, dia em que faleceu cheio de honra e glória, sendo por isso com toda a justiça, que O Padre Caldas na sua obra “Guimarães, apontamentos, etc.” lhe dá a antonomásia do Lidador Vimaranense.

Consulte-se a “H. de Portugal Restaurado” do conde de Ericeira, bem como as “Memórias ressuscitadas da Antiga Guimarães”.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 49, Guimarães, 9 de Outubro de 1884]

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3 de abril de 2008

Um soneto da Viscondessa de Balsemão, com réplica do marido

Luís Pinto de Sousa Coutinho, 1.º Visconde de Balsemão (gravura de 1797, de Francesco Bartolozzi, a partir de obra de Domingos António de Sequeira)

Da obra poética da Viscondessa de Balsemão faz parte um soneto onde realça a constância de uma flor, a perpétua, ao qual respondeu o seu marido, Luís Pinto de Sousa, com um outro soneto. Aqui ficam ambos.


À Perpétua. Pela Ilustríssima Senhora D. Catarina César de Lencastre.


Pastores destes vales habitantes
Pastores que viveis nesta Espessura
Quero de vós saber se por ventura
Há no mundo Perpétuas inconstantes.

Nos montes mais vizinhos e distantes
Entre vós a perpétua sempre dura,
Animada daquela igual ternura
De vossos corações firmes e amantes.

Por não ter de Alecrim a variedade,
Conserva sempre o ser de amor-perfeito,
Sem que entre nela o roxo da saudade.

O tempo lhe não muda o raro efeito
E sendo tenra flor, na realidade
Tem duração eterna em nosso Peito.


Em Louvor do Soneto antecedente, pelos mesmos consoantes.

Pinto de Sousa

Sobre as ondas do Minho os habitantes
Do líquido Elemento e da Espessura
Ouviram seus assentos, que à ventura
Sujeitam as suas Leis sempre constantes.

Aos ecos solitários e distantes
O Pastor os repete e já procura
Gravá-los sobre os troncos, que a brandura
Destes versos em si guardam amantes

Eles têm da Natura a variedade,
A força de animar o amor-perfeito
E de enxugar o pranto da saudade

Vede se pode haver mais raro efeito
Que atar o doce Amor à liberdade
Com o amor divino de teu peito!

Sonetos colhidos aqui

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2 de abril de 2008

Vimaranenses: Catarina Micaela Lencastre, Viscondessa de Balsemão

Nasceu esta ilustre dama e distinta poetisa, a quem seus contemporâneos cognominaram – a Safo portuguesa – a 29 de Setembro de 1749.

Pertencia pelo seu nascimento às nobres famílias de Vila Pouca e Asseca e pela cultura de seu espírito pertenceu À numerosa plêiade dos beneméritos das letras, com que Guimarães tanto se nobilita.

Filha de Francisco de Sousa da Silva Alcoforado, senhor de Vila Pouca e de D. Rosa Maria de Viterbo César e Lencastre, filha dos 2.os viscondes de Asseca, casou-se em 1772 por procuração com Luís Pinto de Sousa Coutinho, 1.° visconde de Balsemão, então governador da Capitania Geral de Mato Grosso e depois nosso Ministro em Londres, ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Em 1774 acompanhou seu marido para Londres e com o fim de aperfeiçoar seus conhecimentos não apareceu durante um ano nas reuniões da corte, entregando-se com toda a assiduidade ao estudo das línguas e literatura inglesa, francesa e italiana, findo o qual o sua casa se tornou o ponto de reunião dos homens mais distintos da Capital da Grã-Bretanha.

Voltando à pátria travou em Lisboa relações de íntima amizade com a Marquesa de Alorna, a celebrada Alcipe de cuja afeição nos ficaram documentos nas inúmeras poesias que reciprocamente se dedicaram: Achei Natércia amiga como dantes, termina a Marquesa um soneto dedicado à nossa insigne patrícia e que pode ler-se, assim como outras composições poéticas, dedicadas por Alcipe à nossa poetisa D. Catarina Micaela de Sousa César e Lencastre sob o anagrama Natércia, no tomo 2.º das – Obras poéticas da Marquesa de Alorna.

Em Lisboa como em Londres convivia com os mais dedicados cultores da poesia e das belas letras.

Das suas muitas poesias unicamente se imprimiram, segundo testifica o bibliógrafo Inocêncio F. da Silva, as seguintes: Ode ao Marquês de Pombal – Carinthia a Mirtillo, Ode – Soneto, feito pouco depois de receber o sagrado viático. Ficaram inéditas as seguintes, que o mesmo afirma ter visto Cora e Alonso, ou a Virgem do Sol, drama em três actos - As Solidões, poema em dois cantos (tradução) - Fábulas.

Atribui-se-lhe também a Apologia das obras novamente publicadas por Francisco Manuel em Paris, impressa nas obras deste poeta, e segundo o testemunho do Dicionário Popular mais algumas, sendo de notar o Soneto à morte do Gomes Freire o as poesias inspiradas pela revolução de 1820, merecendo o cognome de Safo portuguesa pelo modo como descrevia os encantos do amor.

A 4 de Janeiro de 1824, depois de haver recebido os sacramentos da igreja e de compor o soneto, que acima referimos, expirou quando o sacerdote, que lhe assistia aos últimos momentos, repetia a seu pedido dela essa poesia e na ocasião em que era recitado o primeiro terceto.

Publicámos, transcrevendo da obra do nosso bom amigo Caldas, este soneto:

Grande Deus, que do alto desse trono

Lanças o braço ao pecador contrito,

Escuta do remorso o humilde grito,

Das tuas leis perdoa o abandono:


Tu, da graça eficaz somente o dono,

Que nunca a pena igualas ao delito,

Dá-me sossego ao coração aflito,

Tão próximo a dormir o eterno sono.


Debaixo duma mágica aparência

Encobri os requintes da maldade;

Mas qual é hoje a triste consequência?


Não me negues, Senhor, tua piedade;

Tira-me do abismo da impudência,

Dá-me uma venturosa eternidade.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 47, Guimarães, 25 de Setembro de 1884]

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1 de abril de 2008

Memória de Alberto Sampaio, por Jaime de Magalhães Lima

Jaime de Magalhães Lima

"Grandes individualidades puderam formar e reger grandes governos, mas só a grandeza dos povos significará e alimentará a grandeza das nações. O primeiro acto de uma nova e mais justa concepção da história nacional será libertar-nos do fetichismo das individualidades e contemplarmos as energias da grei, tal qual aprendemos na lição magnífica que Alberto Sampaio nos legou."

Jaime de Magalhães Lima


Na noite de 7 de Abril de 1924, o escritor de Jaime de Magalhães Lima proferiu na Sociedade Martins Sarmento uma conferência sobre "Alberto Sampaio e o significado dos seus estudos na interpretação da História Nacional", onde analisou a relação que Sampaio tinha com a história de Portugal, ao mesmo tempo que nos deixa um testemunho impressivo da personalidade do historiador das Vilas do Norte de Portugal:

"Li um dia a Alberto Sampaio algumas passagens das Memórias de Kropotkine; falavam da ignorância simples e da obtusidade moral dos magistrados que se achavam à frente da administração do império moscovita e registravam a opressão, miséria e abandono do povo. Ouviu com atenção o libelo temeroso e eu, que lho repetia mais por lhe mostrar a finíssima arte de contar que ali estava, tão singela, que por lhe solicitar a simpatia com a desgraça que em sua substância patenteava, encontrei-o muito mais inclinado a reflectir na rectidão da causa que o comovia do que enlevado na perfeição da arte que a exprimia. Sob o homem tranquilo, regrado, sereno, pacífico e modesto habitava o apóstolo dos humildes que não se apavorava com os anátemas do anarquismo e antes lhes sentia a justiça e cogitava os remédios.

Por esse mesmo tempo – era isto no Verão de 1908 – uma noite, no vaguear da palestra verificámos que nas minhas jornadas pelo Minho já havia passado próximo de propriedades suas. E então falou-me delas. Visitava-as pouco. A casa estava deserta; não tinha lá família e não a tendo onde outrora a encontrava, aqueles lugares só lhe acordavam saudades e mágoas. Andavam entregues aos caseiros. Não sabia nem queria averiguar do zelo com que eram tratadas, nem da inteireza com que lhe era apartado o seu quinhão, e da possibilidade de acrescentar o rendimento. Havia quem dissesse que era muito prejudicado, mas estava lá gente que há muito morava lá e carecia daquilo para seu sustento. Não ia inquietá-la. E o mais da sua bondade resumiu-o num gesto de abdicação.

Na história, não o tentaram investigações de erudição pela erudição, nem especulações filosóficas, nem esplendores da arte, nem labirintos diplomáticos, nem quanto cativa o orgulho dos temperamentos aristocráticos; correu direito à morada dos humildes, ao labor e canseiras dos servos da gleba, fervorosamente as contemplou desde as origens até àquela hora em que as tinha diante dos olhos a tirar da terra o pão com o suor do rosto. Por certo poderia dizer com Wordsworth que “o amor procurou-o nas choupanas dos pobres. Seus mestres, de todos os dias, foram as árvores e os ribeiros, o silêncio que habita o céu estrelado, a paz que mora entre outeiros solitários”. “Nos jardins, disse-me, nada o cativavam as plantas exóticas. A todas as estranhas preferia as da nossa terra. Nenhumas achava mais belas que as nossas árvores com seus renovos da Primavera e a nudez austera dos Invernos”."

Jaime de Magalhães Lima, Alberto Sampaio e o significado dos seus estudos na interpretação da História Nacional. Conferência realizada na Sociedade Martins Sarmento, de Guimarães, em a noite de 7 de Abril de 1924. Guimarães, Edição da Sociedade Martins Sarmento, págs. 54-55.

Também publicado aqui.

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Vimaranenses: Soror Apolónia Maria do Santíssimo Sacramento

Entre esta modesta galeria de varões ilustres, que enobrecem o berço de Afonso Henriques, colocamos hoje o nome duma religiosa do convento de Nossa Senhora da Madre de Deus desta cidade, porque nem só os que brilham no século adquirem direito à estima e consideração dos vindouros.

Salvar do esquecimento os nomes que engrandeceram esses asilos de piedade e religião, que em breve desaparecerão de entre nós é uma missão que gostosos cumprimos.

Soror Apolónia Maria do Santíssimo Sacramento nasceu na freguesia de Santa Maria de Gémeos, deste concelho, entrando na idade de 11 anos no então Recolhimento da Madre de Deus, porque ainda se não haviam executado as bulas pontifícias, que o elevavam a convento. Foi durante toda a sua vida, não só como recolhida mas também como professa, religiosissimamente observante dos conselhos evangélicos, tomando-se eminente na devoção que constantemente tributou a Santíssima Virgem, e na pratica de todas as virtudes, especialmente na humildade, tornando-se a mínima entre as suas companheiras.

Passou os últimos 7 anos de sua vida enferma, vítima de uma hidropisia, que lhe forneceu ocasião de se tornar exemplar na virtude de paciência.

Recebidos os sacramentos, expirou a 25 de Setembro de 1717, manifestando-se-lhe no rosto uma formosura encantadora, o que, faz dizer a uma companheira – faleceu como um anjo – prenúncio da bem-aventurança que a aguardava.

Extraímos estas breves linhas do livro dos óbitos do referido convento, que merece ser consultado pelos preciosos documentos, que nos fornece para a história das Religiosas Capuchinhas desta cidade.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 47, Guimarães, 25 de Setembro de 1884]

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