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A mostrar mensagens de Abril, 2008

O baile do Visconde de Margaride

Vista actual da Casa do Conde de Margaride (fonte: Virtual Earth)
O memorável baile do aniversário do então Visconde de Margaride, realizado no seu palacete, no Largo do Carmo (hoje Martins Sarmento), que teve lugar na noite de 8 para 9 de Janeiro de 1874, e que seria objecto de uma crónica satírica de Camilo Castelo Branco, foi noticiado como se segue, no jornal Religião e Pátria do dia 10 daquele mês:
Baile Na noite de quinta para sexta-feira teve lugar o magnífico baile com que o sr. Visconde de Margaride quis obsequiara os seus amigos pessoais e políticos de todo o distrito no dia do seu natal. Às 10 horas da noite os aposentos destinados a tão esplêndida festa estavam cheios de convidados, e por essa hora também grande massa de povo parava defronte do palacete dos srs. viscondes de Margaride, para ver entrar o grande número de concorrentes ao baile e para gozarem as escolhidas peças de música que a banda marcial do regimento de infantaria n.º 3 executava com mestria, tocando a um pal…

O aniversário do Visconde de Margaride, por Camilo Castelo Branco

O Conde de Margaride, numa caricatura de José de Meira.
O Conde de Margaride, Luís Cardoso Martins da Costa, bacharel em filosofia, nasceu no dia 8 de Janeiro de 1836. Era filho de Henrique Cardoso de Macedo e de Luísa Ludovina de Araújo Martins. Aos 30 anos, casou com Ana Júlia Rebelo Cardoso de Meneses. Por decreto de 1 de Agosto de 1872, passou a usar o título de Visconde de Margaride; em 1874, tornou-se Conselheiro de Estado. Em 1877, foi agraciado com o título de Conde de Margaride. Destacou-se pela sua actividade política, tendo sido Governador Civil dos distritos de Braga e do Porto. Em Janeiro de 1874, ainda Visconde, foi mimoseado por Camilo Castelo Branco com um texto que foi publicado no primeiro dos quatro números das Noites de insónia, oferecidas a quem não pode dormir, onde o romancista satiriza a festa de aniversário do ilustre vimaranense.
REABILITAÇÃO DO SNR. VISCONDE DE MARGARIDE S. exc.ª festejou o seu natalício com um baile, em um dia de jejum, por uma noite de Janeir…

Notícias da Exposição Industrial de Guimarães de 1884 (1)

A Exposição Industrial de Guimarães de 1884 teve grande ressonância na imprensa local, regional e nacional daquela épica. Entre as inúmeras notícias que então se publicaram, destaca-se uma longa, detalhada e muito interessante reportagem publicada em 18 números do Jornal de Comércio, de Lisboa, de que a seguir se transcreve um excerto, onde se descreve a génese da Exposição e se dá conta da intervenção destacada que nela teve Alberto Sampaio, que nesse mesmo ano daria os seus primeiros passos como historiador, nas páginas da Revista de Guimarães. Os textos publicados no Jornal do Comércio são do Dr. Avelino da Silva Guimarães, da Sociedade Martins Sarmento e profundo conhecedor da indústria vimaranense.

"(...)

Estas considerações; o conhecimento do valor industrial dos povos do concelho de Guimarães, moderados no salário, sujeitos a trabalho até ao sacrifício; a decadência que se manifesta em parte das antigas indústrias vimaranense; - inspiraram a SOCIEDADE MARTINS SARMENTO a prom…

O Soldado Porto

O "Soldado Porto" (Fotografia de Tiago Laranjeiro)
A propósito do que aqui se escreveu sobre a estátua do Guimarães das duas caras, aqui fica uma fotografia recente da estátua que simboliza o Porto, e que hoje se encontra junto à Casa dos 24, obra do arquitecto Fernando Távora. O autor da fotografia que agora aqui se publica reparou especialmente no dragão que decora o capacete do soldado. A presença daquele bicho mitológico nesta estátua nada tem de particularmente intrigante, uma vez que o dragão é um dos elementos heráldicos do antigo brasão da cidade do Porto, onde aparecia sobreposto a uma coroa ducal, de onde foi adaptado para o emblema do maior clube desportivo daquela cidade. Brasão da Cidade do Porto (1837)
Esta estátua já aqui apareceu representada, a propósito do conflito brácaro-vimaranense de 1886, por figurar num desenho satírico publicado no jornal “Maria Rita”, que agora se volta a reproduzir.
[Clicar para saber mais]

À volta do Guimarães das "duas caras" (6)

A cara que ornamenta a couraça da armadura do Guimarães, sendo um pormenor irrelevante, deu origem a uma tradição que perdurou e que se colou à imagem de Guimarães e dos seus moradores. Há, todavia, na estátua, um elemento que, a nosso ver, será bem mais significativo, com clara intenção simbólica, que tem sido ignorado por completo: o emblema inscrito no escudo do guerreiro, representando uma árvore que envolve, com as suas raízes, um animal. É este elemento que sustenta a nossa convicção de que o Guimarães foi esculpido com a manifesta intenção de ser assumido como a personificação da cidade.

Emblema do escudo do Guimarães (Fotografia de Agostinho Ferreira)
A árvore do escudo é a oliveira, elemento que, desde a Idade Média, está associado a Guimarães, figurando no brasão da cidade. Trata-se da representação da oliveira que dá o nome à Praça Maior de Guimarães, que esteve na origem de uma notável série de milagres, registados em meados do século XIV. O animal é um leão, que em geral se…

À volta do Guimarães das "duas caras" (5)

Fotografia de Eduardo Brito A segunda cara do Guimarães, representada sobre o ventre do guerreiro, na couraça da armadura, está na origem da tradição das duas caras, apodo aplicado a Guimarães e aos vimaranenses. Esta representação não é, no entanto, um caso único. Braga também tem o seu duas caras. Trata-se de uma imponente estátua equestre, com alguns elementos iconográficos próximos do Guimarães, que está colocada num penedo onde se teria erguido a primitiva igreja do Bom Jesus, em Braga, no lugar conhecido como o Terreiro de Moisés, naquele santuário. Neste caso, a segunda cara aparece, não na armadura, mas no escudo que está preso no braço esquerdo do cavaleiro. É obra do escultor Pedro José Luís Foi oferecida em 1819, por Luís Castro do Couto, do Pico dos Regalados. A história de São Longuinhos (Longinus), contada por Manuel Anastácio, pode ser lida aqui. A tradição associada a este santo, em Braga, foi narrada por Viale Moutinho e está aqui.
Pormenor da fotografia que vai acima.

À volta do Guimarães das "duas caras" (4)

Pelo local onde esteve originalmente implantada, bem como pela sua iconografia, estamos em crer que a estátua do Guimarães foi mandada fazer com o propósito de dar corpo a uma figura tutelar que simbolizasse a então vila de Guimarães. As fontes mais antigas que nos falam desta peça referem-se-lhe como “a figura de Guimarães” ou “o Guimarães”. A esta luz, a não ser por obra de um inusitado sentido de auto-ironia dos vimaranenses responsáveis pela encomenda da obra, resulta difícil de entender a sua interpretação enquanto representação simbólica das duas caras, com toda a carga pejorativa desta expressão, dando razão a uma suposta duplicidade de carácter de Guimarães e dos vimaranenses. Parece-nos óbvio que a associação às duas caras surgiu depois da obra ter sido colocada na Casa da Alfândega, por efeito de uma analogia que nada teve a ver com a intenção inicial que lhe deu origem.

Por força da dimensão depreciativa da tradição das duas caras, têm surgido algumas tentativas, tão imagina…

À volta do Guimarães das "duas caras" (3)

Em finais de 1874, a Câmara decidiu proceder ao alinhamento das casas do lado do sul do campo do Toural com a fachada do lado terreiro de S. Francisco, o que implicou, entre outras obras, a demolição da alpendrada da alfândega do peixe, que suportava a estátua. A demolição teria início em meados de Maio de 1876. Por essa altura, a Câmara começou a estudar a possibilidade de transferir a figura do Guimarães do edifício da alfândega para os Paços do Concelho. Foi apeada no dia 11 de Agosto desse ano, tendo sido transferida para uma loja no hospício dos expostos, onde ficaria até 20 de Junho de 1877, dia em que foi erguida para o lugar onde ainda hoje se encontra, sob um pedestal que havia sido preparado previamente. A notícia, encontrámo-la numa breve do jornal Religião e Pátria de 23 de Junho de 1877: “Guimarães – Está no seu novo posto a estátua de Guimarães. Depois de escodada, para se lhe tirarem as grosseiras pinturas e douraduras que a desfeavam, foi quarta-feira de tarde içada par…

À volta do Guimarães das "duas caras" (2)

Pormenores da estátua de Afonso Henriques, do palacete de Vila Flor, à esquerda, e do Guimarães, à direita

A figura que representa Guimarães, que se encontra na platibanda do edifício da antiga Casa da Câmara, na Praça da Oliveira, é uma peça escultórica talhada em granito fino, certamente contemporânea das estátuas do escadório do Bom Jesus, em Braga, e das que representam os reis das duas primeiras dinastias que contornam a fachada Nascente e metade da fachada Norte do palacete de Vila Flor, em Guimarães. Uma observação atenta permitirá concluir que tem a mesma filiação artística destas últimas. A comparação de alguns pormenores do Guimarães, com outros tantos da estátua de Afonso Henriques que encima o pórtico do palacete voltado a Norte, parece apontar no sentido de ambas as peças terem a mão do mesmo escultor. Embora ainda se desconheça quase tudo acerca da história do Guimarães, podemos datá-lo da primeira metade do século XVIII, sendo evidentes os seus traços ao gosto da época. E…

À volta do Guimarães das "duas caras" (1)

O Guimarães

A figura que personifica Guimarães, que esteve originalmente na Casa da Alfândega (junto ao local onde está o troço de muralha em que se lê Aqui nasceu Portugal) e que hoje se encontra em cima da antiga Casa da Câmara, na Praça da Oliveira, tem sido objecto de alguma discussão e de interpretações manifestamente erróneas que temos visto reproduzidas em publicações de entidades insuspeitas. Nos próximos dias, iremos tentar perceber um pouco melhor essa figura que está na origem do epíteto das duas caras, aplicado a Guimarães e aos vimaranenses. Começaremos por notar que o Guimarães não é filho único, uma vez que tem manifesto parentesco com um género de representações tutelares que conhecemos em outras terra, como o Basto, originalmente um guerreiro lusitano da família dos que se guardam na Sociedade Martins Sarmento, de Cabeceiras de Basto, o Porto, a estátua do soldado que se ergue junto à Casa dos 24, na Sé do Porto, ou o Lamego, da fonte do Jardim da República, na terra de…

A Fonte de D. João

Fotografia de Eduardo Brito (pormenor)

Quando passámos por coisas que sempre nos habituámos a olhar, sabemos que as conhecemos, sem necessidade de as questionar. Basta olhar um pouco mais de perto: não raras vezes nos surpreendemos quando do olhar fazemos ver. As pedras, no seu silêncio, guardam, por vezes, segredos que o tempo já engoliu. São assim as pedras de Guimarães: um infinito manancial de memórias, umas já contadas, outras ainda por contar. Pedras há por aí que nos falam da história de Guimarães, de Portugal e mesmo do Império que este país construiu com a aventura das descobertas. Um bom exemplo desta ideia podemos encontrá-lo no Largo da Misericórdia, naquela fonte discreta que se encosta ao muro da antiga casa nobre dos Coutos, hoje Tribunal da Relação. Por baixo das armas nacionais, elas próprias com a sua originalidade, pode-se ler uma inscrição, à primeira vista, enigmática: Ioão Primeiro Rei do Reino UnidoMenistro aqvi fes por a Estevão Ivsto,o qval com esta Fonte Magest…

Vimaranenses: João Rebelo Leite

Nas virtudes nas letras e nas armas sempre Guimarães floresceu como pátria de filhos, que em qualquer destas nobres profissões sempre igualaram, se não excederam, os mais beneméritos que Portugal conta nos seus anais. E uma mesma família ilustrava a pátria já em uma já em outra. É prova João Rebelo Leite, o Lidador vimaranense, irmão do Padre Torcato Peixoto de Azevedo autor das “Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães”, cuja biografia pode ver-se no número 27 do “Espectador”, filho de João Rebelo Leite e D. Isabel Peixoto de Azevedo. Nascera o nosso ilustre patrício no começo do ano de 1621 e aos dezanove anos de idade acompanha seu pai, capitão de ordenanças de Guimarães, a Lamas de Mouro, Melgaço, onde recebendo dos castelhanos oito feridas, é preso e conduzido ao hospital de Pontevedra e daí a Compostela, onde pôde escapar-se. Tam contratempo mais lhe acendeu no ânimo o desejo de marchar contra os inimigos da pátria e por isso passou a servir no exército do Alentejo. Aqui uma bala…

Um soneto da Viscondessa de Balsemão, com réplica do marido

Luís Pinto de Sousa Coutinho, 1.º Visconde de Balsemão (gravura de 1797, de Francesco Bartolozzi, a partir de obra de Domingos António de Sequeira) Da obra poética da Viscondessa de Balsemão faz parte um soneto onde realça a constância de uma flor, a perpétua, ao qual respondeu o seu marido, Luís Pinto de Sousa, com um outro soneto. Aqui ficam ambos.

À Perpétua. Pela Ilustríssima Senhora D. Catarina César de Lencastre.

Pastores destes vales habitantes
Pastores que viveis nesta Espessura
Quero de vós saber se por ventura
Há no mundo Perpétuas inconstantes.
Nos montes mais vizinhos e distantes
Entre vós a perpétua sempre dura,
Animada daquela igual ternura
De vossos corações firmes e amantes.
Por não ter de Alecrim a variedade,
Conserva sempre o ser de amor-perfeito,
Sem que entre nela o roxo da saudade.O tempo lhe não muda o raro efeito
E sendo tenra flor, na realidade
Tem duração eterna em nosso Peito.
Em Louvor do Soneto antecedente, pelos mesmos consoantes.
Pinto de SousaSobre as ondas do Minho os h…

Vimaranenses: Catarina Micaela Lencastre, Viscondessa de Balsemão

Nasceu esta ilustre dama e distinta poetisa, a quem seus contemporâneos cognominaram – a Safo portuguesa – a 29 de Setembro de 1749. Pertencia pelo seu nascimento às nobres famílias de Vila Pouca e Asseca e pela cultura de seu espírito pertenceu À numerosa plêiade dos beneméritos das letras, com que Guimarães tanto se nobilita. Filha de Francisco de Sousa da Silva Alcoforado, senhor de Vila Pouca e de D. Rosa Maria de Viterbo César e Lencastre, filha dos 2.os viscondes de Asseca, casou-se em 1772 por procuração com Luís Pinto de Sousa Coutinho, 1.° visconde de Balsemão, então governador da Capitania Geral de Mato Grosso e depois nosso Ministro em Londres, ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Em 1774 acompanhou seu marido para Londres e com o fim de aperfeiçoar seus conhecimentos não apareceu durante um ano nas reuniões da corte, entregando-se com toda a assiduidade ao estudo das línguas e literatura inglesa, francesa e italiana, findo o qual o sua casa se tornou o…

Memória de Alberto Sampaio, por Jaime de Magalhães Lima

Jaime de Magalhães Lima"Grandes individualidades puderam formar e reger grandes governos, mas só a grandeza dos povos significará e alimentará a grandeza das nações. O primeiro acto de uma nova e mais justa concepção da história nacional será libertar-nos do fetichismo das individualidades e contemplarmos as energias da grei, tal qual aprendemos na lição magnífica que Alberto Sampaio nos legou."
Jaime de Magalhães Lima

Na noite de 7 de Abril de 1924, o escritor de Jaime de Magalhães Lima proferiu na Sociedade Martins Sarmento uma conferência sobre "Alberto Sampaio e o significado dos seus estudos na interpretação da História Nacional", onde analisou a relação que Sampaio tinha com a história de Portugal, ao mesmo tempo que nos deixa um testemunho impressivo da personalidade do historiador das Vilas do Norte de Portugal:
"Li um dia a Alberto Sampaio algumas passagens das Memórias de Kropotkine; falavam da ignorância simples e da obtusidade moral dos magistrados qu…

Vimaranenses: Soror Apolónia Maria do Santíssimo Sacramento

Entre esta modesta galeria de varões ilustres, que enobrecem o berço de Afonso Henriques, colocamos hoje o nome duma religiosa do convento de Nossa Senhora da Madre de Deus desta cidade, porque nem só os que brilham no século adquirem direito à estima e consideração dos vindouros. Salvar do esquecimento os nomes que engrandeceram esses asilos de piedade e religião, que em breve desaparecerão de entre nós é uma missão que gostosos cumprimos. Soror Apolónia Maria do Santíssimo Sacramento nasceu na freguesia de Santa Maria de Gémeos, deste concelho, entrando na idade de 11 anos no então Recolhimento da Madre de Deus, porque ainda se não haviam executado as bulas pontifícias, que o elevavam a convento. Foi durante toda a sua vida, não só como recolhida mas também como professa, religiosissimamente observante dos conselhos evangélicos, tomando-se eminente na devoção que constantemente tributou a Santíssima Virgem, e na pratica de todas as virtudes, especialmente na humildade, tornando-se a m…