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Mensagens

A mostrar mensagens de Janeiro, 2008

O Regicídio segundo Raul Brandão

D. Carlos de Bragança, Pelourinho de Vila Viçosa, aguarela sobre papel, 1885. Da col. da Sociedade Martins Sarmento
1 de Fevereiro de 1908Está uma tarde linda, azul, morna, diáfana. Converso na Livraria Ferreira com o Fialho, quando entra esbaforido e pálido o pintor Artur de Melo, que conheço do Porto, e diz num espanto, ainda transtornado: – Acabam de matar agora o rei! - O quê?! – Eu vi, ouvi os tiros, deitei a fugir... Fecham-se à pressa os taipais das lojas. Uma mulher do povo exclama: – Mataram agora o rei. Vi os que o ataram. Eram três. Dois lá estão estendidos. Passou um agora por mim, a rasto, com a cabeça despedaçada!... Há palmas para o lado da praça da Figueira. Anoitece. Um esquadrão desemboca da Rua da Mouraria... Mais tarde, no comboio, um empregado do Jorge O’Neill confirma: – Vi do escritório um polícia correr atrás dum dos assassinos. A certa altura caiu-lhe o chapéu: era calvo. O polícia varou-o com um tiro. E, pela narração do Melo, do Armando Navarro e de outros que …

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 17

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Primeira parte do texto publicado por Francisco Martins Sarmento no n.º 6 do 28 de Novembro:
As satisfações de Braga De há dias para cá o santo e a senha dos advogados da causa braguesa são as satisfações plenas, dadas pela cidade de Braga ao concelho de Guimarães, e cm vista das quais brada aos céus o orgulho dos vimaranenses, mais inexoráveis que Afonso XII e a Alemanha nos acontecimentos sobejamente conhecidos, para perdermos tempo com a sua especificação. Esta prova da nossa “sem razão” tem revoado pelos ecos do jornalismo; foi produzida nas solemnia verba da comissão bracarense oriunda do meeting do dia 17, o celebérrimo rneeting, e chegou mesmo a ser exibida no parlamento, sem esquecer o paralelo Afonso XII e da Alemanha, pelo digno presidente da câmara municipal de Braga. Prova isto que os nossos vasinhos bragueses reconheceram ab initio, que o conflito não tinha um carácter particular, como trapaceavam alguns sofistas; proviera de um atentado gravíssimo, constit…

Vimaranenses: Padre Torcato Peixoto de Azevedo

Era filho de João Rebelo Leite e D. Isabel Peixoto de Azevedo, tendo nascido aqui a 2 de Maio de 1622. Seguindo a vida eclesiástica, aplicou-se desde criança até à velhice no estudo incessante da história sagrada e profana, não lhe merecendo menos atenções e cuidados a genealogia, em que se tornara eminente, como gloriosamente o provam os 35 volumes de folha que deixou escritos 22 dos quais em 1845 estavam em poder de um seu parente, Manuel Peixoto de Guimarães Freitas e Miranda. Teve a honra de ser o primeiro monógrafo de Guimarães, deixando escritas as "Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães", que só viam a luz da publicidade em 1845, editadas no Porto, na tipografia da Revista, 140 anos depois da morte do autor. os 22 volumes, que ficaram inéditos ocupavam-se das biografias de diversos reis de Portugal e Castela, duques de Lorena e Bragança, descendência da Casa de Áustria e da real de Castela, contendo uma censura a Fr. Bernardo de Brito e Manuel de Faria e Sousa em def…

Qual é a obra? (2)

O Castelo de Guimarães, cerca de 1910.
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_____________________________Pela nossa terra
Consulta Pública
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Qual é a obra mais urgente e de mais alcance que a Câmara deve empreender?

A nossa Guimarães, cidade de históricas recordações e de actividade bem conhecida e bem manifesta no progresso das suas afamadas industrias, filha primogénita daquela pátria que, num golpe de montante, marcou o seu lugar entre as nações da Europa e, num golpe de vela enfunada das suas naus, por mares nunca dantes navegados”, vinculou o nome de Portugal em todos os recantos do mundo, encontramo-la hoje abandonada pelos municípios (1), como uma desditosa Ariadna, e cativa como a águia numa gaiola de gaze política. É um dos filhos que mais a amam, daqueles que já sentiram a amarga nostalgia do desterro, que pressuroso também corre à patriótica chamada que V... fez no seu bem orientado jornal. E, se me dá licença de emitir a minha humilde opinião, considero grandiosa e de ele…

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 16

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Neste texto, Francisco Martins Sarmento descreve um comício realizado em Braga no dia 17 de Janeiro de 1886.
O “meeting” do dia 17 em Braga Verdadeiramente fantástico! O cenário é pouco mais ou menos o mesmo que o dos meetings do dia 28 e 29 de Novembro; os actores são os mesmos. Como então, fraternizam todos os partidos e fragmentos dos partidos políticos, e, como então, os cronistas acham o espectáculo imponente. A cratera da indignação, ainda como naqueles gloriosos dias, referve no meio da assembleia; foi aquecida do sábado para domingo e calculou-se que havia de fazer explosão a uma hora, marcada pelo cronómetro dos vereadores da terra. Sim; há a maior os vereadores com o seu estandarte, e as portas das casas estão fechadas, não se percebe bem para que. É domingo. De resto, trata-se, sempre como nos dias 28-30, duma santa causa, nada menos desta vez que a defesa da integridade do território.., Os oradores ajeitam-se para carregar a fundo os invasores com a espada fl…

Vimaranenses: Fr. Dâmaso da Silva

Filho de Paulo de Freitas, foi, depois de fr. Martinho da Apresentação, o segundo filho ilustre de Guimarães, que assumiu as honras quase episcopais do generalato beneditino. Chamado no século Miguel da Silva recebeu a cógula no mosteiro de S. Tirso com o nome de fr. Dâmaso de S. Miguel a 11 de Fevereiro de 1610. Depois de trinta e um anos de valiosos serviços prestados à sua congregação, sempre com provada capacidade, foi na junta de Maio de 1641 eleito provincial da província de S. Bento no Brasil. O seu zelo o actividade no desempenho deste encargo fizeram surgir-lhe atritos e tribulações domésticas, que removeu o dissipou enérgico e justiceiro, com o auxílio do governador da Baia. Regressou daqui ao mosteiro de Rendufe, neste reino, e passando daqui ao de Travanca exerceu nele o cargo de procurador do Tombo e mais tarde de D. abade em 1653. Sempre notável pela sua inteligência e indefessa actividade ocupou ainda os lugares em 1656, de procurador-geral na corte em Lisboa; em 1659 D. a…

Humor e peixeirada

Em 1885 e 1886, publicava-se no Porto a Maria Rita, um periódico humorístico e literário, sob direcção artística de J. M. Pinto e direcção literária de Sá de Albergaria e António Cruz. Durante a crise resultante dos incidentes de 28 de Novembro de 1885, dedicou quatro páginas centrais ao conflito brácaro-vimaranense, com ilustrações da autoria do seu director artístico, que já aqui demos a conhecer. Acrescentaremos agora algumas informações que permitam contextualizar um pouco melhor cada uma dessas ilustrações.

Uma bernarda... minhota

[Clicar na imagem para ampliar]
"Braga, a Fiel, na pessoa dos snr. Valada, agrediu Guimarães, o glorioso Berço da Monarquia, na pessoa do snr. de Margaride. A batalha travou-se renhida e violenta, e as duas cidades batem-se furiosas. Braga armada dos pés à cabeça, ergue os seus tamancos; Guimarães armada até aos dentes... dos seus garfos, resiste corajosa ao ataque, esperando que o snr. Valada volte costas! E o Porto, de braços cruzados, jura aos seus…

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 15

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Revisão da imprensa de Braga, feita por Francisco Martins Sarmento, no n.º 5 do 28 de Novembro.
“Scripta manent” Desde que fomos expulsos da Junta Geral do Distrito até ao dia 15 de Janeiro “os directores da mentalidade bracarense” escreviam: “Se Guimarães nos quer ingratamente deixar, faça-o; mude de ares. “ (O Constituinte, n.° 539). “Querem ir para o Porto? Pois vão com Deus. Ninguém de Braga os vai esperar ao caminho. Boa viagem, senhores, e por lá muitos anos. Podiam ter principiado por dizer isso. “ (A Voz do Distrito, n.° 13).
“E então nós os bracarenses estamos tão contristados com os desejos daquela santa gentinha, que nos é completamente indiferente que ela continue, ou não, a fazer parte do nosso distrito. Para o Japão é que eles deviam ir, certos de lhe ficarem muito bem tais sentimentos, e de ali fazerem excelente figura. Que marchem para lá com a ponte, e com a sé, e com o palácio, e que nos deixem.” (A Folha de Braga, n.° 496). “Vão com Deus, irmãozinhos. N…

Vimaranenses: João Baptista Felgueiras

João Baptista Felgueiras, por Augusto Roquemont (retrato a óleo sobre tela, da colecção da Sociedade Martins Sarmento)

Este nosso distinto compatrício, de quem o ilustre bibliógrafo Inocêncio da Silva ignora a pátria, e ao qual o Dicionário Popular dá nascido em Guimarães pouco antes de 1790, nasceu aqui, na quinta de Cedofeita, freguesia de S. Miguel do Castelo, a 6 de Abril de I787, sendo baptizado na respectiva igreja a nove do mesmo mês e ano. Filho de Manuel José Baptista Felgueiras – e não do desembargador Manuel Augusto Felgueiras, como se lê no Dicionário Popular – e de sua mulher D. Rita Clara Cândida - e não D. Inês Felgueiras - deu-se à carreira das letras formando se em direito na Universidade de Coimbra. Seguindo a magistratura, exerceu com plausível zelo os cargos de juiz de fora em Viana, corregedor e procurador-geral da coroa, em que se tornou distintíssimo, indo mais tarde sentar-se nas cadeiras do supremo tribunal de justiça. Eleito deputado as cortes depois da revoluçã…

Qual é a obra? (1)

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_____________________________Pela nossa terra
Consulta Pública
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Qual é a obra mais urgente e de mais alcance que a Câmara deve empreender?"Respondendo à consulta pública que a “Alvorada” no seu último número fez aos munícipes Vimaranenses, vou dar também a minha opinião sobre o caso, mesmo que esta venha a ser rejeitada por todos os que me lerem. Segundo o meu modo de pensar, o melhoramento de maior utilidade pública que a Câmara devia empreender com a máxima urgência, era cm conseguir de harmonia com o governo em elevar o Liceu nacional a central. Talvez isto pareça à ilustre Vereação um problema difícil de resolver e ao mesmo tempo não menos difícil de conseguir. Porém atendendo às circunstancias que vou apresentar, parece me que isso seria fácil de obter-se. Temos aí a Escola Industrial com um corpo docente competentemente habilitado, com um belo laboratório de química e com bastantes e bons aparelhos de física; tudo incorporado no Liceu …

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 14

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Conclusão da terceira edição da Revista das Folhas de Braga, do jornal 28 de Novembro, pela pena de Francisco Martins Sarmento.

Alguma folha braguesa mais comedida de língua, como a Voz do Distrito, e que finge manter-se na estacada a disputar sobre os factos, dá nos um espectáculo igualmente pouco edificante. Escolhamos um exemplo: – o crime das assuadas foi ou não coisa premeditada? Não contando os votos da junta geral do distrito e da câmara municipal de Braga, é fácil de mostrar “com textos” que, exceptuando a Correspondência do Norte, todas as folhas, tratando do assunto, dizem mais ou menos explicitamente que, pelo menos, a segunda e terceira assuada foram muito premeditadas. Scripta manent. Pois apesar disso, a Voz do Distrito lá torna com a cantilena que toda a imprensa bracarense é concorde em afirmar que as assuadas não foram premeditadas. Desculpemos a semi-sisuda Voz do Distrito; mas, se isto não é a dialéctica da bisbilhotice, é a doce ilusão dos que pen…

Qual é a obra?

Nos dias seguintes à instauração da República, em Outubro de 1910, Portugal é atravessado por uma vaga de mudança que se estende pelos diferentes níveis da vida pública e privada. Em Guimarães também foi assim, com ideias e projectos que todos os dias iam sendo lançados para a praça pública. Por essa altura, foi relançado um jornal republicano, a Alvorada, que tivera uma curta existência em 1907, logo terminada, por força da instauração da ditadura de João Franco. Na segunda série, manteve o mesmo director, A. L. de Carvalho, e teve como colaboradores algumas das figuras mais destacadas da Guimarães daqueles dias revolucionários, como Alfredo Pimenta, Alfredo Guimarães, Jerónimo de Almeida, Mário Cardoso, Abel Cardoso, Capitão Luís Augusto de Pina Guimarães ou Alberto Rodrigues. No seu último número de 1910, a Alvorada lançou uma consulta pública com que pretendia plebiscitar qual seria“aquela obra ou aquele melhoramento que mais satisfaça aos interesses gerais da colectividade”. Nos …

Vimaranenses: Padre José Pinto Pereira

Veio à luz a 30 de Março de 1659 tendo por progenitores a Jerónimo Vaz de Sá e D. Jerónima da Cunha. Dado à vida eclesiástica, a ela se entregou a incessante leitura e aturado estudo enriquecendo as letras com várias produções suas em português, italiano e latim, sobressaindo entre estas o "Apparatus historicus" e não sendo menos curiosa a que intitulou "Benedictus XIII, Summus Eclesia Pontifex Gratia Benedictus, etc. Expedicionário em Roma no longo espaço de 28 a 32 anos, não esqueceu ali a pátria, antes lembrado sempre se a engrandecer, foi incansável nos malogrados trabalhos intentados na Sé Apostólica para a beatificação de D. Afonso Henriques, em que tanto se empenhavam os cónegos regrantes de Santa Cruz de Coimbra. Regressando ao reino por ordem real, faleceu a 17 de Fevereiro de 1733, tendo em Lisboa pomposíssimas exéquias, mandadas celebrar em sua honra por el-rei D. João V em atenção aos seus valiosíssimos serviços. Era ainda este nosso ilustre patrício fidalgo da …

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 13

...continuado daquiAqui se inicia a terceira edição da Revista das Folhas de Braga, notas de leitura da imprensa bracarense publicadas por Francisco Martins Sarmento no jornal 28 de Novembro.
Por honra de Braga A despedir. – Temos diante de nós um maço de folhas bracarenses, e todavia nada encontramos digno de revista; porque, não havendo sido refutado um só dos factos, constantes da contrariedade, que no §. “Verdade” opusemos ao seu libelo famoso, e não querendo, nem devendo sair do terreno da discussão urbana já por exigências da nossa educação, já pelo respeito que nos merece o publico honrado, para o qual unicamente escrevemos, toda aquela papelada não dá uma gota de replica, por mais espremida que seja. Factos! bem se imporiam os nossos feros adversários que cada uma das suas afirmativas seja destruída, sem poder levantar mais cabeça! Salvas excepções, raríssimas como o melro branco, todo o seu fito foi continuarem na imprensa a assuada da rua de Água, como para dissipar qualquer d…