31 de janeiro de 2008

O Regicídio segundo Raul Brandão


D. Carlos de Bragança, Pelourinho de Vila Viçosa, aguarela sobre papel, 1885. Da col. da Sociedade Martins Sarmento

1 de Fevereiro de 1908
Está uma tarde linda, azul, morna, diáfana. Converso na Livraria Ferreira com o Fialho, quando entra esbaforido e pálido o pintor Artur de Melo, que conheço do Porto, e diz num espanto, ainda transtornado: – Acabam de matar agora o rei! - O quê?! – Eu vi, ouvi os tiros, deitei a fugir...
Fecham-se à pressa os taipais das lojas. Uma mulher do povo exclama: – Mataram agora o rei. Vi os que o ataram. Eram três. Dois lá estão estendidos. Passou um agora por mim, a rasto, com a cabeça despedaçada!... Há palmas para o lado da praça da Figueira. Anoitece. Um esquadrão desemboca da Rua da Mouraria... Mais tarde, no comboio, um empregado do Jorge O’Neill confirma: – Vi do escritório um polícia correr atrás dum dos assassinos. A certa altura caiu-lhe o chapéu: era calvo. O polícia varou-o com um tiro.
E, pela narração do Melo, do Armando Navarro e de outros que assistiram, reconstituo assim a tragédia:
O comboio descarrilara. Seguia atrasado. Durante o trajecto, o rei não fumou nem jogou, como costumava. Vinha apreensivo.
O Malaquias de Lemos contou que na véspera, em Vila Viçosa, o rei jogava com o príncipe. Era ao entardecer. Na chaminé um grande braseiro. Trouxeram-lhe uma carta. Para a ler melhor levantou-se, chegando-se à janela. Duas vezes a percorreu com a vista, e depois rasgou-a em bocadinhos, que atirou ao lume. Petrificou-se um momento, envolto na sombra... – El-rei não joga? – perguntou o príncipe. – Jogo, jogo... – Sentou-se, jogou, mas tão preocupado que quase não jantou nesse dia.
Nem uma nuvem. “Tarde sem par” – escreveu Ramalho. – Linda tarde para uma bomba – exclama uma menina da alta, na ponte da estação. Havia, é natural, um certo receio, e a duquesa de Palmela, ao ouvido de João Franco: – Não haverá perigo? – V. Exa. vai ver que ovação! – Tinha-lha preparado para a récita da noite, em S. Carlos. O rei e a rainha detiveram-se uns minutos, com o João Franco e o Vasconcelos Porto, que queria mandar vir um esquadrão de cavalaria para acompanhar o rei. D. Carlos opôs-se. O carro descoberto partiu a chouto, com toda a família real junta. Ao pé da estátua, um grupo... Disseminados pela Arcada, alguns polícias e, sentado num banco da praça, um homem de varino, que veio, sem precipitação, colocar-se à porta do Ministério do Reino.
Os empregados da Fazenda tinham-no notado. Seria um bufo? Os bufos eram tantos, que se não conheciam uns aos outros. – "Eu assisti – diz o Navarro. – Fui para lá uma hora antes fumar o meu charuto. Três descargas cerradas partiram da Arcada do Ministério da Fazenda. Ficou tudo desorientado. Os polícias deitaram a fugir..." Um negociante da Rua de S. Julião teve de os sacudir da escada. "Eu estava a quatro passos – confirma o pintor Melo. – Um homem subiu às traseiras do carro, olhou o rei cara a cara e deu-lhe um tiro de revólver. Vi um fumozinho branco sair-lhe do pescoço. O rei voltou-se e, cem anos que eu viva, nunca mais me esquece a expressão de espanto daquela máscara. Disse uma palavra que não percebi bem..." – "Ao primeiro tiro – continua o Navarro – a cabeça do rei descaiu para a frente, ao segundo tombou para o lado." O Buíça, que tirara a carabina debaixo do gabão, apontava e descarregava. O príncipe real ergueu-se – caiu varado. A rainha, louca de dor, sacudia o Alfredo Costa com um ramo de flores. – Então não acodem?! Não há quem me acuda?! – Ninguém. Um cartucho falhara ao Buíça: sacou-o, e ia apontar outra vez, quando o Francisco Figueira o estendeu à cutilada. Ouvi que, logo aos primeiros tiros, alguém procurara intervir – mas uma roda de gente desconhecida protegeu-o. Sucederam-se então os tiros sem interrupção. Muita gente falou em descargas... A Polícia disparava os revólveres a torto e a direito. O Correia de Oliveira esteve para ser morto: – Vinha de chapéu alto e foi o que me valeu!... Um polícia avançou direito a mim, com o revólver apontado, exclamando como um doido: – Matei agora um! matei agora um!
Correu hoje que o João Franco se suicidara e que o tinham acabado a tiro quando saía do Paço.
O infante D. Afonso seguia desvairado atrás do carro, com o revólver em punho, dizendo:
– O mano nunca quis ouvir os conselhos da mãe!
Depois, no Arsenal, para onde foram conduzidos o rei e o príncipe, teve este movimento colérico: bater no João Franco.
Acusam à boca cheia o João Franco – que não tomou precauções para o rei – de se meter por um corredor, quando foi ao Arsenal, e de mais tarde endireitar por uma cavalariça, para se enfiar na carruagem. De alguns ministros diz-se que, aos primeiros tiros, se esconderam no sótão dos ministérios, entre a papelada e as cadeiras sem fundo.
A rainha, no Arsenal, disse ao João Franco: – Veja a sua obra...
O rei chegou ao Arsenal já sem vida; ao príncipe custou-lhe muito a morrer. Foram ungidos depois de mortos. O padre não teve escrúpulos, porque os médicos garantiram-lhe que a vida podia prolongar-se por meios artificiais.
Do Arsenal seguiu a marcha trágica para as Necessidades: num carro, a rainha e o D. Manuel; noutro carro, o cadáver do rei, que a custo conseguiram meter lá dentro, e que o oficial de serviço amparava, e, no último, o duque de Bragança. Que se iria seguir? A revolução? Um negrume, o terror inesperado, afasta do Paço todos os que lá deviam estar àquela hora, Vem a noite... Se seis tambores fossem rufar para diante do Paço, a Monarquia acabava hoje mesmo. Espera-se tudo, espera-se o pior. E cada um trata de não se comprometer, ou de se comprometer o menos possível...
A D. Amélia entrou no Paço toda ensanguentada. As meias tinham-se-lhe colado às pernas, o sangue secara, e foi preciso arrancar-lhas.
Frase cruel dum popular:
– Foi caçado como ele caçava os javardos – e em tempo de defeso.
Raul Brandão, Memórias.
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Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 17

...continuado daqui

Primeira parte do texto publicado por Francisco Martins Sarmento no n.º 6 do 28 de Novembro:


As satisfações de Braga

De há dias para cá o santo e a senha dos advogados da causa braguesa são as satisfações plenas, dadas pela cidade de Braga ao concelho de Guimarães, e cm vista das quais brada aos céus o orgulho dos vimaranenses, mais inexoráveis que Afonso XII e a Alemanha nos acontecimentos sobejamente conhecidos, para perdermos tempo com a sua especificação.

Esta prova da nossa “sem razão” tem revoado pelos ecos do jornalismo; foi produzida nas solemnia verba da comissão bracarense oriunda do meeting do dia 17, o celebérrimo rneeting, e chegou mesmo a ser exibida no parlamento, sem esquecer o paralelo Afonso XII e da Alemanha, pelo digno presidente da câmara municipal de Braga.

Prova isto que os nossos vasinhos bragueses reconheceram ab initio, que o conflito não tinha um carácter particular, como trapaceavam alguns sofistas; proviera de um atentado gravíssimo, constituindo um casus belli, como o da Alemanha e Espanha, salvas as proporções, entende-se, e devendo fazer correr sangue em jorros, se não fossem dadas satisfações plenárias. Ora ainda bem que nos entendemos; e creiam os nossos vizinhos que, se as satisfações que nos deram podem contentar a Alemanha, não lhes daremos pela nossa parte motivos para nos acharem mais soberbos que os formidáveis teutões.

À cautela, porém, sempre esmiucemos as tais satisfações. Aninham-se elas, ao que parece, numa acta da câmara municipal de Braga e noutra da Junta Geral do Distrito, e ambas datadas de 30 de Novembro de 1885. Data de mau agouro, porque neste dia 30 a história reza da celebração de uma sessão da Junta, contra cuja legalidade a Câmara de Guimarães e os procuradores deste concelho haviam protestado na véspera.

A satisfação da Câmara de Braga deve ter precedido algumas poucas horas a satisfação da Junta Geral. A satisfação da câmara foi proposta pelo seu digno presidente, o deputado, a que já aludimos acima, e diz assim:

“A Câmara de Braga lastima que as aspirações da cidade não tenham sido ainda satisfeitas criando-se no liceu o curso complementar de ciências, mas (sic) deplora os acontecimentos que tiveram lugar no dia 28 contra os procuradores de Guimarães, sentindo que não se tivessem tomado as devidas precauções para os evitar.”

A Alemanha no lugar de Guimarães contentar-se-ia com semelhante satisfação? Duvidamos muito. Se a Alemanha fosse corrida à pedra e à lama pelas ruas de Braga; expulsa do seu parlamento provincial a pretexto de ter contrariado “as aspirações da cidade” com respeito à criação do curso complementar de ciências no seu liceu, e em seguida recebesse uma satisfação, que começava por “lastimar” que tais aspirações ainda não estivessem satisfeitas, a Alemanha provavelmente tomava a declaração como um cartel de desafio, e quando lesse que em segundo lugar a câmara de Braga deplorava o apedrejamento dos que tinham contrariado as aspirações, por cuja realização ela, câmara, suspirava em primeiro lugar, entendia com certeza que estavam a caçoar com ela, e não sabemos o que seria feito do reino de Braga, salvo se ele pudesse bater-se com vantagem contra o império germânico – o que não afirmamos, nem negamos.

A hermenêutica, como a lógica, são implacáveis, e aqui nos obriga ela a discutir, não se a acta da câmara de Braga contém uma satisfação a Guimarães, mas se os vereadores bracarenses estavam a troçar-nos pelo modo compatível com a sua gravidade senatorial. Diga-se a verdade inteira – não estavam. Lavrando aquela declaração na acta, nem o digno presidente da Câmara, nem os seus colegas pensavam em Guimarães. Se assim fosse, a acta terminaria pelas palavras tabelioas – e “manda que se tire cópia, que deve ser remetida etc.”

Que a acta teve um fim, isso não sofre a menor duvida; e sem os escoliastes da terra, o que a boa hermenêutica concluiria da análise do texto era que a câmara quis louvar com certa decência os arruaceiros do dia 28, os 4:000 peticionários do dia 29, que se associaram àqueles, dizendo-lhes que “lastimava”, como eles, que as aspirações da cidade não estivessem ainda satisfeitas; mas, ouvidos os sobreditos escoliastes, o fim principal não era propriamente este.

Aqui temos nós o primeiro expositor: é o Constituinte, e a sua opinião tem um valor inapreciável para o caso, porque um dos redactores desta folha bracarense figura entre os membros da comissão, filha do meeting de 17. Escrevia o Constituinte no seu n.° 538:

“A Câmara Municipal desta cidade na sua sessão ordinária de segunda-feira propôs e votou uma censura ao snr. marquez de Valada, governador civil. S. exc.ª começa a cheirar a defunto.”

Esta opinião não é singular. O Amigo do Povo, a cuja direcção pertence, segundo nos afirma pessoa fidedigna, outro membro da comissão, dizia no n.º 796:

“O presidente da nossa Câmara municipal ainda não pôde, como Calipso, consolar-se do caso. – Que! – exclama ele ferindo o solo com o seu bastão de marechal – e fui eu quem deu força à Junta Geral, eu? Se tal houvesse previsto, não hesitaria um momento, louvaria o marquês.”

E, como o Constituinte desse a este suelto uma interpretação torta, o Amigo do Povo no seu n.° 798 esclareceu o enigma até os seus últimos escaninhos:

“Pois nao vê o Constituinte que o Amigo do Povo se referia claramente ao voto de censura que a Junta mandou inserir na acta contra o snr. marquês de Valada por ocasião dos tumultos provocados pelos procuradores de Guimarães? Ignora o colega que o snr. presidente da Câmara censurou igualmente aquela autoridade?”

A Folha de Braga, que esgrimia denodadamente pelo snr. presidente da Câmara, não redarguiu palavra e não o fez de certo por ter trave na língua; mas, fundada talvez no direito de represálias, saía-se com esta:

“O snr. marquês de Valada que um dia nos mostrou uma carta que lhe dirigiu o snr. J. Pimentel, na qual este cavalheiro lhe jurava o maior apoio e a mais decidida lealdade, deve agora enviar-lhe um bilhete de visita a agradecer-lhe o obséquio de o ter mandado censurar pelos procuradores do distrito e ainda por outras coisas.”

E cá temos agora na dança a satisfação dada a Guimarães pela junta geral do distrito! E a opinião da Folha de Braga também não é singular neste ponto. O Constituinte, no número já citado, tinha escrito:

“Votos de censura. – Causou surpresa saber-se que a Junta Geral do Distrito na sua última sessão do quadriénio votara por unanimidade uma proposta de censura ao snr. marquês de Valada.”

No n.º 539, numa notícia desenvolvida afirmava que o instigador daquele voto de censura fora o snr. conselheiro Pimentel, comentando que o governador civil tinha sido “posto no olho da rua por indecente e má figura” e que o “ patrão (o snr. conselheiro) mandou-lhe passar atestado de inepto e de lorpa, de pouco seguro e de farçola pelos seus associados na firma social política, isto é, pelos procuradores à Junta Geral e pelos delegados eleitores dos pares do reino. “

A Correspondência do Norte (que, se não é inspirada por um outro cavalheiro da comissão, defende a todo o transe o partido progressista, de que ele era Braga é o chefe) e que – coisa estranha – advogava a causa do governador civil, quando os governamentais o atacavam por ter tolerado as arruaças, dizia igualmente no seu n.º 540:

“A moção de censura que a junta geral votou, lançando sobre o snr. marquês de Valada a responsabilidade da assuada, foi um acto de facciosismo e uma grave injustiça àquele funcionário. A causa deste procedimento deriva-se do desejo que tem muitos regeneradores de desalojarem o snr. marquês de Valada por outro compartidário mais do seu agrado.”

Abundando nestas ideias, a Voz do Distrito, n.º 12, órgão do governador civil e que por causa dos malditos votos de censura desancava às mãos ambas a Câmara Municipal de Braga e a junta geral do distrito, em nome da disciplina partidária, concluía que o facciosismo da Câmara e da Junta só provava que “estávamos em pleno império do disparate e da anarquia.”

[28 de Novembro, n.º 6, Guimarães, 25 de Janeiro de 1886]

continua aqui...

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Vimaranenses: Padre Torcato Peixoto de Azevedo

Era filho de João Rebelo Leite e D. Isabel Peixoto de Azevedo, tendo nascido aqui a 2 de Maio de 1622.
Seguindo a vida eclesiástica, aplicou-se desde criança até à velhice no estudo incessante da história sagrada e profana, não lhe merecendo menos atenções e cuidados a genealogia, em que se tornara eminente, como gloriosamente o provam os 35 volumes de folha que deixou escritos 22 dos quais em 1845 estavam em poder de um seu parente, Manuel Peixoto de Guimarães Freitas e Miranda.
Teve a honra de ser o primeiro monógrafo de Guimarães, deixando escritas as "Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães", que só viam a luz da publicidade em 1845, editadas no Porto, na tipografia da Revista, 140 anos depois da morte do autor.
os 22 volumes, que ficaram inéditos ocupavam-se das biografias de diversos reis de Portugal e Castela, duques de Lorena e Bragança, descendência da Casa de Áustria e da real de Castela, contendo uma censura a Fr. Bernardo de Brito e Manuel de Faria e Sousa em defesa da cidade do Porto.
Desse nosso incansável patrício, falecido a 25 de Junho de 1705, bem como das suas obras faz breve memória o Padre D. António Caetano de Sousa no sei "Apparat. à Hist. Gen. Da Casa Real Portug.", pag. 129 - n.º 149.
[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 27, Guimarães, 1 de Maio de 1884]
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30 de janeiro de 2008

Qual é a obra? (2)

O Castelo de Guimarães, cerca de 1910.

...continua daqui

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Pela nossa terra

Consulta Pública
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Qual é a obra mais urgente e de mais alcance que a Câmara deve empreender?

A nossa Guimarães, cidade de históricas recordações e de actividade bem conhecida e bem manifesta no progresso das suas afamadas industrias, filha primogénita daquela pátria que, num golpe de montante, marcou o seu lugar entre as nações da Europa e, num golpe de vela enfunada das suas naus, por mares nunca dantes navegados”, vinculou o nome de Portugal em todos os recantos do mundo, encontramo-la hoje abandonada pelos municípios (1), como uma desditosa Ariadna, e cativa como a águia numa gaiola de gaze política.

É um dos filhos que mais a amam, daqueles que já sentiram a amarga nostalgia do desterro, que pressuroso também corre à patriótica chamada que V... fez no seu bem orientado jornal.

E, se me dá licença de emitir a minha humilde opinião, considero grandiosa e de elevado alcance material a levantada ideia do nosso capitão Pina, exposta aqui no número anterior. Muito bem! Muito bem, mesmo, snr. Redactor!

Façamos do alto da cidade a Acrópole de Guimarães; facilitemos aos estranhos as relíquias do passado; ensinemos nossos filhos a que é preciso descobrirmo-nos diante daqueles monumentos de gloria, enegrecidos pelos séculos, batidos pelos aríetes e catapultas castelhanas, profundamente sulcados pelas garras leonesas, ensoberbecidos pelos gritos da independência da nossa nacionalidade que surgia por entre as vetustas paredes nuas do nosso soberbo castelo de Mumadona. É assim que eu compreendo os melhoramentos materiais desta terra, e, enquanto aos melhoramentos económicos, falarei depois se V... mo consentir.

Irmão Leigo.

(1) Exceptuemos a câmara que nos dotou com as águas.

***

Oferecendo a minha opinião humilde ao concurso do vosso jornal, direi: – A obra de mais urgência e de mais alcance que aos meus olhos se apresenta, é amputar aquele joelho do Campo da Feira (a casa do “Berrance”) e mais aquele tornozelo da rua dr. José Sampaio (a casa do “Recebedor”). Desta maneira se provará que a comissão administrativa não tem compromissos e completaremos assim duas obras comprometidas pela nefasta da política monárquica.

J.

***

No seu jornal a “Alvorada” aceitam-se alvitres para indicar, segundo o modo de ver de cada um, quais os melhoramentos de maior importância e urgência a levar a efeito pela municipalidade de Guimarães.

Eu na qualidade de vimaranense e patriota sincero por tudo quanto seja o engrandecimento da minha terra, venho também tomar a ousadia de me enfileirar ao lado dos meus patrícios que já se dignaram expor a sua opinião.

É de todos conhecido o quanto se torna necessário o decantado alargamento da Porta da Vila, garganta estreitíssima da Rua da Rainha, desta cidade. Muitas vezes há em que o trânsito de carros e veículos se torna dificílimo e ocasiões há também que chega a tornar-se perigoso.

É por tanto um melhoramento de alto alcance que, parece-me bem e talvez sem receio de desmentido, seria por todos os vimaranenses bem recebido.

A rua da Rainha é uma das mais movimentadas de Guimarães e doloroso é termos de confessar que a sua entrada, sendo de tal forma acanhada, representa para todos nós uma vergonha aos olhos dos nossos visitantes.

Será dispendiosa essa obra? Creio que não, atendendo a que o corte a fazer nos prédios que a isso sejam condenados não serão de valor exagerado, antes pelo contrário.

J. F. Costa Soares.

***

Numa das respostas ao concurso da “Alvorada” apresentavam um alvitre para a elevação do nosso Liceu Nacional a Liceu Central. Magnífica e sublime ideia! Como Guimarães se elevava no seu grau de prosperidade se tal pudesse conseguir-se! Para este grandioso problema a resolver-se é que cu queria ver convergir todas as forças e boa vontade desta cidade e concelho. Para isto é que eu queria a união verdadeira, leal e sincera de todos os meus patrícios, a fim de se conseguir do Governo Provisório da República melhoramento de tão grande alcance.

Pela forma que o Estudante expõe a elevação do nosso Liceu a Central, vê-se que não demanda isso de grande despesa, portanto parece-me que é caso para se não abandonar, mas sim tratar-se muito a sério do seu conseguimento. Mãos à obra, pois.

Esta é a minha resposta ao concurso.

Um comerciante.

[Alvorada, n.º 8, 1.º ano, Guimarães, 14 de Janeiro de 1911]

continua aqui...

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Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 16

...continuado daqui

Neste texto, Francisco Martins Sarmento descreve um comício realizado em Braga no dia 17 de Janeiro de 1886.

O “meeting” do dia 17 em Braga
Verdadeiramente fantástico!
O cenário é pouco mais ou menos o mesmo que o dos meetings do dia 28 e 29 de Novembro; os actores são os mesmos. Como então, fraternizam todos os partidos e fragmentos dos partidos políticos, e, como então, os cronistas acham o espectáculo imponente. A cratera da indignação, ainda como naqueles gloriosos dias, referve no meio da assembleia; foi aquecida do sábado para domingo e calculou-se que havia de fazer explosão a uma hora, marcada pelo cronómetro dos vereadores da terra. Sim; há a maior os vereadores com o seu estandarte, e as portas das casas estão fechadas, não se percebe bem para que. É domingo.
De resto, trata-se, sempre como nos dias 28-30, duma santa causa, nada menos desta vez que a defesa da integridade do território..,
Os oradores ajeitam-se para carregar a fundo os invasores com a espada flamejante da retórica mais patriótica, e, ao que parece, lá fora os Tirteus afinam as gaitas, que hão de levar os bragueses â guerra, se o inimigo não recua ao trom das hipotiposes e insistir no intento de lhes arrancar um pedaço dos seus domínios. Mas o inimigo? Será ainda a desdentada e paralítica Guimarães, que os bracarenses mandaram pastar, como o cavalo lazarento de Tolentino? Não. Nem uma palavra ofensiva para Guimarães, afirma um cronista: o alforge dos ultrajes está já vazio, nem Guimarães é coisa que possa ser tomada a sério — está dito e redito. O inimigo, contra quem se fazem estes preparativos bélicos, é o parlamento e sobretudo o governo. Pelo que, mal soa a hora, preestabelecida para a erupção das lavas indignadas, as lavas começam a jorrar pela boca dos tribunos.
Um deputado governamental declara que fará ouvir a sua voz no parlamento com o máximo desassombro e empregará todos os últimos recursos. Não se sabe verdadeiramente que últimos recursos serão estes; os da glote decerto não.
Um proprietário clama que, se o governo e o parlamento não atender as reclamações de Braga, é de voto que a capital do distrito corte as suas relações com o governo central. Não já se entende bem; e o croniqueiro cuja narrativa seguimos, maior de toda a suspeição, porque é bracarense, comenta: “A assembleia manifestou-se entusiasticamente, abraçando tão simpática e generosa ideia e emancipando-se da tutela da entidade governo...
Um miguelista abunda nas ideias dos oradores precedentes, acrescentando — diz outro informador — que, quando as vozes braguesas não forem atendidas, ainda “restam as bocas dos sinos dos campanários.”
Para frisar o contraste com o preopinante miguelino, aparece um padre, que começa por fazer a apologia da revolução francesa e acaba por horrorizar-se com a ideia de que a Senhora do Sameiro possa ir para o Porto. Brada que são necessários remédios heróicos; quebrar as relações com o governo central e num crescendo de indignação e de fífias entra a berrar: Aqui d'el-rei, ladrões! Os ladrões são o parlamento e o governo, que intentam esbulhar o distrito de Braga dum concelho que sempre lhe pertenceu, levando entre as preciosidades do saque o Sameiro com a sua Senhora. A assembleia, observa o comentador, saudou o orador “com delírio por traduzir bem o pensamento e o sentir do meeting.”
Ele, orador, já tinha prevenido os patriotas que ia pôr os pontos nos ii; mas não se vê em boa verdade que os seus ii tenham mais pontos, que os dos oradores precedentes, de onde é licito inferir que este taquígrafo do meeting deixou no tinteiro os melhores pontos dos ii do furioso sacerdote. Que tais seriam eles?
Os ii sem tais pontos já são porém extremamente eloquentes e escusamos de nos cansar a percorrer mais caminho, visto que o pensar e o sentir do meeting foi tão bem compreendido e formulado pelo apologista da revolução de 93 e da Senhora do Sameiro, que chegou a causar delírio.
A assembleia ficou nisto: empregar remédios heróicos, quebrando relações com tutti quanti teimassem em esbulhar Braga dum concelho que sempre lhe pertenceu, fosse o usurpador o parlamento, o governo, ou qualquer entidade, a que aludissem as reminiscências da revolução francesa.
É de advertir que a comissão, filha puríssima do meeting, encarregada de levar ao governo na dobra das suas togas a paz ou a guerra, foi acompanhada até Nino pelos Tirteus que sopravam nas suas frautas o hino da Maria da Fonte – a marselhesa lusitana, acentua um narrador – regendo o coro: “Eia avante, bracarenses!”, cantado por numerosos patriotas(1) enquanto uma turba ainda mais crescida fazia o mesmo pelas ruas da cidade, electrizando moços e velhos com aqueles cantos nacionais sublinhados.
(1) Estes patriotas seriam 5:000, conforme o cálculo de um correspondente para um jornal do Porto, e, segundo afirma uma folha desta cidade, não pagaram o transporte nem à ida, nem à volta, por mais diligências que os empregados do caminho-de-ferro fizeram para isso. Se estavam em revolução!

Não pode pois estar mais bera definida a atitude da cidade de Braga, mercê dos Demóstenes do dia 17, que não tiveram papas na língua. A cidade de Braga não é a capital dum distrito; é a capital dum pequeno reino, que se foi formando misteriosamente debaixo da terra, até rebentar de repente como um tortulho, do dia 17 para o 18, do sábado para o domingo. Compreende-se agora em todos os seus contornos o procedimento de Braga com Guimarães desde o dia 28 de Novembro; era já o exercício da sua soberania em embrião sobre um povo tributário, uma pertença do seu imperiozito, adquirida não pela conquista das armas, mas pela posse pacífica da chuchadeira de mais de meio século. O concelho de Guimarães é uma possessão da cidade de Braga e ai! de quem tentar furtar-lhe aquela galinha de ovos de ouro, esbulhá-la daquele território que sempre lhe pertenceu! O parlamento? O governo? Que têm o parlamento e o governo com os territórios do império braguês? Querem atentar contra a integridade daqueles territórios? Mas não conhecera Braga, nem a heroicidade, o brio, o pundonor dela, quando se trata de defender as suas galinhas de ovos de ouro e a inviolabilidade dos seus direitos senhoriais. Que venha o parlamento, o governo; que venha o governo com as forças do continente e do Ultramar reunidas, e correrão rios de sangue. Ao primeiro grito de alarme, os miguelistas correrão o reino de Braga fazendo falar as bocas dos sinos e mostrando ao seu povo que o inimigo pretende dar em terra com a religião, levando o Sameiro e a Falperra para o club de Aguardente; os partidos políticos, que se esfarelara ali como pão de broa, tornar-se-ão infinitamente mais numerosos; armando de chuços e fouces roçadouras os seus sequazes, e... o mais que se pode imaginar.
Em vez de imaginar tais horrores, moralizemos. Tudo aquilo foi uma comédia, representada por certos maganões, bastante ingénuos, para acreditarem que com telegramas e suplementos de jornais se pode convencer o país de que a cidade de Braga não tem mais que fazer do que indignar-se de dois em dois meses, e sempre por motivos tão ponderosos e tão vitais para o organismo da sociedade portuguesa, que toda ela estremece nos seus fundamentos, se há um meeting naquela terra. E tão adoráveis são estes comediantes, que, tendo ainda há pouco tempo assustado a nação inteira, contando-lhe que todas as classes e condições de Braga estavam tão indignadas, tão fulas, mas ao mesmo tempo tão justamente indignadas contra os procuradores de Guimarães à Junta Geral do Distrito, que tiveram de expulsá-los à pedra e à lama do seio daquela corporação, vêm agora dizer-lhe que as mesmas classes e condições estão outra vez indignadas e justamente indignadas, porque se fala num projecto de lei, que desanexa o concelho de Guimarães do distrito, de onde foi brutalissimamente expulso!
A comédia produzirá certamente o efeito oposto ao que os ingénuos calcularam; mas nós temos de agradecer-lha cordialmente. As filarmónicas braguesas podem estafar à sua vontade os ecos da sua cidade; todas as classes e condições da mesma cantar dia e noite quantas trovas semi-revolucionárias lhes lembrarem; os seus meetings fabricar quantos obuses quiserem, que o distrito o que fará é rir-se destes guerrilheiros que seguem a prudente sentença: “preparemos-nos e vão”. Mas o que fica bem em evidência – e isso pede bilhetes de agradecimento da nossa parte – é que desde o famoso 28 de Novembro até à data em que escrevemos, em Braga não há rei, nem roque; há a mais genuína das anarquias.
É de ver que se o governo tivesse ai li um representante, não se admitia a possibilidade de um meeting, como o do dia 17, em que o tema dominante e insistente consiste em pregar a rebelião contra as decisões do parlamento e contra o governo.
Aquilo foi possível, porque desde o dia 28 o delegado do governo se sumiu pela terra abaixo e a cidade de Braga ficou no poder dos anarquistas da rua de Água, que expulsaram os procuradores de Guimarães da Junta do Distrito, e na dos 4.000 que em seguida deram a este parlamento provincial uma nova organização, segundo a qual ele ficou a funcionar a sabor dos interesses da cidade e não conforme as conveniências dos concelhos, e sem importar-se com as declarações dos membros da Junta “velha”, que se diziam coactos. Hoje os corajosos anarquistas levantam mais alto as suas aspirações, depois daquela conquista; pretendem que até o parlamento nacional resolva as questões, como o exige a cidade de Braga e os seus interesses; se não vai tudo raso! Divinos!
Estranhe quem puder, depois de tudo isto, que o concelho de Guimarães rompesse as relações com a cidade rebelde, por não reconhecer ali autoridade alguma legitima. Qual? As corporações distritais, reformadas pelos sediciosos? Então aquilo são entidades legitimamente constituídas?! O delegado do governo? Que é dele? Em Braga, desde 28 de Novembro, aquele lugar está vazio, tão vazio que se prega a guerra “santa” contra o governo, e o seu representante brilha pela sua ausência.
Quem estava fora da lei era Braga a sediciosa, Braga a rebelona. Ela não podia ser intermediária entre o concelho de Guimarães e o governo central, porque rompera violentamente o elo que prendia o concelho ao distrito, o distrito ao governo central.
Havia catacegos que punham isso em dúvida? Aí têm os factos do dia 17 e subsequentes com a brutalidade de todos os factos. A declaração da cidade de Braga gritando nos meetings que romperá as relações com o governo, que resistirá às leis votadas em cortes, tem valor pela franqueza; mas era supérflua, porque virtualmente todas as rebeldias, que ela contém, existem desde o dia 28 de Novembro na capital do império braguês.
[28 de Novembro, n.º 5, Guimarães, 18 de Janeiro de 1886]
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29 de janeiro de 2008

Vimaranenses: Fr. Dâmaso da Silva

Filho de Paulo de Freitas, foi, depois de fr. Martinho da Apresentação, o segundo filho ilustre de Guimarães, que assumiu as honras quase episcopais do generalato beneditino. Chamado no século Miguel da Silva recebeu a cógula no mosteiro de S. Tirso com o nome de fr. Dâmaso de S. Miguel a 11 de Fevereiro de 1610.

Depois de trinta e um anos de valiosos serviços prestados à sua congregação, sempre com provada capacidade, foi na junta de Maio de 1641 eleito provincial da província de S. Bento no Brasil. O seu zelo o actividade no desempenho deste encargo fizeram surgir-lhe atritos e tribulações domésticas, que removeu o dissipou enérgico e justiceiro, com o auxílio do governador da Baia.

Regressou daqui ao mosteiro de Rendufe, neste reino, e passando daqui ao de Travanca exerceu nele o cargo de procurador do Tombo e mais tarde de D. abade em 1653.

Sempre notável pela sua inteligência e indefessa actividade ocupou ainda os lugares em 1656, de procurador-geral na corte em Lisboa; em 1659 D. abade do mosteiro de S. Bento da Vitória no Porto; em 1662 visitador-mor da Ordem; em 1665 D. abade do mosteiro de S. Tirso, onde, ampliando muito notavelmente as obras do mesmo mosteiro, teve o honra de hospedar" nele muito galhardamente e conde de Alvor, o conde da Torre e o marquês de Távora que em Lisboa e com muito reconhecimento apresentou o nosso patrício a el-rei D. Filipe II, quando fr. Dâmaso chegou à corte como Geral da Ordem, cargo que assumira nos fins de 1668.

Concluído que fora com sumo aplauso o seu governo monacal como D. abade geral da Ordem, recolheu-se ao seu predilecto mosteiro de Santo Tirso, onde o acolheu a morte a 29 de Abril de 1672.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 26, Guimarães, 24 de Abril de 1884]


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Humor e peixeirada

Em 1885 e 1886, publicava-se no Porto a Maria Rita, um periódico humorístico e literário, sob direcção artística de J. M. Pinto e direcção literária de Sá de Albergaria e António Cruz. Durante a crise resultante dos incidentes de 28 de Novembro de 1885, dedicou quatro páginas centrais ao conflito brácaro-vimaranense, com ilustrações da autoria do seu director artístico, que já aqui demos a conhecer. Acrescentaremos agora algumas informações que permitam contextualizar um pouco melhor cada uma dessas ilustrações.

Uma bernarda... minhota

[Clicar na imagem para ampliar]

"Braga, a Fiel, na pessoa dos snr. Valada, agrediu Guimarães, o glorioso Berço da Monarquia, na pessoa do snr. de Margaride. A batalha travou-se renhida e violenta, e as duas cidades batem-se furiosas. Braga armada dos pés à cabeça, ergue os seus tamancos; Guimarães armada até aos dentes... dos seus garfos, resiste corajosa ao ataque, esperando que o snr. Valada volte costas! E o Porto, de braços cruzados, jura aos seus deuses que não entra na questão, porque lá diz o ditado: "Entre pais e irmãos, não metas as mãos". Quer dizer, o Porto tem os olhos na Travessa... da Espera."
[in Maria Rita, n.º 22, 2.º ano, Porto, 10 de Dezembro de 1885]

À esquerda, montado no cão Fiel (simbolizando o epíteto atribuído à cidade de Braga) e empunhando uma frigideira (alusão ao conhecido pastel folhado bracarense) o Marquês de Valada, Governador Civil do Distrito, dirige as forças bracarenses, que arremessam tamancos. No lado oposto, em cima de um berço (o Berço da Monarquia) o Conde de Margaride, vestido de guerreiro medieval, encabeça a revolta dos vimaranenses, armados de garfos e facas, em alusão às cutelarias, manufactura tradicional de Guimarães. Ao fundo, a estátua que simboliza o Porto acompanha o desenrolar dos acontecimentos, numa referência à intenção de Guimarães passar a integrar o distrito do Porto.

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Braga e Guimarães

[Clicar na imagem para ampliar]

"O Marquês andou numa dobadoira para arranjar a meada, que mestre Fontes fiou e que Peito de Carvalho vai agora desemaranhar, sabe Deus à custa de que arranjos! Uma pândega! e no meio de tudo isto, Braga com seus padres, e Guimarães com seus garfos, lá estão a ver onde param as modas. Para quem será a maçaroca?"

[in Maria Rita, n.º 29, 2.º ano, Porto, 23 de Janeiro de 1886]

Nesta gravura aparecem o Marquês de Valada, à esquerda, e o chefe do Governo, Fontes Pereira de Melo, dobando o sarilho dos arranjos políticos. A rodar em cima da dobadoira, o Governador Civil de Braga, Peito de Carvalho, que substituiu o Marquês de Valada para resolver os problemas que este ajudou a criar. Guimarães (o do garfo) e Braga (o padre) permanecem na expectativa.


* * *

O Mercado do Peixe em S. Bento

[Clicar na imagem para ampliar]

"Em vista da sessão parlamentar de sábado último toda a gente ficou convencida de que há mais discórdia no parlamento a propósito da rivalidade entre Braga e Guimarães do que nas próprias cidades que estão prontas a zurzir o marmeleiro.

Neste empenho de impingir o peixe, Braga e Guimarães, que não são nenhum peixe podre, estão em vésperas de proporcionar ao governo uma pitada tão agradável como as fábricas de sebo que por aí existem espalhadas pela cidade.

Tinha graça se a pancadaria rebentava primeiro no parlamento!"

[in Maria Rita, n.º 29, 2.º ano, Porto, 28 de Janeiro de 1886]

Aqui, o humorista ironiza com a discussão parlamentar então em curso, que equipara a uma peixeirada, a propósito do conflito entre Guimarães e Braga.


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Carrossel governamental

[Clicar na imagem para ampliar]

"No S. Miguel da Regeneração, os patuscos que montavam o carrossel governamental desequilibraram-se e caíram, entre a algazarra e o alarido popular. Vai substituí-lo o partido progressista. Fazemos votos por que não se desequilibre também."

[in Maria Rita, n.º 33, 2.º ano, Porto, 25 de Fevereiro de 1886]

Alusão à dança de cadeiras no poder, que conduziu à substituição do Governo de Fontes Pereira de Melo, pelo de José Luciano de Castro, que teve lugar com a questão brácaro-vimaranense em pano de fundo.
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28 de janeiro de 2008

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 15

...continuado daqui


Revisão da imprensa de Braga, feita por Francisco Martins Sarmento, no n.º 5 do 28 de Novembro.


“Scripta manent”

Desde que fomos expulsos da Junta Geral do Distrito até ao dia 15 de Janeiro “os directores da mentalidade bracarense” escreviam:

“Se Guimarães nos quer ingratamente deixar, faça-o; mude de ares. “ (O Constituinte, n.° 539).

“Querem ir para o Porto? Pois vão com Deus. Ninguém de Braga os vai esperar ao caminho. Boa viagem, senhores, e por lá muitos anos. Podiam ter principiado por dizer isso. “ (A Voz do Distrito, n.° 13).

“E então nós os bracarenses estamos tão contristados com os desejos daquela santa gentinha, que nos é completamente indiferente que ela continue, ou não, a fazer parte do nosso distrito. Para o Japão é que eles deviam ir, certos de lhe ficarem muito bem tais sentimentos, e de ali fazerem excelente figura. Que marchem para lá com a ponte, e com a sé, e com o palácio, e que nos deixem.” (A Folha de Braga, n.° 496).

“Vão com Deus, irmãozinhos. Não fazem cá falta nenhuma.” (O Comércio do Minho, n.° 1912).

“Guimarães quer ir-se para o Porto; em boa hora e descarreguem assim o seu ódio estulto. Que o berço da monarquia e o da liberdade se dêem abraços de fresca confraternidade pouco importa; que relíquia da idade média vá decorar os brasões da cidade do progredior é justo; que a casaca espatifada de D. João I, e a Colegiada tradicional da Oliveira vão para o culto republicano e para Santo António da Aguardente, é até muito conveniente. Guimarães cortará as unhas de gato com que pretende a cada passo arrebunhar a Braga fiel; as aspirações audaciosas e lorpas de Guimarães ficarão abafadas, sepultando-se para sempre no bojo voraz do Porto.” (Idem, n.° 1913).

“Já depois de escritas as linhas acima, soubemos que telegramas particulares anunciaram aos nossos vizinhos de além-Falperra que estava no papo do Porto a vila de Guimarães. O governo vergou-se a uma força que nós cá sabemos... Nós, que não fomos surpreendidos pela notícia, endereçamos parabéns ao povo de Braga pela desanexação de uma tribu selvagem que nos incomodava com os seus uivos... Aos de Guimarães, a esses párias que não tiveram o gosto de serem tomados a sério por nós, felicitamo-los também... Despedimo-nos pois sem lágrimas da velha, desdentada e paralítica Guimarães, recitando-lhe, como adeus:

Vai, mísero cavalo lazarento,

Pastar largas campinas livremente."

(Idem, n.º 1917).

“A intriga vimaranense, mercê das potências monetárias, vai ganhando terreno. Diz-se que o governo está disposto a fazer seu o absurdo projecto... Vá Guimarães para onde lhe aprouver, que não deixa saudades. A sua ilustração verdadeiramente medieval, a sua actividade de altruísmo duvidoso e os seus progressos infinitamente inferiores aos nossos são coisas que não enobrecem o distrito... Braga não deve dar um passo que manifeste o mais leve pesar. A indiferença, em determinados casos, é arma poderosa. Acendamos um charuto e deixemos correr... Guimarães. Vale!” (O Amigo do Povo, n.° 801).

Posto não entre do nosso plano forragear nas correspondências dos bragueses para os jornais de fora da sua terra, abrimos uma excepção em favor do correspondente da Província, n.° 166, por mencionar a notícia de que Braga ia auxiliar-nos do pedido da nossa desanexação, produzindo razões de truz. Escreve o correspondente:

“Aqui também se fala em pedir ao governo, de comum acordo com o concelho da Barca, para este ser anexado a Braga e o de Guimarães ao Porto, visto que a receita que nos vem deste ultimo concelho não chega sequer para as despesas que com ele se fazem.”

[28 de Novembro, n.º 5, Guimarães, 18 de Janeiro de 1886]

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Vimaranenses: João Baptista Felgueiras

João Baptista Felgueiras, por Augusto Roquemont (retrato a óleo sobre tela, da colecção da Sociedade Martins Sarmento)


Este nosso distinto compatrício, de quem o ilustre bibliógrafo Inocêncio da Silva ignora a pátria, e ao qual o Dicionário Popular dá nascido em Guimarães pouco antes de 1790, nasceu aqui, na quinta de Cedofeita, freguesia de S. Miguel do Castelo, a 6 de Abril de I787, sendo baptizado na respectiva igreja a nove do mesmo mês e ano. Filho de Manuel José Baptista Felgueiras – e não do desembargador Manuel Augusto Felgueiras, como se lê no Dicionário Popular – e de sua mulher D. Rita Clara Cândida - e não D. Inês Felgueiras - deu-se à carreira das letras formando se em direito na Universidade de Coimbra.

Seguindo a magistratura, exerceu com plausível zelo os cargos de juiz de fora em Viana, corregedor e procurador-geral da coroa, em que se tornou distintíssimo, indo mais tarde sentar-se nas cadeiras do supremo tribunal de justiça.

Eleito deputado as cortes depois da revolução de 1820, exerceu quase sempre o importante cargo de secretário das nossas primeiras cortes constituintes.

Envolvido nas lutas de I880, como liberal convicto, esteve por algum tempo escondido em casa da família dos Pimentas no Porto, restituindo-lhe a liberdade a entrada das tropas liberais nesta cidade, em cujas linhas, sem carácter oficial, se tornou notável por valiosos serviços, e como amigo particularíssimo de Agostinho José Freire e José da Silva Carvalho. Era igualmente muito considerado pelo imperador que nunca lhe dispensava o voto autorizado em assuntos de maior importância. Vivamente impressionado pela morte violenta do seu íntimo amigo Agostinho José Freire, escreveu e publicou uma "Necrologia" do mesmo, única obra impressa, que dele nos resta.

Recusando energicamente a pasta de ministro, que lhe fora oferecida, por António Bernardo da Costa Cabral, ocupou mais tarde este elevado cargo – por poucas horas – com o duque da Terceira.

Afastado mais uma vez da política militante e ocupado exclusivamente dos deveres de magistrado e das afeições da família, morreu a 13 de Março de 1848, vítima de uma congestão, que o fulminara no Passeio Público, em Lisboa.

Está sepultado no cemitério do Alto de S. João no mausoléu da viscondessa de Geraz do Lima.

A morte do nosso ilustre compatrício foi, como diz o Dicionário Popular, muito lamentada por lodos que apreciavam o seu muito saber, o seu elevado e liberal espírito, a austeridade do seu carácter e da sua vida e a abnegação sincera de que sempre dera provas.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 23, Guimarães, 3 de Abril de 1884]

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Qual é a obra? (1)

...continua daqui

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Pela nossa terra

Consulta Pública
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Qual é a obra mais urgente e de mais alcance que a Câmara deve empreender?

"Respondendo à consulta pública que a “Alvorada” no seu último número fez aos munícipes Vimaranenses, vou dar também a minha opinião sobre o caso, mesmo que esta venha a ser rejeitada por todos os que me lerem.

Segundo o meu modo de pensar, o melhoramento de maior utilidade pública que a Câmara devia empreender com a máxima urgência, era cm conseguir de harmonia com o governo em elevar o Liceu nacional a central.

Talvez isto pareça à ilustre Vereação um problema difícil de resolver e ao mesmo tempo não menos difícil de conseguir.

Porém atendendo às circunstancias que vou apresentar, parece me que isso seria fácil de obter-se.

Temos aí a Escola Industrial com um corpo docente competentemente habilitado, com um belo laboratório de química e com bastantes e bons aparelhos de física; tudo incorporado no Liceu {sem deixar de funcionar a escola é claro) forneceria o indispensável para o funcionamento dos cursos de sexto e sétimo ano. Os professores da Escola têm um número de aulas inferior ao dos professores do Liceu, podiam portanto preencher essa falta dando aulas a sexto e sétimo ano, ou a outros cursos conforme se convencionasse depois. As aulas na Escola Industrial são nocturnas, portanto não há inconveniente algum em funcionar tudo no mesmo edifício e os professores desta terem mais uma pequena obrigação a cumprir. O laboratório de química e os aparelhos de física, tão indispensáveis para quem se dedica a um curso científico, aí seriam utilizados pelos alunos que frequentam o Liceu, e sem prejuízo algum para os que frequentam a Escola.

Desta forma deixaria a Câmara de pagar a importante verba de renda de casa que actualmente paga, e essa quantia aproveitava-se já para qualquer remuneração que de futuro fosse preciso fazer, como talvez equiparação aos novos professores.

Assim tornavam-se menos dispendiosos a Escola e o Liceu, e os resultados destes dois estabelecimentos de ensino seriam muito mais lisonjeiros e proveitosos. Por este processo seria fácil à Câmara conseguir um Liceu Central em Guimarães – o melhoramento de maior utilidade pública para esta cidade.

Um estudante.

***

À pergunta que este semanário dirigiu a todos os munícipes vimaranenses dizendo:

“Qual é a obra mais urgente e de mais alcance que a Câmara deve empreender?” a minha modesta opinião responde o seguinte:

A obra mais urgente a realizar é essa mesma a que a comissão administrativa já deu empreendimento, sendo a mudança do jardim público do Toural para S. Francisco, e da estátua de D. Afonso para o Toural.

E, julgo-o assim, porque não só satisfaz a boa estética da cidade, como também favorece com um jardim mais amplo, uma necessidade da população.

J. d'Almeida.

***

Aproveitando-me duma das regalias concedidas na consulta pública da “Alvorada” eu simplesmente respondo: Quais são os títulos de nobreza e de verdadeira glória vimaranense? Os que figuram no alvorecer da nossa história pátria, como nação independente, de que Guimarães foi a primeira capital. Que padrões temos nós a atestá-lo? O soberbo castelo coevo e a veneranda capela de Santa Margarida, ambos monumentos, reconhecidamente nacionais.

Que parte da cidade temos nós condignamente aformoseada para mostrar aos estranhos ou para recreio nosso? Nenhuma.

Pois bem. Lancemos o olhar para a cidade alta, airosa e saudável; limpe se o terreno e ajardine-se à moderna, em volta daqueles monumentos vetustos, até ao Cano (aformoseado também, em alameda), até à estrada de Fafe, prolongada em avenida por detrás e junto daquele paço, por um lado, e pelo Carmo abaixo, até ao centro da cidade, por outro, como for mais viável. Será um pouco caro, mas é a única coisa com jeito, tendo ainda a vantagem de atrair para ali o gosto pelas construções.

É necessário que Guimarães, primeiro que tudo, não seja uma raridade arqueológica apenas no seu valioso museu, e para seu próprio interesse é necessário que não afugente de si os visitantes, como de qualquer maltrapilho."

Capitão Pina.

[Alvorada, n.º 7, 1.º ano, Guimarães, 7 de Janeiro de 1911]

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27 de janeiro de 2008

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 14

...continuado daqui

Conclusão da terceira edição da Revista das Folhas de Braga, do jornal 28 de Novembro, pela pena de Francisco Martins Sarmento.

Alguma folha braguesa mais comedida de língua, como a Voz do Distrito, e que finge manter-se na estacada a disputar sobre os factos, dá nos um espectáculo igualmente pouco edificante. Escolhamos um exemplo: – o crime das assuadas foi ou não coisa premeditada? Não contando os votos da junta geral do distrito e da câmara municipal de Braga, é fácil de mostrar “com textos” que, exceptuando a Correspondência do Norte, todas as folhas, tratando do assunto, dizem mais ou menos explicitamente que, pelo menos, a segunda e terceira assuada foram muito premeditadas. Scripta manent. Pois apesar disso, a Voz do Distrito lá torna com a cantilena que toda a imprensa bracarense é concorde em afirmar que as assuadas não foram premeditadas. Desculpemos a semi-sisuda Voz do Distrito; mas, se isto não é a dialéctica da bisbilhotice, é a doce ilusão dos que pensam ter a razão do seu lado, pelo simples facto de ficarem a falar em último lugar. Se com isso se satisfaz, não a perturbaremos no gozo das suas delícias. Somos menos transigentes com a sua coarctada ao desmentido, que lhe deram os jornais do Porto, quando escreveu ter sido um dos procuradores de Guimarães corrido à pedra Naquela cidade. Se não foi corrido à pedra, foi corrido ao ridículo – replica o leal jornalista. Mas, valha-nos Deus, a réplica jogralesca em quem foi apanhado com a boca na botija só acusa impenitência no delinquente, que ã segunda correcção entra já na classe dos malhadiços. É mau, e aqui estâ o que não é melhor: então nós inventámos a notícia fresca das boas disposições dos ferreiros da rua da Ponte, que nem a alma deixariam aos procuradores de Guimarães, se soubessem de que peste de terra eles eram? Mas nós citámos a fonte, onde colhemos a notícia – uma correspondência de Braga para a Província, e, por mais que nos preguem, nunca nos convenceremos de que o ilustrado jornalista não sabe ler. Achamos por isso de uma impertinência ultra-ladina a lembrança de vir pedir a Guimarães esclarecimentos sobre o caso, quando não pode deixar de saber que tem a dois passos de casa quem lhos pôde dar e cabais. Os ferreiros eram surdos, para não ouvirem a inferneira de morras? As condições acústicas das ruas de Braga são tais, que se não pôde ouvir na rua da Ponte o berreiro que faz nas outras ruas? Tudo isto é patranha? Sentimos deveras não poder contentar a curiosidade do finório jornalista; mas pode acreditar-nos – porque nós não mentimos – não temos a honra de conhecer os ferreiros da rua da Ponte, nem nos atreveríamos, mesmo incógnitos, a conversar com aqueles endiabrados psicófagos sobre matérias tão perigosas.

Dir-lhe-emos enfim que, se a sua cortesia de dois bicos não consegue retardar a nossa despedida à imprensa, de que faz parte, é porque, em vista do seu estranho modo de discutir, só a poderíamos chamar à boa razão, se soubéssemos o modo de manter de cabeça para baixo um boneco de sabugo, que teima em estar sempre de cabeça para cima, graças ao chumbo que tem na base. Ainda tentaríamos aprender esta habilidade, se não desconfiássemos que a Voz do Distrito tem na massa do sangue alguma coisa de D. Basílio. Parece-nos isso, principalmente desde que lhe ouvimos cantar a ária do telegrama – não passou acompanhada com os foguetes e músicas, que haviam de esperar os procuradores de Guimarães, etc.

Estas invenções prodigiosas só podem ser criadas na cabeça de qualquer D. Basílio, e nós embirramos deveras com estes sujeitórios.

Portanto – buona sera!

[28 de Novembro, n.º 3, Guimarães, 6 de Janeiro de 1886]

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Qual é a obra?

Nos dias seguintes à instauração da República, em Outubro de 1910, Portugal é atravessado por uma vaga de mudança que se estende pelos diferentes níveis da vida pública e privada. Em Guimarães também foi assim, com ideias e projectos que todos os dias iam sendo lançados para a praça pública. Por essa altura, foi relançado um jornal republicano, a Alvorada, que tivera uma curta existência em 1907, logo terminada, por força da instauração da ditadura de João Franco. Na segunda série, manteve o mesmo director, A. L. de Carvalho, e teve como colaboradores algumas das figuras mais destacadas da Guimarães daqueles dias revolucionários, como Alfredo Pimenta, Alfredo Guimarães, Jerónimo de Almeida, Mário Cardoso, Abel Cardoso, Capitão Luís Augusto de Pina Guimarães ou Alberto Rodrigues. No seu último número de 1910, a Alvorada lançou uma consulta pública com que pretendia plebiscitar qual seria “aquela obra ou aquele melhoramento que mais satisfaça aos interesses gerais da colectividade”. Nos próximos dias, iremos ver aqui quais foram as contribuições recebidas.

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Pela nossa terra

Consulta Pública
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Qual é a obra mais urgente e de mais alcance que a Câmara deve empreender?

A “Alvorada” num intuito de fazer doutrina democrática e satisfazer respectivamente o fim que se propôs, vai dirigir uma consulta aos munícipes vimaranenses, sabendo assim do modo mais directo:

– Qual é a obra mais urgente e de mais alcance que a Câmara deve empreender?

Pergunta plebiscitária, ela deverá simplesmente indicar aquela obra ou aquele melhoramento que mais satisfaça aos interesses gerais da colectividade, sendo ainda condição essencial a observar que as considerações de que cada parecer se faça acompanhar não se deverão tornar extensas, nem tampouco comportar referências directas a pessoas. Nestas condições todos os pareceres serão publicados, ainda por mais extravagantes que sejam, sendo para desejar que, tornando-se este concurso interessante pela variedade, útil e proveitoso ele seja para a acção administrativa da actual comissão.

Esperando que todos hajam compreendido o alcance do nosso concurso, ao público dirigimos esta pergunta:

– Qual é a obra mais urgente e de mais alcance que a Câmara deve empreender?

[Alvorada, n.º 6, 1.º ano, Guimarães, 31 de Dezembro de 1910]

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Vimaranenses: Padre José Pinto Pereira

Veio à luz a 30 de Março de 1659 tendo por progenitores a Jerónimo Vaz de Sá e D. Jerónima da Cunha.

Dado à vida eclesiástica, a ela se entregou a incessante leitura e aturado estudo enriquecendo as letras com várias produções suas em português, italiano e latim, sobressaindo entre estas o "Apparatus historicus" e não sendo menos curiosa a que intitulou "Benedictus XIII, Summus Eclesia Pontifex Gratia Benedictus, etc.

Expedicionário em Roma no longo espaço de 28 a 32 anos, não esqueceu ali a pátria, antes lembrado sempre se a engrandecer, foi incansável nos malogrados trabalhos intentados na Sé Apostólica para a beatificação de D. Afonso Henriques, em que tanto se empenhavam os cónegos regrantes de Santa Cruz de Coimbra.

Regressando ao reino por ordem real, faleceu a 17 de Fevereiro de 1733, tendo em Lisboa pomposíssimas exéquias, mandadas celebrar em sua honra por el-rei D. João V em atenção aos seus valiosíssimos serviços.

Era ainda este nosso ilustre patrício fidalgo da casa real, cavaleiro professo na Ordem de Cristo e conselheiro no ultramar.

[João Gomes de Oliveira Guimarães, in O Espectador, n.º 22, Guimarães, 27 de Março de 1884]


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26 de janeiro de 2008

Crónica do conflito brácaro-vimaranense - 13

...continuado daqui

Aqui se inicia a terceira edição da Revista das Folhas de Braga, notas de leitura da imprensa bracarense publicadas por Francisco Martins Sarmento no jornal 28 de Novembro.


Por honra de Braga

A despedir. – Temos diante de nós um maço de folhas bracarenses, e todavia nada encontramos digno de revista; porque, não havendo sido refutado um só dos factos, constantes da contrariedade, que no §. “Verdade” opusemos ao seu libelo famoso, e não querendo, nem devendo sair do terreno da discussão urbana já por exigências da nossa educação, já pelo respeito que nos merece o publico honrado, para o qual unicamente escrevemos, toda aquela papelada não dá uma gota de replica, por mais espremida que seja. Factos! bem se imporiam os nossos feros adversários que cada uma das suas afirmativas seja destruída, sem poder levantar mais cabeça! Salvas excepções, raríssimas como o melro branco, todo o seu fito foi continuarem na imprensa a assuada da rua de Água, como para dissipar qualquer dúvida nos optimistas, que pudessem recusar-se a ver na grande selvajaria outra coisa mais que o desvario de uma hora falha. Não, senhores; tudo aquilo foi “a vingança de uma santa causa” registada nos anais da terra com todos os seus episódios ad perpetuam rei memoriam.

A verdade que eles lá andam agora à lambada, para tirar a limpo quem foi o verdadeiro inimigo, se o que já levou, se um outro muito diferente, que vai sendo empurrado para a Rocha Tarpeia...

Deixemos isto. Pois que não há factos a discutir, resta-nos fazer as nossas despedidas. Poderíamos vacilar, se não seria mais prudente fugir a unhas de cavalo, em vez de ficarmos parados a fazer estes comprimentos de civilidade, depois de vermos o Amigo do Povo distribuir, à esquerda e à direita, pelos jornalistas seus patrícios, as seguintes amabilidades, ao reaparecer na imprensa, para auxiliar os “directores da mentalidade bracarense” na faina da educação da sua terra: – que vem “ provocar até, se tanto for mister, adversários ermos de escrúpulos e nimiamente faciosos”; – que, se mercê do seu silêncio, os seus colegas bragueses levaram até hoje vida folgada a “caluniar, ultrajar, cuspir impunemente”, a “inventar calúnias, forjar sucessos, alimentar despeitos, fazer crítica reles”, a “soletrar constante e unicamente a Bíblia do Ódio”, doravante não terão remédio senão mudar de solfa; – que ao princípio lhes há de custar a largar os hábitos velhos; mas com o tempo “o organismo acomoda-se” e reconhecerão que o seu processo era “imundo como um cano de esgoto, e repelente como um escarro”; – se, para os chamar ao rego, for preciso “agitar estadulho” igual ao dos seus neófitos, por isso ninguém ficará mal; – se o olham de través, por temerem que ele venha fazer-lhes “concorrência à alma da sua alma”, o anúncio judicial (sic, em letras gordas), podem dormir sossegados, porque etc.

Não tínhamos razão para hesitar, se deveríamos fugir a todo o escape da convivência com os jornalistas bragueses, retratados por um jornalista braguês daquele modo e feitio? Mas, embora suspeitos, não podemos admitir a fidelidade da pintura ; e, em vista da canastrada de ultrajes, de doestos, de calúnias, sem atilho, nem vencilho, que este Amigo do Povo despeja sobre o povo de Guimarães, diríamos mesmo que o recém-vindo director da mentalidade bracarense se está a ver ao espelho, quando descreve os merecimentos e mais partes dos seus confrades.

Já que falamos neste jornalista, surgindo no terreiro depois do dia 28, mal podemos deixar de aludir à “altitude” que ele quer bem esclarecida, quanto à sua pessoa e no tocante às principais cenas daquela tragicomédia. Não admite o novo comentador dos sucessos do memorando dia, que possa mesmo pôr-se em dúvida o conhecimento antecipado que tinha a autoridade superior do distrito da “notável e severa lição”, que esperava os procuradores de Guimarães; afirma – e ninguém se atreveu a negar-lho com provas – que o governador civil assistiu “das janelas da sua secretaria” ao começo da assuada; mas até aqui o comentador nada acha que reprovar no delegado do governo. Pelos modos aquilo era troça. Troça? isso di-lo ele numa parte; noutra explica melhor – era “a prova eloquente e manifesta de desagrado” aos odientos procuradores vimaranenses, “não só uma necessidade, mas um dever imperioso e sacratíssimo” (sic). Assistindo pois serenamente ao cumprimento deste “dever sacratíssimo” – a assuada– a autoridade superior do distrito merece a plena aprovação do Amigo do Povo. O que ele porém não pôde sofrer, sem que a sua consciência atire aos justos céus lavas de indignação vulcânica, é que a autoridade não começasse a sua acção pelo procurador de Guimarães, que teve a audácia de não conformar-se com as “sacratíssimas” assuadas e de responder a elas com uma “pedantesca provocação”. Quando o provocador foi passear para o Jardim Público de badine na mão, ou quando não agradeceu com gestos delicados o bota-fora de pragas e morras, com que a fidalgaria de Braga se despediu dele, em qualquer dos casos (porque se não sabe ao certo a qual deles mira o nosso atirador), em qualquer dos casos, se a autoridade começa a sua acção, tudo sairia limpo, com a vantagem de ficarem mortos dois coelhos de uma só cacheirada – a punição que “a pimponice truanesca” reclamava e o corte pela raiz do “subsequente e lamentável excesso”. De sorte que, se no dia 28 de Novembro do ano da graça de 1883 a vara braguesa da autoridade estivesse nas mãos do Amigo do Povo, vê-lo-íamos nas janelas do governo civil assistir paternalmente ao crime da assuada aos membros da junta geral do distrito, e trancar com os procuradores de Guimarães na cadeia, logo que eles dessem um passo, ou fizessem um gesto, que denunciasse sombra de indignação contra os cobardes autores de um crime, que se repetia três vezes. Por ter feito só metade desta “monstruosidade”, é que o nosso moralista vai correr pelos lábios do governador civil a esponja de fel e vinagre e alho.

Como se vê, a “atitude” do Amigo do Povo é copiada, nem mais, nem menos, de qualquer das atitudes de Pantaleão Pantana, a autoridade célebre nos entremezes de cordel. Efectivamente, só o festivo Pantaleão Pantana era capaz de pautar os seus actos autoritários pelo programa que o ilustre director da mentalidade bracarense está a defender com uma seriedade de desembargador. Graças a estas ideias, tão estrambóticas, que a gente esfrega os olhos, para se desenganar se elas realmente foram pensadas e escritas, este jornalista pode gabar-se de ter posto a um canto todos os seus patrícios.

E pode dizer quanto quiser.

[28 de Novembro, n.º 3, Guimarães, 6 de Janeiro de 1886]

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