30 de dezembro de 2007

Sobre o projecto para o Toural - II

No início do debate sobre os 5 projectos para Guimarães, deixei aqui a minha reflexão sobre a intervenção projectada para o Toural e a Alameda. Agora que o debate poderá estar no fim (uma vez que foi anunciado que se pretendia fechá-lo no final do ano que está prestes a acabar), confesso que tenho mais dúvidas do que há três meses.

Devo prevenir que a minha participação nesta discussão não é feita a partir do lado de fora. Faço parte dos que olham para o Toural desde o lado de dentro, já que me incluo entre os que residem e trabalham perto do Toural, fazendo o seu atravessamento, quase sempre a pé, vezes sem conta. Portanto, o que se fizer no Toural, vai necessariamente interferir com o meu quotidiano. Mas também vai alterar a vida na cidade e o modo como nós a (vi)vemos.

Defendo que o Toural deve ser objecto de uma intervenção que o revitalize, que lhe acrescente condições para que volte a ser um centro cívico relevante em Guimarães e sinto que o projecto em discussão tem virtudes que podem dar uma excelente contribuição nesse sentido. Porém, há nele aspectos que me levantam reservas, umas maiores do que outras, provavelmente por défice de informação. Por exemplo:

1. Faltam estudos de carácter histórico e sociológico sobre o Toural. Tanto quanto se percebe, não houve grande trabalho de casa neste domínio, contrariando o que tinha sido (boa) doutrina na intervenção no Centro Histórico de Guimarães. Porventura, tal ausência justifica-se por se ter partido do princípio redutor de que, por se situar fora da antiga muralha, o Toural não fará parte do Centro Histórico, quando salta aos olhos a evidência de que esta praça é parte indissociável e vital da zona mais nobre de Guimarães.

2. Não me consta que existam estudos geológicos que demonstrem que o terreno a escavar não levantará dificuldades. Alguém com conhecimento do projecto já avançou que haveria sondagens, realizadas por método não invasivo, que indicarão que até seis metros de profundidade não haverá problemas de maior, e que daí para baixo as dificuldades começam a aparecer. Partindo do princípio de que tais sondagens serão fiáveis, não estou a ver como seis metros de profundidade possam ser suficientes para acomodar um aparcamento com dois pisos. Por outro lado, há referências não negligenciáveis que indicam que os problemas a resolver poderão não ser simples. É sabido que, no lado sul da praça, se situavam as “lajes do Toural”, uma formação rochosa em forma de ladeira difícil de vencer, mandada quebrar, à superfície, em meados do século XIX. No mesmo sentido aponta a informação transmitida por quem esteve ligado à implantação da fonte-monumento do Toural, no início da década de 1950: pela natureza do solo, não terá sido fácil escavar o reservatório de água que hoje existe por baixo da fonte. Portanto, nada nos garante que a escavação do Toural não venha a ser uma operação complexa de pirotecnia, com todos os inconvenientes, nomeadamente em matéria de segurança e desassossego, como normalmente sucede neste género de intervenções.

3. Também não foram divulgados estudos sobre o impacto da construção do subterrâneo nas estruturas dos edifícios que delimitam a praça. Ao que vejo e ao que ouço, a construção de subterrâneos para parqueamento e atravessamento do Toural pode acarretar riscos significativos para o conjunto edificado que margina a praça, constituído, essencialmente, por edifícios antigos, com destaque para a frente pombalina, que já dobra os duzentos anos (e que já ameaçou ceder, ainda no século XIX). Acautelar as estruturas desses edifícios não vai ser pequena obra de engenharia. A propósito, convirá recordar que em Guimarães, na Universidade do Minho, existe um Grupo de Estruturas que é uma referência mundial na área do estudo e da conservação de construções antigas.

4. Ao que tem sido avançado, existem estudos sobre a mobilidade rodoviária em Guimarães. Com a sua divulgação poderia resultar um maior esclarecimento e, certamente, maior compreensão das propostas avançadas. O Toural sempre foi o nó górdio da mobilidade urbana em Guimarães. Da informação disponibilizada até hoje, não resulta claro de que modo o projecto desenhado desata esse nó. Para um observador não especialista, a criação de um túnel para atravessamento rodoviário do Toural, não parece uma solução muito racional, já que não se afigura que vá melhorar a circulação, ou mesmo mantê-la como nos dias de hoje, podendo até criar novos estorvos dificilmente resolúveis. Depois, não parece evidente que a construção do túnel vá trazer mais espaço para os peões, uma vez que instala uma barreira física que separará, numa extensão significativa, o lado poente do lado nascente da praça, com a abertura da embocadura de entrada e correspondentes muretes de protecção. Por outro lado, tendo em conta que o Toural continuará a ser local de passagem para autocarros, nomeadamente de turismo, desconfio que a entrada do túnel terá que ter uma extensão muito significativa, se se respeitar um limite de inclinação dentro dos limites de segurança recomendados pela UE (até 5%). Ou seja: vai ser necessário atravessar meia praça, ou mesmo mais, para se entrar no túnel, saindo-se logo a seguir. Fará isto muito sentido?

5. Também se desconhece em que estudos sobre a oferta de parqueamento automóvel no centro da cidade se baseiam as soluções encontradas. Sem eles, parece resultar evidente que não existe nenhuma razão objectiva a justificar a construção de um novo parque de estacionamento no Toural, uma vez que nas imediações da praça e do Centro Histórico a oferta actual é manifestamente excedentária em relação à procura (sem grande esforço, conto mais de uma dezena de parques dentro de um raio que não ultrapassa 300 metros de distância em relação ao miolo da cidade) e continuará a sê-lo, mesmo que se eliminem uns quantos lugares na zona a intervir. Uma boa política de mobilidade apostará, certamente numa redução do acesso de automóveis ao centro da cidade. Criar mais estacionamento será um um estímulo para os que, mesmo sem necessidade, insistem em trazer o carro para dentro da cidade.

6. Também faria sentido que fossem divulgados os resultados dos estudos sobre o impacto das soluções propostas na dinâmica comercial da zona, se é que foram feitos. O que se vai dizendo, sem se saber em que base objectiva assentará, é que o parque no Toural faz falta para revitalizar o comércio tradicional. Não estou seguro disso. Parece-me até que poderá suceder exactamente o contrário, com o que ainda hoje resta do comércio tradicional a fechar portas para ceder espaço para o muito pouco tradicional comércio franchisado. Ou seja: o parque enterrado no Toural pode muito bem ser a pá de terra lançada que faltava sobre o comércio verdadeiramente tradicional do centro de Guimarães.

Sei que quem vai decidir nesta matéria tem plena consciência do que está em jogo, até pelo peso afectivo e simbólico desta praça emblemática, e que decidirá com prudência. E a prudência pode recomendar que só se avance com uma solução depois de se fazerem todos os estudos prévios que forem necessários e que agora parecem faltar.

O Toural já não é mexido há mais de meio século. Pode bem esperar mais um par de meses.

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28 de dezembro de 2007

Ainda o Toural em debate

A propósito do que tenho dito, nomeadamente neste espaço, sobre o Toural e o projecto de intervenção naquela praça emblemática, ainda em discussão pública, vou recebendo algumas reacções curiosas. Num primeiro momento, eu seria algo próximo de um energúmeno que andava a fornecer argumentos aos que pretendiam retirar as árvores do Toural; depois, houve quem me passasse a olhar como um troglodita que, trancafiado em cavernas históricas, resiste à mudança e quer que o Toural fique como está. Não me parece que aquelas duas condições que me têm sido atribuídas sejam compatíveis entre si.

A propósito do debate sobre o Toural que teve lugar Sociedade Martins Sarmento, no dia 12 de Dezembro, encontrei nos nossos jornais dois artigos que me merecem alguma reflexão.

O primeiro saiu no Expresso do Ave (edição de 19 de Dezembro). É um conjunto de três textos não assinado onde se afirma que, no debate, esteve, de um lado, a Câmara e, do outro “a sociedade civil, alegadamente organizada para bater o pé às ideias de mudar o aspecto, tirar as árvores, logo impedir que haja um parque de estacionamento subterrâneo”. Importa esclarecer que à organização do debate presidiu, única e simplesmente, a intenção de responder ao desafio lançado pela Câmara, contribuindo para o debate público de uma das propostas recentemente divulgadas. Quando foram avançados os convites aos técnicos que intervieram no debate, nenhum dos organizadores sabia quais seriam as opiniões da Arq.ª Maria Manuel Oliveira ou do Prof. Miguel Bandeira. Portanto, essa alegada organização contra o projecto fica-se por isso mesmo, por alegada mas não demonstrada. No mesmo jornal, escreve-se que é evidente que há uma maioria de vimaranenses que não enjeitaria ver o automóvel dali [do Toural] para fora. Tal evidência (como a evidência contrária) também está longe de demonstrada, a não ser que tenham sido feitos estudos de opinião que ainda desconhecemos.

O segundo foi publicado no Povo de Guimarães de 28 de Dezembro. É assinado com o nome de Pedro de Vimaranes, pseudónimo utilizado por um dos poucos a quem chamei de Mestre, mas que, infelizmente, já não está entre nós. Acredito que aquele que agora o utiliza terá legitimidade para o fazer. Quem ali escreve, mostra-se decepcionado com as intervenções do público no debate, por se limitarem a defender a manutenção do Toural tal como está, entendendo que o debate será frustrante se se limitar a confrontar a proposta elaborada com o Toural “tal como está”. Ora, a verdade é que no debate não se ergueu uma única voz a defender o Toural tal como está. Foram, simplesmente, levantadas algumas inquietações e perplexidades, umas mais pertinentes do que outras, em relação a diferentes aspectos do projecto em discussão. O autor faz a destrinça, com clareza e argúcia argumentativa, entre o que entende ser acessório, e eventualmente negociável e/ou descartável, e o que será, a seu ver, essencial: o parqueamento subterrâneo, uma componente do projecto fundamental, necessário para o regresso do Toural a centro cívico e comercial da Cidade, à imagem do que terá sucedido em Braga com a Rua do Souto e adjacentes, depois da construção de parques subterrâneos na zona. E que comércio se propõe para o Toural? Adeus, comércio tradicional, que o que aí vem pode ser de capital e marcas exteriores, desde que os actuais comerciantes se associem ou vendam ou aluguem espaços sem pretenderem ganhar no negócio mais do que o que ganharam em décadas de lojas abertas.

Não me parece que o caso de Braga seja grande exemplo, até porque o comércio ali, com ou sem parqueamento subterrâneo, sempre teve uma dimensão bem maior do que o de Guimarães. Por outro lado, tenho dúvidas sobre se fará muito sentido gastar dinheiro público para criar condições para trazer para o Toural as mesmas lojas que agora encontrámos nos centros comerciais. A não ser que se esteja a pensar em aplicar-lhes uma espécie de taxa de condomínio que permita amortizar o investimento que irá sair dos nossos bolsos em favor das grandes, pequenas e médias multinacionais do comércio.

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27 de dezembro de 2007

Para uma geografia de Alberto Sampaio

Os primeiros tempos da vida de Alberto Sampaio foram passados na casa onde nasceu, na rua dos Mercadores, em Guimarães, morada do seu tio-avô José Teixeira, Cónego da Colegiada de Guimarães, que viria a falecer em 1843. Ainda falta saber onde viveu nos anos que se seguiram, mas parece certo que até aos 10 anos o essencial da sua existência terá passado por Guimarães, onde frequentou a aula de Tomás Guilherme. As primeiras aprendizagens terão sido concluídas no Colégio de João Luís Correia de Abreu, em Landim, cuja aula começou a frequentar, com o irmão José, no dia 12 de Janeiro de 1852. Entre 1856 e 1857, terminou os estudos preparatórios, primeiro no Liceu de Braga, depois no de Coimbra, onde, em 1858, se matriculou no Curso de Direito da Universidade, que concluiria em 1863.

Terminado o curso, teve uma curta passagem por Lisboa, onde tentou uma experiência frustrada de exercício de advocacia. Regressou então a Guimarães, onde passará a maior parte dos seus dias, repartidos com estadias na Casa de Boamense, onde deu aplicação prática aos seus estudos sobre agricultura e viticultura.


Em Guimarães, sabe-se que viveu na rua de Santa Luzia em casa de seu irmão José, de quem foi, nas palavras de Domingos Leite Castro, “inseparável companheiro de toda a vida”.


Pela análise da sua correspondência já publicada, é possível esboçar uma geografia da vida de Alberto Sampaio, pelo menos a partir de 1880: até ao dia 28 Março de 1900 viveu, essencialmente, em Guimarães, com algumas intermitências, quase todas passadas em Boamense.


O ano de 1899 trouxera duas perdas irreparáveis a Alberto Sampaio. Nos primeiros dias de Agosto, faleceu Francisco Martins Sarmento (escreveria então a Luís de Magalhães: “eu tenho mais razão que qualquer outro de sentir a sua morte, por ser uma das poucas pessoas com quem eu convivia aqui. Não faz ideia, como me entristece esta solidão, que todos os dias aumenta em volta de mim”). Golpe ainda mais profundo o atingiria daí a pouco: no dia 15 de Setembro, era o seu irmão José que partia (escreveria então ao seu confidente Luís de Magalhães: “Eu sei que é dever nosso reagir; mas esta falta condena-me a uma solidão que me aterra”).


Seria esse sentimento de solidão, carregado de perda e de pessimismo, que o levaria a abandonar de vez Guimarães. No próprio dia em que preparava a partida da terra que o viu nascer e onde viveu, escreveu a Luís de Magalhães:


“Mal lhe posso escrever. As saudades do passado... creio que são elas... dilaceram-me o coração; ou o pressentimento dum futuro... que futuro?”


Dois dias depois, já em Boamense, descreveria melhor o seu estado de espírito na hora em que deixava para trás o seu “ninho de tantos anos”:


“Estava numa extrema sensibilidade; arrumava as últimas coisas do meu ninho de tantos anos: fechada a sua carta, empacotei o tinteiro: nesse momento a memória representava-me com uma luz fulgurante os castelos em mim do meu passado: e que ilusões! Hoje vou melhor: caí numa tristeza calma, que por fim também há-de desaparecer.”


Desde aquele final de Março de 1900 até ao seu desaparecimento, a 1 de Dezembro de 1908, os dias de Alberto Sampaio correram entre Boamense e o Porto, onde passava largas temporadas, acomodado em casas de hóspedes localizadas na Rua Formosa, primeiro, e na Rua da Alegria, depois. A morte apanhou-o em Boamense, na freguesia de Cabeçudos, Vila Nova de Famalicão, não obstante constar nas enciclopédias que terá falecido em Vila Nova de Gaia.

[Texto também publicado aqui]
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Alberto Sampaio e a Exposição Industrial de Guimarães de 1884

O Palácio de Vila Flor, durante a exposição de 1884.

Uma das preocupações iniciais da Sociedade Martins Sarmento prendeu-se com o desenvolvimento industrial de Guimarães. Logo nos primeiros tempos, mesmo antes da instalação oficial da Sociedade, foi apresentada pelo Director Domingos Leite Castro uma proposta para se organizar uma exposição concelhia. A ideia seria retomada no início de Dezembro de 1883, quando a linha de comboio já se aproximava de Guimarães. Nessa altura, a direcção da Sociedade decidiu pela “conveniência de, por ocasião da abertura do caminho-de-ferro de Bougado a Guimarães, se efectuar nesta cidade uma exposição industrial na conformidade de uma proposta há tempos apresentada pelo nosso colega o Sr. Domingos Leite de Castro”. De imediato se tratou da reparação da exposição, que contará com grande adesão por parte das actividades produtivas vimaranenses.

Alberto Sampaio, que seria autor, com Joaquim José de Meira, do Relatório da Exposição Industrial, desde cedo teve o seu nome associado à exposição de 1884, da qual, mais do que Director Técnico, tarefa em que foi formalmente investido, seria o principal mentor. Não por acaso, o primeiro texto que Alberto Sampaio publicou na Revista de Guimarães, era uma reflexão sobre a necessidade de promover uma mostra da indústria vimaranense, em que responde à pergunta Convirá promover uma exposição industrial em Guimarães?


“[…] Uma exposição em Guimarães não só é conveniente, mas impõe-se como uma necessidade, se a considerarmos como o primeiro passo para o rejuvenescimento e aperfeiçoamento tanto das suas antigas industrias como das que têm sido introduzidas nestes últimas quarenta anos. Esta necessidade acentua-se tanto mais se se atender à sua variedade, à localização dispersa por toda a área do concelho e à apatia de que estão sofrendo muitas delas. Reunidas, postas em face umas e outras, ver-se-á mais claramente, duma maneira palpável e irrefutável, a grande importância que o trabalho fabril ocupa no regime económico do concelho, e como o seu desaparecimento se traduziria por uma verdadeira desgraça para a população que o habita.

Ponderemos também que o inquérito de 1881 é muito omisso neste ponto; omissão que resultou provavelmente já da dificuldade de colher os elementos necessários atenta a sua disposição topográfica, como talvez também por falta de tempo. Será pois uma ocasião oportuna de preencher aquela falta, e formular um relatório que contenha detalhada e precisamente todo o movimento industrial de Guimarães, indagando-se ao mesmo tempo todos os factos que constituem a sua economia e trazendo a lume todos os esclarecimentos que sejam a base para os trabalhos a seguir.

Considerada assim, no ponto de vista acima exposto, como ocasião de estudo, como incentivo que reanime o moral da população, como ponto de partida em suma, uma exposição aqui como em qualquer outro centro produtor, tem uma razão de ser determinada; esforço parcial, mas subordinado a um pensamento geral, faz parte, diremos antes, é um poderoso meio de acção deste movimento geral que antes de se estender e envolver toda a terra portuguesa, terá de se ir acentuando isoladamente em todos os grupos produtores.

Se o país tiver ainda a vitalidade e os meios suficientes para levar a cabo esta empresa, se os homens que a iniciaram e os que se lhes vierem juntando nesta longa peregrinação, conseguirem restaurar o trabalho português indústria agrícola e fabril – poderemos então esperar ainda que qualquer que seja a crise mais ou menos grave, que parece avançar dia a dia sobre o horizonte nacional, essa será apenas uma perturbação passageira, que causará sem duvida a ruína de muitos, mas deixará viva a massa da nação e com os elementos necessárias para começar um novo ciclo histórico.”

Alberto Sampaio, “Resposta a uma pergunta. Convirá promover uma exposição industrial em Guimarães?”, in Revista de Guimarães n.º 1, fasc. 1, Jan.-Mar. Jan.-Mar. 1884, p. 25-34.

[Texto também publicado aqui]
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23 de dezembro de 2007

Antigamente: O Natal em Guimarães

"Naquele tempo não havia a árvore ao Natal, nem mesmo o “Pai Natal” era conhecido da petizada; o que se sabia era que o Menino Jesus vinha nessa noite com um alforge cheio de coisas boas, brinquedos, bonecas e macacaria articulada, visitar os quartos dos meninos “que se portassem bem”, e isso era indispensável, e distribuir-lhes os seus presentes.

Só depois é que começou a aparecer, mascarado, o tal "Pai Natal" de barbas brancas e de indumentária para resistir às neves; aqui com este clima doce e ameno, em que a neve só aparece lá para o Gerês e Terras de Barroso, não há quem o compreenda coberto de neve; a petizada só acredita no Menino Jesus, esse, sim, era o que lhe trazia as bonecas de cabeça de porcelana, umas até que fecham os olhos ao deitar, muito bem paramentadas, mas cheias de serradura na barriga, braços e pernas; os soldados de chumbo, todos em formatura nas caixas de cartão; as barretinas e espadas de folha; as espingardas que disparavam uma rolha, ou estouravam um fulminante de papel, redondo, e que se compravam em caixinhas vermelhas; os cavalos, desde os pequeninos até aos grandes, que a gente miúda podia montar; os bonecos de corda e o macaco que trepava pelo fio, eu sei lá que de coisas bonitas, que eram o encanto da pequenada, e tamanho ele era que não descansava enquanto não visse como aquilo “era por dentro”.

Mas agora, Santo Deus!, o que para aí vai de brinquedos bonitos, bem apresentados, realmente encantadores, uns, e outros igualmente aliciantes, mas de duvidosa educação moral - pistolas metralhadoras, morteiros de trincheira e carros de assalto com os respectivos canhões, tudo isto felizmente de plástico - coisas que mais encantarão os velhos do que as crianças.

Ora neste ano* dei uma volta pela cidade e pela Praça, no sábado que calhou ser a véspera do Natal.

Muita gente, muita criançada pelas ruas, as lojas de brinquedos cheias de compradores, e na Praça também muita gente, mas não tanta como no sábado de Aleluia.

Quando vou a Guimarães num sábado pela manhã, não deixo de ir admirar o mercado das flores, que é coisa digna de se ver, porque as vendedoras, talvez pela influência do artigo que expõem, têm tanto gosto na apresentação dos cestos e açafates que é um verdadeiro encanto para os olhos.

Vale a pena dar uma saltada à Praça num sábado pela manhã, enquanto os açafates estão intactos, mas, como todas as coisas dignas de se ver, têm um contra, que é o local acanhado da exposição, o da varanda que está bem nos dias de chuva.

Num local mais amplo, onde se possa desfrutar o conjunto dos cestos, numa manhã brilhante de sol, do mês de Maio, é uma exposição tão maravilhosa e atraente que vale bem o incómodo do levantar cedo.

Depois andei à procura das mulheres das grandes talhas de mel e fiquei desolado com o aspecto sórdido e pouco convidativo do espectáculo, em que só vi duas infusas de barro vidrado e o resto eram cântaros de folha mal amanhados, e sem as colheres de pau, e os vendedores e vendedeiras de indumentária muito pelintra, muito longe daquelas lavradeiras frescas e anafadas, com os seus lenços de cores berrantes que havia há cinquenta anos.

Realmente aquilo está a pedir a intervenção de alguém de bom gosto que aconselhasse as vendedeiras a apresentarem-se mais convenientemente numa data de festa como a que passou, e até arredar de lá uma vendedeira de tripas enfarinhadas e de chouriços de sangue!

Tudo isto dá carácter e as praças do mercado são muito visitadas por turistas que ali vão apreciar aspectos pitorescos das populações."

*Este texto foi escrito em meados da década de 1950.

[in Coronel António de Quadros Flores, Guimarães na última quadra do romantismo, 1898-1918, Tipografia Ideal, 1967, cap. XVIII, págs. 118-119]
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16 de dezembro de 2007

Do Toural: 5. História, simbolismo e identidade

O Toural, durante as primeiras festas Gualterianas (1906)

Por razões que me escapam, quando tudo indicava que ia suceder o contrário, tem-se acentuado nos últimos tempos a tendência para o confinamento do Centro Histórico de Guimarães ao interior do espaço intramuros, mais precisamente à área que se estende das imediações da Praça da Oliveira ao sopé da Colina do Castelo, como se o Centro Histórico, por qualquer determinação não escrita cuja origem se desconhece, tivesse passado a terminar na rua Serpa Pinto. Como exemplo desta constatação, sugiro a leitura de uma publicação recente da Zona de Turismo de Guimarães, intitulada “À descoberta do Centro Histórico de Guimarães”, que inclui um mapa onde o Castelo não cabe e onde o Toural nem sequer existe.

É fácil de demonstrar que o Toural é, com a Oliveira, uma das praças históricas de Guimarães que permanecem praticamente com a mesma configuração espacial que tiveram ao longo dos séculos. Outros rossios que hoje marcam presença entre os lugares históricos de Guimarães – S. Tiago, Misericórdia (João Franco) ou Condessa do Juncal – são praças novas, rasgadas nos séculos XVIII, XIX ou XX. Daí que seja de assinalar a preocupação com “o reforço do carácter simbólico e identitário do Toural, enobrecendo o seu espaço físico e tornando-o mais atractivo e confortável para a população”, que consta entre os objectivos para o projecto de intervenção no Toural e na Alameda. Se este é um aspecto que me parece ainda pouco trabalhado no que se conhece do projecto, também é aquele que será mais fácil de resolver e de consensualizar.

Com a intervenção que se projecta, o Toural tem a oportunidade de voltar a ocupar o lugar que é seu por direito na história e nos circuitos turísticos de Guimarães. Para tanto, não será necessário fazer muito mais do que colocar na praça alguns marcadores de referências históricas, seguindo o modelo iniciado por Fernando Távora nas intervenções intramuros, assinalando na calçada os pontos com interesse histórico (nomeadamente a muralha e as suas torres e portas), informação que pode ser complementada com painéis descritivos do género dos já utilizados noutros lugares do Centro Histórico. Por outro lado, mesmo mantendo a opção de retirar o mosaico do pavimento, parece-me que deveriam continuar, de algum modo, inscritas na praça as marcas da construção da nacionalidade.

Defender a preservação da memória não é o mesmo que defender musealização da cidade, restituindo o espaço público e os monumentos a um passado que já não existe, nem volta. Toda a operação de revitalização do Centro Histórico de Guimarães foi feita com obra nova, produto de intervenções contemporâneas que transformaram as ruas e as praças de Guimarães em algo de substancialmente diferente, e melhor, daquilo que tinham sido no passado. Não obstante o seu carácter inovador, aquelas intervenções obedeceram a preocupações de preservação da memória e da identidade histórica. Dito por outras palavras: fez-se cidade nova, vinculando-a à identidade intemporal do velho burgo. Mexeu-se nas pedras, sem tocar na alma. Assim será, certamente, no Toural.

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Do Toural: 4. Do trânsito

Perpectiva geral da proposta de intervenção no Toural.
[Clique na imagem para ampliar]


A arquitecta Maria Manuel Oliveira, numa comunicação que, seguramente, será lida com atenção pelos técnicos e decisores políticos que têm entre mãos o projecto de intervenção para o Toural, já notou que, no debate em curso, o que está “em causa não é o projecto em si – aliás elaborado por uma equipa de reconhecida qualidade e com provas dadas nos mais significativos edifícios da cidade – mas o pressuposto de pedonalização absoluta do Toural”.

Subscrevo, em absoluto, o propósito subjacente ao projecto de “aumentar a qualidade ambiental e formal, diminuindo a presença do automóvel e autocarro em favor da circulação pedonal e bicicleta”. Comungo da ideia de que é preciso dar mais espaço aos peões no Toural, trazendo mais vida para o coração da cidade. Só não estou seguro das vantagens de entregar todo o Toural aos peões, eliminando a circulação automóvel. Estou com os que tendem a acreditar que é possível conciliar o trânsito motorizado com mais espaço na praça para os peões.

Não consigo imaginar o que mudará na vivência da cidade, tal como sempre foi, sem circulação automóvel naquele espaço, que sempre esteve aberto à circulação de todo o género de veículos. Também não estou a ver o Toural sem a praça de táxis ou sem lugar para autocarros descarregarem os turistas e os grupos escolares que visitam os museus da zona ou o Centro Histórico. Acredito que será possível conciliar o alargamento do espaço de estar, de passar e de lazer, reservado aos peões, com a circulação viária de automóveis e autocarros. Além do mais, ir ao Toural de carro, para se ver e para se ser visto, é um ritual muito vimaranense.

O atravessamento subterrâneo do Toural, conjugado com a implantação do parque de estacionamento subterrâneo, irá gerar zonas de desconforto para os utentes da praça relacionados com os sistemas de ventilação e de exaustão de fumos a instalar ou com os acessos pedonais ao parque. Ao mesmo tempo, a localização das bocas de entrada e saída do túnel será, como temos visto noutras cidades, potencialmente geradora de zonas de conflituosidade, muitas vezes de difícil resolução. Não tenho dúvidas de que, porventura mais do que as outras, a embocadura de entrada proposta para o Toural se poderá transformar numa dessas zonas de conflito, quer por se afigurar demasiado invasiva em relação ao espaço da praça, quer porque pode contribuir para jugular a rua Paio Galvão, tornando-a desconfortável para os peões e dificultando o seu atravessamento pedonal. Pode ser que esta associação não venha a fazer muito sentido, mas a verdade é que esta possibilidade me traz à lembrança o caso do Soares dos Reis, no Porto. E nem sequer falta o museu…

A apostar-se na solução de enterrar o trânsito no Toural, estou em crer que a boca de entrada do túnel deverá ser colocada bem antes da rua Paio Galvão.

O atravessamento do Toural tem sido um nó difícil de desatar pelos que estudam a circulação viária no interior de Guimarães. O fecho do trânsito na praça gerará uma cascata de problemas cujas soluções, se já estão encontradas, muito ganhariam em ser divulgadas. Falta saber, por exemplo, o que sucederá com a circulação nas ruas de D. João I e de Camões, que já hoje é complicada, e que terá que dar resposta às novas necessidades geradas pela nova implantação da feira semanal, que se irão somar às do mercado recentemente inaugurado, para o qual o Toural deixará de funcionar como via de escoamento. Também não é muito claro o que se propõe para o trânsito na rua da Caldeiroa e na Avenida Afonso Henriques, duas artérias algo problemáticas em termos de trânsito.

Agrada-me, muito particularmente, a solução encontrada pelos autores do projecto para a Alameda, onde é alargado o espaço pedonal, conciliando-o com a circulação automóvel, que fica circunscrita ao lado voltado para Sul (S. Francisco). Estou em crer que se resolveriam muitos dos problemas que têm sido apontados ao projecto em discussão se a solução da Alameda fosse prolongada até ao Toural, entregando a maior parte da praça ao usufruto dos peões, reservando o lado poente para a circulação automóvel à superfície e deixando cair as propostas de desnivelamento da circulação rodoviária e de construção do aparcamento subterrâneo. Além do mais, os custos da intervenção, a todos os níveis, seriam bem menores.

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Do Toural: 3. Do estacionamento

Já ninguém terá dúvidas de que o aspecto central de todo o debate à volta do Toural se prende, não tanto com o redesenho da praça, com mais árvores, menos árvores ou sem árvores nenhumas, cujas soluções serão reversíveis, mas com a necessidade (ou a falta dela) de criar ali um parque de estacionamento subterrâneo e de enterrar o trânsito que atravessa a praça. No fundo, porventura sem o parecer, é à volta destes aspectos do projecto que se tem andado a discutir.

A minha perspectiva desta matéria é obviamente subjectiva e empírica, resultando da condição de frequentador da praça e de morador nas suas imediações, uma vez que desconheço os estudos sobre a mobilidade na cidade de Guimarães que estarão na base das soluções avançadas. A sua divulgação pública poderia ser um bom elemento para a compreensão do que é proposto e, porventura, para dar resposta a algumas dúvidas e inquietações que se têm levantado.

Isto dito, direi que ainda não me convenceram os argumentos trazidos ao debate em defesa da construção de um parque subterrâneo no Toural. Em primeiro lugar, pela evidência do actual excesso de oferta de lugares de estacionamento nas imediações da área a intervir. Se hoje sobram tantos lugares, e mesmo que se eliminem alguns, por que razão se parte do princípio de que farão falta no futuro, quando me parece vital que o planeamento do trânsito deve manter o programa, há muito assumido, da redução da circulação de automóveis no interior da cidade?

A propósito desta discussão, muito se tem falado na revitalização do comércio tradicional. Que me perdoe quem pensa o contrário, mas não estou seguro de que os problemas do comércio tradicional em Guimarães derivem da falta de estacionamento automóvel. Hoje, como ontem, havendo muito onde estacionar, não faltam queixas dos comerciantes de que a coisa está má. A verdade é que o forte de Guimarães nunca foi o seu comércio.

Por outro lado, o que temos hoje na zona do Toural e do quadrilátero que fecha com as ruas de Santo António, Gil Vicente e Paio Galvão, tem cada vez menos a ver com o comércio tradicional. Boa parte das lojas que ali se encontram têm exactamente as mesmas características das que antes se confinavam aos centros comerciais e que vêm ganhando terreno noutros espaços. Serão comércio tradicional apenas porque têm porta aberta para a rua? Pressinto que, assim que se fechar o trânsito no Toural e na Rua de Santo António, vamos assistir ao desaparecimento progressivo do pouco comércio verdadeiramente tradicional ainda existente na zona, com a sua substituição por lojas de marcas franchisadas.

Depois, não me parece que o tipo de comércio que hoje se faz nesta zona exija estacionamento à porta da loja, por força dos pesos que os clientes têm que carregar. Cada vez mais se reduz a pastelarias e a outros estabelecimentos onde se come e bebe, a lojas de pronto-a-vestir, sapatarias, ourivesarias, ópticas, onde se vendem artigos que facilmente se transportam em sacos de mão de papel, já que aqui nem sequer existem mercearias ou supermercados.

Ou seja: não faltam razões para ponderar bastante antes de se decidir construir um parque de estacionamento subterrâneo no Toural. Até por causa do comércio: atendendo à experiência passada, já adivinho que, depois das obras iniciadas, serão os próprios comerciantes a queixarem-se delas, por lhes prejudicarem os negócios.

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15 de dezembro de 2007

Do Toural: 2. Das fontes e dos monumentos

Fonte-monumento do Toural (1953). Foto obtida aqui.

Um dos temas que, ao longo dos tempos, mais discussões têm gerado, quando se fala do Toural, prende-se com o que se deve lá colocar para embelezar a praça.

No início, o Toural era um imenso terreiro vazio. Em finais do século XVI, colocaram-lhe, no lado Sul, um grandioso chafariz de seis bicas, com taças de pedra bem lavradas e todo cercado de assentos de pedra para se recrearem os que ali vão, obra do célebre arquitecto Gonçalo Lopes. Em meados do século seguinte, o Toural ganhou também um cruzeiro de pedra majestoso, elevado sobre escadas, mandado erigir pela Irmandade da Senhora do Rosário, que ficaria conhecido como o Cruzeiro do Fiado, por ser junto a ele que se mercadejava o linho. Chafariz e cruzeiro foram retirados na década de 1870, no decurso do processo de renovação que criaria o jardim fechado, ao jeito do da Praça da Batalha, no Porto.

Em 1834, logo após a morte de D. Pedro IV, a Câmara aprovou a proposta de erecção no Toural de um monumento à sua memória, assim descrito no texto da deliberação: “uma pirâmide quadrangular de pedra fina, cujo ápice sustente um livro, representando a Carta Constitucional que ele nos outorgou; e uma espada, representando aquela com que o herói libertou a pátria”. Este monumento não passaria do papel.

Em 1911, foi colocada no centro do jardim do Toural aquele que o povo chamava de Rei Preto, o monumento de D. Afonso Henriques esculpido por Soares dos Reis que, até aí, estivera no largo de S. Francisco. Seria transferida, em 1940, para junto do Paço dos Duques. Por algum tempo, o centro do jardim do Toural ficaria vazio, discutindo-se o que lá se deveria colocar. Inicialmente, pensou-se realizar a proposta da Comissão Municipal de Estética (composta por Alberto Vieira Braga, Alfredo Guimarães, António de Azevedo, Luís de Pina e pelo Arq. José António Sequeira Braga) aprovou em 1939, fazendo regressar ao Toural o chafariz quinhentista. Depois de aceso debate público, decidiu-se construir uma fonte monumento, cuja concepção foi encomendada ao Arq. Sequeira Braga, que viria a ser inaugurada em 1953. Incluindo uma escultura em bronze de Eduardo Tavares, representando a vitória e a independência, o monumento comemora o milenário de Guimarães.

A solução proposta no projecto de intervenção no Toural e na Alameda actualmente em discussão pública, não me parece a melhor, tanto do ponto de vista artístico, como do da memória histórica (o mesmo penso, aliás, do que se propõe para as fontes do jardim da Alameda com esculturas de António de Azevedo). Intervenções sobre obras artísticas como as propostas parecem-me tão defensáveis como pretender retocar o auto-retrato de Van Gogh, pintando-lhe a orelha que lhe falta. Não me parece uma boa opção a ideia de desmantelar a fonte monumental, apenas aproveitando, da obra de Sequeira Braga, a escultura de Eduardo Tavares, que seria transferida para um espelho de água. Tenho para mim que aquela obra deve ser vista como um todo e não como o somatório de duas partes independentes. Se a opção for retirar do Toural, nada a opor. Certamente não faltará local onde o monumento possa ser colocado com dignidade e enquadramento adequado.

O que colocar, então, no Toural? Obra(s) de arte contemporânea(s), sem dúvida. Mas continuo a pensar que será de ponderar a possibilidade de integração no novo desenho da praça de duas peças magníficas, que foram originalmente concebidas para o Toural: o chafariz de 1588 (como propunha, há quase 70 anos, a Comissão Municipal de Estética) e o célebre Cruzeiro do Fiado.


O Chafariz do Toural (1588), pormenor (Foto de Eduardo Brito).

O Cruzeiro de Nossa Senhora do Rosário, popularmente conhecido como Cruzeiro do Fiado (1650), pormenor (Foto de Armindo Cachada)
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14 de dezembro de 2007

Do Toural: 1. As árvores

No Toural, durante muito tempo, não houve árvores: as primeiras foram plantadas em 1859 e, ao longo do século XX, tanto tivemos o Toural com árvores, como sem elas. Portanto, o problema das árvores no Toural tem sido um problema de jardinagem: tanto se plantam, como se abatem (até a pedido dos moradores), conforme o gosto e a moda. Para mim, é claro que as árvores que hoje estão no Toural, para além de não terem particular beleza ou interesse botânico, como o debate já permitiu perceber, funcionam como barreiras visuais que reduzem a percepção da grandiosidade da praça. E, se se tomar como adquirida a inevitabilidade da construção de um parque subterrâneo na zona em discussão (Alameda e Toural), é evidente que opção pelo Toural é, manifestamente, a mais acertada. Aqui, parece-me bem sustentado o argumento do arquitecto Seara de Sá: fosse o parque construído na Alameda e o arboricídio teria a dimensão de uma hecatombe, tanto pela quantidade, como pela qualidade das árvores a abater. Portanto, em matéria de árvores, os argumentos mais consistentes inclinam a praça para o lado dos autores do projecto em discussão, que até assumem o compromisso de mandarem plantar na Alameda, em dobro, as árvores que fossem cortadas no Toural.

O eventual corte das árvores colocará um problema que tem sido debatido ciclicamente, sempre que se fala em intervenções neste espaço da cidade: a necessidade de criação de abrigos para os frequentadores da praça. Convirá notar que a introdução das primeiras árvores no Toural, em meados do século XIX, se prende com o desaparecimento dos abrigos das alpendradas que rodeavam a praça nas suas frentes voltadas para Poente e Norte, que aconteceu pela mesma altura. E o assunto voltou a ser discutido quando desapareceu o jardim romântico, logo após a instauração da República. O projecto de marquise do capitão Luís de Pina procurava dar resposta a este problema, oferecendo “aos vimaranenses um lugar de estacionamento apropriado”. A preocupação era a mesma de hoje: evitar que o Toural se transformasse num território inóspito.

Não me parece que o projecto que está em discussão já tenha uma solução para o problema que, fatalmente, se colocará com a retirada das árvores do Toural. Estou certo de que a imaginação dos projectistas terá que ir um pouco mais além dos chapéus-de-sol das esplanadas, para que se torne a praça mais confortável para os utentes, seja Verão ou seja Inverno. Se será com árvores de diferente porte das actuais, com pérgulas ou mesmo com a retoma da marquise do Pina, é o que falta saber.

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O Toural em debate


Parece claro que o debate sobre a intervenção no Toural, realizado no dia 12 de Dezembro na Sociedade Martins Sarmento, introduziu um conjunto de questões que são merecedoras de reflexão, com destaque para as que resultam dos argumentos ali apresentados pelos arquitectos presentes.

Ninguém, a começar pelos decisores políticos, ignora a particular sensibilidade de uma intervenção que se proponha ir para além da mera cosmética num espaço com a dimensão simbólica, histórica e vivencial do Toural. Daí que seja de registar a decisão da Câmara Municipal de Guimarães de submeter este projecto a escrutínio público, assumindo uma postura humildade democrática, inusitada nos tempos que correm, marcando presença e tomando nota das contribuições que vão sendo avançadas. O mesmo se dirá em relação aos autores do projecto, que não se deixam ficar fechadas numa redoma inacessível e se dispõem a contribuir para o enriquecimento do debate, defendendo e explicando as suas propostas.

A iniciativa de quarta-feira passada não encerra o debate sobre o Toural, bem pelo contrário. Pela adesão das pessoas, pelo ambiente que se respirava naquela noite e pelo teor das intervenções que se escutaram, nomeadamente do público, parece-me claro que hoje existe uma preocupação, comungada por muitos vimaranenses, que pode ser sintetizada no receio da Arquitecta Maria Manuel Oliveira, de que se possa estar a propor para o Toural “uma intervenção demasiado invasiva que implica cicatrizes indeléveis”. No final, não faltou quem confessasse que o debate soube a pouco, especialmente por não ter sido dado mais tempo para que o público dissesse de sua justiça. Ora, era exactamente essa a ideia da iniciativa: relançar o debate, abordando o Toural sobre diferentes prismas e introduzindo informação para que os vimaranenses possam formular as suas opiniões, sem que o debate se centre em questões menores e laterais, como a que às árvores se refere.

Quem, no final, decide, já disse que vai ouvir, antes de decidir. Têm a palavra os vimaranenses.

Nos próximos dias, colocarei aqui algumas reflexões pessoais, vertidas currente calamo, sobre o Toural e o que para o Toural se projecta.

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8 de dezembro de 2007

O Toural no último quartel de oitocentos

O Toural em 1884. Foto da Casa de Sarmento.

"Quem há trinta anos se referia ao Toural, referia-se implicitamente ao ponto da cidade onde se reunia o escol da gente da nossa terra, quer nos estabelecimentos que ainda hoje o ladeiam, embora tenham passado a outros possuidores, quer nas ruas e trottoirs que então o atravessavam.

A Casa Havanesa; o estabelecimento do rotundo Campos à esquina da Rua de Santo António, anteriormente de Mata Diabos e hoje de 31 de Janeiro; o do Miranda das lotarias, – e das larachas –, homem inteligente e folgazão, mais tarde comendador e cavaleiro; a Loja do Leque, de Rodrigo de Macedo, actualmente commis-voyageur duma importante fábrica bracarense; a do Domingos de Freitas ou da Custódinha; a do Joaquim Leite, vulgo Prosódia; a do Simões, vidraceiro; a do relojoeiro Jácome; a de João de Castro Sampaio, depois de Domingos Vargas, seu sócio e sucessor; a do sr. Braga que Deus conserve – formando a esquina da rua de Paio Galvão e ainda, um pouco mais adiante, a de outro Jácome; eram outros tantos pontos concorridos e divertidíssimos por onde se disseminava, – como o arroz dum saco que se rompesse, nessa época de paz, de prosperidade, de barateza e de fartura, – e onde se entretinha, onde folgava e ria e… amava, a inteligência bizarra da meia-idade e a tagarelice garota da mocidade vimaranense de há trinta anos!

Trinta anos!... rapidez dum auto que não pode ser acompanhado pela nossa fantasia, mas atrás do qual segue a nossa saudade – aos solavancos!

No terreno neutro e equânime que era, por essa época, o Toural, continuavam as discussões, as pugnas da palavra, os duelos da oratória, iniciados ali ao lado, no Café do Vago Mestre, discussões que só vinham a terminar na Assembleia, entre um aperto de mão e uma gargalhada amiga, uma tacada de bilhar puxada a primor, ou uma xícara de chá de cor duvidosa e incerta, entre o verde-escuro e o preto, mas que nem era bem preto, nem bastantemente verde-escuro, chá preparado pelo correcto e glabro Jerónimo, cuja idade se perdia, não nas trevas dos tempos antediluvianos, ou pré-históricos, mas nos da fundação do próprio grémio de que era zeloso e honestíssimo ecónomo.

O Toural! Se as pedras que ainda hoje o pavimentam; as grades que em tempo o cercaram; as flores que outrora lhe matizaram os delineamentos e lhe deram encanto, perfume e beleza; as árvores que, no passado, lhe prodigalizaram sombra, frescura e refrigério; surgissem ali de novo e falassem, como fala ao nosso espírito cada aurora que se ergue das sombras da noite extinta, – ah! então, quantos desejos, quantas aspirações, quantas ânsias e quantos sonhos de esplendor, a perpetuarem-se nas páginas da História da nossa terra — para o amor, para o reconhecimento e para a gratidão eterna de nós todos, sim, de nós todos, — brancos, amarelos, azuis e brancos, ou verde-rubros?!"

[in Fernando da Costa Freitas, Há trinta anos. O Toural, Revista de Guimarães, n.º 31, 1921, pág. 34-35]
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5 de dezembro de 2007

Do nascimento de Alberto Sampaio

Emília Ermelinda da Cunha Cardoso Teixeira, natural da freguesia de Nossa Senhora da Oliveira, casou aos 27 anos de idade com o juiz Bernardino de Sampaio Araújo, originário de S. Cristóvão de Cabeçudos, no dia 25 de Maio de 1840. O casamento duraria menos de dois anos, por força do falecimento do marido. Entretanto, antes de transcorridos 18 meses sobre a data do casamento, nasceram duas crianças, primeiro José, depois Alberto.

Ao contrário do que possa parecer, nada existe que nos permita supor que, em ambos os casos, não terão sido gravidezes a termo. José nasceu 261 dias após o casamento dos pais, o que se situa ligeiramente acima do limiar inferior do tempo de referência para uma gravidez a termo (37 semanas), um pouco menos de 9 meses. Alberto nasceu 283 dias depois, o que dá um intervalo de quase 40,5 semanas. Por regra, no passado, os intervalos entre os nascimentos eram bastante mais dilatados do que este, porque, na ausência de aleitamento artificial, as crianças eram amamentadas pelas suas progenitoras durante períodos mais ou menos largos, o que, por regra, resulta num período de amenorreia (ausência de ovulação) enquanto dura a amamentação. Ora, nos estratos sociais mais altos, ao longo do nosso século XIX (e mesmo posteriormente), era comum o recurso a amas-de-leite. Assim terá sucedido, seguramente, com Emília Ermelinda, que terá entregue a amamentação do seu primeiro filho a uma ama, o que anulou a possibilidade de amenorreia por lactação. Assim se explica que, pouco tempo transcorrido após o primeiro parto, a senhora estivesse grávida de Alberto.

Nenhum mistério, portanto. Até porque não há nenhum indício de que Alberto pudesse ter tido um nascimento prematuro, uma vez que no seu registo de baptismo não há referência a que tivesse sido ensopeado, isto é, baptizado em casa, de emergência e sub conditione, conforme era uso em casos que tais.

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2 de dezembro de 2007

Raízes liberais de Alberto Sampaio

Bernardino de Sampaio Araújo, pai de Alberto Sampaio, era filho de Manuel Sampaio Araújo e de Ana Maria Carvalho Araújo. Nasceu na freguesia de São Cristóvão de Cabeçudos, em Vila Nova Famalicão. Cursou direito na Universidade de Coimbra, onde o apanhou a revolução liberal de 1820. Formou-se em 1822, vindo a exercer funções de procurador in partibus do Almoxarifado da Vila de Barcelos, cargo que ocupava em 1827. Tendo aderido aos ideais liberais, seria perseguido durante o período da usurpação absolutista, após a aclamação de D. Miguel, acabando por emigrar em 1828. Regressaria a casa em 1834, após a vitória dos liberais na guerra civil. Em 1835 era delegado do Procurador Régio no Juízo de Direito de Famalicão. Em 1837, transitou para as funções de Juiz de Direito Substituto em Guimarães, onde seria eleito deputado substituto em Outubro de 1838. Em Janeiro de 1841, foi despachado juiz de Direito de 1.ª Instância em Celorico de Basto, terra onde viria a falecer, no princípio de 1842.

Entretanto, tinha-se casado com Emília Ermelinda da Cunha Sampaio que, depois do nascimento do primeiro filho, José, nascido na casa paterna, em Cabeçudos, se instalaria em Guimarães, na residência de um tio, o cónego José de Abreu Cardoso Teixeira, na rua dos Mercadores (actual rua da Rainha D. Maria II). Seria aí que aguardaria a chegada do seu segundo filho, Alberto.

O cónego José Teixeira partilhava dos ideais constitucionais de Bernardino de Sampaio e Araújo. Também ele andou fugido às perseguições miguelistas, por ter sido pronunciado na devassa instruída na sequência do decreto de 15 de Julho de 1828. O seu nome estava inscrito no extenso rol dos liberais que foram citados, como ausentes, por alvará do Presidente da Alçada do Porto, para comparecerem perante a Justiça para “se livrarem das culpas e crimes por que estavam pronunciados pelas devassas de rebelião”. Continuaria na clandestinidade, integrando uma lista de 109 pessoas procuradas por crimes políticos, sob quem incidia a ameaça do degredo para os presídios africanos de Cabo Verde, Caconda, Bissau ou Pongo Andongo. Com a vitória de D. Pedro IV e de D. Maria II, em 1834, o cónego Teixeira estará do lado dos vencedores, sendo premiado com a conesia do Cónego Pedro de Morais Correia de Sá e Castro, que foi expulso, por ser partidário dos miguelistas. Faleceu na madrugada do Natal de 1843, quando contava 55 anos.

Tendo iniciado a sua formação escolar em Guimarães, com o seu irmão José, na aula de Tomás Guilherme (que, muito provavelmente, seria Tomás Guilherme de Sousa Pinto, depois director do jornal vimaranense Religião e Pátria), Alberto Sampaio foi inscrito, com 10 anos completos, no Colégio de João Luís Correia de Abreu, em Landim, Famalicão, próximo da casa de Boamense, em Cabeçudos, para onde entretanto se mudara a sua mãe. Curiosamente, e apesar da forte tradição liberal da sua família, a sua instrução foi entregue a um fervoroso partidário do absolutismo, João Luís de Abreu, que também andara expatriado por razões políticas, mas por motivos opostos aos que justificaram as perseguições ao seu pai e ao seu tio-avô.

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25 de novembro de 2007

Alberto Sampaio e a Sociedade Martins Sarmento

Alberto da Cunha Sampaio teve, desde os tempos da fundação, um papel muito presente e activo na actividade da Sociedade Martins Sarmento. Apesar de não integrar a Direcção da Sociedade, cujo primeiro presidente foi o seu irmão José, Alberto Sampaio em muito contribuiu, com a sua acção e o seu conselho, para o dinamismo cultural e social que, desde cedo, a SMS assumiu na cidade e no país.

Num texto em que dava conta das primeiras actividades da Sociedade, publicado no n.º 1 da Revista de Guimarães, Avelino da Silva Guimarães regista essa colaboração:

“Também tivemos muito quem nos animasse. Tivemos uma classe de consócios, que denominámos consultivos, porque assistiam às nossas sessões, e nos auxiliavam com a luz do seu conselho. Neste primeiro período foram os mais assíduos os snrs. Rodrigo de Menezes e Alberto Sampaio.”

A voz de Sampaio foi ouvida aquando da redacção do Regulamento Geral da Sociedade, ainda no início de 1882. Em Janeiro de 1883, a sua opinião teve peso na aprovação de uma proposta de Avelino Guimarães o criação de um periódico, que virá a ser a Revista de Guimarães, na qual o historiador Alberto Sampaio iniciaria a publicação da sua obra.

Em 1884, publicou o seu primeiro texto na Revista de Guimarães, com o título “Resposta a uma pergunta. Convirá promover uma exposição industrial em Guimarães?”. A sua resposta seria consumada em Junho daquele ano, quando, por iniciativa da Sociedade Martins Sarmento, abria portas a primeira e grandiosa Feira Industrial de Guimarães, da qual, mais do que Director Técnico, cargo em que foi formalmente investido, Alberto Sampaio se assumiria como um dos principais mentores e impulsionadores. O notável Relatório da Exposição Industrial de Guimarães, em 1884 seria obra sua e de Joaquim José de Meira.

Ainda nesse ano de 1884, Alberto Sampaio integrou o Conselho Superior do Instituto Escolar da Sociedade Martins Sarmento.

Em 1890, foi-lhe solicitado pela Direcção da Sociedade que, juntamente com outros ilustres vimaranenses (Conde de Margaride, Padre Abílio Augusto de Passos, Domingos Leite de Castro, Francisco Ribeiro Martins da Costa e Visconde de Sendelo), emitisse parecer acerca da criação de condições para a introdução do ensino agrícola na instrução primária complementar. Em Novembro desse ano, foi-lhe também solicitado que, em colaboração com Francisco Martins Sarmento, José de Freitas Costa, António Augusto da Silva Cardoso, Domingos Leite de Castro, Inácio de Meneses e Antero Campos da Silva, participasse na organização dos catálogos e do regulamento dos museus de arqueologia e numismática da Sociedade.

No início de 1891, a acção cultural de Alberto Sampaio seria reconhecida pela sociedade Martins Sarmento, com a aprovação da proposta de Avelino Guimarães para que lhe fosse atribuída a condição de sócio honorário “não só pelas suas publicações de mérito, especialmente pela direcção técnica da exposição industrial de Guimarães”.

Uma das principais marcas que Alberto Sampaio deixou na Sociedade Martins Sarmento é a que resulta da sua colaboração para a criação e abertura da Biblioteca Pública da Sociedade. A esse propósito, escreveria Avelino Guimarães, na Revista de 1884:

“O génio resoluto de Leite Castro, eleito entre os seus colegas da direcção para director da biblioteca, não acobardou com as dificuldades que surgiram na organização e instalação duma biblioteca desde o princípio avultada. Obtendo a coadjuvação constante do dr. Alberto Sampaio, pôde conseguir que a biblioteca se inaugurasse solenemente no dia 9 de Março de 1883, e pouco depois se facultassem quase todos os volumes à leitura pública.”

Além do seu contributo para a organização da Biblioteca, Alberto Sampaio daria um significativo contributo para engrandecimento do seu acervo, ao oferecer muitos livros da sua biblioteca particular à Sociedade Martins Sarmento. Nas actas da Direcção estão registadas, pelo menos, oito doações, que ocorreram entre os anos de 1883 e 1896. A última delas seria um exemplar da edição de luxo da obra Anthero do Quental – In Memoriam, que homenageava o seu amigo e companheiro de jornada desde os tempos de Coimbra.

[Texto também publicado aqui]
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24 de novembro de 2007

Do número de vizinhos que tem a vila de Guimarães

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Vista geral de Guimarães. Gravura de J. Cristino.

In José Augusto Vieira, O Minho Pitoresco, Livraria António Maria Pereira - Editor, Lisboa, 1886, tomo I, p. 601.



"Entre todas as vilas do reino, é esta de Guimarães a mais povoada, porque de todas só Santarém e Setúbal lhe levam vantagem no número de fogos e vizinhos, mas se estas hoje são mais assistidas, Guimarães no aprazível em todos os séculos foi mui assistida, e admirável. Recolhe esta vila em seus muros 683 vizinhos, e com todos os arrabaldes de que tenho dado conta, é povoada de 1973, repartidos por cinco paróquias, que são S. Miguel do Castelo, matriz da vila velha Araduca, a Real Colegiada, matriz da nova vila de Guimarães, com dois cónegos curas, a paróquia de S. Paio e a de S. Sebastião."

(Padre Torcato Peixoto de Azevedo, Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, manuscrito de 1692, cap. 90)

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21 de novembro de 2007

Imagens de Guimarães: Campo da Feira em 1858

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Estereoscópia de Antero Frederico de Seabra, 1858.


O Campo da Feira em 1858. O espaço tinha uma configuração muito diferente da actual. Ao centro, a igreja dos Santos Passos ainda sem as torres. Em frente à igreja, estende-se o tabuleiro da ponte sobre o ribeiro de Santa Catarina (Rio de Couros). Do lado direito, a fachada do antigo Teatro D. Afonso Henriques.
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20 de novembro de 2007

Imagens de Guimarães: Oliveira

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Vista parcial da Praça da Oliveira.

A pintura que damos aí acima foi publicada em 1981 na capa do primeiro volume da obra Património Artístico e Cultural de Guimarães, do Eng.º José Maria Gomes Alves, à altura Presidente da Direcção da Sociedade Martins Sarmento. Segundo aquele autor, esta gravura, "salvo erro, anda no Minho Pitoresco do Pinho Leal", o que não se confirma (aliás, Pinho Leal não é autor daquela obra, escrita por José Augusto Vieira, mas sim do Portugal Antigo e Moderno, onde onde esta imagem também não consta). O quadro terá sido pintado entre a década de 1830, em que se realizaram as obras na Colegiada durante as quais foram rasgadas as quatro aberturas do janelão situado sobre o pórtico da igreja, e o ano de 1857, em que o Padrão e o adro da Igreja foram cercados por grades em ferro, que não aparecem nesta obra. Trata-se, com forte probabilidade, de uma reprodução de uma pintura de Augusto Roquemont, o qual também trabalhou nas obras da Colegiada da década de 1830 (que seriam objecto de censura por parte de Alexandre Herculano).

Serão bem-vindas todas as informações que permitam identificar este quadro.
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19 de novembro de 2007

Alexandre Herculano e as obras da Colegiada

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Vista parcial da nave central da Igreja da Oliveira, após as obras da década de 1830.
Em 1830, o cabido mandou reformar a igreja da Colegiada da Oliveirra. Da reforma resultou a cobertura do interior com cal e a colocação na nave de um tecto de estuque, decorado com pinturas de Augusto Roquemont. Destas obras resultou o alindamento da igreja ao gosto da arquitectura da época, emparedando a sua identidade gótica. Na altura, o historiador Alexandre Herculano expressou a sua crítica a esta intervenção no texto que aqui se transcreve:
"Todavia, ainda há quem deplore a destruição das memórias venerandas de melhores tempos; ainda há quem lute contra a torrente de barbária que alaga este país tão rico de recordações, recordações que tantos ânimos envilecidos pretendem fazer esquecer. Sabemos que os nossos brados de indignação acham eco em muitos corações. Temos visto e recebido cartas acerca deste assunto escritas com a eloquência da convicção e de profundo despeito. São protestos solenes de que nem todos os filhos desta terra venderam a alma ao demónio da devastação. Provam elas que o ruído dos alviões e picaretas não basta para afogar os brados da razão, da consciência e do amor pátrio. Lendo-as, o sangue referve nas veias contra essa ideia fatal que entrou na maioria dos espíritos, de que tudo quanto é antigo é mau ou insignificante, quando a pior coisa que há é essa ideia, a mais insignificante a cabeça onde se aninha, a mais detestável a mão que a traduz em obras, estampando sobre a terra da sua infância a inscrição que o ateísmo decreta para os sepulcros: - aqui é a jazida do nada.
É singular, por exemplo, a história das recentes vicissitudes por que tem passado a Colegiada de Santa Maria da Oliveira em Guimarães. Guimarães parece fadada para vítima desta espécie de escândalos. A igreja da Colegiada de Guimarães era um dos mais belos monumentos de arquitectura ogival. O seu tecto de grossas vigas primorosamente lavradas constituía com o da sé do Funchal e poucas mais toda a riqueza de Portugal neste género, porque, durante a Idade Média, empregava-se geralmente a abóbada de pedra nas edificações sumptuosas. Além disso, as bem proporcionadas arcarias, os capitéis adornados de esculturas variadas e subtis, as três naves majestosas divididas por elegantes colunas, inspiravam em subido grau aquele respeito melancólico e saudoso que é um segredo das igrejas chamadas góticas. Os anos não tinham deslizado em vão por cima do monumento: arruinado em partes, carecia de reparos. O cabido ajuntou para isso grossas somas. Chamaram-se obreiros, e há sete ou oito anos que estes lidam por apagar todos os vestígios da antiga arte. Quebraram-se os lavores dos capitéis e cornijas: substituíram-se com pedras lisas: estas pedras cobriram-se de madeira: esta madeira dourou-se, pintou-se, caiou-se. O templo do Mestre de Avis lá está alindado; lá está coberto de arrebiques. Os que deviam manter-lhe a majestade das cãs; os que deviam despender seus tesouros acumulados, não em remoçá-lo, mas em conservar-lhe o venerando aspecto e as rugas dos séculos, fizeram da casa do Senhor um velha prostituta que esconde debaixo do caio e do carmim a flacidez do gesto. Blasfemaram de Deus, não com blasfémias de palavras, mas com a blasfémia das obras. Deram enfim documento indubitável de que não havia ali quem soubesse a harmonia que existe entre a arquitectura e a religião; que se lembrasse de que o livro da lei e o templo são dois tipos sensíveis, dois verbos que inspiram, um directamente ao espírito, outro simbolicamente aos olhos, as relações entre o homem e Deus, e de que não só é impiedade negar ouvidos ao verbo escrito, mas que também é ímpio rasgar o livro de pedra.
E que disseram os habitantes de Guimarães, durante oito anos em que os vermes andaram a roer naquele cadáver?
Louvaram o bonito da obra. O longo tasquinhar do cabido despertou-lhes, até, o apetite. Alguns lembram-se já de demolir as muralhas da vila reconstruídas por D. Dinis. Talham ainda ban­quete mais lauto. Tentam arrasar as paredes que restam dos paços do conde Henrique; dos paços onde Afonso I, nasceu. A glória dos cónegos de Santa Maria, da Oliveira, tão dispendiosamente; conquistada, ofuscar-se-ia, assim, por pouco dinheiro, como a luz pálida da lua nos esplendores do surgir do sol.
Arrasados, pois, os muros reconstruídos pelo rei lavrador, apagados os últimos vestígios dos paços dos nossos primeiros monarcas, raspado e sarapintado o interior da igreja de Santa Maria, Guimarães, em vez de ficar antiga, ficará velha garrida. Unicamente, para a trair, lhe restará, uma ruga na face: o frontispício da Colegiada. Mas se a picareta do município pretender humilhar, como sacrilegamente se cogita, o colherim, as tigelas de ocre e vermelhão e as broxas canonicais, vingue-se o ilustríssimo cabido, arranjando mais alguns vinténs, e mandando à custa deles picar e caiar aquele frontispício. Depois, para esmagar de todo as audazes emulações burguesas, enfeite triunfantemente a frontaria da sua igreja com um rodapé encarnado."
[Alexandre Herculano, “Monumentos Pátrios”, in Opúsculos – Obras Públicas, 1873, Tomo II, págs. 39-43]

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Vista parcial da nave central da Igreja da Oliveira, após as obras de restauro de 1970/71.
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