29 de setembro de 2006

Os manuscritos de João Lopes de Faria

Um dos fundos documentais mais preciosos de quantos se guardam na imensa Biblioteca das Sociedade Martins Sarmento foi coligido, ao longo de muitas décadas, por alguém que, pelo retrato que dele traçou Alberto Vieira Braga, não aparentava ser mais do que “ um homem vulgar, encolhido num desprendimento de vestuário” e que, à primeira vista, aparecia sombrio, dando ares de não mais do que “um tipo curioso, que vem de longe, do viver antigo do velho burgo, e saber só das coisas que se passaram no correr da sua vida, à sua volta e à volta do mundo miudeiro da antiga Guimarães”. O seu nome: João Lopes de Faria.

João nasceu na Oliveira, em Setembro de 1860. Era filho de António Lopes de Faria, humilde sacristão da Colegiada, e de Constância Rosa. Teve uma infância pobre e foi coreiro na Colegiada. Aprendeu as primeiras letras na escola particular de um sargento reformado, o Almeida, e frequentou “estudos superiores” na escola do Venâncio, onde se ensinava bom latim e bom português. A ânsia de aprender marcava profundamente a sua personalidade, a par de um feitio acanhado e excessivamente modesto. A vida, ganhou-a como músico, exercendo o ofício de organista da Colegiada. Dedicado às coisas da história de Guimarães, ao longo dos anos colaborou em revistas e nos jornais locais, onde foi dando notícia de memórias que desenterrava do esquecimento em arquivos e bibliotecas. Mas o essencial da sua obra ficaria inédita, até aos nossos dias.

Introvertido e solitário (passou parte da sua vida como pensionista da Ordem Terceira de S. Francisco), tornava-se particularmente loquaz sempre que lhe pediam alguma informação e ele descobria que os conhecimentos que acumulara da leitura de velhos papéis poderiam ser úteis a alguém. Dizia-se que nada ignorava dos anais vimaranenses. O pintor Abel Cardoso chamava-o de Dicionário de Guimarães.

No obituário que o Comércio de Guimarães publicou aquando do seu falecimento, em 1944, João Lopes de Faria foi descrito como um trabalhador que “perscrutou autógrafos amarelecidos que jaziam nos arquivos; visitou as bibliotecas públicas; concentrou-se na decifração de antigos documentos e manuscritos, e à sua curiosidade de saber e paciência beneditina se devem elementos preciosos para a história de Guimarães, que, sem o seu esforço, ficariam sepultos no pó das estantes”.

Doze anos antes, numa homenagem que os amigos lhe fizeram, depois de ter recebido as insígnias da Ordem de S. Tiago, Eduardo de Almeida falava da paixão de João Lopes de Faria que, “por sua mãos de Imaginário, idealista, místico romântico, e paciente, curioso, investigador, ressuscitou a morte, soergueu o passado musgoso, o passado sombra, o passado – um maço velho de papéis esfarinhosos, em que ruins garatujas esvaidamente amareleciam, na abandonada indiferença dos arquivos”.

A obra de João Lopes de Faria tem a dimensão de um verdadeiro monumento. É constituída por muitos milhares de folhas de papel almaço, cobertas pela sua letra miudinha e cuidada, em cujo desenho é possível observar os efeitos do passar dos anos, à medida que envelhecia. Ali copiou um número incontável de documentos que resgatou de velhos manuscritos. Conhecedor da obra do mais prolífico dos paleógrafos vimaranenses, Alberto Vieira Braga, pressagiou, há mais de setenta anos, que, “quando uma vereação lhe editar as 20 mil efemérides, que tem arquivadas, e todas exclusivamente respeitantes à história de Guimarães, aparecerá então João Lopes de Faria como autor de uma obra monumental”.

No seu testamento, deixou registada a sua vontade em relação à colecção dos documentos que coligira ao longo da sua vida: “declaro que à minha morte devem ser entregues à guarda da Sociedade Martins Sarmento, honra não só de Guimarães como de todo o Portugal, de que sou ínfimo sócio, todos os meus papéis e livros manuscritos (para cima de 20 volumes) em que, gastei grande parte das horas de ócio, a cooperar para a história da minha Pátria vimaranense, e também os livros impressos, porque alguns deles têm anotações minhas manuscritas. Todos estes volumes e papéis respeitantes aos meus modestos trabalhos de investigação e demais livros da minha pobre estante devem ser, pelas Direcções da prestimosa Sociedade Martins Sarmento, facultados a todos os estudiosos, mas somente dentro da sua sede”.

O legado de João Lopes de Faria à Sociedade Martins Sarmento é composto por dezenas de volumes encadernados a couro preto, onde se destacam, para além das Efemérides (quatro volumes repartidos por cada um dos trimestres do ano, onde estão registados muitos milhares de acontecimentos relacionados com a História de Guimarães, distribuídos ao longo dos 366 dias que pode ter um ano), as Velharias da Colegiada Vimaranense (dez volumes, mais dois de índices), as Vereações e Outros Documentos da Câmara, o Catálogo dos Livros e Documentos da Câmara Municipal de Guimarães, as Provisões e Sentenças da Câmara Vimaranense, as Escrituras Públicas Vimaranenses, entre muitos outros.

Aos estudiosos que, nos tempos que correm, se confrontam pela primeira com a dimensão da obra manuscrita de João Lopes de Faria, é habitual escutarem-se exclamações de espanto. Já muitas vezes ouvi dizer que “este homem merece uma estátua”. Ainda não a teve, nem sei se a virá a ter. Mas quis a ironia do destino que, há pouco tempo, lhe fosse feita uma homenagem involuntária: o edifício que hoje acolhe o Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, onde se guarda a maior parte dos documentos a cuja decifração dedicou a sua vida, ostenta na fachada uma placa onde se pode ler: Rua João Lopes de Faria.

Partilhar:

15 de setembro de 2006

A Colecção Albano Belino

Oriundo de Gouveia, onde nasceu no dia 18 de Dezembro de 1863, Albano Ribeiro Belino chegou a Guimarães em Julho de 1876, tornando-se marçano na tabacaria de José Joaquim de Lemos, o Lixa da Porta da Vila.

Desde cedo começou a fazer-se notar pela sua inteligência e espírito de iniciativa. Reconhecendo as qualidades do rapaz, um dos clientes habituais da Tabacaria Lemos, o cónego António Joaquim de Oliveira Cardoso, poeta e dramaturgo, iniciou-o nas artes da escrita. Cedo Belino se fez poeta, colaborando nos jornais de Guimarães (Religião e Pátria, Memória, Comércio de Guimarães) e tornando-se correspondente, por muito tempo, do Jornal da Manhã, do Porto. Em 1886, juntamente com um outro jovem empregado do comércio da Porta da Vila, Albano Pires de Sousa, fundou uma folha literária dedicada às damas vimaranenses, O Bijou.

Em 1885 e 1886, teve participação activa nas movimentações que agitaram a cidade na sequência do apedrejamento, em Braga, dos procuradores de Guimarães à Junta Geral do Distrito (Conde Margaride, Joaquim José de Meira e José Martins de Queirós), que esteve na origem da célebre questão brácaro-vimaranense. Em Dezembro de 1885, promoveu as comemorações do 7.º centenário da morte de D. Afonso Henriques. Integrou o núcleo dos iniciadores da Grande Comissão de Melhoramentos da Penha, de que foi o primeiro presidente.

Em 1881, casou com Delfina Rosa, que já dobrara os 43 anos e era sobrinha do Cónego António de Oliveira Cardoso. O matrimónio trouxe-lhe o desafogo económico e levou-o a instalar-se em Braga. Será aí que, inspirado na obra e no exemplo de Martins Sarmento, dará início às suas prospecções arqueológicas, de que começámos a ter notícias através da correspondência que trocou com Sarmento (a quem se referia como o seu conselheiro e distintíssimo mestre em negócios de arqueologia) entre Agosto de 1894 e as vésperas do falecimento do arqueólogo da Citânia de Briteiros, em 1899.

Esta troca epistolar, de que se conhecem 160 cartas que estão guardadas no Arquivo da Sociedade Martins Sarmento, é uma interessantíssima fonte de informação para o conhecimento do processo de introdução de Albano Belino nas coisas da arqueologia, da história do estudo das ruínas de Bracara Augusta e do seu projecto, eternamente adiado, da criação de um Museu Arqueológico em Braga.

Exercendo a sua actividade de investigação arqueológica naquela que Sarmento designou como a mina braguesa, Belino vai dando conta do entusiasmo com os seus sucessivos achados de monumentos epigráficos. Nas cartas que envia para Guimarães ou para Briteiros, dá conta, por diversas vezes, da sua felicidade epigráfica. Ao mesmo tempo que compila as inscrições que transcreve das pedras que encontra, começa a coleccionar os objectos arqueológicas que irão dar origem a um núcleo museológico, instalado a partir de 1899 num espaço no Paço do Arcebispo, cedido pelo respectivo prelado, que era sensível às coisas da Arqueologia e membro da Associação dos Arquitectos e Arqueólogos Portugueses. O destino deste espólio deveria ser a futura integração no Museu Arqueológico de Braga que, havia mais de uma década, estava prometido.

Progressivamente, Belino alargou a sua área de prospecção para espaços exteriores à velha Bracara Augusta. Em Maio de 1899, anunciou a Sarmento que estava em vésperas de explorar o Monte Redondo e mais dois pequenos castros nas suas proximidades. Pouco depois, dava conta de que o monte de Santa Marta ficaria para mais tarde porque ali o desaterro deve ser muito dispendioso. Em 1902 seria também responsável por trabalhos de escavação na Cidade Velha de Santa Luzia, em Viana do Castelo.

Autodidacta, não possuindo qualquer diploma académico, nem mesmo o de instrução primária, Albano Belino deixou uma obra publicada que abrange estudos sobre epigrafia romana, arqueologia cristã e numismática.

A morte levou-o em 1906, sem que tivesse completado os 43 anos de idade. Partiu sem ver concretizado o sonho que alimentara muitos anos: a abertura de um Museu Arqueológico em Braga, onde projectara depositar os objectos que coleccionou ao longo de mais de uma década. E partiu com uma forte amargura em relação à cidade onde se fez arqueólogo, devido à atitude de desprezo em relação à memória material do passado, então dominante em Braga. Com outros bracarenses ilustres, Albano Belino tinha levantado a voz contra o arrasamento da velha muralha, sem sucesso. José Leite de Vasconcelos testemunharia que este acontecimento determinou nele violenta convulsão moral, na sequência da qual viria a ser acometido pela apoplexia que o levaria à morte.

Após o falecimento de Albano Belino, a viúva fez com que se cumprisse a sua vontade, doando ao Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento a colecção arqueológica que continuava alojada precariamente no Paço Arcebispo de Braga.

Na manhã do dia 6 de Fevereiro, transportada em oito carros de bois, deu entrada no Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, um significativo conjunto de monumentos epigráficos imprescindíveis para a compreensão da história de Braga.

Partilhar: