31 de março de 2006

A basílica imperfeita

Em Setembro de 1616, o Cabido autorizou a Irmandade de S. Pedro a utilizar a Capela de S. João Baptista (O Cabido Velho), situada no claustro da Colegiada da Oliveira, para satisfação das suas obrigações de culto. Mas o relacionamento com os cónegos seria conflituoso, dificultando a coabitação. A Irmandade tentaria, sem êxito, comprar um altar na igreja de S. Dâmaso, para celebração dos seus ofícios. Em 1733, instalou-se numa capela do claustro de S. Francisco. Não tendo casa própria, a Irmandade de S. Pedro projectava edificar a sua própria capela, tendo pedido à Câmara, sem sucesso, licença para construir no actual largo do Trovador, junto a S. Francisco. A solução foi encontrada no Toural, onde, em 1737, começou a ser edificada a nova capela, que se benzeu no dia 11 de Novembro de 1850.
Em 1752, ainda a obra estava longe de acabada, Luís António da Costa Pego obteve um breve do Papa Bento XIV que elevou a capela ao estatuto privilegiado de basílica. Freitas e Sampaio escreveu, no Elogio Métrico que dedicou a Luís Pego, que esta basílica era “a primeira que na prima diocese se reconhece e a terceira que ilustra a orbe lusitana”.
Entretanto, as escaramuças com o Cabido, por questões de jurisdição e prerrogativas, prosseguiam. Em 1768, o Prior da Colegiada obteve uma carta régia que extinguia a Irmandade, ordenando que as respectivas imagens e objectos eclesiásticos fossem entregues à Colegiada, sendo os restantes bens sequestrados pelo corregedor e os papéis entregues à Secretaria de Estados dos Negócios do Reino.
Dez anos depois, a Irmandade foi restaurada, graças à acção do Padre José Amaro da Silva, recebendo de volta as suas alfaias religiosas.
Em 1782, foi obtida uma provisão régia que autorizava a ampliação da capela (na verdade, não passava de um edifício precário em madeira, com menos de 5 metros de largura e 18 metros de comprimento). Começou então a construção da actual igreja, em grande parte custeada pelo Padre José Amaro da Silva. Tendo crescido em tempo de alguma fartura, foi recebendo generosas doações, em grande parte sustentadas pela entrada de ouro do Brasil.
Em 1779, o negociante António Alves de Azevedo e a sua mulher, moradores no Toural, instituíram uma missa quotidiana na igreja de S. Paio. Como contrapartida, comprometiam-se a entregar à Irmandade de S. Pedro 2:100$000 réis e um sino com mais de sessenta arrobas (aproximadamente 900 quilos), para chamar para a missa.
Tempos de menos abastança viriam. As obras da igreja foram suspensas em 1824, apenas sendo retomadas em 1880, quando a Irmandade aprovou o projecto para a conclusão do templo, que submeteu à Real Associação dos Arquitectos de Lisboa. Em 1881, foram demolidas as casas da Irmandade que se erguiam em frente à capela. Em seguida, desmanchou-se a torre de madeira, para ser levantada, em pedra, a nova frontaria. Os arcos da entrada foram fechados em Agosto de 1882.
Em 1883, o sino grande e um órgão de armário foram vendidos numa rifa que se regulou pela lotaria da Misericórdia de Lisboa. No início de 1884, foi colocada a última pedra do frontão da igreja, onde, em Abril do mesmo ano, se implantou a cruz pontificial.
Quando, em Março de 1850, faleceu José Joaquim de Abreu, o Curandeiras, tesoureiro-mor da Colegiada, deixou em testamento à Irmandade “os dois quadros de S. Pedro e S. Paulo encaixilhadas em molduras lisas e douradas ambas iguais e de S. João Baptista com igual e semelhante moldura ou caixilho”. Estas pinturas encontram-se na sacristia da igreja.
A Basílica de S. Pedro de Guimarães testemunhou, ao longo do tempo, acontecimentos que ficaram na memória, de que daremos alguns exemplos.
Em 23 de Março de 1809, a igreja foi saqueada pelos franceses invasores que, no dia 13 de Maio seguinte, “encheram toda a Igreja de cavalos, como também a sacristia, e levaram vários ornamentos e toalhas e foram ao sacrário e quebraram o santo lenho”. Da Igreja, fizeram estrebaria e cozinha: “os altares apareceram cheios de milho e também toucinho, os caixões de guardar os paramentos cheios de milho e palha”.
Num domingo de Novembro de 1833, um frade franciscano de Braga, realista, inflamado disse missa nesta igreja. Em chegando ao Evangelho, proferiu uma prática que ficou registada num caderno de memórias (que João Lopes de Faria transcreveu), onde, “com o seu costumado esturro, disse mil impropérios contra D. Pedro e contra os constitucionais, chamando-lhes maçons, pedreiros-livres, etc., e indo a sair alguma gente, entrou a dizer que aqueles também eram dos tais”.
Um ano depois, com a mudança dos ventos políticos, sairia de S. Pedro “o retrato da rainha debaixo de um pálio, acompanhado pela Câmara e várias outras pessoas com tochas acesas, uma música a tocar hinos constitucionais e muito povo. Os morteiros e foguetes do ar eram tantos que causaram espanto a toda a gente”.
A Basílica do Toural era, no séc. XIX, local muito procurado para o enterramento dos defuntos dos grupos sociais mais proeminentes, com destaque para os religiosos. Em Março de 1869, recebeu os restos mortais do capelão de Santa Clara de Guimarães, Padre António José Vaz, que teve uma causa de morte bastante improvável: foi vítima de aparar um calo em um pé, em que fizera sangue.
Ainda há quem tenha memória de uma tragédia ocorrida na Basílica de S. Pedro no dia 1 de Dezembro 1942, por volta das 7 horas da manhã. Era terça-feira, dia de feriado. Quando, ao findar a missa, o Padre José Leite procedia à distribuição de pão pelos pobres, o soalho entrou em colapso, engolindo a multidão, que foi atirada para o estabelecimento vizinho, de Francisco Mourão. Contaram-se 10 mortos e muitos feridos.
A basílica de S. Pedro, que domina o Toural, permaneceu inacabada até aos nossos dias. Em vez das duas torres previstas, apenas uma foi construída. É nela que, desde 1938, o relógio-carrilhão vai contando o tempo à cidade.
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17 de março de 2006

O Toucinho-do-Céu

Nas vésperas no campeonato da Europa de Futebol de 2004, ao apresentaras cidades que iriam acolher os jogos, a insuspeita revista Time publicou o seguinte:
Guimarães é chamada frequentemente o "berço da nação" porque foi aqui que, em 1128, Portugal declarou a sua independência dos espanhóis de Castela e da Galiza. Hoje, porém, é mais conhecida por uma sobremesa chamada toucinho-do-céu (Bacon from Heaven), um bolo rico de ovo e amêndoa com origem no convento de Santa Clara, fundado no século XVI. Quando um decreto republicano proibiu todas as ordens religiosas, em 1834, o convento desapareceu, mas os seus descendentes transmitiram uma versão da iguaria. O toucinho-do-céu tem um gosto açucarado único – perfeito para os fãs do futebol com a boca doce.
Apesar das passagens que nos fazem sorrir (o suposto decreto republicano de 1834, a sugestão de Guimarães ser mais conhecido pelo tal Bacon from Heaven do que por ser o berço da Nação, a menção a “descendentes” do convento de Santa Clara), o texto testemunha a importância que os prazeres da mesa podem assumir como factores de atracção turística.
O toucinho-do-céu de Guimarães é o mais doce dos tesouros que esta cidade oferece. Faz parte do famoso receituário das freiras de Santa Clara, de que tanto se fala, mas que nunca apareceu. Mas nos nossos arquivos não faltam referências aos doces predicados das freiras de Santa Clara de Guimarães. Os seus manjares mais afamados eram o toucinho-do-céu, as tortas e diversos doces de frutas, como o famoso calondro.
O Abade de Tagilde conta-nos as origens da actividade de doceiras das clarissas de Guimarães. Cada uma recebia 6$400 réis por ano, para o seu bolsinho. Pouco dadas aos rigores monásticos, as freiras, por acharem insuficiente a soma a que tinham direito, encontraram o meio para a aumentar, passando a dedicar-se à indústria dos doces para fora, arte em que desde cedo ganharam fama. Com o tempo, a coisa assumiu foros de abuso. O Arcebispo de Braga, no início de Dezembro de 1758, por lhe constar que as freiras de Santa Clara de Guimarães costumavam, pelo Natal, gastar mais tempo a fazer doces do que no serviço a Deus (além de se dedicarem a danças e entremezes profanos), interditou-lhes as artes pasteleiras desde o início do Advento até 7 de Janeiro. Em 1760 esta proibição seria renovada e agravada, passando o período de interdito a iniciar-se no dia de Santa Teresa (15 de Outubro).
Em Setembro de 1769, o mesmo Arcebispo, D. Gaspar, proibiria as freiras de fazerem doces de forno para vender, para pessoa alguma eclesiástica ou secular, ainda que lhes mandem o necessário para eles, excepto para os pais delas freiras, por motivo de moléstia, uma ou outra vez no ano, em quantidade que se reconheça ser por necessidade para moléstia. A proibição total deveria vigorar do dia de Santa Teresa até aos Reis.
Em 1771, a abadessa e as freiras de Santa Clara enviaram um requerimento ao Arcebispo, onde declaravam que se viam oprimidas com escrúpulos por lhes ser difícil observarem com rigor a proibição de fazerem doces de forno com os aparelhos que de fora lhes mandavam os seus parentes e pessoas a que licitamente deviam obrigações, e pediam dispensa do interdito até aos Santos. Foi-lhes concedida a licença pedida, limitando a interdição ao tempo entre Todos Santos e os Reis. No início de Dezembro do mesmo ano, as freiras pediram autorização para fazerem algumas chouriças, por ser ao presente a sua ração muito ténue, para se alimentarem pelo decurso do ano, as quais se não podiam fazer depois do Natal, mas sim antes dele por ser o seu próprio tempo. Esta autorização foi pedida porque tais chouriças levavam algum açúcar.
Em 1776, a abadessa obteve autorização do Arcebispo para que lhes fosse levantado o impedimento de fazerem doces para fora até ao primeiro domingo do Advento, o que já fora concedido aos outros conventos de Guimarães.
Há um episódio que demonstra o valor que era atribuído ao toucinho-do-céu de Santa Clara. Em 1564, dois terços dos rendimentos e frutos da Igreja de Santa Cristina de Arões foram anexados ao Convento de Santa Clara de Guimarães, in perpetuum. O terço restante ficava reservado para a côngrua e sustentação do abade. Todos os anos, pela festa de Santa Cristina (24 de Julho), as freiras enviavam ao abade de Arões uma caixa de toucinho-do-céu de 8 a 9 arráteis, a fim de lhe adoçar a boca para não ser remisso no pagamento. Em 1757, o beneficiário queixou-se de que a quantidade de doce que recebeu era inferior ao esperado. Como as freiras não atenderam o seu protesto, apresentou queixa ao juiz de fora de Guimarães. Não lhe dando este razão, o abade lambareiro levou a contenda até à Relação do Porto, que, em Fevereiro de 1760, confirmou a sentença do Juiz de Guimarães. A partir daí, o pároco de Arões não mais recebeu o doce apetecido.
Em 1884, Ana Angelina e Antónia Amália eram as duas últimas freiras de Santa Clara. Estiveram presentes na Exposição Industrial organizada por Alberto Sampaio, com vários doces, entre os quais celebrado toucinho-do-céu.
O toucinho-do-céu é a mais soberba das especialidades da doçaria vimaranense, preparando-se em várias casas que dizem seguir a receita de Santa Clara. Nem sempre será assim. O toucinho-do-céu é um doce conventual de ovos e amêndoa com chila. Não raras vezes, o que se encontra por aí é um doce de forno à base de chila, com ovos e sinais (às vezes, nem isso) de amêndoa. Uma excelente iguaria, para os apreciadores de chila. Mas que não lhe chamem toucinho-do-céu de Guimarães…
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3 de março de 2006

O Pai das Orelheiras

O Carnaval é um tempo de excessos, desregramentos, folias e bebedeiras, durante o qual se celebra a morte simbólica do que é velho e o subsequente renascimento colectivo. Consentidas pela religiosidade dominante como um breve momento de alegria e licenciosidade que antecede as sete semanas de tristeza e recolhimento da Quaresma, as práticas carnavalescas derivam dos velhos rituais de purificação que ocorriam no dealbar da Primavera, marcando o início do ano agrário. Não é por acaso que as gentes das nossas aldeias o chamam de Entrudo (do latim entroitus, que significa entrada).

Como quase todas as nossas festas tradicionais, o Carnaval também passa pela mesa. Desregrado por natureza, é marcado pelo desregramento alimentar: o Carnaval é pantagruélico — no Entrudo, come-se de tudo. É antecedido pelo Domingo Gordo, o seu dia é a Terça-Feira Gorda. Este é o tempo em que o mais generoso dos animais domésticos, o porco, é rei, se bem que rei morto, cabendo às suas orelhas o papel de principal figurante do farto manjar tradicional do nosso Entrudo, o cozido. Não será por acaso que, no Minho, as primeiras matanças do porco coincidem com o Carnaval.

Mas não ficam por aqui as iguarias carnavalescas. Em alguns lugares, como à volta de Pevidém, as moças juntavam-se à beira da estrada para oferecerem caldinhos de Carnaval aos rapazes, preparados com a carne gorda que pediam pelas portas. As mulheres mais velhas faziam o mesmo, dando caldo aos caretos e aos catraios. Em Moreira de Cónegos, eram as crianças que se costumavam juntar neste dia para irem fazer caldinhos para o monte.

No jogo complicado de inversões que se revela nesta quadra, também se troca de identidade. Escondidos sob trajos bizarros, com as caras desfiguradas com pinturas feitas com carvão ou com fuligem das panelas ou escondidos atrás de máscaras de pano ou renda, os homens vestem-se de mulheres, as mulheres de homens, os jovens assumem a aparência de velhos e os adultos assemelham-se a crianças, de cueiros e mamadeiras.

No Carnaval, os entrudos ou caretos percorrem os caminhos das aldeias, assumindo frequentemente atitudes provocatórias e ameaçadoras. Têm o mesmo aspecto dos espantalhos dos campos semeados: calças velhas e largas, casaco remendado, chapéu velho, socos de madeira, um pau na mão. Os que se aventuram a ir correr o Carnaval para as vizinhanças, arriscam-se a vir de lá enxotados com pedras, laranjas verdes ou ovos podres.

O fim das festividades carnavalescas está associado a uma paródia funerária, o Enterro do Entrudo, que assinala o encerramento dos folguedos e o início da contenção quaresmal. O facto de o funeral se realizar à noite integra-se no complexo jogo de inversões que caracteriza a quadra, já que, na vida real, os funerais depois do pôr-do-sol são interditos. Por outro lado, neste funeral sui generis, faz-se o enterro de um ente que, na verdade, ainda não morreu, já que só se finará após as suas próprias exéquias.

Neste cerimonial burlesco, que ainda ocorre em diversos lugares de Guimarães, parodia-se um funeral católico, com figurantes vestidos de padre, sacristão, coveiro, agente funerário ou testamenteiro, acompanhados pelo coro estridente das carpideiras, com as suas choradeiras e lamentações fingidas, à volta de um caixão de quatro tábuas, onde jaz um boneco de pano ou papel cheio de palha e bombas de Carnaval. Representa o Entrudo e o seu nome varia conforme os lugares: Pai das Orelheiras, Artur, Joãozinho, Entruido, etc. O cortejo, iluminado por velas e lumieiras, segue para junto de um rio ou ribeiro, onde o padre ou o testamenteiro lê as deixas do finado, um testamento em verso, carregado de críticas sociais e morais e de obscenidades. Finda a leitura, o caixão é lançado à água, chegando-se-lhe lume. Desce a corrente, por entre os estouros das bombas que lhe enchem o ventre, convertendo-se em cinzas até à ressurreição no próximo Carnaval.

As autoridades religiosas não costumavam demonstrar grande tolerância com esta paródia, que chegava a ser proibida. Era assim em 1884. Não obstante, como conta João Lopes de Faria, no Carnaval desse ano, “na freguesia de S. Miguel de Creixomil, alguns sujeitos, por malvadez ou embriaguez?, tiveram a fraca lembrança de parodiar um enterro religioso, e, com uma cruz, uma panela com água e um esquife, andaram pela freguesia a cantarolar simulando, os cânticos religiosos fúnebres. Isto foi ataque à religião do Estado e de encontro às expressas determinações da autoridade administrativa, a qual recebendo uma queixa contra tal facto estúpido tomou conta da punição dos autores”.

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