4 de agosto de 2006

O que estais a resmungar?

Was murret ihr? é a pergunta, em alemão, cuja tradução em português dá título a sta coluna, que se pode ler gravada a ferros sobre o couro da capa de um curioso volume que se guarda no Arquivo da Sociedade Martins Sarmento. Pelas suas páginas, passa uma procissão de vimaranenses do início do século XX, de todas as condições sociais, retratados impiedosamente, a traços de lápis e a aguarela, por José de Meira, e descritos pelos versos satíricos do seu irmão, João de Meira.

O jovem artista tinha 17 anos quando esboçou a primeira caricatura incluída no álbum, representando o pintor Abel Cardoso. Era filho do médico Joaquim José de Meira, um dos mais destacados vimaranenses do seu tempo, que foi presidente da Câmara, Director da Escola Industrial, Presidente da Sociedade Martins Sarmento, Director Clínico do Hospital. Nasceu em 1881, sendo dotado de um talento inato para o desenho. Um dos que retratou, o arqueólogo Mário Cardozo, traçaria o seu perfil em 1986, nas páginas da Revista de Guimarães:

Era José de Meira um rapaz de baixa estatura e ombros largos, muito aprumado, trajando correctamente, como um verdadeiro dandy, cara impecavelmente escanhoada, um sorriso irónico a aflorar-lhe sempre aos lábios, feições expressivas e monóculo que atrevidamente assestava, tinha sempre um comentário espirituoso a fazer, uma anedota a contar, uma chalaça a propósito.

Nos seus estudos, seguiu a tradição familiar e cursou medicina em Coimbra. Frequentava o 3.º ano quando a morte o levou, aos 24 anos.

Alguns anos mais velho, o seu irmão João foi uma das inteligências mais luminosas do seu tempo. Também médico, cedo se tornou professor na Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Destacou-se como homem de letras. Os seus escritos sobre assuntos históricos ainda hoje permanecem como referências incontornáveis para qualquer pesquisa da nossa História local. A morte também o levou prematuramente, aos 32 anos, numa altura em que era apontado como o continuador do Abade de Tagilde na organização dos Vimaranis Monumenta Histórica. Dotado de um fino sentido de humor, dedicou-se à literatura, sendo particularmente notado pelos seus extraordinários dotes para a imitação dos estilos de outros escritores, talento que esteve na origem de diversos equívocos memoráveis. Escreveu e publicou, por exemplo, dois notáveis contos policiais intitulados Sherlock Holmes no Porto, que assinou como Donan Coyle.

O volume dos irmãos Meira, com o título de Álbum das Glórias, inclui duas séries de caricaturas, executadas entre Abril de 1905 e Agosto de 1907, tendo sido, durante muito tempo, objecto de grande curiosidade na sociedade vimaranenses. Ao todo, são retratadas 64 figuras. Na portada da primeira série aparece um auto-retrato caricatural de José de Meira. A segunda série é aberta por uma paródia à estátua de D. Afonso Henriques que, com o álbum nas mãos e a espada debaixo do braço, se ri prazenteiramente, enquanto que a cota de malha entreaberta deixa vislumbrar umas chinelas de quarto, no lugar das botas com esporas do original de Soares dos Reis. Pelo álbum passam figuras destacadas da sociedade vimaranense, como Abel Cardoso, Avelino Germano, Bernardo Azenha, Mota Prego, Jerónimo de Almeida, Gonçalo de Meira, Eduardo de Almeida, o Barão de Pombeiro, o Cónego José Maria Gomes, o Padre Gaspar Roriz ou o Conde de Margaride, bem como algumas figuras castiças, como o Cheira-a-Testo, o À-Primeira-Vista, o Gipum ou a D. Maria Beiça.

Porque o espaço disponível não dá para mais, aí fica, para aguçar a curiosidade, a caricatura do Abade de Tagilde, datada de Agosto de 1905. João de Meira tinha um carinho especial pelo Abade, o que não o impediu de o descrever assim:

Propôs-se a deputado um belo dia

Mas não pôde vencer a eleição

Pois se propôs contra quem já havia

Lugar primeiro em nosso coração!

Foi coisa já passada há tantos anos

Que a poucos lembram já essas questões

Vivia ele então bem mais de enganos

Que tinha tido menos decepções!

Preside hoje aos destinos do concelho

E prometeu a bem do nosso povo

Escavacar tudo o que é sujo e velho

E uma nova cidade erguer de novo!

Mas eu já não como tal paleio

Nem esses lindos rasgos triunfantes

Hão-de correr os anos sem receio

E tudo ficará como era dantes.

Bem mais feliz é ele quando entrega

Os ócios que lhe deixa a freguesia

Abrindo olhos a gentinha cega

Nos seus volumes sobre arqueologia.

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