17 de fevereiro de 2006

O Pelote

Em Guimarães conservam-se algumas das mais marcantes referências simbólicas da nacionalidade portuguesa: o Castelo, o feito de S. Mamede, a memória de Afonso Henriques. Mas também se guarda um símbolo da afirmação da independência em momentos em que esteve em perigo ou mesmo perdida: o pelote. É o que resta de um laudel (ou loudel) do último quartel do século XIV, uma peça de vestuário acolchoada que se envergava debaixo da armadura para impedir que os golpes atingissem o corpo. Pertenceu a D. João I, que o envergou durante a batalha de Aljubarrota e, depois da vitória, ofereceu à Senhora da Oliveira.

D. João I, como outros reis portugueses, tinha uma devoção particular pela Senhora de Guimarães. Aqui veio várias vezes em romarias e, ao que se conta, várias vezes perante a sua imagem se fez pesar em prata, contribuindo generosamente para o acréscimo do tesouro da Colegiada. Aquando do confronto de Aljubarrota, o Mestre de Avis encomendou-se à Senhora da Oliveira, afirmando ter agido como se das suas mãos tivesse tomado as armas que utilizou. Após a vitória, veio a Guimarães, e mandou depor as suas armas no altar da Senhora, dizendo: “Vós Senhora mas deste, vós as tomai e guardai”. Nessa altura, entre outras oferendas, deixou no altar da Colegiada a lança e o pelote que trazia.

Desde então, em cada ano, no dia 14 de Agosto, passou a assinalar-se em Guimarães a vitória das hostes do Mestre de Avis. Nessa celebração, a lança de D. João era colocada num dos arcos do Padrão da Senhora da Vitória (que lembra a vitória de D. Afonso IV numa outra batalha, a do Salado), pendurando-se nela o pelote. Na Colegiada formava-se uma procissão, que saía com a imagem da Senhora da Oliveira e percorria as ruas, indo pela Porta da Vila e regressando pela da Senhora da Guia. No altar que então se erguia no Padrão, celebrava-se uma missa de acção de graças, que incluía a prédica de um orador sagrado.

Procissões como esta tinham lugar em muitas outras terras portuguesas, assinalando a derrota dos castelhanos em Aljubarrota na véspera da Nossa Senhora de Agosto de 1385, mas terão sido interditas durante o domínio filipino. Não terá sido assim em Guimarães.

Ligado à confirmação da autonomia nacional em 1385, o pelote também será envolvido nas movimentações que conduzirão à restauração da independência em 1640.

Em 1638, com Portugal ainda sob domínio do rei de Espanha, o franciscano Frei Luís da Natividade, guardião do Convento de S. Francisco de Guimarães, foi o orador convidado da festa do pelote. O sermão que então proferiu, que seria publicado com o título Retrato de Portugal Castelhano, ficou nos anais da literatura de invocação patriótica. Dele disse Camilo Castelo Branco que era o melhor sermão em português que conhecia.

Utilizando uma linguagem carregada de imagens e de expressões simbólicas, o orador franciscano dirige-se ao pelote roto, pobre, esfarrapado e alanceado que ocupava o centro a celebração, transformando-o numa metáfora do Portugal daquele tempo: “O Reino que nessa roupa o invicto Senhor D. João nosso rei dedicou e sujeitou à Virgem da Oliveira, quando o vedes em tal estado, nele vedes também qual esteja o Reino”.

Um país velho e roto, mas não irremediavelmente condenado. Ainda poderia ressurgir: “Vejo-vos, pelote, velho e roto: vejo-vos atravessado com a vossa própria lança(…). Só me resta para consolação ver-vos diante desta Virgem da Oliveira, que se uma vez vos livrou da morte, vos pode ainda ressuscitar a nova vida.”

Conduzindo a atenção dos ouvintes através do cenário que o rodeava, Frei Luís da Natividade, apontando para a oliveira que estava naquela praça, recordou o milagre de 1342, que fez com que a árvore, ressequida havia muito tempo, voltasse a ganhar vida e a deitar ramos, quando ali foi colocada a cruz no Padrão de Nossa Senhora da Vitória. Assim como a oliveira, também o pelote (Portugal), podia ganhar nova vida: “Ainda pode haver vida para vós, ainda pode haver século florente, e tornardes neste a reverdecer, como essa [oliveira] reverdeceu ficando duzentos e cinquenta anos a esta parte sempre verde.(…)”

Neste sermão memorável, a dissertação à volta do pelote é pretexto para apresentar uma visão profética da restauração que não tardaria a chegar. A espaços, o pregador franciscano afasta-se da linguagem metafórica e figurada e é bastante explícito nas suas exortações de natureza patriótica: “Mas se quereis que viva, floresça, seja sempre verde, conservai-lhe a esta oliveira suas folhas, sua autoridade, seus foros, suas liberdades, seus privilégios (…).”

O laudel que D. João I envergou em Aljubarrota, por força do tempo e dos danos a que estava sujeito sempre que era manuseado e espetado numa lança, será hoje, provavelmente mais do que em 1638, um pelote roto, pobre, esfarrapado. Mesmo assim, pelo que representa, continua a ser o maior tesouro histórico que hoje se guarda no rico Museu de Alberto Sampaio.
Partilhar:

3 de fevereiro de 2006

Os Lusíadas da Sociedade Martins Sarmento

Entre os muitos tesouros que a Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento guarda, destaca-se um exemplar da primeira edição de Os Lusíadas, de Luís de Camões, que foi estudado pelo camonista Prof. Vítor Aguiar e Silva, autor do prefácio da edição fac-símile que a Universidade do Minho editou em 2004.

Impressos em Lisboa na oficina de António Gonçalves, o poema de Camões deu origem a uma acesa controvérsia, iniciada em 1639, com a publicação de Os Lusíadas Comentados de Manuel de Faria e Sousa, que notou que o pelicano que figura no frontispício da obra aparece voltado para o lado esquerdo, nuns exemplares, e para o direito, em outros. Desde então, passou a aceitar-se a existência de duas edições da obra no ano de 1572. Um estudo comparativo publicado em 2003 pelo Prof. Keneth David Jackson, da Universidade de Yale, que cotejou quase todos os exemplares de 1572 conhecidos, corroborou a ideia já avançada em 1846 por Rodrigo da Fonseca Magalhães, segundo a qual as diferenças detectadas em disversos exemplares da obra seriam o resultado de correcções introduzidas pelo autor durante a impressão. Haveria, assim uma única edição em 1572.

Em 1886, a Sociedade adquiriu num leilão a biblioteca do jurisconsulto vimaranense Bento Cardoso, que seria composta na sua máxima parte de obras de reconhecido merecimento e necessidade incontestável. Entre essas obras, encontrou-se uma primeira edição de Os Lusíadas. Como Bento Cardoso a terá adquirido, é um segredo ainda por desvendar.

No frontispício do volume, há uma marca de posse manuscrita: “Azevedo”. Sendo este um sobrenome relativamente comum, tentou-se encontrar algum nexo entre os Lusíadas e alguém com assim chamado. Colocaram-se diversas hipóteses, das quais ressaltou uma especialmente plausível: um dos primeiros monógrafos de Guimarães, o Padre Torcato Peixoto de Azevedo (1622-1705), autor das Memórias ressuscitadas da antiga Guimarães, que conhecia bem a obra de Camões, que cita nos seus escritos.

Comparando a inscrição do frontispício dos Lusíadas com a assinatura do Padre Torcato no manuscrito das suas Memórias resuscitadas… constatou-se que apresenta semelhanças convincentes. Na SMS há outros manuscritos do Padre Torcato, nomeadamente um grosso volume com um Nobiliário, que inclui as genealogias de diversas famílias da nobreza portuguesa. Comparando este manuscrito com a assinatura que aparece nos Lusíadas, desvaneceram-se as dúvidas. Estamos convencidos de que o “Azevedo” da marca de posse dos Lusíadas será o ilustre Padre Torcato, por sinal autor de uma genealogia intitulada Da família dos Camões e suas Armas.

No início de 1694, o Padre Torcato e a sua irmã Francisca instituíram, com todos os seus bens, o morgadio dos Peixotos de Azevedo. Recebeu-o a sua sobrinha Mafalda Luísa Leite, que casaria com um primo, António Peixoto Miranda dos Guimarães, senhor do morgadio instituído pelo mestre-escola Rui Gomes Golias, com sede na Casa das Lamelas (actual edifício do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta). Deste casamento tiveram treze filhos, que não deixaram qualquer descendência (dez, as raparigas, foram para freiras para o Convento de Santa Clara do Porto; os restantes morreram solteiros e sem descedência). Herdou o morgadio o filho Manuel Peixoto dos Guimarães. Segundo Barbosa Machado na Bibliotheca Lusitana, o espólio literário do Padre Torcato Peixoto de Azevedo encontrava-se na sua posse em meados de setecentos.

Em finais desse século, o património das Lamelas entraria na posse de Ana Margarida dos Guimarães Golias, solteira e idosa. O seu herdeiro natural era o sobrinho Paulo Vicente Machado de Miranda, que não correspondeu “às esperanças e desvelos de sua tia”, tornando-se “extravagante pelas súcias que fazia com seus próprios lacaios e com os das outras famílias, andando de noite com festadas e tomando os hábitos e costumes da gente com que acompanhava”, chegando a passar um ano na cadeia, por culpas no homicídio de um tal Marmelada. Para tentar regenerar o sobrinho, D. Ana Margarida mudou-se para o Porto. Paulo Machado continuaria por lá “não com as mesmas extravagâncias, mas com as de outro género, mulheres e bebidas fortes que o foram arruinando até que faleceu”, tal como se lê num documento do processo de contestação do testamento de D. Ana Margarida.

D. Ana Margarida faleceu em 1820, rondando os 90 anos. Fez testamento a favor de Jacinto Navarro de Andrade, cónego na Sé de Lisboa e capelão da Casa Real, com o qual não tinha qualquer parentesco, o que originou uma longa contenda judicial. Após a passagem para as mãos dos Navarros de Andrade, gente muito distinta e influente, os bens da Casa da Lamelas dispersaram-se.

Ainda não se encontrou qualquer referência ao destino dos livros e papéis do Padre Torcato. Assim, não sabemos como foi que Os Lusíadas passaram para as mãos de Bento Cardoso. Apenas sabemos que foi obra estimada, como o prova o seu estado de conservação, o que poderá revelar que não terá passado por muitas mãos nem mudado muitas vezes de estante.

Partilhar: