23 de setembro de 2005

Vila Flor: a sala de visitas de Guimarães

Tadeu Luís António Lopes de Carvalho Fonseca e Camões, nascido em Guimarães em 1692, era filho do fidalgo genealogista Gonçalo Lopes de Carvalho e de D. Guiomar Bernarda da Silva. Abundante de bens e de cultura, fidalgo da Casa Real, cavaleiro professo da Ordem de Cristo, familiar do Santo Ofício, senhor dos coutos de Abadim e Negrelos, foi membro da Academia Real de História Portuguesa, da Academia dos Infecundos e da Arcádia de Roma. Foi fundador e patrono da antiga Academia Problemática de Guimarães (a celebrada Academia Vimaranense, que se dedicava às coisas da literatura sob influência da estética barroca então vigente), sobre a qual publicou os dois volumes da obra Guimaraens Agradecido (1749). A casa fidalga que se ergue no Cavalinho, em Guimarães, conhecida como Palácio de Vila Flor, também é obra sua. A Casa do Cavalinho ostenta uma traça arquitectónica que concilia simplicidade com imponência. A sua fachada mais nobre, voltada a Norte, está implantada sobre jardins desenhados em patamares rasgados por escadarias, com balaustradas, fontes e um magnífico chafariz em pedra, onde, desde sempre, sobressaíram as composições de buxo anão. Na parede voltada para Nascente, foram incrustadas peanhas que suportam umas esculturas de talhe grosseiro, que pretendem representar os primeiros reis portugueses. Este conjunto de moradia apalaçada com jardins, de onde se desfruta de uma vista ímpar de Guimarães, é uma obra "admirável em sua arquitectura e na grandeza e fábrica do jardim", como já a descreviam as Memórias Paroquiais setecentistas. Pertenceu aos descendentes de Tadeu Camões até ao ano de 1812, quando os então proprietários, João José de Almeida Melo Velho e Lencastre, Visconde de Vila Nova de Souto de El-rei e a viscondessa D. Maria Joana do Monte Forjaz da Câmara e Meneses, a venderam, com outras propriedades, a sua prima D. Maria Leonor de Sousa Peixoto de Carvalho, do terreiro de Santa Clara.


Reconhecido pela sua relevância arquitectónica e patrimonial, o palacete de Vila Flor também se destaca pela sua ligação à História de Guimarães.


No início, de Julho de 1836, chegaram até aqui os ecos das salvas de artilharia que saudavam a entrada na cidade do Porto do príncipe D. Fernando, consorte de D. Maria II, que, chegando de Lisboa num barco a vapor, vinha visitar diversas cidades do Norte, entre as quais Guimarães. Por essa ocasião, a Câmara de Guimarães, enquanto mandava iluminar a vila e engalaná-la com arcos festivos, pediu a Nicolau de Arrochela a Casa do Cavalinho, de que então proprietário, para servir de aposento do Príncipe. Era a estreia de Vila Flor no acolhimento de grandes acontecimentos.


Um dos momentos mais marcantes da história deste edifício remete-nos para meados de Maio de 1852, quando alojou D. Maria II e a Casa Real portuguesa, durante a celebrada visita que realizou a Guimarães. A estadia da comitiva régia teria efeitos importantes para Guimarães, que não tardou em ser elevada a cidade, e para o senhor de Vila Flor, que foi feito Conde de Arrochela pela rainha, querendo perpetuar a memória da honra que lhe fez de a hospedar em sua casa (de Guimarães) por ocasião da sua visita às províncias do Norte. Em meados de 1884, o palacete de Vila Flor foi palco de uma iniciativa da Sociedade Martins Sarmento, dinamizada por Alberto Sampaio, que deixou marcas profundas na Guimarães do último quartel de oitocentos, contribuindo para a renovação económica e cultural de Guimarães: a Exposição Industrial de Guimarães, a primeira do género organizada em Portugal a nível concelhio.


No início do século XX, o palácio e os jardins de Vila Flor foram adquiridos por Bernardino Jordão, cujo nome está ligado à introdução da electricidade no Concelho de Guimarães. O edifício iniciado por Tadeu Camões foi então concluído, com a construção da parte voltada a poente do seu piso superior. Foi ali, em frente ao portal do jardim, que, no último dia de Outubro de 1909, se inaugurou a iluminação eléctrica de Guimarães. Em 1976, Palácio de Vila Flor passaria, por compra, para a posse do Município. Estava-lhe destinada a missão, que cumpriu, de acolher o Pólo de Guimarães da Universidade do Minho. Espaço nobre de Guimarães, onde se receberam reis, príncipes e ministros, e por onde, no passado, se cruzaram os caminhos de Guimarães para a modernidade, a Casa do Cavalinho acolhe agora o Centro Cultural de Vila Flor, um notável espaço contemporâneo de fruição pública, readquirindo uma missão que bem conhece, a de sala de visitas de Guimarães.
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9 de setembro de 2005

Vimaranis Monumenta Historica

Numa notável conferência que deixou inédita, que teria publicação póstuma em 1921, na Revista de Guimarães, João de Meira, o mais brilhante dos homens de letras da Guimarães do início do século XX, começava assim: não conhecermos a nossa própria história, diz um escritor moderno, é de bárbaros; conhecê-la, porém, viciada, tecida de burlas e de piedosas fraudes, é pior. Porque, no primeiro caso, com não sabermos quem somos, nem nos dizerem donde viemos, essa mesma ignorância obstará a que perpetremos muitos desconcertos; ao passo que, se laborarmos no vício de uma falsa informação, daremos muitas vezes, com a memória das fábulas que nos tiverem ensinado, razão sobeja e justificada para que se riam de nós.

A História Local de Guimarães tem longa tradição, com início em autores seiscentistas como André Afonso Peixoto ou Luís da Gama, de quem não se conhecem os escritos, ou Torcato Peixoto de Azevedo, cujas Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães alimentaram as obras dos escritores que, até aos finais do século XIX, se dedicaram a escrever sobre o passado vimaranense, como Carvalho da Costa, na sua Corografia, ou António José Ferreira Caldas, no seu Guimarães, Apontamentos para a sua História. Ostentando as marcas do seu tempo, a narrativa do Padre Torcato debita, por entre factos históricos, episódios fabulosos que remetem para tradições de origem obscura. As obras de Torcato, Carvalho ou Caldas ainda são objectos de inegável interesse para o estudo do nosso passado. Po­rém, devem ser encaradas, como aconselhava João de Meira, como frutos de uma credulidade extrema, recebendo sem re­flexão todas as lendas, ainda as mais fantasiosas.

Com a fundação da Sociedade Martins Sarmento e sob a inspiração do arqueólogo que lhe deu o nome, os estudos de História Local passaram a ser encarados como uma disciplina com preocupações científicas que não podia prescindir do rigor no tratamento crítico dos documentos com que trabalhava. O pioneiro dos estudos modernos da História de Gui­marães, João Gomes de Oliveira Guimarães, o Abade de Tagilde, dedicou-se à pesquisa, à decifração e à divulgação das nossas fontes históricas ao longo das três décadas que vão desde a criação da Revista de Guimarães, em 1884, até fim dos seus dias.

Da investigação perseverante e escrupulosa que desenvolveu nos arquivos e cartórios, resultou a construção de uma nova maneira de escrever a História de Guimarães que, entre muitas outras, abordou temáticas que só bastante tempo mais tarde se tornariam objecto das preocupações dos historiadores, como a história das epidemias ou do abastecimento de água.

A sua obra capital, os Vimaranis Monumenta Histórica, resultou de uma proposta aprovada pela Câmara Municipal de Guimarães em 6 de Abril de 1898, que pretendia reunir os documentos históricos vimaranenses, desde as eras mais remotas aos tempos actuais. A Câmara custearia a obra, de cuja execução foi encarregada a Sociedade Martins Sarmento. O trabalho seria assumido pelo Abade de Tagilde, que compilou e transcreveu os documentos que recolheu percorrendo, perscrutando e revolvendo arquivos públicos e particulares onde sabia e presumia existirem monumentos, que desde a Idade Média se referiam ao território vimaranense.

O primeiro volume dos Vimaranis Monumenta Historica veio a lume em 1908, reunindo 353 documentos referentes ao período que decorre entre os anos de 870 e 1380. Mas não seria o Abade de Tagilde, que faleceu em finais de 1912, a terminar a obra, nem o continuador que ele pretendia, João de Meira, que o seguiria no ano seguinte, aos 32 anos.

Há quase um século que se aguarda que se dê continuidade a esta obra fundamental da nossa historiografia, contribuindo para que, como escreveu João de Meira, não sejamos chamados de bárbaros, por ignorarmos a nossa história, nem sejamos objecto de mofa, por apresentá-la entretecida em lendas inaceitáveis.
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