29 de julho de 2005

A Casa da Câmara e as duas caras (II)

Um dos traços distintivos da identidade vimaranense é a sua História. Guimarães é a terra onde os portugueses se reencontram com as suas raízes. Tem um passado de que a sua gente se orgulha e que não necessita de ser adornado com elementos espúrios que não a engrandecem. Vem isto a propósito de uma carta publicada na última edição deste jornal, na qual Barroso da Fonte (BF) dá conta da sua discordância fundamental em relação a três afirmações que constam do artigo sobre a Casa da Câmara e as duas caras que se publicou nesta rubrica.

Discorda de que seja recente a associação das duas caras ao episódio da conquista de Ceuta que terá envolvido as hostes de Guimarães, mas não demonstra o contrário. Ora, datando da década de 1980 a mais antiga notícia que conhecemos sobre tal assunto, não se poderá negar que seja recente, quando se refere a um facto ocorrido há quase 600 anos.

Discorda também da afirmação de que, na língua portuguesa, cara nunca foi sinónimo de frente de batalha. Mas, como os dicionários, nada diz sobre tal assunto.

Discorda, por fim, da ideia da falta de sustentação documental e de tradição historiográfica de tal associação, convocando em seu apoio a autoridade dos nossos mais conhecidos historiadores. Em vão, porque nenhum dos que cita explicou, uma vez que fosse, o significado da estátua das duas caras à luz do episódio de Ceuta.

Deveríamos ficar por aqui, já que no nosso texto não expressamos qualquer opinião sobre a querela de Ceuta e da servidão de Barcelos, assunto que não nos desperta o menor interesse. Mas, como BF sugere que teríamos uma responsabilidade acrescida no esclarecimento desta matéria, tentaremos não o defraudar. Vejamos então o que dizem os nossos mais conhecidos historiadores.

Torcato Peixoto de Azevedo foi o primeiro a aludir ao episódio de Ceuta como origem da tal servidão dos moradores de Barcelos. Escrevendo quase três séculos depois da conquista daquela praça marroquina, fala duma provisão régia de 1417 que nunca ninguém viu. Sem entrarmos em detalhes fastidiosos, diremos apenas que as suas Memórias Ressuscitadas não serão o melhor referencial de rigor histórico (até porque troca datas, como nota BF, que lhe troca as páginas).

Assim sendo, não valerá a pena perder tempo com o que o Padre Carvalho da Costa diz sobre este assunto na sua Corografia, onde se limita a plagiar o Padre Torcato.

O Padre Caldas, nos seus Apontamentos, também segue Torcato, acrescentando a tal sentença que, segundo BF, identifica dezenas de intervenientes, explica os factos, data-os e esclarece os deveres dos barcelenses para com os vimaranenses a partir da Provisão régia que se reporta ao comportamento na Tomada de Ceuta. Bastará ler o documento para ver não é assim: a sentença apenas identifica os dois réus do processo, nada explica sobre os factos que estarão na origem daquela servidão, não data nada (remete para um tempo imemorial) e nada diz de Ceuta, nem de Barcelos.

O que BF diz que o Abade de Tagilde escreveu sobre a matéria nos Vimaranis Monumenta Histórica é pura invenção. Nas páginas que indica (351/358) não se encontra nem sombra dos dados essenciais da Provisão régia que levou àquela servidão. Nem se poderia encontrar, já que a obra se ficou pelo ano de 1380.

É certo que João de Meira, num texto notável com publicação póstuma em 1921, dedica um breve parágrafo à história de Ceuta e da servidão de Barcelos. Mas é igualmente certo que a classifica como uma lenda.

Diz BF que José Augusto Vieira reafirma a versão consensual desta história. Leia-se o Minho Pitoresco e ver-se-á que, depois de descrever a suposta servidão barcelense, o autor a classifica como uma anedota inventada por Carvalho da Costa, a quem chama de patranheiro, dando por certo que tal fraqueza e tal castigo só existiram na cabeça do padre Carvalho, que deu ouvidos e acreditou nas patranhas.

Tem BF razão quanto ao que diz Frei Francisco Xavier Camelo, que afirma que foi o Duque D. Jaime quem, no século XVI, libertou a Vila de Barcelos da injuriosa servidão, transferindo-a para os moradores das freguesias de Cunha e Ruilhe, que terá desanexado de Barcelos para entregar a Guimarães. Porém, contrariando Frei Camelo, bastará compulsar os Vimaranis para arruinar este argumento, uma vez que aquelas freguesias já pertenciam a Guimarães pelo menos desde o século XIII.

É sabido que A. L. de Carvalho, no seu Guimarães em Ceuta, aduz argumentos em favor do episódio de Ceuta e da servidão de Barcelos a Guimarães, que não terão sido suficientes para demolir as reservas que o insuspeito medievalista vimaranense Alfredo Pimenta lhe levantou, chamando-lhe história da carochinha. Nesse livro é referido um autor, que BF ignora, cuja obra poderá ajudar a iluminar esta questão. É Mestre António, cirurgião, autor de uma monografia de Guimarães datada de 1512, que conta que os habitantes de Cunha e Ruilhe se tornaram tributários da vila de Guimarães por terem fugido das guerras doutras partes. Ou seja, o tributo da vassoura não lhes foi transmitido por Barcelos.

Conclusão: não há evidência histórica do que se diz ter acontecido em Ceuta com as hostes de Barcelos e de Guimarães, nem da servidão dos barcelenses, nem de que Cunha e Ruilhe tenham herdado tal servidão. Mas sabe-se que estas freguesias já eram de Guimarães antes da conquista de Ceuta. E que a estátua da Casa da Câmara nada tem a ver com isto. Até que se demonstre o contrário.
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15 de julho de 2005

A Casa da Câmara e as duas caras


No ano de 1516, as gentes da governança de Guimarães enviaram ao rei uma petição suplicando meios para construir uma nova casa do Concelho. A resposta de D. Manuel I veio por um alvará de 27 de Agosto daquele ano. Na Praça Maior, ao lado da sede do poder religioso, a Colegiada, instalou-se o poder político de Guimarães.

As marcas manuelinas ainda persistem nos elementos decorativos do edifício, apesar das alterações que sofreu ao longo do tempo. A estrutura da Casa da Câmara é singela, com o espaço fechado limitado ao piso superior e sustentado pela arcaria ogival que franqueia a passagem entre a Praça da Oliveira e a antiga Praça do Peixe (S. Tiago). Tem planta rectangular, com duas salas cobertas por tectos abaulados de madeira pintada.

Segundo uma descrição de 1612, existia, na sala voltada para nascente, uma capela metida na parede onde, junto a um quadro que representa o Espírito Santo (actualmente depositado no Museu Alberto Sampaio), se dizia missa antes das vereações, às quartas-feiras e aos sábados.

A Sala de Audiências, no lado poente, tinha uma mesa destinada aos oficiais da Justiça e ao redor das paredes assentos de pau com seus encostos lavrados e no meio umas grades para não entrarem delas para dentro. Do lado voltado para a Praça de S. Tiago, estava colocada, em plano elevado, a mesa de audiência dos julgadores.

Em 1606, foi assentado no topo da fachada principal o sino de correr da Vila, trazido do Castelo, que servia para chamar para vereações e audiências. Ao lado da sineira, estava um magnífico relógio de sol, em granito fino. Meio século depois, no cunhal da esquina da rua dos Açoutados, foi embutida, por ordem de D. João IV, uma pedra com uma inscrição em honra da Imaculada Conceição, padroeira de Portugal

Por diversas vezes, a Casa da Câmara ameaçou ruína. Outras tantas foi restaurada. Segundo o Padre Caldas, numa das intervenções do século XVIII fizeram-lhe janelas segundo o gosto moderno, que foram coroadas com os escudos reais e as esferas armilares que até aí estavam cravados no liso da parede, por baixo das ameias.

Em 1877, a Casa da Câmara teve nova reforma, que deixou marcas na fachada. A sineira e o relógio foram apeados, o reboco da parede foi removido, ficando a parede em pedra nua, e foram alteradas as posições das esferas e dos escudos sobrepostos às janelas. Na platibanda de onde desceu o sino, foi colocada a estátua de um guerreiro trazida da antiga Casa da Alfândega. Segundo a tradição popular, esse guerreiro seria o Guimarães, outorgando-lhe a condição de símbolo epónimo da cidade. Tem um rosto esculpido sobre o ventre, sendo associado à tradição das duas caras, de feição pejorativa, que se refere a uma suposta duplicidade de carácter das gentes de Guimarães.

Há uma outra interpretação das duas caras de Guimarães, com origem recente, que remete para o seguinte episódio da conquista de Ceuta: tomada aquela praça marroquina, D. João I repartiu a defesa dos diferentes troços da sua muralha pelas terras que o acompanharam na conquista. Como os de Barcelos se puseram em retirada perante a arremetida dos mouros, deixando desguarnecida a estância que lhes cabia defender, foram os de Guimarães que se desdobraram, cumprindo, com sucesso, a sua missão e a dos de Barcelos. As caras da estátua representariam as duas frentes (caras) que os vimaranenses terão defendido em Ceuta. Esta versão, sem suporte documental nem tradição historiográfica, não tem sustentação. Além do mais, na nossa língua, cara nunca foi sinónimo de frente de batalha…

A realidade é que não se encontra fundamento para a identificação da estátua com Guimarães: não existe nenhum documento que se lhe refira. Aquela figura nada tem a ver com a iconografia vimaranense. É apenas a representação de um guerreiro que enverga uma armadura ornamentada com uma carranca, sobre a qual algum dia se inventou um chiste que ganhou foros de tradição.
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1 de julho de 2005

As Memórias de Torcato

Cada geração se projecta no futuro com a identidade que busca no passado. É essa a razão pela qual a História se reescreve em cada tempo e carrega as marcas da circunstância em que foi passada ao papel. É assim, em especial, na chamada história local, que é o meio de comunicação de cada terra com o seu passado. É por isso que os livros de História são, eles mesmos, interessantes objectos de estudo para historiadores.

Guimarães, com a sua ligação umbilical à História, que preenche parte substancial da sua matriz identitária, possui obras historiográficas particularmente emblemáticas. De todas, a que mais se destaca é a monografia sobre Guimarães e a sua história do Padre Torcato Peixoto de Azevedo.

Torcato Peixoto de Azevedo nasceu em Guimarães, no dia 2 de Março de 1622. Era filho de João Rebelo Leite, sargento-mor, e de Isabel Peixoto de Azevedo. Presbítero secular, especialista em genealogia, terá deixado trinta e cinco volumes manuscritos sobre a vida de reis de Portugal e Castela, dos duques de Bragança e de Lorena, das casas reais de Castela e da Áustria e sobre as genealogias de famílias portuguesas. Deixou também as Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, onde tratou desta terra que afirma erguer-se no meio de tão excelente província de Entre-Douro-e-Minho, como pedra preciosa desta jóia, esmaltada de excelências.

O volume das Memórias do Padre Torcato estendem-se por 142 capítulos, o primeiro dos quais trata da primeira repartição do mundo, e limites da Europa. Seguindo a tradição da historiografia da sua época, iniciou a história de Guimarães pela origem do mundo, nos confins dos tempos, seguindo do universal para o local: começando pelo mundo, segue pela Europa, atravessa a Península Ibérica, chega a Portugal, avança sobre o Entre-Douro-e-Minho, para vir dar a Guimarães quando a obra já vai no seu capítulo 43.º, no qual fala da cidade de Briteiros, e seus bispos e sua destruição.

O que escreve a partir do capítulo 45.º (Da Fundação da Vila de Guimarães) tornou-se, nos séculos seguintes, na principal fonte de tudo quanto se publicou sobre Guimarães e a sua história. Assim sucede na célebre Corografia do Padre Carvalho da Costa, na parte que dedica a Guimarães, onde se transcreve quase literalmente aquilo que o Padre Torcato havia escrito algumas décadas antes.

Na apresentação que faz da obra, o Padre Torcato anuncia o programa que se propõe: decantar, em agradável estilo, as primeiras notícias da nossa antiga Araduca, e fundação da nova Guimarães, e sua igreja catedral real, e como ela foi colocada à Virgem Santa Maria, e o motivo que houve para lhe darem o título de Oliveira; medindo sua grandeza, contando seus vizinhos, enumerando as freguesias de seu termo, concelhos, e coutos, e honras de suas comarcas; edifícios, mosteiros, capelas, rios, pontes e fontes suas vizinhas; morgados e casas de seus nobres povoadores, privilégios, isenções e liberdades com que foram honrados de seus pais; caos e sucessos que na sua defesa, e do reino, sucederam.

Como todas as obras humanas, as Memórias do Padre Torcato ostentam as marcas do seu tempo. Apesar disso, continuam a ser uma fonte incontornável para o conhecimento de Guimarães e da sua história.

Torcato Peixoto de Azevedo faleceu há precisamente três séculos, em 23 de Junho de 1705. As suas Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães aguardariam ainda 140 anos até à sua publicação. Dessa edição foi retirada recentemente uma versão fac-similada, publicada por Paulo Dias de Castro. O manuscrito, que se guarda na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento com outras obras do Padre Torcato, aguarda que dele seja feita uma publicação que corrija os erros de transcrição existentes na edição de 1845.
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