18 de novembro de 2005

S. Miguel do Castelo

A igreja de S. Miguel do Castelo tem um grande peso simbólico nas tradições vima­ranenses, estando associada aos fundamentos da nacionalidade portuguesa. Reza a tradição que terá sido naquele pequeno templo que o Arcebispo D. Geraldo baptizou o primogénito dos condes Henrique e Teresa, que a si próprio se viria a investir no cargo de primeiro rei de Portugal.

Antiga paroquial da vila velha de Guimarães, é uma igreja românica que está implantada no espaço da velha cerca baixa do Castelo. O seu principal traço é a austeridade-cons­trutiva e decorativa. Tem nave longitudinal, terminando numa capela-mor rectangular. O portal principal, de tímpano liso, abre-se sob duas arquivoltas de arco quebrado. O remate da empena ostenta uma cruz trilobada. Em cada uma das fachadas laterais, rematadas por cornijas simples, foi aberta uma porta. Uma delas está enquadrada, do lado exterior, por dois arcosólios (túmulos implantados na parede). No interior, do lado esquerdo junto ã entrada, está uma pia baptismal de granito, onde, segundo a tradição, terá sido baptizado Afonso Henriques. O chão está lajeado com várias estelas funerárias, que apresentam decorações e inscrições. Foi sede da paróquia que lhe deu o nome, que sempre teve um número de fregueses muito diminuto. Já em Maio de 1412, o Prior D. Afonso Gomes de Lemos, atendendo à pouca renda que a igreja S. Miguel do Castelo gerava, decidiu anexá-la à conesia do cónego Pedro Anes, que servia a Colegiada havia muitos anos, com bons serviços pres­tados, com o encargo de a curar, enquanto vivesse.

Em Novembro de 1664, os frades capuchos instalaram-se numas casas próximas desta igreja, cedidas por D. Nuno de Noronha Amaral e Castelo Branco. O Prior de Guimarães, D. Diogo Lobo da Silveira, concedeu então licença aos padres frei Jerónimo de Vila Real, guardião, frei João da Barca, frei Manuel de Verdemilho, frei Pedro de Beja e frei Francisco do Porto, para celebrarem os ofícios divinos na igreja de S. Miguel do Castelo, enquanto não terminasse a construção do seu convento (Santo António dos Capuchos, que foi concluído em 1668).

Esta igreja foi objecto de obras em 1795, por iniciativa do seu abade, Francisco José Ribeiro da Silva. Terá sido nessa altura que o arco cruzeiro românico primitivo foi substituído por um novo, ao gosto da época.

No final de Dezembro de 1868, uma comissão encarregada de proceder à reforma das paróquias na comarca de Guimarães propôs a extinção da freguesia de S. Pedro de Azurém, alargando o território de S. Miguel do Castelo, por razões históricas e para maior comodidade para a sua população. Verificando-se que a igreja do Castelo não estava em condições de assegurar as suas funções de sede paroquial, por precisar de ser reparada e ampliada, o administrador do Concelho solicitou à Misericórdia a cedência da igreja do hospital para o serviço paroquial, enquanto durassem as obras de remodelação de S. Miguel. Alegando que a sua igreja necessitava de estar livre para o serviço do hospital, a Mesa da Santa Casa informou que não podia aceder àquela so­licitação. Os trabalhos de ampliação da abadia de S. Miguel nunca se realizaram. Porém, havia urgência em acudir-lhe com obras que travassem a degradação paulatina que a atingia. O sinal de alerta terá sido dado pelo desmoronamento do campanário e do cunhal da igreja, no final de Novembro de 1872.
Já em 1870, o Arcebispo de Braga havia retirado à igreja de S. Miguel do Castelo o título de paroquial, por força do estado de ruína em que se encontrava, que impedia a realiza­ção das celebrações religiosas. A paróquia foi então anexada à de Santa Maria da Oliveira. Em 17 de Agosto de 1874, uma comissão presidida por Francisco Martins Sarmento, integrando João Pinto de Queirós, o cónego José de Aquino Veloso de Sequeira e o pa­dre António José Ferreira Caldas, deu início aos trabalhos de restauro da igreja, com a preocupação de devolverão templo a sua feição românica original. Entre outras inter­venções, foi demolido o arco cruzeiro setecentista. Martins Sarmento custeou o novo arco, que foi erigido nas dimensões e formas arquitectónicas do primitivo. Em 1910, a velha abadia do Castelo foi classificada como Monumento Nacional. Em 1940, foi restaurada pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. A tradição que associa esta igreja à figura do rei fundador perde-se no tempo. O certo é que, do ponto de vista histórico, é pouco provável que o arcebispo D. Geraldo tenha baptizado Afonso Henriques ali. Em primeiro lugar, porque, à data do nascimento do futuro rei, já D. Geraldo teria falecido. Em segundo lugar, porque tudo aponta para que a igreja
de S. Miguel do Castelo, que foi sagrada em 1239, seja obra do reinado de D. Sancho I.
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4 de novembro de 2005

O Românico (II): As Igrejas em Espaço Rural

O termo românico surgiu no final do primeiro quartel do século XIX para designar a arte nascida na Europa durante a Alta Idade Média, por analogia com o processo que levou ao surgimento das línguas latinas (o romanço ou romance). A sua principal expressão foi a arquitectura. O seu edifício mais característico é a igreja. As soluções que desenvolveu permitiram construções maciças e articuladas, recorrendo a paredes robustas, a arcos de volta perfeita e a estruturas curvas para as coberturas. Tendo adaptado os materiais, a mão-de-obra e as tradições construtivas locais, apresenta uma grande variedade de soluções regionais. A sua expansão está associada ao processo de penetração da Igreja no Ocidente: a partir do século XI, o mundo cobria-se por toda a parte com um manto branco de igrejas. Também se cobriu o Baixo Minho, onde esta arquitectura terá irradiado a partir da Sé de Braga, um dos mais importantes monumentos românicos do Noroeste Peninsular.

No meio rural de Guimarães identificam-se diversos exemplares da arquitectura religiosa do período românicos.

A Igreja de Santa Cristina de Serzedelo pertencia, no século XII, ao Convento dos Eremitas de Santo Agostinho. É o melhor exemplo do românico rural que ainda sobrevive no concelho de Guimarães. Edifício austero, possui nave e capela-mor de plantas rectangulares. No exterior, prolongando para poente a fachada voltada a sul, está implantada uma robusta torre sineira. O portal principal rasga-se em arquivolta, sendo encimado por uma fresta. No interior, a nave e a capela-mor estão separadas por um arco de volta perfeita assente em duas colunas com capitéis decorados com motivos fitomórficos. Nas paredes, podem observar-se vestígios de pinturas murais de grande importância. A trama do romance “O Segredo do Abade”, de Arnaldo Gama, tem aqui o seu cenário. É monumento Nacional.

A igreja de S. Salvador de Souto, reconstruída no século XVIII, ainda conserva alguns vestígios do templo primitivo, que pertenceu ao mosteiro dos cónegos regrantes de Santo Agostinho e que teria um planta de estrutura simples, com nave e cabeceira de plantas rectangulares. Desses vestígios, assumem particular relevo as figuras grotescas da cachorrada que está implantada na fachada do lado sul, com elementos escultóricos com configurações estranhas e poses distorcidas e aparentemente escandalosas. Nesta fachada é também visível a presença de elementos de um friso enxaquetado (em xadrez), que também aparece no interior, na parede voltada para norte.

A Capela do Mosteiro de S. Torcato, de planta rectangular, está adossada na fachada lateral voltada a norte da Igreja. Foi profundamente alterada no século XIX. Hoje subsiste, do velho edifício românico, uma abóbada em canhão, um portal e uma linha de arcaturas com alguns elementos figurativos esculpidos, situada na cabeceira da capela-mor. É Monumento Nacional.

A pequena Igreja de Santa Maria de Corvite apresenta claros sinais de degradação, em parte motivada por já não ser local de culto. No seu interior, com piso em terra batida, encontram-se pedras que parecem ser anteriores ao período românico. Nas paredes observam-se pinturas a fresco que exigem uma intervenção urgente de salvamento e protecção. Encontra-se em vias de classificação.

A igreja de S. Martinho de Candoso ostenta, no exterior, um interessante conjunto de modilhões que sustentam a cornija. O arco triunfal, decorado com motivos geométricos e lanceolados e encimado por um friso enxaquetado semelhante ao de Souto, também pertence ao período primitivo. A iluminação actual é feita com candeeiros de pé desenhados pelo arquitecto Siza Vieira. É Monumento Nacional.

A Igreja Velha de S. Cipriano de Tabuadelo, provavelmente do século X, situa-se no interior de uma propriedade agrícola e encontra-se em processo de degradação acelerado. A sua fachada é simples, com um portal em arco de volta perfeita. Voltado a sul, conserva ainda o que parece ser um portal primitivo. Está classificada como Imóvel de Interesse Público.

A igreja de São João de Calvos, em Lordelo, apresenta fortes semelhanças com a de Tabuadelo. É um Imóvel de Interesse Público.

No espaço rural concelho de Guimarães há memória de várias outras igrejas medievais românicas. Umas já desapareceram, como a de Santa Eulália de Pentieiros, que seguiria o modelo de S. Cipriano e de Calvos. Outras foram tão adulteradas por sucessivas intervenções, que o melhor será esquecer que algum dia, lá no fundo dos tempos, terão sido belas igrejas românicas. Esse será o caso, por exemplo, da Igreja de Serzedo.
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14 de outubro de 2005

O Românico (I): As Pontes

Da arquitectura medieval, o que melhor conhecemos são as construções de carácter religioso (mosteiros, igrejas, capelas), particularmente notáveis pelas suas técnicas construtivas e pela riqueza da sua gramática decorativa. No que se refere à arquitectura civil e militar medieval, os exemplares mais conhecidos, os castelos, são construções em geral muito pobres, quando comparadas com os edifícios religiosos. O mesmo não se dirá das pontes.

Na Idade Média, a reparação e conservação das calçadas e a construção de pontes encontravam-se entre as obras de piedade, sendo frequentemente objecto de legados nos testamentos de nobres e clérigos. As pontes, que transformavam a paisagem e estimulavam as ligações regionais, aproximando cidades e vilas, são particularmente exigentes no que respeita a processos construtivos. Geralmente mais estreitas do que as romanas, são mais robustas e dotadas de alicerces mais resistentes. Os seus traços mais característicos são os grandes arcos de volta perfeita e os talhamares que favorecem a sua resistência à força das águas e aos detritos arrastados pela corrente em tempos de cheias. Outro elemento distintivo é o perfil em cavalete, com dupla rampa, que está associado aos arcos de grande altura.

Em Guimarães estão inventariadas quatro pontes medievais.

A Ponte de Donim, sobre o Rio Ave, assenta sobre três arcos. O seu tabuleiro é horizontal. O arco central, de grandes dimensões, possui quatro talhamares triangulares a jusante e talhantes quadrangulares a montante. Na margem do lado direito está rasgado um vão em forma de arco, que serve para escoar a água que transborda do leito do rio durante as cheias. As lajes originais do seu pavimento foram substituídas por paralelepípedos de granito.

Ainda sobre o rio Ave, a Ponte de Serves, em Gondar, também de tabuleiro plano, é composta por quatro arcos de volta perfeita de diferentes dimensões. Dois dos seus pilares têm contrafortes e talhamares. Esta ponte foi muito adulterada em reparações recentes, que aplicaram novas aduelas nos arcos, reboco de cimento e guardas de ferro. Pertence à antiga estrada entre Guimarães e Famalicão.

A Ponte de Caneiros, de pequenas dimensões, atravessa o Rio Selho em caminho carreteiro. Com tabuleiro em cavalete, é composta por dois arcos de volta perfeita, de tamanho desigual e aparelho irregular. Não tem talhamares.

A Ponte do Arco, com um magnífico enquadramento na paisagem envolvente, liga Serzedo a Vila Fria, no concelho de Felgueiras, fazendo a travessia do Rio Vizela. O seu tabuleiro, em cavalete, assenta sobre dois arcos de volta perfeita com um talhamar no pilar de ligação. O pavimento, irregular, conserva a calçada original. Ao centro do muro de guarda voltado para nascente, está cravado um marco, datado de 1724, com a inscrição “Couto do Real Mosteiro de Pombeiro”.

Estas pontes, que muitas vezes têm sido confundidas com as dos romanos, deram um importante contributo para a circulação das gentes e para a animação do comércio na Idade Média. Muitas delas têm, segundo a tradição popular, uma origem misteriosa, sendo frequentemente associadas a obras do Diabo, o que explica que sejam escolhidas para a celebração de rituais propiciatórios aplicados a mulheres que têm dificuldade em levar uma gravidez a termo.

Por estas terras, fala-se nas orações pronunciadas à meia-noite, sob os arcos de uma ponte, através das quais algumas mulheres obteriam a satisfação do seu desejo de engravidar. Da mesma forma se diz que uma mulher que, andando grávida, se revelasse incapaz de levar a gravidez a termo ou lhe costumassem morrer os filhos logo após o nascimento, alcançaria bons resultados caso se dirigisse à noite a determinada ponte, onde teria lugar um estranho cerimonial de baptismo in ventre.

Francisco Martins Sarmento recolheu esta tradição que, segundo os seus informadores, tinha lugar na Ponte de Domingos Terne, na Póvoa de Lanhoso, e na de Donim. Contou-a assim:

Quando uma mulher grávida supõe estar no fim e quer fazer escapar a criança que traz no ventre vai «à meia-noite» à ponte de Domingos Terne, ou antes espera lá pela meia-noite. A primeira pessoa que passar, será o padrinho do futuro filho, e baptiza-o com água do rio, que se tira do alto da ponte num copo, atado a um cordel, dizendo:

«Eu te baptizo, criatura de Deus, em nome do Padre, do Filho e do espírito Santo.»

É preciso não deixar passar a ponte algum animal, ou ser vivente, que tolherá o efeito da coisa; estes animais são coisa má disfarçada, que pretendem contrariar a influência da operação, e que nessa ocasião aparecem em grande quantidade.


Quando nascesse, a criança assim baptizada seria chamada de Senhorinha, se fosse menina, ou Gervásio, se fosse menino. E o certo é que, nas imediações destas pontes, aqueles nomes costumavam ser bastante comuns.
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23 de setembro de 2005

Vila Flor: a sala de visitas de Guimarães

Tadeu Luís António Lopes de Carvalho Fonseca e Camões, nascido em Guimarães em 1692, era filho do fidalgo genealogista Gonçalo Lopes de Carvalho e de D. Guiomar Bernarda da Silva. Abundante de bens e de cultura, fidalgo da Casa Real, cavaleiro professo da Ordem de Cristo, familiar do Santo Ofício, senhor dos coutos de Abadim e Negrelos, foi membro da Academia Real de História Portuguesa, da Academia dos Infecundos e da Arcádia de Roma. Foi fundador e patrono da antiga Academia Problemática de Guimarães (a celebrada Academia Vimaranense, que se dedicava às coisas da literatura sob influência da estética barroca então vigente), sobre a qual publicou os dois volumes da obra Guimaraens Agradecido (1749). A casa fidalga que se ergue no Cavalinho, em Guimarães, conhecida como Palácio de Vila Flor, também é obra sua. A Casa do Cavalinho ostenta uma traça arquitectónica que concilia simplicidade com imponência. A sua fachada mais nobre, voltada a Norte, está implantada sobre jardins desenhados em patamares rasgados por escadarias, com balaustradas, fontes e um magnífico chafariz em pedra, onde, desde sempre, sobressaíram as composições de buxo anão. Na parede voltada para Nascente, foram incrustadas peanhas que suportam umas esculturas de talhe grosseiro, que pretendem representar os primeiros reis portugueses. Este conjunto de moradia apalaçada com jardins, de onde se desfruta de uma vista ímpar de Guimarães, é uma obra "admirável em sua arquitectura e na grandeza e fábrica do jardim", como já a descreviam as Memórias Paroquiais setecentistas. Pertenceu aos descendentes de Tadeu Camões até ao ano de 1812, quando os então proprietários, João José de Almeida Melo Velho e Lencastre, Visconde de Vila Nova de Souto de El-rei e a viscondessa D. Maria Joana do Monte Forjaz da Câmara e Meneses, a venderam, com outras propriedades, a sua prima D. Maria Leonor de Sousa Peixoto de Carvalho, do terreiro de Santa Clara.


Reconhecido pela sua relevância arquitectónica e patrimonial, o palacete de Vila Flor também se destaca pela sua ligação à História de Guimarães.


No início, de Julho de 1836, chegaram até aqui os ecos das salvas de artilharia que saudavam a entrada na cidade do Porto do príncipe D. Fernando, consorte de D. Maria II, que, chegando de Lisboa num barco a vapor, vinha visitar diversas cidades do Norte, entre as quais Guimarães. Por essa ocasião, a Câmara de Guimarães, enquanto mandava iluminar a vila e engalaná-la com arcos festivos, pediu a Nicolau de Arrochela a Casa do Cavalinho, de que então proprietário, para servir de aposento do Príncipe. Era a estreia de Vila Flor no acolhimento de grandes acontecimentos.


Um dos momentos mais marcantes da história deste edifício remete-nos para meados de Maio de 1852, quando alojou D. Maria II e a Casa Real portuguesa, durante a celebrada visita que realizou a Guimarães. A estadia da comitiva régia teria efeitos importantes para Guimarães, que não tardou em ser elevada a cidade, e para o senhor de Vila Flor, que foi feito Conde de Arrochela pela rainha, querendo perpetuar a memória da honra que lhe fez de a hospedar em sua casa (de Guimarães) por ocasião da sua visita às províncias do Norte. Em meados de 1884, o palacete de Vila Flor foi palco de uma iniciativa da Sociedade Martins Sarmento, dinamizada por Alberto Sampaio, que deixou marcas profundas na Guimarães do último quartel de oitocentos, contribuindo para a renovação económica e cultural de Guimarães: a Exposição Industrial de Guimarães, a primeira do género organizada em Portugal a nível concelhio.


No início do século XX, o palácio e os jardins de Vila Flor foram adquiridos por Bernardino Jordão, cujo nome está ligado à introdução da electricidade no Concelho de Guimarães. O edifício iniciado por Tadeu Camões foi então concluído, com a construção da parte voltada a poente do seu piso superior. Foi ali, em frente ao portal do jardim, que, no último dia de Outubro de 1909, se inaugurou a iluminação eléctrica de Guimarães. Em 1976, Palácio de Vila Flor passaria, por compra, para a posse do Município. Estava-lhe destinada a missão, que cumpriu, de acolher o Pólo de Guimarães da Universidade do Minho. Espaço nobre de Guimarães, onde se receberam reis, príncipes e ministros, e por onde, no passado, se cruzaram os caminhos de Guimarães para a modernidade, a Casa do Cavalinho acolhe agora o Centro Cultural de Vila Flor, um notável espaço contemporâneo de fruição pública, readquirindo uma missão que bem conhece, a de sala de visitas de Guimarães.
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9 de setembro de 2005

Vimaranis Monumenta Historica

Numa notável conferência que deixou inédita, que teria publicação póstuma em 1921, na Revista de Guimarães, João de Meira, o mais brilhante dos homens de letras da Guimarães do início do século XX, começava assim: não conhecermos a nossa própria história, diz um escritor moderno, é de bárbaros; conhecê-la, porém, viciada, tecida de burlas e de piedosas fraudes, é pior. Porque, no primeiro caso, com não sabermos quem somos, nem nos dizerem donde viemos, essa mesma ignorância obstará a que perpetremos muitos desconcertos; ao passo que, se laborarmos no vício de uma falsa informação, daremos muitas vezes, com a memória das fábulas que nos tiverem ensinado, razão sobeja e justificada para que se riam de nós.

A História Local de Guimarães tem longa tradição, com início em autores seiscentistas como André Afonso Peixoto ou Luís da Gama, de quem não se conhecem os escritos, ou Torcato Peixoto de Azevedo, cujas Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães alimentaram as obras dos escritores que, até aos finais do século XIX, se dedicaram a escrever sobre o passado vimaranense, como Carvalho da Costa, na sua Corografia, ou António José Ferreira Caldas, no seu Guimarães, Apontamentos para a sua História. Ostentando as marcas do seu tempo, a narrativa do Padre Torcato debita, por entre factos históricos, episódios fabulosos que remetem para tradições de origem obscura. As obras de Torcato, Carvalho ou Caldas ainda são objectos de inegável interesse para o estudo do nosso passado. Po­rém, devem ser encaradas, como aconselhava João de Meira, como frutos de uma credulidade extrema, recebendo sem re­flexão todas as lendas, ainda as mais fantasiosas.

Com a fundação da Sociedade Martins Sarmento e sob a inspiração do arqueólogo que lhe deu o nome, os estudos de História Local passaram a ser encarados como uma disciplina com preocupações científicas que não podia prescindir do rigor no tratamento crítico dos documentos com que trabalhava. O pioneiro dos estudos modernos da História de Gui­marães, João Gomes de Oliveira Guimarães, o Abade de Tagilde, dedicou-se à pesquisa, à decifração e à divulgação das nossas fontes históricas ao longo das três décadas que vão desde a criação da Revista de Guimarães, em 1884, até fim dos seus dias.

Da investigação perseverante e escrupulosa que desenvolveu nos arquivos e cartórios, resultou a construção de uma nova maneira de escrever a História de Guimarães que, entre muitas outras, abordou temáticas que só bastante tempo mais tarde se tornariam objecto das preocupações dos historiadores, como a história das epidemias ou do abastecimento de água.

A sua obra capital, os Vimaranis Monumenta Histórica, resultou de uma proposta aprovada pela Câmara Municipal de Guimarães em 6 de Abril de 1898, que pretendia reunir os documentos históricos vimaranenses, desde as eras mais remotas aos tempos actuais. A Câmara custearia a obra, de cuja execução foi encarregada a Sociedade Martins Sarmento. O trabalho seria assumido pelo Abade de Tagilde, que compilou e transcreveu os documentos que recolheu percorrendo, perscrutando e revolvendo arquivos públicos e particulares onde sabia e presumia existirem monumentos, que desde a Idade Média se referiam ao território vimaranense.

O primeiro volume dos Vimaranis Monumenta Historica veio a lume em 1908, reunindo 353 documentos referentes ao período que decorre entre os anos de 870 e 1380. Mas não seria o Abade de Tagilde, que faleceu em finais de 1912, a terminar a obra, nem o continuador que ele pretendia, João de Meira, que o seguiria no ano seguinte, aos 32 anos.

Há quase um século que se aguarda que se dê continuidade a esta obra fundamental da nossa historiografia, contribuindo para que, como escreveu João de Meira, não sejamos chamados de bárbaros, por ignorarmos a nossa história, nem sejamos objecto de mofa, por apresentá-la entretecida em lendas inaceitáveis.
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29 de julho de 2005

A Casa da Câmara e as duas caras (II)

Um dos traços distintivos da identidade vimaranense é a sua História. Guimarães é a terra onde os portugueses se reencontram com as suas raízes. Tem um passado de que a sua gente se orgulha e que não necessita de ser adornado com elementos espúrios que não a engrandecem. Vem isto a propósito de uma carta publicada na última edição deste jornal, na qual Barroso da Fonte (BF) dá conta da sua discordância fundamental em relação a três afirmações que constam do artigo sobre a Casa da Câmara e as duas caras que se publicou nesta rubrica.

Discorda de que seja recente a associação das duas caras ao episódio da conquista de Ceuta que terá envolvido as hostes de Guimarães, mas não demonstra o contrário. Ora, datando da década de 1980 a mais antiga notícia que conhecemos sobre tal assunto, não se poderá negar que seja recente, quando se refere a um facto ocorrido há quase 600 anos.

Discorda também da afirmação de que, na língua portuguesa, cara nunca foi sinónimo de frente de batalha. Mas, como os dicionários, nada diz sobre tal assunto.

Discorda, por fim, da ideia da falta de sustentação documental e de tradição historiográfica de tal associação, convocando em seu apoio a autoridade dos nossos mais conhecidos historiadores. Em vão, porque nenhum dos que cita explicou, uma vez que fosse, o significado da estátua das duas caras à luz do episódio de Ceuta.

Deveríamos ficar por aqui, já que no nosso texto não expressamos qualquer opinião sobre a querela de Ceuta e da servidão de Barcelos, assunto que não nos desperta o menor interesse. Mas, como BF sugere que teríamos uma responsabilidade acrescida no esclarecimento desta matéria, tentaremos não o defraudar. Vejamos então o que dizem os nossos mais conhecidos historiadores.

Torcato Peixoto de Azevedo foi o primeiro a aludir ao episódio de Ceuta como origem da tal servidão dos moradores de Barcelos. Escrevendo quase três séculos depois da conquista daquela praça marroquina, fala duma provisão régia de 1417 que nunca ninguém viu. Sem entrarmos em detalhes fastidiosos, diremos apenas que as suas Memórias Ressuscitadas não serão o melhor referencial de rigor histórico (até porque troca datas, como nota BF, que lhe troca as páginas).

Assim sendo, não valerá a pena perder tempo com o que o Padre Carvalho da Costa diz sobre este assunto na sua Corografia, onde se limita a plagiar o Padre Torcato.

O Padre Caldas, nos seus Apontamentos, também segue Torcato, acrescentando a tal sentença que, segundo BF, identifica dezenas de intervenientes, explica os factos, data-os e esclarece os deveres dos barcelenses para com os vimaranenses a partir da Provisão régia que se reporta ao comportamento na Tomada de Ceuta. Bastará ler o documento para ver não é assim: a sentença apenas identifica os dois réus do processo, nada explica sobre os factos que estarão na origem daquela servidão, não data nada (remete para um tempo imemorial) e nada diz de Ceuta, nem de Barcelos.

O que BF diz que o Abade de Tagilde escreveu sobre a matéria nos Vimaranis Monumenta Histórica é pura invenção. Nas páginas que indica (351/358) não se encontra nem sombra dos dados essenciais da Provisão régia que levou àquela servidão. Nem se poderia encontrar, já que a obra se ficou pelo ano de 1380.

É certo que João de Meira, num texto notável com publicação póstuma em 1921, dedica um breve parágrafo à história de Ceuta e da servidão de Barcelos. Mas é igualmente certo que a classifica como uma lenda.

Diz BF que José Augusto Vieira reafirma a versão consensual desta história. Leia-se o Minho Pitoresco e ver-se-á que, depois de descrever a suposta servidão barcelense, o autor a classifica como uma anedota inventada por Carvalho da Costa, a quem chama de patranheiro, dando por certo que tal fraqueza e tal castigo só existiram na cabeça do padre Carvalho, que deu ouvidos e acreditou nas patranhas.

Tem BF razão quanto ao que diz Frei Francisco Xavier Camelo, que afirma que foi o Duque D. Jaime quem, no século XVI, libertou a Vila de Barcelos da injuriosa servidão, transferindo-a para os moradores das freguesias de Cunha e Ruilhe, que terá desanexado de Barcelos para entregar a Guimarães. Porém, contrariando Frei Camelo, bastará compulsar os Vimaranis para arruinar este argumento, uma vez que aquelas freguesias já pertenciam a Guimarães pelo menos desde o século XIII.

É sabido que A. L. de Carvalho, no seu Guimarães em Ceuta, aduz argumentos em favor do episódio de Ceuta e da servidão de Barcelos a Guimarães, que não terão sido suficientes para demolir as reservas que o insuspeito medievalista vimaranense Alfredo Pimenta lhe levantou, chamando-lhe história da carochinha. Nesse livro é referido um autor, que BF ignora, cuja obra poderá ajudar a iluminar esta questão. É Mestre António, cirurgião, autor de uma monografia de Guimarães datada de 1512, que conta que os habitantes de Cunha e Ruilhe se tornaram tributários da vila de Guimarães por terem fugido das guerras doutras partes. Ou seja, o tributo da vassoura não lhes foi transmitido por Barcelos.

Conclusão: não há evidência histórica do que se diz ter acontecido em Ceuta com as hostes de Barcelos e de Guimarães, nem da servidão dos barcelenses, nem de que Cunha e Ruilhe tenham herdado tal servidão. Mas sabe-se que estas freguesias já eram de Guimarães antes da conquista de Ceuta. E que a estátua da Casa da Câmara nada tem a ver com isto. Até que se demonstre o contrário.
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15 de julho de 2005

A Casa da Câmara e as duas caras


No ano de 1516, as gentes da governança de Guimarães enviaram ao rei uma petição suplicando meios para construir uma nova casa do Concelho. A resposta de D. Manuel I veio por um alvará de 27 de Agosto daquele ano. Na Praça Maior, ao lado da sede do poder religioso, a Colegiada, instalou-se o poder político de Guimarães.

As marcas manuelinas ainda persistem nos elementos decorativos do edifício, apesar das alterações que sofreu ao longo do tempo. A estrutura da Casa da Câmara é singela, com o espaço fechado limitado ao piso superior e sustentado pela arcaria ogival que franqueia a passagem entre a Praça da Oliveira e a antiga Praça do Peixe (S. Tiago). Tem planta rectangular, com duas salas cobertas por tectos abaulados de madeira pintada.

Segundo uma descrição de 1612, existia, na sala voltada para nascente, uma capela metida na parede onde, junto a um quadro que representa o Espírito Santo (actualmente depositado no Museu Alberto Sampaio), se dizia missa antes das vereações, às quartas-feiras e aos sábados.

A Sala de Audiências, no lado poente, tinha uma mesa destinada aos oficiais da Justiça e ao redor das paredes assentos de pau com seus encostos lavrados e no meio umas grades para não entrarem delas para dentro. Do lado voltado para a Praça de S. Tiago, estava colocada, em plano elevado, a mesa de audiência dos julgadores.

Em 1606, foi assentado no topo da fachada principal o sino de correr da Vila, trazido do Castelo, que servia para chamar para vereações e audiências. Ao lado da sineira, estava um magnífico relógio de sol, em granito fino. Meio século depois, no cunhal da esquina da rua dos Açoutados, foi embutida, por ordem de D. João IV, uma pedra com uma inscrição em honra da Imaculada Conceição, padroeira de Portugal

Por diversas vezes, a Casa da Câmara ameaçou ruína. Outras tantas foi restaurada. Segundo o Padre Caldas, numa das intervenções do século XVIII fizeram-lhe janelas segundo o gosto moderno, que foram coroadas com os escudos reais e as esferas armilares que até aí estavam cravados no liso da parede, por baixo das ameias.

Em 1877, a Casa da Câmara teve nova reforma, que deixou marcas na fachada. A sineira e o relógio foram apeados, o reboco da parede foi removido, ficando a parede em pedra nua, e foram alteradas as posições das esferas e dos escudos sobrepostos às janelas. Na platibanda de onde desceu o sino, foi colocada a estátua de um guerreiro trazida da antiga Casa da Alfândega. Segundo a tradição popular, esse guerreiro seria o Guimarães, outorgando-lhe a condição de símbolo epónimo da cidade. Tem um rosto esculpido sobre o ventre, sendo associado à tradição das duas caras, de feição pejorativa, que se refere a uma suposta duplicidade de carácter das gentes de Guimarães.

Há uma outra interpretação das duas caras de Guimarães, com origem recente, que remete para o seguinte episódio da conquista de Ceuta: tomada aquela praça marroquina, D. João I repartiu a defesa dos diferentes troços da sua muralha pelas terras que o acompanharam na conquista. Como os de Barcelos se puseram em retirada perante a arremetida dos mouros, deixando desguarnecida a estância que lhes cabia defender, foram os de Guimarães que se desdobraram, cumprindo, com sucesso, a sua missão e a dos de Barcelos. As caras da estátua representariam as duas frentes (caras) que os vimaranenses terão defendido em Ceuta. Esta versão, sem suporte documental nem tradição historiográfica, não tem sustentação. Além do mais, na nossa língua, cara nunca foi sinónimo de frente de batalha…

A realidade é que não se encontra fundamento para a identificação da estátua com Guimarães: não existe nenhum documento que se lhe refira. Aquela figura nada tem a ver com a iconografia vimaranense. É apenas a representação de um guerreiro que enverga uma armadura ornamentada com uma carranca, sobre a qual algum dia se inventou um chiste que ganhou foros de tradição.
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1 de julho de 2005

As Memórias de Torcato

Cada geração se projecta no futuro com a identidade que busca no passado. É essa a razão pela qual a História se reescreve em cada tempo e carrega as marcas da circunstância em que foi passada ao papel. É assim, em especial, na chamada história local, que é o meio de comunicação de cada terra com o seu passado. É por isso que os livros de História são, eles mesmos, interessantes objectos de estudo para historiadores.

Guimarães, com a sua ligação umbilical à História, que preenche parte substancial da sua matriz identitária, possui obras historiográficas particularmente emblemáticas. De todas, a que mais se destaca é a monografia sobre Guimarães e a sua história do Padre Torcato Peixoto de Azevedo.

Torcato Peixoto de Azevedo nasceu em Guimarães, no dia 2 de Março de 1622. Era filho de João Rebelo Leite, sargento-mor, e de Isabel Peixoto de Azevedo. Presbítero secular, especialista em genealogia, terá deixado trinta e cinco volumes manuscritos sobre a vida de reis de Portugal e Castela, dos duques de Bragança e de Lorena, das casas reais de Castela e da Áustria e sobre as genealogias de famílias portuguesas. Deixou também as Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães, onde tratou desta terra que afirma erguer-se no meio de tão excelente província de Entre-Douro-e-Minho, como pedra preciosa desta jóia, esmaltada de excelências.

O volume das Memórias do Padre Torcato estendem-se por 142 capítulos, o primeiro dos quais trata da primeira repartição do mundo, e limites da Europa. Seguindo a tradição da historiografia da sua época, iniciou a história de Guimarães pela origem do mundo, nos confins dos tempos, seguindo do universal para o local: começando pelo mundo, segue pela Europa, atravessa a Península Ibérica, chega a Portugal, avança sobre o Entre-Douro-e-Minho, para vir dar a Guimarães quando a obra já vai no seu capítulo 43.º, no qual fala da cidade de Briteiros, e seus bispos e sua destruição.

O que escreve a partir do capítulo 45.º (Da Fundação da Vila de Guimarães) tornou-se, nos séculos seguintes, na principal fonte de tudo quanto se publicou sobre Guimarães e a sua história. Assim sucede na célebre Corografia do Padre Carvalho da Costa, na parte que dedica a Guimarães, onde se transcreve quase literalmente aquilo que o Padre Torcato havia escrito algumas décadas antes.

Na apresentação que faz da obra, o Padre Torcato anuncia o programa que se propõe: decantar, em agradável estilo, as primeiras notícias da nossa antiga Araduca, e fundação da nova Guimarães, e sua igreja catedral real, e como ela foi colocada à Virgem Santa Maria, e o motivo que houve para lhe darem o título de Oliveira; medindo sua grandeza, contando seus vizinhos, enumerando as freguesias de seu termo, concelhos, e coutos, e honras de suas comarcas; edifícios, mosteiros, capelas, rios, pontes e fontes suas vizinhas; morgados e casas de seus nobres povoadores, privilégios, isenções e liberdades com que foram honrados de seus pais; caos e sucessos que na sua defesa, e do reino, sucederam.

Como todas as obras humanas, as Memórias do Padre Torcato ostentam as marcas do seu tempo. Apesar disso, continuam a ser uma fonte incontornável para o conhecimento de Guimarães e da sua história.

Torcato Peixoto de Azevedo faleceu há precisamente três séculos, em 23 de Junho de 1705. As suas Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães aguardariam ainda 140 anos até à sua publicação. Dessa edição foi retirada recentemente uma versão fac-similada, publicada por Paulo Dias de Castro. O manuscrito, que se guarda na Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento com outras obras do Padre Torcato, aguarda que dele seja feita uma publicação que corrija os erros de transcrição existentes na edição de 1845.
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19 de junho de 2005

Daqui nasceu Portugal

O 24 de Junho está envolvido pelo fascínio dos actos fundadores, como resultado da sua associação identitária com os fundamentos da independência de Portugal. É inegável que existe uma vinculação simbólica com a matriz original da nacionalidade portuguesa que, para o bem e para o mal, é sistematicamente convocada para explicar o presente.

A data e o local do acto fundador da nacionalidade portuguesa não são consensuais. A maior parte das opiniões dos especialistas distribuem-se por três momentos: 1128 (Batalha de São Mamede), 1139 (Batalha de Ourique e subsequente proclamação de Afonso Henriques como rei de Portugal), 1179 (Bula Manifestis Probatum, que consagra o reconhecimento da independência de Portugal pelo Papa).

Durante largo tempo, o 24 de Junho de 1128 foi ignorado na nossa historiografia, sendo atribuída a primazia à Batalha de Ourique, data mais conveniente à ideia da determinação divina da acção de Afonso Henriques, por força do milagre que a terá antecedido. Negada por Alexandre Herculano, a quem se deve a recusa da intervenção do sobrenatural na construção da nacionalidade portuguesa e o reconhecimento de São Mamede como o seu momento fundador, esta ideia presidiu ao espírito das Comemorações Centenárias de 1940, que evocaram, no quadro do ambiente ideológico de acentuado fervor nacionalista que caracterizou o Estado Novo, três momentos fundadores da nação: 1140, 1640 e 1940.

Situando-se a nossa fundação algures nos tempos obscuros da Idade Média, está envolvida por uma teia de interrogações que encontram resposta, mais do que no território das certezas rigorosamente documentadas pela investigação histórica, no quadro dos mitos e das representações simbólicas que emanam do imaginário colectivo. A memória popular e a tradição nacionalista de sacralização do passado, onde só há espaço para a gesta gloriosa e se omitem os reveses e as derrotas, contribuíram para dar foros de verdade a histórias que a História não acolhe. É assim com os diferentes retratos que se traçam da figura de Afonso Henriques, que é representado ora como um santo predestinado, ora como um herói guerreiro, ora quase como um facínora, ora como tudo isso ao mesmo tempo.

Está demonstrada a persistência de um perfil de Afonso Henriques construído pelos inimigos e detractores que granjeou, muitas vezes inadvertidamente transmitido pelos seus paladinos mais inflamados, que assenta num conjunto de supostos acontecimentos que nunca tiveram comprovação factual.

Eis alguns exemplos: Afonso Henriques teria sido derrotado na batalha de São Mamede (quem a teria ganho seria Soeiro Mendes, que lhe terá surgido ao caminho com auxílio, quando já fugia); teria mandado prender a própria mãe no Castelo de Lanhoso, calcando os seus deveres filiais mais sagrados; teria destituído D. Bernardo, Bispo de Coimbra, como represália pela excomunhão a que o teria condenado por se recusar a libertar D. Teresa, colocando no seu lugar o famigerado Bispo Negro, que nunca existiu; teria conduzido Egas Moniz ao acto de humilhação perante o rei de Leão, por ter faltado à sua palavra. A verdade é que não há nenhuma demonstração de que qualquer destes factos tenha mesmo acontecido.

Ao mesmo tempo, a marca do dedo de Deus na acção de Afonso Henriques, erigido em instrumento da vontade divina, largamente difundida pela historiografia oficial, que afirmava a santidade do nosso primeiro rei, foi também absorvida pelo nosso imaginário colectivo.

A batalha de São Mamede, com tudo o que representa para a afirmação da nacionalidade, é o resultado da reacção colectiva de grande parte da nobreza do Minho, que se sentiu lesada nos seus interesses pela retirada, por parte de D. Teresa, da confiança no exercício dos cargos administrativos do condado portucalense, que estavam nas suas mãos havia mais de um século, em favor de um estranho (o galego Fernando Peres de Trava), escolhendo para seu chefe aquele que melhor poderia assegurar a sua autonomia. Assim, se não foi instrumento de Deus, Afonso Henriques começou por ser o instrumento da vontade política da velha nobreza minhota.

São Mamede é, inegavelmente, o momento fundador da nacionalidade portuguesa, que se consolidou com o transcurso do tempo. Do ponto de vista da afirmação política e da representação simbólica, assinala a circunstância em que Portugal começa a afirmar a sua autonomia, iniciando um percurso que passará por muitos outros acontecimentos, em diferentes momentos e lugares e que se completará com a demarcação definitiva das suas fronteiras e a sua sustentação perante as pretensões hegemónicas do vizinho peninsular. 1140, 1179, 1385, 1640 são datas que também fazem parte da cronologia da afirmação da independência de Portugal, mas só aconteceram porque houve São Mamede.

Muito se tem discutido sobre a insígnia que Guimarães acrescentou ao seu nome: Aqui nasceu Portugal, que outras terras também reivindicam para si. Portugal nasceu em Portugal, mas nasceu a partir de Guimarães, em 24 de Junho de 1128.

Daqui nasceu Portugal.

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17 de junho de 2005

O Túmulo dos Pinheiros

A actual torre sineira da Igreja da Colegiada da Oliveira data dos primeiros anos do século XVI. Foi mandada construir pelo Dr. Pedro Esteves Cogominho, ouvidor do Duque de Bragança, em substituição da que tinha sido erigida a mando de D. João I. Mas não completou a obra. Quando a morte o levou, só um terço da torre estava levantado, pelo que foi o seu filho D. Diogo Pinheiro, Prior de Guimarães, comendatário de diversos mosteiros e futuro Bispo do Funchal, que se encarregou de a concluir. É dele o brasão de armas que encima a magnífica janela manuelina que foi rasgada na torre, representando um pinheiro e um leão associados ao chapéu e aos cordões característicos das insígnias eclesiásticas.

A torre reparte-se por três andares, cuja separação é marcada por frisos lavrados na fachada exterior, onde se destacam duas gárgulas zoomórficas, uma delas particularmente célebre em razão da sua disposição obscena.

É no piso inferior da torre que se abriga a capela dos Pinheiros onde, sob uma abóbada de nervuras, se encontram as sepulturas dos instituidores. São dois túmulos gémeos, talhados em pedra de Ançã e resguardados por grades, que suportam as estátuas jacentes de Pedro Esteves e da sua mulher Isabel Pinheiro. À cabeceira, foi posta uma representação da Senhora da Piedade. No interior da capela, sobressai também uma moldura de janela de excelente labor. Por ali terão andado, certamente, mãos de mestres franceses e ingleses.

Numa das paredes da capela, abrigados no interior de arcos góticos, estão depositados mais dois pequenos sarcófagos, provavelmente dos pais de Isabel Pinheiro. No chão, é também visível uma campa rasa. Todas as sepulturas da capela ostentam as insígnias dos Pinheiros que, segundo o Padre Carvalho da Costa, foram tronco ilustre das melhores casas deste reino.

Os túmulos dos pais de D. Diogo Pinheiro, notáveis a vários títulos, assumem particular relevância para o estudo da indumentária da época de transição do século XV para o XVI. As estátuas das sepulturas dos Pinheiros, em tamanho natural, estão revestidas com os trajos de gala que então se usavam. É este pormenor que as torna extraordinárias, já que, em Portugal, as estátuas tumulares, mesmo as de pessoas que não pertenciam ao clero, eram, por regra, representadas envergando hábitos eclesiásticos, que nada dizem sobre a moda do tempo.

Há muito que este monumento se encontra em estado de decomposição, num processo que resulta da natureza frágil da pedra calcária de que é feito conjugada com a exposição a condições de humidade nefastas. Recorde-se que, durante séculos, a torre da Colegiada serviu de encosto a um tanque fontanário de três bicas que oferecia água da Penha às gentes de Guimarães.

A preocupação com a sua conservação é antiga. No início de 1881, Francisco Martins Sarmento trouxe a Guimarães, a pedido de Cabido, três delegados do Centro Artístico Portuense (Tomás Soller, Soares dos Reis e Marques de Oliveira) para observarem a capela e o túmulos dos Pinheiros e para se pronunciarem acerca dos procedimentos mais adequados para estancar o processo de deterioração. Na altura, o grupo de especialistas também observou e deu opinião sobre a antiga imagem de Nossa Senhora da Oliveira (que tinha sido salva de destruição por João Lopes de Faria), os arcos do claustro de S. Domingos, a imagem de Santa Margarida encontrada numa parede da capela de S. Miguel do Castelo durante as operações de restauro que foram orientadas por Martins Sarmento e uma outra figura cravada na parede do adro da capela de S. Tiago.

Tanto quanto se sabe, as opiniões e conselhos dos homens do Centro Artístico do Porto não produziram qualquer resultado. Até hoje, não foi aplicada qualquer solução capaz de reverter o processo que está a consumir e a transformar em pó uma das memórias mais notáveis de Guimarães.
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27 de maio de 2005

O Chafariz do Toural

Uma das maiores riquezas de Guimarães é a água que brota das encostas da Penha, com a qual se sustentou durante largos séculos. Indispensável para a alimentação e para a higiene (embora não tanto para o asseio corporal que, nos tempos antigos praticamente se reduzia a manter limpas as partes do corpo que se apresentavam à vista — as mãos e o rosto…), o abastecimento de água foi, desde sempre, sorvedouro de parte substancial do erário do Município.

Construído em finais de quinhentos, o encanamento da água para a vila foi pago por um imposto lançado sobre a venda de vinho verde, azeite, carne e peixe na vila de Guimarães, autorizado por uma provisão régia de 1585. A água seria conduzida desde as nascentes da Piolhosa e da Presa do Monte até ao Toural, onde foi erigido um belo chafariz de traça maneirista, obra do mestre pedreiro e imaginário Gonçalo Lopes, cujo nome também está ligado à construção da Igreja da Misericórdia.

É do Padre Torcato Peixoto de Azevedo a descrição que, no século XVII, nos foi dada do famoso chafariz que esteve no Toural durante trezentos anos e cuja memória se liga com a das festas Nicolinas:

“Tem esta Praça entre si e as casas que a cercam da parte do Sul, um chafariz de seis bicas, que correm de taças de pedra bem lavradas, e tem no alto uma esfera de bronze dourada, e ao pé dela um escudo com as armas de Portugal e, nas costas deste, outro com uma Águia negra coroada de ouro, com um letreiro aos pés que diz: Anno de 1588. É este chafariz todo cercado de assentos de pedra para se recrearem os que ali vão.”

Durante os meses de Verão, o chafariz do Toural era ponto de encontro e de convívio da gente nobre da vila. A Câmara ia zelando para que a sua água não fosse desviada e se mantivesse limpa. Em 1605, proibiu que se lavasse ali “sangue, hortaliça, panos, nem outra coisa, com pena de dois mil réis pagos da cadeia para acusador e cativos”. Em 1628, reforçou a proibição de se lavar ali roupa.

O chafariz do Toural tem por base um tanque circular, em cujo centro se ergue uma coluna ornamentada. Tem duas taças redondas. A primeira com seis bicas que brotam de carrancas; a segunda, mais pequena, com quatro bicas jorrando de cabeças de anjos. Acima da segunda taça, a coluna suporta uma esfera de pedra com quatro carrancas e outras tantas bicas. É encimada por duas águias de asas abertas, entre as quais se podem ver, de um dos lados, as armas reais de Portugal, e, do outro, as armas de Guimarães (uma representação da Virgem Maria segurando o Menino, com uma oliveira à sua direita). No remate, ostenta uma esfera armilar e uma cruz, em metal. Em 1809, no tempo das Invasões Francesas, os escudetes das armas reais do corpo superior do chafariz foram picados (os que lá se podem ver agora foram cravados posteriormente).

O chafariz do Toural começou a ser desmontado no silêncio da noite de 26 de Outubro de 1865, guardando-se na Praça do Mercado as suas pedras lavradas. A demolição só seria concluída em meados de Junho de 1874, no âmbito da renovação daquela praça que fez surgir um jardim cercado de grades, um coreto para a música e um marco fontanário em mármore branco.

Em 1891, o chafariz foi reimplantado em terreno fronteiro à Igreja do Carmo.

É ali, no topo do jardim do Largo Martins Sarmento, que espera pelo dia em que regressará ao Toural.
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13 de maio de 2005

A Oliveira

A oliveira faz parte da iconografia vimaranense, estando presente nas suas tradições e no seu imaginário. Está presente no brasão da cidade e dá o nome à sua praça mais emblemática, à Colegiada e à própria Santa Maria.

Conta-se que a oliveira de Guimarães teria vindo, no início do século XIV, do antigo mosteiro de S. Torcato, onde produzia azeite para a lâmpada do santo. Plantada na Praça Maior, junto à Colegiada, acabaria por secar. Aí se conservou várias décadas, sem sinais de vida. A tradição atribui-lhe inúmeros milagres, incluindo o do seu próprio renascimento.

Em 1342, o negociante Pero Esteves mandou colocar na praça uma cruz trazida da Normandia (a do Padrão de Nossa Senhora da Vitória), que foi implantada ao lado da oliveira ressequida. Não passariam três dias sem que a oliveira começasse a enverdecer e a deitar ramos. Era o primeiro milagre, dos muitos que se sucederiam nos meses seguintes: três mudos começaram a falar, um surdo voltou a ouvir, vinte e três cegos puderam ver, quatro paralíticos mexeram mãos e braços, onze endemoninhados viram-se livres das possessões que os atormentavam.

Aqueles eram tempos difíceis, frequentemente assolados pela fome, pela peste e pela guerra. Correu mundo a fama da oliveira através da qual Santa Maria operava milagres. A Senhora da Oliveira passou a ser objecto de devoção de gente humilde e de poderosos. Os próprios reis se fizeram seus devotos.

Não será hoje muito relevante o facto de, à luz da História e das tradições, subsistirem fundadas dúvidas acerca das memórias que envolvem a oliveira de Guimarães. Não é seguro que a Senhora tivesse tomado dela o nome, uma vez que também se conta que a imagem de madeira da Senhora da Oliveira teria sido, originalmente, uma representação de Ceres, deusa romana que teria um templo numa praça de Guimarães. S. Tiago cristianizou-a sob o nome de Santa Maria de Guimarães (a tal praça é a que hoje tem o nome daquele apóstolo). Quando, no século V, os suevos invadiram a Galiza, a imagem terá sido enterrada no Monte da Oliveira (ou das Oliveiras). Descoberta no tempo de Mumadona, passaria a ser conhecida pelo título de Senhora da Oliveira, que lhe veio do local onde esteve escondida.

Os documentos também não confirmam a sua velhice. Na década de 1820, secou, por obra dos vizinhos, que se queixavam dos incómodos causados por árvore tão frondosa nas imediações das suas casas. Tendo aparecido tombada no chão, foi novamente plantada. Desta vez, não houve milagre. Uma nova oliveira tomou o seu lugar em 1824.

No Outono de 1869, a Câmara Municipal decidiu que a Oliveira deveria ser removida para um ponto da praça onde não perturbasse o trânsito. O Cabido da Colegiada foi consultado sobre a ideia de a levar para o espaço entre o Passo do Postigo da Guia e a parede do claustro encostada à Capela de S. Brás. O assunto levantou acesa discussão na cidade. Na madrugada de 17 de Janeiro de 1872, a oliveira foi serrada e o polígono de pedra que a cercava foi demolido (o mestre pedreiro que dirigiu esta operação viria a falecer alguns dias depois, sendo a causa da morte atribuída pelo povo a castigo da Senhora da Oliveira).

Em finais de 1875, a Câmara levou a hasta pública o que restava da oliveira e da grade que a rodeara. O arrematante colocou-a no tanque que estava encostado à torre da Colegiada, na esperança de que reverdejasse. Mais uma vez, não houve milagre.

Durante mais de um século, faltaria a oliveira na praça que lhe tomou o nome. A requalificação da Praça da Oliveira, no âmbito do processo de recuperação do Centro Histórico, permitiu que a cidade se reencontrasse com um dos seus símbolos.

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29 de abril de 2005

O Castelo de Guimarães

Ícone de Guimarães e do alvorecer da nacionalidade portuguesa, o Castelo de S. Mamede foi mandado construir pela Condessa Mumadona Dias na segunda metade do século X, para resguardo dos religiosos do mosteiro que instituiu no local onde hoje está a Colegiada da Oliveira. Por um documento de 4 de Dezembro de 968, sabe-se que Mumadona fez doação do Castelo ao mosteiro, para que os frades e as freiras se pudessem nele abrigar de eventuais incursões dos mouros.

A partir de finais do século XI, foi residência ao Conde D. Henrique, que o remodelou e ampliou. Foi aí que Afonso Henriques passou a sua infância e juventude. Fez parte do cenário conspirativo da insubordinação que levaria o Condado à independência.

Na viragem do século XIII para o XIV, foi objecto da remodelação ordenada por D. Dinis, que lhe deu o essencial da configuração que hoje apresenta.

Morada do alcaide-mor de Guimarães e prisão para os infractores da vila, a partir de 1663 serviu também de armazém da palha do rei.

Nem sempre houve o melhor cuidado na sua preservação. Já em 1653, nos capítulos que Guimarães apresentou às Cortes, se pediu ao rei que mandasse acudir ao Castelo, à custa das rendas do alcaide-mor, por estar “arruinado e se se lhe não acudir se arruinará de todo em prejuízo grande da vila”.

Ao longo dos tempos, os muros que rodeavam a vila de Guimarães e as torres que guardavam as suas portas foram sendo demolidos para utilizar a sua pedra nas calçadas e em novas edificações. No final do século XVIII, a degradação da muralha era de tal ordem que foi declarada a sua inutilidade.

Para além do nascimento da Nação, o Castelo de Guimarães testemunhou boa parte dos momentos mais dramáticos da história portuguesa. Em 1369, resistiu vitorioso ao cerco das tropas de Henrique II de Castela. Em 1383, sendo o alcaide partidário de D. Beatriz, foi cercado por D. João I. Em 1580, esteve ao lado de D. António, Prior do Crato. Durante o consulado de D. Miguel, serviu de prisão para os opositores ao miguelismo.

Em Janeiro de 1836, um dos membros da Sociedade Patriótica Vimaranense, entidade que assumira o governo de Guimarães, propôs que se demolisse o Castelo para usar a sua pedra nas calçadas, “por ser uma cadeia bárbara que serviu no tempo da usurpação”. O assunto levantou acesa discussão, mas a proposta acabou rejeitada, com quatro votos a favor e quinze contra.

Abandonada a ideia da conversão do castelo em empedrado das calçadas, passaram a prevalecer as preocupações com a preservação do velho monumento. Em 1839, a Câmara alertou a Rainha para a necessidade de cuidar da sua conservação. Em 1889, Joaquim José de Meira propôs à Câmara que se organizasse um projecto de melhoramentos em volta do Castelo. Em 1910, foi classificado como Monumento Nacional. Em 1916, o governo autorizou a Câmara a contrair um empréstimo para, entre outros projectos, arranjar o parque circundante das ruínas do Castelo e do Paço dos Duques.

Em 1936 iniciaram-se as obras de restauro do Castelo, que seriam inauguradas em 4 de Junho de 1940. O arranjo do espaço envolvente contribuiu para realçar a monumentalidade do Castelo da Fundação, ao mesmo tempo que lhe retirou boa parte da vida que lhe vinha do bulício das gentes que, durante séculos, povoaram as ruas que foram arrasadas para abrir espaço para o novo parque.
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15 de abril de 2005

A Pedra Formosa

A Pedra Formosa é o ex-libris da cultura castreja. Trata-se de um monumento singular, baptizado pelo povo há vários séculos por causa da beleza da sua ornamentação, sendo um dos achados arqueológicos mais estudados. Ao longo de muitas décadas, o mistério que a envolvia alimentou aceso debate entre os especialistas acerca da sua natureza e função.

A Pedra Formosa é um monólito de granito lavrado há uns três mil anos, com quase três metros de largura e mais de dois de altura. Apesar das suas dimensões e peso, calculado em mais de cinco toneladas, já foi objecto de várias trasladações. Segundo a tradição, a primeira ocorreu quando foi levada à cabeça, desde o alto da Citânia até ao adro da Igreja de Santo Estêvão de Briteiros, por uma moura fiandeira.

Os livros contam uma história diferente.

A mais antiga referência à Pedra Formosa encontra-se numa obra de Francisco Xavier da Serra Craesbeck, que, escrevendo em 1723, conta que estaria originalmente no alto da Citânia, da parte Nascente, colocada em posição vertical. Como “pelo discurso do tempo caiu a dita pedra formosa no chão”, o abade de Santo Estêvão de Briteiros, Inácio de Carvalho, fez com que fosse levada, por sete juntas de bois, para perto do Rio Ave. Em Março de 1718, onze juntas de bois transportaram-na para o adro da igreja de Santo Estêvão de Briteiros, onde ficou “com o lavor para cima, posta sobre umas pedras altas”. Foi nesse local que Martins Sarmento a encontrou, providenciando, em 1876, o seu retorno à Citânia, onde foi colocada no interior de uma casa por ele reconstruída. Para subir o monte foram necessárias 24 juntas de bois. Em 1897, deu entrada no Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, em Guimarães, sendo exposta no centro do Claustro de S. Domingos, em posição horizontal (uma câmara escavada no solo permitia descer para observar a parte posterior do monumento). Mais tarde, foi posta ao alto na galeria do Claustro. Em 24 de Setembro de 2003 regressou a Briteiros.

Quando, em 1930, Mário Cardozo descobriu na Citânia de Briteiros uma segunda Pedra Formosa, ficou a conhecer-se o tipo de edificação a que pertencia, mas aumentou a controvérsia em relação à respectiva função: forno crematório (ou de cozer pão, ou barro, ou fundir metais), matadouro de animais, santuário?

No último quartel do século XX, o enigma foi resolvido pelos arqueólogos. A Pedra Formosa fazia parte da estrutura de um balneário composto por três espaços distintos: átrio com um tanque onde caía a água corrente, destinado a banhos frios, antecâmara de transição e câmara para banhos de vapor, tipo sauna. O vapor era produzido lançando água sobre seixos previamente sobreaquecidos num forno adjacente a esta última câmara. A Pedra Formosa erguia-se entre a antecâmara e o espaço da sauna, permitindo o acesso através da pequena abertura semicircular situada na sua base, concebida de modo a evitar a fuga de calor, mas suficiente para permitir a passagem de uma pessoa.

As pedras formosas são, pela sua importância material e simbólica, os tesouros mais valiosos que os arqueólogos podem achar nas ruínas dos velhos castros, constituindo uma das produções mais marcantes da arte de lavrar a pedra associada à cultura castreja. Hoje, já se conhecem umas quantas. Mas aquela de que aqui se falou continua a ser ‘a’ Pedra Formosa: a maior, a mais bela, a que precedeu e deu o nome a todas as outras.

Pode ser admirada no Museu da Cultura Castreja, em S. Salvador de Briteiros.

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