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A mostrar mensagens de 2005

S. Miguel do Castelo

A igreja de S. Miguel do Castelo tem um grande peso simbólico nas tradições vima­ranenses, estando associada aos fundamentos da nacionalidade portuguesa. Reza a tradição que terá sido naquele pequeno templo que o Arcebispo D. Geraldo baptizou o primogénito dos condes Henrique e Teresa, que a si próprio se viria a investir no cargo de primeiro rei de Portugal.

Antiga paroquial da vila velha de Guimarães, é uma igreja românica que está implantada no espaço da velha cerca baixa do Castelo. O seu principal traço é a austeridade-cons­trutiva e decorativa. Tem nave longitudinal, terminando numa capela-mor rectangular. O portal principal, de tímpano liso, abre-se sob duas arquivoltas de arco quebrado. O remate da empena ostenta uma cruz trilobada. Em cada uma das fachadas laterais, rematadas por cornijas simples, foi aberta uma porta. Uma delas está enquadrada, do lado exterior, por dois arcosólios (túmulos implantados na parede). No interior, do lado esquerdo junto ã entrada, está uma pia ba…

O Românico (II): As Igrejas em Espaço Rural

O termo românico surgiu no final do primeiro quartel do século XIX para designar a arte nascida na Europa durante a Alta Idade Média, por analogia com o processo que levou ao surgimento das línguas latinas (o romanço ou romance). A sua principal expressão foi a arquitectura. O seu edifício mais característico é a igreja. As soluções que desenvolveu permitiram construções maciças e articuladas, recorrendo a paredes robustas, a arcos de volta perfeita e a estruturas curvas para as coberturas. Tendo adaptado os materiais, a mão-de-obra e as tradições construtivas locais, apresenta uma grande variedade de soluções regionais. A sua expansão está associada ao processo de penetração da Igreja no Ocidente: a partir do século XI, o mundo cobria-se por toda a parte com um manto branco de igrejas. Também se cobriu o Baixo Minho, onde esta arquitectura terá irradiado a partir da Sé de Braga, um dos mais importantes monumentos românicos do Noroeste Peninsular.

No meio rural de Guimarães identificam…

O Românico (I): As Pontes

Da arquitectura medieval, o que melhor conhecemos são as construções de carácter religioso (mosteiros, igrejas, capelas), particularmente notáveis pelas suas técnicas construtivas e pela riqueza da sua gramática decorativa. No que se refere à arquitectura civil e militar medieval, os exemplares mais conhecidos, os castelos, são construções em geral muito pobres, quando comparadas com os edifícios religiosos. O mesmo não se dirá das pontes.

Na Idade Média, a reparação e conservação das calçadas e a construção de pontes encontravam-se entre as obras de piedade, sendo frequentemente objecto de legados nos testamentos de nobres e clérigos. As pontes, que transformavam a paisagem e estimulavam as ligações regionais, aproximando cidades e vilas, são particularmente exigentes no que respeita a processos construtivos. Geralmente mais estreitas do que as romanas, são mais robustas e dotadas de alicerces mais resistentes. Os seus traços mais característicos são os grandes arcos de volta perfeita…

Vila Flor: a sala de visitas de Guimarães

Tadeu Luís António Lopes de Carvalho Fonseca e Camões, nascido em Guimarães em 1692, era filho do fidalgo genealogista Gonçalo Lopes de Carvalho e de D. Guiomar Bernarda da Silva. Abundante de bens e de cultura, fidalgo da Casa Real, cavaleiro professo da Ordem de Cristo, familiar do Santo Ofício, senhor dos coutos de Abadim e Negrelos, foi membro da Academia Real de História Portuguesa, da Academia dos Infecundos e da Arcádia de Roma. Foi fundador e patrono da antiga Academia Problemática de Guimarães (a celebrada Academia Vimaranense, que se dedicava às coisas da literatura sob influência da estética barroca então vigente), sobre a qual publicou os dois volumes da obra Guimaraens Agradecido (1749). A casa fidalga que se ergue no Cavalinho, em Guimarães, conhecida como Palácio de Vila Flor, também é obra sua. A Casa do Cavalinho ostenta uma traça arquitectónica que concilia simplicidade com imponência. A sua fachada mais nobre, voltada a Norte, está implantada sobre jardins desenhado…

Vimaranis Monumenta Historica

Numa notável conferência que deixou inédita, que teria publicação póstuma em 1921, na Revista de Guimarães, João de Meira, o mais brilhante dos homens de letras da Guimarães do início do século XX, começava assim: não conhecermos a nossa própria história, diz um escritor moderno, é de bárbaros; conhecê-la, porém, viciada, tecida de burlas e de piedosas fraudes, é pior. Porque, no primeiro caso, com não sabermos quem somos, nem nos dizerem donde viemos, essa mesma ignorância obstará a que perpetremos muitos desconcertos; ao passo que, se laborarmos no vício de uma falsa informação, daremos muitas vezes, com a memória das fábulas que nos tiverem ensinado, razão sobeja e justificada para que se riam de nós.

A História Local de Guimarães tem longa tradição, com início em autores seiscentistas como André Afonso Peixoto ou Luís da Gama, de quem não se conhecem os escritos, ou Torcato Peixoto de Azevedo, cujas Memórias Ressuscitadas da Antiga Guimarães alimentaram as obras dos escritores que,…

A Casa da Câmara e as duas caras (II)

Um dos traços distintivos da identidade vimaranense é a sua História. Guimarães é a terra onde os portugueses se reencontram com as suas raízes. Tem um passado de que a sua gente se orgulha e que não necessita de ser adornado com elementos espúrios que não a engrandecem. Vem isto a propósito de uma carta publicada na última edição deste jornal, na qual Barroso da Fonte (BF) dá conta da sua discordância fundamental em relação a três afirmações que constam do artigo sobre a Casa da Câmara e as duas caras que se publicou nesta rubrica.

Discorda de que seja recente a associação das duas caras ao episódio da conquista de Ceuta que terá envolvido as hostes de Guimarães, mas não demonstra o contrário. Ora, datando da década de 1980 a mais antiga notícia que conhecemos sobre tal assunto, não se poderá negar que seja recente, quando se refere a um facto ocorrido há quase 600 anos.

Discorda também da afirmação de que, na língua portuguesa, cara nunca foi sinónimo de frente de batalha. Mas, como…

A Casa da Câmara e as duas caras

No ano de 1516, as gentes da governança de Guimarães enviaram ao rei uma petição suplicando meios para construir uma nova casa do Concelho. A resposta de D. Manuel I veio por um alvará de 27 de Agosto daquele ano. Na Praça Maior, ao lado da sede do poder religioso, a Colegiada, instalou-se o poder político de Guimarães.

As marcas manuelinas ainda persistem nos elementos decorativos do edifício, apesar das alterações que sofreu ao longo do tempo. A estrutura da Casa da Câmara é singela, com o espaço fechado limitado ao piso superior e sustentado pela arcaria ogival que franqueia a passagem entre a Praça da Oliveira e a antiga Praça do Peixe (S. Tiago). Tem planta rectangular, com duas salas cobertas por tectos abaulados de madeira pintada.

Segundo uma descrição de 1612, existia, na sala voltada para nascente, uma capela metida na parede onde, junto a um quadro que representa o Espírito Santo (actualmente depositado no Museu Alberto Sampaio), se dizia missa antes das vereações, às quart…

As Memórias de Torcato

Cada geração se projecta no futuro com a identidade que busca no passado. É essa a razão pela qual a História se reescreve em cada tempo e carrega as marcas da circunstância em que foi passada ao papel. É assim, em especial, na chamada história local, que é o meio de comunicação de cada terra com o seu passado. É por isso que os livros de História são, eles mesmos, interessantes objectos de estudo para historiadores.

Guimarães, com a sua ligação umbilical à História, que preenche parte substancial da sua matriz identitária, possui obras historiográficas particularmente emblemáticas. De todas, a que mais se destaca é a monografia sobre Guimarães e a sua história do Padre Torcato Peixoto de Azevedo.

Torcato Peixoto de Azevedo nasceu em Guimarães, no dia 2 de Março de 1622. Era filho de João Rebelo Leite, sargento-mor, e de Isabel Peixoto de Azevedo. Presbítero secular, especialista em genealogia, terá deixado trinta e cinco volumes manuscritos sobre a vida de reis de Portugal e Castela, d…

Daqui nasceu Portugal

O 24 de Junho está envolvido pelo fascínio dos actos fundadores, como resultado da sua associação identitária com os fundamentos da independência de Portugal. É inegável que existe uma vinculação simbólica com a matriz original da nacionalidade portuguesa que, para o bem e para o mal, é sistematicamente convocada para explicar o presente. A data e o local do acto fundador da nacionalidade portuguesa não são consensuais. A maior parte das opiniões dos especialistas distribuem-se por três momentos: 1128 (Batalha de São Mamede), 1139 (Batalha de Ourique e subsequente proclamação de Afonso Henriques como rei de Portugal), 1179 (Bula Manifestis Probatum, que consagra o reconhecimento da independência de Portugal pelo Papa). Durante largo tempo, o 24 de Junho de 1128 foi ignorado na nossa historiografia, sendo atribuída a primazia à Batalha de Ourique, data mais conveniente à ideia da determinação divina da acção de Afonso Henriques, por força do milagre que a terá antecedido. Negada por Ale…

O Túmulo dos Pinheiros

A actual torre sineira da Igreja da Colegiada da Oliveira data dos primeiros anos do século XVI. Foi mandada construir pelo Dr. Pedro Esteves Cogominho, ouvidor do Duque de Bragança, em substituição da que tinha sido erigida a mando de D. João I. Mas não completou a obra. Quando a morte o levou, só um terço da torre estava levantado, pelo que foi o seu filho D. Diogo Pinheiro, Prior de Guimarães, comendatário de diversos mosteiros e futuro Bispo do Funchal, que se encarregou de a concluir. É dele o brasão de armas que encima a magnífica janela manuelina que foi rasgada na torre, representando um pinheiro e um leão associados ao chapéu e aos cordões característicos das insígnias eclesiásticas.

A torre reparte-se por três andares, cuja separação é marcada por frisos lavrados na fachada exterior, onde se destacam duas gárgulas zoomórficas, uma delas particularmente célebre em razão da sua disposição obscena.

É no piso inferior da torre que se abriga a capela dos Pinheiros onde, sob uma abó…

O Chafariz do Toural

Uma das maiores riquezas de Guimarães é a água que brota das encostas da Penha, com a qual se sustentou durante largos séculos. Indispensável para a alimentação e para a higiene (embora não tanto para o asseio corporal que, nos tempos antigos praticamente se reduzia a manter limpas as partes do corpo que se apresentavam à vista — as mãos e o rosto…), o abastecimento de água foi, desde sempre, sorvedouro de parte substancial do erário do Município.

Construído em finais de quinhentos, o encanamento da água para a vila foi pago por um imposto lançado sobre a venda de vinho verde, azeite, carne e peixe na vila de Guimarães, autorizado por uma provisão régia de 1585. A água seria conduzida desde as nascentes da Piolhosa e da Presa do Monte até ao Toural, onde foi erigido um belo chafariz de traça maneirista, obra do mestre pedreiro e imaginário Gonçalo Lopes, cujo nome também está ligado à construção da Igreja da Misericórdia.

É do Padre Torcato Peixoto de Azevedo a descrição que, no século …

A Oliveira

A oliveira faz parte da iconografia vimaranense, estando presente nas suas tradições e no seu imaginário. Está presente no brasão da cidade e dá o nome à sua praça mais emblemática, à Colegiada e à própria Santa Maria.

Conta-se que a oliveira de Guimarães teria vindo, no início do século XIV, do antigo mosteiro de S. Torcato, onde produzia azeite para a lâmpada do santo. Plantada na Praça Maior, junto à Colegiada, acabaria por secar. Aí se conservou várias décadas, sem sinais de vida. A tradição atribui-lhe inúmeros milagres, incluindo o do seu próprio renascimento.

Em 1342, o negociante Pero Esteves mandou colocar na praça uma cruz trazida da Normandia (a do Padrão de Nossa Senhora da Vitória), que foi implantada ao lado da oliveira ressequida. Não passariam três dias sem que a oliveira começasse a enverdecer e a deitar ramos. Era o primeiro milagre, dos muitos que se sucederiam nos meses seguintes: três mudos começaram a falar, um surdo voltou a ouvir, vinte e três cegos puderam ver, …

O Castelo de Guimarães

Ícone de Guimarães e do alvorecer da nacionalidade portuguesa, o Castelo de S. Mamede foi mandado construir pela Condessa Mumadona Dias na segunda metade do século X, para resguardo dos religiosos do mosteiro que instituiu no local onde hoje está a Colegiada da Oliveira. Por um documento de 4 de Dezembro de 968, sabe-se que Mumadona fez doação do Castelo ao mosteiro, para que os frades e as freiras se pudessem nele abrigar de eventuais incursões dos mouros. A partir de finais do século XI, foi residência ao Conde D. Henrique, que o remodelou e ampliou. Foi aí que Afonso Henriques passou a sua infância e juventude. Fez parte do cenário conspirativo da insubordinação que levaria o Condado à independência. Na viragem do século XIII para o XIV, foi objecto da remodelação ordenada por D. Dinis, que lhe deu o essencial da configuração que hoje apresenta. Morada do alcaide-mor de Guimarães e prisão para os infractores da vila, a partir de 1663 serviu também de armazém da palha do rei. Nem sempre…

A Pedra Formosa

A Pedra Formosa é o ex-libris da cultura castreja. Trata-se de um monumento singular, baptizado pelo povo há vários séculos por causa da beleza da sua ornamentação, sendo um dos achados arqueológicos mais estudados. Ao longo de muitas décadas, o mistério que a envolvia alimentou aceso debate entre os especialistas acerca da sua natureza e função.A Pedra Formosa é um monólito de granito lavrado há uns três mil anos, com quase três metros de largura e mais de dois de altura. Apesar das suas dimensões e peso, calculado em mais de cinco toneladas, já foi objecto de várias trasladações. Segundo a tradição, a primeira ocorreu quando foi levada à cabeça, desde o alto da Citânia até ao adro da Igreja de Santo Estêvão de Briteiros, por uma moura fiandeira.Os livros contam uma história diferente.A mais antiga referência à Pedra Formosa encontra-se numa obra de Francisco Xavier da Serra Craesbeck, que, escrevendo em 1723, conta que estaria originalmente no alto da Citânia, da parte Nascente, col…